“Dora” E As “Maridas”: Duas Tentativas De Abordar O Feminino A Partir Do Amor Ao Pai

MARIA AMÉLIA TOSTES

 

 

Da Histeria Ao Feminino: O Desafio Que Dora Nos Propõe

“A histeria não se manifesta apenas como uma neurose, mas, também, como uma maneira de colocar a problemática da feminilidade” (ANDRÉ, 1991, p. 114). Fazer conversar em uma mulher a histeria com o feminino é o desafio que Dora[1] nos requisita desde quando, aos 18 anos de idade, em 31 de dezembro de 1901, em plena virada para o século XX, ela comunica a Freud que vai lhe deixar, e esse seu gesto provoca a pergunta: o que quer uma mulher?

No vigor do ideário iluminista, quando o papel social da mulher estava sendo fortemente alinhavado ao da “boa mãe” e ao da competente dona de casa (ANDERSON e ZINSSER, 2009), Dora é conduzida por seu pai até Freud para que este a colocasse “no bom caminho” (FREUD, 1989, p. 33). Dora não vinha se mostrando uma moça de bom comportamento, pois estava irredutível na exigência de que seu pai rompesse o relacionamento que mantinha com o Sr. e a Sra. K, dois antigos amigos de sua família. Sem contar que já fazia algum tempo que Dora começara a dar sinais de “abatimento, irritabilidade e ideias suicidas” (Ibidem, p. 32).

Dora é diagnosticada por Freud como uma histérica, mas uma histérica diferente das outras. Em correspondência a Wilhelm Fliess[2], quando Freud rascunhava o que é hoje conhecido mais como Caso Dora, ele diz: “de qualquer forma, é a coisa mais sutil que já escrevi, e produzirá um efeito ainda mais aterrador que de hábito” (Ibidem, p. 13).

A novidade que Freud percebe em Dora, inicialmente, tem a ver com a simplicidade de sua histeria que, ao invés dos clássicos “estigmas de sensibilidade cutânea, limitação do campo visual ou coisas semelhantes”, apresenta-se carregada de manifestações corriqueiras do cotidiano que se prestarão ao esclarecimento dos fatos “mais comuns” e “sintomas mais frequentes e típicos” da doença (Ibidem, p. 31).

Freud só se dá conta de que a simplicidade sintomática de sua paciente escamoteava, na verdade, uma complexidade inédita em sua clínica de histeria quando, com cerca de três meses de tratamento, Dora lhe comunica sua decisão de abandonar a análise – “hoje estou aqui pela última vez” (Ibidem, p. 101), – frustrando as expectativas de Freud, que previa que seu “pleno restabelecimento talvez requeresse um ano” (Ibidem, p. 113).

A saída de Dora “em circunstâncias peculiares” de seu processo analítico (Ibidem, p. 92) vai merecer de Freud algumas elaborações, as quais seguirão basicamente por dois vieses: o transferencial – “fui surpreendido pela transferência” – e o que ele chamou de seu “erro técnico”, que estaria relacionado à sua demora em notar a “moção amorosa homossexual pela Sra. K” por parte de Dora (Ibidem, p. 113).

Ambos os caminhos trilhados por Freud para tentar entender por que Dora o abandona demonstram que sua paciente lhe apresentara em análise questões que lhe demandavam novas ferramentas de trabalho. A moça não desmaiava nem se contorcia como as outras da sua época e sua rebeldia se deslocava do corpo todo para se concentrar, sobretudo, na língua – uma língua afiada. Dora desdenhava das laboriosas interpretações de Freud: “ora, será que apareceu tanta coisa assim?”, perguntou ela depois que Freud lhe esmiuçara, durante duas sessões inteiras, ponto por ponto do seu segundo sonho (Ibidem, p. 101).

Mas é justo nas interpretações que Freud faz à sua paciente sobre esse seu segundo sonho que ele expõe a sua dificuldade em perceber que a pergunta que Dora dirigia ao dicionário, após a morte do pai, no sonho, era a mesma que ela encaminhava a Sra. K e demandava saber de Freud: “o que é uma mulher?” (LACAN, 1956-57/1995, p. 144). Assim é que a pergunta fundamental de uma mulher fora formulada, em análise, por uma histérica – aquela que está mais para o masculino do que para o feminino.

Dora É Aquela Que Ama Seu Pai

Ao interrogar sobre o seu sexo, Dora expõe a insuficiência do falo paterno para lhe dar o que lhe falta. No caso de seu pai, tratava-se de uma impotência concreta. “O pai, que é feito para ser aquele que dá, simbolicamente, esse objeto faltoso, aqui, no caso de Dora, ele não o dá, porque não o tem” (LACAN, 1956-57, 1995, p. 142). Contudo, Dora destina um amor a seu pai “correlativo e coextensivo à diminuição deste (dom viril)” (Idem). Ou seja, quanto menos seu pai podia lhe oferecer como falo, mais Dora encobria essa impotência com o seu amor, como é próprio da relação amorosa na qual o falo, tal como o dom, é dado em troca de nada. “A carência fálica do pai atravessa todo o caso como uma nota fundamental”, e Dora ama seu pai “precisamente pelo que ele não lhe dá” (Ibidem, p. 143).

Ocorre que Dora não sabe “o que ela é, não sabe onde se situar, nem onde está, nem para o que serve, nem para que serve o amor” (Ibidem, p. 149). Sua posição é daquela que possui uma questão: “o que é que meu pai ama na Sra. K?” (Ibidem, p. 143). Dora se situa em algum ponto entre seu pai e a Sra. K. Mas existe ainda a figura do Sr. K, que é com quem Dora se identifica, enxergando nele a sua própria condição: a de ponte para um mais além do amor – do pai, no caso de Dora, e da Sra. K, no caso do Sr. K. A triangulação se dá, então, entre Dora, o Sr. K e a Sra. K. O pai de Dora fica de fora, na condição de Outro por excelência (Ibidem, p. 145-46).

A situação permanece equilibrada até que o Sr. K diz a Dora, na “aventura do lago”, que ele não tinha mais nada com sua mulher, e Dora lhe esbofeteia o rosto (FREUD, 1989). Para Lacan (1956-57/1995), essa atitude de Dora é da ordem do insuportável de ser tolerado por ela, pois, ao se identificar com o mesmo lugar ocupado pelo Sr. K, de forma invertida, ela se vê não sendo nada, igualmente, para seu pai. Dora, conforme diz Lacan, é aquela “que ama seu pai” (Ibidem, p. 143). Ela o ama em troca de nada, como é próprio do amor em seu sentido mais primitivo, mas ela não pode se imaginar não significando nada para ele.

Dora, uma histérica, inaugura o século XX perguntando o que é ser uma mulher a partir de um amor endereçado ao pai. É por amor, então, que Dora quis saber sobre o seu sexo, no século passado, em um tempo em que as mulheres enfrentavam pesados obstáculos quando não se contentavam em ocupar apenas a sala de estar. O cenário feminino global mudou desde então, e o tradicional “sexo frágil” se impõe hoje como força motriz fundamental da vida social, política e econômica das sociedades ocidentais, podendo-se constatar, sem nenhuma estranheza, que, atualmente, “o mundo é das mulheres[3]”.

As “Maridas” E A Falência Do Pai

É em meio a essa feminização atual que nos deparamos com um comportamento que nos chama a atenção: elas são vistas sempre em par – onde uma está, a outra está por perto. São inseparáveis. Frequentam a night, mas também curtem os parques, os saraus, as feiras, a rua. Estão em dia com a moda e com o mundo fashion. São absolutamente contemporâneas: ficam à vontade com seus corpos e transitam com desenvoltura pelos espaços urbanos. Elas são amigas de todas as horas e ocasiões. Sentem-se protegidas e confiantes quando estão juntas. São companheiras, cúmplices, confidentes, sedutoras e carinhosas uma com a outra. São namoradas? Não. Elas são heterossexuais e fazem sexo com parceiros de ocasião. Às vezes elas dividem o mesmo parceiro, quando ele cai nas graças de ambas. Atestam não competir entre si nem sentir ciúmes uma da outra. Os homens são coadjuvantes nessa relação de “maridas” – como elas definem esse tipo de compromisso com a melhor amiga.

Nessa suposta divisão de funções – amorosa e sexual –, as “maridas” são enfáticas ao afirmar que “pegam, mas não se apegam” aos homens, pelo menos facilmente. Elas podem se desgrudar uma da outra quando surge um namoro sério que acaba em casamento. Mas garantem que nunca se desvencilham por completo, porque felicidade mesmo é ser casada com a melhor amiga[4].

As “maridas” exibem uma atuação feminina da ordem do dia, em que a parceria entre as duas mulheres aparenta se estabelecer pelo viés afetivo desvinculado do sexual e dos homens. Uma clivagem entre amor e sexo, bem conhecida do universo masculino, que agora ganha valor junto a um tipo de público feminino. Não deixa de ser curioso que, no limiar do século XXI, a pergunta “o que é uma mulher” seja feita de mulher para mulher, prescindindo de um Sr. K como intermediário, como no caso de Dora.

Marie Hélène Brousse considera que, tradicionalmente, as histéricas nunca foram as mais adequadas para irem mais além do pai, mas, na sua opinião, o fator decisivo para a variedade contemporânea de atuações entre mulheres com aspectos homossexuais se concentra na queda da figura paterna. Segundo Brousse, o pai, hoje, deixou de ser a figura identificatória fundamental da histérica que, mesmo quando ainda consegue amá-lo, não é um amor capaz de sustentar a impotência paterna como no século passado[5].

Para Lacan, o pai é sempre aquele que possui uma função simbólica, ostenta uma titulação de ex-combatente (ex-genitor) e, ao mesmo tempo, nunca perde a sua condição de “potência de criação”, seja esse pai um doente ou não. No discurso da histérica, o pai desempenha o “papel-pivô, maiúsculo, o papel-mestre” (LACAN, 1992, p. 89) e, mesmo fora de forma, esse pai é capaz de sustentar, “sob esse ângulo da potência de criação, sua posição em relação à mulher” (Idem). É o que Lacan designa como “o pai idealizado” da histérica. O pai de Dora era um pai castrado em sua condição de potência sexual, mas que desempenhava o papel-pivô de toda a estória. Segundo Lacan, todos os casos freudianos de histeria exibem um pai deficiente e, no entanto, completamente atuante sob o ponto de vista da sua função simbólica (Idem).

Considerações Finais

As “maridas” explicitam o quão fora de combate estão os homens de uma forma geral, especialmente no quesito amoroso. Dora amava e idealizava um pai ex-combatente e impotente – como diz Lacan –, e esse amor lhe sinalizava com o lugar da mulher diante do falo como dom em suas parcerias amorosas. Se as “maridas” atestam que, melhor do que amar um homem é amar sua melhor amiga e fazer sexo com um homem, elas talvez estejam mais interessadas em revelar do que encobrir a falta do falo paterno, numa demonstração de que um falo em potencial, como o do pai, não lhes tem mais nenhuma serventia.

Amar uma igual a si e fazer sexo com um diferente de si: eis o que as “maridas” postulam. Estaríamos diante de uma lógica funcional que visa ao melhor custo-benefício de cada gênero? A especialização-setorização-classificação-cientifização da relação amorosa seria o traço moderno desse comportamento de “maridas”? O amor fundamental e nobre, como “coisa de mulheres”, e o sexo desejável, casual e desclassificado, como “coisa de homens”, apontaria para um paradigma de mercado e de consumo no qual se deve buscar no outro apenas o que ele pode oferecer de melhor, uma vez que o sujeito contemporâneo é aquele que não deve se contentar com nada menos do que “o melhor”?

Dora, no século XX, demandava saber sobre o seu sexo pelo viés do amor ao pai como aquele que, potencialmente, poderia lhe dar o que lhe faltava. Tratava-se de um amor na qualidade de um “devir”, portanto – um amor no qual a histérica normalmente acredita como sendo capaz de encobrir a sua falta tal como ela encobre a impotência do pai para si mesma. As “maridas”, nossas contemporâneas, sinalizam que, ao invés de apostarem suas fichas em um falo capenga, que falha e frustra, como é o caso do falo paterno, elas preferem potencializar, por si mesmas, as suas relações com os dois sexos – da melhor amiga elas obtêm o amor; dos homens, o sexo.

Mas, se as “maridas” podem ser tomadas como um desdobramento da falência paterna na contemporaneidade, a ponto de prescindirem da figura masculina para indagar sobre o feminino, não seria o caso de considerarmos o que Lacan nos apresenta, ou seja, de que o pai continua exibindo a sua condição de potência criadora e, como tal, ostentando a sua tradicional condição de figura pivô da estória das histéricas? Isto é: pela via do pai idealizado ou do pai desfalicizado e fragilizado, as histéricas ainda formulariam suas estratégias amorosas a partir do pai?

Por outro lado, esse amor “puro” entre duas amigas “maridas”, no sentido de um sentimento desvencilhado do sexo e da diferença sexual, nos suscita uma outra pergunta: o que é um homem para uma mulher, em nossos dias?

 

[1] Faz-se referência aqui ao nome escolhido por Freud para designar a sua paciente no relato que ele formula em 1901, mas que é publicado em 1905, sob o título “Fragmento da análise de um caso de histeria”.
[2] Conforme Carta 140, de 25 de janeiro de 1901 (Freud, 1901-05, p. 13).
[3] O mundo é das mulheres foi o primeiro programa feminino da TV brasileira realizado na década de 60, pelo canal 5 da antiga TV Paulista, atual TV Globo, que lançou com sucesso a apresentadora Hebe Camargo, já falecida. (http://www.youtube.com/watch?v=cv40-tcU-RQ) Por sua vez, o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva fora ovacionado quando, em junho de 2011, expressou essa frase durante uma cerimônia, em Curitiba, se referenciando ao incremento da presença feminina no Planalto Central. (http://oglobo.globo.com/politica/o-mundo-das-mulheres-diz-lula-2877204)
[4] As “maridas” foram tema da revista Marie Claire número 289, de abril de 2015: uma edição comemorativa dos 24 anos da chegada da revista ao Brasil.
[5] Entrevista disponível em: http://moviepsi.blogspot.com.br/2013/05/entrevista-marie-helene-brousse.html.

 

 


 

Bibliografia
ANDERSON, B. S. e ZINSSER, J. P. Historia de las Mujeres – Una historia propia. Espanha: Editora Critica, 2009.
ANDRÉ, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2a Ed., 1991.
BROUSSE, M-H. [março de 2013] Nodus – L’aperiòdic virtual de la secció clínica de Barcelona. Entrevista concedida a Howard Rouse. Disponível em http://moviepsi.blogspot.com.br/2013/05/entrevista-marie-helene-brousse.html.
Acesso em 10/1/2016.
FREUD, S. (1901-1905) Fragmento da Análise de Um Caso de Histeria. In: STRACHEY, J. (ed.) e RIBEIRO, Vera (trad.), (Vol. 7, 2ª ed.), Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago (versão brasileira de 1989).
LACAN, J. (1956-1957). Dora e a jovem homossexual. In: O Seminário. Livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
LACAN, J. (1969-1970). O Mestre Castrado. In: O Seminário. Livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
“As novas maridas”. Revista Marie Claire. Rio de Janeiro: Editora Globo, número 289, abril de 2015, p. 102 -105.

Maria Amélia Tostes
Maria Amélia Tostes – Aluna do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, jornalista, mestre e doutora em Ciências da Saúde. mameliatostes@uol.com.br (31) 98888 – 7755



Da Solução Do Sintoma Ao Sinthoma Como Solução

LEANDRO MARQUES SANTOS

 

 

O sintoma é o mal do qual o sujeito quer se livrar, e, portanto, é aquilo que o leva a falar a um analista sob a forma de uma demanda. Jésus Santiago, no testemunho de seu passe, fala sobre sua demanda de análise após a morte de seu pai: “sou tomado por intensa angústia, e pela ideia atormentadora de que poderia vir a ficar deprimido e doente como ele. Eis o que me impulsiona para o meu primeiro tratamento analítico” (SANTIAGO, 2013, p. 89).

Segundo Freud, os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do paciente. No caso de Jésus Santiago, o pensamento atormentador da possibilidade de ficar deprimido e doente como o pai tem relação direta com sua missão de salvá-lo, encarnada pelo seu nome próprio.

Na neurose obsessiva, os sintomas surgem pelos pensamentos invasores, impulsos dentro de si mesmo, ritos obrigatórios. Essas manifestações, que fogem ao controle do sujeito, geram a ele perturbações e sofrimento. Isso fez com que Freud a nomeasse de “doença louca” (FREUD, 1915-1916, p. 267).

Uma das pacientes de Freud, citada na Conferência XVII (1915 – 1916), que cometia repetidamente o ato de chamar a empregada próximo a uma mesa, cuja toalha estava manchada de vermelho, de acordo com Freud, repetia esse ato no intuito de corrigir a falha do marido na noite de núpcias.

Portanto, Qual Seria A Função Do Sintoma?

O sintoma é uma consequência do encontro do sujeito com a castração (SANTIAGO, 2015, p. 163). Ele é “signo da falha da relação sexual” (SKRIABINE, 2013, p. 19), o que seria um outro nome da castração, sendo sua função a de um substituto, uma espécie de suplência à falta da relação sexual que o significante falha em escrever, ou seja, a linguagem não dá conta dessa relação, portanto, o surgimento do sintoma.

Porque Ele Se Forma Assim?

Freud nos ensina que o sintoma é fruto de um conflito entre a necessidade de satisfação da libido e as proibições internas e externas, ou do ego e da realidade, encontrado pela libido na busca de satisfação. Essas proibições fazem com que a libido, que possui um “caráter fundamentalmente imutável” (FREUD, 1916, p. 362), invista em forma de catexia, em tempos anteriores, nas fixações de satisfações que eram obtidas na infância, passando assim a operar através do sistema inconsciente. O ego, então, opositor a essas realizações, passa a persegui-la e compeli-la a escolher uma forma de expressão da própria oposição. Assim, cito Freud: “o sintoma emerge como um derivado múltiplas-vezes-distorcido da realização de desejo libinal inconsciente, uma peça de ambiguidade engenhosamente escolhida, com dois significados em completa contradição mútua” (FREUD, 1915-1916, p. 362-363).

O sintoma então age repetindo a forma infantil de satisfação, porém de maneira deformada devido à censura do ego, provocando sofrimento ao sujeito que reclama dele sem perceber que também se satisfaz ali. Como nos revela Santiago ao falar sobre seu “esquartejamento”, “um suplício sofrido pela ação de forças antagônicas”, posto em cena pela análise na qual ele se valia da “inocência do menino” para não saber sobre seu “aprisionamento no gozo sacrificial” (SANTIAGO, 2013, p. 93).

Santiago relata o esforço nocivo que fazia para tentar dissolver as identificações com o ideal viril, “identificação da criança-orifício com a virilidade da mãe”. Revela que “exatamente nesse ponto, o amor se transfigurava em sintoma. Em detrimento do amor, prevaleciam as repetições com a satisfação escópica promovida pela fantasia” (SANTIAGO, 2015, p. 166).

Freud, ao descrever sobre a regressão da libido às fixações de satisfação da infância, toca num ponto fundamental, que é o da fantasia, e a compara à realidade vivida por cada sujeito, com base no que cada um traz em relação às histórias de sua infância, sem se importar, a princípio, se os fatos são ou não verídicos, uma vez que foram criadas pelo sujeito neurótico e, por isso, têm o valor de verdade: “no mundo das neuroses, a realidade psíquica é a realidade decisiva” FREUD (1915-1916, p. 370). Como podemos ver na contribuição dada por Santiago em seu passe, “a fantasia se origina da relação da criança com a mãe viril”. Na adolescência, isso inverte: “de objeto-orifício passei a me identificar com o objeto-olhar da mãe. Assim, ao me identificar com ela, eu me virilizava; virilizado me sacrificava” (SANTIAGO, 2015, p. 166).

O ponto de fixação provoca sempre uma repetição por parte do sujeito, evidenciando que há algo no sintoma que resiste à decifração (SOUTO, 2003, p. 11).

Santiago, ao falar das repetições com a satisfação escópica promovida pela fantasia, afirma que “tais repetições se mostravam refratárias às interpretações e construções que buscavam elucidar o impasse amoroso… da identificação da criança-orifício com a virilidade da mãe” (SANTIAGO, 2015, p. 166).

O Sintoma Seria, Portanto, A Realização Da Fantasia?

“Lacan nos esclarece que o sintoma é aquilo que envelopa a fantasia, o gozo que a fantasia comporta… aquilo que da fantasia pode aparecer sob a forma significante” (MACHADO, 2004, p. 2). Como no caso de Santiago, ao assumir a forma do “boneco-de-verdade”: “O sujeito se apega a esta forma fálica que o representa para o Outro” (SANTIAGO, 2013, p. 91).

Sendo assim, a realização da fantasia pela via do sintoma é a realização do gozo, e Lacan chama de sintoma a incidência do gozo sobre o corpo. Portanto, o sintoma vai além da fantasia, comportando gozo e fantasia, sendo o gozo inapreensível pelo significante. Santiago, no percurso de sua análise, reencontra o que ele chama de “a dimensão mortífera do objeto, que aparece inicialmente velado pelo investimento libidinal no corpo próprio via o brilho do boneco-de-verdade” (SANTIAGO, 2013, p. 92).

O Nome-Do-Pai É Um Sintoma?

Lacan destitui o Nome-do-Pai rebaixando-o a um tipo de sinthoma, ou seja, o Nome-do-Pai seria igual ao sinthoma (JIMENEZ, 2005). Tal como o quarto nó, que amarra os três registros – real, simbólico e imaginário –, conforme demonstrado por Lacan ao referir-se a Joyce no Seminário 23 (LACAN, 1976).

Miller, na abertura da Conversação II de Arcachon, sustenta que um sintoma pode assumir a função de Nome-do-Pai e afirma que “o Nome-do-Pai, ele próprio, não é nada mais que um sintoma” (MILLER, 1997, p. 106).

Porém, Lacan não deixa de ressaltar a importância desse quarto elemento do nó borromeano, afirmando que o pai é esse quarto elemento… esse quarto elemento sem o qual nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real. Mas há um outro modo de chamá-lo… eu o revisto hoje com o que é conveniente chamar de sinthoma (LACAN, 1976, p. 163).

Há Solução Para O Sintoma?

O sintoma pode ser interpretado, e assim podemos dizer que há solução para o sintoma. No entanto, para o sinthoma não há interpretação, permanecendo um resto inominável. Portanto, “o sintoma é curável; o sinthoma não” (JIMENEZ, 2005).

Jésus Santiago demonstra em seu testemunho que o “boneco-de-verdade”, que encobre um “gozo mortífero”, é dissolvido pela sentença “negue teus heróis”, extraída de um sonho de final de análise (SANTIAGO, 2013, p. 95). Portanto, “no lugar da oferenda em sacrifício ao Outro, há o gozo traumático, considerando-se que sua consistência é o vazio próprio da montagem pulsional” (SANTIAGO, 2015, p. 169).

No percurso de uma análise opera-se a queda dos significantes, e, com isso, uma redução do gozo e também dos sofrimentos provocados pelos sintomas próprios de cada ser falante. No entanto, o inconsciente não se esgota, ou seja, permanece um resto, e nesse resto podemos encontrar uma solução (SOUTO, 2003, p. 11).

Para chegar a esse ponto, é preciso servir-se do pai na medida em que, numa análise, se articula com os significantes causadores de gozo e se descobre os objetos da fantasia. É servindo-se do pai que o sujeito neurótico tem a chance de sair da posição fantasmática que o coloca como objeto de gozo do Outro para inventar um novo modo de gozo. Essa invenção pode ser chamada de parceiro-sintoma, como nos esclarece Miller: “a relação do parceiro supõe que o Outro torna-se o sintoma do falasser, isto é, torna-se seu meio de gozo” (MILLER, 1998, p. 104).

Marcus André Vieira, em seu testemunho de final de análise, conta como foi essencial servir-se do pai para poder dispensá-lo quando fabrica o nome “mordidavida” para dar lugar ao gozo que não cabe em corpo nenhum, o gozo não apreendido pela fantasia, um gozo além do pai (VIEIRA, 2013, p.101).

Dispensar O Pai É Fazer Do Sintoma Um Parceiro?

Inventado e sustentado pelo passante Marcus André Vieira em seu testemunho, o nome “mordidavida”, que estabelece a parceria sintomática entre o falasser e seu sinthoma, só foi possível porque Marcus André se serviu da “mão mordida” do pai para poder dispensá-lo e ir além. Seu pai possuía 53 cães, e, portanto, tinha as mãos sempre machucadas por separar as lutas entre eles, numa violência disfarçada, como nos afirma Marcus. Este, então, encontra um lugar para o pai ao afirmar que “a mão mordida deu-lhe lugar… o do louco” (VIEIRA, 2013, p.102).

Se considerarmos que o Nome-do-Pai é um sintoma e que sempre haverá um resto, um real inapreensível, podemos concluir que dispensar o pai é fazer parceria com o sinthoma como um modo de gozar que o sujeito inventa.

Trata-se de uma invenção, pois mesmo num final de análise não é possível chegar ao significante S1, à verdade sobre o gozo. O falasser chega ao limite de saber pela via significante, o S1 “foi apenas um choque do significante com o corpo” (SILVA, 2015, p. 174).

A invenção do sinthoma não surge do nada, ela dispensa o pai pelo fato dele ter-se servido. Portanto, podemos dizer que o sinthoma já estava presente no sintoma e que a análise seria o processo de lapidação, no qual o sinthoma surge, ao final, como algo aparentemente novo, mas que sempre esteve lá, encoberto pelos significantes mestres (MACHADO, 2004).

No final de uma análise, conforme é possível constatarmos nos relatos de passe, há um resto que não se ultrapassa, portanto temos que viver com ele. Por mais longe que o sujeito leve sua análise, por mais que se reduza o gozo, restará o sinthoma como modo de gozo.

Utilizando-se da famosa frase de Lacan, “não há relação sexual”, Miller ensina que “o falasser, como ser sexuado, faz parceria, não no nível do significante puro, mas no nível do gozo, e essa ligação é sempre sintomática” (MILLER, 1998, p. 106).

E Como Fazer Com O Parceiro-Sinthoma?

Se as possibilidades pela via significante estão esgotadas, não há como saber sobre o que fazer com o resto de gozo, ou seja, não se sabe antes de fazer, trata-se de um saber-fazer que se dá em ato, sem significado, que não está dirigido ao Outro. “Trata-se de um saber que só se sabe ao fazer, depois de feito… um saber que só é sabido em ato” (MACHADO, 2004).

Jésus Santiago afirma que “o amor pressupõe viver o vazio da pulsão sem o recurso da fantasia” e relata que, no final, foi necessário dissolver a miragem fálica para poder “construir-se como objeto a serviço do vazio próprio da pulsão” (SANTIAGO, 2015, p. 168).

A via de entrada numa análise é também a via de saída, que vai da solução do sintoma ao sinthoma como solução. No percurso de uma análise, que se envereda pelas redes simbólicas que determinam o sujeito, as soluções pela via do sentido, daquilo que é interpretável, se reduzem ao resto inominável, ao real do sinthoma, que se transforma em parceiro. Portanto, o sintoma não se soluciona, mas é a própria solução parceiro-sinthoma.

 


 

Bibliografia:
FREUD, S. (1916) “O sentido dos sintomas”, In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Vol. XVI, Conferências introdutórias sobre psicanálise (parte III), Rio de Janeiro: Imago, 1976.
FREUD, S. (1916) “Os caminhos da formação dos sintomas”, In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Vol.XVI, Conferências introdutórias sobre psicanálise (parte III), Rio de Janeiro: Imago, 1976.
JIMENEZ, S. Sinthoma e fantasia fundamental, Latusa Digital, Rio de Janeiro – EBP-RJ, n. 12, 2005.
LACAN, J. O Seminário. Livro 23: o sinthoma. (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
MACHADO, M. R. O. “Qual a relação entre sintoma e sinthoma?” – Cadernos de psicanálise: SPCRJ, Rio de Janeiro, n. 23, V. 20, 2004.
MILLER, J.-A. “O osso de uma análise”. Seminário proferido no VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e II Congresso da Escola Brasileira de Psicanálise. Bahia: Biblioteca Agente, 1998.
MILLER, J.-A. et al. (1997). Os casos raros, inclassificáveis da clínica psicanalítica. A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998.
SANTIAGO, B. A. L. “O falo como semblante: Rumo ao final de análise”, Curinga: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 39, 2015.
SANTIAGO, J. “Da rigidez fálica ao objeto móbil”, Curinga: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 39, 2015.
SANTIAGO, J. “O nome, o oco e a fonação”, Opção Lacaniana, n. 67, Dezembro 2013.
SKRIABINE, P. “Do sintoma ao sinthoma”, Revista de Psicanálise: @gente Digital, Salvador, n. 8, 2013.
SILVA, F. R. “O destino do falo no final da análise”, Curinga: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 39, 2015.
SOUTO, O. S. “Como a psicanálise cura”, In: Curinga: como a psicanálise cura. Belo Horizonte: EBP-MG, n. 19, novembro 2003.
VIEIRA, A. M. “Como morder o mar”, Opção Lacaniana, n. 67, dezembro 2013.

 


Leandro Marques Santos
Leandro Marques Santos – Formado no Curso de Psicanálise pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, Psicanalista, Pós-graduado em Gestão Financeira na PUC-MG. E-mail: leandromarquesbh2@gmail.com.