ISSN 1982-5617

DO ACONTECIMENTO AO ADVENTO[1] 

ESTHELA SOLANO-SUÁREZ
Psicanalista, Analista Membro da Escola, membro da ECF, EOL E NLS/AMP
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Resumo: A autora descreve em seu texto um antes e um depois de seu encontro com Lacan, na época de seu último ensino, “no momento em que ele deportava a prática da psicanálise do Outro em direção ao Um, visando o real do sinthoma”. Nesse sentido, sua experiencia de análise com Lacan teve, segundo Esthela Solano, a dimensão de um acontecimento. A autora destaca que essa análise lhe permitiu ler, no equívoco dos sons, o que escorre em lalíngua, isolando o Um do significante separado do outro.

Palavras chaves:real; sinthoma; acontecimento; lalíngua.

Abstract: The author describes us in her text a before and after her encounter with Lacan at the time of his last teaching, “at the moment when he deported the practice of psychoanalysis from the Other towards the One, aiming at the real of the sinthome”. In this sense, her analysis experience with Lacan had, according to Esthela Solano, the dimension of an event. The author emphasizes that this analysis allowed her to read in the misunderstanding of sounds what flows in lalangue, isolating the One from the signifier separated from the other.

Keywords: real; sinthome; event; lalangue.


Desali, s/t


Do acontecimento ao advento 

Vários eventos pontuaram o percurso disso que posso chamar de minha vida, e isso desde meu nascimento. Eles deixaram traços, inclusive traços no corpo, inscrevendo um antes e um depois irreversível. Seu caráter de acontecimento só surgiu a posteriori

As contingências que nos surpreendem aqui e ali escrevem os episódios constitutivos de uma trama da qual fazemos nosso destino. Contudo, nem toda contingência e nem todo episódio se torna um acontecimento. Ora, os encontros não se sustentam por nada, senão pela contingência, e há encontros que fazem acontecimento.

Posso adiantar hoje que houve para mim um primeiro encontro decisivo. Posso dizer primeiro? Com certeza não. Ele já estava inscrito na esteira das consequências de um primeiríssimo, fundamental e esquecido, do qual resultou o sintoma como consequência do impacto de lalíngua sobre o corpo. O sintoma veio assinalar, bem cedo, na infância, um modo de ser que me caracterizava: fui uma criança “perdida em seus pensamentos”, aérea, mas também muito presente, à escuta de tudo o que circulava nas reuniões familiares nas quais a conversação ocupava um lugar importante; os convidados eram numerosos e falantes. Sempre fui interpelada pelas falhas e pela inconsistência de suas recomendações, falhas que eu atribuía, sobretudo, às mulheres. De vez em quando, se as condições eram favoráveis, eu podia compartilhar minhas reflexões — mas apenas uma pequena parte de minhas inquietudes, pois não lhes dizia tudo — a meus dois interlocutores preferidos, meu pai e meu avô paterno, a quem eu supunha alguma segurança no nível do pensamento. Eles ficavam maravilhados e me elogiavam. Eu me sentia tão lisonjeada quanto decepcionada, pois esperava uma resposta que colocasse um fim a meus pensamentos. 

Os pensamentos giravam em torno, precisamente, do enigma do sexo e da morte. Nessa família, que foi a minha, os homens não eram católicos, nem praticantes, nem crentes, enquanto as mulheres eram fervorosas. Assim, fui introduzida por minha mãe, desde o início, à crença. Ela me colocou em contato com Deus. A Bíblia foi o Livro que estruturou minha relação com o Outro e se torna o contexto das delícias de meus pensamentos. Eu não perdia de vista esse bom e velho Deus pai, embora isso se desse no temor e na compaixão. Sua vontade era um problema para mim, no sentido de um desejo que prescrevia os objetivos últimos do sentido da vida. Eu podia cumprir seus mandamentos, sem nunca ser capaz de me livrar da culpa que sempre se infiltrava sem que eu me desse conta, tanto em meus atos quanto em meus pensamentos. Por que pedia o sacrifício? Por que pediu a Abraão que sacrificasse seu único filho? Não era dele que viria uma descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu e a areia do mar? E se o anjo não tivesse chegado a tempo de substituí-lo pelo carneiro? Por que sacrificou Jesus, seu próprio filho, para nos redimir de uma culpa original já que teria, tendo em vista seu poder divino, podido impedir? Ao mesmo tempo, eu justificava Eva por ter desejado, tentada pela serpente, ter acesso ao discernimento e ter provado a maçã da árvore proibida e desejável ao preço de ser expulsa do Paraíso. Do alto de meus cinco anos, o que se seguiu dessa ficção me desanimou: a culpa, o pecado, a doença e a morte e todos os tormentos da condição humana. Eu me encontrava irremediavelmente capturada aí. 

Meu esforço de pensamento, mais precisamente, a imposição do pensamento, era minha maneira sintomática de encarar a falha, o erro, a falta inerente à relação do desejo com o desejo do Outro e de querer preenchê-lo. E, para além do desejo, o que se impunha a mim era algo do impossível de definir, escapando do sentido. Missão impossível, portanto, querer pensar o impensável. A falha sempre crescia. Mas, em resumo, eu decidi desde muito cedo me curvar à vontade divina, aceitando a sua face de mistério e supondo que, mais tarde, adulta, encontraria as respostas. Entretanto, jurei alimentar a consistência do Ideal para agradar a Deus e, por consequência, meus entes queridos. A mortificação do corpo caminhou de mãos dadas com esse programa de santidade cuja ambição visava, via anulação da carne, o corpo glorioso. O dito corpo glorioso, pendente do sonho de eternidade, conjugava a morte e o corpo, reduzindo este à sua pura consistência imaginária, à boa forma, ao saco vazio, esvaziado de gozo da vida. O ideal em jogo é apenas uma ficção. Esta, sendo introduzida pelo simbólico no corpo, torna-o servo da instância que vigia e julga, enquanto ignora que o corpo glorioso é somente o envelope do olhar, mais-de-gozar recuperado do esvaziamento da carne.

Bum! Plaft! O despertar da primavera vem para partir em pedaço a bela imagem, por irrupção disso que do corpo “se goza” sozinho, fazendo objeção às ficções do ideal proveniente do Outro. Esse momento de ruptura trouxe à tona uma violência vulcânica que já havia irrompido, bem cedo, na minha infância. Mas, dessa vez, sua força foi multiplicada pelo encontro efetivo com o amor e com o encontro com um outro corpo sexuado de outro modo. Eu me tornei, assim, Outra de mim mesma. Essa Outra, sendo uma, estava fora do modelo, estilhaçando o Um da identificação ao ideal, evidenciando que o Outro não se adiciona ao Um, que o Outro é um a menos. O descolamento do objeto olhar, face oculta da insígnia do ideal, roubou o semblante do ser cuja significância me serviu de apoio. Sem saber onde me estou[2], na aflição de me encontrar uma, e, consequentemente, exilada do significante mestre, fui sugada pelo S(Ⱥ). Sem a segurança de nenhum saber, nem de nenhuma elucubração ao alcance de meu pensamento, minha experiência me confrontou com a dura prova do Um do conjunto vazio. 

Surge, então, uma interrogação crescente e relativa ao que eu sentia como sendo da ordem de um furo, um questionamento absoluto no nível da existência, tomando forma de descrença, descrença relativa à existência de Deus. Pela intrusão do gozo Um, do hétero, experimentei, na solidão extrema, a inexistência do Outro. O Outro, no meu sistema de pensamento, era sustentado pelo Um do pai, confundindo-se com ele. Mas esse semblante maior se empalideceu, mostrando sua insuficiência diante do real. Eu me vi arrebatada, por sua queda, em uma dor infinita.

Termina aqui o preâmbulo necessário para explicar o encontro que foi, para mim, um acontecimento. Tive, nesse momento, a sorte de encontrar e de levar a sério o acontecimento Freud. Esses textos me trouxeram consolo como uma razão, como uma elucidação. Descobri a dimensão do sintoma, do inconsciente, da pulsão e, assim, do fundo do poço de meu abismo, pude me reerguer para demandar uma análise. 

Essa análise me salvou. Encontrei meu caminho. Numa boa hora, tendo terminado meus estudos, eu me instalei como analista. Tudo ia bem; o normal do que se chama de sucesso profissional estava ao meu alcance, um consultório que funcionava, um início de carreira docente na universidade, mais um encontro amoroso tão marcante quanto importante. 

O real bateu à minha porta sob os tipos de uma reação terapêutica negativa e de uma erotomania, como demonstraram duas de minhas analisantes. As supervisões não me ajudaram em nada. Essas duas mulheres me confrontaram numa zona que minha análise havia deixado na sombra. Eu sabia que havia aí uma sombra espessa, mas não conseguia identificá-la naquele momento. Minha análise me permitiu elucidar as confusões das identificações, elaborar um certo saber no enquadre da lógica edipiana e confirmar a singularidade de minha maneira de ser mulher, construída contra o modelo materno. A elaboração de saber recobria e consolidava a consistência imaginária do corpo colocando uma tela sobre o real fora de sentido do gozo. O simbólico recobria o imaginário e o real deixando, então, na sombra, a triplicidade do Um. 

Sobre isso, um milagre se produziu por acaso. Encontrei um texto de Althusser que me abriu a porta em direção a Lacan. Lendo, em seguida, “Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise”, impôs-se para mim a evidência de um “É isso!”: a psicanálise era exatamente isso, e não outra coisa. Pouco tempo depois caiu em minhas mãos um texto de Jacques-Alain Miller, “A sutura (elementos da lógica do significante)”, que me pareceu brilhante. Esse foi o momento de concluir e a decisão estava tomada: ir a Paris para me formar. 

Parece-me tão inacreditável como surpreendente ter encontrado Lacan e ter tido a sorte de fazer uma análise com ele. Quando me recebeu, ele tinha acabado de voltar de sua viagem aos EUA e iniciava o Seminário XXIII: o sinthoma. Encontrei Lacan no momento em que ele deportava a prática da psicanálise do Outro em direção ao Um, visando o real do sinthoma.

O começo de minha análise foi incontestavelmente troumatique, pois ele furou em ato o que eu acreditava ser a prática analítica fundada sobre a associação livre. Ele procedia de modo a cortar o laço dos significantes entre si, a contrariar o relato dos sonhos, das lembranças das elaborações, enfim, das elucubrações articuladas. Ele fazia objeção à ordem simbólica, a saber, ao que numa frase articula um sujeito, um verbo e um complemento, sustentando a intenção de significação. Ele quebrava a unidade da frase de maneira implacável, produzindo um efeito de furo no sentido. A sessão analítica se reduzia a um núcleo, isolando na pressa a fugacidade de um equívoco significante. Ele recuperava em ato o trauma inicial. 

Foi preciso um certo tempo, um tempo duro que pôs à prova minha demanda, para que eu pudesse ouvir outra coisa no que havia dito, com intenção de dizer. Mas, a partir desse momento, eu aprendi a ler, a ler não o que se relaciona com significações e confusões do sentido, mas a ler no equívoco dos sons o que surge e escorre em lalíngua, isolando o Um do significante recortado de outro.

Assim, fui arrancada da ordem simbólica e deportada à lalíngua, isto é, ao lugar onde os traços fora de sentido deixaram marcas no corpo como letras de gozo, letras que ex-sistem ao dito. Assim, experimentei o que, naquilo que se diz, cessa de se escrever, daquilo que cessa no nível de afetação do corpo, daquilo que cessa de doer, sob a condição de que as palavras não tenham mais sentido. 

Ter sido descolada do sentido desde o início me possibilitou parar de buscar uma saída do lado do ser, abrindo uma via do lado da ex-sistência. Na verdade, o sintoma me forçou a pensar o impensável e, por isso, a articulação significante foi convocada sem cessar, assim como a suposição de um saber que eu ia poder desenterrar de uma vez, para recobrir com suas miragens não a falta, mas o furo. No fundo, o sintoma e seu uso de gozo eram apenas a busca desesperada por um “je panse[3], a fim de recobrir com as miragens do ser o real fora de sentido, a saber, o impossível. O sintoma não cessa de se escrever no lugar do que não cessa de não se escrever, no lugar da impossível escrita da relação sexual que não há. 

Perfurando o sentido, Lacan esvaziou o “je panse” colocando em evidência, assim, a solidariedade do ser de pensamento com a suposta harmonia da imagem unificante do corpo, enodado aos ideais, terreno de predileção onde reina o verdadeiro e o belo. A verdade mentirosa sendo desnudada, essas amarrações se dissiparam levando embora os atributos e os predicados do ser, estes sendo apenas o véu recobrindo a inexistência de Ⱥ mulher. Uma mulher tem apenas um semblante de ser, ali onde ela é causa de desejo para um homem no lugar do objeto a. Se o homem copula em sua fantasia com o objeto a e se ela se presta no parecer-ser, isso não deixa de implicar para um efeito de queda, em vez do vazio. A menos que o pare-ser se conjugue ao a-muro, então o acontecimento amoroso faz suplência na relação sexual. Assim, fui capaz de identificar a dor que me acompanhava desde o tempo do esquecimento como sendo o afeto vindo do impossível, isto é, o real.

Não há dúvida aqui da existência de uma dor, como eu tinha acreditado erroneamente no passado. Trata-se, acima de tudo, da dor de uma inexistência, aquilo que está inscrito do lado das fórmulas de sexuação, do lado mulher, como negação de uma existência. Do lado feminino não existe um x que vem negar a função Φx e, consequentemente, o gozo não é todo submetido à lei da negativação imposta pela linguagem como castração. Uma parte do gozo de uma mulher daí escapa, não sendo todo submetido à função fálica. Ele oculta, diante da lógica edipiana, fora do Um que, sendo exceção, traça o entorno do Todo do universal fálico. Ele é consequência louca, enigmática, fora de sentido. 

O sintoma se constitui como uma resposta, como uma solução, como um operador de consistência visando a inclusão da parte do não-toda, a saber, real, na lógica fálica. Sua visada impossível se impunha como sendo da ordem de uma força (Zwang) impondo uma vontade de anulação do gozo não-todo, a fim de submetê-lo, todo, à castração. Eu era uma fervorosa do Aufhebung, da anulação operada pelo significante, me perdendo em seus labirintos. Mas a peculiaridade de l(a)pensée, do gozo sentido do (a) pensamento, é que ele anda em círculos, gira em torno do furo e essa rodagem em vão aumenta, não o efeito de falta, mas o efeito de furo. A outra face do (a)pensamento, então, como efeito de furo, me aspirava para o infinito, transportando o corpo para fora de si, um lugar de pura falta, um lugar de parte alguma. Nesse furo falhou a ilusão de encontrar, via falo, uma solução pelo universal. 

A operação de Lacan consistiu em opor uma recusa categórica à estratégia neurótica. Pouco fascínio, ruptura dos semblantes, desarticulação do Um unificador, parada categórica do blá-blá-blá. É por uma redução do gozo fálico que a análise operou, fazendo cessarem, assim, as confusões do sentido. Isso só foi possível drenando a via do verdadeiro para abrir aquela do real.

Qual foi o acontecimento então? Aquele do advento de uma mulher, resultado do consentimento dos pontos de impossível localização. Esse consentimento acabou parando a dor e promovendo uma satisfação inédita.

Hoje é possível considerar que essa satisfação tenha vindo como consequência da operação de Lacan, esvaziando o campo da linguagem das significações para manejar a letra fora de sentido. Esvaziando o sintoma das miragens do ser, sua operação visava estreitar o real do sintoma, cujo gozo irredutível é fora de sentido e sem lei.

E nisso fui capaz de assumir o que, na diferença radical  enquanto uma, se singulariza como sinthoma ela (“sinthome elle”).

É esse o acontecimento que se produziu como consequência de meu encontro com Lacan.


Tradução:
Letícia Mello
Revisão: Renata Mendonça


[1] Texto originalmente publicado na Revue La cause du désir, n. 100, 2018.

[2] N.T.: No texto original, me m’être é homófono com me mettre, que se traduz como me colocar.

[3] N.T.: “Je panse” ou “eu curo” que também é homófono a “je pense” – “eu penso”.

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