Entrevista com Santuza Teixeira

 

A cor da romã I. Bárbara Schall

 

Almanaque entrevista Santuza Teixeira, mineira de Belo Horizonte. Graduada e mestre em bioquímica na Universidade de Brasília, fez doutorado na Universidade de Lausanne, na Suíça, e pós-doutorado na Universidade de Iowa, nos EUA. Professora e pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, atua no departamento de Bioquímica e Imunologia coordenando pesquisas em genômica e parasitologia e no desenvolvimento de vacinas. Em dezembro de 2019, foi eleita membro titular da Academia Brasileira de Ciências.

 

ALMANAQUE: Gostaria que você nos falasse um pouco sobre seu trabalho e de sua equipe no Centro Tecnológico de Vacinas da UFMG no que diz respeito à pandemia do coronavírus.

SANTUZA RIBEIRO TEIXEIRA: Somos uma equipe de aproximadamente 30 pessoas, entre professores, pesquisadores, técnicos, alunos de graduação e de pós-graduação, todos bolsistas com diferentes níveis de treinamento em várias áreas das Ciências Biológicas. Temos experiência no desenvolvimento de testes de diagnóstico e vacinas, pois, ao longo de mais de 10 anos, vínhamos desenvolvendo projetos voltados para o controle de doenças como leishmaniose, malária e doença de Chagas e viroses como dengue e chikungunya. Com a chegada da Covid-19, todos os nossos esforços passaram a ser voltados para três frentes de trabalho que acreditamos poder contribuir para o controle desta pandemia: (i) a testagem por PCR a partir de amostras colhidas em hospitais de Belo Horizonte, para fins de diagnóstico e também para detectar pessoas assintomáticas que têm a infecção ativa e que podem disseminar o vírus; (ii) o desenvolvimento e a aplicação de um teste de diagnóstico sorológico a partir de amostras de sangue de pessoas que tiveram contato com o vírus e que podem ter desenvolvido imunidade e, (iii) o desenvolvimento de uma vacina baseada na modificação genética do vírus influenza atenuado, que seria capaz de proteger ao mesmo tempo contra a gripe comum e contra a Covid-19.

 

A.: Esse vírus irrompeu inesperadamente e se impôs em nossas vidas, surpreendendo e atemorizando a humanidade. Nesse contexto, a pressão por soluções urgentes para pôr fim à pandemia, igualmente, se impôs em todo o mundo, convocando, especialmente, os cientistas que trabalham no campo de pesquisas em biotecnologia. Vimos como o anseio por uma resposta rápida levou a precipitações, como bem demonstrou a recente polêmica em torno do uso da cloroquina, ressaltando o impasse entre a urgência e prudência. Sabemos que a produção de conhecimento científico requer tempo — além do aporte contínuo de recursos orçamentários —, tornando inviável atender a essa expectativa de uma solução a curto prazo, como a oferta de uma vacina. Como tem sido para você trabalhar sob essa pressão?

S.R.T.: Na nossa carreira, estamos acostumados a trabalhar sob pressão, mas, obviamente, essa pressão está mais evidente agora. Entretanto, essa sensação de trabalhar sob pressão é aliviada por outros sentimentos que surgiram em função da urgência e da relevância do desafio que se impõe. Parece que o sentimento preponderante — e penso que posso falar não somente por mim, mas pela equipe toda — está mais associado ao fato de termos pela frente uma tarefa importante, para a qual nós fomos preparados ao longo de muitos anos de estudo e trabalho. Esse sentimento é muito positivo e estimulante. Desde que comecei a estudar biologia na Universidade de Brasília, minhas pesquisas sempre foram voltadas para estudos sobre patógenos humanos. No entanto, o foco foi sempre no conhecimento básico, ou seja, buscando entender a biologia desses patógenos. Esse tipo de estudo é extremamente importante, mas é pouco reconhecido pela sociedade, que muitas vezes tem a impressão de que se trata de dinheiro e esforços jogados fora. Na realidade, esse tipo de pesquisa básica é a força motriz da Ciência e sabemos que os países que têm uma “ciência avançada” são aqueles que investiram em pesquisa básica, obviamente preocupando-se com a qualidade dos projetos que são financiados. Somente após ter sido formada uma base científica sólida, que inclui não somente o conhecimento, mas a existência de uma rede de pesquisadores muito bem treinados, é que se pode pensar em propor um projeto de uma nova vacina, como a de Covid-19, por exemplo. Temos, portanto, hoje, na UFMG, uma equipe capaz de propor um projeto como esse acreditando que temos chances de alcançar bons resultados em um tempo relativamente curto, como o que se impõe agora, tanto quanto os grupos que trabalham nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Ou seja, graças aos investimentos em pesquisa que foram feitos ao longo dos últimos 30 anos no Brasil (eu mesma recebi, em 1986, uma bolsa do governo brasileiro para fazer meu doutorado no exterior), nós somos capazes de desenvolver nossos próprios kits de diagnóstico e — tomara! —, capazes de produzir a nossa própria vacina anti-Covid19. Voltando à pergunta, portanto, a sensação de trabalhar sem ter o reconhecimento da importância do seu trabalho é muito mais dolorosa. Isso estava acontecendo até três meses atrás, quando os cientistas brasileiros pareciam ter que implorar para continuar desenvolvendo suas pesquisas. Esse sentimento de descaso trouxe graves consequências, especialmente para pesquisadores jovens, alunos de pós-graduação e bolsistas em início de carreira, que se viram totalmente desestimulados. É muito gratificante ver essas mesmas pessoas chegando ao laboratório todas as manhãs, vestindo seus jalecos e indo trabalhar com uma dedicação, entusiasmo e compromisso admiráveis.

 

A.: Nós, psicanalistas, temos lidado, em nossa clínica, com os desdobramentos subjetivos da pandemia, tais como aqueles provocados pelo confinamento e os modos singulares como as pessoas a ele reagem, sejam elas adultas, sejam crianças, sejam adolescentes. Nesse sentido, você poderia nos dizer como tem percebido esses efeitos no seu trabalho junto à sua equipe?

S.R.T.: Como disse antes, fiquei bastante surpreendida com a atitude dos alunos e jovens pesquisadores que se ofereceram para trabalhar nesses três projetos do laboratório, mesmo sabendo não somente do enorme desafio e do volume de trabalho, mas também dos riscos que qualquer um está correndo por não estar em isolamento nas suas casas. Lembrando que o laboratório recebe uma grande quantidade de amostras de pacientes, o que requer um cuidado e uma concentração muito grande durante todas as etapas de manipulação, para se eliminar o risco de contaminação. Mesmo assim, eles estão lá todos os dias e, quando nos demandam os resultados de testes no final de semana — pois os hospitais não podem esperar chegar segunda-feira —, nunca tenho qualquer dificuldade em encontrar pessoas para irem comigo fazer os testes no sábado ou no domingo. São essas as mesmas pessoas que estavam pensando em deixar a carreira científica porque viviam sob uma enorme sombra de dúvida com relação às suas perspectivas de trabalho no Brasil. De fato, nunca tivemos uma discussão envolvendo essas questões subjetivas relacionadas ao momento que cada um está vivendo, mas creio que a ideia de um desafio comum, aliada à sensação de participar de um esforço tão urgente, pode estar tendo um efeito muito positivo sobre essas pessoas.

 

A.: A pandemia do coronavírus está produzindo uma série de consequências que extrapolam o campo da ciência e da saúde, tocando em questões psíquicas, políticas e éticas! Em algum momento você pensou que um vírus nos convocaria para um debate tão extenso? Caso afirmativo, que novos contornos esse acontecimento tem apontado no seu campo de atuação? E que mundo você imagina pós-pandemia?

S.R.T.: Nós todos pensamos sobre isso todos os dias, cada vez que saímos e vemos as ruas vazias em plena quarta-feira ou ficamos trancados em casa sem poder ir ao cinema na sexta. De fato, pensar que um vírus é capaz de transformar a vida no planeta e nos convocar para um debate tão intenso, tão inesperado e tão sui generis confere ainda mais poder a essa partícula impressionantemente simples, formada por uma única molécula de RNA, 29 proteínas e uma fina camada de gordura! Ou, se olharmos para o outro lado, pensar como que o Homo sapiens vai à Lua, descobre água em Marte, investiga, um a um, todos os seus 20 mil genes e cura inúmeros tipos de câncer, mas não consegue evitar as mortes de 400 mil indivíduos em pouco mais de 4 meses por causa de um vírus! Novamente, o principal elemento que essa partícula tem nos apontado é a ideia de que a Ciência não pode ser vista como um passatempo divertido a que algumas pessoas se dedicam, muitas delas com uma tenacidade e comprometimento impressionantes. Todos, independentemente das tendências políticas, religiosas ou time de futebol do coração, estão voltados para as páginas dos jornais, TV e outras mídias que falam de novos tratamentos e vacinas para a Covid-19. Ao mesmo tempo em que expõe nossa fragilidade, a pandemia revela a confiança no conhecimento científico como nossa única arma. Que mundo eu imagino pós-pandemia? Um mundo certamente melhor, que deverá surgir como consequência de um esforço obrigatoriamente capaz de superar divergências para que possamos concentrar nas soluções necessárias para viabilizar nossa sobrevivência no planeta.

 Entrevista feita por: Giselle Moreira, Letícia Mello, Renata Mendonça e Thiago Bellato.