O único e o específico na experiência analítica

Sérgio de Castro
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
sdcastro@terra.com.br

Parece-me interessante tomarmos o significante ÚNICO deixando-o deslizar para termos mais próximos de nosso jargão. Por exemplo, a partir da contracapa Seminário 19, escrita por Jacques-Alain Miller, perguntarmo-nos se esse ÚNICO poderia ser aproximado do Um-dividualismo moderno. Se, por um lado podemos, ao Um-dividualismo, localizá-lo na rigidez autoreferida dos identitarismos atuais, por outro, podemos constatar que basta que se inicie uma análise para se verificar que há uma dimensão do Outro em cada um que faz voar pelos ares tal aprisionamento. Portanto, se uma vez atravessado pelo Outro na experiência analítica tal ilusão do Um-dividualismo fica em questão, uma vez que é o sujeito dividido que se produz, restará ainda algo de refratário ao Outro e à sua interpretação que, enquanto Único daquele sujeito, deverá, no entanto, ser convocado a dizer-se. Cabe, por fim, perguntar se o que vemos aqui não seria uma passagem do Um-dividualismo referido no “sou o que digo que sou” ao que se deduz do dizer que faz emergir a diferença absoluta que cada falasser carrega a partir de seu encontro traumático com a língua.




O único e o específico na experiência analítica

Frederico Feu de Carvalho
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP)
e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
fredericofeu@uol.com.br

O “único” e o “específico” podem ser tomados como duas maneiras de nos referirmos à singularidade do sujeito na experiência analítica.

Nos acostumamos, desde Freud, a fazer a distinção entre o caso único e o tipo clínico. Trata-se de distinção clínica que expressa a posição ética do psicanalista: o sujeito não se reduz à categoria diagnóstica que especifica o seu tipo clínico e, mesmo que ele possa ser comparado a outros sujeitos do mesmo tipo, orientando a direção do tratamento do seu caso, a resposta subjetiva ao realismo da estrutura é o que condiciona, em última instância, a singularidade da interpretação.

Gostaria de propor, no âmbito de nossa discussão no IPSM-MG, que a distinção entre o “único” e o “específico” não recobre inteiramente aquela entre o caso único e o tipo clínico, especialmente se remetemos o “único” ao “Um”, marca de gozo original do falasser. Nessa acepção, o “Um” converge com a perspectiva do sinthoma no último ensino de Lacan, tomado como unidade clínica fundamental. Como unidade clínica fundamental, o sinthoma supera clivagens precedentes, entre elas a clivagem entre o caso único e o tipo clínico, na medida em que a perspectiva do sinthoma demarca o ponto de inflexão clínico entre a estrutura, entendida como a articulação dos elementos em que se joga a partida entre o caso único e o tipo clínico, e os elementos tomados em si mesmos, fora da articulação e do sentido.

A prática da psicanálise ganha então uma outra ênfase. Trata-se de reconduzir a trama de destino do sujeito da estrutura aos elementos primordiais, fora de articulação, quer dizer, fora do sentido e, porque absolutamente separados, podemos dizê-los absolutos. Trata-se de reconduzir o sujeito aos elementos absolutos de sua existência contingente (MILLER, 2008, p. 57-58)

A unicidade do falasser seria, portanto, um ponto fora da articulação dos elementos. Ela ex-siste em relação ao caso clínico, com o qual não se confunde. Não se refere, portanto, à máxima segundo a qual cada caso é um caso. A distinção lógica entre o específico e o único pode ser então formulada nesses termos: o específico corresponde à resposta ficcional e estruturada dada por um sujeito à sua marca única; seja ao inscrever-se no universal de um tipo clínico, seja ao excetuar-se dele como singularidade, o específico, como o particular de um sujeito, só existe por ser predicável. O Um, por sua vez, traz consigo uma dificuldade de escrita e de interpretação. Sua maneira de existir fora do universal é uma maneira radical, por não ser predicável, permanecendo à distância de qualquer referência linguística. Como, então, pode-se afirmar a existência de algo do qual nada se pode predicar? Se, por outro lado, afirmamos sua existência, a despeito de ser impredicável, o que pode vir a suportar sua escrita? Proponho que a resposta lacaniana a essa questão é o sinthoma: a maneira específica como cada falasser amarrou o seu Um ao real, ao simbólico e ao imaginário para fazer disso um nó.


Referências

MILLER, J.-A. Curso de orientação lacaniana III. Lição V, 2008. (Trabalho inédito).