Diretoria da Seção Clínica


Diretora: Cristiana Pittella

 

Argumento

Atravessados pela pandemia que nos exige o isolamento social, trabalhamos, de modo remoto, no primeiro semestre de 2020, o tema do Unheimlich - em direção ao tema do XXIII Encontro da EBP: O feminino infamiliar, dizer o indizível.

A Seção Clínica, através dos Núcleos de Pesquisa do IPSM-MG, dedicou-se aos diversos modos de apresentação do infamiliar na clínica com as crianças, na toxicomania, nas psicoses e nas articulações com a saúde mental, a medicina e o direito.

O Unheimlich também foi investigado a partir de nossa inquietante situação de confinamento, a saber, as consequências psíquicas de sua presentificação no seio da família. A modalidade atual de encontros virtuais entre analista e analisante, permitiu-nos a articulação do tema pela prevalência do olhar e da voz, orientados pelo que essa clínica nos traz de novo, seus impasses e questões.

As manifestações de Unheimlich colocam assim em jogo a aparição do objeto (a), enquanto real, ali onde a castração deveria estar. Por não encontrar uma tradução simbólica, não ser especularizável, é experimentado como infamiliar, estranho e sem sentido.

O olhar do Outro traz consigo fenômenos de estranheza inquietante e atualiza a experiência de se ocupar a posição de objeto para o Outro, podendo produzir perturbações na relação com o corpo, com o outro, consigo mesmo e com o social. O infamiliar é assim correlato da fantasia ou, ainda, da fantasia raté [1]. O objeto ao ser acionado aparece no campo do Outro e não do sujeito.

Com o discurso analítico, o falasser pode subjetivá-lo como algo próprio que se manifesta na realidade e na familiaridade de seu enquadre fantasmático. Para outros, essas manifestações não encontram uma subjetivação e se exterioriza no Outro que o invade, o persegue, lhe quer mal ou, até mesmo, despedaça seu corpo.

Como podemos articular o feminino ao infamiliar? Como dizer o indizível? O que há de infamiliar no feminino? O que os conjuga e o que os distingue? Nesse segundo semestre de 2020, iniciaremos os trabalhos remotamente, e o feminino será o norte de nossa pesquisa.

O feminino para a psicanálise não é um gênero, é uma novidade e uma direção inventada por Lacan para o “continente negro” freudiano, face ao declínio do Pai e o consequente descentramento do falo enquanto única solução e medida para o desejo e para o gozo. O feminino é um Outro gozo, estrangeiro. Um gozo como alteridade irredutível tanto para o homem como para a mulher, o que torna impossível a simetria e a reciprocidade entre os sexos.

Neste sentido, saímos da lógica binária do significante - da ausência e da presença do falo -, que possibilita a articulação do feminino S1 ao masculino S2. Abre-se um espaço entre o centro e a ausência[2], a saber, entre o centro simbolizado pelo falo - gozo do significante -, e a ausência. Um gozo não-todo, fora da lei significante e que confronta o sujeito com sua própria ausência. O que torna difícil a sua localização pois é contingente, sem representação e solitário. Mais além ou aquém do gozo ordenado pelo significante fálico, ele tende à infinitização. Poderemos investigar quais as consequências psíquicas e clínicas para um sujeito, desse espaço de gozo entre o centro e a ausência.

O gozo feminino, indizível, é concebido como princípio do regime do gozo como tal. O gozo como tal é não edipiano, ressalta J.A-Miller[3]. A feminização do mundo acarreta uma disseminação do gozo não-todo fálico, incidindo nas modalidades do laço social contemporâneo, empurrando incessantemente todo limite.

Iremos investigar as respostas do falasser ao se deparar com o feminino que constitui o próprio gozo. Quais defesas ele erige e quais soluções ele inventa ao real que marca a solidão de todo ser de linguagem. Autorizar-se como um ser falante é autorizar-se no feminino, fazer-se sujeito/autor de sua enunciação.[4]

Pudemos, inicialmente, distinguir o feminino do infamiliar, na medida em que o feminino é da ordem de um gozo não-todo, sem delimitação e fora de qualquer semblante, a saber, sem relação com o Outro. Quanto mais o procuramos do lado do significante, mais o perdemos. Vimos que o infamiliar refere-se ao encontro com o objeto e esse não deixa de estar articulado ao semblante, ao Outro.

Assim, podemos perguntar se o feminino abordado e localizado como infamiliar, não seria um modo de desautorizar e rechaçar a feminilidade? Ou, ainda, um modo de tratar o feminino?[5] Dito de outro modo, uma tentativa de apreendê-lo pelo objeto, a saber, enquadrá-lo numa fantasia? Quais os modos de rechaço ao feminino encontramos na clínica com as mulheres? E na clínica com os homens?

A passagem ao ato, na chamada violência de gênero, a misoginia e a segregação, o que nos ensinam sobre o horror ao feminino? E os novos sintomas, como a anorexia, a bulimia, a toxicomania, o que podem nos esclarecer acerca da recusa ao feminino assim como do gozo autista e do gozo feminino?

A devastação que uma mãe e um homem podem causar à mulher, o empuxo à mulher e as figuras ferozes do supereu, como articular o ilimitado do gozo e diferenciá-los do gozo feminino? A criança entre a mãe e a mulher, o que pode nos revelar acerca da distinção e conjunção do feminino e do infamiliar?

Então, como transmitir algo do feminino, do Um sozinho, que não remete a outro significante?

 

[1] Laia, S. As generalizações do infamiliar e particularidades do feminino, in Seminário preparatório ao XXIII Encontro da EBP, O Feminino Infamiliar, dizer o indizível; in Canal EBP Youtube.

[2] Lacan, Jacques, Seminário Livro 19, ... ou pior pg 117 Zahar Editora

[3] Miller, J.-A, V lição do “Ser e o Um” pg95 (pdf)

[4] Miquel Bassols, Lo femenino, entre centro y ausência, pg35, Grama Ediciones

[5] Laia, Sérgio; Generalizações do Infamiliar e particularidades do feminino, in Seminário Preparatório ao XXIII Encontro EBP, O Feminino infamiliar, dizer o indizível in Canal EBP Youtube


 
NÚCLEOS

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças

Coordenação: Andréa Eulálio

Coordenação adjunta: Cristiane Barreto

Horário: Quartas-feiras às 20:30h

Local: online

Inscrições: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Ementa

Retomando o nosso trabalho de pesquisa e investigação no NPPcri, proposto pelo tema do XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano – “O feminino infamiliar: dizer o indizível” –, privilegiaremos, dessa vez, as incidências do feminino na clínica com crianças. O feminino é um Outro gozo como alteridade irredutível tanto para o homem como para a mulher, o que torna impossível a simetria e a reciprocidade entre os sexos. Ao tratar da sexualidade infantil como um gozo perverso polimorfo, descentrado, o qual nunca será unificado, Freud introduz uma dificuldade particular: como a criança se defende desse gozo sem um código que lhe permita nomear ou significar o que está lhe acontecendo? Como localizar e interpretar esse gozo estrangeiro, feminino, não centrado no gozo fálico? E, ainda, como podemos nos tornar parceiros nesse gozo para que o sujeito encontre sua solução singular?

Sabemos que a transmissão simbólica está marcada por um furo, o qual passa não só pelos significantes já articulados na linguagem, mas, sobretudo, pela lalíngua própria de cada um. Lacan, ao abordar o real do gozo da língua, nomeou o linguajar das crianças que ninguém entende de lalíngua. Assim, perguntamos: como ressoa lalíngua no corpo do sujeito? De que maneira poderíamos articular lalíngua e o feminino?

Dando prosseguimento à nossa pesquisa, no Cereda, sobre “A diferença sexual”, a partir da singularidade dos modos de gozo, indagamos se a criança teria ou não uma relação direta com a posição feminina da mãe. Em relação às fixações precoces da sexuação infantil, como o analista poderá ler as marcas imaginárias, simbólicas e reais de gozo que a criança recebeu e que se depositaram em seu corpo?

Hoje, mais do que nunca, o ser falante é confrontado com a discordância entre o gênero designado e a sua resposta subjetiva, que, ao fazer acontecimento de corpo, fixa um modo de gozo, insuportável devido à sua estranheza. Quais são as versões do insuportável na clínica com crianças? Se o processo de sexuação deixa diferentes marcas no corpo do parlêtre, como lê-las de acordo com o último ensino de Lacan?

 

AGOSTO: Dia 19 - Quarta às 20h30

“Incidências do feminino na clínica com crianças”.

Responsável: Andréa Eulálio

 

SETEMBRO: Dia 9 – Quarta às 20h30

“O buraco negro da diferença sexual”. Texto de Marie-Hélène Brousse (CIEN DIGITAL No 23 – Novembro de 2019) .

Responsáveis: Suzana Barroso e Maria Rita Guimarães

 

SETEMBRO: Dia 23 – Quarta às 20h30

“O insuportável da infância”.

Responsáveis: Cristina Drummond e Aparecida Farage

 

OUTUBRO: Dia 07 – Quarta às 20h30

“A invenção de um menino como defesa diante do empuxo à mulher”.

Responsáveis: Margaret Couto e Cristiana Pittella

 

OUTUBRO: Dia 21 - Quarta às 20h30

“O encontro da criança com o real do sexo”. Comentário sobre o filme “Dor e Glória” de Pedro Almodóvar.

Responsáveis: Cristiane Barreto e Lucia Mello

 

NOVEMBRO: Dia 04 – Quarta às 20h30

“O feminino e o infantil”.

Responsáveis: Tereza Facury e Patrícia Ribeiro

 

NOVEMBRO: Dia 18 – Quarta às 20h30

“O infamiliar entre a mulher e a mãe”.

Responsáveis: Inês Seabra e Alessandra Rocha

 

DEZEMBRO: Dia 02 - Quarta às 20h30

“ O que há do feminino e do (in)familiar em lalangue? ”

Responsáveis: Ana Maria Lopes e Paula Pimenta

 

 

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Psicose

Coordenação: Fernando Casula

Coordenação adjunta: Maria de Fátima Ferreira

Horário: sextas-feiras às 10h

Local: online

Inscrições: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

Ementa

O infamiliar, o indizível e o feminino nas psicoses

Estudamos no semestre anterior as marcas deixadas pelas possíveis incidências do infamiliar na especificidade do campo das psicoses. Lembremos que esse sentimento de estranheza como algo pertencente e derivado do mais íntimo do próprio sujeito, identificado por Freud ao Unheimliche, fora recuperado por Lacan em seu Seminário, livro 10: A angústia, para apontar aquilo que não engana da angustia: a presença do objeto a na vertente real, para além da angustia de castração. Vimos que por não ter à disposição o recurso da fantasia para lidar com o objeto em sua extimidade, o infamiliar se apresenta para os sujeitos psicóticos na vertente da certeza, no real, como signo da presença de um gozo inassimilável e invasivo.

Pois bem, nesse semestre nossa investigação terá como norte o feminino, - tal como Lacan concebe o gozo não todo fálico -, em articulação com o infamiliar. Como se dá essa articulação no campo das psicoses? Esse real inassimilável e indizível que comporta o não todo fálico do gozo feminino é da mesma ordem do real sem lei abarcado pela ausência total da função fálica? Sabemos através das elaborações do caso Schreber, feita por Lacan, que essa ausência da função fálica precipita o empuxo- à -mulher nas psicoses. Podemos correlacionar a feminização na psicose abarcada pelo termo empuxo-à-mulher ao lado feminino do quadro da sexuação lacaniano? Poderíamos localizar o empuxo-à-mulher nas psicoses ordinárias? Encontramos, na prática clínica, quadros psicóticos predominantemente femininos por excelência, dentre eles destaca-se a Erotomania. Nestes casos, de Erotomania, estaríamos diante do feminino? Em que medida a forma erotomaníaca do amor feminino[1], maneira característica de relação com o objeto - em contraposição a forma fetichista masculina – se converge com a psicose erotômana? Essas questões estão contempladas e servem de fio condutor à investigação proposta pelo programa do Núcleo para o segundo semestre. Sejam bem vindos e bom trabalho!

[1] LACAN, J. Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina. In.: Escritos, Rio de Janeiro, Zahar, 1998. P. 742

 

AGOSTO: Dia 21 – Sexta às 10h

“O infamiliar e o feminino nas psicoses”

Responsável: Fernando Casula 

SETEMBRO: Dia 4 - Sexta às 10h

“Schreber: O empuxo à mulher não é o feminino”

Apresentação: Elisa Alvarenga

Comentários: Beatriz Espirito Santo 

SETEMBRO: Dia 18 – Sexta às 10h

Apresentação de Pacientes de Lacan. Caso Mademoiselle “B”

Comentários: Paula Pimenta e Juliana Motta 

OUTUBRO: Dia 9 - Sexta às 10h

“Erotomania: modo de amor feminino ou empuxo-à-mulher?”

Filme: “Um Instante de Amor” Nicole Garcia (2016) Festival Varilux de cinema francês.

Comentários: Frederico Feu e Fernando Casula 

OUTUBRO: Dia 23 - Sexta às 10h

Psicose Ordinária, o empuxo à mulher e o feminino.

Apresentação: Rômulo Ferreira

Comentários: Laura Rubião 

NOVEMBRO: Dia 6 - Sexta às 10h

“O infamiliar e o feminino”

Apresentação: Iordan Gurgel

Comentários: Graciella Bessa 

NOVEMBRO: Dia 20 - Sexta às 10h

Conversação sobre o trabalho de investigação do ano 2020

Apresentação: Maria de Fátima Ferreira

 

 

Núcleo de Pesquisa Investigação em Psicanálise e Toxicomanias, Alcoolismo

Coordenação: Marcelo Quintão

Coordenação adjunta: Maria Wilma Faria

Horário: terças-feiras às 20h30

Local: online

Inscrições: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Ementa

Para Miller a toxicomania impõe ao analista a modéstia, uma vez que o toxicômano lhe traz um sintoma sobre o qual os efeitos da fala podem parecer sem pega, ao proporcionar um curto-circuito que não passa pelo Outro, sem mediação da linguagem. Chega a afirmar que aí se trata de um saber negativo. Para não recuarmos diante de um gozo autoerótico não significantizável, como pensá-lo então, no contexto do gozo não todo? Poderá o infamiliar indicar um caminho?

 

AGOSTO: Dia 25 – terça às 20h30

“O infamiliar e o feminino nas toxicomanias”

Marcelo Quintão

 

SETEMBRO: Dia 15 - terça às 20h30

"O empuxo das adicções e a foraclusão generalizada"

Jésus Santiago

 

SETEMBRO: Dia 29 - terça às 20h30

Retorno aos clássicos - "Para uma investigação sobre o gozo autoerótico" (J.-A. Miller)

Maria Wilma e Cláudia Generoso

 

OUTUBRO: Dia 27 - terça às 20h30

“Uma escuta clínica e um recorte do feminino na perspectiva da Redução de Danos” Daniela Dinardi e Júlia Abreu Mata Machado

 

NOVEMBRO: Dia 03 - terça às 20h30

“Uso de drogas e devastação: indagações a partir de uma autobiografia” (Livro: Rita Lee - uma autobiografia)

Cristina Nogueira e Andrea Eulálio

 

NOVEMBRO: Dia 24 - terça às 20h30

Comentário sobre o filme: O casamento de Rachel

Lilany Pacheco e Rachel Botrel

 

 

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Direito

Coordenação: Mônica Campos Silva

Coordenação adjunta: Kátia Mariás

Horário: sextas-feiras às 10h30

Local: online

Inscrições: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Ementa

O feminino e o fora da lei

O trabalho de pesquisa e investigação do Núcleo de Psicanálise e Direito no segundo semestre de 2020, prosseguirá investigando o feminino e sua relação com o infamiliar. Partiremos de uma discussão sobre o feminismo e feminicídio, visando localizar como ambos se constituíram como resposta no contemporâneo. Assim, com o feminismo, seria possível localizar que o “empoderamento” obedece a uma lógica significante fálica, mantendo assim o mal-entendido entre as políticas de gênero e a psicanálise sobre o feminino? Por sua vez, no que se refere ao feminicídio, o que excede, o que extrapola quando o resultado é a violência?

Outra questão para nossa pesquisa é o aumento da criminalidade entre as jovens e mulheres, o que isso quer dizer? Como pensar as concessões que podem ser feitas no campo do feminino levando a uma infinitização e, muitas vezes, como consequência, ao pior? Para tanto, seguiremos a orientação de Lacan sobre os discursos: da lei, da função da lei como uma organização fálica, ou seja, do falo como o que orienta o gozo, mas também o discurso sobre um gozo Outro, este que escapa ao regime fálico, estando localizado do lado feminino. De saída temos o fato que, mesmo orientado pelo falo há o que resta, pois também a lógica fálica deixa furos e restos e, “nesses restos, reside para a psicanálise, o lugar do feminino.”

 

AGOSTO: Dia 28 - sexta às 10h30

Abertura – “O feminino e a lei”

Apresentação: Mônica Campos Silva

 

SETEMBRO: Dia 11 – sexta às 10h30

“Os crimes sexuais e os movimentos feministas”

Apresentação: Heloísa Caldas e Maria José Gontijo

 

OUTUBRO: Dia 02 – sexta às 10h30

“O feminino e o ato infracional nas adolescentes em conflito com a lei”

Apresentação: Thais Limp

Comentários: Maira Freitas

 

OUTUBRO: Dia 30 - sexta às 10h30

Filme: Um amor impossível (2019, direção: Catherine Corsini, baseado no romance de Christine Angot)

Comentários: Márcia Rosa

 

NOVEMBRO: Dia 13 - sexta às 10h30

Conversação da pesquisa sobre o Feminino e o Fora da Lei

Apresentação: Kátia Mariás

 

 

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental

Coordenação: Andréa Guisoli Mendonça

Coordenação Adjunta: Rosângela Silveira

Horário: terças-feiras às 20h

Local: online

Inscrições: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Ementa

Do gozo devastador ao possível da clínica psicanalítica

Para Freud, aquilo que causa estranheza ao sujeito não obstante, já lhe é familiar. O sentimento do estranho é proveniente de onde o estranho coincide, justamente, com o mais íntimo e familiar, recalcado. No início de sua clínica, Freud já demonstrava, com suas pacientes histéricas e seus sintomas que o sujeito, ali experimentava em seu corpo algo da ordem do desconhecido (FREUD, 1919). Tais sintomas, inapreensíveis, careciam de uma simbolização e insistiam em retornar. Aqui podemos relacionar ao que Lacan dirá sobre o encontro do sujeito com a linguagem, o quanto esta experiência lhe é estranha e que tem como resultante o gozo, aquilo que, sendo inapreensível pelo sujeito, retorna a partir do real (LACAN, 1985).

Será o feminino, enquanto uma posição – para além da determinação biológica - a demonstrar o quanto este gozo pode ser devastador, pois encontra-se deslocalizado, ilimitado, já que não é todo submetido à lógica fálica (BASSOLS,2020). Na atualidade, os efeitos deste gozo desmedido são traduzidos por um imperativo: Goza!. Nossa civilização, sem referência a um significante mestre (S1), responde a este imperativo e seus efeitos são percebidos na variedade dos laços sociais. No campo da saúde mental, onde prevalece a prática dos protocolos, como operar a partir da referência da não existência do significante mestre? Nessa mesma direção, pergunta-se: quais as consequências para a clínica contemporânea marcada pela queda dos ideais e pela feminização do mundo? Como pensar o feminino na clínica das psicoses?

REFERÊNCIAS:

BASSOLS, M. Lo feminino más allá de los géneros. Disponível en: https://www.eitb.eus/es/radio/radioeuskadi/programas/vivirparaver/detalle/7037871/miquel-bassols-lo-femenino-generos ———–/Acesso em 27/06/2020.

MILLER, J. Alain. Uma partilha sexual In: Clique: Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise de Campo Freudiano – O sexo e seus furos – n.1 (abr 2002) – Belo Horizonte: Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, 2003, p. 13-29.

FREUD, Sigmund. (1919). O Estranho. In: Edição Standart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XVII, Rio de Janeiro:Imago Ed.1990.

FREUD, Sigmund. O infamiliar. [Das Unheimliche] Trad. Ernani Chaves, Pedro Heliodoro Tavares [O Homem da Areia; tradução Romero Freitas]. (Obras Incompletas de Sigmund Freud, 8) 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.

 

AGOSTO: Dia 25 – terça às 20h

“Do gozo devastador ao possível da clínica psicanalítica”

Apresentação: Andréa Guisoli Mendonça e Rosângela Silveira

 

SETEMBRO: Dia 15 – terça às 20h

“O que há de estranho no gozo feminino?”

Apresentação: Graciella Bessa

Debatedora: Rosângela Silveira

 

OUTUBRO: Dia 3 – terça às 20h

Cinema comentado: “A Garota Dinamarquesa” - Direção de Tom Hooper, com Eddie Redmayne e Alicia Vikander.

Comentários: Maria Helena Gonçalves Fonseca e Lílian Ramos V. Amaral

 

OUTUBRO: Dia 27 – terça às 20h

“A devastação na psicose, Lol V. Stein”

Apresentação: Andréa Guisoli Mendonça

Debatedor: Sérgio Laia

 

NOVEMBRO: Dia 17 – terça às 20h

“O feminino em Gide”

Apresentação: Cristina Drummond

Debatedora: Mércia Pimenta de Figueiredo

 

DEZEMBRO: Dia 15 – terça às 20h

“Efeitos da feminização no mundo”

Apresentação: Simone Souto

Comentários: Jeannine Narciso

 

 

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Medicina

Coordenação: Bernadete Carvalho

Coordenação Adjunta: Márcia Abreu Fonseca

Horário: sextas-feiras às 12h

Local: online

Inscrições: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Ementa

Neste semestre evocamos a noção de feminino na psicanálise, com a heterogeneidade que ela designa e a estranheza que a acompanha, para demarcarmos sua especificidade e também para explorar os recursos que ela nos oferece para pensar o insólito de certos acontecimentos.

Para nos aproximarmos da noção de feminino, experimentaremos contrastá-la com o conceito de gênero e de feminismo, situá-la no contexto da maternidade e questioná-la a partir do declínio da função paterna e do discurso do capitalista.

De outra forma, experimentaremos sua utilização na análise de parcerias violentas, da sexualidade trans e da recusa anoréxica.

Colocamos em discussão as coordenadas psicanalíticas do gozo feminino e sua contribuição na elucidação do contemporâneo.

 

AGOSTO: Dia 21 – sexta às 12h

“O feminino para além do gênero”

Apresentação: Cristiana Pittella.

Comentário: Délcio Fonseca

 

SETEMBRO: Dia 04 - sexta às 12h

“Devastação e maternidade em Pagu”

Apresentação: Juliana Motta

Comentários: Ana Maria Lopes

 

SETEMBRO: Dia 18 – sexta às 12h

“A recusa do feminino na anorexia”

Apresentação: Roberto Assis e Maria Bernadete de Carvalho

 

OUTUBRO: Dia 02 – sexta às 12h

“Experiências trans e contornos do indizível”

Apresentação: Alexandre Costa Val e Miguel Castro.

Comentário: Cristiane Grillo

 

OUTUBRO: Dia 16 – sexta às 12h

“O que dizem as mulheres que vivem relações violentas?”

Apresentação: Márcia Alves (Secretaria Municipal de Segurança e Prevenção)

Debatedora: Mônica Campos

 

OUTUBRO: Dia 30 – sexta às 12h

O feminino e a maternidade na experiência do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas – UFMG - EBSERH

Apresentação: Francisco de Assis

Comentários: Márcia Abreu Fonseca

 

NOVEMBRO: Dia 13 – sexta às 12h

“O feminino e o amor no declínio da função paterna”

Apresentação: Nieves Sória

Debatedora: Mônica Lima

 

NOVEMBRO: Dia 27 – sexta às 12h

“O feminismo é feminino?”

Apresentação: Maíra Moreira

Comentário: Jésus Santiago