EDITORIAL

 

PATRÍCIA RIBEIRO

Trajeto II - diário. Bárbara Schall

É com enorme satisfação que lhes apresentamos a 25ª edição do Almanaque Online, cujos trabalhos abordam um tema que nos foi inspirado pelo XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, O feminino infamiliar, dizer o indizível. Neste número, trataremos do infamiliar nos laços sociais indagando como ele se insere nessa dimensão das relações dos sujeitos com o Outro. Por essa razão, e como não poderia deixar de ser, esta edição contempla também o momento atual, marcado por essa absoluta infamiliaridade na qual vivemos em decorrência da pandemia do novo coronavírus.

Abrimos, com a rubrica Trilhamentos, trazendo a contribuição de Gustavo Dessal em um texto contundente sobre o célebre personagem de Herman Melville, Bartleby, mostrando, com extrema fineza, o que o autor americano pode nos transmitir ao criar esse “nosso inquietante irmão de melancolia”. Dessal nos desvela que o verdadeiro protagonista desta história é a própria humanidade, isto é, que o nosso próximo, esse estranho, estrangeiro, nada mais é “que o núcleo de nós mesmos”, do qual “não ousamos aproximar”. Ainda nessa seção, Marina Lusa traça os caminhos percorridos por Freud para apreender isso que nos surge como inapreensível, como infamiliar e que, no entanto, tem “o familiar como tela de fundo (...), no qual ele faz furo”, o avesso e o direito de uma mesma coisa.

Nossa convidada da rubrica Entrevista é a professora e pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG Santuza Teixeira, que conosco conversa sobre o trabalho que ela e sua equipe do Centro Tecnológico de Vacinas estão desenvolvendo em relação à epidemia da Covid-19. Paralelamente, Santuza nos traz suas impressões sobre os desdobramentos das decisões políticas ligadas às pesquisas no Brasil e como, a seu ver, isso tem provocado uma fragilização da produção científica, especialmente em sua área.

Em Encontros, privilegiamos tratar dos efeitos da pandemia, articulando-a à noção freudiana do infamiliar, trazendo a leitura que fazem as psicanalistas Mariana Schwartzman e Hélène Bonnaud. Mariana associa o infamiliar ao conceito lacaniano de extimidade e percebe que, no atual cenário, o estranho penetra a intimidade de nossas casas. Hélène, por sua vez, parte da investigação dos efeitos desse real, “cuja natureza inesperada e invasiva muda a rotina de nossas vidas”. Em seu texto, ela analisa algumas consequências do isolamento social colocando em primeiro plano o sentimento de solidão, que, conforme esclarece, é diferente da sensação de isolamento, tomado este último como um registro distinto de relação ao Outro.

Em Incursões, apresentamos textos dos colegas dos espaços de investigação do IPSM-MG cujo enfoque, neste semestre, foi O infamiliar e suas incidências na prática psicanalítica. Nessa perspectiva, Frederico Feu examina a relação do infamiliar no âmbito das psicoses para esclarecer “como a emergência do infamiliar afeta a nossa apreensão da realidade e os laços sociais por ela circunscritos” e quais as conexões possíveis “entre o infamiliar e o sentimento de estranheza que assinala a perda da realidade em algumas formas da psicose”. Andrea Eulálio localiza em seu texto como as transformações ocorridas nos novos modos de organização das famílias têm deixado as crianças mais expostas ao Um sozinho, a esse gozo desenlaçado do Outro, gozo Unheimlich, cujas consequências na infância e na adolescência são retratadas em sua vinheta clínica. O texto de Jeaninne Narciso, também fundamentado em sua leitura do texto freudiano sobre o infamiliar, indaga, a partir de sua experiência clínica, quais podem ser os efeitos do encontro de crianças que se tornam imigrantes com o infamiliar da linguagem. Ivan Vitova Junqueira, em trabalho decorrente de um projeto de pesquisa com uma população encarcerada que recebe atendimento psicológico e psiquiátrico, coloca em discussão e indaga se os sentimentos de angústia e terror que localiza nesses atendimentos, não estariam articulados ao infamiliar assim como ao conceito de dejeto, tal como foi proposto por Miller em seu texto “A salvação pelos dejetos”.

Por fim, temos, em nossa rubrica De uma nova geração, dois interessantes textos de alunos do IPSM-MG em torno do tema do gozo feminino. Aspectos da biografia de São João da Cruz são levantados por Rodrigo da Matta Machado para elucidar o motivo pelo qual Lacan tomou-o como “um exemplo precioso na exploração da noção de gozo não-todo”. Lívia Azzi busca localizar em seu texto a disjunção entre histeria e feminilidade a partir das descrições dos personagens Henry e June no diário de Anaïs Nin.

Antes de convidá-los à leitura, gostaria de agradecer a valiosa contribuição da artista plástica mineira Bárbara Schall, que nos cedeu belas imagens para ilustrar esta edição. Agradeço também aos autores e a toda a equipe de publicação da revista Almanaque, cuja parceria foi essencial para a sua concretização.


Bárbara Schall (1984) é bacharel em Artes Plásticas pela Escola Guignard, da Universidade Estadual de Minas Gerais, e possui especialização em fotografia pela Akademie der Bildenden Künste München (DAAD). Começou a desenvolver seu trabalho em 2010, quando passou a participar regularmente de salões, exposições coletivas e individuais no Brasil e no exterior. Seu trabalho integra coleções do Mac Niterói, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, do Centro Cultural Dannemann e do Museu de Arte de Ribeirão Preto. Para conhecer melhor seu trabalho de fotografias, vídeos, bordados e instalações, acesse https://barbaraschall.cargo.site.