NÃO É UMA BRINCADEIRA DE CRIANÇA[1]

 

PRERNA KAPUR
Psicóloga de orientação psicanalítica em Delhi, Índia.| Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

 

Resumo: Neste artigo, a autora aborda os impactos do confinamento sobre seu trabalho clínico com crianças. Sem os objetos que circulam nos atendimentos presenciais, questiona-se sobre como seria possível dar continuidade aos atendimentos por plataforma de vídeo. Utiliza fragmentos de um caso clínico para pensar a presença do analista e como, para alguns sujeitos, áudio e vídeo podem servir como recurso para novas invenções e laços.

Palavras-chave: coronavírus; clínica; criança; atendimento on-line.

Abstract: In this article, the author addresses the impacts of the lockdown on her clinical work with children. Without the objects that circulate in the face-to-face sessions, she questions herself how it would be possible to continue the sessions through video plataform. She uses fragments of a clinical case to think about the analyst’s presence, and how, for some subjects, audio and video can be used as a tool for new inventions and forms of social bond.

Keywords: coronavirus, clinic, child, online sessions.

 


Imagem: Jayme Reis

 

Durante o período de confinamento, meu trabalho com crianças foi o mais afetado. As escolas tomaram medidas preventivas algum tempo antes da proibição do governo. Sem que as crianças fossem informadas adequadamente, separamo-nos fisicamente por um período incerto de tempo.

Na prática privada, os pais desempenharam um papel importante ao decidir se seus filhos poderiam ou não continuar os atendimentos por meio de uma plataforma de vídeo.

Pessoalmente, cruzei os dedos para que ninguém fizesse tal demanda, pois nunca tinha trabalhado on-line com crianças e previa que seríamos sobrecarregados sem objetos como brinquedos, jogos, trabalhos artísticos, livros etc. circulando entre nós.

No entanto, senti-me pressionada a continuar os atendimentos com uma menina cujos pais me procuraram quando seus sintomas se agravaram durante o confinamento. Sem entrar em muitos detalhes do caso, gostaria de apresentar dois pequenos exemplos de nosso trabalho em chats de vídeo que foram experiências formidáveis ​​para mim. 

Ofidioglossia[2] 

Harry Potter, o escolhido, sabe com certeza que é escolhido quando pode falar língua de cobra. Na primeira vez, ele nem sabe disso. Está alheio ao fato de que falava uma língua diferente.

Essa menina, uma fã recente da série de filmes do Harry Potter, tinha dificuldade com a linguagem em tempos de crise. Quando estava chateada, recorria a sons e gritos enquanto seu corpo agitava e tremia.

Ainda não havíamos enfrentado esse tipo de cenário no tratamento enquanto ela visitava minha clínica pessoalmente. Ele surgiu pela primeira vez on-line.

Ela perguntou se eu tinha feito o que ela havia me pedido e eu respondi com um leve “não”, mencionando que estive ocupada e pensei que faríamos isso juntas. Foi um “não” suficiente para aborrecê-la. Ela desligou a câmera e fungou alto. No entanto, ela não desligou a chamada.

Nas sessões anteriores, estávamos trabalhando com fantoches. Ela fez um para si mesma; eu fiz um para mim. Seu fantoche estava destinado a ser uma senhora elegante, de origem americana e estilo italiano. Isso é importante, pois sua família tem linhagem italiana. Eu me inspirei em Harry Potter e fiz Nagini, a cobra. Foi no citado momento de ruptura entre nós — a criança e a terapeuta — que Nagini veio em nosso socorro. Falei com sua marionete, a Srta. X, a escolhida pela paciente, como Nagini: em língua de cobra. Quando ela parou de chorar, sussurrei em meias palavras, meio língua de cobra, dizendo como eu era boba por não me lembrar de algo tão importante para ela.

Lentamente, ela respondeu não em palavras, mas por escrito, me mandando uma mensagem de texto para me informar que a “Senhorita X está bem”. Nagini então usou pequenas frases em italiano para impressionar a Srta. X. e iniciar uma nova conversa. A história continua, graças à língua de cobra e ao italiano, duas novas línguas entre nós, além dos objetos. 

Retratos em movimento 

Tive um estranho encontro com o lugar (posição) que ocupei durante essas sessões de vídeo. Uma vez, seu telefone caiu da cama e ficou preso em uma pequena abertura entre a cama e a parede. Ela chamou seu irmão e sua mãe para ajudá-la. Enquanto isso, eu estava fascinada com a visão que tinha, virtualmente presa nessa estreita abertura. A câmera estava apontando para cima quando seu irmão se inclinou e anunciou “Oi, estou aqui para te tirar daqui!”. Voilá! Percebi meu lugar — não havia mais distinção entre o terapeuta real (eu), sentado em uma sala aberta e minha imagem em movimento e falante em seu telefone, presa em uma fenda.

Todos os três fizeram referência a “me salvar” e “me tirar de lá”. Nenhum deles parecia muito preocupado com o instrumento, o telefone. Além disso, frequentemente, a paciente diz frases como “oops, você caiu”', quando o telefone cai. Ela o coloca com cuidado e diz “'ok, agora você está bem”. Ou “vou colocá-la aqui por algum tempo enquanto vou buscar água”. 

Objetos 

Por um lado, a ruptura nos impulsionou a encontrar uma nova linguagem quando nos deparamos com a ausência de nossos corpos e objetos entre nós. Por outro lado, eu estava no lugar de ser um com o objeto. Na maioria das vezes, um objeto que ela cuida adicionalmente e, o mais importante, um objeto que ela pode controlar. Ela pode me desligar quando quiser.

Em vez disso, ela escolheu controlá-lo de forma diferente, para medir suas interações com os outros, para restringi-los. Ela se esconde desligando a câmera e tira sua voz com o botão mute.

A minha versão de retrato em movimento permite que ela me coloque exatamente onde ela quer que eu esteja. Por enquanto, estou confinada no telefone dela.

 

Tradução: Michelle Sena

Revisão: Cecília V. Gomes Batista


[1] Texto originalmente publicado em Lacanian Review Online, em maio de 2020. Disponível em: https://www.thelacanianreviews.com/its-no-childs-play.

[2] “língua de cobra”.