O QUE CABE AO ANALISTA NA INTERPRETAÇÃO HOJE?

 

APARECIDA ROSÂNGELA SILVEIRA
Psicóloga e psicanalista, doutora em Psicologia (UFMG)
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Resumo: Este texto trata do lugar que ocupa a interpretação hoje na clínica psicanalítica a partir do último ensino de Lacan. Busca-se elucidar os deslocamentos teóricos-clínicos produzidos na prática da interpretação. Da escuta do sentido do sintoma à leitura do fora de sentido, destaca-se que a interpretação opera entre o ser da falta e a fixidez do gozo, entre o saber ler e o bem-dizer do sintoma. Assim, espera-se que do encontro com o analista possam advir saídas para o sujeito lidar com o que é da ordem de seu mal-estar.

Palavras-chave: psicanálise, interpretação, clínica. 

what is the analyst’s role in interpretation today? 

Abstract: This text deals with the place that interpretation occupies today in the psychoanalytic clinic from the last teaching of Lacan. This study seeks to elucidate the theoretical-clinical displacements produced in the practice of interpretation. From the listening of symptom sense to reading of what is out of sense, it is highlighted that interpretation operates between the being of lack and the fixity of jouissance, between knowing how to read and the well-spoken of the symptom. Thus, it is expected that the meeting with the analyst may provide solutions for the subject to deal with what is related to his inquietude.

Keywords: psychoanalysis, interpretation, practice.

  Mário Azevedo, S/T, 2020/2021. 

As mudanças operadas na clínica psicanalítica a partir dos desdobramentos do último ensino de Lacan convidam-nos para uma importante reflexão sobre o lugar que ocupa a interpretação hoje e, consequentemente, o que cabe ao praticante da psicanálise de orientação lacaniana nesse contexto.

Neste texto nos debruçaremos na interpretação em tempos atuais. Faremos um breve percurso no ensino de Lacan em diálogo com Miller e, finalmente, desenvolveremos uma discussão para pensar os desdobramentos teóricos-clínicos acerca da interpretação na atualidade.

O primeiro ensino de Lacan, aquele do inconsciente estruturado como uma linguagem, período de seu retorno a Freud sob as insígnias do movimento estruturalista, permitiu situar o que se nomeiam estruturas clínicas como modos de funcionamento psíquico dos sujeitos. Nesse momento de seu ensino, o sintoma a ser interpretado passa pela cadeia significante. Trata-se de uma mensagem a ser decifrada e agrega um sentido. Um sintoma que busca o bem-dizer da interpretação.

Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Lacan (1998), ao propor a questão “Quem analisa hoje?”, aponta que o analista certamente dirige o tratamento, o que não significa dirigir o paciente, e sim fazer com que o sujeito aplique a regra analítica, a associação livre, e o analista, com suas palavras, pela operação analítica, possa produzir efeito de interpretação a partir daquilo que lhe é apresentado pelo analisante em atos e colocações.

Nesse mesmo texto, ele destaca o lugar da interpretação e sua ação a partir do conceito da função significante, assim descrito: “(...) o conceito da função do significante que capta onde o sujeito se subordina a ele, a ponto de por ele ser subornado” (LACAN, 1998, p. 599). Assim, a interpretação age como um deciframento do conteúdo que aparece na diacronia das repetições inconscientes ao longo da história do sujeito e na sincronia dos significantes para possibilitar, do lado do sujeito, uma tradução, e que, pela via do significante, a interpretação possa produzir algo novo para o sujeito.

Posteriormente, Lacan, ao recolher no texto freudiano o que Freud nomeou restos sintomáticos, analisa que o sintoma deve ser interpretado em função de um desejo e que é um efeito de verdade do sujeito. Lacan, destaca que há um resto, que se trata do real do sintoma, aquilo que nele se apresenta como sem sentido, que se repete e escapa ao simbólico. Destaca-se, nesse momento de seu ensino, a presença de um sintoma, que se inscreve no corpo que não é tocado pelo simbólico, mas pelo real pulsional, fazendo marcas, esburacando sem fazer história e sem fazer mensagem, apenas veículo da pulsão de morte inscrita no corpo. Trata-se do deslocamento do inconsciente transferencial para o inconsciente real, em que se afirma um saber no real que faz furo à máquina significante (LACAN, 2007).

Miller cita que, a partir dessa virada no ensino de Lacan, ele nomeou gozo um acontecimento de corpo de valor traumático, que não há representação, não há regulação simbólica e que retorna sempre ao mesmo lugar.  A repetição é a mola do real do trauma, o que a estrutura não alcança. Há desordem no gozo na medida em que o pensamento não se faz presente, escapa à rede de significações e não obedece a essa lei, portanto, inassimilável semanticamente (MILLER, 2012).

No último ensino de Lacan, há a inclusão do sinthoma como uma segunda versão do real e sua repetição. Em O Seminário, 23: o sinthoma, Lacan retoma as dimensões imaginário, simbólico e real para destacar o real como mola do simbólico e convida à reflexão de como se virar com isso na medida em que em relação ao real não há tradução, há o gozo.

A partir desses deslocamentos operados na teoria, pergunta-se o que cabe ao analista na interpretação hoje.

 

A prática interpretativa

Assistimos, no ensino de Lacan, a um deslocamento sobre a prática interpretativa. Se temos, no seu primeiro ensino, a interpretação como busca de sentido em relação à lei do desejo, em seu último ensino, há o convite para tocar na fixação do sujeito não articulada aos significantes, e sim ao gozo, ao que é da ordem do traumático, e sua repetição. Assim, mudanças foram operadas na prática interpretativa com a inclusão da leitura do que se repete para além do sentido, em referência ao real sem lei, que não tem ordem: “(...) um pedaço de real” (LACAN, 2007, p.133).

Com essa interpretação para além do sentido, busca-se tocar o real pulsional, que escapa ao simbólico. Não há interpretação de sentido que toque nesse real que se inscreve no corpo e promova um desvio do gozo.

A partir dos desdobramentos do ensino de Lacan, instaura-se um campo clínico em que a prática interpretativa se desloca da escuta do sentido à leitura do fora de sentido, sem, contudo, excluir a escuta do sentido. Do lado do analista, isso promove tocar o real, o modo de gozo, para além do édipo e da operação de recalcamento, em uma delicada clínica que inclui a presença de um vazio em que não se inscrevem palavras. A partir desse lugar, o analista se encontra em posição de validar o sujeito, a mensagem que vem dele, o seu sofrimento e o seu mal-estar que não cessa de não se inscrever. A palavra do analista tem uma função apaziguadora e sua intervenção tem efeito de interpretação. Do lado do analisante, o que se coloca no horizonte é a abertura para as invenções como forma de lidar com seu mal-estar.

Miller (2012), ao tratar da instauração do novo campo clínico no ensino de Lacan, promove uma reflexão em que se destaca a defasagem entre o que se escuta e o que se diz, que se compreende, que se comunica e que se apresenta como proposição de verdade. Ele nos lembra de que há duas dimensões no dito: o que alcança o ouvido e o que nele é compreendido e a defasagem entre o que se escreve e o que se lê. Aponta que o lugar da interpretação está na defasagem entre escutar e dizer, entre escrever e ler.

Não se trataria de uma interpretação suplementar, mas de considerar a existência de uma máquina de interpretações, com regras: a homofonia do lado da escuta da fala e o anagrama (as letras) para o que se inscreve. Escritura e leitura estão ligadas.  Contudo, destaca Lacan que afirma a existência de um escrito para não ser lido. Nas palavras de Miller: “(...) talvez haja no escrito algo mais ou algo mais distinto do significante” (MILLER, 2012, p. 6). A letra separa o significante do significado, sendo a letra o significante sem valor de significação. Há uma escritura na fala em que a letra é decifrada como criptograma inscrito a partir de uma língua perdida a ser constituída.

Nesse sentido, cabe à prática interpretativa fazer uma operação de leitura do escrito separado do seu valor de significação. Há um gozo que se encontra sem um significante adequado em direção à socialização. Trata-se do gozo do Um, inscrito no encontro da letra com o corpo, lalíngua.

Como pensar então a interpretação que inclua lalíngua? A partir de Miller (2012), a interpretação implica ultrapassar a relação daquilo que se escuta no que se diz. Saber ler o que está na escritura, que aponta no dizer para algo singular do sujeito, pela via do pertencimento: a fala é dele, na dimensão da lalíngua e seus equívocos pela via do gozo, em sua finalidade distinta da comunicação.

A interpretação em nível de lalíngua significa dizer que o psicanalista não se encontra em nível de comunicação, como se situa a interpretação de sentido. Nesse sentido, Miller recorre a Lacan, em “Função e campo da fala e da linguagem”, à expressão ressonância de fala e convida-nos, através desta, para restituir o valor de evocação, e não apenas comunicação direta e informação. Para ele, ressonância é “(...) uma propriedade da fala que consiste em fazer escutar o que ela não diz” (Ibid., p. 18). A ressonância aponta para a presença do significante no destino do sujeito, a palavra como aparelho do gozo, assim como se refere Lacan (1985) no Seminário 20: Mais, ainda.

Miller (2015) aponta que a leitura do sintoma vai em direção oposta à da interpretação do sentido, ou seja, é privar o sintoma de sentido. Passa-se à leitura do fora de sentido. Ainda afirma Miller: “A disciplina da leitura visa a materialidade da escrita, isto é, a letra, na medida em que ela produz o acontecimento de gozo que determina a formação dos sintomas” (p. 21). Aqui se apresenta uma dupla visada da interpretação. Há a interpretação de sentido daquilo que se escuta, mas também é preciso saber ler o sintoma visando a um “choque inicial, o que é como um clinâmen do gozo” (Ibid.), um desvio do gozo.

Portanto, a interpretação como saber ler o sintoma implica uma redução do sintoma à sua origem, que se trata do encontro material do significante com o corpo. A interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma ao choque da linguagem sobre o corpo, ou seja, o trauma do corpo pela entrada do significante, destacando aqui que o trauma se experimenta sempre em relação à capacidade de absorção que o corpo tem, um acontecimento de corpo. Nesse sentido, a interpretação busca perturbar a fixidez do gozo em direção à invenção do sujeito em construção de saída possível.

Na interpretação, hoje, é preciso tocar o gozo do ser falante, o significante que opera fora do sentido. Como afirma Miller (2015), a leitura do sintoma vai em direção oposta à inflação de sentido, além do enquadre edipiano e se deparando com o enquadre da topologia borromeana, novo estatuto na relação entre Real, Imaginário e Simbólico, em que a interpretação passa à interpretação do sem sentido.

 

Conclusão

A título de finalização, retomamos a pergunta central do texto: o que cabe ao analista na interpretação hoje?

Partindo do princípio de que o saber ler na prática analítica completa o bem-dizer, do lado do analista, trata-se de que o bem-dizer e o saber ler se transfiram para o analisante, que ele possa bem-dizer e saber ler o seu sintoma rumo às invenções que possam fazer borda, fazer contorno ao gozo do sintoma.

Advertidos por Lacan que um sintoma deve ser interpretado em seu sentido, mas que há um resto sintomático, nomeado por ele Real, que faz ressonância, os analistas devem interpretar do lugar onde a prática psicanalítica opera, entre escuta e leitura, entre o ser da falta e a fixidez do gozo para o qual não há resposta, mas que as palavras, do encontro com o analista, possam advir para que o sujeito possa lidar com o que é da ordem do real que escapa à significação e que produz mal-estar. 


Referências Bibliográficas:

LACAN, J. (1972-1973]). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

LACAN, J. (1975-76). O Seminário, livro 23: o Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

LACAN, J. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

MILLER, J-A. O escrito na fala. In: Opção lacaniana Online Nova Série. Ano 3, N. 8, 2012.

MILLER, J-A. O inconsciente real. In: Opção Lacaniana Online. N. 4, Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/antigos/n4/pdf/artigos/JAMIncons.pdf. Acesso em abril de 2021.

MILLER, J-A. Progressos Em Psicanálise Bastante Lentos. Opção Lacaniana Online, n. 64, Ano 2012. Disponível em: http://www.ebp.org.br/old/publicacoes/opc%CC%A7a%CC%83o-lacaniana-64/ Acesso em maio 2021.

MILLER, J-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. N. 70, 2015. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_8/O_escrito_na_fala.pdf