Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Psicose

Coordenação: Fernando Casula

Coordenação Adjunta: Maria de Fátima Ferreira 

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Interpreta-se a psicose? E o autismo?

 

EMENTA

Miller, em “monólogo de la apalabra”, ressalta que “a palavra psicótica é a que toma para si mesma a interpretação a seu cargo, ao menos na versão paranoica, e que se apoia como mestre do sentido até poder, na esquizofrenia, denunciar o semblante social em suas últimas defesas”[1]. A interpretação está do lado do sujeito psicótico, que a faz de modo incessante tal como uma máquina[2]. Se a interpretação está a cargo do sujeito, qual a função do analista na condução do tratamento?

Lacan, no Seminário 3, sobre as psicoses, diz que cabe ao analista a função de secretário. Ouçamos: “Vamos aparentemente contentar passar por secretários do alienado [...]. Pois bem, não só nos passaremos por seus secretários, mas tomaremos ao pé da letra o que eles nos contam – o que até aqui foi considerado como coisa a ser evitada”[3]. Cabe ao analista se fazer de destinatário do signo ínfimo do paciente. Com esses signos sustenta-se seu trabalho de construção. “A manobra analítica não consiste, portanto, em um mero registro, em um secretariado; tampouco se trata de socializar”[4] Trata-se, enfim, de ler de que maneira o sujeito enfrenta o gozo que o esmaga rumo a construção de uma metáfora delirante. 

Se no início de seu ensino, Lacan reservava ao analista a função de secretário, tal como especificado acima, essa se amplia no entardecer da obra. Neste, o essencial é o saber fazer com, savoir-y-faire, saber de improviso, um se virar em cada situação, nas quais, longe de se deixar levar no movimento delirante, prioriza-se o recentramento do sujeito nos fenômenos elementares, os S1 isolados que se impõem ao sujeito psicotizado, sem deixar inflar o delírio[5].

Miller indica em que sentido o conceito de interpretação no último ensino de Lacan é tributária ao que as psicoses ensinam, ouçamos: “o avesso da interpretação consiste em cercear o significante como fenômeno elementar do sujeito, como anterior a sua articulação enquanto formação do inconsciente, que lhe dá sentido de delírio”[6]. Estamos no tempo em que a interpretação é tomada enquanto decifração, que não produz sentido. Psicose aqui, como alhures, desnuda a função alusiva da interpretação, localizando seu horizonte para além do marco simbólico, evidencia-se, portanto, a operação de capturar o real.

Nossa investigação do semestre se propõe percorrer, a partir do trabalho clínico, o alcance que alude o termo interpretação no ensino de Lacan considerando o que as psicoses nos ensinam.

Utilizaremos as referências teóricas citadas nesta ementa.

Sejam todos bem vindos, e bom trabalho!   

[1] Miller, J-A.  La fuga del sentido. Buenos Aires: Paidós; 2012. P. 146.
[2] O termo máquina aqui alude ao texto de Tarrab, M. As psicoses e a máquina de interpretar. In.: Opção Lacaniana 80/81. P. 87 a 90.
[3] O Seminário, livro 3: as psicoses. (1955-56) Rio de Janeiro: Zahar; 1985. P. 235.
[4] Miller, J-A. Efeito de retorno à psicose ordinária. In.: A psicose Ordinária: convenção de Antibes. Belo Horizonte: EBP, Scriptum;2012. P. 406.
[5] Holvoet, D. Verbete Direção (do tratamento). In.: Scilicet: As psicoses ordinárias e as outras – sob transferência. São Paulo: EBP, 2018. ps. 132 a 134.
[6] Miller, J-A. A interpretação pelo avesso. In.: Opção Lacaniana nº 15

 

Programa - 1º semestre 2021

 

Dia 05 de março

Abertura: Interpretações nas psicoses

Apresentação: Fernando Casula.

Coordenação: Maria de Fátima Ferreira

Às 10:00 horas

Pelo Zoom          

 

Dia 19 de março

“As psicoses e a máquina de interpretar”

Apresentação: Maurício Tarrab

Comentários: Henri Kaufmanner

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 09 de abril  

Caso clínico de Oscar Ventura: “Una mujer pródiga”

Apresentação: Helenice de Castro

Comentários: Cristiane Barreto

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 23 de abril

Apresentação de caso publicado: Efeitos de interpretação da palavra do juiz em um caso de psicose.

Apresentação: Gabriela Mansur

Comentários: Fernanda Otoni

Atividade em parceria com o Núcleo de Psicanálise e Direito

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 07 de maio

Interpretação herética e acontecimento de corpo nas psicoses

Apresentação: Sérgio Laia

Comentários: Cristiana Pittella

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 21 de maio

Interpretação no autismo: Comentário do filme “A céu aberto”

Apresentação: Ana Martha Maia

Comentários: Suzana Barroso

Coordenação: Paula Pimenta

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 11 de junho

Caso senhor MH: uma entrevista de Lacan

Apresentação: Marcia Rosa

Comentários: Rodrigo Almeida

Às 10:00 horas

Pelo Zoom  

 

Dia 25 de junho

Conversação sobre a investigação do semestre

Apresentação: Maria de Fátima Ferreira

Às 10:00 horas

Pelo Zoom