Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Psicose

 

Interpretação e acontecimento de corpo nas psicoses

 

Miller, em “monólogo de la apalabra”, ressalta que “a palavra psicótica é a que toma para si mesma a interpretação a seu cargo, ao menos na versão paranoica, e que se apoia como mestre do sentido até poder, na esquizofrenia, denunciar o semblante social em suas últimas defesas”[1]. A interpretação está do lado do sujeito psicótico, que a faz de modo incessante tal como uma máquina[2]. Se a interpretação está a cargo do sujeito, qual a função do analista na condução do tratamento?

Lacan, no Seminário 3, sobre as psicoses, diz que cabe ao analista a função de secretário. Ouçamos: “Vamos aparentemente contentar passar por secretários do alienado [...]. Pois bem, não só nos passaremos por seus secretários, mas tomaremos ao pé da letra o que eles nos contam – o que até aqui foi considerado como coisa a ser evitada”[3]. Cabe ao analista se fazer de destinatário do signo ínfimo do paciente. Com esses signos sustenta-se seu trabalho de construção. “A manobra analítica não consiste, portanto, em um mero registro, em um secretariado; tampouco se trata de socializar”[4] Trata-se, nesse momento, de ler de que maneira o sujeito enfrenta o gozo que o esmaga rumo a construção de uma metáfora delirante. 

Se no início de seu ensino, Lacan reservava ao analista a função de secretário, tal como especificado acima, essa se amplia no entardecer da obra. Neste, o essencial é o saber fazer com, savoir-y-faire, saber de improviso, um se virar em cada situação, nas quais, longe de se deixar levar no movimento delirante, prioriza-se o recentramento do sujeito nos fenômenos elementares, os S1 isolados que se impõem ao sujeito psicotizado, sem deixar inflar o delírio[5].

Miller indica em que sentido o conceito de interpretação no último ensino de Lacan é tributária ao que as psicoses ensinam, ouçamos: “o avesso da interpretação consiste em cercear o significante como fenômeno elementar do sujeito, como anterior a sua articulação enquanto formação do inconsciente, que lhe dá sentido de delírio”[6]. Estamos no tempo em que a interpretação é tomada enquanto uma operação que não produz sentido. Psicose aqui, como alhures, desnuda a função alusiva da interpretação, localizando seu horizonte para além do marco simbólico, evidencia-se, portanto, a operação de capturar o real.

Nossa investigação sobre a interpretação no segundo semestre se propõe dar continuidade ao que desenvolvemos no primeiro, enfatizando, principalmente, a temática do corpo nas psicoses: fenômeno, acontecimento, construção e amarração.

Sejam todos bem vindos, e bom trabalho!   

Fernando Casula 

 

Coordenação: Fernando Casula.

Coordenação Adjunta: Maria de Fátima Ferreira.

 

06 de agosto 

O corpo na psicose: da “Questão Preliminar” ao Seminário 23. De que corpo se trata?

Apresentação: Antônio Beneti.

Comentários: Laura Rubião.

Às 10:00 horas.

Pelo Zoom.  

 

20 de agosto

Como se fazer um corpo na psicose.

Apresentação: Marina Recalde.

Comentários: Juliana Motta.

Às 10:00 horas.

Pelo Zoom.   

 

03 de setembro 

Entrevista de Lacan. Caso Monique: o duplo.

Apresentação: Marcelo Veras.

Comentários: Cristiana Ferreira.

Às 10:00 horas.

Pelo Zoom.         

 

17 de setembro 

Do fenômeno de corpo ao acontecimento de corpo.

Apresentação: Sérgio de Campos.

Comentários: Camila Alvarenga.

Às 10:00 horas.

Pelo Zoom.         

 

01 de outubro 

Acontecimento de corpo e presença do analista.

Apresentação: Fabian Fajnwaks.

Comentários: Carlos Luchina.

Às 10:00 horas.

Pelo Zoom.  

 

22 de outubro 

Interpretação semântica e interpretação assemântica.

Apresentação: Jesus Santiago.

Comentários: Frederico Feu.

Às 10:00 horas.

Pelo Zoom.         

 

05 de novembro 

A artista Orlan e o Um: corpo, carne e nome 

Apresentação: Musso Greco

Comentários: Yolanda Vilela

Às 10:00 horas

Pelo Zoom    

    

26 de novembro

Conversação sobre a investigação do semestre.

Maria de Fátima Ferreira e Fernando Casula.

Às 10:00 horas

Pelo Zoom.


[1] Miller, J-A.  La fuga del sentido. Buenos Aires: Paidós; 2012. P. 146

[2] O termo máquina aqui alude ao texto de Tarrab, M. As psicoses e a máquina de interpretar. In.: Opção Lacaniana 80/81. P. 87 a 90.

[3]  O Seminário, livro 3: as psicoses. (1955-56) Rio de Janeiro: Zahar; 1985. P. 235

[4] Miller, J-A. Efeito de retorno à psicose ordinária. In.: A psicose Ordinária: convenção de Antibes. Belo Horizonte: EBP, Scriptum;2012. P. 406.

[5] Holvoet, D. Verbete Direção (do tratamento). In.: Scilicet: As psicoses ordinárias e as outras – sob transferência. São Paulo: EBP, 2018. ps. 132 a 134.

[6] Miller, J-A. A interpretação pelo avesso. In.: Opção Lacaniana nº 15