{"id":1005,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1005"},"modified":"2025-12-01T16:28:30","modified_gmt":"2025-12-01T19:28:30","slug":"paradoxal-virilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/paradoxal-virilidade\/","title":{"rendered":"Paradoxal Virilidade"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>FABIAN FAJNWAKS<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-Virilidade-David-Hockney-Olympics-poster-1984.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"475\" data-large_image_height=\"350\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1006\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-Virilidade-David-Hockney-Olympics-poster-1984.jpg\" alt=\"\" width=\"475\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-Virilidade-David-Hockney-Olympics-poster-1984.jpg 475w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-Virilidade-David-Hockney-Olympics-poster-1984-300x221.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>VIRILIDADE &#8211; DAVID HOCKNEY OLYMPICS POSTER 1984.<\/strong><\/h6>\n<p>Nossa \u00e9poca parece ter incorporado a ideia de que a virilidade n\u00e3o passa de uma impostura, e se Jacques Lacan fazia valer, em 1958, que a \u2018parada viril\u2019 n\u00e3o \u00e9 sem apresentar algum tra\u00e7o da feminilidade, hoje \u00e9 a pr\u00f3pria virilidade que parece se apresentar sob um estatuto paradoxal, at\u00e9 mesmo \u2018imposs\u00edvel\u2019 (COURTINE, 2011, p. 7). Talvez mesmo: paradoxal, uma vez que imposs\u00edvel. L\u00e1 onde Lacan apontava o efeito de redobramento produzido pela parada viril de se vestir com uma m\u00e1scara que feminiza o macho, para \u201crepresentar o macho\u201d, nossa civiliza\u00e7\u00e3o do empuxo-ao-gozo perdeu todo o respeito para com todo semblante, particularmente o semblante f\u00e1lico, donde essa constata\u00e7\u00e3o de \u201cimpossibilidade\u201d ou de \u201cparadoxo\u201d. Essas s\u00e3o as palavras que voltam na escrita de um historiador como Jean-Jacques Courtine, para quem a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e a liberaliza\u00e7\u00e3o dos costumes minaram o antigo privil\u00e9gio da virilidade; e essa mudan\u00e7a de regime na civiliza\u00e7\u00e3o produziu o efeito paradoxal de que, \u201cno in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a virilidade parece se dissociar do corpo masculino do qual ela foi por tanto tempo o emblema, a mercadoria, performance, travestilidade ou par\u00f3dia, como soube discernir Judith Butler\u201d (COURTINE, 2011, p. 10). Basta seguir o destino que a moda, a publicidade, a ind\u00fastria cosm\u00e9tica e a cirurgia est\u00e9tica imprimiram no corpo da mulher, nele explorando completamente o paradoxo sublinhado por Lacan, sem que isso perturbe mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O direito \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o sexual generalizada, a obsess\u00e3o er\u00e9til, a difus\u00e3o maci\u00e7a da pornografia, juntamente com a medicaliza\u00e7\u00e3o das falhas genitais, teriam contribu\u00eddo para uma dissemina\u00e7\u00e3o de uma cultura da impot\u00eancia. A virilidade p\u00f3s estudos do g\u00eanero e p\u00f3s-queer seria, ent\u00e3o, uma virilidade fundada sobre a fraqueza: \u201cComo compreender ent\u00e3o, pergunta-se o historiador, que uma representa\u00e7\u00e3o baseada sobre a for\u00e7a, a autoridade e o dom\u00ednio tenha terminado por parecer fr\u00e1gil, inst\u00e1vel e contestada?\u201d (COURTINE, 2011, p. 10). O homem aparece, a partir de ent\u00e3o, marcado por um signo de impot\u00eancia, e os emblemas da virilidade teriam migrado para outro lugar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas constata\u00e7\u00f5es coincidem com o que a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise ensina: que a virilidade articula um imposs\u00edvel, que est\u00e1 na aus\u00eancia de uma inscri\u00e7\u00e3o do corpo falante no tipo de g\u00eanero ao qual ele corresponde. Se as identifica\u00e7\u00f5es e a rela\u00e7\u00e3o a um tipo de gozo lhe permitem dar uma solu\u00e7\u00e3o a esse furo que a sexualidade implica, essa solu\u00e7\u00e3o se declina sobre um fundo de aus\u00eancia de um escrito que lhe daria um ser sexuado, ser que, portanto, n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. N\u00e3o surpreende que as observa\u00e7\u00f5es da \u00e9poca coincidam com as de uma an\u00e1lise, porque agora a an\u00e1lise aborda a experi\u00eancia do falasser do lado do gozo, para al\u00e9m de todo Ideal e de todo semblante. Exceto que, aqui, em que a \u00e9poca verifica que o homem se apresentaria desprovido de todo semblante, sobretudo f\u00e1lico, a an\u00e1lise deixa a um homem a possibilidade de se orientar pela rela\u00e7\u00e3o a um desejo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Angry white men<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sabe-se pelos jornais que existe, principalmente nos EUA, uma vasta homem-osfera, que se desenvolveu na internet nos \u00faltimos anos, furiosamente mis\u00f3gina, muito irritada contra o g\u00eanero feminino e com o feminismo triunfante, e que espera restabelecer o lugar anteriormente ocupado pelo povo masculino. Esses \u201chomens de verdade\u201d viram, na vit\u00f3ria de Donald Trump, uma revanche e um progresso para a causa masculina, contra o antimacho Barack Obama (Cf. LESNE, 2017). \u00c9 como se o retorno de compensa\u00e7\u00e3o do discurso sobre a paridade social e familiar tivesse dado lugar \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o dos verdadeiros valores machos e ao movimento \u201cmasculinista\u201d. Warren Farrell, autor do O mito do poder masculino, antigo professor na Universidade Rutgers, em Nova Jersey, e ex-militante feminista, talvez constitua o melhor exemplo desse movimento de contrapeso: ele foi eleito tr\u00eas vezes para o Departamento Nacional de Defesa das Mulheres (NOW[i]), no fim dos anos de 1970. Defensor do direito das crian\u00e7as de contar com ambos os pais ap\u00f3s os conflitos relacionados aos div\u00f3rcios e tamb\u00e9m com a presen\u00e7a incondicional desses junto aos filhos, atraiu a ira das feministas mais radicais, antes de se tornar abertamente inimigo delas, no momento da publica\u00e7\u00e3o de um livro sobre as desigualdades sociais no qual sustenta que os homens t\u00eam melhores sal\u00e1rios do que as mulheres, mas que elas gozariam de uma vida mais equilibrada, for\u00e7ando, assim, a ideia de que ganhar mais n\u00e3o implica necessariamente em mais poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com W. Farrell, os homens brancos se sentiram incompreendidos quando Hilary Clinton falou sobre a igualdade de sal\u00e1rios e se voltaram massivamente para Trump, que soube captar essa parte importante do eleitorado branco, com seu discurso neomachista e discriminat\u00f3rio. Hoje, os homens brancos se sentiriam fracos, n\u00e3o tendo mais a impress\u00e3o de fazer parte das estruturas de poder, e estariam, ent\u00e3o, duplamente fracos, j\u00e1 que as outras minorias os considerariam privilegiados. Eles esperam, assim, que se reconhe\u00e7am seus \u2018sofrimentos\u2019 e que se d\u00ea a eles o poder de que gozavam antigamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Livrar-se do carcan f\u00e1lico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tomo emprestado de Bruno Halleux o termo carcan[ii] para dizer o quanto, em meu caso, eu idealizava a virilidade e seus semblantes: tendo crescido cercado por mulheres, eu manifestava certo sarcasmo diante da impostura viril, uma vez que eu a via como uma engana\u00e7\u00e3o. \u00c0 maneira do famoso aforisma nietzschiano, atr\u00e1s dessa impostura eu s\u00f3 via a com\u00e9dia de um Ideal\u2026 Que era tamb\u00e9m a minha! Pois esse olhar ir\u00f4nico escondia uma certa idealiza\u00e7\u00e3o dessa posi\u00e7\u00e3o viril associada ao \u2018porto f\u00e1lico\u2019, uma vez que eu me defendia de querer ser o falo do Outro, sob a forma do idiota. Rapidamente, a an\u00e1lise me permitiu desmascarar essa posi\u00e7\u00e3o que estava na origem das minhas inibi\u00e7\u00f5es e de meus sintomas e me desalojou dela. Mas isso n\u00e3o me satisfez e eu me lancei \u00e0 conquista desse Ideal, de \u2018superidentificar\u2019 com aquele que tem o falo. No momento em que eu come\u00e7ava a me liberar da posi\u00e7\u00e3o infantil, na qual eu estava aprisionado, eu me trancava em uma nova jaula: aquela do homem surdo a toda sensibilidade feminina e, at\u00e9 mesmo, \u00e0s demandas leg\u00edtimas de abrigar seu ser em minha castra\u00e7\u00e3o, divis\u00e3o que eu guardava para mim, deixando a parceira em sua desorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu me tornava, ent\u00e3o, o ator de meu pr\u00f3prio Ideal, dessa vez, viril! Para quebrar essas defesas, precisei, inicialmente, isolar o tra\u00e7o de castra\u00e7\u00e3o presente nas \u2018demandas loucas\u2019 das mulheres da minha fam\u00edlia que, para al\u00e9m da minha fantasia fundamental, faziam apelos no sentido de tudo dar ao Outro \u2013 verdadeiros cantos de sereias aos quais eu havia respondido amarrando-me ao mastro das inibi\u00e7\u00f5es, ainda que fosse ao pre\u00e7o de renunciar ao meu desejo. Uma vez que a demanda foi esvaziada desse excesso de gozo, eu pude escutar a demanda de uma mulher e condescender a lhe dar um lugar, ao renunciar ao narcisismo que me protegia desse chamado de medusa. O mais-de-virilidade que eu acreditava assim obter se esvaziou e, com ele, o conte\u00fado angustiante que lhe dava consist\u00eancia, revelando, no mesmo movimento, seu car\u00e1ter de defesa. O Outro que queria minha castra\u00e7\u00e3o perdeu sua consist\u00eancia, e eu pude fazer uso do jogo de semblantes que me solicitava como homem, menos viril, certamente, mas ainda mais seguro, podendo, agora, dar sua falta para reconfortar o ser evanescente de sua parceira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise feminiza um homem, permitindo-lhe estar o mais pr\u00f3ximo, mesmo que homem, de uma mulher. Se, para aceder a esse efeito de feminiza\u00e7\u00e3o, ele deve renunciar ao fantasma da castra\u00e7\u00e3o, assim como ao Ideal de virilidade, que o mant\u00e9m em sua posi\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, esse efeito de feminiza\u00e7\u00e3o permite que ele se afirme, mais ainda, em uma posi\u00e7\u00e3o desejante, para al\u00e9m dos semblantes viris que est\u00e3o a servi\u00e7o de sua defesa. Verdadeira posi\u00e7\u00e3o masculina para al\u00e9m de toda fraqueza ou impot\u00eancia sintom\u00e1tica entoadas pela \u00e9poca. Se ele perder\u00e1 de novo, a partir daqui, talvez possa ele perder melhor?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez seja esse o verdadeiro ganho de uma an\u00e1lise e a verdadeira subvers\u00e3o que ela introduz em rela\u00e7\u00e3o ao triunfo da vacuidade contempor\u00e2nea no que diz respeito aos semblantes. Ali, onde a nossa civiliza\u00e7\u00e3o trata a virilidade como uma mera m\u00e1scara, com seu efeito curioso de feminiza\u00e7\u00e3o (LACAN, 1966, p. 695), uma an\u00e1lise permite situar o real em jogo na fantasia do falasser, autorizando-o a se desidentificar com as posi\u00e7\u00f5es que o impediam de aceder a uma posi\u00e7\u00e3o desejante e, tamb\u00e9m, aos semblantes que lhe permitem articular seu desejo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"189\" data-large_image_height=\"217\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1007\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo.png\" alt=\"\" width=\"189\" height=\"217\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>L\u2019homme au carcan4L\u2019HOMME AU CARCAN4<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>COURTINE. J.-J. \u201cImpossible virilit\u00e9\u201d. In: CORBIN A., CORTINE J.-J., VIGARELLO G. (s\/dir.), Histoire de la virilit\u00e9, Vol. III, Paris, Seuil, 2011.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. A significa\u00e7\u00e3o do falo (1958). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998a.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LESNE, C. \u201cLes monologues du p\u00e9nis\u201d, Le Monde, 15 de janeiro de 2017. Dispon\u00edvel na internet.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Jorge Mour\u00e3o<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Maria Bernadete de Carvalho<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>FABIAN FAJNWAKS<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista, AE da Escola da Causa Freudiana e Escola de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211;\u00a0<span id=\"cloake1934c6a2779f3b79b704f6b7a9ba91c\"><a href=\"mailto:fabian.fajnwaks@orange.fr\">fabian.fajnwaks@orange.fr<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FABIAN FAJNWAKS &nbsp; VIRILIDADE &#8211; DAVID HOCKNEY OLYMPICS POSTER 1984. 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