As TCCs e sua tentativa de reduzir o ser falante ao organismo

Margaret Pires do Couto
Aderente da Seção Minas Gerais da Escola Brasileira de Psicanálise.
Doutora em Educação pela Faculdade de Educação/UFMG e
pós-doutora em Teoria Psicanalítica pelo Instituto de
Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
coutomargaret@gmail.com

 

Resumo: O artigo discute como a crença na existência de um corpo natural sustenta a tentativa operada pelas Terapias Cognitivas Comportamentais de reduzir o ser falante ao organismo. Trata-se de um corpo que supostamente poderá ser quantificado, domesticado e, portanto, adaptado aos ideais da cultura. Ao contrário disso, a psicanálise nos ensina que um corpo habitável não é um dado biológico. Ele é fruto do choque com a linguagem, lugar do gozo.

Palavras-chave: Corpo; Psicanálise; Gozo.

The TCC’s and it’s attempt to reduce the speaking being to the organism 

Abstract: The article discusses how the belief in the existence of a natural body supports the attempt operated by Cognitive Behavioral Therapies (TCC) to reduce the speaking being to the organism. It is a body that supposedly should be quantified, domesticated and, therefore, adapted to the ideals of culture. On the contrary, psychoanalysis teaches us that a habitable body is not a biological datum. It is the fruit of the clash with language, the place of jouissance.

Keywords: Body; Psychoanalysis; Jouissance.

CAROLINA BOTURA. LONGEEUMLUGARQUENAOEXISTE

 

Um dos modos de rechaço à psicanálise que temos enfrentado no cotidiano de nossa clínica tem ocorrido por meio do encaminhamento em massa, especialmente de crianças e adolescentes, para as psicoterapias de orientação cognitiva comportamental. Os pais ou responsáveis relatam que esse direcionamento é realizado pelo médico pediatra, por diferentes profissionais da saúde, como também pelos profissionais da educação. Com a promessa de eficácia, objetividade e rapidez nos resultados, a terapia cognitiva comportamental (TCC) opera uma nova forma de governo da infância e da subjetividade.

Constatamos também a invasão dos ideais adaptativos dessa abordagem terapêutica na formação tanto dos profissionais da saúde como dos profissionais da educação.

A suposição de um corpo naturalizado, que existiria de forma independente da linguagem, ancora a tentativa de reduzir o ser falante ao organismo. O fascínio provocado no meio médico e educacional por essa proposta terapêutica se verifica em função da crença que é possível se ter o acesso a esse corpo de forma direta e, assim, quantificá-lo, padronizá-lo e adaptá-lo aos ideais vigentes. A promessa da eficácia promove uma verdadeira simplificação que exclui o sujeito, o gozo e o real na difícil tarefa de habitar um corpo.
Desconstruindo a TCC

Encontramos, de acordo com Aflalo (2012), uma aliança neo-higienista da psiquiatria biopsicossocial e o ideário da TCC. Nessa aliança, a clínica psiquiátrica é esvaziada de seu conteúdo e a investigação diagnóstica é substituída pela prática de questionários. Seus métodos contribuem para a propagação de uma ideologia duvidosa que sustenta um novo racismo científico. A psiquiatria psicobiossocial se faz passar por um humanismo científico, embora seja especialmente uma espécie de biorreligião a serviço das TCCs.

A discussão de cinco pontos nos permitirá estabelecer as bases da TCC e seus limites teóricos:

1. O pretenso cognitivismo das TCCs

Para Laurent (2007), a cognição a que se refere o termo terapia cognitivo comportamental não é a cognição definida pelas chamadas ciências cognitivas. Ela não permite estabelecer nenhum laço demonstrativo entre a prática das TCCs e os modelos teóricos propostos pelas ciências cognitivas. O pretenso cognitivismo das TCCs é, antes, uma bricolagem teórica. As terapias do mesmo nome são, na verdade, uma aplicação direta e técnica de duas teorias, inclusive opostas em seus princípios: a teoria comportamental e a teoria cognitivista. A concepção da natureza humana não é a mesma para os partidários do comportamentalismo e do cognitivismo. Para os primeiros, homem e animal são idênticos, pois não há diferença entre a adaptabilidade do comportamento humano e a do rato em laboratório. O humano seria apenas a soma de comportamentos, haveria apenas o organismo. Para os cognitivistas, o ser humano estaria identificado com um de seus órgãos, o cérebro, reduzido ao funcionamento de um computador. O pensamento não passaria de uma soma de programas informáticos e haveria apenas linguagem, porém, reduzida a um código.

Os dois projetos se opõem fundamentalmente. Entretanto, o que uniu essas duas formas de pensar o ser humano, apesar de suas diferenças de origem, foi a rejeição do humano como um ser de fala. Sua abordagem reducionista lhes permite afirmar que o psiquismo obedece apenas ao determinismo do organismo. Sejam quais forem os ideais em jogo, a etologia do comportamentalismo ou a máquina artificial do pretenso cognitivista, nega-se a dignidade do ser falante e a verdade de sua queixa.

2. A falsa ideia da saúde mental

A crença na existência de uma “saúde mental” é uma viga central do edifício da TCC. Entretanto, sabemos que é impossível definir cientificamente o que seria essa “saúde mental”; ela é, contrariamente, definida por uma norma moral. Os especialistas da TCC mascaram esse impossível, fazendo da saúde mental um conceito estatístico. Substituem a realidade dos fatos pela realidade estatística como se os cálculos bastassem para fazer existir a realidade do que é calculado.

Após definirem que existe uma norma mental e uma normalidade psíquica, todos os que dela se afastam, que não se tornaram a média estatística, são os desviantes, portadores de patologias mentais a serem reeducadas.

Assim, os teóricos da TCC desconhecem que a condição de ser sexuado e mortal do ser falante está na origem de vários sofrimentos “psi” e que o real do psiquismo, do mental, é o gozo.

3. Protocolos e questionários: a propagação de um cientificismo

O método dos questionários busca garantir que os comportamentos possam ser observados, codificados e quantificados. Desse modo, os comportamentos são reduzidos às listas de questões simples, às quais são atribuídos valores numéricos. A metodologia se resume à fabricação do questionário com o objetivo de formular questões objetivas e elaborar um protocolo, entendido como um conjunto de perguntas.

A prática dos questionários se afasta muito da experiência clínica. A cotação das respostas da avaliação substitui a qualidade pela quantidade, a descrição dos fenômenos por números que são organizados em estatísticas feitas para velar a falha estrutural do saber. Essa máquina enlouquecida da avaliação pretende uniformizar tudo em uma espécie de código universal.

4. O supermercado dos diagnósticos e a demissão da clínica

A psiquiatria é a única disciplina médica em que os diagnósticos são estabelecidos com base não na causa real da doença, e sim no efeito que os medicamentos têm sobre ela. As classificações do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) são fabricadas com o mesmo procedimento de avaliação: são objeto de cálculos estatísticos. O DSM não originou nenhuma verificação independente que levasse em consideração o princípio da falseabilidade ou refutabilidade de suas descobertas, princípio fundamental de certificação de um conhecimento científico de acordo com Karl Popper.

Nessas classificações, nunca se trata do sujeito nem da clínica do caso. Está em jogo apenas o consenso dos psiquiatras. Trata-se de uma espécie de “ditadura do consenso” (AFLALO, 2012), ou seja, o que se leva em conta não são fatos em si, mas sim o consenso dos especialistas, que devem satisfazer também as companhias seguradoras para as quais trabalham. Na impossibilidade de verificar os sintomas “psi”, os especialistas os negociam, mantendo apenas o que pode fazê-los concordar entre si.

5. Sintoma: um erro cognitivo

As TCCs tentam impor a ideia segundo a qual o sintoma “psi” é um distúrbio, cuja origem seria tripla: falta de aprendizagem, componentes biológicos e sociais, motivo pelo qual se tornou “biopsicossocial”. Há uma operação de redução do sintoma “psi” por meio de três operações:

1) Transforma o normal em normativo: esconde o fato que a norma “psi”, inacessível à ciência, sempre se fundamenta num julgamento de valor, ou seja, decorre da moral.

2)Transforma o mental em orgânico: utiliza-se das estatísticas para assentar o mental com as ferramentas conceituais aplicáveis ao organismo. Na falta de poder ver o órgão mental, cujas disfunções valeriam para todos, a norma do mental é fabricada com estatísticas que se fazem passar por uma verdade universal.

3) Utiliza-se do artifício do cálculo estatístico forçando a passagem do patológico para o normal, da doença mental para a saúde mental. A média estatística se torna a norma estatística e, por fim, a normalidade mental.

Para se tornar avaliável, o sintoma é transformado numa grande quantidade de itens simplórios. É reduzido a pequenas unidades de comportamentos ou de cognições, a fim de encontrar uma significação constante, facilmente calculável. O sintoma é reduzido a uma quantidade excessiva a ser corrigida. Desse modo, estabelecem listas de sintomas, ou seja, “faltas observáveis de comportamento e de pensamentos” que sempre esbarram nas questões do ser vivo e sexuado. A ineficácia dessa fabricação de sintomas impele sempre a inventar outros, principalmente ditos de personalidade. Assim, as TCCs tropeçam sempre no problema da persistência dos sintomas e das personalidades desviantes, refratárias às recompensas dadas para normatizá-las ou fazê-las desaparecer.

O sintoma é concebido como um erro que não tem a ver com a verdade, mas como um erro de consciência, do cognitivo. Nessa perspectiva, as terapias da TCCs são aprendizagens padronizadas, metódicas e breves.

Por fim, encontramos, nesse empuxo à quantificação e nesse modo de abordagem terapêutica, a tentativa de desembaraçar-se do sujeito, do gozo e do real. Por outro lado, o sujeito da experiência analítica demonstra ser intraduzível às neurociências e ao código das TCCs e demonstra como a consistência do corpo do falasser depende de uma amarração singular.
O corpo sinthomatizado e a presença do analista

No último ensino de Lacan, o corpo é abordado em sua vertente de gozo, em sua vertente real para além do campo da imagem. Para se manter unido, necessita estar amarrado aos registros imaginário e simbólico indicando que sua consistência não se dá naturalmente, ao contrário, precisa sempre de algum artifício para se sustentar. Um corpo relativamente habitável, unificado e estável não é um dado biológico. A maneira como esse corpo se mantém e a forma pela qual se dá a união entre o corpo, a substância gozante e a fala torna-se para Lacan um verdadeiro mistério (LACAN [1972-73]1985).

Como uma caixa de ressonância, o corpo é o lugar onde se experimentam os afetos e as paixões, muitas vezes desconhecidos pelo ser falante. Denominar o corpo de “falante” significa dizer que ele é traumatizado por essa língua primeira, que deixa marcas de gozo. Nele se deposita o gozo, que não é subjetivado e nem transformado em enunciação, e, por isso, não pode ser apropriado pelo sujeito. Trata-se, portanto, de um corpo parasitado pela linguagem, marcado por signos que evocam a presença muda de um gozo que ultrapassa o registro fálico (MILLER, 1999).

Desse modo, o corpo traumatizado por alíngua se difere radicalmente do corpo, supostamente natural e já dado por antecipação da TCC. Para as TCCs, o corpo é uma máquina, regulado por leis naturais, separado do campo da linguagem, do Outro e especialmente do gozo.

Nessa perspectiva, Laurent, em “O avesso da biopolítica” (2016), discute como o discurso da ciência busca identificar o ser falante ao seu organismo, eliminando o gozo. O discurso da evidência orgânica recorre à imagem do corpo para fazer desaparecer o real do gozo. O corpo-máquina faz par com o corpo-imagem, por um lado, dividindo esse corpo em unidades sempre mais numerosas e mais complexas, e, por outro, fazendo uma falsa imagem unificada, que se reproduz em variadas telas. A forma do corpo, bem como a multiplicação de suas imagens, fascinam e se oferecem como remédio contra a angústia contemporânea.

“A força da imagem em todos os níveis é encarnar, num objeto separado, o que da lógica subjetiva escapa à representação. Não se vê o sujeito, mas se veem as imagens do corpo, de sua forma e de seu funcionamento. Querer reduzir o sujeito ao seu corpo faz parte da tentativa de identificar o ser falante (être parlant) ao seu organismo” (LAURENT, 2016, p. 16).

Lacan, ao contrário desse discurso da tecnociência, enfatizou a divisão entre o sujeito e sua imagem. A ideia de si mesmo como um corpo implica uma crença, a crença de tê-lo diante do fato que ele, o corpo, escapa o tempo todo. O falasser adora seu corpo, porque crê que o tem. Na realidade, ele não o tem, mas seu corpo é sua única consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo instante” (LACAN [1975-1976], 2007 p. 64).

É o que nos ensina Samantha, uma garota de 12 anos que, após ter passado por uma TCC e serem constatados problemas relativos ao corpo, nomeados desordem do movimento postural-ocular e déficit de integração, chega à análise. Tratado como um caso de um organismo defeituoso, como um transtorno, nada do corpo, como caixa de ressonância do gozo de lalíngua, é vislumbrado nesse tratamento. Como consequência, seu modo singular de vivificação e amarração desse corpo vacilante, que ameaçava escapar o tempo todo, foi desconsiderado. É durante o tratamento analítico que Samantha inventa uma solução validada pela analista: ela passa a se utilizar do cosplay1, um recurso imaginário que lhe permitiu dar consistência ao seu corpo e protegê-lo de um gozo devastador.

 


Referências
AFLALO, A. O assassinato frustrado da psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2012.
LACAN, J. (1972-1973) O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, J. (1975-1976) O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007
LAURENT, É. As TCCs não fazem parte do programa cognitivo. In: A sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.
LAURENT, É. El cognitivismo o el cuerpo sinthomatizado. In: Blog-Note del sintoma. Buenos Aires: Tres Haches, 2006.
LAURENT, É. El atravesamiento del sistema de la ciência. In: El goce sin rostro. Buenos Aires: Tres Haches, 2010.
LAURENT, É. O falasser político. In: O avesso da biopolítica: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006.
MILLER, J.-A.  Elementos de biologia lacaniana. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise – MG, 1999.

1. Cosplay é um termo em inglês, formado pela junção das palavras costume (fantasia) e roleplay (brincadeira ou interpretação). É considerado um hobby no qual os participantes se fantasiam de personagens fictícios da cultura pop japonesa. 



Sobre certa presença da psicanálise nas ruas

Clarisse Boechat
Psicanalista, doutora pelo Programa
de Pós-graduação em Psicanálise da UERJ
clarisse.boechat@gmail.com

 

Resumo: Retomo, neste texto, questões que surgiram da experiência de trabalho nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2019, e os ensinamentos que pude extrair daí, destacando especialmente a errância que as ruas me apresentaram como um dos nomes do real do nosso tempo. A partir disso, foi possível localizar e apontar o que, para cada um, funcionava como orientação, assim como sustentar a aposta nos “métodos errantes” daqueles com os quais me encontrei, o que se constituiu como um aprendizado coincidente com o que também encontro na clínica mais tradicional que acontece em meu consultório. A posteriori, depreendeu-se que, seja no consultório, seja nas ruas, a errância parece se apresentar como modalidade de funcionamento privilegiada em tempos nos quais o Nome-do-Pai já não faz mais as vezes de rodovia principal. Na medida em que vivemos em um mundo também errante, os pacientes que nos procuram em nossos consultórios são igualmente tomados por suas próprias errâncias e soluções atípicas, como um sintoma de nossa época.

Palavras-chave: Psicanálise; presença; ruas; errância.

ABOUT A CERTAIN PRESENCE OF PSYCHOANALYSIS IN THE STREETS

Abstract: In this text, I return to questions that emerged from the experience of working on the streets of the city of Rio de Janeiro, between 2012 and 2019, and the lessons I was able to extract from that. Highlighting especially the wandering that the streets showed me as one of the names of the real of our time. From that, it was possible to locate and point out what, for each one, worked as guidance, as well as sustain our bet on the “errant methods” of those I have met. The work turned out to be a learning experience, coinciding with what I also find in my, more traditional, clinical practice. Whether in the office or on the streets, wandering seems to present itself as a privileged mode of operation in times when the Name-of-theFather no longer serves as the main highway. As we live in a wandering world, the patients who come to us in our offices are also taken by their own wanderings and atypical solutions, as a symptom of our time.

Keywords: Psychoanalysis; presence; streetswandering.

 

 

CAROLINA BOTURA. S/T

 

Sobre certa presença da psicanálise nas ruas

Retomo, neste texto, questões que começaram a surgir a partir do trabalho iniciado em 2012, como psicóloga do Consultório na Rua do Centro do Rio de Janeiro. A primeira delas tornou-se mais consistente no título de minha tese de doutorado1: “Quando a psicanálise alcança as ruas, o que fazem os analistas?”. Para respondê-la procurei localizar o que houve de analítico naqueles encontros atípicos nas ruas, em configurações bem distintas do setting tradicionalmente clínico. Em outros termos, considerando as grandes diferenças entre os encontros que aconteciam nas ruas e uma experiência de análise, qual é a pertinência do interesse da psicanálise em relação a um campo, à primeira vista, tão distinto daquele das análises tradicionais? As experiências de errância das ruas nos ensinariam sobre a abordagem psicanalítica dos sintomas ou é muito mais a experiência com essa abordagem que pode orientar nossas intervenções nas ruas?

Tais questões se endereçaram ao Núcleo de Pesquisa “Práticas da Letra”, ligado ao Instituto de Clínica Psicanalítica da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio. A pesquisa do núcleo, coordenado à época por Ana Lucia Lutterbach-Holck, interrogava os “usos possíveis da psicanálise na cidade”, convocando-a a se fazer presente “nas ruas, de portas abertas a quem possa interessar testemunhar sua experiência” (LUTTERBACH-HOLCK, 2014, p. 43). Dessa aproximação surgiu, num segundo tempo, o ateliê “Escreve-se história”, que funcionou semanalmente em frente à Central do Brasil, entre 2014 e 2019, permitindo-nos estar em contato com o que me parece possível considerar como a presença do real na cidade.

Nesse ateliê, uma dupla de psicanalistas se colocava em uma calçada próxima a essa Central, sob o anúncio “Escreve-se história”, com um banquinho reservado a quem se aproximasse. A este, dizíamos algo como “caso queira nos contar uma história, podemos escrevê-la e entregá-la, ao final, para você”. Enquanto o primeiro integrante da dupla se oferecia como destinatário, ouvindo a história, o segundo operava como uma espécie de “escrevente” e, em silêncio, registrava os pontos que se destacavam quando um pedestre tomava a posição de narrador de sua experiência. Ao fim, oferecíamos o original, ficávamos com uma cópia do material e, caso houvesse interesse, dávamos um cartão com data e horário do próximo encontro.

Ofertávamos a escuta e a escrita daquilo que, na abertura ao imprevisto, em uma fala, se precipita, ressoa, causados pelo desejo de ler a cidade de nosso tempo, inventando formas de ocupá-la. Contudo, essa ocupação das ruas, embora tivesse como bússola a psicanálise, não deu margem a experiências que pudessem ser chamadas de análise. Do ponto de vista mais formal, que tampouco demarca o que é uma análise, havia uma radicalidade no despojamento do setting. Os atendimentos eram feitos em meio a carros e transeuntes; não havia pagamento nem como recolhermos os efeitos do só-depois — pois muitas vezes o depois não existia, devido ao trânsito mesmo daqueles com os quais pontualmente nos encontrávamos.

A oferta de escuta e registro das histórias que alguns teriam a nos contar foi o ponto de partida para que pudessem, cada qual a seu modo, e de formas muito distintas, servir-se daquela espécie de trabalho de “edição” que fazíamos sobre o que nos ressoava como orientação. Tanto o “ouvinte” das histórias quanto seu “escrevente” tinham a função de “editar” o “texto” que nos era endereçado. Por vezes, tal “edição” consistia em apontar o que se esboçava como uma localização subjetiva; em outras, havia a tentativa de instauração de um espaçamento mínimo, localizando frestas que furassem a consistência de um Outro invasivo, permitindo-nos apostas nas possibilidades de uma extração de algo perturbador; e ainda, em certas ocasiões, visávamos aos significantes que indicavam uma modalidade de gozo, seja pela possibilidade de ela se constituir como ancoragem, seja pela aposta de promover algum descolamento. Buscávamos extrair, da errância, uma leitura, na medida em que pudéssemos seguir o fio daquelas andanças, nos constituindo como lugar de endereçamento e, a partir daí, víamos se era possível apostar na localização de um fio, por vezes roto e puído, daquelas histórias.

Certa vez, perguntei a uma mulher o seu nome, ao que, de uma só vez, respondeu: “Maria da Silva. Vim do Maranhão depois que me tiraram à força pra fazer sexo. Minha irmã não conseguiu fazer nada (chora). Meu irmão mais velho morreu cortado pra me defender”. Interrogo: “Como você se virou?”. Ela diz: “Tomando distância. Porque eu meto a faca, se eu voltar é pra matar ou morrer”. Em casos assim, tentávamos recolher algo que funcionasse como uma espécie de orientação vital. Digo a ela: “sua vinda foi uma aposta na vida”, apontando, mesmo diante do horror, para a dimensão vivificante dessa escolha que se impôs.

Era recorrente que aquelas histórias fizessem referência a um antes e um depois de acontecimentos que desfizeram arranjos com os quais seus narradores se sustentavam, deixando-os sem uma rede de proteção e expostos à queda de identificações que os ligavam ao Outro, que os inseriam no laço social, levando-os, com certa frequência, a desmoronar feito um castelo de cartas diante do sopro de uma infeliz contingência. Acontecimentos dessa natureza parecem apontar para o furo de um real traumático, frente ao qual a rua responde como espaço para a errância.

Tocar em amarrações tão vitais requer um manejo delicado para, por exemplo, não destacar uma identificação mortífera, abrir buracos em estradas acidentadas demais, sob o risco de interditá-las. Diante de tamanhas devastações, estávamos atentos ao que despontava como recurso, orientação, extraindo os “pontos cardeais” que o “escrevente” tomava como norteadores naquelas histórias. O que chamamos de “pontos cardeais” são os arranjos e soluções que apostávamos fazer a função de ancoragem diante daquilo que, para cada um, apresentava-se como deriva: pequenas bússolas que operassem como orientação.

Em “O exílio e a identificação”, Cristiane Alberti aborda questões relativas ao exílio estrutural do falasser em relação à linguagem, mas também quanto à perspectiva mais radical do exílio, que nos chamou a atenção pela proximidade com o que as ruas apresentam: “Destaquemos aqui que alguns sujeitos estão sempre fora de, jamais em casa, um exílio existencial, nenhum lugar, parte alguma” (ALBERTI, C., 2020, n.p.). Entendemos que “nenhum lugar”, “parte alguma” apontam para uma metonímia incessante, marca do que não se localiza, excesso de extravio. O que chamamos de errância relaciona-se a essa deriva pulsional, em que o circuito da fantasia, a formalização de um sintoma, ou mesmo a consistência de um delírio, não se apresentam de forma tão localizável.

A errância no ensino de Lacan não possui o estatuto de um conceito nem é um tema recorrente em seus seminários. Mas podemos nos ater aqui à menção que lhe é feita no título de seu Seminário 21: les non-dupes errent, que joga com a homofonia que remete tanto aos “não-tolos erram” quanto à pluralização de “Os Nomes-do-Pai”, apontando para as soluções atípicas que um sujeito pode lançar mão para se virar na vida. A temática da errância, tal como Lacan a esboça ali (1973-74, inédito), pode constituir-se como fio condutor de uma clínica que precisa se haver com impasses e soluções surgidas quando o Nome-do-Pai não se faz estrada principal que orienta os caminhos. Ao contrário, na errância há a iteração insistente do Um do gozo desarticulado de um itinerário ou mesmo do que pode se apresentar como montagem da pulsão.

Tal errância se traduz como certo “desenraizamento” e nos evidencia o que se passa quando um sujeito perde o que poderia ter-lhe sido referenciais, vendo-se ultrapassado pela iteração do Um do gozo, sem sentido. Os não-tolos, segundo Lacan, são aqueles que se apresentam como errantes, porque se fixariam à pretensão de seguir sempre a direção inequívoca que a iteração comporta, ou mesmo nos mandamentos provenientes do supereu e nas rotas determinadas pelo Nome-do-Pai.

Fernanda Otoni-Brisset, em “O povo e a peste”, testemunha, de sua prática na rede pública “junto a pessoas sem renda, sem documentos, sem trabalho, sem família, sem teto, sem lei, sem razão, sem muita coisa” (OTONI-BRISSET, 2020, n.p.), e situa que eles têm muito a dizer quando encontram um analista: “Diria que portam sem saber, um saber que não é suposto. Um saber a forçar suas escolhas, de forma irrecusável” (OTONI-BRISSET, 2020, n.p.). Otoni parece também se encontrar com o que nomeamos como a dimensão da iteração presente na errância, que, em seu texto, tender-se-ia a localizar como “esse saber a forçar suas escolhas” (OTONI-BRISSET, 2020, n.p.).

Eis o desafio: como nos incluirmos como destinatários do endereçamento de um saber que se sabe sozinho, que não é suposto? Diante da dimensão implacável da iteração do gozo descolada da suposição de saber no Outro, cabe, ao analista, a aposta de fazer incluir nesses circuitos, a fim de se constituir como parceiro, por exemplo, na relação com o gozo opaco do Um, que itera, instaurando uma modesta margem de manobra a partir do saber que se recolhe.

Quando Claudionor pergunta meu nome e lhe respondo “Clarisse”, ele observa: “Olha! 2 C: Claudionor e Clarisse”. Em seguida, diz que gostaria de escrever um livro com dedicatória para 3 K. Destaco: “Você gosta de letras!”. Ele diz que sim, me mostra uma tatuagem com o 3K, explicando se tratar da inicial dos nomes das três filhas. A letra K surgiu quando aguardava o nascimento de sua primeira filha na maternidade, ao ler uma revista em quadrinhos em que tinha uma mulher chamada Kelly: “Fiquei com o K e escolhi o nome de Késia pra ela”. Ou seja, esse K ele extrai no momento do nascimento de sua primeira filha, parindo um significante que lhe permitiu ser pai. Desse K, retirado da revista, partirão os nomes das demais filhas: Késia, Keyla, Kamile — 3K. O que recolhemos dos encontros, que duraram cerca de um ano, nos ensina sobre o uso sinthomático do 3K, invenção marcada pela tolice de se deixar guiar por essa espécie de Um sozinho, que lhe orienta a deriva, a lógica de sua errância, funcionando à semelhança de um itinerário.

Seguíamos aqueles sujeitos em seu ir-e-vir, às vezes sem rumo, buscando fazer ressoarem as formas pelas quais eles poderiam se valer de seus próprios arranjos, inventando ou aprimorando modos de lidar com o gozo que itera sempre em suas derivas.

Jacques-Allain Miller, em O parceiro sintoma (2008), considera o sinthoma, no último Lacan, como uma construção que envolve uma parte de gozo solta e uma parte de gozo apreendido no âmbito do discurso. Nessa dimensão sinthomática, os itinerários, as montagens, podem ser variados — são formas de dar lugar à errância inerente ao gozo, que é sempre singular.

Ao nos fazermos presentes nas ruas, com a psicanálise, nos acostamentos e “quebradas”, no burburinho caótico da cidade, às margens da rodovia do Nome-do-Pai, aprendemos a garimpar os “pontos cardeais” que podem fazer as vezes de caminhos, conforme Sérgio Laia nos indica mostrando que as errâncias possuem seus próprios métodos sinthomáticos. Fora da estrada principal, mas também não deixando os falasseres imersos na solidão do Um-sozinho, podemos encontrar invenções marcadas por esse norteamento de se fazer tolo de um real, para que se possa dar outro lugar a um gozo que é errante e próprio de cada um. Nos casos que acompanhamos, buscamos situar nossa aposta quanto a um norteamento, ainda que esse trabalho não tenha passado, necessariamente, pela construção da fantasia ou de uma estabilização via construção delirante. Esse norteamento pôde, em alguns casos, fazer as vezes de um itinerário, acolhendo a errância do gozo em vez de pretender, em vão, contê-la. Essa era a parceria a que nos oferecíamos: seguir os indícios — que, com o Lacan do Seminário, livro 23, podemos situar como sinthomáticos — daqueles sujeitos que se endereçavam a nós para que lhes escrevêssemos suas histórias errantes.

Seja nas ruas, seja no consultório, a psicanálise se vale dos desarranjos da rotina; é nessa lacuna que relampeja o que mostra a efetividade do discurso analítico em sua via de extrair, onde quer que ele se aplique, enunciações com efeitos de verdade, ancoragens, deslocamentos, leituras, enfim. Também no consultório testemunhamos do mal-estar próprio ao nosso tempo, da iteração do gozo mais além de qualquer enquadre ou norma, quando a estrada principal do Nome-do-Pai já não faz mais tanto as vezes da grande rodovia.

Então, abordamos a errância como um dos nomes do real que as ruas, ao mesmo tempo, acolhem e dispersam, mas, na medida em que vivemos em um mundo errante, os pacientes que nos procuram em nossos consultórios são também tomados por suas próprias errâncias, como um sintoma de nossa época. A errância diz respeito ao que, do gozo, não se normatiza nem se normaliza, não sendo propriamente específica da neurose ou da psicose, embora possa ser mais disruptiva nos contextos em que o Nome-do-Pai não faz as vezes de norteador.

Em A sociedade do sintoma, Éric Laurent propõe que, “quando o laço se rompe, a cidade se torna o império do vazio, escavado pela escritura, gozo fora do sentido que circula na cidade” (2007, p. 110). As ruas são labirintos por onde o extravio do gozo circula, mas onde ele também se enlaça em arranjos muito singulares, como pude verificar em minha experiência de alcançar as ruas com a psicanálise. Essa presença permitiu-nos testemunhar as formas pelas quais o mais singular de um gozo, que, muitas vezes, dá lugar à segregação, pôde se relançar e até encontrar algum lugar no coletivo em uma renovada, embora muitas vezes lábil, forma de laço social dessegregativo (LAIA, 2020). Um laço que, intermitentemente, pode se enganchar e se desconectar do Outro, compondo diferentes soluções provisórias. Nas ruas ou no consultório, nossa tarefa consiste em instalar pequenas brechas porosas à passagem das operações singulares de cada sujeito, que portam a vitalidade de uma ação psicanalítica extensiva ao campo social. Situado na conjunção entre a clínica e a política, o analista tem como incumbência apostar na emergência da diferença, na abordagem dessegregativa do gozo errante, na diversi-cidade dos laços, tornando-se “aquele que segue” as soluções atípicas (LAURENT, 2018).

 


Referências:
ALBERTI, C. O exílio e a identificação. Disponível em: https://ebp.org.br/rj/2020/10/19/o-exilio-e-a-identificacao/. Último acesso em 09/04/2021.
LACAN, J. (1973-74). O seminário, livro 21: les non dupes-errent. Inédito.
LACAN, J. (1975-76). O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
LAIA, S. O ventríloquo e a biruta analítica: das versões do corpo falante… no momento de conclui. In: Curinga. Nº 49, 2020.
LAURENT, É. A sociedade do sintoma. Rio de Janeiro: Contracapa, 2007.
LAURENT, É. Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência. In: Opção Lacaniana. Revista Internacional Brasileira de Psicanálise, n. 79. São Paulo, 2018.
LUTTERBACH-HOCLK, A. L. Sobre o método e o objeto. In: LUTTERBACH-HOLCK, A. L.; GROVA, T. [orgs.] Ao pé da letra: leituras e escrituras na clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Subversos, 2014.
MILLER, J-A. Le partenaire-síntoma. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2008.
OTONI-BRISSET, F. O. O povo e a peste. Disponível em: http://lalibertaddepluma.org/fernanda-otoni- brisset-o-povo-e-a-peste/. Último acesso em: 09/04/2021.

1. Tese defendida pelo Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2020, que teve como orientadores Heloisa Caldas e Sérgio Laia.



Modos de presença1

Florencia F. C. Shanahan
Psicanalista, A.P. da NLS/AMP
florenciashanahan@gmail.com

 

Resumo: A autora levanta algumas questões, a partir de sua própria experiência, sobre os modos de presença em uma análise, apontando o lugar fundamental que o atendimento virtual teve para ela. No entanto, questiona se haveria um final de análise caso assim permanecesse.

Palavras-chave: presença; analista; fim de análise; virtual.

MODES OF PRESENCE 

Abstract: In this essay the author questions, through her own experience, the modes of presence in an analysis, while recognizing that the online sessions were very important for her. However, she questions if there would’ve been an end of analysis had it continued to be virtual.

Keywords: presence; analyst; end of analysis; virtual.

 

 

CAROLINA BOTURA. S/T

 

Penso que a análise não é um quebra-cabeça, mas um mosaico, feito não de peças preexistentes para as quais haveria um lugar predeterminado e cuja disposição daria uma forma toda bem-feita, mas de peças, tesselas que vão cortando, encontrando, descartando ou tirando do outro na transferência, compondo um quadro que não se completa, mesmo que esteja acabado.

Vou tentar dizer algumas coisas. Podem às vezes ser contraditórias. Não respondem a nenhuma pergunta geral. Tampouco, creio eu, se prestam a qualquer dedução. São pequenos fragmentos que emergem no tempo de elaboração em que me encontro. Eles encontrarão um lugar no mosaico que continua a ser criado após o passe.

Meu primeiro analista nunca teve meus dados: nem endereço postal, nem número de telefone. Muitas vezes fantasiei que desaparecia e que ele não poderia me contatar, não saberia onde me procurar, se perguntaria se eu havia morrido. Por quase oito anos assisti religiosamente às sessões de tempo fixo. A três quarteirões de onde morava. Quarenta e cinco minutos. Um enquadramento ritualizado que alimentava meu já excessivo supereu e que mortificava meu corpo. O silêncio e a quietude do analista muitas vezes me deixavam à mercê do mutismo pulsional do qual me tornei parceira. Aprendi ali que o sentido não se engorda apenas com palavras.

O analista que me permitiu sair disso — e encontrar um fim lógico para a experiência do inconsciente do qual sou sujeito — se mexia muito. Ele também falava muito pouco, mas movia seu corpo constantemente. Cortava pedaços de papel freneticamente ou digitava forte no teclado. Ele atendia ligações durante as sessões, às vezes resmungava coisas. Ali aprendi que o silêncio não era do Outro.

Eu poderia ter continuado a seguir a vida se ele não tivesse me atendido por telefone todos os dias quando minha mãe e meu irmão morreram inesperadamente? Não sei.

Poderia ter ido ao encontro do bom furo se ele não tivesse me atendido por Skype, sustentando o olhar na tela, diariamente, por mais de um mês, durante a travessia pela angústia mais radical no tempo da destituição subjetiva que deu passagem ao final? Não acredito.

No entanto, acredito que minha análise não poderia ter concluído se tivesse sido “virtual”. Especialmente porque o impulso de sair surgiu, como relatei em meu primeiro testemunho, a partir do momento em que deixei meu isqueiro no divã. Sem dúvida, isso não poderia ter acontecido em uma sessão telefônica ou por chamada de vídeo. Aquele pequeno objeto que fica para trás imprime a urgência que me faz pegar um avião para voltar; e abre a porta da última sessão. A voz como objeto, como entrou em jogo em minha análise — em sua extração e incorporação — não é de forma alguma a voz da comunicação. Sobre isso tentarei avançar em meu próximo escrito.

Sem dúvida, a prática on-line ou por telefone existe. É um fato. Que estatuto tem? As questões que derivam disso dizem respeito à psicanálise como tal, e não apenas a que circunstâncias atuais elas nos confrontam.

Acho que se trata, sobretudo, de encontrar posições na enunciação que vão na direção do que Lacan chamou de bem-dizer e contra as posições que a neurose está sempre pronta a alimentar: buscar explicações para o que se faz ou deixa de fazer; tentar obter do Outro a validação do que se faz ou não; forçar os pinos a entrar nos buraquinhos para acomodar o real à realidade…

Trata-se de não se preparar muito rápido para dizer o que é psicanálise e o que não é, ignorando a implicação de um desejo singular na base de cada ato que, como tal, não tem garantia. Trata-se de não se sustentar, na tradição, os significantes congelados na boca da autoridade ou o saber morto do que já foi dito, com a ilusão de proteger a psicanálise de sua degradação fantasiada.

Obviamente, quando se trata de justificar a prática em si como meio de subsistência2, ou sua permanência no mercado como mais um dos objetos oferecidos para consumo, aí o problema é outro. E diz respeito à formação do analista.
Tradução: Rodrigo Almeida

Revisão: Cecília Batista

 


1. Texto originalmente publicado em: https://zadigespana.com/2020/04/11/coronavirus-modos-de-la-presencia/.

2. Pergunta feita por Lacan em seu último texto escrito, “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, In: LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 567.

 

 




Defender-se de uma incompatibilidade na vida representativa

Virgínia Carvalho
Psicanalista, membro da EBP/AMP, doutora
e mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG.
virginiacarvalhopsicanalise@gmail.com

 

Resumo: A autora trabalha a noção lacaniana de “des-montar” (déranger) a defesa a partir de uma releitura dos textos de Freud “As neuropsicoses de defesa” (1894) e “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” (1896), nos quais localiza a “incompatibilidade na vida representativa” como o ponto chave do qual o sujeito se defende, indicando algumas perspectivas clínicas dessa concepção.

Palavras-chave: Defesa; clínica psicanalítica; pulsão.

TO DEFEND FROM AN INCOMPATIBILITY IN A REPRESENTATIVE LIFE
Abstract: The author works with the Lacanian notion of “dis-assembling” (déranger) the defense, based on a reading of the Freud’s texts The neuropsychoses of defense (1894), and Additional observations on the neuropsychoses of defense (1896), in which she localizes the “incompatibility in representative life” as the key point from which the subject defends himself. She also indicates some clinical perspectives of this notion.

Keywords: Defense; psychoanalytic clinic; drive.

 

CAROLINA BOTURA. SHEILA NAJIG

 

Na 58ª edição das Lições Introdutórias à Psicanálise, propusemos o desafio de ler Freud a partir da orientação lacaniana de que des-montar a defesa é o “coração”, a matriz mesma da operação analítica (MILLER, 2020, p. 36). O termo utilizado por Lacan é dérange, que optamos por traduzir como desmontar, desordenar. Também incluímos um hífen no des-montar para realçar a ideia de que há uma nova montagem a ser feita, uma vez que não se elimina a defesa. Essa “des-montagem” parece se aproximar do que vemos no trabalho Disassembled/Things come apart, do fotógrafo Todd McLellan (2013). O artista desmonta alguns objetos e faz desses objetos desmontados uma bela e interessante nova montagem. As fotos encontram-se disponíveis em seu site.

Ler Freud com Lacan, Lacan com Freud e Miller fazendo a costura: eis nossa metodologia de trabalho. Mas é preciso fazer isso sem apagar a complexidade do texto freudiano. Em seu seminário sobre as psicoses, o Seminário 3 (1955-1956), Lacan nos orienta nesse desafio que é ler Freud:

“só mesmo ele [Freud] é que, em vida, tenha preparado os conceitos originais necessários a atacar e ordenar o campo novo em que descobria. Esses conceitos, ele os prepara cada um com um mundo de questões. O que há de interessante em Freud é que ele não as dissimula, essas questões. Cada um de seus textos é um texto problemático, de tal modo que ler Freud é reabrir as questões” (LACAN, 1955-1956/1995, p. 128).

Com-texto

Centrar-nos-emos sobre dois textos cuja temporalidade remonta a um tempo anterior ao que Freud localiza como o da “psicanálise propriamente dita” (1925/1996): “As neuropsicoses de defesa” (FREUD, 1894/1996) e “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” (FREUD, 1896/1996). Ambos são anteriores ao abandono por Freud da teoria da sedução, ou seja, ele ainda acreditava que a experiência traumática da qual seus pacientes lhe falavam referia-se a reminiscências de episódios de abuso ocorridos na infância, algum tipo de sedução por um adulto. É somente três anos após esses textos que Freud escreve a Fliess sua “Carta 69” (1892-1899/1996), dizendo que não acreditava mais em sua neurótica.

Em 1897, duas questões o atordoavam: por que ainda não havia sido possível levar uma análise à sua conclusão real e exitosa?, será que todos os pais são perversos e abusam de suas filhas? Como resposta, Freud se deparou com o papel “extraordinariamente grande desempenhado na vida mental dos neuróticos pelas atividades da fantasia” (FREUD, 1924/2016). Isso o fez constatar o “erro” que cometia ao privilegiar a sedução como um fato e, ao mesmo tempo, permitiu-lhe sustentar ainda mais a ideia de que, no psiquismo humano, existe uma instância em que a verdade e a ficção coexistem lado a lado (FREUD, 1892-1899/1996), o inconsciente.

Em 1925, ao revisitar a cena do abandono da teoria da sedução, conclui que tal abandono implicava em reconhecer que “os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos, e que, no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior importância que a realidade efetiva” (FREUD, 1925/1996, p. 29). Isso nos leva à ideia que vem sendo trabalhada por Miller a respeito de que, em Freud, tudo é sonho e que todo mundo é louco — mas não nos apressemos com isso.

Também convém lembrar que, quando escreveu “Neuropsicoses de defesa” (FREUD, 1894/1996), ele ainda não dispunha de uma teoria consistente do recalque — o que se consolidou melhor em sua metapsicologia, em 1915, quando o relaciona ao “pilar sobre o qual repousa o edifício da psicanálise” (FREUD, 1915/2010), mas que ele localiza ainda mais no texto sobre “Inibição, sintoma e angústia” (FREUD, 1926/1996), que será posteriormente trabalhado aqui. Também não havia formulado suas constatações acerca da pulsão de morte, o que vai acontecer em 1920, não sem antes questionar de diversas formas sua maneira de formalizar o conceito de pulsão.

Inicialmente, Freud (1910/1996) considerava que havia dois grupos distintos de pulsão. Um que estava a serviço da autoconservação, que nomeou de pulsões do Eu, e outro que serviria às demandas sexuais. Esse primeiro dualismo pulsional ancorava suas bases no poeta Schiller, que acreditava que “fome e amor” moviam as engrenagens do mundo. Em “A perturbação psicogênica da visão” (1910/1996), Freud nos dá algumas imagens para compreendermos como uma mesma fonte poderia obedecer às duas correntes pulsionais. Diz Freud:

“A boca serve tanto para beijar como para comer e para falar; os olhos percebem não só alterações no mundo externo, que são importantes para a preservação da vida, como também as características dos objetos que os fazem ser escolhidos como objetos de amor — seus encantos” (FREUD, 1910/1996, p. 201).

Segundo Freud nos indica em sua conferência sobre “Angústia e vida pulsional” (1932/1996), quando começa a estudar o Eu e se aprofunda no conceito de narcisismo, “a distinção entre pulsão do Eu e sexual perde o sentido”, já que o Eu é sempre o principal reservatório da libido. Nesse momento, abrem-se algumas perguntas para ele sobre um tipo de pulsão bastante destrutiva, que revela uma propensão a restaurar uma situação anterior, um retorno ao inorgânico: uma “estranha pulsão que se volta para a destruição de sua própria morada orgânica essencial” (FREUD, 1932/1996). Desse modo, a hipótese de Freud passa a ser a de que existiriam duas classes de pulsão: “as pulsões sexuais, compreendidas no sentido mais amplo — Eros, se preferem esse nome —, e as pulsões agressivas, cuja finalidade é a destruição” (1932/1996, p. 129). A ideia freudiana de que vida e morte se mesclam no processo de viver e que as pulsões de morte estariam amalgamadas às de vida permitiu a Lacan (1964/1998) considerar que a pulsão é pulsão de morte e que a pulsão de vida já seria um tratamento dado à pulsão.

A pulsão é considerada por Lacan (1964/1998) um dos mais importantes conceitos fundamentais da psicanálise. Segundo a metapsicologia de Freud (1915/2016), elas podem ser consideradas “uma medida da exigência de trabalho imposta ao anímico, em decorrência de sua relação com o corporal” (p. 25). Por isso é um “conceito fronteiriço entre o anímico e o somático” (FREUD, 1915/2016, p. 25). Ela é uma pressão (drang) constante, da qual não se pode fugir, e que tem como meta a satisfação. Como esta implicaria numa suspensão do estímulo corporal, e isso não é possível, a pulsão insiste como demanda. Sua fonte é corporal, mas seu objeto é o que há de mais variável, pois não está nunca atrelado a ela. É sempre um objeto faltoso, pois será sempre um substituto, o que está escrito por Freud, nos “Três ensaios sobre a sexualidade”, do seguinte modo: “o encontro do objeto é, na verdade, um reencontro” (1905/1996, p. 210). Lacan (1964/1998) a configura como uma montagem surrealista, tal como um sujeito acéfalo, sem pé nem cabeça.

A pulsão não pode ser satisfeita nem eliminada, no entanto, pode sofrer alguns destinos. Freud (1915/2016) enumerou quatro: 1) reversão em seu oposto, que seria a mudança da finalidade da pulsão, como a mudança de atividade para passividade; 2) retorno em direção à própria pessoa; 3) sublimação, que consiste na modificação da finalidade sexual da pulsão para uma finalidade não sexual e também em uma inibição do alvo, sem restrição da intensidade; e o 4) recalque, que consiste na separação entre a ideia e o afeto que a acompanha, mantendo a ideia afastada da consciência.

O recalque ganhou um texto próprio, e, nesse, Freud (1915/2010) o articula à formação dos sintomas, sendo estes últimos seus derivados. Indica que é o recalque originário (Urverdrangung) o responsável pela divisão entre os sistemas pré-consciente/consciente e inconsciente e que esse primeiro recalque consiste em negar o acesso do representante pulsional à consciência, através de um “contrainvestimento” (1915/2016). O recalque propriamente dito é o que vai cuidar de sua continuidade e funciona mantendo uma ideia afastada da consciência.

Mas o recalque é a defesa? Freud  os separa e os mistura, chegando a localizar, no texto “Inibição, sintoma e angústia” (1926/1996), que o recalque não é a mesma coisa que a defesa, classificando o recalque como “um caso especial de defesa”, pois a defesa seria algo “que pode abranger todos os processos que tenham a mesma finalidade — a saber, a proteção do eu contra as exigências” pulsionais (p. 159). Miller (2020) nos ajuda a entender a ideia de que a defesa não se equivale ao recalque. Enquanto o recalque incide sobre o significante, separando a ideia do afeto, a defesa não recairia sobre um significante. Ela qualifica, já em Freud, “uma relação com a pulsão” (MILLER, 2020, p. 52). A defesa é defesa ao real. Falarei sobre isso depois.

Feito esse com-texto freudiano, podemos agora retornar aos textos de 1894 e 1896 para entendermos melhor o que Freud chama de “incompatibilidade na vida representativa” e nos permitirmos, ainda hoje, cento e vinte seis anos após, a aprender com Freud sem nos apressarmos tanto para chegar ao ultimíssimo Miller.

A incompatibilidade representativa

Adentremos, então, em “As neuropsicoses de defesa”, cujo subtítulo é “tentativa de formulação de uma teoria da histeria adquirida, de muitas fobias e obsessões e de certas psicoses alucinatórias” (FREUD, 1894/1996). Isso nos dá uma orientação sobre o rumo que Freud imprime a esse texto: há algo comum entre a neurose histérica, a neurose obsessiva, a fobia e a psicose. Embora circunscreva esse ponto em comum, em nenhum momento Freud iguala essas categorias, borrando suas diferenças. Não faz uma despatologização, como a que tem ocorrido em nossa cultura e que Miller (2022) vem apontando como uma “igualdade” que acaba por apagar a clínica, dando lugar a uma substituição dos princípios clínicos por princípios jurídicos, já que tudo passa a se relacionar a estilos de vida. Não sei se vocês estariam de acordo, mas me pareceu que, nesse texto de Freud (1894/1996), fica evidente seu esforço, com os recursos que tem naquele momento, para dar lugar à loucura de cada um.

Leio a questão central desses textos da seguinte maneira: “como alguém pode não se defender?”. Isso me faz lembrar a pergunta feita por Lacan em seu Seminário 23 (1975-1976/2007), a propósito do paciente que relatava sofrer de “falas impostas”, dizendo-se afetado pela telepatia, de modo que todo mundo era avisado de suas reflexões. O “telepata emissor” havia tentado se matar, tamanho sofrimento na experiência desses fenômenos elementares. Joyce também vivenciava essa sensação de “palavras impostas”, uma vez que sua relação própria com as palavras evidencia o modo como as “experimenta como algo estranho, heterogêneo, ‘imposto’, que não vai por si” (MANDIL, 2003, p. 249). Joyce produz um anteparo ao caráter excessivamente vivo da linguagem, desarticulando-a. Mas, para fazer tal desarticulação, ele preserva a letra, mantendo sua escrita em inglês (MANDIL, 2003). Lacan (1975-1976/2007) destaca que a escrita deu um tratamento à dimensão parasita que está presente para todo falasser: “a questão é antes saber por que um homem dito normal não percebe que a fala é um parasita, que a fala é uma excrescência, que a fala é a forma de câncer pela qual o ser humano é afligido” (p. 92).

Em Freud (1894/1996), ao buscar em sua experiência clínica alguma resposta, indica:

“Esses pacientes que analisei, portanto, gozaram de boa saúde mental até o momento em que houve uma ocorrência de incompatibilidade em sua vida representativa — isto é, até que seu eu se confrontou com uma experiência, uma representação ou um sentimento que suscitaram um afeto tão aflitivo que o sujeito decidiu esquecê-lo, pois não confiava em sua capacidade de resolver a contradição entre a representação incompatível e seu eu por meio da atividade de pensamento” (p. 55).

Luiz Hanns, em seu Dicionário comentado do alemão de Freud (1996), se dedica ao termo unverträglich (p. 277). Quer dizer inassimilável, indigesto (faz mal à saúde), inconciliável, intratável e aponta para uma impossibilidade de coexistência. Hanns (1996) concorda com a tradução de “incompatível” presente na Imago, mas aponta que, com ela, “perde-se a ideia de uma incompatibilidade visceral, bem como a noção de que se trata de uma impossibilidade de coexistência” (p. 281). Interessante nos perguntarmos sobre o que seria essa “representação incompatível” de que Freud tanto fala. Estaríamos aí no terreno que Lacan nos ensinou a ler como o registro do real?

Freud (1894/1996) lembra que seus pacientes histéricos “conseguem recordar com toda precisão desejável seus esforços defensivos, sua intenção de ‘expulsar aquilo para longe’, de não pensar no assunto, de suprimi-lo” (p. 55). Como faz Elizabeth Von R., que se culpava por pensar em um rapaz que lhe causara uma “leve impressão erótica” justamente no momento de cuidar de seu pai enfermo, ou Miss Lucy, ao experimentar um sentimento de paixão por seu patrão. Indico a vocês retomar os casos trabalhados por Freud em seus “Estudos sobre a histeria” (1893-1895/2016), texto que se encontra no segundo volume das Obras Completas.

Em “As neuropsicoses de defesa” (1894/1996), Freud ressalta que o fato de nos defendermos não é patológico. Os sintomas que levam os sujeitos a procurar uma análise surgem, ao contrário, quando a defesa não funciona: quando “esse tipo de esquecimento não funcionou” (FREUD, 1894/1996, p. 55). Quando a defesa não é eficaz, há uma série de reações patológicas.

O eu se impõe uma tarefa, em sua atitude defensiva, de tratar a representação incompatível como “non-arrivé”, como se ela não tivesse chegado. Mas o que ocorre é que “tanto o traço mnêmico quanto o afeto ligado à representação lá estão de uma vez por todas e não podem ser erradicados” (FREUD, 1894/1996, p. 56). O eu promove, então, uma transformação dessa representação poderosa numa representação fraca, retirando-lhe o afeto. Separa-se, portanto, o afeto e a ideia, o que Freud mais adiante vai formalizar como sendo o mecanismo do recalque.

O afeto que resta livre precisa ser utilizado de alguma forma, e, nesse texto de 1894, Freud localiza que histeria, fobia e neurose obsessiva se encontram nesse modo de funcionar, mas não de forma semelhante. Embora todos eles tentem se defender da “representação incompatível”, a maneira como fazem com esse afeto livre é distinta. Vejamos essa distinção tão clínica que Freud nos apresenta.

Na histeria, esse afeto se converte em algo somático. Como ocorre com Miss Lucy, que procura Freud com uma “rinite supurativa cronicamente recorrente”, aparentemente derivada de uma cárie no osso etmoide, mas que persistia sem que seu colega clínico pudesse continuar atribuindo o problema “a uma afecção local” (FREUD, 1893-1895/2016, p. 134). Ela havia perdido todo o sentido do olfato e “era quase continuamente perseguida por uma ou duas sensações olfativas subjetivas, que lhe eram muito aflitivas. Além disso, estava desanimada e fatigada e se queixava de peso na cabeça, pouco apetite e perda de eficiência” (FREUD, 1893-1895/2016, p. 134).

Ela constantemente sentia um cheiro perturbador de pudim queimado, sintoma que foi “o ponto de partida da análise”. Nessa, Miss Lucy trouxe à luz a primeira lembrança desse cheiro, e os desdobramentos do caso mostram que Freud tentava localizar nesse momento algo que pudesse levá-lo à representação incompatível. Nos “Estudos sobre a histeria”, vemos o movimento de Freud (1893-1895/2016) de tentar levantar a barreira imposta pelo recalque. Miss Lucy havia chegado à ideia de que sua paixão pelo patrão era sua fonte de sofrimento, e isso tornou desnecessário o sintoma de sentir cheiro de pudim queimado, porém, abriu caminho para um deslocamento, passando a experimentar um outro odor: o de fumaça de charuto. Freud (1893-1895/2016) relata não ter ficado “muito satisfeito com os resultados do tratamento”. Em suas palavras: “eu apenas eliminara um sintoma só para que seu lugar fosse ocupado por outro” (FREUD, 1893-1895/2016, p. 145). Ele segue ainda o caminho do segundo odor, tentando liberar mais lembranças traumáticas, e chega a uma cena que supõe ter desencadeado os sintomas. Trata-se de um momento em que o patrão havia gritado com ela sem que ela fosse responsável pela situação em questão, o que, em sua concepção, evidenciava sua ausência de sentimentos ternos para com ela. Ao chegarem a essa cena, uma lembrança aflitiva, ela se libera dos sofrimentos que ensejaram o início da análise, que durou nove semanas.

Voltando ao texto que estamos trabalhando, Freud (1894/1996) acreditava que, se na histeria esse afeto livre se transpõe para “enormes somas de excitação para a inervação somática”, na neurose obsessiva haveria uma carência na “aptidão para a conversão” (p. 59). Não obstante, os sujeitos parecem também “rechaçar uma representação incompatível”. Quando tal representação é separada de seu afeto, ele fica obrigado a permanecer na esfera psíquica. Como está livre, “liga-se a outras representações que não são incompatíveis em si mesmas, e graças a essa ‘falsa ligação’ tais representações se transformam em representações obsessivas” (FREUD, 1894/1996, p. 59).

No caso do Homem dos Ratos, de 1909, isso fica muito evidente. Vale muito a pena a retomada desse caso, que se encontra no volume X, no texto intitulado “Nota sobre um caso de neurose obsessiva”. Trata-se de um jovem senhor de formação universitária que se apresenta a Freud (1909/1996) com obsessões que o acompanham desde a infância e que se intensificaram nos últimos quatro anos. O caso tem como cenário os ratos (Ratten), que tomam relevo a partir do relato de um castigo feito pelo capitão “cruel” quando prestava o serviço militar. Tal castigo consistia em amarrar o criminoso e introduzir ratos dentro de suas nádegas. Esse relato se transforma em ideia obsessiva, produzindo sintomas que se referem ao termo: Ratten (ratos), Spielratten (ratos de jogo), Raten (prestações, pagamentos), Heiraten (casamentos, acasalamentos). Para Freud (1909/1996), no final das contas, o que se coloca é uma questão sobre sua própria existência como rato, por ver no animal uma “imagem viva de si mesmo” (p. 188).

No início de seu tratamento, o paciente relata a Freud sobre o episódio da morte de seu pai, que ocorreu exatamente no momento em que ele havia se deitado para descansar, enquanto o acompanhava por ocasião da doença no pulmão. Soube, pela enfermeira, que o pai o havia chamado, o que aumentou ainda mais sua recriminação: “passara a tratar a si próprio como criminoso” (FREUD, 1909/1996, p. 156). No caso do Homem dos Ratos, o rato foi o objeto erotizado. É o que faz com que esse sujeito inclua os ratos em sua economia, o que pode ser visto na associação que faz entre “tantos ratos, tantos florins” (LACAN, 1962-1963/2005, p. 250).

Para Freud (1894/1996), “a obsessão é, em primeiro lugar, a fonte do afeto agora colocado numa falsa ligação” (p. 59). O paciente chega se queixando de suas obsessões, mas o afeto ligado a uma determinada ideia parece estar desalojado e transposto.

No caso de uma substituição da qualidade do afeto, estamos no terreno da fobia: a angústia liberada cuja origem sexual não deva ser lembrada pelo paciente irá apoderar-se das fobias primárias comuns da espécie humana, relacionadas com animais, tempestades, escuridão, e assim por diante, ou de coisas inequivocamente associadas, de um modo ou de outro, com o que é sexual — tais como a micção, a defecação ou, de um modo geral, a sujeira e o contágio. Podemos aqui fazer referência a Hans e sua fobia de cavalos, caso que se encontra no volume XVII sob o título “História de uma neurose infantil” (FREUD, 1909/1996).

Em “Neuropsicoses de defesa”, Freud (1894/1996) lembra que, embora sejam distintas as maneiras de lidar com o afeto liberado da representação incompatível recalcada, “em todas as situações, é a vida sexual o que desperta o afeto aflitivo”.

Mas, e a psicose? Considero que esses dois textos com os quais estamos trabalhando nos trazem luzes importantes para o trabalho com a psicose, mesmo que sejam ainda muito incipientes e que Freud ainda não tenha localizado a diferenciação entre a defesa e o recalque. Vejamos o que ele escreve:

“a defesa contra a representação incompatível [na neurose] foi efetuada separando-a de seu afeto; a representação em si permaneceu na consciência, ainda que enfraquecida e isolada. Há, entretanto, uma espécie de defesa muito mais poderosa e bem-sucedida. Nela o eu rejeita a representação incompatível juntamente com seu afeto e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorrido. Mas, a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito fica numa psicose que só pode ser qualificada como ‘confusão alucinatória’” (FREUD, 1894/1996, p. 64).

Vemos como Freud, já em 1894, aponta para a rejeição da representação incompatível na psicose, o que Lacan irá trabalhar a partir de sua concepção de foraclusão, que pode ser lida no Seminário 3 (LACAN, 1955-1956/1995).

Interessante o fragmento clínico, trazido por Freud (1894/1996), da moça que experimentava sua paixão por um homem e que acreditava, de modo erotômano, que ele também a amava, e que, diante da recusa deste, vive a chegada do seu amor como um sonho. Freud (1894/1996) lembra que ali “o eu rechaçou a representação incompatível através de uma fuga para a psicose” (p. 65). Ele

“rompe com a representação incompatível; esta porém, fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade, de modo que, à medida que o eu obtém esse resultado, também ele se desliga total e parcialmente da realidade. […] Assim, quando a defesa consegue ser levada a termo, ele se encontra num estado de confusão alucinatória” (FREUD, 1894/1996, p. 65).

Freud (1894/1996) conclui o texto com a ideia de que há “três métodos de defesa” (p. 66) e podemos convidar Lacan e Miller para essa conversa, mas não sem antes percorrermos suas “Observações adicionais às neuropsicoses de defesa”, texto de 1896 que nos traz ainda mais elementos. Neste, ele afirma que a defesa é “o ponto nuclear no mecanismo psíquico” tanto da histeria como da neurose obsessiva e da psicose alucinatória (FREUD, 1896/1996).

Ele vai tentando explicar a neurose e a psicose a partir do traço mnêmico deixado por perturbações sexuais vividas antes do advento da maturidade. Na neurose histérica, o afeto vinculado à experiência seria colocado no corpo, enquanto, na neurose obsessiva, se deslocaria para outra ideia. Para ele,

“a natureza da neurose obsessiva pode ser expressa numa fórmula simples. As ideias obsessivas são, invariavelmente, auto-acusações transformadas que reemergiram do recalcamento e que sempre se relacionam com algum ato sexual praticado com prazer na infância” (FREUD, 1896/1996, p. 169).

O sujeito recalca e substitui a lembrança dessas ações prazerosas por “um sintoma primário de defesa” (FREUD, 1896/1996, p. 169). A conscienciosidade, a vergonha e a autodesconfiança são sintomas dessa espécie, que dão início a um período de aparente saúde mas que, na realidade, apontam para uma defesa bem-sucedida.

“O período seguinte, o da doença, é caracterizado pelo retorno das lembranças recalcadas — isto é, pelo fracasso da defesa” (FREUD, 1896/1996, p. 169). Esse fracasso leva a formações de compromisso entre as representações recalcadas e as recalcadoras; os sintomas. Ele usa um termo interessante, apontando que se trata de um “colapso da defesa” (FREUD, 1896/1996, p. 171).

Nesse texto bastante clínico, Freud (1896/1996) mostra algumas estratégias da neurose obsessiva. Considero que nos auxilia grandemente na clínica porque nos ajuda a entender que os sintomas dos quais o obsessivo se queixa no início do tratamento não são a causa de seu sofrimento, mas sim sua maneira de se defender dele. Ou seja, a dúvida, a compulsão, a autoacusação, a ruminação, as medidas penitenciais, a vergonha, a hipocondria, as medidas de proteção e de colecionar objetos, assim como a busca incessante por assegurar “o entorpecimento da mente” são manifestações de uma defesa secundária, diante do colapso da defesa primária.

Diferentemente da neurose, na paranoia a defesa é muito bem sucedida, daí Freud (1896/1996) a considera uma psicose de defesa. Ao mesmo tempo, ele indica que no desencadeamento psicótico haveria um total fracasso da defesa:

“Em vista do que se sabe da paranoia além disso, inclino-me a supor que há um gradual comprometimento das resistências que enfraquecem as auto-acusações, de modo que, por fim, a defesa fracassa por completo e a auto-acusação original, o termo real do insulto de que o sujeito vinha tentando poupar-se, retorna em sua forma inalterada” (FREUD, 1984/1996, p. 181).

Mais tarde, ele indica que o que foi abolido do simbólico retorna no real.

“Parte dos sintomas provém da defesa primária — a saber, todas as representações delirantes caracterizadas pela desconfiança e pela suspeita e relacionadas à representação de perseguição por outrem” (FREUD, 1896/1996, p. 182).

Outra passagem interessante é quando ele diz que “nenhuma defesa pode valer contra os sintomas de retorno aos quais, como sabemos, liga-se uma crença” (FREUD, 1896/1996, p. 183). Parece-me que podemos extrair algumas consequências dessa frase quando estivermos nos dedicando a desenvolver algo sobre o delírio.

Na paranoia, a autoacusação é defendida pela projeção, ou seja, a desconfiança passa a ser de outras pessoas: “o sujeito deixa de reconhecer a autoacusação; e como que para compensar isso, fica privado de proteção contra as autoacusações que retornam em suas representações delirantes” (FREUD, 1896/1996, p. 182). Essas autoacusações retornam sob a forma de pensamentos ditos em voz alta. As representações delirantes que chegam à consciência através de uma formação de compromisso (os sintomas de retorno) “fazem exigências à atividade de pensamento do eu, até que possam ser aceitos sem contradição” (FREUD, 1896/1996, p. 183). Assim, o que corresponde aos sintomas de defesa secundária na neurose obsessiva, na psicose se faz como uma formação delirante combinatória: “delírios interpretativos que terminam por uma alteração no eu” (FREUD, 1896/1996, p. 183).

Esse desenvolvimento é realizado por Freud a partir do caso da Sra. P. e evidencia uma certa confusão entre a paranoia e a esquizofrenia, ponto que também no texto anterior se verifica. Digo isso pela nota que ele apresenta em 1924, reforçando que se trata de um caso de dementia paranoides.

A Sra. P., caracterizada por Freud (1894/1996) como “uma mulher inteligente”, levava “uma vida saudável” em seus últimos anos até que o nascimento de seu filho “mostrou os primeiros sinais de sua atual enfermidade” (p. 175). Ela tornou-se pouco comunicativa e desconfiada, acreditando que as pessoas a estavam menosprezando, o que, pouco tempo depois, se transformou numa queixa de que as pessoas liam seus pensamentos e sabiam tudo o que ocorria em sua casa. Isso era transposto a seu corpo e a sensação que ela experimentava em seu baixo abdome era atribuída à certeza de que sua criada, com quem estava a sós, havia tido uma “ideia imprópria” (FREUD, 1894/1996, p. 175). Sentia seus órgãos genitais “como se sente uma mão pesada” e começou a ver coisas que a horrorizavam, como alucinações de mulheres nuas e genitálias femininas e masculinas. Essas imagens a aterrorizavam porque ela também sentia seu corpo exposto. Começou a ser importunada por vozes que a censuravam e passou a não mais querer sair de casa e não se alimentar.

Com Freud, a Sra. P. pôde percorrer algumas cenas infantis, entre elas, uma em que se despia sem nenhuma vergonha na frente de outras crianças, o que leva Freud a considerar que haveria algo por aí. Mas “a depressão da paciente começou na época de uma discussão entre seu marido e seu irmão, em consequência da qual este passou a não mais frequentar sua casa” (FREUD, 1894/1996, p. 178). Ele não dá muitos elementos sobre esse ponto, mas traz uma nova cena em que sua cunhada a visitara e lhe dissera que “em toda família acontecem coisas sobre as quais eu gostaria de pôr uma pedra. Mas quando uma coisa desse tipo acontece comigo, eu a trato com descaso” (FREUD, 1894/1996, p. 178). O significante “descaso” havia impregnado o delírio de P. Seria interessante sabermos mais sobre onde entra o bebê de P. nessa história, mas Freud não nos deu elementos a esse respeito, mesmo tendo localizado que o desencadeamento ocorreu após o nascimento da criança.

No texto que estamos trabalhando, de 1894, Freud afirma que pode reproduzir com sua paciente “várias cenas de seu relacionamento sexual com o irmão” e, nessas revivescências, seu corpo “participou da conversa”, o que nos aponta algo sobre a importância do atendimento presencial. Para ele, “depois de percorrermos essa série de cenas, as sensações e imagens alucinatórias desapareceram e (ao menos até o presente) não retornaram” (FREUD, 1894/1996, p. 179). Não deixem de ler as notas de rodapé escritas por Freud. Elas nos mostram, tal como a arte de Todd McLellan (2013), que há algo que se monta e se des-monta, formando novas montagens. Arranjos e desarranjos.

Des-montar a defesa

O desenvolvimento de Freud nos leva à ideia de que a defesa é algo basal que está presente tanto na neurose como na psicose e que é defesa ao sexual, ou à pulsão, como ele irá trabalhar mais adiante. Em um texto intitulado “Clínica irônica”, de 1988, que vocês encontram publicado no livro Matemas I (1996), Miller indica que nos defendemos do real e que “todos os nossos discursos não passam de defesas contra o real” (p. 190). Lembra que, para Lacan, a clínica psicanalítica é “o real como o impossível de suportar”. Nesse sentido, as formas clínicas não passam de modos de defesa, até mesmo “no caso limite dito esquizofrênico, onde o sujeito aparece sem defesa diante do impossível de suportar” (MILLER, 1996, p. 198).

Miller (1996) considera que “o delírio é universal porque os homens falam e porque há linguagem para eles. Eis, então, o a-b-c ao qual se volta: a linguagem [o Outro] tem como tal, efeito de aniquilamento” (p. 192). Anteriormente, trabalhamos com a ideia de que não há Outro do Outro, ou seja, não há um Outro que diga o verdadeiro sobre o verdadeiro. Para falar com Guimarães Rosa (1956/2019), “mente pouco quem a verdade toda diz”. Nesse sentido, Miller (1996) propõe que nossa clínica seja irônica, ou seja, fundada sobre a inexistência do Outro como defesa contra o real (a neurose tenta fazer existir o Outro, ao preço de um apagamento subjetivo; na psicose, o Outro não está separado do gozo).

Dez anos após, em seu curso sobre A experiência do real na cura psicanalítica, Miller (2014) afirma que “na psicanálise se trata do real e da defesa contra este”. Mas, o que é o real? Milner (2006) nos ajuda na definição dos três registros, real, simbólico e imaginário, do qual depende a estruturação da realidade:

“existem três suposições. A primeira, ou melhor, uma delas, pois já é demais por ordem nisso, por mais arbitrária que seja, é que há: proposição tética que só tem por conteúdo sua própria posição — um gesto de corte, sem o qual não há nada que exista. Chamaremos isso de real ou R. Outra suposição, dita simbólica ou S, é que há alíngua, suposição sem a qual nada, e singularmente nenhuma suposição, poderia ser dita. Uma outra suposição, enfim, é que há semelhante, na qual se institui tudo o que constitui laço: é o imaginário ou I” (p. 7).

Para Lacan (1975-1976/2007), o real é o impossível porque “é sem lei” e “não tem ordem”1 (p. 133). Exatamente por isso, para que o homem possa, talvez, “reencontrar alguma coisa que seja da ordem do real” (LACAN, 1975-1976/2007, p. 120), é necessário se colocar no lugar de lixo, o que significa dispensar o sentido. Quanto mais tenta apreender o real pelo sentido, mais longe está dele.

Miller (2012) ressalta que o real psicanalítico é desprovido de sentido e não corresponde a nenhum querer-dizer. Ele não é “um cosmo, não é um mundo, nem uma ordem; é um pedaço, um fragmento assistemático porque separado do saber ficcional” (MILLER, 2012, n.p.). O real é o que se produz no choque pulsional do encontro do significante com o corpo. O real inventado por Lacan não é o real da ciência. É um real ao acaso, contingente, na medida em que falta a lei natural da relação entre os sexos. O sentido escapa a esse real e, quando há doação de sentido, ela ocorre através da elucubração da fantasia. Favret, ao se perguntar sobre O que ilumina o passe no Ultimíssimo ensino de Lacan? (2014), propõe que, no final de uma análise, trata-se de como cada um tenta se aproximar de um ponto, de um pedaço de real, apesar de sua opacidade.

Frente ao real, nos defendemos. A defesa, segundo Miller (2014), qualifica a relação inaugural do sujeito com o real. “A abordagem do real se inscreve em primeiro lugar em termos de defesa, e não de apetite, harmonia ou cálculo” (MILLER, 2014, p. 51). Miller (2012) indica que, “para entrar no século XXI, nossa clínica deverá se concentrar em desmontar a defesa, desordenar a defesa contra o real”. Em uma análise, o inconsciente transferencial é uma “defesa contra o real”, ou seja, uma tentativa de fazer o Outro existir. Isso ocorre porque, “no inconsciente transferencial, continua vigente uma intenção, um querer dizer, um querer que me seja dito algo” (MILLER, 2012). Isso não ocorre no inconsciente real, que não é intencional, apenas “é”. Isso abriria para mais outra pesquisa que encontraria sua ancoragem no “Prefácio para Edição Inglesa do Seminário 11” (LACAN, 1976/2003).

Essa indicação de que nossa clínica precisa “des-montar a defesa” provém da afirmação lacaniana, em seu Seminário, livro 24: l’insu que sait de l’une-bevue s’aile a mourre (LACAN, 1976-1977), de que o falasser fala sozinho e sempre a mesma coisa, a não ser que se abra para falar com um psicanalista e receba deste algo que desordena, desarranja (dérange) sua defesa (LACAN, 1976-1977). Gueguen (2014) propõe a utilização do termo “desmontagem da defesa” em detrimento da expressão “perturbar a defesa”, pois, para ele, “a desmontagem da defesa supõe que uma outra construção venha no lugar do que foi esvaziado” (p.103). Nos testemunhos de passe vemos essa des-montagem, assim como buscamos fazer nas construções de casos clínicos. É também essa nossa aposta de leitura ao texto freudiano: des-montá-lo e nos permitir sermos tocados por ele.

 


Referências
FAVRET, A. O que ilumina o passe no Ultimíssimo ensino de Lacan? [Podcast]. Rádio Lacan, 2014. Disponível em: http://www.radiolacan.com/pt/topic/156/3. Acesso em: 02 de jan. 2023.
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FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1896). Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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FREUD, S. (1909). Duas histórias clínicas: o “Pequeno Hans” e o” Homem dos ratos”. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 17. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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FREUD, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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FREUD, S. (1926). Inibição, sintoma e ansiedade. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. (1932) Conferência XXXII: Ansiedade e vida instintual. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 22. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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SANTIAGO, J. (2022). A escrita real no passe não é autoficçãoInédito.

1. Vemos aqui que houve uma modificação no pensamento de Lacan a esse respeito, levando em conta que, no Seminário 11 (1964/1998), ele acreditava que o real é o que retorna sempre ao mesmo lugar (MILLER, 2012). Jésus Santiago (2022), em A escrita real no passe não é autoficção, indica que “É somente no Seminário ‘De um discurso que não fosse semblante’ que surgem os sinais mais evidentes de uma formulação mais acabada e genuína do real, na medida em que sua concepção se faz sem os instrumentos da linguística. Em outras palavras, o real deixa de estar submetido ao algoritmo do significante/significado e passa a ser distinto tanto do sentido (imaginário) quanto do saber (simbólico)”.



Uma defesa primária

Cristina Drummond
AME da EBP/AMP
paixao.bhe@terra.com.br

 

Resumo: O texto aborda a importância do conceito de defesa primária como norteador da clínica freudo-lacaniana. Freud situa a noção de defesa em primeiro plano nas psiconeuroses e delineia a própria concepção do funcionamento da vida psíquica, marcando sua oposição em relação aos seus contemporâneos. Desde o texto “Projeto para uma psicologia científica”, a defesa primária é percorrida tanto através da busca por sua origem quanto pela diferenciação entre defesa normal e patológica. Avançando pelo ensino de Lacan, argumenta-se que a defesa diz respeito à dor, ao corpo, e como cada um pode se virar com esse encontro. A partir dessa premissa, esse conceito é apresentado como orientador na direção do tratamento, seja em casos nos quais a formação do sintoma se estrutura pelo recalque e é passível de decifração, permitindo a desmontagem de sentido, seja nos fenômenos de corpo, como as toxicomanias e anorexias, seja quando a desmontagem da defesa faz emergir a pulsão encoberta. A construção pela defesa primária permite buscar, por trás das manifestações sintomáticas, o sujeito do gozo.

Palavras-chave: defesa; direção do tratamento; formação de sintomas.

A PRIMARY DEFENSE

Abstract: The text addresses the importance of the concept of primary defense as the guide of the Freudian-Lacanian clinic. Freud puts the notion of defense at the foreground in psychoneuroses, and outlines the very conception of the functioning of psychic life, marking his opposition to his contemporaries. Since the text Project for a scientific psychology, the primary defense is covered both through the search for its origin and the differentiation between normal and pathological defense. Advancing through Lacan’s teaching, it is argued that defense concerns pain, the body, and how each one can deal with this encounter. From this premise, this concept is presented as a guide in the direction of treatment, whether it is in cases in which the formation of the symptom is structured by the repression and is subject to decryption, allowing the disassembly of meaning in body phenomena, such as drug addictions and anorexias, or when the disassembly of the defense brings out the covert drive. The construction by primary defense allows for finding the subject of jouissance behind the symptomatic manifestations.

Keywords: defense; direction of treatment; symptom formation.

 

CAROLINA BOTURA. S/T

 

Freud e a defesa primária

Ao colocar a noção de defesa em primeiro plano nas psiconeuroses, Freud delineou a própria concepção do funcionamento da vida psíquica em oposição aos pontos de vista de seus contemporâneos. Para investigar os primeiros usos do termo, vamos voltar à histeria e às hipóteses sobre a etiologia das psiconeuroses e ao “Projeto para uma psicologia científica”, escrito por Freud em 1895 em apenas três semanas. Ele faz parte dos rascunhos trocados em sua correspondência com Fliess, a qual durou de 1887 a 1902. O projeto ficou inacabado e foi engavetado por Freud, que só voltou a ter contato com o texto em 1937, por intermédio da princesa Maria Bonaparte, que o obteve com a compra das cartas Freud–Fliess. O texto só foi publicado em 1950, 11 anos após a morte de Freud, e ele tornou-se uma referência para o estudo da metapsicologia, pois contém a origem de muitos conceitos.

Apesar de ser um documento neurológico, o projeto mostra o esforço inicial de Freud para compreender a etiologia das neuroses, assim como traz o gérmen do que ele vai desenvolver mais tarde. No “Projeto”, Freud se propõe a formalizar uma doutrina que tem na mecânica newtoniana seus parâmetros científicos, buscando uma base orgânica para as descobertas clínicas oriundas dos atendimentos a pacientes com sintomas neuróticos graves.

Em seu “Projeto para uma psicologia científica”, Freud aborda o problema da defesa de duas maneiras. Em primeiro lugar, ele procura a origem daquilo que chamou de “defesa primária” numa vivência de dor. Em segundo lugar, ele procura diferenciar uma defesa normal de uma defesa patológica. A primeira opera no caso da revivescência de uma experiência penosa, e o ego já começa a diminuir a intensidade do desprazer quando a situação se repete.

Na carta do dia 20 de outubro de 1895, Freud, que ainda se encontrava esperançoso em relação ao “Projeto”, relata a Fliess de que modo sua psicologia tornara-se clara para ele:

[…] as barreiras ergueram-se subitamente, os véus caíram e tudo se tornou transparente — desde os detalhes das neuroses até os determinantes da consciência. Tudo pareceu encaixar-se, as engrenagens se entrosaram e tive a impressão de que a coisa passara realmente a ser uma máquina que logo funcionaria sozinha. Os três sistemas de neurônios; os estados livres e ligados de Qn; os processos primário e secundário; a tendência principal e a tendência de compromisso do sistema nervoso; as duas regras biológicas de atenção e da defesa; as características de qualidade, realidade e pensamento; o estado do grupo psicossexual; a determinação sexual do recalcamento; e, por fim, os fatores que determinam a consciência como função da percepção — tudo ficou e continua correto até hoje! Naturalmente, mal consigo conter minha alegria (FREUD, 1887–1904/1986, p. 147).

Nessa carta temos um resumo do projeto e ela mostra que Freud queria encaixar o organicismo à sua teoria do Inconsciente em formação. Na carta que inicia em 8 e continua em 10 de novembro daquele ano, ele diz de sua tristeza pela desistência do projeto: “A partir de agora minhas cartas perderão muito de seu conteúdo. Empacotei os manuscritos psicológicos e os atirei numa gaveta, onde dormirão até 1896. […] Desde que pus a ΦΨω de lado, sinto-me abatido e desencantado; creio não estar de modo algum à altura de suas congratulações” (FREUD, 1887–1904/1986, p. 151). E a sua própria avaliação não deixa dúvidas de que ele abre mão de uma relação de superposição entre a neurologia e o mecanismo de recalque:

“Não entendo mais o estado mental em que maquinei a psicologia; não consigo perceber como posso tê-lo infligido a você. Creio que você está sendo polido demais; para mim, parece ter sido uma espécie de loucura. A solução clínica das duas neuroses provavelmente se manterá, depois de algumas modificações” (FREUD, 1887–1904/1986, p. 153).

A primeira utilização do termo “defesa” ocorreu no texto “Neuropsicoses de defesa” (1894). Entretanto, antes disso, Freud já buscava compreender esse processo, mesmo que não o tivesse nomeado assim. O estudo das origens das concepções sobre defesa nos remete às suas investigações acerca do trauma. Freud afirma que as quantidades de energia com as quais um sujeito tem de lidar colocam o psiquismo em funcionamento, pois, das excitações que provêm de fora, o sujeito pode fugir, tal como no modelo do arco-reflexo; mas não pode fugir das excitações internas, o que acarreta a necessidade de estruturas capazes de dar conta da tramitação interna e da descarga adequada das quantidades de energia.

Para Freud (1893/1976, p. 42), a lembrança traumática possui ação contínua e intensa, que não se desgasta com o tempo, pois não houve perda do afeto que está investido nela. O momento que marca o surgimento da doença é aquele em que o indivíduo “se confrontou com uma experiência, uma representação ou um sentimento que suscitaram um afeto tão aflitivo que o sujeito decidiu esquecê-lo” (p. 55). É essa incompatibilidade entre o eu e uma representação que torna necessária a “divisão de consciência”, ou seja, a criação de um segundo grupo psíquico cujo núcleo é recalcado. Nesse momento inicial da concepção da defesa, esse processo é tratado como um ato voluntário de afastar algo tomado como desprazer do psiquismo, e ele não pode ser considerado patológico, já que esse ato de esquecimento intencional é bem sucedido para muitas pessoas. Por isso, Freud (1895/1977) inclui a defesa entre as tendências normais do indivíduo.

Para formular o modelo do funcionamento psíquico, Freud (1895/1977) propõe uma concepção quantitativa dos processos psíquicos com duas noções fundamentais: a de neurônio e a de quantidade (Q). A quantidade é a energia que circula pelos neurônios, podendo ser deslocada e descarregada. A energia transita através dos neurônios, que são capazes de armazená-la. Assim, um neurônio pode estar ocupado, com uma quantidade de excitação, ou desocupado. O sistema nervoso recebe estímulos do mundo externo. A tendência é descarregar-se das quantidades de energia que ingressam pela fuga, seguindo o modelo do arco-reflexo. Mas o sistema nervoso recebe também estímulos endógenos, que precisam ser descarregados, e dos quais o organismo não pode se esquivar. Esses estímulos criam as grandes necessidades, tais como a fome, a respiração, a sexualidade. Diante desses estímulos, o aparelho não pode descarregar toda a quantidade de excitação presente no neurônio, pois é necessário que este sustente um acúmulo de Q, em função das ações necessárias para pôr fim a eles. A partir disso, Freud (1895/1977) diz que a estrutura e o desenvolvimento, assim como as funções dos neurônios, devem ser compreendidos com base no princípio de inércia, que é a tendência a evacuar as quantidades de energia que recebem do mundo externo, com o objetivo de diminuir a excitação presente no neurônio. Com o fracasso dessa evacuação, a tendência do psiquismo passa a ser manter a energia no nível mais baixo possível, o que constitui o princípio de constância.

No início da vida, devido a seu estado de desamparo, o ser humano não consegue provocar uma ação capaz de diminuir a tensão vinda de excitações endógenas. O alívio da tensão só pode ser alcançado se for eliminado o estímulo na fonte endógena. Nesse momento, o sujeito precisa ser auxiliado por outro, que realize uma ação para acabar com o estado de tensão. Quando isso ocorre, essa ação diminui a tensão interna, produzido uma sensação de prazer na consciência. Essa ação é independente da Q endógena, e Freud a chama de ação específica, aquela que possibilitará o que Freud denomina vivência de satisfação. A vivência de satisfação deixa uma marca e fará com que o sujeito, diante de novo estado de tensão, queira que essa se repita. É pela vivência de satisfação que serão construídos os traços mnêmicos. Por meio da vivência de satisfação, devido a um movimento mecânico, a notícia da eliminação da tensão chegará a outros neurônios formando uma trilha preferencial entre neurônios que contêm a imagem mnêmica do objeto da satisfação. Quando outra situação de tensão ocorrer, a imagem do objeto é reinvestida e ocorre algo análogo à percepção, ou seja, uma alucinação. O psiquismo não contém mecanismos internos suficientes para discriminar entre a presença real do objeto da satisfação e a alucinação deste. Assim, torna-se necessário que se adquira um critério para verificar a presença real do objeto da satisfação, a fim de que seja efetuada uma descarga de Q na presença do objeto de desejo, o que efetivamente levaria à satisfação. Do contrário, diante da alucinação, a descarga de Q levaria ao desprazer.

Freud (1895/1977) afirma que as ações humanas se constituem em duas vivências fundamentais: buscar o prazer e evitar a dor. A busca do prazer é indicada como vivência de satisfação. Tanto na vivência de satisfação quanto na vivência de dor, há uma memória que, em determinadas circunstâncias, é acionada. Na busca do prazer, a imagem do objeto de satisfação é reinvestida. No entanto, para que haja de fato uma satisfação da tensão, o objeto tem de estar presente. No caso de um objeto causar dor ao psiquismo, há uma sensação de desprazer, e esse aumento quantitativo induz a eliminação da Q para consequente alívio da tensão. Ocorre ainda um trilhamento entre a tendência à descarga e uma imagem-lembrança do objeto que provoca a dor. Se a imagem do objeto hostil é reinvestida, surge um estado de desprazer com uma tendência à descarga. Esse estado não é propriamente a dor, mas algo que se assemelha a ela e que Freud chama de afeto. Na recordação da dor, há desprazer. O desprazer tem uma origem dupla: no ambiente externo, pelo objeto hostil; internamente, pela recordação. Portanto, evitar a dor terá relação com o não-investimento da imagem mnêmica do objeto hostil.

Isso é o que Freud caracteriza como defesa primária: a desocupação da imagem recordativa hostil. A defesa primária, que é acionada no caso da dor, cumpre a função de gerar uma aversão a manter investida a imagem mnêmica hostil. Portanto, a consequência da defesa primária é gerar prazer, evitando o desprazer. Freud afirma que, além da defesa primária, o psiquismo necessita de mecanismos internos para dar conta da insatisfação que seria gerada a partir da recordação da dor e da catexização da imagem mnêmica do objeto da satisfação sem sua presença real. Daí decorre a importância, para a estruturação psíquica, da vivência da dor e do estado de desejo. Se não existem estruturas internas capazes de inibir o processo alucinatório no caso da dor, há a geração de desprazer. Embora o objeto hostil não esteja presente, o desprazer sentido pela representação é como se fosse real e externo. Da mesma maneira, a catexização do objeto de desejo nos estados de desejo leva ao desprazer, pois há uma eliminação da tensão pelos caminhos facilitados, mas não ocorre a satisfação, pois o objeto de desejo não está lá para propiciá-la. Se a inibição, que é tarefa do ego, não se realiza, há naturalmente uma decepção. Dessa maneira, o ego é um conjunto de neurônios que tem por finalidade inibir a descarga da quantidade quando da ausência do objeto da satisfação. No caso da dor, precisa-se de um signo para a desocupação da imagem recordativa hostil. Essa tarefa do ego se dá pela inibição da descarga de quantidades, pelo processo que Freud denominou de ocupação das vias colaterais, que consiste em inibir a descarga da Q pelos caminhos facilitados, desviando-a para os neurônios colaterais. Se se conseguir realizar a inibição a tempo, não haverá liberação de desprazer. No caso contrário, haverá enorme desprazer e defesa primária excessiva. Esse é o papel do ego. A partir da postulação da inibição da descarga feita pelo ego, Freud distingue os processos psíquicos primários e os secundários. No processo primário, o estado de ligação do ego deixa de ser levado em conta e prevalecem as ligações associativas criadas pela vivência originária, havendo uma indiferenciação entre percepção e alucinação do objeto. Os processos psíquicos secundários se dão a partir da inibição produzida pelo ego. Nesse caso, verifica-se que a defesa primária é menos utilizada nos processos secundários devido à inibição.

A defesa primária é considerada, ao lado da atenção, regra biológica e definida como um repúdio a manter investida a imagem mnêmica hostil da dor, isto é, evitar o desprazer. Contudo, não se podem ignorar as reações de adoecimento encontradas em diversos pacientes, que se devem ao esquecimento ocasionado pela “divisão de consciência” (1894, p. 57). O que determina uma defesa como tendo um caráter patológico é o deslocamento. A ideia que causa desprazer é esquecida, mas outra representação irrompe repetidamente na consciência sem motivo evidente e desencadeia o afeto aflitivo (FREUD, 1895/1977, p. 405-406). Na tentativa de defender-se, o eu se obriga a fazer algo de que não é capaz: erradicar o traço mnêmico e o afeto ligado à representação, “mas uma realização aproximada da tarefa se dá quando o eu transforma essa representação poderosa numa representação fraca, retirando-lhe o afeto do qual está carregada” (FREUD, 1894/1976, p. 56). Para que a representação incompatível se torne verdadeiramente inócua, é preciso que a soma de excitação que dela foi desvinculada seja utilizada de alguma forma, seja pela conversão, seja pelas falsas ligações das ideias obsessivas, seja pela liberação de angústia.

Há ainda outro tipo de defesa, que, segundo Freud, é mais poderosa e mais bem sucedida do que naqueles casos em que a representação incompatível é separada de seu afeto. Nessa defesa, “o eu rejeita a representação incompatível juntamente com o seu afeto e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorrido” (FREUD, 1894/1976, p. 64). Quando isso acontece, o sujeito fica em um estado de confusão alucinatória que pode ser classificado como psicose. Nesse processo de “fuga para a psicose”, o eu rompe com a representação incompatível, que está ligada a uma parte da realidade e, dessa forma, ele acaba por romper com a realidade.

Freud (1895/1977, p. 374) constatou que o recalcamento incide sobretudo sobre as ideias provenientes da vida sexual do sujeito e que despertam no eu um afeto de desprazer. Essas ideias não são realmente extintas. Torna-se necessário que a força recalcadora que atuou no passado continue sua ação através da resistência que é dirigida contra qualquer pensamento que tenha relação com o recalcado. Esse processo é regulado pelo eu. Dessa forma, a defesa passa a adquirir um caráter contínuo, que tem como efeito a resistência evidenciada na clínica. Ao retomar o tema da determinação do processo defensivo patológico, Freud (1896) abandona a questão da hereditariedade como causa mais importante das neuroses e defende o papel da sexualidade na causação tanto das neuroses atuais quanto das psiconeuroses de defesa, ressaltando que, nestas, o psiquismo assume papel essencial através da defesa contra as lembranças traumáticas de experiências sexuais reais ocorridas precocemente.

Tal como Virgínia Carvalho nos indicou na lição anterior, Freud separa e mistura os conceitos de defesa e recalque e, apenas no texto “Inibição, Sintoma e Angústia”, ele pode deixar claro que o recalque não é a mesma coisa que a defesa e toma o recalque como “um caso especial de defesa”, já que ele visa a proteção do eu contra as “exigências pulsionais” (1925–1926/1976, p. 159).

Carvalho retomou os efeitos do recalque separando afeto de representação e seus efeitos de conversão na histeria do seu processo em dois tempos, com deslocamento da representação na neurose obsessiva. O efeito do recalque é o sintoma, mas, nos processos de defesa primária, nem sempre a resposta é a constituição de um sintoma, já que o sintoma decifrável é um recurso do simbólico e ele depende do recalque de um significante.

Nesse sentido, o conceito de defesa não se restringiria ao simbólico, tampouco ao imaginário, já que podemos também tomar todo o recurso ao imaginário como uma defesa diante da precariedade e do desamparo do infans. Se a defesa é defesa ao real, ao encontro com o real, o imaginário e o simbólico se apresentam como maneiras distintas de recobri-lo.

Por isso o conceito de defesa primária, aquela que antecederia o recalque, nos é muito caro, pois ele nos indica que, quando o sujeito não conta com o recurso do sintoma, temos que nos dirigir ao que ele pode construir como defesa diante do primeiro encontro com o real da língua, a como a palavra tocou seu corpo. A defesa primária diz respeito à dor, ao corpo e a como cada um pode se virar com esse encontro.

Da importância de retomar o conceito de defesa

1) A defesa primária é a defesa do real da pulsão

Em primeiro lugar, perguntei-me a respeito da importância de tomarmos o conceito de defesa a partir de um texto que poderíamos dizer ser pré-psicanalítico, já que ele data de cinco anos antes de “A interpretação dos sonhos”. Nessas lições introdutórias, visamos tratar o conceito de defesa até chegar à proposta de Lacan de que a direção de um tratamento se orienta pela perturbação e desmontagem da defesa, o que demanda passar pelos diversos tempos da construção desse conceito. Como Virgínia Carvalho nos trouxe em sua aula anterior, desmontar a defesa é uma operação que incide sobre o gozo autístico, sobre o gozo do Um. É uma formulação de Lacan de 1976, que extrai do caminho de Freud uma indicação precisa sobre a direção do tratamento, e vamos ter que fazer um grande percurso teórico para dar a ela todo o seu valor de orientação.

Para vocês terem uma ideia do que vamos buscar construir nesse percurso, sugiro a escuta do vídeo de Esthela Solano no Boletim Punctum 31. Ali ela fala do que Lacan nos indicava como a direção de uma análise: recuperar um traço de gozo que ex-siste no nível do dizer. Ir além do simbólico e do imaginário para buscar o que uma análise deve visar e que ela chama de um acontecimento de sentido real, aquele que toca o corpo. Se a pulsão é definida como o eco no corpo do fato de que há um dizer, é esse nível real do pulsional que Lacan buscava tocar para além das palavras que o sujeito enuncia, e, para isso, é preciso perturbar a defesa. Perturbar a defesa implica em atrapalhar a homeostase do princípio do prazer ao fazer um sujeito falar sobre aquilo para o que ele se mostra menos disposto, isto é, de suas particularidades sintomáticas.

Acho que o exemplo relatado por Silvia Ons (2022), de um caso que ela acompanhou em supervisão, nos ajuda a entender melhor a maneira como tomamos a defesa na perspectiva de sua perturbação. Trata-se de uma mulher que, quando era criança, ganhou um frasco em forma de fada (hada) com granulados dentro. Ela o pede dizendo: “me dá o geladinha (heladita)?”. Nesse momento ela é corrigida. Dizem-lhe: “não é a heladita, é hada”. Ela leva a lembrança desse equívoco para sua análise perguntando-se sobre seu sentido. O analista lhe diz: “você já sabe o que tem que fazer com isso”, tomando esse equívoco como uma jaculatória sem sentido, puro gozo. Mas, numa segunda análise, ao puxar o fio simbólico, surge uma cena sexual infantil durante a qual ela fantasiava com uma geladeira e assim, geladinha, heladita, tem um caráter de defesa: esfriar o prazer desse encontro sexual mas, ao mesmo tempo, perpetuá-lo. Geladinha não é apenas uma representação, já que é também sintoma como acontecimento de corpo com suas duas caras: defesa diante do gozo e memória inapagável de seu encontro. Como castigo por seu erotismo infantil, ela imaginava que iriam trancá-la em uma geladeira, padecendo de uma rinite crônica e estando sempre resfriada. Seu ceticismo diante da existência, seu constante pessimismo, sua recusa em admitir que os acontecimentos pudessem ser distintos daquilo que ela imaginava, indicam como o heladita é também esse saber gélido que a acompanhava e mortificava. Isso indica que, para se perturbar a defesa, é preciso esgotar o sentido que ela encerra.

2) Quando o sujeito não conta com um sintoma

Em segundo lugar, tomar o conceito de defesa tem uma grande importância na orientação do tratamento psicanalítico nos casos em que as defesas não estão estruturadas a partir do recalque e dos sintomas passíveis de serem decifrados pelo simbólico. É um fato constatável que a psicanálise muda e que nos defrontamos em nossa atualidade com uma ordem simbólica e com um real distintos daqueles do final do século 19. Se a língua que habitamos muda, os sintomas e os fenômenos de gozo também mudam. Cabe ao analista lidar com a subjetividade de sua época, mas isso não nos leva a querer ser atuais e conformes a nossa época.

Ainda que a maneira de interpretar tenha mudado, buscamos fazer valer os princípios lógicos que orientam nossa prática da psicanálise, que é sensível ao mestre de nossa época, mas eles devem ser entendidos a partir da maneira pela qual Lacan nos ensinou a ler Freud. Tal como diz Max Jacob, o verdadeiro é sempre novo, e essa me parece ser a boa maneira de retornar a Freud naquilo que ele nos indica como insuperável. Lacan (1977) nos assinala o espírito com o qual devemos retornar a esses primeiros textos em sua “Abertura da sessão clínica”, em que ele nos diz que o analista tem que apresentar suas razões, até mesmo no mais ocasional de sua prática, e também tem que justificar a razão de Freud ter existido.

Freud não manteve as mesmas ideias em relação ao conceito de defesa e, durante sua obra, introduziu mudanças em sua teoria de acordo com as questões que foram suscitadas pela experiência do real de sua clínica. A teorização do conceito de defesa tem grande importância clínica, na medida em que foram as resistências, entendidas em um primeiro momento como reflexos clínicos da defesa, que mobilizaram as mudanças na técnica e as reformulações teóricas em torno da concepção do tratamento das neuroses. O conceito de defesa foi apropriado de forma equivocada por diversos psicanalistas, o que gerou um tipo de prática baseada na análise das resistências do eu, tendo como alvo o fortalecimento das defesas. É o viés da psicanálise tomada como a análise dos mecanismos de defesa que foi muito trabalhado por Anna Freud, segundo a qual tudo o que concorre para dificultar o processo analítico seria da ordem de uma resistência.

Essa ênfase dos pós-freudianos nos mecanismos de defesa e na análise das resistências é um ponto importante na distinção de nossa orientação lacaniana e da maneira pela qual tomamos os tratamentos. Isso torna o entendimento do conceito de defesa ainda mais essencial para fundamentarmos os princípios lógicos de nossa prática.

Retomar os caminhos desse conceito também nos leva a promover as maneiras iniciais de Freud e tomá-lo como uma defesa primária, que seria distinta do recalque. Esse retomar das primeiras observações clínicas de Freud se articula ao interesse pelas várias manifestações clínicas da contemporaneidade que se apresentam na clínica do narcisismo, assim como naquela da compulsividade desregulada e da descarga por meio das diversas atuações. Essas respostas não são construídas de modo sintomático, não são construídas a partir do recalque, e pensar sua organização a partir da defesa primária pode nos ajudar na abordagem desses fenômenos. Penso aqui na distinção entre fenômenos de corpo e acontecimento de corpo como respostas distintas que exigem modos distintos de tratamento e que talvez possamos articular com o conceito de defesa primária tal como Freud o pensou no início de seu percurso. Se as neuroses típicas se fundam pelo recalque, outros sintomas, tais como a anorexia, as toxicomanias, obesidades e outros fenômenos de corpo, podem ser iluminados em sua articulação com as defesas primárias.

3) Quando a defesa se desmonta e surge a pulsão que a encobria

Penso que também seria importante pensar no que nos ensinam alguns casos em que as defesas são desmontadas a partir de um encontro com o real. Elas nos elucidam a respeito da função da defesa e de como as pulsões se apresentam a partir da desmontagem desse recurso. Vou tomar um exemplo que se aproxima daqueles relatados por Lacan sob o título de perversão transitória, perversão reativa diante de um impasse no simbólico, no qual a desmontagem da fantasia faz aparecer uma resposta da pulsão separada da defesa.

Trata-se de um caso relatado pela analista italiana Laura Storti em uma conferência proferida na sessão clínica de NUCEP em janeiro de 2022, um caso de psicanálise aplicada atendido no laboratório de homens que cometeram violência contra mulheres e menores, em um serviço localizado em Roma. Storti se refere a um homem de 58 anos que foi atendido durante um ano no âmbito desse laboratório. O serviço social o encaminhou buscando um especialista em pedofilia e ninguém tinha se colocado à disposição para tal tratamento. Ele havia ficado um ano na prisão e, depois, alguns dias em prisão domiciliar enquanto esperava uma sentença definitiva. Foi condenado por tentativa de violência contra duas menores e por possuir material pornográfico infantil. No primeiro encontro, ele coloca sobre a mesa da analista os vários documentos judiciais e conta que o incidente ocorreu em um sótão de um edifício residencial onde ele fazia serviços de inspeção. Diz que não fez nenhum tipo de violência contra as meninas, que só se masturbou na frente delas. Dois policiais o prendem um mês depois e um deles lhe pergunta se ele tinha material de pornografia infantil. Ele diz que sim e entrega espontaneamente o material. Essa admissão foi a causa de sua prisão. Ele não entende como chegou a essa situação e diz que é um homem justo, um homem casado, pai de duas filhas e avô de duas netas e que às vezes duvidava se tinha sido ele mesmo que havia feito isso. Passa por uma situação de ameaça na prisão e diz que os tratavam assim. Ao ser perguntado a quem ele se referia, ele sussurra: pedófilos. Tem insônia, fica confuso e muito angustiado. Na prisão, o guarda com um olhar perturbador lhe disse que ele deveria morrer. A perda de trabalho como eletricista e vagabundeio na internet o fizeram colecionar as imagens. Primeiro buscou trabalho na internet e, depois, imagens de mulheres, e, à medida que seguia sua busca, o computador lhe perguntava se queria mulheres mais jovens. Começaram a chegar imagens de meninas. De início, se masturbava, mas depois, não mais. Ele não conseguia entender o que acontecera, pois sempre gostara de mulheres. Quando a analista lhe pergunta se não se interessava nem em sua fantasia, ele se mostra confuso. Ele catalogou as imagens. Fala que a mãe era muito religiosa e rígida. Ele era o mais novo dos filhos e a mãe separava os meninos das meninas. O pai sempre estava fora de casa, trabalhando. Traz uma lembrança infantil: aos seis anos está em uma festa na sua casa e beija uma menina. A mãe entra pela porta e diz à menina que não volte à sua casa e bate muito no filho. Ele se pergunta se essa lembrança teria algo a ver com o que aconteceu com ele, já que ela tinha a mesma idade das meninas diante das quais ele se masturbou. Ele diz que, ao ver as meninas no marco da porta, algo fez click nele. Ele se pergunta pelo prazer em olhar as mulheres e as meninas, mas também pelo prazer em ser visto pelas meninas. Disse que talvez tenha feito isso para poder parar. Havia ali o olhar da mãe e o do guarda da prisão. Foi uma apresentação da cena fantasmática que o levou à atuação.

Creio que o conceito de defesa primária é aquele que nos permite nos orientar na leitura desse tipo de manifestação, fazendo-nos buscar, por trás delas, o sujeito do gozo, aquele que a defesa encobriu.

 


Referências
FREUD, S (1895). Projeto para uma psicologia científica. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. I, 1977.
FREUD, S (1887-1904). A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Imago, 1986.
FREUD, S (1894). As neuropsicoses de defesa. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. III, 1976.
FREUD, S (1893). Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: uma conferência. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. III, 1976.
FREUD, S (1925–1926). Inibição, Sintoma e ansiedade. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XX. 1976.
LACAN, J. Ouverture de la Section Clinique. Ornicar? n. 9, 1977, p. 7-14.
ONS, S. Sobre el sentido. El psicoanálisis líquido y sólido. Buenos Aires: Grama ed., 2022.

1. Disponível no YouTube: https://youtu.be/V7wMlwYXXg0 Acesso em 13 nov.2022 



O sintoma substituto

Mônica Campos Silva
Psicanalista, mestre em estudos psicanalíticos pela UFMG, membro da EBP/AMP,

Resumo: o presente artigo visa a tratar o lugar do sintoma como defesa. A partir da diferenciação realizada por Freud entre inibição, sintoma e angústia, é possível observar o funcionamento psíquico em seu aspecto dinâmico, bem como a função do Eu diante das demandas de satisfação. Assim, o sintoma como substituto evidencia tanto sua vertente de verdade como de real, estabelecendo consequências para a clínica e seu manejo.

Palavras-chaves: sintoma; verdade; angústia; defesa.

THE SUBSTITUTE SYMPTOM
Abstract: this article aims to approach the idea of the symptom as a defense. From the differentiation made by Freud between inhibition, symptom and anguish, it is possible to observe the psychic functioning in its dynamic aspect, as well as the function of the Self facing the demands of satisfaction. Thus, the symptom as a substitute reveal both its truth and real aspects, establishing consequences for the clinic and its management.

Keywords: symptom; truth; anguish; defense.

 

CAROLINA BOTURA. S/T

 

Sobre o sintoma 

Miller (2015) interroga: por que colocamos o sintoma entre as formações do inconsciente? É um fato que o sintoma, por sua permanência, se distingue de todas as outras formações do inconsciente. Para que haja sintoma, no sentido freudiano, é preciso que haja sentido em jogo e que esse possa ser interpretado. Para que haja sintoma, é necessário também que o fenômeno dure. Igualmente, diz Miller, o sintoma é o que a psicanálise nos dá de mais real; o sintoma como o que não cessa de não se escrever, enquanto sua permanência se impõe à experiência. É desse “a mais” que atravessa e marca o corpo que é preciso dar-se conta na formação dos sintomas. Por sua vez, em Freud (1925–1926/1996), o uso do sintoma é sempre o mesmo: pela satisfação sexual ou servir de substituto à satisfação que falta na vida, a satisfação pulsional.

De tal modo, o sintoma revela duas vertentes: uma de verdade e uma de real. O que Freud descobriu é que um sintoma se interpreta como um sonho, quer dizer, se interpreta em função de um desejo, e que é um efeito de verdade. Mas há um segundo tempo desse descobrimento: a persistência, a permanência do sintoma depois da interpretação.

Freud (1925–1926/1996) aponta que o conceito de recalque não implica uma relação com a sexualidade, separando o recalque, que se refere a um mecanismo semântico — algo que não pode ser dito porque houve um recalcamento —, e o registro da sexualidade. Procura, então, atrelar as duas vertentes, isto é, a da descoberta do inconsciente, dos fenômenos interpretáveis, e a da descoberta da sexualidade infantil e do caráter perverso da sexualidade. Para Lacan, no entanto, o recalque tem a ver com a libido, ou seja, o que se opõe ao dizer tudo é o mesmo que se opõe à realização plena do sexual. Para Lacan, o que está recalcado é o significante, o que Freud nomeia de representante da pulsão (MILLER, 2015).

Freud, em Inibições, sintomas e angústia (1925–1926/1996), caracteriza o sintoma a partir da satisfação pulsional “como o signo e o substituto” de uma satisfação pulsional que não aconteceu, ou seja, a pulsão busca satisfação e, após o recalque incidir sobre ela, há a formação do sintoma como satisfação substitutiva. Mais adiante, o autor trata o trauma e o inconsciente tomando como princípio que, sob cada sintoma neurótico, há sempre um trauma. Toda neurose contém, diz ele, uma fixação dessa natureza. Acrescenta o princípio de que o sentido dos sintomas é sempre desconhecido para o doente, afirmando ser “necessário que esse sentido seja inconsciente para que o sintoma possa surgir” (FREUD, 1925–1926/1996, p. 287), ou seja, não se formam sintomas a partir dos processos conscientes. Freud completa: “A construção de um sintoma é o substituto de alguma outra coisa diferente que está interceptada” (p. 287). O sintoma como substituto vem no lugar do objeto que convêm à pulsão, mas nem por isso alcança a satisfação, tratando sempre de renovar sua busca.

É importante destacar que, em Freud, a definição de sintoma leva em conta seu caráter de formação de compromisso, de conexão entre gozo e defesa. A observação de Freud é que, no sintoma, trata-se de obter satisfação e de defender-se dela. Dessa conexão entre gozo e defesa, Lacan extrairá que há algo excessivo no gozo que obriga o sujeito sempre a se defender do gozo que busca, ou seja, o paradoxo de que os doentes sofrem dos seus sintomas, mas não parecem desejar tanto assim desfazer-se deles (MILLER, 2020). Porém, é importante notar que o sintoma oferece à pulsão outra satisfação, mas como desprazer. A defesa do Eu contra a satisfação pulsional, através do recalque, produz a conversão da satisfação em desprazer. O desvio e a substituição são realizados pelo Eu, conduzido pelo princípio do prazer em oposição à exigência pulsional. Logo, o que aparece como desprazer no sintoma, como sofrimento, é uma satisfação.

Segundo Miller (2020), a pulsão não conhece o “semblante de gozar”; a satisfação pulsional é um real. Segundo ele, Lacan enfatiza o invólucro formal das formações do inconsciente, mas não lhe escapa que a chave da formação dos sintomas é pulsional, o que permanece. Aponta ainda que o sintoma pode aparecer como um enunciado repetitivo sobre o real. O sujeito não pode responder ao real a não ser sintomatizando.

Logo, há algo do sintoma que se localiza entre a angústia e a mentira, quer dizer, entre algo que mente e algo que não pode enganar. Algo circula entre o que engana sempre e o que não engana jamais. O sintoma mente, a angústia, não. A angústia sinaliza a ameaça, o sintoma defende (MILLER, 2015).

 

O texto de Freud

Ao entrarmos em Inibições, sintomas e angústia (1925-1926/1996), encontramos Freud debruçado sobre as manifestações que considera patológicas. Para ele, a inibição tem uma relação especial com a função, não tendo necessariamente um sentido de verdade ou uma implicação patológica. Mas adverte que, quando a inibição é tomada a partir do sentido, ou seja, limitações e restrições da função do Eu, ela se torna um sintoma.

Freud localiza outro encontro entre os elementos em questão, a inibição e a angústia. Segundo ele, algumas inibições representam o abandono de uma função porque sua prática produziria angústia, ou seja, a inibição como defesa. Nesse ponto de elaboração, reforça que o sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado imóvel, sendo uma consequência do processo de recalque. O recalque, por sua vez, se processa a partir do Eu quando este se recusa a se associar a um investimento pulsional despertado no Isso. Assim, quando o Eu se opõe a um processo pulsional no Isso, ele tem de dar um “sinal de desprazer” com a ajuda do princípio do prazer, a fim de alcançar seu objetivo, o recalque, sendo ainda provável que as primeiras irrupções de angústia de natureza muito intensa ocorram antes de o supereu se tornar diferenciado, devendo o recalque ser descrito como tendo falhado, em maior ou menor grau.

O Eu é uma instância central no dinamismo psíquico. Suas características adaptáveis permitem se organizar e se diferenciar do Isso, realizar intercâmbios e influência, mantendo, nesse sentido, duas posições em relação ao sintoma: a que quer incorporar o sintoma e a que vai tentar manter o recalque.

Freud utiliza o caso do pequeno Hans — apresentado pela primeira vez em 1909 —, uma fobia infantil, para discutir o que está em jogo no sintoma, perguntando que sintoma substitutivo foi encontrado e onde está o motivo de recalque. Hans recusava-se a sair à rua porque tinha medo de cavalos — isso era a matéria prima do caso. O que constituía seu sintoma? O medo? A escolha de um objeto para seu temor? Ter abandonado sua liberdade de movimento? Por que e qual foi a satisfação a que ele renunciou? Hans não sofria de um medo vago de cavalos, mas de que um cavalo fosse mordê-lo. Para Freud, a fobia de Hans foi uma tentativa de solucionar o conflito devido à ambivalência: um amor e um ódio dirigidos para a mesma pessoa, seu pai. Porém, Freud adverte que o medo que faz parte dessa fobia não é um sintoma. Se Hans, apaixonado pela mãe, mostra medo do pai, isso não significa que ele tenha uma neurose ou fobia. Nesse caso, o que transformou a fobia em uma neurose foi apenas uma coisa: a substituição do pai por um cavalo. É esse deslocamento, portanto, que tem o direito de ser denominado sintoma. As ideias contidas na sua angústia era a substituição, por distorção, da ideia de ser castrado pelo pai. É sempre a atitude de angústia do Eu que é a coisa primária e que põe o recalque em movimento. A angústia jamais surge da libido recalcada, sendo o recalque apenas um dos mecanismos de que a defesa faz uso.

A angústia

Para Freud (1925-1926/1996), a angústia, em primeiro lugar, é algo que se sente, e, como um sentimento, tem um caráter muito acentuado de desprazer, sendo um sinal para a evitação de uma situação de perigo. A análise dos estados de angústia revela a existência de um caráter específico de desprazer, atos de descarga e percepções desses atos.

Por outro lado, Freud esclarece que a pulsão em si não é um perigo. O que então lhe dá essa qualidade? O alerta de desprazer que o Eu emite, frente à demanda de satisfação da pulsão, colocando em marcha o princípio do prazer para obter esse desvio, é o modo como Freud contextualizou a angústia — sinal que coloca o recalque em marcha. A pulsão, enquanto tal, constitui uma infração ao princípio do prazer, na medida em que sua exigência precisamente não é uma satisfação de prazer, e sim uma exigência de mais de gozar (MILLER, 2015).

Outra questão importante levantada por Freud em Inibições, sintomas e angústia é a relação entre a formação de sintomas e a geração de angústia. Haveria duas hipóteses: a angústia é um sintoma de neurose e os sintomas só se formam a fim de evitar a angústia. A angústia surgiria como reação original ao desamparo no trauma (real), sendo este o fenômeno fundamental e o principal problema da neurose. Se um paciente agorafóbico que tenha sido acompanhado até a rua for ali deixado sozinho, ele produzirá um ataque de angústia; ou se um neurótico obsessivo for impedido de lavar as mãos após haver tocado algo, ele se tornará preso de uma angústia quase insuportável.

Avançamos, então, ao ponto de dizer que inibição e angústia podem, também, se apresentar como sintoma. No que se refere à inibição, fica claro seu caráter de sintoma quando vemos que a inibição é corporal — sexual, marcha, alimentação e da fala. Isso que toca o corpo — encontro do significante e o corpo.

Perturbar e Des-Montar a defesa

Como fazer com a condição defensiva no sintoma?

Freud nos indica que, quando o analista tenta ajudar o Eu em sua luta contra o sintoma, verifica que esses laços conciliatórios entre o Eu e o sintoma atuam do lado das resistências, não sendo simples de afrouxar, muito menos de separar o Eu e o sintoma. Ele assinala que o Eu é fonte de três resistências: a resistência do recalque; a resistência da transferência, que reanima um recalque para além da lembrança; e a resistência em renunciar a qualquer satisfação ou alívio que tenha sido obtido com a doença. Menciona também a resistência que decorre do Isso, necessitando de ‘elaboração’, e a resistência proveniente do supereu, que se opõe à recuperação do próprio paciente pela análise (FREUD, 1925-1926/1996).

Nessa perspectiva, o sintoma, em análise, deve ser reduzido a seu núcleo. Miller  elucida que “reconduzimos os seres de linguagem a nada, os reduzimos a coisa nenhuma” (2015, p. 18). O paradoxo, segundo ele, é o do resto, havendo um x que resta mais além da interpretação freudiana. Assistimos, então, à confrontação do sujeito com o que Freud chama de restos sintomáticos. Para Freud, como ele partia do sentido, isso se apresentava como um resto, mas, de fato, esse resto é o que está nas origens do sujeito; é, de algum modo, o acontecimento originário e, ao mesmo tempo, permanente, que reitera sem cessar, o núcleo do sintoma. Em um tratamento, passamos, certamente, pelo momento de decifração da verdade do sintoma, mas chegamos aos restos sintomáticos, ao fora de sentido.

Poderíamos falar que perturbar a defesa, em Freud, seria

“quando, na análise, damos ao Eu assistência capaz de situá-lo em posição de levantar seus recalques, ele recupera seu poder sobre o Isso recalcado e pode permitir aos impulsos pulsionais que sigam seu curso como se as antigas situações de perigo não existissem mais” (FREUD, 1925-1926/1996, p. 97)

Entretanto, verificamos que, mesmo após o Eu haver resolvido abandonar suas resistências, ele ainda tem dificuldades em desfazer os recalques, sendo o fator dinâmico o que torna uma elaboração desse tipo necessária e abrangente. Se o perigo neurótico é um perigo pulsional, ao levar esse perigo que não é conhecido do Eu até a consciência, o analista faz com que a angústia neurótica não seja diferente da angústia realística, de modo que, com ela, se pode lidar da mesma maneira.

Para Miller (2015), ler um sintoma consiste em privar o sintoma de sentido. Por isso, diz ele, Lacan substitui o aparato de interpretar de Freud por um ternário que não produz sentido: o do Real, do Simbólico e do Imaginário. Passa-se assim da escuta do sentido à leitura do fora de sentido. A leitura, o saber ler, consiste em manter a distância entre a palavra e o sentido que ela veicula, a partir da escritura como fora de sentido, como letra, a partir de sua materialidade.

Sabemos que, para perturbar e des-montar a defesa, é preciso um percurso de análise. Esta visa reduzir o sintoma a sua fórmula inicial, quer dizer, ao encontro material de um significante e do corpo, ao choque puro da linguagem sobre o corpo. Logo, para tratar o sintoma, é preciso passar pela lógica do desejo, mas também ir adiante da verdade que essa decifração produz e apontar mais além, a fixação do gozo, a opacidade do real.

Guéguen (2014) afirma que, para além de perturbar a defesa, é preciso ir além e desmontar a defesa, pois é importante supor que uma outra construção venha no lugar do que foi esvaziado.

Miller (2020) lembra a pergunta de Lacan: como se vive a pulsão? O próprio Miller elucida que, no percurso de seu ensino, Lacan nos evidencia que não se trata, como em Freud, de resolver o conflito, mas de obter um novo arranjo, um funcionamento menos custoso para o sujeito. Não há pulsão sem sintoma. A fantasia é o curso normal da satisfação e equivale à inércia imaginária (posição do neurótico em relação ao desejo), impedindo de saber fazer com o sintoma. Contudo, sabemos ser possível, em uma análise, definir, localizar a fantasia. Porém, no registro do sintoma, como modo de gozo, o que se pode é saber fazer aí com o sintoma, com esse resto, ou seja, fazer-se amigo do sintoma, montar um novo modo de satisfação, uma nova maneira de satisfação pulsional, uma nova construção que Lacan denomina de sinthoma, pois o sintoma não é algo novo, mas um retorno. Há sempre algo de velho no sintoma, pois este é feito de repetição.

 


Referências:
FREUD, S. (1925-1926). Inibições, sintomas e angústia. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.
GUÉGUEN, P-G. “Defesa (desmontar a)”. Scilicet: Um real para o século XXI. Scriptum Editora. 2014
MILLER, J. -A. “Os caminhos na formação de sintomas”. Opção Lacaniana. nº 60. São Paulo: Eolia, set. 2011.
MILLER, J. -A. “Ler um sintoma”. Opção Lacaniana. nº 70. São Paulo: Eolia, jun. 2015.
MILLER, J. -A. “Síntoma y pulsíon”. El partenaire-síntoma. Buenos Aires: Paidós, 2020.



Uma fissura na relação do eu com o mundo exterior

Cristiana Pittella
AP, membro da EBP/AMP

 

Resumo: A autora faz uma leitura do texto freudiano “Neurose e psicose” (1924), servindo-se da orientação lacaniana.

Palavras-chave: Neurose; psicose; sonho; delírio; simbólico; real.

A FISSURE IN THE SELF’S RELATIONSHIP WITH THE EXTERIOR WORLD

Abstract: The author reads the Freudian text “Neurosis and psychosis” (1924), using the Lacanian orientation

Keywords: Neurosis; psychosis; dream; delirium; symbolic; real

 

CAROLINA BOTURA. S/T

 

 

Sonhei que era uma borboleta, e quando acordei vi
que era um homem. Agora não sei se sou um homem
que sonhou ser borboleta, ou se sou uma borboleta que sonha ser um homem.

Chuang Tzu, mestre taoísta

A questão da realidade, do ser e da existência é fundamentalmente humana. Em “Clínica irônica”, Jacques-Alain Miller (1996a) afirma que, para Freud, nada deixa de ser sonho, e, para Lacan, a propósito de Freud, se tudo é sonho, então todo mundo é louco, isto é, delirante. Assim, “diante do louco, diante do delirante, não se esqueça que você é, ou foi, analisante, e que também fala ou falava, sobre o que não existe” (p. 199).

Nesta 58ª Lições Introdutórias à Psicanálise, “Uma fissura na relação do eu com o mundo exterior”, vamos trabalhar o texto freudiano “Neurose e psicose”, de 1924. Nele Freud investiga a gênese das duas entidades clínicas, neurose e psicose, e é a primeira vez que ele utiliza o termo psicose. O contexto é o da segunda tópica, em que Freud, no texto “O eu e o isso” (1923), expande o inconsciente para além do recalque ao apresentar o aparelho psíquico pelas instâncias eu, isso e supereu.

O eu encontra-se submetido às exigências do isso e do supereu, “com o anseio em servir a todos os seus senhores a um só tempo” (FREUD, 1924/2016, p. 271). Freud vai delimitar a neurose e a psicose a partir da posição do eu. A neurose resultaria do conflito entre o eu e o isso, e, a psicose, do conflito entre o eu e o mundo exterior. Ele mesmo considerará isso uma solução simplista, pois a etiologia é comum para o início tanto da neurose quanto da psicose. Trata-se de um elemento incompatível que se impõe ao eu, e este decide rechaçá-lo: “trata-se de um impedimento (Versagung), uma não realização de algum daqueles eternamente indomáveis desejos de infância” (FREUD, 1924/2016, p. 274).

A ideia de conflito entre a defesa e as moções pulsionais, de forças antagônicas, perpassa a obra de Freud. Também em 1923, em seu texto “A perda da realidade na neurose e psicose”, Freud considera mais claramente que há na neurose uma perturbação da realidade, algo que não cessa de não se escrever, e ela própria é uma fuga da realidade. O real insiste, as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer. Neurose e psicose são modalidades de defesa. Para ambas, tratar-se-á de uma perda da realidade e da criação de uma nova realidade (FREUD, 1923/2016, p. 284).

Para explicitar a origem desses conflitos e as soluções encontradas, Freud, no texto que estamos lendo, destaca, a partir de sua experiência, dois campos: o das neuroses de transferência e o das neuroses narcísicas.

Nas neuroses de transferência, o eu, a serviço das exigências do supereu (ideal), se defende das moções pulsionais através do mecanismo de defesa, o recalcamento. Ele se separa de uma parte do isso. O recalcado, entretanto, retorna pela via do compromisso — o deslocamento do afeto de uma representação para outra —, encontrando por essa transferência uma satisfação substitutiva: o sintoma.

Freud delimita três neuroses de transferência: a histeria, a obsessão e a fobia. Na fobia de Hans, o desejo pelo pai se desloca para o medo do cavalo, que o impede de circular livremente. No homem dos ratos, o desejo de matar a mulher que se ama é deslocado para a aflição de que ela tropece numa pedra, ora colocando, ora retirando essa pedra. Na histeria, o afeto converge para o corpo: em Elisabeth von R., suas dores nas pernas e dificuldade de andar surgem do desejo sexual pelo marido de sua irmã.

Para especificar o conflito nas psicoses, Freud se valerá no texto do exemplo da amência de Meynert como um paradigma das neuroses narcísicas. Trata-se de uma aguda confusão alucinatória em que a ruptura com o mundo exterior — pelo grave e intolerável impedimento de desejo por parte da realidade (Wunschversagung) — leva a uma recusa das novas percepções (verweigert). Há uma retirada da libido do mundo exterior (das significações compartilhadas, do laço social), assim como do mundo interior (perda de si e da identidade). O eu cria para si um novo mundo, fechado em si mesmo, construído de acordo com as moções pulsionais.

Freud também se refere às esquizofrenias, em que há um embotamento afetivo e uma perda de toda participação no mundo, do laço com o Outro. Há, na esquizofrenia, um retorno do gozo sobre o corpo. O esquizofrênico não se defende do real com o simbólico porque, para ele, o simbólico é real (MILLER, 1996a). Sua ironia é uma defesa.

Se há um delírio que é do real, é o do esquizofrênico. Temos por orientação nunca nutrir o delírio (MILLER, 2015), pois ele pode levar ao pior. Em uma supervisão em serviço de saúde mental, o CAPS, Rômulo da Silva (1999) relata que um paciente, invadido por uma voz que o questionava se ele seria um anjo, acaba chegando à conclusão — a partir do que trabalhava nas atividades da instituição — de que era o anjo Gabriel. Não obstante, ele se desenlaça das atividades de sua vida. Para que ele participasse das atividades, um técnico vai lhe delegar a função de “anunciar” as atividades do serviço. O paciente ganha um mais de vida; passa a correr com os braços abertos e a anunciar o que lhe era solicitado. Entretanto, para esse sujeito, o simbólico, o significante, é real, não representa o sujeito para outro significante. Seu delírio não alcança um valor de metáfora delirante. Por consequência, ele passa ao ato: “bate as asas” pulando da janela de onde morava, vindo a falecer.

Desde sua leitura de Schreber (1911) e também em “Neurose e psicose”, Freud ressalta que as formações delirantes são um remendo onde originalmente surge uma fissura na relação do eu com o mundo exterior. Elas são tentativas de cura e reconstrução da realidade psíquica, pelo retorno do gozo no significante, fazendo o Outro existir. Freud dá uma dignidade ao delírio concebendo-o não como um distúrbio do juízo, mas como algo singular, do enlaçamento do eu à realidade, ao Outro.

Schreber, um doutor em direito na Alemanha, é chamado a ocupar o lugar de juiz. Trata-se de uma função simbólica que exige do sujeito um uso da significação fálica advinda da metáfora do Nome-do-Pai. Entretanto, Schreber é confrontado com a foraclusão do significante do Nome-do-Pai em sua estrutura, não encontrando um significante que possa representá-lo junto a outro significante, o que acarreta uma ruptura de sua realidade psíquica. Essa ruptura produz uma desestabilização, a saber, um desencadeamento do significante, um desastre crescente do imaginário, e deslocaliza o gozo que retorna no corpo e no Outro do significante.

Ele escreve com rigor, em suas memórias, as imposições e abusos que sofre; como seu corpo é invadido, comandado e modificado por raios divinos, desfazendo seu mundo em cascata. Pela sua escrita podemos ler como ele vai reconstruí-lo com o delírio e encontrar um lugar, uma nomeação, no ponto onde originalmente surgiu a fissura.

A ideia de ser transformado em Mulher é o germe de seu sistema delirante. Ela lhe ocorre a partir de um pensamento de que, afinal de contas, deve ser realmente muito bom ser mulher e submeter-se ao ato da cópula. Esse empuxo à mulher se impõe ao sujeito e, se num primeiro momento, o horroriza, em seguida, ele o aceita como um compromisso razoável, para tornar-se um compromisso irreversível (LACAN, 1955-1956).

Com seu delírio, designando-se “A mulher de Deus”, ele pôde, durante um período, viver a sua rotina e exigências do trabalho. Sua existência, seu mundo e lugar junto ao Outro são reconstruídos com esse remendo.

A clínica universal do delírio

Formular uma clínica universal do delírio implica situarmos as diferenças entre as modalidades de delírios dos neuróticos — articulados ao fantasma, aos ideais e às exigências superegoicas — e os delírios na psicose.

Se o neurótico e o paranoico distintamente fazem o Outro existir defendendo-se do real com o simbólico, o esquizofrênico nos ensina acerca da inexistência do Outro, de um real que se apresenta sem a mortificação da linguagem e um uso da ironia.

J.-A. Miller nos convida, em “Clínica irônica” (1996a), a apreendermos a posição do psicanalista como irônica. Mas como tocar o real com as palavras? Como tocá-lo de boa maneira? (MILLER, 2015). Como um psicanalista, na posição irônica, permite interrogar os modos de defesa de cada sujeito?

Advertido de que não há Outro do Outro, a ironia é um modo de fazer e questionar os significantes mestres, em que as palavras podem dizer outra coisa do que dizem e, assim, confrontar o sujeito com a sua própria dimensão delirante.

Exige uma investida, uma presença do analista, que ele aporte o tom, a voz, o acento, um gesto e o olhar, para que seu ato mobilize o corpo do falasser. Nas psicoses, pretendemos apagar ou acomodar o delírio (MILLER, 2015), assim, temos que considerar quando a ironia é uma defesa mínima do sujeito e quando ela pode servir para perturbá-la.

Uma análise pode reduzir o sofrimento causado pelas ficções que o sujeito inventou para tratar o real, recortando o sintoma até o sem-sentido para fazer um uso do sinthoma. A clínica universal do delírio também aponta para isso que, como psicanalista, trata de escutar o que se enuncia da boca do paciente, o que se vocifera do lugar de mais-ninguém (MILLER, 2015), lugar do sujeito designado desde antes que o significante desenrole suas tessituras capciosas, que fazem esquecer que aí onde se sofre, se goza.

A leitura de “Neurose e psicose” por Lacan 

A definição de defesa no texto “Neurose e psicose” recebe nomes diversos, como recusa, recalcamento e rejeição, sem uma delimitação estrutural clara, e sim mais continuísta. Contudo, Freud termina o texto perguntando-se qual seria o mecanismo análogo ao recalcamento na neurose para a psicose, através do qual o eu se desliga do mundo exterior.

Será Lacan, em seu Seminário 3: as psicoses (1955-1956), ao se referir ao texto freudiano, quem vai delimitar estruturalmente a neurose e a psicose, distinguindo-as quanto às perturbações que elas produzem nas relações do sujeito com a realidade. Ele sublinha que Freud admite um fenômeno de exclusão para o qual o termo Verwerfung parece válido, e que esse modo de defesa se distingue da negação (Verneinung), que é reconhecida por Freud como a matriz simbólica do inconsciente.

Verneinung, negação, é um momento constitutivo que delimita o mundo da realidade psíquica, um momento que está na origem da simbolização. É importante ressaltar que essa origem não está em um ponto do desenvolvimento, mas que responde a uma exigência, a uma escolha forçada. É ela que permite a emergência do mundo simbólico enquanto um sistema de articulação, de oposição entre elementos diferentes: S1– S2 , presença e ausência, dentro-fora, bom-mal…

Neurose e psicose são modalidades de negação, de defesa face ao real. Elas são ordenadas em relação a uma afirmação primária do significante (S1), a Bejahung, e, ao mesmo tempo, em que há uma afirmação, há uma expulsão definitiva (Austossung).

Esse significante (S1) — lalíngua —, que não é feito para se comunicar, marca o corpo do que Lacan nomeou em seu último ensino, falasser. Esse choque de lalíngua no corpo, que chamamos de trauma, itera fora-de-sentido num enxame de significantes S1 (essaim) que não se articulam. A realidade psíquica do falasser se constitui ao redor desse furo traumático (troumatisme), desse choque que ressoa o gozo do Um, um excesso traumático (tropmatisme).

Na neurose, o modo de negação, de defesa em relação às pulsões ao que vem do Outro, é a Verdrangung, o recalque.  Nesse modo de defesa, o ser falante consente com a afirmação primordial de um significante (Bejahung) S1. Entretanto, nega-se a identidade do sujeito com o significante: S1 # $. O sujeito não é o significante, ele só vai figurar no discurso unicamente através de um representante. O significante irrealiza o mundo — a palavra mata a coisa —, a referência está vazia.

Um significante promove o sujeito no discurso, mas isso só se dará em relação a outro significante, o que equivale a dizer que o sujeito é barrado, cindido. O sujeito então se constitui nesse movimento de queda de um significante, que é recalcado, consentindo com a falta-a-ser. Falta a ser o falo. Tem-se a castração do sujeito e do Outro.

O significante recalcado (S1), como nos diz Freud, vai atrair para sua direção outros significantes, segundo as leis da metáfora e da metonímia (condensação e deslocamento), constituindo a cadeia significante, a realidade do sujeito.

Na neurose, o que se elide, nos diz Lacan (1955-1956), é uma parte de sua realidade psíquica (isso), parte esquecida que continua a se fazer ouvir. Como?, pergunta Lacan, e ele mesmo responde: de uma forma simbólica. A estrutura de linguagem do saber inconsciente se define então por essa conexão dos significantes, e o saber recalcado reaparece nas formações do inconsciente, como os sonhos, atos falhos, chistes e sintomas.

A dimensão da castração, a divisão do sujeito, o leva a uma busca recorrente de significação. O enigma do gozo se presentifica na indagação “o que isso quer dizer?”, provocando surpresa e propondo uma questão ao desejo: o que quer o Outro? O neurótico, ao tentar apreender o objeto no Outro, só encontra a vacuidade de um gozo.

A parada dessa busca infinita na cadeia se dá com a construção de sua posição de gozo enquanto objeto (a) para o Outro, $<>a, a construção da fantasia fundamental. Defesa que implica um ponto ininterpretável e que, uma vez atravessada em uma experiência analítica, o falasser possa vir a se virar com o gozo fora-de-sentido, o sinthoma.

Pode acontecer, todavia, de o sujeito recusar o acesso ao seu mundo simbólico, de alguma coisa que ele experimentou e que não é outra coisa senão ameaça à castração. Esse modo de negação, de defesa, cai sob o golpe da Verwerfung e tem uma sorte diferente.

Na foraclusão, o ser falante “escolhe” a psicose, insondável decisão do ser. A negação recai sobre o significante mesmo, que fica nulo quanto a sua função de representabilidade do sujeito. Nesse sentido, a Bejahung não se produz — trata-se da rejeição de um significante primordial. Não há o consentimento, um sim ao significante. Essa rejeição coloca em dúvida todo o conjunto significante  toda a cadeia significante , o Outro  fazendo com que alguma coisa não seja manifestada no registro simbólico retornando no real.

Há, portanto, uma anulação do significante: o significante não representa o sujeito para outro significante, o que faz com que Lacan, no Seminário 11 (1964), nomeie como holófrase S1 S2, ou seja, há uma falta de articulação. Não há espaço entre os significantes, e, mais tarde, em seu ensino, Lacan escreverá apenas como a iteração do S1…S1…S1, escrituras que demonstram a falta de dialetização, a certeza psicótica e a não extração do gozo (a). A função do S1 de representar o sujeito junto ao S2 parte à deriva …S1…S1…S1.

É isso o que caracteriza a foraclusão do Nome-do-Pai, da metáfora primordial da castração. O significante, por não representar o sujeito para outro significante, vai funcionar redobrando o real. O sujeito se depara com um vazio de significação, um buraco, que é a perplexidade, para, em seguida, retornar no real uma resposta, uma significação da significação, que traz uma marca única, que é a certeza (MILLER, 1996b). O Nome-do-Pai ordena o universo do sentido, estabelece vínculos entre significante e significado e une o desejo à lei ao interditar o gozo primordial.

A foraclusão na psicose incide, portanto, diretamente sobre esse significante do Nome-do-Pai, provocando “um furo correspondente no lugar da significação fálica” (LACAN, 1957-1958/ 1998, p. 564), impossibilitando a simbolização da castração. Por consequência, temos a foraclusão do falo. O gozo não é extraído do corpo _ o psicótico tem o objeto (a) no bolso _  provocando uma “desordem na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito” (LACAN, 1958 p. 559).

Embora, no Seminário 3, as psicoses, Lacan afirme que “não fica louco quem quer” (1955-1956/ 1985 p. 177) ao considerarmos que a referência está sempre vazia, Miller, ao propor uma clínica universal do delírio, nos indica que todo discurso é uma defesa contra o real. As ficções edípicas, a fantasia — a crença louca no pai — são tão delirantes quanto um delírio na psicose. Ambas são produção de sentido ao gozo.

O delírio é universal, porque os homens falam e porque há linguagem para eles. A linguagem serve à tecitura das ficções com as quais ignoramos o que temos de mais real: a não relação sexual e a nossa própria mortalidade. Há nesse ponto uma interseção entre neurose e psicose no sentido que ambos se deparam com S(A/), ou seja, a forclusão generalizada.

O significante do Nome-do-Pai é, portanto, uma solução entre outras para tratar o gozo. Com o seu declínio, efeito da foraclusão generalizada e, também, mais além da foraclusão localizada na psicose (a Verwerfung), cada um tem que encontrar sua resposta sinthomática frente ao furo, ao real que lhe cabe.
A vida é sonho 

Freud, em “Neurose e psicose”aproxima o sonho da psicose. Essa aproximação se dá, pois há uma realização alucinatória do desejo no sonho, e a ideia de que se alucina quando se dorme atualiza a tendência do aparelho psíquico de se fechar. O sujeito acorda para continuar a dormir na rotina de sua fantasia e evitar o despertar para o real (MILLER, 2020).

Podemos também considerar a intrusão da vida no sonho; o sonho não só na via do inconsciente transferencial — das formações inconscientes —, mas na perspectiva do UM do inconsciente real: um despertar para o real de uma posição de gozo.

Alguns fragmentos do passe de Rômulo da Silva1, membro EBP/AMP, parece-nos contribuir para essa 58ª Lições Introdutórias à psicanálise. Sua análise lhe permitiu reduzir o sofrimento causado pelas ficções que o sujeito inventou para tratar o real, recortando o sintoma até o sem-sentido e fazer um uso do sinthoma.

Ao redor dele, o prazer e a alegria estavam do lado das mulheres. Desde novo queria saber sobre o gozo do Outro, o que a mulher quer, para assim alcançar o objeto de sua satisfação, o que redundou para ele querer ser esse objeto. De família italiana, na tristeza e na alegria, ouvia “mangia che te fa bene!“. Fazer falar e fazer rir eram maneiras de fazer o outro gozar. Posição que satisfazia uma parte da fantasia.

Até os seis anos foi considerado anoréxico. Havia preocupação com sua magreza e falta de apetite. Sua voz era áfona. Passa a comer com vigor, como elas, e passa a falar como elas.

Quando lhe perguntavam o que queria comer, respondia sempre: tanto faz. Quando solicitado a falar, a voz não saía e experimentava uma retração do corpo. E, sob pressão, o que lhe acometia era um choro que não se externava; saía um gemido, uma expiração impedida, um grito contido.

Tomar a palavra, falar em nome próprio, é assumir uma separação simbólica. Deixar sair a voz é ceder o gozo, separar-se, cair um objeto ao qual se mantém apegado. A função evocante da voz fazia com que ele entrasse em mutismo.

A voz é um objeto intrusivo dado pelo Outro e não se pode recusar. Os autistas e alguns psicóticos nos ensinam o quanto esse objeto é intrusivo. O ouvido não é um órgão que se fecha, diferentemente do objeto oral, que pode ser retirado pelo Outro, deixado pelo sujeito e também recusado por ele na anorexia.

Para se constituir como sujeito, é necessário que o objeto seja extraído do corpo, que o sujeito consinta com o significante. Falar em outra língua foi importante na análise de Rômulo. O analista o acolhe, mas adverte: é preciso falar melhor o francês.

As interrupções das sessões tinham repercussões para além da fala. O silêncio do analista o fez percorrer todo o mito familiar, as situações traumáticas e as soluções para se defender do real.

Sua história, que tanto gostava de contar, foi se tornando vazia e ridícula. Convocado a falar o que não tinha ainda falado e possibilitado de tomar a palavra sem que ela fosse articulada ao sentido, o angustiava, presentificava o objeto.

Ele sonha. Está submerso num tanque cheio de água. Não tem como respirar. Há uma torneira em forma de santo. Se a abrisse, encheria mais ainda. Em seu desespero, abre-a e surpreende-se: o tanque se esvazia.

Não encontra palavras e repete “je me sens… je me sens… je me sens…” (“eu me sinto…”), o que faz assonância com gemeção, ao tentar expelir o ar, o choro da infância, a voz. O analista intervém: J’aime saint, fazendo reverberar o gozo pelo equívoco. Fim da sessão. Ser analisante é aceitar receber de um psicanalista o que perturba a sua defesa (MILLER, 2014).

Faria sentido: a torneira era um santo, o santo que o salvou, o santo que ele é… E Rômulo repete j’aime saint… mas, em francês, não se diz, como em português, “Amo santo”, e sim, j’aime le saint (amo o santo). Ao que ele escuta: J’aime sang… (eu amo sangue). Ou seja, não ama nem é santo… tanto que virou o santo de cabeça para baixo para se salvar.

Rômulo, como o mestre taoísta Chuang Tzu, que não evita o despertar quando seu discípulo lhe diz, “é apenas um sonho!”, desperta para o real de sua posição de gozo. De uma voz tímida e feminina, do compromisso identificado à mãe e às mulheres que seduzia sendo um homem adorável, sua voz tornou-se mais ativa, de acordo com suas cordas vocais, e falava menos na vida. A função evocante da voz estava vinculada ao se fazer ver que o objeto (a), o olhar, impunha.

Um outro sonho revela isso. Um neologismo em francês feito por letras de fumaça: goulant. O som parecia Gourmand, ele via as sílabas go, gol, goul, na, um, aun, ant se desfazendo e não podia formar uma palavra colocando em jogo o sem-de-sentido, um enxame de S1 (essaim). Foi nos últimos suspiros da análise que a queda do objeto olhar se apresentou e permitiu o fim.

Para além da travessia da fantasia, ele nos conta dois episódios.

No primeiro, sempre carregava uma mochila com seus apetrechos. Em uma sessão, o analista, aos berros, exige que ele a deixe fora da sala. Ele a joga num canto. Rômulo não fala desse episódio na sessão, mas havia uma reação violenta em seu corpo, pronta para explodir, e, ao mesmo tempo, tentava entender o desejo do analista. Sai da sessão se perguntando se o analista pensava que ele seria violento e se carregaria uma bomba. O recebimento dessa mensagem invertida revela a sua posição.

No segundo, na sala de espera do analista, fala e gesticula sem parar com alguém que também aguardava e acaba derrubando um vaso no chão. Sem graça, tenta limpar, não consegue. Sai para pedir ajuda e encontra a esposa do analista no hall. Ao não encontrar a palavra em francês, sai disfarçando.

Vai para a sessão, nada fala do ocorrido. A cena o visita em sua forma edípica: “fiz uma besteira, tentei explicar para ela, ela não entendeu. O senhor pode dar um jeito?”. O analista carinhosamente quis saber os detalhes. Rômulo se sente ridículo contando e o analista faz um gesto de “deixa para lá”. Em seguida, volta-se para ele: “mas você quebrou o vaso?”. Ele responde que não e que limpou o que pôde. Em outro gesto tranquilizador e furioso, agarra o braço dele e diz: “mas, se tivesse quebrado, você teria que pagar!”. Ele sai apavorado, pensando nos milhares de euros, como se fosse um vaso da dinastia Ming.

A acolhida e, em seguida, a não cumplicidade do analista confrontaram-no com a solidão de seu gozo. Enquanto falava desenfreadamente na sala de espera, não levava em conta os outros. Não era só narcisismo, mas um autoerotismo; sua satisfação não levava em conta o Outro, simplesmente gozava.

Ao perturbar a defesa, o analista, com sua investida e presença, coloca em jogo a pulsão escópica e a invocante. O efeito de seu ato é mobilizar o corpo do falasser, pois as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer.

Como em um paralelo com o fenômeno elementar e a função do delírio na psicose, trata-se de reconduzir o sujeito aos significantes propriamente elementares, sobre os quais o sujeito, em sua neurose, delirou (MILLER, 1996c). O Um sobre o qual o neurótico construiu suas defesas, suas elucubrações ficcionais, histórias de família tecidas de identificações ideais e verdades mentirosas.

 


Referências
FREUD, S. (1923). “A perda da realidade na neurose e psicose”. Obras incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte. 2021.
FREUD, S. (1923). “O ego e o id”. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 1969.
FREUD, S. (1924). “Neurose e Psicose”. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2016.
LACAN, J. (1957-1958). “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1998.
LACAN, J. (1955-1956). O seminário: livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1985.
LACAN, J. (1964). O seminário: livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1988.
MILLER, J.-A. “Clínica irônica”. Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996a.
MILLER, J.-A. “Conciliábulo de Angers”. Conversação clínica realizada na França em 1996b.
MILLER, J.-A. “L’interpretation à l’envers”. La Cause freudienne, n. 32. Paris: Navarin Seuil, 1996c. pp. 9-13.
MILLER, J.-A. La experiência de lo real en la cura psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós. 2014.
MILLER, J.-A. Todo mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015.
MILLER, J.-A. “Despertar”. Scilicet: o sonho sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano, AMP, EBP, 2020. pp. 15-19.
SILVA, R. F. “O psicótico em relação à palavra e ao corpo”. Opção Lacaniana, n. 24. jun. 1999. pp. 36-37.

1. “O objeto voz na experiência de uma análise”, em Opção Lacaniana on-line, nº 11, e “Trauma e violência”, em Opção Lacaniana, nº 70.



Perigos e defesas: a análise finita e a infinita

Luciana Silviano Brandão
Psicanalista, membro da EPB/AMP

Resumo: O texto acompanha o percurso de Freud sobre o tema do final de análise tendo como referência o artigo “A análise finita e a infinita”, que trouxe desdobramentos importantes na psicanálise. No entanto, Lacan, ao postular a inexistência da relação sexual, desafia a concepção de Freud e abre a possibilidade de um passe de ordem lógica.

Palavras-chave: Psicanálise; finita; infinita; passe.

DANGERS AND DEFENSES: FINITE AND INFINITE ANALYSIS

Abstract: The text follows the path of Freud on the theme of the end of analysis with reference to the article “The finite and infinite analysis” that brought important developments in psychoanalysis. However, Lacan, by postulating the inexistence of the sexual relationship, challenges Freud’s conception and opens up the possibility of a pass of logical order.

Keywords: Psychoanalysis; finite; infinite; pass.

 

CAROLINA BOTURA. S/T

 

Freud publicou “A análise finita e a infinita” em 1937, mas esse tema já o preocupava desde 1900. Em carta para Fliess, de 16/04/1900, relatava sua inquietação com o caráter “aparentemente sem fim de um tratamento analítico” (FREUD, 1937/2017, p. 362). No entanto, foi apenas em 1937 que dedicou um trabalho inteiro a esse tema. São dignos de nota dois eventos importantes que ocorreram antes da data dessa publicação: as desavenças com Otto Rank (que havia proposto um modelo de terapia breve baseado na teoria de caráter traumático do nascimento) e as polêmicas com Ferenczi, que se queixava da pouca atenção recebida por Freud (“aos sentimentos e fantasia negativos em parte transferidos”) (FREUD, 1937/2017, p. 362), que impedia o fim de sua análise.

Na verdade, esse último ponto foi o que tornou ainda mais relevante a questão que concerne à análise dos próprios psicanalistas e que fez com que Ferenczi formulasse a “segunda regra fundamental” da psicanálise: a análise (finalizada) do analista (FREUD, 1937/2017, p. 362). Essa discussão foi retomada por Lacan nos anos 1960, quando propôs a articulação lógica entre o final de análise e o advento de um psicanalista.

O título desse artigo foi traduzido pela editora Autêntica como “A análise finita e a infinita”, diferentemente de “Análise terminável e interminável”, da Standard. O tradutor explica a escolha ao mencionar a existência dos sufixos usados na língua alemã e que o “infinita” tem a conotação de “sem fim”.

Freud começa seu texto dizendo que a análise é um processo a longo prazo, e, por essa razão, justifica sua preocupação em relação à redução de seu tempo. Cita a análise de um jovem russo1, na qual tentou acelerar o tratamento dando ao paciente um “prazo fixo”. Cito-o: “esclareci ao paciente que aquele ano seria o último do tratamento, independentemente dos progressos que ele viesse a registar no tempo ainda restante” (FREUD, 1937/2017, p. 317). A consequência foi o enfraquecimento da resistência, recordação das lembranças e encontro das relações para compreender e solucionar sua neurose. No entanto, anos mais tarde o paciente retornou a Viena em estado lastimável, obrigando o psicanalista a voltar a atendê-lo com o intuito de ajudá-lo a dominar uma parte da transferência não resolvida. Depois disso e durante uma década, o paciente voltou a ser acometido por episódios da doença, sendo tratado pela Dra. Brunswick.

Freud continuou tentando introduzir o método do “prazo fixo” com outros pacientes concluindo ser possível certa eficácia, mas não a garantia da consecução completa da tarefa. Uma parte do material se tornava acessível, e outra permanecia reclusa, perdendo o esforço terapêutico.

As considerações sobre a técnica da psicanálise e a possibilidade de acelerar o processo o levaram a refletir “se (haveria) um término natural de análise, ou se (seria) possível levar uma análise a até tal término” (FREUD, 1937/2017, p. 319). Essas considerações abriram o leque para uma discussão maior, como:

O que é o fim de análise? 1. É quando o paciente não sofre mais com seus sintomas? 2. Quando o analista julga que não há mais possibilidade de temer a repetição de processos patológicos? 3. Ou quando a influência sobre o paciente foi levada a tal ponto que uma continuidade de análise não promoveria nenhuma outra mudança?

As respostas para essas perguntas dependiam de comprovação clínica, e, ao se debruçar sobre a etiologia dos distúrbios, Freud afirmou que essa é mesclada: “trata-se ou de pulsões muito fortes, ou seja, que se rebelam contra a domação pelo Eu, ou do efeito de traumas precoces, isto é, que ocorreram antes do tempo, dos quais um Eu imaturo não conseguiu se apoderar” (FREUD, 1937/2017, p. 320). Constata-se, então, que a etiologia é efeito conjunto dos dois momentos: um constitucional e outro acidental. Quanto mais forte o primeiro, maior a possibilidade de um trauma levar à fixação, deixando um distúrbio evolutivo como resquício, e, quanto mais forte é o trauma, maior será a certeza de que ele expressará a sua lesão.

O psicanalista sublinha a importância da identificação dos obstáculos que impedem a cura analítica e ilustra esse ponto com os casos de dois pacientes. O primeiro é o de um analisante que, em dado momento da análise, apresenta uma transferência negativa em relação ao analista, e o segundo, o caso de uma jovem acometida por dores de natureza histérica. Esta última ficou livre de seus sintomas após 9 meses de tratamento, mas, 14 anos depois, ao ser operada do útero, desenvolveu um quadro confusional e, segundo Freud, tornou-se inacessível a uma nova tentativa analítica.

Os casos descritos acima foram escolhidos por ele para discutir o tema do fim de análise. Os céticos dirão que não é possível um fim de análise duradora e os otimistas dirão que sim, pois a técnica psicanalítica evoluiu desde a conclusão dos dois casos. As expectativas dos otimistas suscitam questões: 1. É possível eliminar um conflito pulsional definitivamente? 2. é possível “vacinar” uma pessoa contra todas as outras possibilidades de conflito?

 

Parte III

A partir deste momento, considero mais didático seguir a forma com a qual Freud dividiu seu texto. Escolhi começar aqui a dividi-lo a partir da parte III.

O ponto principal aqui é a discussão sobre o enigmático fator quantitativo e “ao que Freud chama de (sua) potência irresistível (…)” (MILLER, 2018, p. 43). Nas palavras de Miller:

“uma elucidação significante não é suficiente para operar; resta alguma resistência, não a do paciente, mas a da própria coisa, uma resistência do isso, da libido, de sua viscosidade, da fixação. O encantamento provocado pela leitura dos casos de Freud está ligado ao mito de uma libido fluida, que estaria inteiramente na decifração, como se pudéssemos escrever no quadro a operação e seu resultado, e em seguida mostrá-la ao paciente, que, nesse momento, se levantaria, como Lázaro, e iria embora, liberto do sintoma. Quando Freud diz: ‘Esqueci o fator econômico’, ele extrai essa conclusão de suas dificuldades com seus pacientes. Ele revela isso com base no modo pessimista de que ‘Análise finita e infinita’ é testemunha” (MILLER, 2018, p. 43).

Retornando ao texto de Freud, vemos que este apresenta três fatores determinantes para a oportunidade da terapia analítica: 1. influência de traumas; 2. força pulsional constitucional; 3. alteração do Eu. Dessas, a que mais interessa é a força pulsional (FREUD, 1937/2017, p. 325). Diante desse ponto, o psicanalista pergunta sobre os efeitos a longo prazo da análise, ou seja: é possível resolver de forma duradoura e definitiva um conflito entre a pulsão e o Eu? Ou a uma exigência pulsional patogênica em relação ao Eu? (FREUD, 1937/2017, p. 326).

Mas o que significa resolução duradoura? Freud propõe o termo “domação” da pulsão, que “quer dizer que a pulsão foi acolhida completamente na harmonia do Eu e é acessível através das outras aspirações no Eu, não trilhando mais os seus próprios caminhos em busca de satisfação” (FREUD, 1937/2017, p. 326). No entanto, pode-se constatar a volta dos sintomas em algumas situações em que o sujeito é acometido pela força de um novo trauma, causando o tombamento do Eu:

“No caso de uma força pulsional excessivamente grande, o Eu amadurecido e apoiado pela análise não consegue realizar a tarefa, de modo semelhante ao que acontecia anteriormente com o Eu desamparado; o domínio da pulsão melhora, mas permanece imperfeito, porque a transformação do mecanismo de defesa é apenas incompleta. Não há nisso nada de espantoso, pois a análise não trabalha com recursos de poder ilimitados, mas com recursos limitados, e o resultado final depende sempre das relações de forças relativas das instâncias em combate mútuo” (FREUD, 1937/2017, p. 332-333).

 

Parte IV

Vemos a seguir que Freud levanta duas questões importantes, uma concernente à proteção do sujeito contra futuros conflitos pulsionais, e, outra, à profilaxia. Cito-o: será que “durante o tratamento de um conflito pulsional podemos proteger o paciente contra futuros conflitos pulsionais e […] é exequível e adequado despertar um conflito pulsional não manifesto naquele momento com a finalidade de profilaxia [?]” (FREUD, 1937/2017, p. 333). No fundo, essas questões levantam a problemática sobre os limites da capacidade produtiva de uma terapia analítica. A resposta é que, quando um conflito pulsional não é atual, não há possibilidade de ele ser influenciado pela análise, ou seja, a psicanálise não é profilática.

 

Parte V

Nesse ponto, abre-se a discussão sobre a importância da alteração do Eu no processo de uma análise:

“Nesse intuito, reconhecemos como fundamentais para o sucesso de nosso esforço terapêutico as influências da etiologia traumática, a força relativa das pulsões a serem dominadas e algo que chamamos de alteração do Eu. Foi apenas no segundo desses fatores que permanecemos mais tempo e entramos em mais detalhes; nessa ocasião, tivemos motivos para reconhecer a importância suprema do fator quantitativo, assim como para enfatizar o direito da perspectiva metapsicológica em cada tentativa de explicação” (FREUD, 1937/2017, p. 338).

Portanto, é necessário levar em consideração, de forma mais cuidadosa, a influência da alteração do Eu.

Segundo Freud, não é possível estabelecer uma situação analítica com os psicóticos, pois, como se sabe, em uma análise, é necessário “nos associarmos ao Eu da pessoa-objeto para submetermos porções não dominadas de seu Isso, ou seja, incluí-las na síntese do Eu” (FREUD, 1937/2017, p. 338), e, para tal operação, é necessário um Eu normal. Mesmo que um Eu normal seja apenas ficcional, como toda normalidade.

Os diversos tipos e graus de alteração do Eu dependem de dois fatores: se são originários ou adquiridos. No caso dos adquiridos, a situação é mais fácil, pois isso aconteceu ao longo do desenvolvimento desde os primeiros anos de vida. Ou seja, o Eu faz sua tarefa de mediar o Isso e o mundo exterior a serviço do princípio do prazer, mas:

“Se ao longo desse esforço ele aprender a também adotar uma postura defensiva em relação ao próprio Isso e a tratar as reivindicações pulsionais desse Isso como perigos externos, isso pelo menos em parte se dá porque ele entende que a satisfação pulsional levaria a conflitos com o mundo exterior. Então, sob a influência da educação, o Eu se acostuma a transferir o campo da batalha de fora para dentro, a dominar o perigo interior, antes que ele se transforme em exterior; na maioria das vezes, provavelmente é a melhor coisa a ser feita. Durante essa batalha em duas frentes — mais tarde, virá ainda a terceira frente — o Eu se serve de diferentes procedimentos para fazer jus à sua tarefa, ou, dito de maneira geral, para evitar perigo, angústia e desprazer. Chamamos esses procedimentos de ‘mecanismos de defesa’” (FREUD, 1937/2017, p. 339).

Logo em seguida, no texto, Freud fala do recalque, mecanismo que foi o ponto de partida para o estudo dos processos neuróticos. Ele usa como ilustração o exemplo do livro que tem partes adulteradas, censuradas e substituídas. Essa comparação mostra como o Eu está submetido ao princípio do prazer, à compulsão do princípio do prazer, pois o aparelho psíquico não suporta o desprazer, precisa se proteger o tempo todo, e, se a percepção da realidade trouxer o desprazer, a verdade precisa ser sacrificada. Conclui que conseguimos nos proteger desse perigo temporariamente, já que não é possível fugir de nós mesmos e, contra o perigo interno, não há fuga possível.

Os mecanismos de defesa servem para afastar os perigos e muitas vezes conseguem seu intuito. Contudo, é questionável se o Eu, ao longo de seu desenvolvimento, consegue prescindir desses mecanismos ou se eles se tornam um perigo por terem se fixado ali, causando sobrecarga para a economia psíquica. É claro que uma pessoa não usa todos os mecanismos de defesa possíveis, mas alguns selecionados, que irão se fixar no Eu, transformando-se em formas de reação regulares do caráter e repetidas ao longo da vida. O Eu fortalecido do adulto continua a se defender dos perigos, que, na realidade, não existem mais.

O ponto importante aqui é a indagação de como a alteração do Eu (submetida ao efeito da defesa) influencia o nosso esforço psíquico. Vê-se que o analisando repete, no percurso da análise, os mesmos mecanismos de defesa aos quais está acostumado, mas isso não torna a sua análise impossível. A tarefa da análise funciona como um pêndulo entre um pedacinho da análise do Isso e outro do Eu, ou seja, tornar consciente um pedaço do Isso e corrigir algo do Eu. Cito Freud: “O fato decisivo é que os mecanismos de defesa contra perigos antigos reaparecem no tratamento como resistências contra a cura. Decorre daí que a cura é tratada como um novo perigo, até pelo Eu” (FREUD, 1937/2017, p. 343-344). Diante desse perigo, o Eu se retira do contrato anteriormente acordado do tratamento analítico e não concorda em revelar o Isso, não permitindo que mais nenhum derivado do recalque aflore. Essa é a hora em que a transferência negativa pode aflorar, suspendendo a situação analítica.

Chama-se o efeito das defesas do Eu de “alteração do Eu”. Cito Freud: “Creio que possamos chamar o efeito das defesas no Eu de ‘alteração do Eu’, se entendermos por esse termo a distância de um Eu-normal fictício, que garante ao trabalho analítico uma fidelidade pactual inabalável” (FREUD, 1937/2017, p. 345). Diante disso, podemos afirmar que a situação analítica depende de quão enraizadas estão essas resistências da alteração do Eu.

Será que toda alteração do Eu é adquirida durante as batalhas de defesa dos primeiros tempos? É importante ter em mente que, além de o fator da defesa ter seu lado inato, há a escolha do sujeito, entre possíveis mecanismos de defesa a serem usados.

 

Parte VI

Uma fonte importante de resistência ao trabalho analítico são as diversidades do Eu, “que num outro grupo de casos seriam apontadas como fontes de resistência contra o tratamento analítico e impedimentos do sucesso terapêutico” (FREUD, 1937/2017, p. 348).

Outra fonte de resistência poderosa ao trabalho analítico é o comportamento das duas pulsões primevas: Eros e pulsão de morte. A oposição entre as duas mostra que o aparelho psíquico não trabalha apenas na vertente do prazer; há uma força destrutiva vigorosa: “Esses fenômenos são sinais evidentes da presença de um poder na vida psíquica que chamamos de pulsão de agressão ou pulsão de destruição, dependendo de seus objetivos, e que deduzimos a partir da pulsão de morte original da matéria animada” (FREUD, 1937/2017, p. 349). Importante salientar que o que está em jogo é a junção de forças e o embate das duas pulsões, pois é isso que vai explicar o colorido das ocorrências da vida.

De forma surpreendente, ao estudarmos os fenômenos que comprovam a atividade da pulsão de destruição, não nos deparamos somente com a observação de material patológico: “Inúmeros fatos da vida psíquica normal clamam por uma tal explicação, e quanto mais o nosso olhar se aguça, mais intensamente eles chamarão a nossa atenção” (FREUD, 1937/2017, p. 350).

Curiosamente e apesar de o tema ser importante, Freud decide destacar apenas algumas amostras e começa falando dos bissexuais:

“No entanto, aprendemos que, nesse sentido, todas as pessoas são bissexuais, e que distribuem a sua libido ou de forma manifesta ou de forma latente entre objetos de ambos os gêneros. Mas há algo que chama a nossa atenção: enquanto no primeiro caso as duas direções se entenderam sem embates, no segundo e mais frequente elas se encontram no estado de um conflito irreconciliável. A heterossexualidade de um homem não tolera a homossexualidade, e vice-versa. Se a primeira for a mais forte, ela conseguirá manter a última latente e afastá-la da satisfação real; por outro lado, não há um perigo maior para a função heterossexual de um homem do que o distúrbio causado pela homossexualidade latente” (FREUD, 1937/2017, p. 350).

Para explicar essa questão, Freud aposta na teoria dualista que advoga uma pulsão de morte como parceira em nível de igualdade com o Eros manifesto da libido (FREUD, 1937/2017, p. 351) e, para explicá-la, lança mão da tese de Empédocles de Ácragas, grego pesquisador, médico, político, filantropo, mago, profeta.

 

Parte VII

Nessa parte, Freud faz menção a Ferenczi em seu artigo “O problema da finalização das análises”, no qual o último garantia que a análise não é um processo interminável, mas depende da técnica e da paciência do analista. Portanto, a meta não seria o encurtamento do processo, mas o seu aprofundamento. Um dos pontos fundamentais seria a peculiaridade do analista, suas resistências e a “normalidade”. Aqui Freud fala da formação de uma forma quase pedagógica ao afirmar que

“[…] há uma razão em se exigir do analista um grau mais elevado de normalidade psíquica e correção, como parte da comprovação de sua habilidade profissional; acrescente-se a isso que ele ainda necessita de uma certa superioridade para funcionar como modelo para o paciente em determinadas situações analíticas e em outras como professor” (FREUD, 1937/2017, p. 355)

e acrescenta a importância da crença do amor à verdade, no reconhecimento da realidade.

No entanto, depois de fazer essas afirmações, fala do caráter quase impossível da profissão do analista, pergunta-se como, ou onde, adquirir a habilitação necessária nessa profissão. A resposta: em sua própria análise. Mas e a resistência do analista em sua própria análise? Como lidar com essa situação?

“[…] espera-se que a partir das motivações recebidas na própria análise que elas não se esgotem com o seu término, mas que os processos de reformulação do Eu [Ichumarbeitung] continuem espontaneamente no analisando e que todas as demais experiências sejam utilizadas nesse novo sentido adquirido. Isso acontece de fato e, conforme vai acontecendo, habilita o analisando para se tornar analista” (FREUD, 1937/2017, p. 356).

Um segundo ponto interessante é quando Freud fala do caráter singular do analista e que alguns usam mecanismos de defesa que lhes permitem desviar da própria pessoa conclusões e exigências da análise. Essa crítica pode dar razão ao poeta quando diz que, ao dar poder a alguém, será difícil que não se faça mal uso desse poder.

“Não causaria espanto se através do trabalho com todo o recalcado, que luta por satisfação na alma humana, também despertássemos no analista aquelas demandas pulsionais que ele do contrário poderia manter reprimidas. Esses também são os ‘perigos da análise’, que não ameaçam o parceiro passivo, mas sim o ativo na situação analítica, e não deveríamos deixar de enfrentá-los” (FREUD, 1937/2017, p. 357).

A resposta, segundo ele, estaria na necessidade de o analista se analisar a cada cinco anos, tornando, assim, sua própria análise, infinita.

Apesar da citação acima, Freud diz que é necessário esclarecer um possível mal-entendido, pois não considera que a análise seja sem fim, mas alerta que, nos casos de análise de caráter, é necessário não esperar um término natural.

 

Parte VIII

Continuando a discussão, o psicanalista salienta que tanto nas análises terapêuticas como nas de caráter, percebemos dois temas que se destacam com frequência: “ambos os temas estão atrelados às diferenças de gênero; um deles é tão característico do homem quanto o outro o é da mulher” (FREUD, 1937/2017, p. 358). Acrescenta ainda: “os dois temas que se correspondem são, para a mulher, a inveja do pênis — a aspiração positiva por possuir um genital masculino — e, para o homem, a aversão contra a sua postura passiva ou feminina em relação a outro homem” (FREUD, 1937/2017, p. 358). Ou seja,

“No caso do homem, a aspiração de masculinidade desde o início é totalmente sintônica com o Eu [Ichgerecht]; a postura passiva é recalcada de forma enérgica, uma vez que pressupõe a aceitação da castração, e muitas vezes são apenas supercompensações excessivas que apontam para a sua presença. Também no caso da mulher, a aspiração de masculinidade durante determinado momento é sintônica com o Eu, mais especificamente na fase fálica, antes do desenvolvimento da feminilidade. Depois, no entanto, ela é submetida àquele significativo processo de recalque, de cujo resultado, como apresentado tantas vezes, dependem os destinos da feminilidade. Muito dependerá de sabermos se uma porção suficiente do complexo de masculinidade se esquivou do recalque, influenciando constantemente o caráter; grandes porções do complexo normalmente são transformadas, para contribuir na construção da feminilidade; a partir do desejo não saciado pelo pênis deverá se criar o desejo por uma criança e pelo homem que tem o pênis. No entanto, é estranho percebermos o quão frequentemente o desejo de masculinidade é preservado no inconsciente, lá desenvolvendo sua influência perturbadora a partir do recalque” (FREUD, 1937/2017, p. 359).

Ou seja, em ambos os casos, é a oposição ao outro sexo o que sucumbe ao recalque.

Freud conclui seu texto de forma insatisfatória para si próprio, diante da impossibilidade de ultrapassar o desejo do pênis e o protesto masculino ao considerar a força do biológico em seu papel de pano de fundo.

 

Freud, Lacan e Miller

Em “Aposta no passe” (MILLER, 1980/2018, p. 13), Miller, em uma conferência de 1980, em Caracas, resume alguns pontos essenciais sobre o fim de análise. Ele afirma: “Passe, o termo usado por Lacan, assume o sentido de impasse, que, segundo Freud, corresponde ao desfecho normal da experiência analítica para todo sujeito” (MILLER, 1980/2018, p. 14).

Segundo Miller, o tropeço evocado no toda análise não diz respeito à particularidade clínica do paciente ou à falta de habilidade do analista praticante, pois Freud é muito claro ao afirmar que há um impasse de estrutura, que vale para qualquer sujeito. Ou seja, quanto mais um sujeito avança em sua análise, mais o impasse deve se manifestar. É o complexo de castração, e, especificamente na mulher, a Penisneid, essa inveja cravada no corpo. A análise necessariamente deve chegar a esse rochedo que nos leva a um paradoxo, pois o fim de análise implica um fracasso.

A diferença das perspectivas freudiana e lacaniana quanto ao fim de análise é que Lacan fala de passe em vez de impasse, mas sem, com isso, deixar de concordar com o que Freud postula. Para os dois há fim de análise, mas Lacan aposta que em seu final haja a transformação de analisante para analista, a passagem de uma posição a outra (MILLER, 1980/2018, p. 15).

Freud esperava que o fim de análise seria possibilitar ao homem ser um homem para uma mulher e à mulher ser uma mulher para um homem. É aí que há o tropeço essencial, a falha e a conclusão final de que o complexo de castração é irredutível à experiência.

Por sua vez, Lacan “indica que a questão do fim de análise não se situa no âmbito da relação sexual, que não existe” (MILLER, 1980/2018, p. 16), e para que haja fim, deve-se abdicar dessa ideia e sustentar a não relação. Ao postular a inexistência da relação sexual, ele desafia a concepção de Freud e abre a possibilidade de um passe de ordem lógica.

 


Referências 
FREUD, S. (1937). “A análise finita e a infinita”. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
MILLER, J-A et al. “Sobre o desencadeamento da saída da análise (conjunturas freudianas)”. Aposta no passe. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018.
MILLER, J-A. “Preliminar”. Cómo terminan los análisis. Olivos: Grama Ediciones, 2022.
MILLER, J-. A. Perspectivas do seminário 23 de Lacan: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.



Cisão do eu no processo de defesa — Ichspaltung

Lucia Mello
Psicóloga, psicanalista, membro da EBP/ AMP
Mestre em psicologia e professora do IEC PUC-MINAS

Resumo: Comentário sobre o artigo inacabado de Freud “Uma cisão do Eu — Ichspaltung” orientado pelas leituras de Lacan e Miller sobre o tema, que resultaram em contribuições fundamentais para a atualidade do trabalho clínico. Há, na cura psicanalítica, uma experiência da Spaltung, que atravessa dois grandes momentos do ensino de Lacan, do simbólico ao real, e preserva, nesse percurso, seu elemento de surpresa.

Palavras-chave: Cisão; Ichspaltung; defesa; inconsciente; corpo; real; pulsão; perturbar a defesa.

SPLIT OF MYSELF IN THE DEFENSE PROCESS — ICHSPALTUNG

Abstract: A commentary about Freud’s unfinished article “Split of Myself — Ichspaltung” guided by readings of Lacan and Miller, which resulted in fundamental contributions for the current clinical work. There is a Spaltung experience in the psychoanalytic cure that crosses two key moments in Lacan’s teachings, from symbolic to real, and preserves in this course its element of surprise.

Keywords: Split; Ichspaltung; defense; unconscious; body; real; drive; disturb the defense.

 

CAROLINA BOTURA. AU

 

“Uma cisão do Eu — Ichspaltung” reúne o paradoxo de artigo inacabado, publicado postumamente em 1938, escrito em 1924. Tal como ocorre em algumas obras sinfônicas, nas quais o compositor é assediado por uma frase, uma questão, um tema impossível de responder, a obra de Freud indaga, duvida e insiste no decorrer do trabalho incessante, da inquietação não respondida na travessia da construção de um método, verificado e transformado ao longo da experiência psicanalítica.

No início desse artigo, Freud diz que não sabe o que comunicar, dividido que está entre algo há muito conhecido e “algo totalmente novo e estranho”. O que seria? Há muito conhecido estão os conceitos de trauma, recalque, defesa, Eu, repetição, pulsão, satisfação, proibição, realidade, castração, sexualidade, fantasia, sintoma, inconsciente, entre outros.

Desde o início de sua pesquisa, desde os “Rascunhos”, o “Projeto”, os “Sonhos”, os “Estudos clínicos”, o conflito psíquico decorrente de um perigo real e intolerável, surge a dupla exigência variável, entre satisfação pulsional e proibição pela realidade, recalque e desejo. A defasagem, o desacordo entre exigências opostas, o dueto entre duas classes de pulsões além da incompatibilidade representativa são indagações persistentes em Freud.

No artigo inacabado, uma criança responde com essa duplicidade ao conflito diante da ameaça de castração, ameaça que deslizava entre registros diversos e parece nunca localizada no órgão. A solução eficaz sustentada pela Spaltung, cisão do Eu, evidencia o incurável de uma fenda originária que nunca cicatriza e aumenta à medida que o tempo passa. Nesse caso, o menino manobra a ameaça de castração temida, preserva a masturbação e opera deslocamentos através do fetiche, do sintoma e da fantasia. A função sintética do Eu é perturbada, deixando como resto uma sensibilidade angustiante nos artelhos, interpretada por Freud como expressão mais clara da castração, associada ao temor e à fantasia da devoração pelo pai-cronos.

Freud, no “Compêndio de psicanálise”, outro artigo inacabado, retoma a hipótese da cisão do Eu para além da neurose e psicose, visto supor questão mais ampla das “alterações” no processo de defesa, e constata que a função sintética do Eu, sustentada em vários artigos anteriores, se vê abalada pelos efeitos dessa fenda originária. Nos capítulos seguintes relê a cisão do Eu sob vários ângulos, examinada entre as instâncias psíquicas, entre pulsão e realidade, entre realidades diversas, entre o que nomeia mundo interno e mundo externo, diante do reconhecimento da diferença sexual, entre sonho e realidade. O sintoma, a fantasia, o fetiche, a angústia, pela via do temor, as várias formas de negação podem ocorrer como tentativas de conciliação, evitação, negação, recusa, recalque, mas não modificam as duas atitudes contrárias e independentes que se realizam, onde a negação é suplementada pelo reconhecimento.

Se, anteriormente, Freud “apresentava um corpo, campo de batalha pulsional entre e Eu e as pulsões parciais” (MILLER, 2003, p. 366), em Lacan, a dupla impossibilidade acarretada pela demanda, aquém e além do desejo, consuma a fenda — spaltung — sofrida pelo sujeito. O desejo, diz Lacan, não é nem o apetite de satisfação nem a demanda de amor, mas a diferença entre os dois. Desejo sempre agarrado à proibição, visto que o sujeito é ele mesmo marcado pela spaltung significante, subordinação escrita por vezes na tela da fantasia.

A fenda surge também como o preço a pagar na constituição do inconsciente. Preço terrível evidenciado no comentário de Lacan sobre a “Juventude de Gide”, além de frequente nas consequências clínicas de um desejo cindido em duas vias — o menino Gide, situado entre morte e erotismo masturbatório, confinado ao desejo clandestino, prisioneiro das vicissitudes de ter sido amado, mas não desejado. Máscara terrível, outra leitura lacaniana concernente ao ideal.

No livro 11 de seu Seminário, Lacan situa no jogo do Fort-Da não apenas a repetição imaginária da saída da mãe como causa da Spaltung, mas aponta também que “o que o sujeito visa é aquilo que não está lá enquanto representado” (1964/1985, p. 63).

Trata-se aqui de um breve percurso através de artigos situados nas décadas de 50 e 60 que ilustram uma clínica na qual o inconsciente demonstra os impasses entre desejo e a lei, da tela surpreendente da fantasia portadora das nuances fugidias entre sujeito e o objeto, da fixidez do gozo mortífero, perspectivas marcadas pela falta irremediável de um significante no campo do Outro. Impasses em uma construção cuidadosa.

O artigo “Cisão do Eu” prenuncia outra indagação sobre a defesa; parece deter-se diante não apenas do fracasso de síntese do Eu, mas também de algo sem nome, “algo totalmente novo e estranho”. É preciso lembrar que Spaltung pode ser traduzido por separação, desdobramento, divergência, racha, fissura, cisão, elisão, divisão originária, lugar do trauma.

A falta de palavras, a incompatibilidade verificada desde a cena inaugural da hipnose, no nascimento da psicanálise — trauma da sedução, da sexualidade, das palavras que faltam na angústia, assim como nos chamados traumas de guerras, inicialmente enfrentados com a técnica da pressão, seguida das perguntas sobre a causa do sofrimento —, encontrava resposta incompatível. Defasagem entre a demanda do analista e as outras palavras da paciente, a Outra cena entre a pulsão e consciência do eu permanecia, como contradição, discrepância, desacordo.

O traumatismo persiste — indicativo, segundo hipótese freudiana, de aglomerados formando um núcleo separado do Eu que retornam, desconhecidos pelo paciente, como se fossem inéditos, insuspeitos. A repetição em cada clínica demonstra progressivamente o quanto esse núcleo separado do Eu escapa à apreensão.

Anos mais tarde, no depoimento de Suzane Hommel, de sua análise com Lacan, a cena infantil traz o trauma, o conflito entre pulsão e realidade, cena repetida no pesadelo diante da palavra Gestapo, que evocava a cena da morte iminente das famílias judias — o horror da repetição. Mais uma vez, a primeira vez. No lugar das palavras carregadas de sentido, visando o restabelecimento da memória histórica, indagada por Freud no caso da criança ameaçada pela castração, o gesto sobre a pele de Hommel provoca o deslizamento metonímico entre os dois idiomas. “Geste à peau“, traduz a analisante, dando nome a essa alguma coisa, esse algo que incide sobre o real da cena, e, com isso, o sofrimento se torna menos invasivo. Menos. Lacan não demanda palavras, nesse outro tempo, para construção da cena traumática. Suzane formula sua pergunta: “o trauma de qualquer sujeito não é essa fissura que tentamos revestir com elementos de nossa história?” (HOMMEL, 2022, p. 33).

Essa análise indica ato psicanalítico diverso da interpretação anterior, muda de lugar, vai no sentido oposto através de outro caminho, outra configuração. Avesso e direito não excludentes da experiência psicanalítica, mas que privilegia ainda a singularidade do discurso e o desconhecimento do gozo.

O comentário muito esclarecedor de Jean Hyppolite, na década de 50, sobre a tradução da Verneinung, de Freud, e a resposta a esse comentário provocaram em Lacan um remanejamento das questões fundamentais psicanalíticas, resultando em “perturbar um equilíbrio psíquico que descansa na Spaltung“. Esse trabalho de pesquisa e formalização de cada conceito, devidamente orientado pela clínica, vindo de Lacan promove a passagem progressiva do tratamento sobre a resistência inaugural situada nas interpretações do analista para a incidência sobre o real que convoca a responsabilidade subjetiva não apenas na neurose ou psicose, mas na diversidade da clínica.

A leitura do caso “O homem dos lobos”, fragmento citado por Freud no artigo, mereceu, depois da tradução de Hyppolite, diferenciações mais precisas entre recalque, recusa e forclusão. Mais que um caso clínico, a construção conduzida por Lacan destaca elementos preciosos para a experiência da psicanálise e repercute como acontecimento sobre a teoria. Lacan pode demonstrar, a partir da cena infantil do dedo cortado, que o sentimento de realidade e irrealidade demarcam duas bordas experimentadas pela criança, que demonstram muito precisamente os limites entre alucinação e delírio, que a falta quando não advinda no simbólico reaparece no real.

A cena, minuciosamente examinada por Lacan, diferencia a rememoração, que conserva sua articulação simbólica, enquanto a reminiscência impede o sujeito de elaborar sua história, situando-as em temporalidades diferentes, sobretudo rearranjando resistência e defesa em dimensões opostas: a primeira ao lado do sintoma, a segunda decorrente da pulsão. A diferenciação entre resistência e defesa ultrapassa, a partir desse caso, a questão estrutural entre neurose e psicose, visto que a defesa por qualificar a relação com a pulsão fora do significante implica extrema variedade: silêncio, fixidez e desconhecimento do gozo de cada um. “A defesa qualifica uma relação com a pulsão a respeito da qual a interpretação não é a operação prescrita pela psicanálise” (MILLER, 2003, p. 52). Qual seria a operação mais indicada para lidar com a defesa?

Finalmente essa construção franqueia nova leitura do inconsciente, que, por sua vez, amplia os horizontes da clínica contemporânea. É preciso considerar que esse real não é algo suprimido dos traços primordiais, visto se encontrar presente aguardando, digamos assim, um tradutor a sua altura, desde que proposto como hipótese por Freud, no “Projeto para uma psicologia científica”, na Bejahung, o assentimento primordial, oposto à Ausstossung, a expulsão de algo mau — juízos de atribuição e existência, essenciais no processo de responsabilidade do sujeito. Esse assentimento primordial acarreta, curiosamente, para alguns, a cisão irremediável entre afeto e representação. Denuncia a presença de uma exclusão do sentido, exclusão interna e externa, tempos depois trabalhados por Lacan através do conceito de extimidade.

A Outra abordagem do conceito de defesa resultou no percurso lacaniano através da vastidão desse “algo novo e estranho”. Algo situado por Freud como o inconsciente não recalcado, mas, em Lacan, um texto escrito em outro lugar que não a palavra — marca, traço, signo, sobretudo letra —, não apenas no corpo simbólico ou imaginário, mas na dimensão real do corpo. Se o inconsciente inclui um corpo real, a melhor expressão proposta por Lacan é falasser (parlêtre). Essa inclusão convoca outro trabalho, outro “giro”, como diz Miller, da interpretação como perturbação, que convoca a materialidade da palavra, privilegia a surpresa. O sujeito e seu gozo, a falta e a substância. O corpo afetado pela letra ou, em algumas situações, a letra inventando um corpo.

Se a defesa permanece a mesma, situá-la do lado da pulsão, da reminiscência, do real convoca o sujeito a responder de outro modo. Como demonstra a diversidade da clínica contemporânea, abre novos campos de pesquisa. A psicanálise, com isso, tem chance de acompanhar as intensas transformações da civilização, sempre atuais, o que provoca talvez considerá-la em três grandes grupos: mais um recurso operado em três registros, simbólico, imaginário e real, e suas possíveis amarrações onde o sinthoma, em alguns casos, é prevalente.

O último ensino de Lacan ilumina uma noção para além do sentido e do saber, experiência também convocada pelo falasser, por veredas diversas do mal-estar na civilização, situada a partir do feminino e da clínicas do real apresentadas pela criança na psicose e no autismo. A experiência do real resulta em desafio surpresa para a clínica psicanalítica.

O novo mal-estar na civilização

Através das batalhas políticas e sociais no campo sempre minado dos interesses econômicos; dos corpos mutantes, telas a céu aberto nas quais o amor e o ódio se inscrevem como tatuagem; das sexualidades cada vez mais fluidas; das adicções diversas; dos laços sintomáticos que revisitam e atualizam formas de submissão a senhores tirânicos, em formas de servidão voluntária; das crenças marcadas por alucinações e delírios coletivos, a clínica voltada para outras formas de mal-estar convoca a presença fundamental da psicanálise, visto que a instabilidade atual pode provocar o ato analítico instrumentado por novas construções.  

Clínica do feminino

Formalizada por Lacan a partir do Seminário 20, essa clínica encontra-se presente desde suas lições iniciais, visto que as mulheres estão na origem da psicanálise. Lendo Freud, enfrentando o silêncio e os enigmas das histéricas, Lacan extrai do vazio a questão da inexistência, com e sem corpo. Através da sexuação, ele demonstrará o diálogo impossível com os três registros de falta e o papel suplementar das identificações, sempre mentirosas.

Uma das grandes contribuições lacanianas consiste em demonstrar o não-todo para além da sexuação como o que não se pode dizer nem escrever. Diante da falta irremediável de um significante no campo do Outro, a defesa no real traz elementos como aquilo com o que a mulher não tem relação, e é nisso que ela se duplica:

“a clínica da defesa diante do vazio é comum a todo ser falante. Mas a dificuldade feminina se joga na descontinuidade do enlace significante. A outra para si mesma demonstra esse ponto de impossível — de representar e de eludir: onde ela goza se pensa outra” (MASIDE, 2022, p. 269).

Como perturbar essa defesa?

Campo aberto à pesquisa da qual há muito o que extrair nos tratamentos psicanalíticos atuais, principalmente do contraponto essencial do não-todo na política.

Clínica da psicose

As investigações lacanianas sobre a psicose encontram sua expressão no plural bem destacadas na pesquisa empreendida por Sergio de Campos (2022). Lacan refaz suas hipóteses até extrair de seu último ensino a transmissão mais contundente sobre a clínica da psicose. Se, na “Direção do tratamento” (1966/1998), ele diz que o desejo aponta a impossibilidade da fala reduplicada na fenda spaltung pelo simples fato de falar, os casos clínicos e a releitura da Bejahung freudiana produziram mudanças consideráveis. Devido à natureza de sua alienação, a prevalência do real e as vicissitudes com seus objetos, o sujeito do inconsciente psicótico não será agente de uma enunciação, mas permanece identificado ao lugar vazio onde o Um é sem destinatário.

Em um trabalho incessante de construção de uma realidade, o tratamento é possível através de diversos recursos — linguagem, corpo, redução de um excesso de gozo —, suplências diversas que promovem a estabilização e reconfiguram a psicose na sua vertente ordinária. Ao lado desse trabalho ocorre a potencialização das defesas diante da sombra da morte, e o falasser lança para a clínica psicanalítica indagações sobre como perturbar essas defesas através de novas configurações.

Clínica do autismo

A pesquisa psicanalítica sobre o autismo, iniciada com Rosine e Robert Lefort nos anos 80 e desenvolvida posteriormente por Laurent, Maleval e Miller, entre outros, encontra nessa clínica uma defesa radical e precoce contra a linguagem e o gozo da palavra, na qual nenhuma troca vem mediatizar sua relação a um Outro que não existe. Estrutura diferenciada da psicose, decorre da foraclusão do furo da linguagem. Na clínica do real, na qual as inúmeras autobiografias e biografias dos autistas informam, o tratamento contínuo é realizado pelo sujeito contra esse sistema defensivo — a angústia, a construção de recursos específicos — para criar um Outro sob medida, um corpo, uma voz, enfim, para se fazer existir. A batalha dos autistas para se fazerem reconhecer e respeitar é surpreendente porque aponta a importância de um silêncio eloquente.

A defesa autista se caracteriza pela construção de uma borda que se desloca do isolamento para uma borda dinâmica que pode, inclusive, ser apagada. A localização do gozo sobre uma borda constitui finalmente uma defesa característica do autismo. Uma das maiores contribuições ao autismo implementada por Lacan foi destacar o autismo como categoria clínica fundamental, o status nativo que designa, a um só tempo, o sujeito e o corpo, ou seja, o falasser. Como categoria clínica fundamental, reduz o inconsciente ao fato de falar sozinho. É a conversa do real com o real que ocupa um lugar essencial na clínica das crianças muito pequenas, que ainda não passaram pela fala mentirosa e falam com Um-corpo. Lalíngua. Nessa clínica, perturbar a defesa seria, pelo contrário, a construção de um recomeço, de uma existência?

Para concluir, é preciso citar um trecho do emocionante elogio de Lacan a Freud em “A direção do tratamento”, a respeito do artigo “A cisão do Eu — Ichspaltung“:

“Aqui se inscreve a Ichspaltung derradeira na qual o sujeito se articula com o Logos, e sobre a qual Freud começando a escrever nos ia dando, na última aurora de uma obra com as dimensões do ser, a solução da análise “infinita”, quando sua morte ali veio apor a palavra Nada” (LACAN, 1998, p. 643).

 


Referências
CAMPOS, S. Investigações lacanianas sobre as psicoses: as psicoses extraordinárias. vol. 1. Belo Horizonte: Topológica, 2022.
CAMPOS, S. Investigações lacanianas sobre as psicoses: as psicoses ordinárias. vol. 2. Belo Horizonte: Topológica, 2022.
FREUD, S. (1924) Cisão do Eu (Ichspaltung). Compêndio de psicanálise e outros trabalhos inacabados. Obras incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.
GUÉGUEN, P. G. Defesa (desmontar a). Scilicet: um real para o século XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.
HOMMEL, S. Uma História de família no tempo do nazismo. Correio 87. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise. Abril, 2022.
LACAN, J. (1958) A direção do tratamento e os princípios do seu poder. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. (1954) Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung” de Freud. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. (1958) Juventude de Gide ou a letra o desejo. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. (1964) O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
MALEVAL, J-.C. La différence autistique. Saint Denis: PUV, Université Paris 8, 2021.
MASIDE, M. Clínica da sexualidade feminina. Scilicet: a mulher não existe. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2022.
MILLER, J-.A. La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 2003.
MILLER, J-. A. Perspectivas do seminário 23 de Lacan: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.



A presença do analista na psicose ordinária1

Sérgio de Campos
Psicanalista, A.M.E. da EBP/AMP
e-mail: sergiodecampos@uol.com.br

 

Resumo: Desde as últimas décadas, nos deparamos com casos clínicos que se manifestam sob formas de gozo, cujas manifestações convocam a uma construção diagnóstica não estruturalista. Tendo essas novas formações como casuística principal e sob a perspectiva de uma construção diagnóstica pautada na ética, em argumentos lógicos e baseada em um ponto de vista clínico, este artigo apresenta argumentações sobre a presença do analista na psicose ordinária orientadas pelo esforço de elaboração oriundos do Conciliábulo de Angers, da Conversação de Arcachon e da Convenção de Antibes, que resultou numa atualização dos conceitos de desencadeamento, conversão e transferência no âmbito das psicoses. As noções de neodesencadeamento, neoconversão e neotransferências são apresentadas de maneira a orientar a presença do analista diante das tendências contemporâneas da psicose ordinária, demarcando as diferenças entre estabilização, suplência e sinthoma. 

Palavras-chave: psicose ordinária; presença do analista; sinthome. 

THE PRESENCE OF THE ANALYST IN ORDINARY PSYCHOSIS 

Abstract: In the last decades, we have been faced with clinical cases that manifest themselves in forms of jouissance, whose manifestations call for a non-structuralist diagnostic construction. Having these new formations as the main casuistry and from the perspective of a diagnostic construction based on ethics, on logical arguments and based on a clinical point of view, this article presents arguments about the presence of the analyst in ordinary psychosis guided by the effort of elaboration arising from the Council of Angers, the Arcachon Conversation and the Antibes Convention, which resulted in an update of the concepts of triggering, conversion and transference in the context of psychoses. The notions of neotriggering, neoconversion and neotransferences are presented in order to guide the analyst’s presence in the face of contemporary trends in ordinary psychosis, demarcating the differences between stabilization, substitution and sinthome.

Keywords: ordinary psychosis; presence of the analyst; sinthome.

 

CAROLINA BOTURA. CÁPSULAS DO FUTURO

 

Nas últimas décadas, foram constatados diversos casos clínicos que se manifestam sob várias formas de gozo, incompletas do ponto de vista de suas narrativas, indefinidas sob a perspectiva de seus sintomas e de inconsistências que dificultam o seu enquadramento, resultando na impossibilidade de serem diagnosticados seguramente sob a perspectiva estruturalista. Vale dizer que efetuar um diagnóstico é um ato que implica uma ética, exige argumentos lógicos e é baseado em pontos de vista clínicos.

Miller (2009) aborda, entre 1987 e 1988, o caso “O homem dos lobos”, sem, contudo, firmar um diagnóstico. Em 1996, Miller promove um Conciliábulo de Angers sobre “Enigma e Surpresas nas Psicoses”. Nos estudos iniciais sobre as psicoses promovidos por Miller, acreditava-se estar diante de novas formas raras de psicose, mas depois se verificou que elas eram bastante comuns. Em seguida, em 1997, ele e a École de la Cause Freudienne (ECF) deram impulso ao debate sobre casos raros e inclassificáveis da clínica psicanalítica na Conversação de Arcachon. Por fim, no terceiro encontro de uma série que ocorrera em três cidades com as iniciais de letra A, na Convenção de Antibes, que acontece em 1998, no seio da Seção Clínica da Universidade de Paris VIII, Miller elabora o conceito de psicose ordinária, na acepção de psicoses comuns e em oposição às psicoses extraordinárias no sentido de Schreber.

A psicose ordinária é um diagnóstico em suspensão, um diagnóstico de parêntese, uma pausa para que o derradeiro diagnóstico possa ser detectado. O diagnóstico de psicose ordinária pode ser tomado como uma metodologia de trabalho na medida em que ele expressa a ponta de um iceberg de uma psicose clássica que se encontra submersa e subjacente.

Assim, todo o esforço de elaboração concentrado no Conciliábulo de Angers, a Conversação de Arcachon e a Convenção de Antibes resultou numa atualização dos conceitos de desencadeamento, conversão e transferência no âmbito da psicose, designados como neodesencadeamento, neoconversão e neotransferências, que sem dúvida vieram orientar a presença do analista diante do campo das psicoses.


Neodesencadeamento

A questão que se impõe é como os registros do real, simbólico e imaginário permanecem juntos e o que faz com que eles se soltem e se separarem, desligando o sujeito em sua relação com o Outro. Se o desencadeamento é o resultado de um efeito de abrir e de desencadear, a psicose não desencadeada prescinde do desencadeamento e dos fenômenos produtivos, como a alucinação e o delírio. Em particular, a clínica borromeana acolhe e coloca em evidência uma série de psicoses não desencadeadas, onde novas organizações do gozo se constituem como modalidades subjetivas compensadas, fechando e estabilizando o real da psicose.

Cabe advertir que as psicoses ordinárias não se equivalem às psicoses não desencadeadas, pois elas podem desencadear-se, mas seus desencadeamentos são completamente diferentes das psicoses clássicas. Na Conversação de Arcachon, sob o título de Casos Raros, foram discutidos casos de sujeitos que apresentavam desencadeamentos muito discretos, nos quais os fenômenos elementares, alucinações, delírios e neologismos estavam ausentes.

Assim, os fenômenos das psicoses ordinárias costumam surgir mais dispersos e sutis, emergem como descarrilamentos ínfimos, desconexões entre o eu, o corpo e a pulsão, instalam-se de um jeito fragmentado e discreto, e, por fim, expressam-se de maneira mais pluralizada e múltipla, em razão de serem menos referidos à ausência da ação central do Nome-do-pai (MILLER, 2009, p. 56). Portanto, o diagnóstico de psicose ordinária é mais refinado de ser realizado.

Em síntese, o desligamento é o apanágio da expressão maior do neodesencadeamento e se opõe ao desencadeamento clássico. Pode-se dizer que o desencadeamento se manifesta de dois modos no que se refere ao tempo. O primeiro, em que as variações respeitam um paradigma que concerne à temporalidade do tipo sincronia, apanágio das psicoses clássicas, nas quais os fenômenos psicóticos emergem de forma múltipla, intensa e simultânea, como se fossem uma tempestade, tudo ao mesmo tempo, agora. O segundo modelo concerne à temporalidade do tipo diacronia, atributo das psicoses ordinárias e da estrutura do neodesencadeamento, nas quais os fenômenos psicóticos surgem discretos, esparsos e singulares, numa diacronia de um depois do outro.

Na psicose ordinária, há um progressivo desenganchamento do Outro, devido a um empobrecimento dos laços afetivos e sociais que denotam uma marginalização oculta por tempos, em virtude de rupturas repetidas e progressivas que se instalam de modo diacrônico, pouco a pouco, numa crescente intensidade social. Ante à irrupção do gozo, o tecido simbólico parece esgarçar-se gradativamente. Há uma impossibilidade crescente de o sujeito simbolizar e subjetivar o gozo de modo que ele experimenta um buraco do real que se manifesta através de um desaparecimento do aparelho significante. Ademais, há uma perda paulatina da fantasia que possibilita uma mediação com o gozo. Nesses casos, no final, toda a significação fálica parece estar extinta.

Assim, o neodesencadeamento se expressa como um processo evolutivo que tem indícios, premissas, sinais discretos que são precursores de perturbações futuras e que podem manifestar-se de modo contínuo ou descontínuo na clínica. O sujeito pode experimentar desligamentos gradativos, sucessivos ou descontínuos do Outro social.

Mas, o que impede uma psicose ordinária de se desencadear? Existem pelo menos dois motivos: primeiro, temos o não desencadeamento em virtude da ação de uma identificação imaginária; e, segundo, em razão de uma suplência. Quanto à distinção entre a identificação imaginária e a suplência, podemos dizer que, na distinção, o modelo da identificação se apoia no tipo narcísico, como no caso “O homem dos lobos”, em que uma prótese é construída para o eu; na suplência, como no caso de James Joyce, é posta à prova uma autêntica operação de significante sobre o gozo através do sinthoma. Assim, a suplência é uma forma subjetiva de estabilização, na qual um elemento se torna capaz de enodar os registros RSI, estabilizando o sujeito, de tal forma que ela se torna mais eficaz e articulada do que a compensação imaginária.

Mas, uma vez desligado, como religar? Atualmente, orientamo-nos na clínica pela atenção aos pequenos detalhes, ou em como conseguir localizar na história do sujeito o momento em que ele se desengancha em relação ao Outro. Em grande parte, esse desligamento se faz sutil e gradativamente. Assim, um raciocínio baseado no relato clínico do sujeito pode ser capaz de localizar, apenas a posteriori, o elemento que produzira o desligamento, de tal sorte que se possa permitir uma estratégia com fins a um religamento. A identificação das formas de desligamentos se torna, portanto, essencial para que se possa estabelecer as formas de desencadeamento e os novos contornos clínicos (MILLER, 2012a, p. 22).  Ademais, cabe situar outras maneiras de se ajudar o sujeito a religar-se. Uma delas seria auxiliá-lo a constituir ou descobrir um sinthoma que possa enodar os três registros RSI; e, em seguida, de um modo menos ambicioso, conduzir o sujeito para que ele possa alcançar uma identificação imaginária.
Neoconversão 

Miller, em seu curso Ce qui fait insigne, denota que na conversão existem dois caminhos a partir do S1 de determinados significantes mestres. O primeiro caminho se constitui pela via do registro simbólico, do S2, do saber e do inconsciente; e o segundo, pela via do gozo que está fora do discurso, expresso pelo real que não é decifrável, e, portanto, não interpretável (MILLER, 2012a, p. 103). A conversão clássica abriga um sentido, como uma espécie de conversão na qual o psíquico é uma metáfora do somático. Na segunda clínica, Lacan enfatiza uma conversão, mas como uma continuidade entre o psíquico e o somático, como se um se tornasse o prolongamento do outro, mesmo que seja na condição de avesso.

Enfim, o primeiro paradigma da conversão está fundamentado na metáfora, e o segundo, na metonímia. Na conversão clássica, temos um Outro incompleto que é sustentado por um objeto a equivalente à castração. Em contrapartida, na neoconversão, temos um Outro absoluto que se apoia sobre o objeto a correlato à castração. O resultado da ausência de barra nesse Outro implica uma perda de subjetividade. Logo, a neoconversão, no fundo, é uma inscrição corporal da falta, visto que ela acontece como dimensão sintomática quando há um impossível de reunir o objeto a e a castração simbólica (MILLER, 2012a, p. 158).

O acontecimento de corpo, apanágio da neoconversão, guarda certo enigma, visto que a operação analítica proporciona intervenções sobre o corpo que ocasionam acontecimentos que não fazem ruídos, que são discretos e que, portanto, permanecem desconhecidos. Assim, como os acontecimentos de corpo são em grande parte tênues, eles são experimentados como um sentimento sutil de um deixar cair algo de si do corpo (MILLER, 2012a, p. 394).

A neoconversão mostra o papel prevalente da significação fálica que, mesmo ausente, tem a função de fixar o modo e a possibilidade de leitura do sintoma. Portanto, não se trata mais de uma decifração, mas de uma leitura, de um ler de outro modo (MILLER, 2012a, p. 100). Encontramos casos nos quais o sujeito se mostra incapaz de refletir e de estabelecer uma alteridade, que o tratamento não se apoia mais na direção de uma via simbólica, no discurso, na narrativa, na palavra metafórica e de um saber inconsciente. A alternativa, de acordo com a orientação de Miller, é se amparar pela via do real, pela letra, no que está fora do discurso e que não há um saber inconsciente que revele qualquer significação (MILLER, 2012a, p. 103). Cabe ao analista ajudar o sujeito a inventar algo que possa oferecer-lhe um arrimo, como aquele que diz que escreve no seu diário para apoiar os seus pensamentos.

Não raro, a saída do sujeito é a de construir um corpo, fazer um corpo mediante os piercings, as tatuagens, a vigorexia, as próteses, os implantes, os maneirismos, as estereotipias, as hipocondrias, os dismorfismos corporais, como anorexias ou obesidades, que podem funcionar como uma prótese corporal.

A nomeação também pode funcionar na construção de um corpo, ou mesmo constituir-se mediante um nome, uma vez que a característica do nome está sempre associada à ligação com uma escrita. Nomear não é interpretar, tampouco decifrar. Nomear é uma outra forma de compartilhar o sentido. O que caracteriza o sentido é que se nomeia, mas que ao mesmo tempo não se esclarece, tampouco se compreende (MILLER, 2004-05, p. 149). Assim, a escrita oferece suporte ao pensamento, e com a letra coloca-se um ponto de basta na dispersão do corpo. Enfim, a neoconversão é o paradigma da clínica contemporânea, decorrente do enfraquecimento dos ideais, na era em que ocorre um desaparecimento do Outro simbólico, da promoção do gozo e dos fenômenos do corpo (MILLER, 2012a, p. 158).
 

Neotransferências

No seu texto sobre o caso Schreber, Freud já se manifestava sobre as dificuldades encontradas na transferência, nos casos de tratamentos de psicóticos. Ele explicava esse problema em virtude do narcisismo desses sujeitos, que têm como objeto de amor apenas a si próprios. Ademais, Freud nos deixa um legado ao dizer que a psicose de Schreber se desencadeia quando se instaura a relação de objeto na transferência com Flechsig (MILLER, 2011a, p. 145).

Para Miller, o retorno do gozo não transformado em libido de objeto constitui a dificuldade nuclear das psicoses. Então, o gozo não transformado em libido de objeto se acumula, fazendo com que a libido do eu se torne excessiva. Esse gozo que se retém contribui paradoxalmente para a caída da envoltura narcísica do eu, de maneira que resta para o sujeito apenas o ser do objeto, exposto à invasão do gozo do Outro. Com efeito, a queda do envoltório narcísico do eu ideal diante do gozo do Outro promove os delírios de observação (MILLER, 2011a, p. 146).

A Seção Clínica de Angers interroga se as novas psicoses exigem uma nova posição do analista diante da neotransferência. No âmbito da neurose, o sujeito suposto saber é o pivô da operação analítica. Miller assinala que na segunda clínica de Lacan existe um abandono gradativo da transferência como sujeito suposto. O sujeito suposto saber não é um saber posto, também não é um saber exposto, tampouco é um saber desenvolvido, nem sequer um saber explícito, mas é uma simples significação de saber. O sujeito suposto saber é uma constatação apenas de que o Outro sabe; o saber é seu atributo, sem que disso ele tenha que dar provas, de maneira que não há demonstração ou mostração por parte do analista (MILLER, 2011a, p. 146). Na psicose, por sua vez, não há sujeito suposto saber, visto que o saber está do lado do psicótico. O grupo de trabalho de Angers propôs uma nova transferência nas psicoses como uma alíngua da transferência (MILLER, 2012a, p. 345-346). Ocorre que Miller tem extraído do modelo da psicose elementos para repensar o destino da transferência na segunda clínica de Lacan.

Lacan vai propor, no seu segundo ensino, uma transferência que não se apoie mais no sujeito suposto saber. Trata-se de uma passagem da ontologia à existência e do ser ao Um, na medida em que essa transferência joga com a fuga do sentido. Se a transferência é sustentada pelo sujeito suposto saber, Lacan vai ao âmago do inconsciente estruturado como linguagem que sustenta o inconsciente transferencial para isolar a alíngua como núcleo furado da linguagem. Então, a alíngua da transferência vem ocupar o lugar do sujeito suposto saber, de sorte que ela não é uma alíngua suposta, mas exposta, e que o analista e o analisante devem aprender a lê-la (MILLER, 2012a, p. 348), como uma transferência articulada ao modo de gozo singular do sinthoma, no binário repetição e pulsão, cuja díade funciona como gozo e repetição (MILLER, 2011b, p. 77). Essa díade não constitui uma harmonia, como a antiga parceria do inconsciente transferencial, mas compõe uma parceria dissimétrica, disjunta e correlata ao postulado “não há relação sexual” no que se refere ao sinthoma como um funcionamento positivo de gozo (MILLER, 2011b, p. 78).

A transferência apoiada na alíngua implica um esforço de aprendizagem do analista ou, ainda, na docilidade de aprender a língua particular do sujeito. Miller adverte sobre ser dócil e paciente em relação às invenções do sujeito. Portanto, quando o analista intervém, é do lugar de onde não se sabe; ou da posição que visa a sustentar o falasser nas invenções que ele estabelece para defender-se do Outro gozador; e, por fim, se houver oportunidade, o analista, com a finalidade de esvaziar o Outro, deve trazê-lo para as brincadeiras infantis (MILLER, 2012a, p. 348).

A transferência como alíngua concerne à posição do analista como aquele que permite limitar o gozo, descompletando o Outro, como esvaziar as crises passionais de erotomania ou de odiomania, mostrando-se barrado. Ademais, a posição do analista acolhe o gozo errante, o gozo à deriva, ao se imiscuir na alíngua do sujeito. Ao adotar essa atitude, o analista garante ao sujeito a condição de fiador de sua alíngua; por fim, o analista pode oferecer-se ao sujeito como um lugar não-todo, no qual ele se serve do analista para dizer, na qualidade do Um que dialoga sozinho (MILLER, 2012a, p. 350-51).

A transferência da alíngua jamais se transforma em um lugar do jogo dos semblantes. Mas, ao se consentir adotar um vínculo frouxo que oferece uma justa medida à técnica do holding de Ferenczi, o analista se permite elaborar um saber fazer com a alíngua (MILLER, 2012a, p. 187). A transferência da alíngua possibilita a elaboração de um “saber ler de outro modo”, de maneira que permite ao sujeito grampear o simbólico e o real sobre a dobra do imaginário (MILLER, 2012a, p. 181). Assim, a condição da transferência de a alíngua favorece não apenas ao analista, mas também ao sujeito “aprender a se ler de outro modo”. Enfim, é necessário que o processo analítico crie condições para que o analisante se habilite na função de se “ler de outro modo”. Pode-se dizer que “saber ler de outro modo” possibilita um grampeamento dos três registros – real, simbólico e imaginário – para que permaneçam intactos e com valores equivalentes. Assim, “ler de uma outra maneira” não é ler o sentido, mas a função daquilo que se manifesta em ato, no âmbito da repetição e do gozo.

Enfim, o que importa é que o analista vise, com o trabalho de neotransferência, a obter uma amarração dos três registros – real, simbólico e imaginário – pela via dos nomes do pai, no lugar onde o sujeito se desamarrou ou apresenta a dificuldade de refazer o nó de Borromeo. Caso ocorram contingências favoráveis, o analista pode inclusive proporcionar novas condições que possibilitem ao sujeito amarrar os três registros de outra maneira.

Uma das estratégias da neotransferência na operação analítica faz com que o analista opere como se ele fosse o sinthoma, com uma ajuda-contra aquilo que impele o sujeito na direção de A mulher ou em seu encontro com Um-pai; uma ajuda-contra a consistência do Outro sem barra; uma ajuda-contra a onisciência absoluta do Outro na medida em que implica certa vacilação analítica como furo no saber; uma ajuda-contra a devastação do supereu feminino; uma ajuda-contra a desamarração dos registros; uma ajuda-contra o sintoma, a inibição e a angústia, uma ajuda-contra o gozo feminino e uma ajuda-contra o desvario e a deriva, fruto do Significante do Outro barrado, do Outro que não existe, expresso como S(A/) (MILLER, 2012a, p. 207).

Enfim, fundamentado na interpretação do tipo ajuda-contra, o analista visa à operação de prescindir do Nome-do-Pai, com a condição de servir-se dele. A operação analítica tem assim a finalidade de instaurar o furo no Outro, o furo no inconsciente para que o contingente possa emergir.

Com isso, o analista coloca em jogo uma nova modalidade de transferência, capaz de incluir o sujeito no discurso, particularmente aqueles que estão fora dele; enodar os registros real, simbólico e imaginário, facilitando a construção de narrativas de sujeitos que estão desamarrados; estabelecer um vínculo transferencial frouxo com o sujeito; e, por fim, descompletar e furar o Outro consistente e onisciente (ALVARENGA, 2018).
Tendências contemporâneas da psicose ordinária

A primeira que se constata na contemporaneidade é a tendência ao múltiplo, que se manifesta nos casos clínicos por conta dos efeitos da pluralização dos nomes do pai. Atualmente, verifica-se na clínica uma pluralidade de significantes mestres que não se organizam em torno de um, mas que se comportam como uma espécie de enxame, como se diz em francês, essaim, homofônico ao S1. Assim, esses casos se produzem como múltiplos, mas não se organizam em um conjunto ordenado, no qual se obedece a uma lógica classificatória.

A segunda tendência que se averigua é a passagem do universal ao singular, do artigo definido O para o artigo indefinido Um. Não estamos mais sob a égide da forclusão do Nome-do-pai, mas sob o prisma de uma forclusão generalizada, denotando uma diversificação das múltiplas formas de gozo num novo contexto clínico, teórico e político, no qual todo mundo delira. Pode-se nomear o caso “O homem dos lobos” como o primeiro paradigma dessa espécie, já que não temos uma forclusão do Nome-do-pai, mas uma forclusão da castração, ou uma forclusão da significação fálica (BROUSSE, 2009).

A terceira tendência que se apura no contemporâneo é uma modificação do estatuto do Nome-do-Pai como função, isto é, há uma migração da função do universal do Nome-do-Pai para uma função no particular, com a designação da nominação (nommer-à) de “nomear para…” (LACAN, 1973-74, aula de 19/2/1974). O pai tem uma função nomeante, visto que o pai também é o pai do nome. Mas, a expressão “nomear para…” não detém uma função operativa equivalente ao Nome-do-pai. Com efeito, “nomear para…” é um indicador para se ocupar uma função. Na verdade, trata-se de uma pequena indicação de função, como aquela em que um sujeito é indicado pelo padre para ser o zelador da paróquia com a função de guardar as chaves da igreja.

A indicação do padre de “ser nomeado para…” confere ao sujeito uma “grande responsabilidade” e lhe oferece um lugar na pequena sociedade local que ele não conseguira conquistar sozinho. “A grande responsabilidade” como a função de zelador da paróquia pode ocasionar um recurso à identidade, ou a uma “superidentidade” sem fissuras, que poderá ser capaz de exercer a função de suplência imaginária diante da falência da função fálica. Logo, a “sobreidentificação pode conferir ao sujeito um novo valor ao papel social” (MILLER, 2003, p. 40).

A posição do psicótico ordinário não tem nada de excepcional, de extraordinário; ela é bastante comum, banal e ordinária, como a de ser nomeado para ser um zelador da paróquia, cuja função é a de limpar, cuidar e guardar as chaves da igreja. Portanto, resta ao sujeito encontrar invenções miúdas ou consentir com pequenas nomeações capazes de enodar os registros simbólico, imaginário e real. Essas nomeações funcionam como referência ao pai, mas não são um significante Nome-do-pai propriamente dito. Lacan ressalta que essas pequenas nomeações e invenções mínimas podem ser capazes de estabilizar esses sujeitos em razão de um efeito semelhante ao Nome-do-pai, ressignificando sua função.
Diferenças entre estabilização, suplência e sinthoma

Embora pareçam ser sinônimos, existem diferenças sutis e discretas entre os conceitos de estabilização, de suplência e de sinthoma, que podem a princípio passar despercebidas. Em síntese, vale demarcar que as estabilizações são pequenas invenções e soluções encontradas – seja pelo próprio ser falante, seja com a ajuda do analista, em um processo terapêutico – para lidar com suas instabilidades psicóticas no intuito de estabilizá-las.

As suplências podem ser consideradas como o modo do ser falante efetuar suas amarrações dos registros do simbólico, do real e do imaginário. E o sinthoma são os restos sintomáticos, o que restou de um processo analítico ou o que é derivado do próprio ser falante sob o paradigma de Joyce, no que concerne ao estilo e ao osso de uma análise e que produz um reganho de gozo positivo capaz de promover efeitos de satisfação.

Dentre os três, de uma direção de dentro para fora, o sinthoma é aquele que se encontra em sua posição mais íntima de núcleo. Em seguida, o sinthoma é circundado pela suplência e, de maneira mais periférica, na adventícia, encontramos a estabilização. Pode-se propor uma equivalência do sinthoma como a finalidade última ou a política do tratamento; a suplência como a estratégia ou os meios pelos quais o falasser encontrou seus pontos de amarração; e, por fim, a estabilização que pode se equivaler às táticas. Enfim, um sinthoma pode proporcionar a suplência e ocasionar as estabilizações. Mas uma suplência pode oferecer estabilização sem ser um sinthoma, e uma estabilização em si só é uma solução que não gera uma suplência, tampouco um sinthoma.
 

Estabilização            

No primeiro ensino, Lacan ressalta que a estabilização pode ser conseguida mediante identificações e bengalas imaginárias que servem de escora para apoiar o ser do sujeito. Existem estabilizações mediante determinados objetos nos autistas ou como resultado de bricolagens bizarras as quais o esquizofrênico utiliza para instituir um novo órgão e reconstituir um corpo (LAURENT, 1998).

O conceito de estabilização surge em virtude da construção delirante de Schreber, ao desenvolver o esquema I, no que concerne ao assentimento com o empuxo à mulher. Portanto, temos a estabilização mediante a metáfora delirante. Mas pequenas invenções psicóticas também são capazes de promover estabilizações, de forma que as estabilizações são múltiplas, em razão da inventividade de cada sujeito. Enfim, a estabilização na psicose pode instaurar-se mediante a função da letra, a invenção subjetiva, a bricolagem, a identificação imaginária, a nomeação, dentre outras.

Em suma, temos, em primeiro lugar, a estabilização pela via do real da passagem ao ato (LACAN, 1932/1987), referida ao caso Aimée, depois do atentado cometido contra a atriz Hugette ex-Duflos e de sua prisão, em que ela alcança sua estabilização; em segundo, temos a estabilização pela via imaginária, mediante a metáfora delirante como A mulher de Deus alcançada por Schreber; e, por fim, a estabilização pela via do simbólico, estabelecida pelo sinthoma da escrita de James Joyce.

Vale dizer que a super-identificação também pode proporcionar a estabilização. O surgimento dessa identificação orienta de maneira sólida o psicótico ordinário. Essa super-identificação é capaz de fazer a função do traço unário, provocando identificações sociais positivas. O ser falante investe a libido em nomes que lhe conferem pequenos valores de autoridades nas tradições familiares e sociais (MALEVAL, 2019, p. 117).

O papel dessa identidade proporciona um misto de ser e parecer que se ajusta a uma mescla entre a seriedade e a autenticidade de aparências dentro das normas sociais. Então, a adesão ao misto de parecer e de ser faz com que o ser falante constitua uma personalidade rígida baseada no “como se”. A aspiração pela ordem desses sujeitos se coloca como defesa com a finalidade de minimizar os efeitos intoleráveis da ambiguidade (MALEVAL, 2019, p. 117). Em virtude de se tornarem escrupulosos para com as normas, esses sujeitos se tornam verdadeiros normopatas.

Enfim, a super-identificação tem a função de suplência e de estabilização na psicose, em razão de que o nome tem um papel de “como se” fosse um patronímico (MALEVAL, 2019, p. 129).  A pluralização dos nomes do pai é possível inclusive para as neuroses nas quais cada sujeito encontra sua maneira de fazer valer a função paterna. A suplência se ancora na função de limitação, que opera sobre o gozo como a castração, onde houve uma falha na significação fálica (MALEVAL, 2019, p. 45).

A escrita pode prestar-se a uma estabilização na psicose. Contudo, pensar que um psicótico se cura escrevendo é insuficiente. Os hospitais psiquiátricos estão cheios de oficinas de escritas. A escrita não pode constituir-se como uma demanda de quem assiste o psicótico. Assim, se o falasser escreve ou toma a iniciativa espontânea de escrever, não se deve interpretar o escrito do psicótico. Mas, deve-se permitir que ele possa manter a ordem das palavras, apoiando-se na dita escritura a qual tem sempre o estatuto de um S1, que se repete na esfera da letra (LAURENT, 1989, p. 30).

Um dos elementos que contribuem para a estabilização na psicose é, sem sombra de dúvida, o manejo da transferência em que o analista assume a função de testemunha e de secretário do alienado. Quando o analista se coloca na posição de testemunha, ele pode favorecer uma articulação entre a linguagem e a alíngua, garantindo uma nova ordem fora do discurso (LAURENT, 1989, p. 33). Como secretário do alienado, o analista deve tomar o relato do psicótico ao pé da letra (LACAN, 1955-56/1985, p. 236).

No caso de Pankejeff, a estabilização não passava por decodificar enigmas em significações, mas de fortalecer o narcisismo que funcionara como uma armadura, como uma espécie de falso ego, cujo papel era o de delimitar as bordas do corpo. A estabilização se dera por duas estratégias: primeiro, mediante o narcisismo, como “o paciente mais celebre de Freud” que funcionara como uma prótese para o ego; e, segundo, por meio da nomeação de “O homem dos lobos”, cunhada pelo movimento psicanalítico, que lhe garantiu a sobrevivência e lhe assegurou um lugar especial e de exceção no laço social (LACAN, 1975-76/2007, p. 146).
Suplência

Lacan recorre aos escritos de James Joyce, particularmente o livro O retrato do artista quando jovem, para descrever um acontecimento de corpo no qual Joyce relata uma experiência na infância de ter sido batido pelos seus colegas de sala quando foi encurralado contra um arame farpado. Após libertar-se, rapidamente ele sente sua raiva evanescer “tão facilmente quanto uma fruta que é despida de sua pele macia e madura”. Nessa quase ausência de afeto, que naturalmente seria uma reação à violência física, o menino toma distância de seu corpo, deixando-o como uma casca (LACAN, 1975-76/2007, p. 37).

Como Joyce havia conseguido, através de sua arte, suprir sua carência paterna, Lacan assinala que ele fez uma suplência. Essa suplência pode ser definida em três planos. Como Joyce não pode contar com o significante Nome-do-pai, o que veio ocupar esse lugar foi, do ponto de vista da dimensão simbólica, a vontade de fazer um nome para si, que não fora reduzido à demanda de reconhecimento.

Assim, foi produzindo o seu nome que Joyce se manteve no sentido fálico. Do ponto de vista do imaginário, Joyce, segundo Lacan, criou um imaginário de suporte, um imaginário de segurança. Trata-se de um imaginário duplicado como um êxtase do ego, por onde Joyce enoda o simbólico e o real. Portanto, a suplência em Joyce destaca como a escrita, como um quarto nó, amarrou os três registros – real, simbólico e imaginário. O imaginário ganha profundidade quando esse imaginário é em latim e totalmente alheio à estrutura de Joyce.  Lacan comenta que há um imaginário duplicado em Joyce que se encadeia com o real. Trata-se de um imaginário encadeado no real de seu gozo.

Pode-se dizer que Pankejeff conseguiu uma estabilização e, de certa forma, até alguma função de suplência com a nomeação de “O homem dos lobos” ou de ser nomeado como “o paciente mais célebre de Freud”. Contudo, ele jamais alcançou o estatuto de sinthoma. A suplência de Pankejeff pode ser verificada mediante o fato de que ele conseguira, através do narcisismo, amarrar o real referente à corrente mais arcaica e profunda, dita feminina; a corrente masculina, inscrita no registro simbólico e, por fim, a corrente fóbica, na qual ele era objeto de decoração no plano imaginário. Enfim, para o analista, é necessário localizar os pontos de suplências, os enodamentos nos pontos de falhas na cadeia borromeana, com a finalidade de protegê-los, de cuidar para que eles não se soltem.

 

Sinthoma

No último ensino, Lacan se inspira na prática da escrita de James Joyce para elaborar o conceito de sinthoma. Miller assinala que foi Joyce que despertara Lacan de seu sono dogmático (MILLER, 2009, p. 134). Então, foi a experiência de Joyce com a escrita que despertou Lacan de seu sonho dogmático com o simbólico para alcançar novas elaborações. Lacan descobre com Joyce que o nome próprio oferece consistência ao Um-corpo. Vale dizer que Joyce é a encarnação do sinthoma na medida em que ele é desabonado do inconsciente e não é apadrinhado pelo Outro. Logo, o sinthoma é a encarnação do que há de mais singular em cada falasser (MILLER, 2009, p. 141).

Lacan, na medida em que propõe ler de uma outra maneira, recomenda uma nova ortografia, uma ortografia arcaica, com fins de escrever o sintoma, de modo que ele possa ser lido com sinthoma. Ler de outra maneira, no último ensino de Lacan, implica em um novo léxico, repleto de neologismos (MILLER, 2009, p. 136).  Assim, no final de seu ensino, Lacan está mais interessado em escutar o sinthoma do Um do que o discurso do Outro (MILLER, 2009, p. 141).

No último ensino, o amor de transferência se apaga em razão do desaparecimento do sujeito suposto saber, de maneira que o falasser que dialoga sozinho recebe sua própria mensagem sob a forma invertida. Afinal é o falasser que sabe sobre si e não o sujeito suposto saber (LACAN, 1976-77). Na análise do Um que dialoga sozinho, o analista faz a função de furo, como uma espécie de tonel das Danaides, que esvazia o sentido, constituindo o insucesso do inconsciente, que resulta em um gozo cujo atributo positivo implica numa satisfação do sinthoma (MILLER, 2012b, p. 55).

Logo, uma satisfação sinthomática ligada ao Um e ao corpo se apresenta como uma nova solução para o falasser. Trata-se de uma repetição articulada ao furo, ao troumaisme, resultado da passagem do real impossível para o real contingente. Assim, na medida em que o sinthoma é indecifrável, a experiência analítica, por fim, coloca em evidência a marca de satisfação com a letra de gozo. Com efeito, trata-se de identificar-se com o sinthoma e, tomando certa distância, assentir com sua identidade sintomal. A tomada de certa distância do sinthoma, com o qual se está identificado, tem a finalidade de se poder fazer alguma coisa com ele, saber manipulá-lo, saber se virar com ele, com esse resto que é do registro da existência (MILLER, 2009, p. 143).

 


Referências 
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1. Texto apresentado no Núcleo de Investigação e Pesquisa em Psicanálise e Psicose do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais em 07/10/2022.