O encontro com um psicanalista hoje

 

                                                                  Cristiana Pittella- Diretora de Seção Clínica

Neste 2º semestre continuaremos nossas investigações sobre o acontecimento de corpo político, destacando, entretanto, a psicanálise hoje. Recortaremos no tema, mais detalhadamente, o encontro com um psicanalista hoje.

Pudemos verificar em nossas pesquisas que, por estarmos atualmente em face à tirania do gozo, a subjetividade de nossa época reivindica e exige seus direitos. Um deles, como pudemos abordar em nossa XXV Conversação, é o da despatologização generalizada, ancorada naquilo que um sujeito diz que é ou que quer ser.

Escuta-se o dizer ao pé da letra com a pretensão de equivaler o falasser às bases biológicas. A linguagem da ciência biologicista aliada ao discurso capitalista, reduz a língua a uma univocidade, com a presunção de que ela seja sem equívocos e mal-entendidos.

Jacques-Alain Miller (1) ressalta que a própria psicanálise é, por um lado, repercutida nessa ideologia, em consequência da importância que, enquanto psicanalistas, concedemos à escuta. Mas, por outro lado, ele alerta que essa ideologia apaga completamente a psicanálise, suas possibilidades da palavra do Outro, a saber, do inconsciente e da interpretação.

O que um psicanalista escuta naquilo que se diz? O que distingue sua fala, interpretação e ato?

O psicanalista não é indiferente, ele não é aquele que não escolhe, pois tem uma ética (...) e ela inclui, de bom grado, a política (2).

Dar a palavra ao que marcou as primeiras experiências íntimas de gozo e também às experiências e sensações bizarras que emergem nos diversos momentos de uma vida, é dar lugar ao sinthoma enquanto um acontecimento de corpo. O choque traumático da língua (lalíngua) com o corpo, sua reverberação irremediável de gozo, é apreendida a partir do furo, da borda (letra) que enlaça o corpo e a linguagem.

É no encontro com um psicanalista, que o inconsciente - a língua de cada um (lalíngua) e sua ressonância -, pode restabelecer o laço da palavra, lá onde ela foi cortada do corpo tomado enquanto biológico/anatômico.

Essa é uma experiência política, a do falasser, que mantém a psicanálise presente!

Experiência única, em que cada um caminha face aos seus próprios enigmas, ao ler, interpretar e encontrar uma resposta singular enraizada no gozo do corpo, no sinthoma, perante o empuxo da ordem de ferro do discurso normativo.

Cada um dos seis Núcleos do IPSMMG encontra-se assim rumo ao XXIV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano - Analista: Presente! -, que acontecerá em novembro deste ano.

Enquanto psicanalistas, nossa presença é convocada pelo retorno do real, dimensão que se impõe, nos diversos sofrimentos, sintomas e angústias contemporâneas.

O que há de novo no encontro com um psicanalista hoje?  Vamos investigar os efeitos, impasses, dificuldades, consequências e possibilidades dessa presença.

A subjetividade de nossa época ao tentar romper com a noção de corpo falante, como se não houvesse diferença entre o significante e o significado, entre a palavra e o real, nos atualiza o retorno à Freud, orientação de Lacan em 1953, quando ele endereça, em seu texto Função e campo da fala e da linguagem, uma injunção aos psicanalistas:

“Que ele conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra continua de Babel, e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas” (3).

J.-A.Miller enfatiza nessa passagem(4) a importância do psicanalista conhecer o momento em que se encontra da história, sua época e, sobretudo, que é em torno de um furo que a espiral o arrasta.

Pressuposto da topologia, o toro, que Lacan já vinha na ocasião exercitando (5).

Lacan também torna presente nesse texto as premissas de lalíngua e da letra: “caso seu discurso não viesse a ser nada além de um vagido (balbucio), ao menos ele colheria ali o auspício de renovar em sua disciplina os fundamentos que ele retira da linguagem” (6). E o finaliza, invocando a súplica dos noviciados à Prajapati:  “Fala-nos!; e o senhor do Trovão (Prajapati) lhes responde: Da, Da, Da...”(7).

Esse furo da inexistência da relação sexual impossibilita a existência de uma língua única, sem equívocos e mal-entendidos. É com o aparelhamento da linguagem que contamos para amarrar o real, o simbólico e o imaginário, como suplência do natural que não há. E o que vem no lugar da relação sexual que não se escreve na estrutura, é o sinthoma.

Quais as invenções de um psicanalista face aos impasses da civilização, da discórdia da ordem simbólica contemporânea? Como o psicanalista faz uso dos significantes mestres para ocupar o lugar de um parceiro que tenha a chance de responder? (8). Lugar subversivo, e cujo discurso é o avesso do discurso do mestre?

O encontro com um psicanalista não coloca em jogo só as palavras, mas, sobretudo, a presença dos corpos. Como o inconsciente se apresenta nesse encontro?  Inconsciente real ou há uma abertura ao sujeito suposto saber? O psicanalista é um parceiro do gozo?

O que estamos recolhendo, achados e impasses, dos encontros com um psicanalista nos atendimentos on-line? Como o psicanalista se faz presente nestas modalidades virtuais?

Como o ato de um psicanalista afeta o sintoma? Dá-lhe uma forma? O circunscreve? Quais os destinos do sintoma no encontro com um psicanalista?

Quais os efeitos desse encontro: uma divisão subjetiva? Resgatar a dignidade do sujeito separando-o da posição de objeto? Resgatar a dignidade sinthomática? Fazer perceber a distinção entre o que se demanda e o que se deseja? A localização e responsabilização por um modo de gozo? Tratar-se-ia de provocar a vergonha face ao imperativo de gozo?

Como o encontro com um analista perturba a defesa e atualiza o trauma como furo? Provoca a queda de uma identificação? A desobstrução de uma nomeação? Ou ainda, fura as bolhas de certeza?

Esse encontro produz uma atenuação da potência de um S1 ou da rigidez da cadeia significante? Uma ajuda-contra? Como um psicanalista faz valer o furo e o não-todo?

Como o psicanalista responde face dos protocolos e à gestão neo-liberal?

Essas são apenas algumas das questões anotadas em nossos encontros.

E para dar a largada às nossas investigações, evocamos com Jacques-Alain Miller, que não há contra-indicação ao encontro com um psicanalista.


(1) MILLER, J.-A., L’écoute avec et sans interpretation, Lacan Web Télévision. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=F56PprU6Jmk

(2) Miller, J.-A., Ponto de Basta, Opção Lacaniana no. 79, Julho 2018

(3) LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem. In: Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. p.322, 1998

(4) Para se esquematizar os limites do vivente e seu meio, Lacan escreve: “fornecer dele uma representação intuitiva, parece que, mais que à superficialidade de uma zona, é à forma tridimensional de um toro que convida a recorrer, na medida em que sua exterioridade periférica e sua exterioridade central constituem apenas uma única região” LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem. In: Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.322, 1998.

(5) Nessa passagem Lacan refere-se ao que “Aulo Gélio, em suas Noites Áticas, dera ao local chamado de Mons Vaticanus a etimologia de vagire, que designa os primeiros balbucios da fala”. LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem. In: Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.239, 1998.

(6) LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.324, 1998.

(7) MILLER, J.-A., Ponto de Basta. In: Opção Lacaniana. No. 79, Julho de 2018

(8) Laurent, E. Le symbolique au XXI siècle. Revue La cause freudienne, no. 76, Navarin Éditeur.

 

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