Diretora: Cristiana Pittella

Atividades - 1o semestre de 2021


INTERPRETAÇÃO: DA ESCUTA DO SENTIDO 
 À LEITURA DO FORA DE SENTIDO

Cristiana Pittella

A psicanálise é uma prática da escuta. Essa experiência única, sua função e campo, diferem da cena do mundo, o que permite que uma Outra cena possa surgir.

Em que uma escuta psicanalítica, seja em um consultório ou nas instituições, é fora do comum e se difere de outros campos psi? Como ela opera no sofrimento e qual a possibilidade dela mudar algo no sintoma de um falasser?

Nosso tema - Interpretação: da escuta do sentido à leitura do fora de sentido[1] - nos dá ocasião para refletir sobre a nossa prática, não para normalizá-la, mas, para trocarmos experiências[2]. Essa escuta engendra uma resposta do analista que tem valor de interpretação e visa fazer escutar a enunciação que se articula no nível significante da linguagem, para além do enunciado. Escutamos a interpretação que o inconsciente dá ao sujeito.  Essa descoberta levou J.Lacan a situar o psicanalista como parte do conceito de inconsciente - posto que constitui aquilo a que este se dirige[3] -, e J.A-Miller a propor a expressão: inconsciente intérprete.

Em uma análise, não há palavra sem resposta, mesmo que ela só encontre o silêncio. Que o psicanalista se cale ou que ele intervenha com a fala ou com seu corpo, trata-se de um dizer que faz acontecimento[4]. Neste sentido, a interpretação é destinada a surpreender, a tocar, fazer ressoar e vibrar; não só no nível do significante, mas do corpo, do afeto. Ela permite que o sujeito encontre sua parte de estranheza, onde o gozo tem lugar no falasser.

                        bem dizer e saber ler estão do lado do analista, é propriedade do analista, mas, no curso da experiência, trata-se de que bem dizer e saber ler se transferem ao analisante”[5].

A interpretação não é uma hermenêutica, é um savoir faire - o que a aproxima mais da poesia do que da técnica, e ela não está aberta a todos os sentidos. Trata-se então de uma ética[6]; que só tem lugar pela transferência.

A dimensão interpretativa, o deciframento das mensagens cifradas nas formações inconscientes: sonho, chiste, lapsus, atos falhos e sintoma, é fundamental na experiência analítica enquanto uma operação de linguagem que revela a falta-a-ser do sujeito, seu desejo. Mas é preciso ir além, pois no cerne do sintoma, encontramos algo que não é da ordem da mensagem, mas de um acontecimento de corpo que coloca em jogo a pulsão e sua satisfação. Isso torna mais problemático o estatuto da interpretação que possa responder a isso[7], à marca do afeto traçada pela língua no corpo[8], à saber, ao Um e não ao Outro.

O analista assim também atenua, coloca limites no excesso de sentido que um sujeito pode dar em uma análise, o que leva J.A-Miller a propor a leitura do fora de sentido de um sintoma.  Nossa experiência refere-se assim não só à palavra - à escuta do sentido -, mas à leitura, à escrita do real em jogo no sintoma. Há uma dimensão do sintoma que não se elimina e que é essencial à vida psíquica do falasser.

Poderemos em nossos encontros nos perguntar: em que a interpretação freudiana difere da orientação lacaniana? Uma análise não opera sem o sentido. Podemos também percorrer as elaborações, no ensino de Lacan, sobre as modalidades de interpretações, a partir dos registros do imaginário, do simbólico e do real[9].

Do sentido sexual à inexistência da relação sexual, encontramos a tradução, a pontuação, o enigma, o corte, a alusão, a citação, as ressonâncias do equívoco (homofonia, gramática e lógica)[10] e ainda, a jaculação, como interpretação que se suporta visando à palavra como aparelho de gozo, como lalíngua[11].

Em que momentos de uma experiência analítica está em jogo o sentido e o fora de sentido?

Em cada situação clínica podemos interrogar:

  • a interpretação opera na articulação significante, a partir de S2, sendo o inconsciente, o intérprete, e a interpretação a significação inconsciente?
  • ou é uma interpretação que visa contrariar a significação inconsciente, a partir do sentido-gozado, a partir de S1?[12]

Em cada caso, podemos localizar o que fez interpretação, o modo como se interpreta, e  investigar os momentos e conjunturas distintas de nossa clínica, revelando em que ponto se está da elucidação do inconsciente.

Tratar-se-á menos de mostrar alguma coisa do que de uma ausência - que é de estrutura -, revelando o impossível de dizer[13], um vazio fundamental, ausência primeira do objeto perdido[14].

À interpretação semântica que produz sentido e o relança sem limite, J.A-Miller propõe o seu avesso[15], a interpretação assemântica, visando, ao contrário, limitar e enfrentar o gozo. O avesso da interpretação consiste em cernir o significante, como destacado do S2, sem a produção de uma significação[16].

A interpretação como saber ler no que se diz visa assim reduzir o sintoma à sua fórmula inicial - ao acontecimento de corpo, fora de sentido, traumático -, quer dizer, ao encontro material de um significante e do corpo[17], que se fixou nas contingências dos encontros de gozo.

                      “Este gozo não é primário, mas é primeiro em relação ao sentido que o sujeito lhe dá e que lhe dá por seu sintoma enquanto interpretável”.[18]

Esse ponto de fixação que reitera, choque do significante que ressoa, está na raiz do sintoma. Pela interpretação, podemos aprender a lê-lo numa experiência analítica, para deixarmos de alimentar com sentido o sintoma.

Como interpretar a criança? interpreta-se a psicose? E o autismo?

Que iniciativas,[19] enquanto psicanalistas, somos levados a tomar?

Como os analistas interpretam o saber recolhido do Outro parental? Interpreta-se os pais? E o saber da educação, do jurídico, o sanitário e aquele advindo do social?  Que respostas podemos dar que permitam extrair o sujeito e tocar o falasser?

O que há de novo na interpretação, na clínica dos novos sintomas? Como ocasionar a passagem do inconsciente real ao inconsciente transferencial? Ou ainda: como causar, criar o inconsciente pela interpretação? Momento oportuno? Contingência? Invenção?[20]

Qual o lugar da interpretação psicanalítica nos campos mais diversos do saber?    

Essas são apenas algumas vias para darmos início às nossas pesquisas e recolher nossos achados.

 

[1] Ler um sintoma, J.A-Miller, Opção Lacaniana 70, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise 
[2] Interpréter l’enfant par J.A- Miller, in Travaux récents de L’Institut Psychanalytique de LÉnfant, Navarin
[3] Posição do inconsciente, J.Lacan, in Escritos
[4] La interpretación acontecimento, E. Laurent, Virtualia 37 revista digital de La EOL 
[5] Ler um sintoma, J.A-Miller, Opção Lacaniana 70, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise 
[6] A palavra que fere, J.A-Miller, Opção Lacaniana 56/57 Revista Brasileira Internacional de Psicanálise
[7] Biologie lacanienne et évenement de corps,  J.A-Miller, La Cause Freudienne 44 pg 25
[8] Biologie lacanienne et évenement de corps,  J.A-Miller, La Cause Freudienne 44 pg47
[9] Monribot Patrick, L’interpretation lacanienne du symptôme, www.sectioncliniquenantes.fr
[10] O Aturdito, J.Lacan , Outros Escritos

[11] J.A-Miller, O escrito na fala,  Opção Lacaniana online nova série Ano 3 Número 8
[12] Jean-Robert Rabanel L’invention de l’interprétation , Jean-Robert Rabanel, in Interpréter l’enfant, 3 Navarin
[13] A palavra que fere, J.A-Miller Opção Lacaniana 56/57 Revista Brasileira Internacional de Psicanálise
[14] E. Laurent, Argument du congrès 2020 de la NLS par Éric Laurent - " L'interprétation : de la vérité à l'événement ", www.amp-nls.org › page › nls-messager
[15] J.A-Miller, O avesso da interpretação, in Correio n.13

[16] J.A-Miller, O avesso da interpretação, in Correio n.13
[17] Ler um sintoma, J.A-Miller, Opção Lacaniana 70, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise
[18] Ler um sintoma, er um sintoma, J.A-Miller, Opção Lacaniana 70, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise
[19] J.A-Miller, Interpréter l’enfant par J.A- Miller, in Travaux récents de L’Institut Psychanalytique de LÉnfant, Navarin
[20] Bassols M., Tempo de interpretar, You Tube EBP Bahia

 

BIBLIOGRAFIA

INTERPRETAÇÃO: DA ESCUTA DO SENTIDO  À LEITURA DO FORA DE SENTIDO

 

- Ler um sintoma, J.A-Miller, Opção Lacaniana 70, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise 

- Biologie lacanienne et évenement de corps, J.A-Miller, La Cause Freudienne 44 

- O escrito na fala, J.A-Miller, Opção Lacaniana online nova série Ano 3 Número 8 

- Interpréter l’enfant, J.A- Miller, in Travaux récents de L’Institut Psychanalytique de LÉnfant, 3 Navarin

- A palavra que fere, J.A-Miller Opção Lacaniana 56/57 Revista Brasileira Internacional de Psicanálise 

- O avesso da interpretação, J.A-Miller, in Correio n. 13

- Posição do inconsciente, J.Lacan, in Escritos 

- O Aturdito, J.Lacan , Outros Escritos 

- Argument du congrès 2020 de la NLS par Éric Laurent - " L'interprétation: de la vérité à l'événement ", www.amp-nls.org › page › nls-messager 

- Monribot Patrick, L’interpretation lacanienne du symptôme, WWW.sectioncliniquenantes.fr 

- L’invention de l’interprétation, Jean-Robert Rabanel, in Interpréter l’enfant, 3 Navarin 

- Tempo de interpretar, Bassols M., You Tube EBP Bahia

 


 
NÚCLEOS

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com Crianças

Coordenação: Andréa Eulálio

Coordenação adjunta: Cristiane Barreto 

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EMENTA 

O trabalho de pesquisa e investigação do NPPcri proposto pela Seção Clínica para o primeiro semestre de 2021 será sobre a “Interpretação: da escuta do sentido à leitura do fora de sentido”.

A interpretação psicanalítica como leitura tem no primeiro ensino de Lacan um valor diferente do final de seu ensino. Da leitura da articulação significante à leitura da singularidade do gozo do Um, Lacan rompe com a linguística e, sob a perspectiva da lalangue, passa a privilegiar o equívoco e a ressonância dos significantes fora de todo efeito de sentido. A questão que nos coloca como analistas de crianças é saber: como tocar esse gozo e como modificá-lo? Como interpretar a criança, se para Miller[1], tem algo na criança que ainda não se diferenciou na estrutura? Ou seja, tem algo que ainda não se distinguiu entre o eu do enunciado e o eu da enunciação. Como interpretar os pais? Como capturar algo do sujeito que não passa pelo senso comum, quando nos confrontamos com os gritos e as jaculações das crianças? Será por aí que pretendemos iniciar as nossas investigações. 

[1] Miller J. A, Interpretar a criança, In: Opção Lacaniana, no 72, p. 13, março2016.

 

1º semestre 2021

 

Dia 03 de março

Abertura dos trabalhos 10semestre 2021.

Apresentação: Andréa Eulálio

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

Dia 17 de março

Da interpretação do inconsciente ao inconsciente intérprete.

Apresentação: Cristina Drummond e Maria das Graças Sena

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

Dia 31 de março

Interpretar a criança.

Apresentação: Cristina Vidigal e Inês Seabra

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

Dia 14 de abril

Interpretação: da escuta do sentido à leitura do fora de sentido. 

Apresentação: Cristiana Pittella e Tereza Facury

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

Dia 05 de maio

Interpretação acontecimento.

Apresentação: Alessandra Rocha e Maria Aparecida Farage

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

Dia 19 de maio

Por que as mães de hoje não interpretam?

Apresentação: Lucia Mello e Margaret Couto

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

Dia 02 de junho

Interpretar a psicose e o autismo.

Apresentação: Paula Pimenta e Suzana Barroso

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

Dia 16 de junho

Conversação sobre o trabalho de investigação 10semestre 2021.

Apresentação: Cristiane Barreto

Às 20:30 horas

Pelo Zoom.

 

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Psicose

Coordenação: Fernando Casula

Coordenação adjunta: Maria de Fátima Ferreira

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Ementa

Miller, em “monólogo de la apalabra”, ressalta que “a palavra psicótica é a que toma para si mesma a interpretação a seu cargo, ao menos na versão paranoica, e que se apoia como mestre do sentido até poder, na esquizofrenia, denunciar o semblante social em suas últimas defesas”[1]. A interpretação está do lado do sujeito psicótico, que a faz de modo incessante tal como uma máquina[2]. Se a interpretação está a cargo do sujeito, qual a função do analista na condução do tratamento?

Lacan, no Seminário 3, sobre as psicoses, diz que cabe ao analista a função de secretário. Ouçamos: “Vamos aparentemente contentar passar por secretários do alienado [...]. Pois bem, não só nos passaremos por seus secretários, mas tomaremos ao pé da letra o que eles nos contam – o que até aqui foi considerado como coisa a ser evitada”[3]. Cabe ao analista se fazer de destinatário do signo ínfimo do paciente. Com esses signos, sustenta-se seu trabalho de construção. “A manobra analítica não consiste, portanto, em um mero registro, em um secretariado; tampouco se trata de socializar”[4] Trata-se, enfim, de ler de que maneira o sujeito enfrenta o gozo que o esmaga rumo à construção de uma metáfora delirante. 

Se no início de seu ensino, Lacan reservava ao analista a função de secretário, tal como especificado acima, essa se amplia no entardecer da obra. Neste, o essencial é o saber fazer com, savoir-y-faire, saber de improviso, um se virar em cada situação, nas quais, longe de se deixar levar no movimento delirante, prioriza-se o recentramento do sujeito nos fenômenos elementares, os S1 isolados que se impõem ao sujeito psicotizado, sem deixar inflar o delírio[5].

Miller indica em que sentido o conceito de interpretação no último ensino de Lacan é tributária ao que as psicoses ensinam, ouçamos: “o avesso da interpretação consiste em cercear o significante como fenômeno elementar do sujeito, como anterior a sua articulação enquanto formação do inconsciente, que lhe dá sentido de delírio”[6]. Estamos no tempo em que a interpretação é tomada enquanto decifração, que não produz sentido. Psicose aqui, como alhures, desnuda a função alusiva da interpretação, localizando seu horizonte para além do marco simbólico, evidencia-se, portanto, a operação de capturar o real.

Nossa investigação do semestre se propõe percorrer, a partir do trabalho clínico, o alcance que alude o termo interpretação no ensino de Lacan considerando o que as psicoses nos ensinam.

Utilizaremos as referências teóricas citadas nesta ementa.

Sejam todos bem vindos, e bom trabalho!   

[1] Miller, J-A.  La fuga del sentido. Buenos Aires: Paidós; 2012. P. 146.
[2] O termo máquina aqui alude ao texto de Tarrab, M. As psicoses e a máquina de interpretar. In.: Opção Lacaniana 80/81. P. 87 a 90.
[3] O Seminário, livro 3: as psicoses. (1955-56) Rio de Janeiro: Zahar; 1985. P. 235.
[4] Miller, J-A. Efeito de retorno à psicose ordinária. In.: A psicose Ordinária: convenção de Antibes. Belo Horizonte: EBP, Scriptum;2012. P. 406.
[5] Holvoet, D. Verbete Direção (do tratamento). In.: Scilicet: As psicoses ordinárias e as outras – sob transferência. São Paulo: EBP, 2018. ps. 132 a 134.
[6] Miller, J-A. A interpretação pelo avesso. In.: Opção Lacaniana nº 15

 

Dia 19 de março

Abertura: Interpretações nas psicoses

Apresentação: Fernando Casula.

Coordenação: Maria de Fátima Ferreira

Às 10:00 horas

Pelo Zoom          

 

Dia 19 de março

“As psicoses e a máquina de interpretar”

Apresentação: Maurício Tarrab

Comentários: Henri Kaufmanner

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 09 de abril  

Caso clínico de Oscar Ventura: “Una mujer pródiga”

Apresentação: Helenice de Castro

Comentários: Cristiane Barreto

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 23 de abril

Atividade em parceria com o Núcleo de Psicanálise e Direito

Apresentação de caso publicado: Efeitos de interpretação da palavra do Juiz em um caso de psicose.

Apresentação do caso: a definir

Comentários: Fernanda Otoni

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 07 de maio

Interpretação herética e acontecimento de corpo nas psicoses

Apresentação: Sérgio Laia

Comentários: Cristiana Pittella

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 21 de maio

Interpretação no autismo: Comentário do filme “A céu aberto”

Apresentação: Ana Martha Maia

Comentários: Suzana Barroso

Coordenação: Paula Pimenta

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 11 de junho

Caso senhor MH: uma entrevista de Lacan

Apresentação: Marcia Rosa

Comentários: Rodrigo Almeida

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 25 de junho

Conversação sobre a investigação do semestre

Apresentação: Maria de Fátima Ferreira

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Toxicomanias e Alcoolismo

Coordenação: Marcelo Quintão

Coordenação adjunta: Maria Wilma Faria 

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Ementa

Para Freud, diante do mal-estar inerente à cultura, o ser humano precisa lançar mão de lenitivos que possam paliar a dor de viver. Entre outros meios, inclui o uso de substâncias tóxicas com valor de remédio, tanto pelo prazer imediato que produzem quanto por um certo grau de independência em relação ao mundo exterior. Nessa leitura, ele contava com a perspectiva do tratamento pela interpretação, abordando o sintoma pela via do sentido. Mais adiante, ele nos permite ver que a busca desenfreada pela felicidade nos leva ao mais além do princípio do prazer, a vertente mortal do gozo, sublinhando o efeito pharmakon dessas substâncias.

Segundo Miller, a droga dá lugar a uma autêntica experiência para o sujeito, que não poderíamos colocar em dúvida e que produziu seu próprio vocabulário, suas próprias expressões. No entanto, ela não é uma experiência de linguagem, mas ao contrário, o que permite um curto-circuito sem mediação, uma modificação da consciência, a percepção de sensações novas, a perturbação de significações vividas do corpo e do mundo. No decorrer do último século, o uso da droga toma diversos sentidos na cultura, como o de exercer o papel de interpretar o seu tempo. Ora é instrumento de demonstrar rebeldia e protesto e busca de transformações, ora tem seu uso inserido na experimentação de novas realidades decorrentes das próprias transformações.

Com o declínio do Nome-do-Pai, que determina a subjetividade do nosso tempo, e ao desaparecerem os semblantes que permitiam regular o gozo, a droga se insere progressivamente no rol das mercadorias ofertadas de modo infinitizado pela ciência e pelo mercado, a serem consumidas de imediato. Anteriormente, na clínica, buscava-se suprimir os sintomas através de sua escuta e sua interpretação, visando abordar o gozo pulsional no contexto das relações parentais e em sua relação com a castração, mas acabava-se por inflar o sintoma e por nutri-lo de sentido.

Da interpretação semântica, que se orientava pela produção de um S2 que viesse pontuar a elaboração, contando com a continuidade do deslizamento da cadeia - delírio a serviço do Nome-do-Pai - passa-se a se buscar produzir uma interrupção da metonimização e reconduzir o sujeito à opacidade do seu gozo.

Nossa investigação se dirige então ao manejo da interpretação na abordagem do uso que o sujeito faz, numa relação de gozo autoerótico, do objeto droga, a mercadoria absoluta que realmente desvela a mais-valia e sua função de gozo, no contexto da sociedade de consumo capitalista. Mercadoria que, entre o prazer e a zona do mais além do princípio do prazer, possibilita uma passagem imediata. 

 

Referências Bibliográficas:

FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Ed. 1969

FREUD, Sigmund. Mais-além do princípio do prazer. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Ed. 1969

LAURENT, Éric: La interpretación acontecimiento. Virtualia nº 69

LAURENT, Éric: "Post-war on drogs"? Como a psicanálise pode contribuir para o debate político sobre as drogas. In: Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte. Scriptum Livros, 2011.

MILLER, Jacques-Alain: Para uma investigação sobre o gozo autoerótico. Pharmakon Digital - nº 2

MILLER, Jacques-Alain: Ler o sintomahttp://www.lacan21.com/sitio/2016/04/16/ler-um-sintoma/?lang=pt-br 

 

1º semestre 2021

 

Dia 02 de março

A toxicomania, se interpreta?

Apresentação: Marcelo Quintão

Às 20:30 horas

Pelo Zoom

 

Dia 30 de março

O analista como um dealer

Apresentação: Lilany Pacheco

Às 20:30 horas+

Pelo Zoom

 

Dia 20 de abril

Retorno aos clássicos

Comentário sobre a intervenção de Hugo Freda no seminário "O Outro que não existe e seus comitês de ética"

Apresentação: Cristina Pinelli Nogueira

Às 20:30 horas

Pelo Zoom

 

Dia 04 de maiio

Saber ler

Apresentação: Luís Couto e Maria Wilma Faria

Às 20:30 horas

Pelo Zoom

 

Dia 18 de maio

Atividade internúcleos: Há interpretação na toxicomania?

Apresentação: Daniela Dinardi - Núcleo BH e Maria Célia Kato - do CLIN-A de Ribeirão Preto

Às 20:30 horas

Pelo Zoom

 

Dia 01 de junho

Aplicação da psicose ordinária à clínica das adicções

Apresentação: Jésus Santiago e Fabián Naparsték

Às 20:30 horas

Pelo Zoom

 

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Direito

Coordenação: Mônica Campos Silva

Coordenação adjunta: Kátia Mariás 

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Ementa 

O trabalho de pesquisa e investigação do Núcleo de Psicanálise e Direito abordará no primeiro semestre de 2021 o tema “Interpretação: da escuta do sentido à leitura do fora de sentido.” Freud, em seu texto de 1906, “A psicanálise e a determinação dos fatos nos processos jurídicos”, adverte sobre a diferença de enfoque entre este e a psicanálise diante da verdade do sujeito. No entanto, ele aponta, ao descrever a “técnica” analítica, que há um sujeito demandante, ainda que ele seja um criminoso.

No campo do direito – constituído pela letra da lei com o objetivo de sustentar o pacto civilizatório –, se busca o sentido para condutas e também para os motivos que convocam a justiça. Contudo, é possível observar que a abordagem jurídica não contorna algo da subjetividade, ou seja, da pulsão e sua satisfação. A chamada ao discurso analítico pelo campo do direito indica que há o inabordável, o fora do sentido.

Todavia, diante do nosso tema, qual tratamento possível o psicanalista pode ofertar à questão que se endereça à Justiça? Como a psicanálise responde? Sua resposta está na leitura que inclui o fora do sentido do próprio encontro do sujeito com a lei?

Outro ponto importante na interface psicanálise e direito é a palavra da criança, dos pais, dos envolvidos. Como interpretar e possibilitar outra leitura, outra coisa que a formatação processual?

De tal modo, partimos de que qualquer marco normativo carrega em si mesmo um impossível. Entretanto, como não transformar o impossível de cada caso em uma impotência diante do saber absoluto? É a partir da subjetividade, como o que fica fora dos protocolos, que se convoca e produz uma nova leitura. É nessa medida que somente o singular de cada caso construirá uma resposta.

Teremos como referência para nossa pesquisa o texto de J.A.Miller, “Ler o Sintoma” (Orientação Lacaniana 70).

Esperamos vocês!

 

1º semestre 2021

 

26 de março 

A interpretação na interface Direito e Psicanálise – o desafio de uma prática

Apresentação: Mônica Campos Silva

Às 10:30 horas

Pelo Zoom

 

16 de abril 

Depoimento Especial: como a psicanálise pode responder?

Apresentação: Patrícia Ribeiro e Mônica Campos Silva

ÀÀs 10:30 horas

Pelo Zoom

 

23 de abril 

Os efeitos clínicos da palavra do juiz em um caso de psicose

(Atividade conjunta com o Núcleo de Psicose)

Apresentação: Fernanda Otoni

Às 10:30 horas

Pelo Zoom

 

14 de maio 

Discussão do filme “Inocência Roubada”

Apresentação: Márcia Mezêncio

Às 10:30 horas

Pelo Zoom

 

18 de junho 

Discussão da pesquisa sobre a Interpretação: Da escuta do sentido à leitura do fora de sentido na interface psicanálise e direito.

Apresentação: Kátia Mariás 

Às 10:30 horas

Pelo Zoom

 

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Saúde Mental

Coordenação: Andréa Guisoli Mendonça

Coordenação Adjunta: Rosângela Silveira 

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Ementa

O inconsciente freudiano revisitado por Lacan tornou-se o inconsciente estruturado como linguagem que, através das palavras, estabelecia a articulação S1 – S2, fazendo surgir o sujeito representado por um significante para outro significante. Nesse contexto teórico, sob a primazia do simbólico, o corpo vivo está ausente desse inconsciente. Lacan dirá, posteriormente, que o homem tem um corpo e que fala com seu corpo, introduzindo a partir daqui, o neologismo falasser. Ao enfatizar o corpo, valoriza-se o ter e não o ser. O ser se alimenta de palavras e a partir delas tece histórias e interpretações intermináveis que são insuficientes para tamponar o que está perdido pelo fato de a linguagem não ser capaz de significantizar tudo da experiência, fazendo com que o encontro da linguagem com o corpo seja sempre traumático.

Se em Freud, o psicanalista, através do Mito de Édipo, lia e interpretava o inconsciente sustentado no nome do pai, hoje, em tempos de queda dos ideais, cabe ao analista manejar os restos sintomáticos; ir além do inconsciente freudiano, àquilo que do gozo não passa pela linguagem. Neste contexto, a interpretação tendo o nome do pai como referente torna-se inoperante. Ao demarcar a relação do significante com o simbólico e da letra com o real, Lacan estabelece uma nova direção ao tratamento incluindo “uma relação sem defesa frente às singularidades que se apresentam (...); podendo – o analista - decidir acrescentar um Squando for preciso, ou ao contrário, se abster disso para isolar a letra do sintoma” (CAROZ, 2014, p.210) contentando-se em circundar o resto que não se presta nem a ler, nem a interpretar.

Nessa perspectiva, há no último ensino de Lacan uma nova configuração da relação entre os registros simbólico, imaginário e real com consequências para a clínica nomeada topológica que, para além da interpretação, sem contudo prescindir dela, convida a novas formas de intervenção do psicanalista.

No campo da saúde mental em que crianças, jovens e adultos encontram a possibilidade de tratamento, a clínica, quando exercida por um praticante da psicanálise, possibilita a esses sujeitos a construção de soluções singulares referidas às modalidades de amarrações borromeanas que enodam corpo, sintoma e gozo.

Assim, a clínica hoje aponta para a relação de cada um desses falantes com o real e com aquilo que foi abolido pela representação significante. E por essa via, o Núcleo de Investigação de Psicanálise e Saúde Mental propõe desenvolver no primeiro semestre de 2021 investigações sobre o lugar da interpretação hoje na clínica. Para tanto, partiremos de estudos teórico-clínicos que investiguem as articulações possíveis da interpretação em relação aos falantes que permitam novas formas de lidar com o sofrimento, com o mal-estar e com os sintomas.

Orientados pelo ensino de Lacan e pela referência de Freud em Caminhos da terapia psicanalítica em que se admite “a incompletude do nosso conhecimento” (Freud, 2016, p. 191), convidamos a todos para investigações que apontem para inovações técnicas e, nesse contexto, produzirmos uma releitura da interpretação.

 

Referências Bibliográficas:

1 - CAROZ, Gil. Interpretação/Leitura.  In: Scilicet Um real para o século XXI. Textos preparatórios para o IX Congresso da AMP.

2 - DASSEN, Florencia. Falasser. In: Scilicet Um real para o século XXI. Textos preparatórios para o IX Congresso da AMP.

3 - FREUD, S. (1919 [1918]). Caminhos da terapia psicanalítica. In: IANNINI, G; TAVARES, P.H. (0rgs.) Fundamentos da Clínica Psicanalítica. Coleção Obras Incompletas de Freud. 2. Ed. Belo Horizonte, 2019.

4 - J.A-Miller. “Ler um sintoma”, disponível em: <http://www.ebpsp.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=579:ler-um-sintoma-jacques-alain-miller&catid=23:textos&Itemid=54>. Acesso em 22/11/2020.

 

 

1º semestre 2021

 

Dia 01 de março

Aula Inaugural

Às 20:00 horas

Pelo Zoom

           

Dia 16 de março

Seminário Teórico: Da escuta do sentido à leitura do fora de sentido

Apresentação: Cristiana Pittella

Comentário: Andréa Guisoli Mendonça

Às 20:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 30 de março

Seminário Teórico: A devastação em Lol

Apresentação: Andréa Guisoli Mendonça

Comentário: Sérgio Laia

Às 20:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 20 de abril

Apresentação de caso clínico: O que cabe ao analista na interpretação hoje?

Apresentação: Rosângela Silveira

Comentário: Lúcia Grossi

Às 20:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 18 de maio

Seminário Teórico:  A partir da clínica com crianças, interpreta-se os pais?

Apresentação: Suzana Faleiro Barroso

Comentário: Maria Helena Gonçalves Fonseca.

Às 20:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 01 de junho

Filme: Sonhos

1990 / 1h 59min / Fantasia, Drama

Direção: Akira  Kurosawa, Ishirô Honda

Elenco: Akira Terao, Toshie Negishi, Mitsunori Isaki

Nacionalidades: EUA, Japão 

Apresentação: Mércia Pimenta de Figueiredo

Comentário: Sônia Maria Monção

Às 20:00 horas

Pelo Zoom 

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Medicina

Coordenação: Bernadete Carvalho

Coordenação Adjunta: Márcia Abreu Fonseca 

Inscrições: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Ementa

O Núcleo de Psicanálise e Medicina, nesse 1º. semestre, volta-se muito diretamente para a clínica, buscando estudar, na estabilidade dos relatos de casos, o momento fugaz da intervenção que toca o real do sintoma, este que renova o gozo fora do sentido.

Fazer das contingências da vida e das palavras de um sujeito o momento de uma intervenção psicanalítica depende, como ressalta J. A. Miller[1], da leitura do sintoma. Uma leitura que não quer se deter na decifração das formações inconscientes, o que certamente vivifica o sujeito, mas que o faz tendo em vista o real das satisfações pulsionais.

O que pôde, em cada caso, abalar uma fixação do gozo? Terá sido uma interpretação? Um ato? Um corte? Um equívoco? O que podemos, a cada caso, descobrir a respeito do que pôde operar? E em qual conjunção, para não esquecer da transferência?

Na interface com a medicina, os sintomas se manifestam muitas vezes no corpo, passando ao largo do inconsciente e endereçando-se ao médico.  Revisitaremos, assim, a condução médica que, favorecida por uma suposição de saber, permite a entrada do analista, quando o próprio médico é tocado pelo gozo do sintoma.

Sob o ângulo do trabalho propriamente analítico, os sintomas no corpo colocam em cena um gozo que insiste e que, em nossos dias, a cada vez com mais frequência, resiste a uma tradução significante. Sua abordagem traz ao primeiro plano os recursos explorados por Lacan em seu ensino que nos remetem às intervenções mais além do sentido, visando extrair o objeto (a) do Outro e desalojar marcas significantes isoladas, condensadoras de um gozo primitivo.[2]

Trazendo à discussão casos em que fenômenos psicossomáticos ou dores sem lastro orgânico puderam ser tocados, também convocamos os elementos teóricos que nos permitem fazer uma leitura desses acontecimentos.

Dedicamos um espaço para refletirmos sobre práticas contingenciais, nesse momento de distanciamento físico, que apostam, com Bassols, na possibilidade de aproximação subjetiva e do encontro com um analista.

 

[1] MILLER, J.-A. Ler um sintoma. In Opção Lacaniana, nº 70. Ed. Eólia, Junho de 2015.

[2] MONRIBOT, P. L’interprétation lacanienne du symptom. www.sectioncliniquenantes.fr

 

1º semestre 2021

 

Dia 26 de março

Interpretação ou ato psicanalítico

Apresentação: Francisco Paes Barreto

Comentário: Roberto Assis Ferreira

Coordenação: Délcio Fonseca

Às 12:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 16 de abril

Título: Fenomenopsicossomático: a dissolução do sintoma no corpo

Apresentação: Guilherme Ribeiro

Comentário: Tereza Facury

Coordenação: Márcia de Abreu Fonseca

Às 12:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 30 de abril

Titulo: Dor e subjetividade

Apresentação: Santiago Castellanos

Comentário: Cristiane Grillo

Coordenação: Bernadete Carvalho

Às 12:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 14 de maio

Título: Do sintoma médico ao sintoma analítico

Apresentação: Henrique Torres

Comentário: Roberto Assis

Coordenação:  Cristiane Grillo

Às 12:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 28 de maio

Título: Coletivo Efeitos – psicanalistas no cenário da pandemia

Apresentação: Patrícia Spyer e Cristiane Grillo

Comentário: Lilany Pacheco

Coordenação: Guilherme Ribeiro

Às 12:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 11 de junho

Título: A pulsão e a interpretação

Apresentação: Délcio Fonseca

Comentário: Maria do Carmo Dias Batista

Coordenação: Roberto Assis

Às 12:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 25 de junho

Título: A dor sem limites – caso clínico.

Apresentação: Ana Amélia Oliveira Reis de Paula (Serviço de Psicologia do HC-UFMG/EBSERH) e Gustavo Lages (Coordenador médico da Equipe de clínica da dor do HC-UFMG/EBSERH)

Comentário: Sérgio Campos

Coordenação: Márcia de Abreu Fonseca

Às 12:00 horas

Pelo Zoom

 

Dia 09 de julho

Título: Pontuando o caminho percorrido

Apresentação: Bernadete Carvalho

Comentários: Ana Maria Lopes, Cristiane Grillo, Délcio Fonseca, Guilherme Ribeiro, Márcia A. Fonseca, Roberto Assis.

Às 12:00 horas

Pelo Zoom