Acontecimento de Corpo Político e a Psicanálise hoje

 

CRISTIANA PITTELLA- Diretora de Seção Clínica

 

O tema proposto pela Diretora Geral que entra em abril, Lilany Pacheco, nos convida a considerar o falasser político (1).

O falasser é o termo que Lacan propõe para o inconsciente ao introduzir o corpo afetado pela linguagem. Essa proposta, um programa de pesquisa, mantém portanto o acento no sintoma como acontecimento de corpo - a partir da leitura feita por Jacques-Alain Miller do último ensino de Lacan -, assim como nos coloca a questão do que se tornou o inconsciente em nossos tempos.

Estaremos esse ano investigando as consequências desse termo que nos permite uma outra leitura dos conceitos freudianos e da prática da psicanálise.

A definição do sintoma enquanto acontecimento de corpo está aquém e além do pai, da função do pai tal como pensava ser da ordem do necessário em Freud. O sintoma passa a ser definido a partir da singularidade do gozo do corpo.  A articulação do sujeito ao Outro se dá pela pulsão e não pela identificação.

O inconsciente assim, não parte do pai, mas do que está para ser definido. Cada Núcleo do IPSMMG poderá pesquisar, nos campos os mais diversos, as consequências clínicas dessa leitura.

A clínica contemporânea utiliza, portanto, o pai como ficção, passando-se dele para definir o horizonte, ao mesmo tempo primário e último do sinthoma como um direito fundamental do falasser.

Investigaremos uma série de respostas sintomáticas, desde os primórdios da constituição do falasser face ao traumatismo do choque da língua no corpo; para verificarmos, como a psicanálise dá lugar ao singular da invenção sintomática, nos diversos programas de saúde mental nas interfaces com a medicina, o social, a educação, o direito ... entre outros.

Investigaremos também, em cada Núcleo de Pesquisa, como a relação de cada falasser com seu inconsciente tem um laço com a dimensão do político.

Nessa via, Lacan segue, segundo Eric Laurent (2), afirmando que o laço direto do corpo e do Outro da civilização e da história se dá pelo acontecimento de corpo - e não pelo Ideal -, ou seja, que “o laço social é o sintoma” (3).  Nesse sentido, o laço social se dá a partir do gozo, não há laço social desprovido de gozo.

Como o discurso psicanalítico, a partir da clínica, intervém junto às exigências higienistas do mestre contemporâneo?

Como operar face às propostas de identificação pelo discurso universal, em que um significante impera e captura o sujeito promovendo a segregação?

Frente às comunidades de gozo e os novos e crescentes modos de segregação, como dar lugar a uma nova subjetivação do sofrimento?

O inconsciente íntimo aparece onde menos esperamos e onde mais se tenta forcluí-lo, pois não se deixa reduzir aos dados estatísticos. O sinthoma jamais se deixará governar pelo império dos números nem se reduzir às classificações, protocolos e categorias propostas pelo discurso do mestre.  Quais as respostas do falasser à biopolítica de nossos tempos?

Como o psicanalista pode ler e dar lugar à interpretação do falasser, face à tendência biopolítica de reduzir o corpo à imagem, ao comportamento, aos transtornos e imposição de adaptação a uma realidade?

Extraímos de nossa clínica o direito ao sinthoma e portanto o direito à interpretação. É a partir desses achados clínicos que a psicanálise pode intervir na política assegurando a igualdade clínica fundamental e a inexistência da relação sexual, a saber, a impossibilidade de uma solução absoluta ao mal-estar na civilização.

 

  • Laurent, Éric, O avesso da biopolítica, pg 201, Coleção Opção Lacaniana 13, 2016, Contra capa livraria ltda.
  • Idem
  • Jacques-Alain Miller, Los inclassificáveis de la clínica psicoanalítica pg347 348, 2010 Paidós

 

© ipsm-mg