{"id":1014,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1014"},"modified":"2025-12-01T16:29:19","modified_gmt":"2025-12-01T19:29:19","slug":"entrevista-com-antonio-teixeira-por-marcia-mezencio-maria-das-gracas-senna-e-ludmilla-feres-faria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/entrevista-com-antonio-teixeira-por-marcia-mezencio-maria-das-gracas-senna-e-ludmilla-feres-faria\/","title":{"rendered":"Entrevista Com Ant\u00f4nio Teixeira Por M\u00e1rcia Mez\u00eancio, Maria Das Gra\u00e7as Senna E Ludmilla F\u00e9res Faria"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ANT\u00d4NIO TEIXEIRA<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ANTONIO-imagem-2.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1500\" data-large_image_height=\"938\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1015\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ANTONIO-imagem-2-1024x640.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ANTONIO-imagem-2-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ANTONIO-imagem-2-300x188.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ANTONIO-imagem-2-768x480.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ANTONIO-imagem-2.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>ENTREVISTA<\/p>\n<p><strong>NEM MESTRE NEM JOKER: O DESTINO DA CARTA EM DERRIDA E LACAN\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Alguns autores consideram que Derrida, ao elaborar cr\u00edticas pontuais e certeiras \u00e0 leitura lacaniana de \u201cA carta roubada\u201d, se precipita ao generalizar essas cr\u00edticas ao conjunto da obra de Lacan, mais especificamente aos Escritos. O que pode nos dizer a respeito dessa afirma\u00e7\u00e3o? Pode-se dizer que o texto \u201cO carteiro da verdade\u201d, de Derrida, apresenta uma vertente contra Lacan?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Teixeira<\/strong>: N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que \u201cO carteiro da verdade\u201d seja uma cr\u00edtica veemente de Derrida a Lacan; tem-se ali uma carta expressamente dirigida a seu destinat\u00e1rio, e \u00e9 nesse sentido que o texto-missiva de Derrida provoca entre n\u00f3s, lacanianos, um vis\u00edvel efeito de como\u00e7\u00e3o. Sentimo-nos afetados pela cr\u00edtica de Derrida a Lacan, como se isso exigisse de n\u00f3s um posicionamento em defesa de nosso mestre, coisa que de fato se sucedeu. N\u00e3o faltaram interven\u00e7\u00f5es da parte de autores lacanianos destinadas a expor os equ\u00edvocos de Derrida, com vistas a salvaguardar o valor da doutrina de J. Lacan. Eu creio, contudo, que hoje em dia n\u00e3o caiba mais socorrer Lacan. O valor e a coer\u00eancia de sua doutrina est\u00e3o mais do que estabelecidos, Lacan dispensa nosso socorro. No lugar de tomar partido de Lacan contra Derrida, eu preferiria aqui expor a tem\u00e1tica que essa pol\u00eamica mobiliza, pois acredito que uma abordagem mais desapaixonada, menos afetada pelo dever de defesa, talvez nos permita melhor localizar o que estava em quest\u00e3o no tratamento psicanal\u00edtico de um texto liter\u00e1rio, no que diz respeito a seu endere\u00e7amento significante.<\/p>\n<p>A bem da verdade, se de fato considerarmos de sa\u00edda o que significa a abordagem psicanal\u00edtica de uma fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, encontramos motivos para localizar, em \u201cO carteiro da verdade\u201d, n\u00e3o apenas uma vertente cr\u00edtica, mas tamb\u00e9m um elogio aberto de Derrida a Lacan. Antes de Lacan, o que at\u00e9 ent\u00e3o normalmente se encontrava na psican\u00e1lise da literatura, paradigmaticamente ilustrado na vasta psicografia de Edgar Alan Poe por Marie Bonaparte, era uma pr\u00e1tica de desnudamento das motiva\u00e7\u00f5es inconscientes do autor, por meio de uma busca pelo sentido oculto de suas elabora\u00e7\u00f5es ficcionais. Valendo-se de dados biogr\u00e1ficos, a psican\u00e1lise, ali, visava o desvelamento aleg\u00f3rico das supostas determina\u00e7\u00f5es fantasm\u00e1ticas do autor sob o conte\u00fado manifesto do texto liter\u00e1rio, ora fazendo da carta roubada um substituto do p\u00eanis materno originalmente perdido, ora interpretando o pagamento em ouro a Dupin pela rainha como uma representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da restitui\u00e7\u00e3o do falo que o ficcionista tenta recuperar ao longo da trama. Pois nada disso se d\u00e1 na leitura lacaniana do texto de Poe, reconhece J. Derrida. Nada de psicografia, nada de carta-p\u00eanis, nada de papai-rei, nada de mam\u00e3e-rainha, nada de filhinho Dupin. Sobretudo nada de hermen\u00eautica, nada de busca pelo sentido oculto. Em Lacan, escreve elogiosamente Derrida, a l\u00f3gica do significante interrompe esse semanticismo ing\u00eanuo, num \u201cestilo feito para frustrar o acesso um sentido un\u00edvoco, determin\u00e1vel al\u00e9m da escritura\u201d.<\/p>\n<p>E, de fato, ao lermos o texto de Lacan, raramente dimensionamos a diferen\u00e7a que sua leitura produziu sobre o que se fazia antes, porque, de certa maneira, nos habituamos ao que originalmente se deu de modo inabitual nessa diferen\u00e7a. Se hoje as interpreta\u00e7\u00f5es aleg\u00f3ricas de uma Marie Bonaparte nos fazem bocejar, \u00e9 porque Lacan nos formou num novo tipo de leitura que recusa o semanticismo ing\u00eanuo que at\u00e9 ent\u00e3o vigorava na interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica do texto liter\u00e1rio. Lacan dispensa a via hermen\u00eautica fazendo-nos notar, desde as primeiras p\u00e1ginas de seu texto sobre a carta roubada, que o sentido do que motiva o delito se encontra eliminado da narrativa. O problema se limita \u00e0 busca pela devolu\u00e7\u00e3o do objeto-carta, cujo conte\u00fado sem\u00e2ntico n\u00e3o tem lugar no desenrolar da trama. O que conta s\u00e3o os deslocamentos, s\u00e3o as mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o da carta como significante puro, e n\u00e3o o significado que se lhe possa atribuir.<\/p>\n<p>Armado da perspectiva estruturalista, Lacan, ali, nos convida a detectar, no texto de Edgar Alan Poe, o modo pelo qual uma ordem simb\u00f3lica aut\u00f4noma, ou seja, independente dos significados circunstanciais do contexto, vem constituir a posi\u00e7\u00e3o do sujeito. Interessa-lhe, sobretudo, destacar a primazia do significante nessa determina\u00e7\u00e3o subjetiva, tal como se ilustra nos efeitos gerados pela posse do significante-carta sem que esteja em quest\u00e3o o conte\u00fado da mensagem epistolar. O m\u00f3dulo intersubjetivo da a\u00e7\u00e3o assim se repete na forma dos tr\u00eas olhares que se sup\u00f5em um ao outro, no interior dessa ordem simb\u00f3lica afetada pela carta roubada, e que se alternam em fun\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do significante que a carta materializa:<\/p>\n<ol>\n<li>o olhar que nada v\u00ea, representado pelo rei, no primeiro momento, e em seguida pela pol\u00edcia;<\/li>\n<li>o segundo olhar, que v\u00ea que o primeiro n\u00e3o v\u00ea e que se engana por crer encoberto o que exp\u00f5e, encarnado pela rainha e depois pelo ministro;<\/li>\n<\/ol>\n<ul>\n<li>e, finalmente, o terceiro olhar, que v\u00ea que o primeiro n\u00e3o v\u00ea e que v\u00ea o que se encontra a descoberto justamente para ser escondido: o ministro e, em seguida, Dupin.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Percebe-se, assim, que cada personagem se determina como um olhar em fun\u00e7\u00e3o do deslocamento promovido pela circula\u00e7\u00e3o do significante-carta que, a cada um, afeta n\u00e3o pelo que significa, mas pelo que comporta de suspens\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o. O rei e a pol\u00edcia, sustenta\u00e7\u00f5es ic\u00f4nicas do discurso em sua ordem f\u00e1lica, ali encarnam a imbecilidade do olhar que nada v\u00ea. Diante do falo, que o rei e a pol\u00edcia encarnam, na forma do significante que prescreve a ordem das significa\u00e7\u00f5es, o olhar inteligente se diferencia em sua capacidade de ler entre as linhas (inter-legere), o que se oculta nos intervalos das significa\u00e7\u00f5es prescritas. J\u00e1 a imbecilidade do rei se encarna na cegueira do olhar, que n\u00e3o percebe a carta exposta sobre a mesa, porque somente enxerga as significa\u00e7\u00f5es codificadas, assim como a estupidez realista da pol\u00edcia consiste em n\u00e3o perceber, como diz Lacan, que o que se oculta \u00e9 algo que falta em seu lugar simb\u00f3lico. Incapaz de escrutar o simbolicamente oculto no empiricamente exposto, ela se exaure inutilmente no esquadrinhamento intermin\u00e1vel das oculta\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n<p>Por oposi\u00e7\u00e3o, pois, ao rei, \u00edcone prec\u00e1rio destinado a dar perman\u00eancia \u00e0 lei f\u00e1lica, a rainha desestabiliza essa perman\u00eancia por ocupar o lugar do feminino cujo ser se funda fora da Lei, materializado na posse da carta. Se a est\u00e1tica da estrutura simb\u00f3lica se define como um sistema regrado por suas leis internas, sua din\u00e2mica sup\u00f5e a exist\u00eancia de algo no interior da estrutura que suas regras n\u00e3o alcan\u00e7am, e que a coloca em movimento. \u00c9 preciso \u2013 se me permitem ser repetitivo \u2013 que algo da estrutura escape \u00e0s regras da estrutura para que a experi\u00eancia da estrutura possa se realizar. Isso quer simplesmente dizer que n\u00e3o haveria conto da carta roubada se a carta voadora n\u00e3o viesse justamente encarnar esse ponto de fuga do feminino que afeta o sujeito ao mobilizar a estrutura, desestabilizando as significa\u00e7\u00f5es codificadas de sua apresenta\u00e7\u00e3o est\u00e1tica. Interessante, ent\u00e3o, notar que todo aquele que se v\u00ea afetado por esse ponto de fuga que mobiliza a estrutura necessita permanecer im\u00f3vel para escapar de suas leis, fazendo crer que tudo continua parado em seu lugar, como se ilustra na situa\u00e7\u00e3o da rainha que, ao se encontrar de posse da carta diante da chegada do rei, fica paralisada, sem esbo\u00e7ar nenhum movimento. Ela permanece est\u00e1tica, na simula\u00e7\u00e3o do controle que o olhar do ministro alcan\u00e7a, ao perceber o ponto de gera\u00e7\u00e3o do movimento fora do movimento gerado, na forma paralisante da ina\u00e7\u00e3o. O destino da carta m\u00f3vel, assim, se revela por seus efeitos paralisantes sobre seu detentor. \u00c9 por esse motivo que agora, ao cair em posse da carta, desse signo do feminino que escapa \u00e0 vig\u00edlia da ordem f\u00e1lica, n\u00e3o por acaso, o ministro \u2013 observa Lacan \u2013, por sua vez, se feminiza, mantendo-se im\u00f3vel \u00e0 sua sombra. No lugar de ocultar ativamente a carta, ele a esconde deixando-a a descoberto aos olhos da pol\u00edcia, como a rainha o fizera aos olhos do rei. Mas a posse da carta o entorpece, numa esp\u00e9cie de neglig\u00eancia blas\u00e9e, fazendo-o tamb\u00e9m se expor, agora aos olhos do detetive Dupin, na atitude reveladora de sua ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia \u00e9 de todos conhecida. Ocultando o olhar sob \u00f3culos verdes, Dupin, em pouco tempo, divisa, em visita ao ministro, no seu apartamento, a carta desdenhosamente abandonada no consolo da lareira, dando a impress\u00e3o de que se tratava de um documento sem valor. Havendo esquecido propositalmente sua tabaqueira no apartamento, ele ali retorna a pretexto de recuper\u00e1-la para, sigilosamente, se apropriar da carta e substitui-la por uma outra, ap\u00f3s ter preparado um incidente na rua visando distrair a aten\u00e7\u00e3o do ministro. E, para se retirar, finalmente, do circuito simb\u00f3lico da carta, nota ainda Lacan, Dupin se neutraliza fazendo-se remunerar, ou seja, trocando a carta pelo seu valor equivalente em dinheiro, significante cujo efeito \u00e9 justamente o de produzir a aniquila\u00e7\u00e3o de toda significa\u00e7\u00e3o. Mas sejam quais forem os desvios da carta, ela ainda assim segue, no dizer de Lacan, o trajeto significante que a conduz a seu destinat\u00e1rio, que \u00e9 o lugar antes ocupado pelo rei, ou seja, o lugar da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que a rainha necessita preservar para n\u00e3o permanecer como pura deslocaliza\u00e7\u00e3o, mesmo dela escapando.<\/p>\n<p>Para retomarmos, ent\u00e3o, a cr\u00edtica de Derrida a Lacan, necessitamos considerar justamente o fato de que, para o fil\u00f3sofo, diferentemente do psicanalista, a linguagem n\u00e3o comporta, por necessidade pr\u00f3pria, nenhum endere\u00e7amento determinado. A linguagem, no entender de Derrida, seria um puro jogo dispersivo, em que s\u00f3 contam rela\u00e7\u00f5es de diferen\u00e7a e efeitos de dissemina\u00e7\u00e3o que a carta voadora materializa. Nesse sentido, qualquer destina\u00e7\u00e3o que se busca extrair da linguagem ser\u00e1 sempre uma destina\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, pois \u00e9 somente na medida em que um poder exterior se imp\u00f5e \u00e0 linguagem que ela passa a comportar uma destina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sintoma desse for\u00e7amento ideol\u00f3gico da linguagem, aos olhos de Derrida, se verificaria nos efeitos de neutraliza\u00e7\u00e3o do narrador do conto que ele aponta na leitura de Lacan. Ao isolar as duas cenas dos tr\u00eas olhares que comentamos anteriormente, Lacan teria desconsiderado a figura do narrador como quarto termo, com vistas a emoldurar triangularmente a cena do \u00c9dipo na qual se inscreve o destino da carta. A exclus\u00e3o do quarto termo, longe de ser um dado acidental, implicaria, no seu ponto de vista, uma decis\u00e3o sem\u00e2ntica a servi\u00e7o do esquema da interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica: Lacan teria colocado de lado o jogo dispersivo da narrativa, concebendo o enredo ficcional sem dar lugar ao ficcionista, como se a fic\u00e7\u00e3o estivesse naturalmente destinada a ser o deposit\u00e1rio da verdade edipiana em sua prescri\u00e7\u00e3o faloc\u00eantrica. Somente assim, ele conclui, o semin\u00e1rio conseguiria mostrar que existe um \u00fanico trajeto da carta, que sempre chega a seu destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ora, existe, como todo lacaniano bem sabe, na vis\u00e3o de Derrida, uma concep\u00e7\u00e3o que ancora a linguagem no campo da escritura, por ele tomada como lugar em que a articula\u00e7\u00e3o dos elementos significantes n\u00e3o se encontram submetidos \u00e0 autoridade prescritiva da fala. Sua ideia, interessante em v\u00e1rios aspectos, \u00e9 que, em nossa tradi\u00e7\u00e3o logoc\u00eantrica, fundada por Plat\u00e3o, a pot\u00eancia do discurso se encontra determinada por sua refer\u00eancia \u00e0 fala do rei-pai, sem a qual o logos perderia sua unidade e se dispersaria nos jogos textuais. Por oposi\u00e7\u00e3o ao logos fonoc\u00eantrico ordenado pela assist\u00eancia do pai, o apelo \u00e0 escritura rejeitada pelo rei, na mitologia de Fedro, responde a um desejo de orfandade e subvers\u00e3o parricida que visa restaurar seus efeitos de dissemina\u00e7\u00e3o. Na medida em que aquilo que nos chega atrav\u00e9s de um documento escrito n\u00e3o depende da presen\u00e7a de quem o profere, Derrida entende que a escritura nos permitiria emancipar da autoridade da enuncia\u00e7\u00e3o, dando livre curso aos efeitos dispersivos da narrativa textual. Motivado por esse desejo parricida, a Derrida interessa a desconstru\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o fonoc\u00eantrica para abrir espa\u00e7o ao pensamento da escritura que dela foi exclu\u00eddo. Onde dominava o rei-pai do discurso, ele nos prop\u00f5e substituir o deus Toth, da escritura eg\u00edpcia, que ali funciona n\u00e3o como uma autoridade prescritiva do sentido, mas ao modo de um Joker, ou carta neutra, que d\u00e1 jogo ao jogo na partida de baralho. Flutuante e cambiante de valor, conforme a sequ\u00eancia em que est\u00e1 inserido, \u201csujando\u201d, como diz S\u00e9rgio Laia, \u201cos conjuntos de naipes com sua imparidade\u201d, o deus Toth da escritura nunca est\u00e1 presente na ordena\u00e7\u00e3o do texto. Sua propriedade, prossegue Derrida, \u00e9 sua impropriedade, sua indetermina\u00e7\u00e3o que permite a substitui\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o cont\u00ednua dos jogos de narrativas num espa\u00e7o aberto.<\/p>\n<p>Em sentido contr\u00e1rio, portanto, ao projeto anunciado por Lacan de inscrever a psican\u00e1lise no campo ordenado da fala e da linguagem, Derrida prop\u00f5e pensar o inconsciente freudiano na cena da escritura. O que permitiu a Freud, no seu entender, desalojar o sujeito do eu e da consci\u00eancia, para conceb\u00ea-lo como efeito de processos inconscientes, seria justamente o gesto que separou o pensamento da fala e de seu registro co-extensivo da presen\u00e7a. Dissociado da inten\u00e7\u00e3o que preside a fala, esse inconsciente estruturado como uma escritura diria respeito n\u00e3o a uma significa\u00e7\u00e3o que inesperadamente se encerra em um significante \u00e0 parte de frase, como Lacan prop\u00f5e com a opera\u00e7\u00e3o de capitonage, mas a uma rede de tra\u00e7os diferenciais gerados por excita\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que, por sua vez, se abrem para novos tra\u00e7os excitat\u00f3rios. Os m\u00faltiplos sentidos seriam produzidos pelas diferen\u00e7as que, na experi\u00eancia psicanal\u00edtica, se produzem por meio da pr\u00e1tica de associa\u00e7\u00e3o livre, cuja fun\u00e7\u00e3o seria justamente a de relan\u00e7ar a cena ps\u00edquica da escritura em seu processo de diferir. No lugar, portanto, do ponto de estofo de Lacan, temos o espa\u00e7amento de Derrida, em que os tra\u00e7os geradores de sentido se disp\u00f5em num campo sucessivamente expandido pelo seu pr\u00f3prio diferir, sem que nenhuma destina\u00e7\u00e3o nos autorize a conter os efeitos subjetivos de sua dissemina\u00e7\u00e3o. Qualquer esfor\u00e7o de se restabelecer um centramento da linguagem, do qual um dos nomes seria a concep\u00e7\u00e3o lacaniana do endere\u00e7amento f\u00e1lico da carta, n\u00e3o mais seria, no entender de Derrida, do que uma tentativa de reabilitar a velha tradi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica da presen\u00e7a e do logos fonoc\u00eantrico que ele tanto se empenha em desconstruir.<\/p>\n<p>E de fato podemos dizer que Lacan n\u00e3o abre m\u00e3o da ideia de destina\u00e7\u00e3o da carta, em refer\u00eancia ao lugar da lei ocupado pelo rei no conto da carta roubada. Mas em vez de exaltar o falocentrismo dessa determina\u00e7\u00e3o r\u00e9gia, na forma, digamos, de uma significa\u00e7\u00e3o eminente, Lacan, em todo momento, nos conduz a ver que essa fun\u00e7\u00e3o, longe de corresponder a uma significa\u00e7\u00e3o ideal, comporta, conforme diz\u00edamos no in\u00edcio, estruturalmente uma cegueira, sendo antes pr\u00f3pria \u201cpara se tornar s\u00edmbolo da mais enorme imbecilidade\u201d. Lacan em nenhum momento idealiza a representa\u00e7\u00e3o da lei, ainda que a tome como ponto de destina\u00e7\u00e3o. Ele nos mostra que, embora o significante f\u00e1lico coloque como significante a parte que representa o sujeito para os demais significantes, gerando os efeitos de significa\u00e7\u00e3o, o que d\u00e1 efic\u00e1cia a esse significante em posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com um suposto valor elevado, no sentido de uma plenipot\u00eancia imagin\u00e1ria que certa deriva durkheimiana da psican\u00e1lise atribui \u00e0 fun\u00e7\u00e3o paterna. O que Lacan descobre, em seu retorno a Freud, \u00e9 que a fun\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o do significante f\u00e1lico se deve antes ao fato de ele ser, como o pobre rei do conto da carta roubada, um significante vazio, insignificante, o significante do que resta do significante quando j\u00e1 n\u00e3o comporta mais nenhuma significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao desconstruir, portanto, o logocentrismo referido \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do pai, sem perceber seu vazio no estatuto de puro semblante do significante f\u00e1lico, Derrida termina, como nota S\u00e9rgio Laia, por exaltar o anti-pai, representado pelo Joker na apologia da transgress\u00e3o que se expande na fuga de sentido do texto. No fundo, Derrida s\u00f3 faz permutar uma emin\u00eancia por outra contr\u00e1ria, talvez t\u00e3o est\u00fapida e banal quanto a primeira: ao se irromper contra a ordena\u00e7\u00e3o da unidade da fala pelo significante f\u00e1lico, sua apologia da dissemina\u00e7\u00e3o textual parece destinada a finalmente idealizar como regra o regime contempor\u00e2neo do que hoje chamamos de p\u00f3s-verdade, referido por Lacan, em La chose freudienne, ao \u2018mercado mundial da mentira\u2019. E, ao que tudo indica, o espectro do Joker parece hoje se encarnar nas figuras de Trump e \u2013 liberanos domine \u2013 Jair Bolsonaro, curingas eg\u00f3latras e gozadores forjados nos jogos publicit\u00e1rios dos spin doctors, tanto mais terr\u00edveis quanto carentes de pontos de basta, incapazes de encadear em sua fala pr\u00f3pria, sem o suporte de texto do teleprompter, qualquer significa\u00e7\u00e3o minimamente coerente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Quais consequ\u00eancias podemos extrair da querela Lacan e Derrida em torno do conto \u201cA carta roubada\u201d de Edgar Allan Poe?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Teixeira<\/strong>: As consequ\u00eancias s\u00e3o m\u00faltiplas, mas essa pluralidade n\u00e3o se pulveriza. Ela se localiza no fato de que, no n\u00edvel de nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica, n\u00e3o se pode conceber a psican\u00e1lise como uma experi\u00eancia de pura dispers\u00e3o, coisa que se l\u00ea, por exemplo, na tese, contestada com veem\u00eancia por Lacan, no Semin\u00e1rio 11, de que a interpreta\u00e7\u00e3o esteja aberta a todos os sentidos. Embora o sujeito n\u00e3o seja mestre do sentido que enuncia, nem por isso deixa de haver uma lei que ordena e localiza os efeitos da estrutura simb\u00f3lica a partir justamente da inst\u00e2ncia significante, que escapa ao sentido. Mas eu gostaria particularmente de abordar, a respeito dessa fun\u00e7\u00e3o de localiza\u00e7\u00e3o e endere\u00e7amento aqui discutida, a import\u00e2ncia que Lacan d\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o inaugural ocupada por seu texto sobre \u201cA carta roubada\u201d na sequ\u00eancia do conjunto de seus Escritos. Existe ali uma decis\u00e3o topogr\u00e1fica, um esfor\u00e7o de localiza\u00e7\u00e3o relacionado ao endere\u00e7amento dirigido ao leitor que ele visa constituir, atrav\u00e9s de seus Escritos, ao se colocar tardiamente como autor de uma obra.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o me delongar demais, eu irei resumir dizendo que o projeto de se constituir como obra, atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o da colet\u00e2nea de seus Escritos, desde o in\u00edcio, se colocou, para Lacan, como efeito do c\u00e1lculo de uma decis\u00e3o. Quero, com isso, salientar que fazer-se obra n\u00e3o deriva, para Lacan, de um voluntarismo particular. Se ele a obra consente, \u00e9, antes, contrariado, em raz\u00e3o de uma escolha for\u00e7ada, de uma decis\u00e3o determinada pela for\u00e7a de um c\u00e1lculo circunstancial.<\/p>\n<p>O que estava em quest\u00e3o por ocasi\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o dos Escritos, no final de 1966, eram os efeitos da ainda recente funda\u00e7\u00e3o da Escola Francesa de Psican\u00e1lise, criada em 1964, da qual Lacan assumiria explicitamente o encaminhamento tanto institucional quanto \u00e9tico, pol\u00edtico e epist\u00eamico. Lacan estava em vias de estabelecer a unidade dessa orienta\u00e7\u00e3o quando consentiu em publicar a colet\u00e2nea selecionada de suas interven\u00e7\u00f5es escritas. Sua escolha for\u00e7ada pela obra se ligava, naquele momento, ao imperativo \u00e9tico de restituir o sistema de pensamento em que o texto freudiano, deturpado em sua apropria\u00e7\u00e3o instrumental pelo contexto da ego-psychology, voltasse a revelar sua necessidade pr\u00f3pria. A refunda\u00e7\u00e3o da doutrina freudiana como um sistema dotado de necessidade interna implica, antes de tudo, separar a unidade da doutrina de sua dissemina\u00e7\u00e3o circunstancial, apartando o campo das proposi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias da teoria dos enunciados sem necessidade das opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, assumir a dimens\u00e3o de obra, em seu sentido propriamente moderno, significa instaurar, em meio \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o geral da cultura, a unicidade do uma doutrina aut\u00f4noma que desse m\u00faltiplo se diferencia, ali introduzindo uma superf\u00edcie de refra\u00e7\u00e3o. A obra tem por fun\u00e7\u00e3o separar, em seu endere\u00e7amento doutrinal, o corpo dos enunciados te\u00f3ricos do contexto cultural que dissipa o pensamento na pluralidade inconsistente das opini\u00f5es. Centrada num sistema de nomea\u00e7\u00f5es que confere ao conjunto dos enunciados uma forma reconhec\u00edvel, a obra realiza essa unicidade mediante a associa\u00e7\u00e3o do nome do autor com o t\u00edtulo materializado na publica\u00e7\u00e3o. O conceito gestado no interior de uma obra afirma-se, assim, como um conceito de autor, via de regra definido por um nome pr\u00f3prio, embora tal autoria possa tamb\u00e9m ser referida a uma coletividade reunida em torno de determinado paradigma. \u00c9 nesse sentido que falamos do inconsciente freudiano, do engajamento de Sartre, do habitus de Bourdieu, da mais valia de Marx; como tamb\u00e9m podemos nos referir \u00e0 l\u00f3gica de Port Royal, \u00e0 \u00e1lgebra comutativa de Bourbaki, e assim por diante.<\/p>\n<p>Importa, por\u00e9m, lembrar que nem toda produ\u00e7\u00e3o autoral se determina como obra, se dermos a esse termo seu sentido espec\u00edfico. \u00c9 poss\u00edvel ser autor de artigos ou mesmo de livros sem ser necessariamente autor de uma obra, como de fato acontece na grande maioria dos trabalhos a que chamamos de monografias. Distintamente do autor de obra, o autor de monografia geralmente publica seus textos em peri\u00f3dicos destinados \u00e0 difus\u00e3o do saber j\u00e1 articulado a um determinado campo doutrinal. Embora Jean-Claude Milner reserve o termo \u201cmonografia\u201d aos artigos relacionados \u00e0 atividade cient\u00edfica, como aqueles que se publicam nos peri\u00f3dicos de f\u00edsica ou de biologia, a mim parece mais exato aplicar essa denomina\u00e7\u00e3o a todo saber produzido no campo de uma pr\u00e1tica discursiva previamente constitu\u00edda. \u00c9 nesse sentido que podemos chamar de monografias os artigos divulgados, por exemplo, numa revista de arte ou de cr\u00edtica liter\u00e1ria, sem que seu conte\u00fado resulte necessariamente de algum tipo de atividade cient\u00edfica. A monografia \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o que se realiza no endere\u00e7o j\u00e1 constitu\u00eddo por um paradigma ou sistema de pensamento.<\/p>\n<p>A esse respeito, vale salientar que Lacan soube consentir com a monografia no per\u00edodo em que o contexto o permitia. Ele n\u00e3o somente publicou diversos escritos monogr\u00e1ficos, ao longo de sua vida, como tamb\u00e9m dirigiu uma importante revista \u2013 La psychanalyse \u2013 destinada a esse tipo de divulga\u00e7\u00e3o. Se Lacan aceitou tardiamente adotar o desvio pela obra com a publica\u00e7\u00e3o dos Escritos, em 1966, foi por considerar que o contexto absorvera a psican\u00e1lise, transformando-a numa pr\u00e1tica de gerenciamento de almas que terminou por dissipar o endere\u00e7amento espec\u00edfico da doutrina freudiana.<\/p>\n<p>Durante certo tempo, eu acreditava ver uma singularidade no fazer-se obra de Lacan. Lacan n\u00e3o construiu um escrito destinado a realizar-se como obra, como foi o caso da Traumdeutung freudiana, a qual seguia canonicamente as normas de revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica, recoloca\u00e7\u00e3o do problema, estabelecimento de hip\u00f3teses e, finalmente, funda\u00e7\u00e3o de uma nova perspectiva para tratar o objeto assim constitu\u00eddo. Agradava-me, nesse sentido, pensar que a obra de Lacan teria algo que se aproxima do ready-made de Marcel Duchamp. Assim como uma roda de bicicleta se converte em obra de arte pelo gesto calculado de deslocamento de sua posi\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o social da mercadoria, transportando-a para a sala de exposi\u00e7\u00e3o de um museu, o conjunto das monografias de Lacan parecia ter-se convertido em obra pelo simples gesto que as encadernar num volume intitulado Escritos. Uma inconfid\u00eancia de Derrida, ali\u00e1s, parecia confirmar minha hip\u00f3tese. Ele nos relata que Lacan lhe havia confessado, logo ap\u00f3s publicar seus Escritos, que seu temor n\u00e3o era de que o conte\u00fado de seu livro fosse criticado ou mal compreendido. Ele, na verdade, temia que os Escritos se desencadernassem, que a costura da encaderna\u00e7\u00e3o n\u00e3o suportasse o volume de artigos; ele receava enfim que a obra perdesse sua unidade material e se espalhasse. Encantava-me interrogar esse fen\u00f4meno, para pensar a ideia desse objeto-livro como uma obra constitu\u00edda pelo gesto de encaderna\u00e7\u00e3o de textos monogr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>Mas minha hip\u00f3tese n\u00e3o era correta. Por indica\u00e7\u00e3o de Gilson Iannini, estudei a pesquisa historiogr\u00e1fica de Jorge Ba\u00f1os Orellana, El escritorio de Lacan Orellana, 1999, em que ele nos demonstra que os Escritos nada tinham de um ready-made. Para preparar sua obra, Lacan n\u00e3o se contentou em transportar seus escritos monogr\u00e1ficos para o interior de um volume encadernado. Ele, na verdade, se fechou num hotel de Paris, onde permaneceu de mar\u00e7o a outubro de 1966, relendo seus textos, reescrevendo-os e reexaminando as provas a serem enviadas para a edi\u00e7\u00e3o final. Conforme os procedimentos de an\u00e1lise gen\u00e9tica evidenciam, houve ali, durante esse per\u00edodo, um grande trabalho de transforma\u00e7\u00e3o, destinado, sobretudo, a reelaborar o estilo texto final. Caberia ent\u00e3o, finalmente, se perguntar por que motivo o trabalho sobre estilo se coloca, para Lacan, na transi\u00e7\u00e3o da monografia para a obra fundadora de um endere\u00e7amento doutrinal.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse em outro momento, n\u00e3o me compete dissertar aqui sobre o vasto problema do estilo em Jacques Lacan, sobretudo porque j\u00e1 existe, a esse respeito, uma refer\u00eancia inultrapass\u00e1vel: o livro de Gilson Iannini, que hoje circula em sua segunda edi\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o da estil\u00edstica interessa-me t\u00e3o somente como ponto sobre o qual se apreende a fun\u00e7\u00e3o unificante relativa ao endere\u00e7amento do autor, pois \u00e9 dessa fun\u00e7\u00e3o que depende a unicidade da obra que diferencia a doutrina da dissemina\u00e7\u00e3o geral da cultura, conferindo sua autonomia pr\u00f3pria. Por longo tempo se sup\u00f4s que o autor da obra s\u00f3 seria apreens\u00edvel no que ele tem de \u00fanico, ou seja, naquilo que somente ele poderia dizer atrav\u00e9s do estilo. Por isso, o estilo foi considerado, pela cr\u00edtica liter\u00e1ria representada sobretudo por Sainte-Beuve, como a ponte que nos conduz \u00e0 unicidade do autor.<\/p>\n<p>Havia, por conseguinte, uma esp\u00e9cie de devo\u00e7\u00e3o religiosa ao estilo, como se nele estivesse depositado o selo de garantia da obra. Sendo a obra a express\u00e3o da unidade da doutrina, o autor seria sua fun\u00e7\u00e3o unificante, a fun\u00e7\u00e3o do Um que s\u00f3 poderia ser captada a partir do estilo como marca do \u00edntimo do autor em primeira pessoa na obra, cabendo \u00e0 cr\u00edtica liter\u00e1ria o trabalho de seu desvelamento. Por\u00e9m, Lacan j\u00e1 desconfiava dessa solu\u00e7\u00e3o que consiste em buscar na rela\u00e7\u00e3o do autor com o estilo o princ\u00edpio de unifica\u00e7\u00e3o da obra. Seu programa de retorno a Freud \u00e9 contempor\u00e2neo de um movimento cr\u00edtico destinado a desconstruir precisamente, em sentido contr\u00e1rio, o culto ao autor como princ\u00edpio de ordena\u00e7\u00e3o do texto. Atento a tudo o que se passava a sua volta, Lacan n\u00e3o desconhecia o surgimento, a partir dos anos 60, de uma corrente cr\u00edtica representada tanto por M. Foucault e R. Barthes quanto, mais tarde, por Derrida, que associava a import\u00e2ncia conferida \u00e0 figura do autor a uma vis\u00e3o individualista da obra nos termos burgueses da mercadoria e do patrim\u00f4nio intelectual. Para Barthes e para Foucault, essa primazia dada ao personagem autoral seria apenas uma fic\u00e7\u00e3o historicamente datada do homem moderno, determinada tanto pela produ\u00e7\u00e3o do prest\u00edgio pessoal do indiv\u00edduo com a ideologia da Reforma quanto pela necessidade capitalista de se unificar o produto do pensamento na forma-mercadoria. Para Barthes, o autor deveria deixar de ordenar a unidade da obra, dando espa\u00e7o \u00e0 dispers\u00e3o de uma verdade impessoal do leitor, n\u00e3o comandada pela figura do eu. O que conta \u00e9 o que o leitor entende e n\u00e3o o que o autor quis dizer.<\/p>\n<p>Por sua vez, Foucault, ao meditar sobre a ideia do autor como princ\u00edpio de ordena\u00e7\u00e3o da obra, revela-nos seu constrangimento em se constituir ele pr\u00f3prio como autor ao ser convocado a escrever o pref\u00e1cio da 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o de seu livro Hist\u00f3ria da loucura. Foucault se sentia particularmente incomodado por entender que, no pref\u00e1cio, o autor \u00e9 chamado a prescrever o sentido do que foi escrito. Por isso, ele nos conclama a tomar suas palavras n\u00e3o como proposi\u00e7\u00f5es unificadas pela fun\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do autor, mas acolhidas na fragmenta\u00e7\u00e3o dispersa que tanto interessa a Derrida: \u201cAo inv\u00e9s de tomar a palavra, gostaria de ser envolvido por ela e ser levado para al\u00e9m de todo come\u00e7o poss\u00edvel [\u2026]. Em vez de ser aquele de quem parte o discurso, eu seria, antes, ao acaso de seu desenrolar, o ponto de seu desaparecimento poss\u00edvel\u201d e bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1\u2026<\/p>\n<p>A bem da verdade, por mais irresist\u00edvel que seja a mod\u00e9stia de Foucault, n\u00e3o podemos ceder a esse devaneio no campo da psican\u00e1lise. Estamos cientes do que ocorre quando se entrega o texto \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel do leitor an\u00f4nimo, conforme se viu na deturpa\u00e7\u00e3o sofrida pela doutrina freudiana em sua recep\u00e7\u00e3o pelo contexto americano. Seja qual for a derris\u00e3o contempor\u00e2nea do autor, n\u00e3o podemos deixar de interrogar sobre o que queriam dizer seus fundadores. Por isso, interessa-nos meditar sobre o que o pr\u00f3prio Lacan tinha a dizer sobre a obra que ele nos endere\u00e7ava, em 1966, e aqui retomamos finalmente o tema da carta roubada.<\/p>\n<p>Ora, o pref\u00e1cio, como dizia constrangidamente Foucault, \u00e9 o lugar em que o autor vem dizer como se organizam seus enunciados. O pref\u00e1cio \u00e9 o que, na obra, mais se assemelha a uma carta em que o autor tenta explicar ao leitor como ele gostaria de ser lido. Vale, ent\u00e3o, salientar que, para nossa felicidade, Lacan nos endere\u00e7ou, em seus Escritos, esse primeiro pref\u00e1cio, curt\u00edssimo e luminoso, que se coloca na porta de entrada de sua obra, intitulado \u201cAbertura desta colet\u00e2nea\u201d.<\/p>\n<p>Lacan o inicia a partir, precisamente, de um coment\u00e1rio sobre a quest\u00e3o do estilo, evocando a c\u00e9lebre f\u00f3rmula endere\u00e7ada por Buffon \u00e0 Academia Francesa de Letras, por ocasi\u00e3o de seu laureado: o estilo \u00e9 o pr\u00f3prio homem. \u00c9 importante ali notar que, no lugar em que o culto do estilo reverencia o personagem do autor, na figura eminente do grande homem que ordena sua obra, Lacan nos convida a meditar sobre o que h\u00e1 de jocoso nessa figura do grande homem, aqui representada por Buffon em seus trajes burlescos. Ao se colocar como autor de uma obra, Lacan, diz-nos Jacques-Alain Miller, n\u00e3o se deixa enredar pela fantasia faloc\u00eantrica do grande homem que Derrida tanto critica. O rid\u00edculo dessa fantasia estil\u00edstica do grande homem, aos olhos de Lacan, \u00e9 n\u00e3o entender que o estilo depende n\u00e3o da emin\u00eancia do autor, mas do la\u00e7o que o constitui em seu endere\u00e7amento ao Outro, na forma da mensagem que lhe retorna invertida. Nesse sentido, Lacan concebe o estilo n\u00e3o como uma entrega autoral da obra pronta a um leitor admirativo j\u00e1 presente, mas como meio de constru\u00e7\u00e3o da obra atrav\u00e9s do leitor n\u00e3o dado, por\u00e9m criado pelo seu endere\u00e7amento. A quest\u00e3o do estilo diz, portanto, respeito a quem vem a ser o leitor que ele faz existir.<\/p>\n<p>Pode-se ver que a quest\u00e3o do \u2018quem\u2019 \u00e9 aqui particularmente sens\u00edvel, uma vez que o estilo tradicionalmente se abordava, conforme vimos anteriormente, como marca do \u00edntimo do autor em sua obra, na primeira pessoa. Mais importante, por\u00e9m, do que a cr\u00edtica de Foucault e de Barthes ao culto ao autor, a grande subvers\u00e3o que interessa a Lacan vem n\u00e3o do p\u00f3s-estruturalismo, mas do escritor Marcel Proust, grande herege que abalaria as funda\u00e7\u00f5es da Igreja do estilo ao denunciar como impostura o trabalho de Sainte-Beuve. \u00c9 indispens\u00e1vel ler, a esse respeito, O escritor sem Igreja, de J.-C. Milner, do qual eu retomo aqui os argumentos. Para demonstrar a impostura de Sainte-Beuve, Proust escreveria, em 1919, os Pastiches et m\u00e9langes, conjunto hil\u00e1rio de vers\u00f5es pseudoautorais de um mesmo assunto, em que se evidencia que a figura do estilo, supostamente advindo do \u00edntimo na primeira pessoa do singular, na verdade n\u00e3o comporta indexa\u00e7\u00e3o pronominal.<\/p>\n<p>Os pastiches t\u00eam por tema comum o affaire Lemoine, not\u00edcia que circulou nos jornais nos anos de 1908 e 1909, a prop\u00f3sito de um escroque chamado Henri Lemoine, que, ao pretender haver descoberto o segredo da fabrica\u00e7\u00e3o do diamante, recebeu uma soma consider\u00e1vel do senhor Julius Werher, enganando-o com experimentos falseados. Os pastiches de Proust relatam o caso Lemoine no estilo de Balzac, Flaubert, Sainte-Beuve, Michelet, entre outros, seguindo uma narrativa indistingu\u00edvel dos autores referidos. Mas os pastiches n\u00e3o s\u00e3o apenas um anedot\u00e1rio destinado a nos fazer rir. O que Proust ali questiona \u00e9 justamente o quem referido ao estilo, mostrando que ele n\u00e3o comporta v\u00ednculo natural com a primeira pessoa ao ser realocado na prosa romanesca de maneira indistinta. Mas o que acontecia quando Proust escrevia, sem que ele soubesse, provoca J.-C. Milner, \u00e9 que, no mesmo per\u00edodo em que ele redigia seus pastiches, a psican\u00e1lise j\u00e1 havia modificado a estrutura do \u00edntimo, desfazendo sua indexa\u00e7\u00e3o pronominal na primeira pessoa do singular. O Inconsciente freudiano se encontra precisamente referido ao \u00edntimo que desconhece a reparti\u00e7\u00e3o pronominal entre o Ich, o Du e o Er, permanecendo indeterminado no pronome neutro como Das Es.<\/p>\n<p>Ciente dessa indetermina\u00e7\u00e3o pronominal do \u00edntimo, a quest\u00e3o do estilo que interessa a Lacan n\u00e3o se coloca como marca inconfund\u00edvel do \u00edntimo do autor na primeira pessoa, conforme pretendia a tradi\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica liter\u00e1ria, mas, como diz Gilson Iannini, enquanto objeto indeterminado que afeta o leitor, transformando-o em sua intimidade. Tal indetermina\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, vem a ser o que confere a efic\u00e1cia ao significante-letra que circula no conto de Edgar Alan Poe: a carta, cujo conte\u00fado n\u00e3o \u00e9 jamais explicitado pelo discurso que a cerca, afeta intimamente a todos que caem em sua possess\u00e3o. Cabe ao leitor, profere Lacan, dar \u00e0 carta sua destina\u00e7\u00e3o, estando esconjurada toda emin\u00eancia do \u201cma\u00eetre \u00e0 penser\u201d na obten\u00e7\u00e3o do efeito escolhido. Pois o que se revela como verdade prec\u00e1ria da ordem f\u00e1lica, ilustrada na par\u00f3dia do \u201croubo da mecha\u201d, com a qual ele finaliza seu pref\u00e1cio-abertura, \u00e9 o objeto que divide intimamente o sujeito no apagamento justamente de toda refer\u00eancia ao ideal. Sem glamouriza\u00e7\u00e3o do mestre ou exalta\u00e7\u00e3o do Joker, o objeto a, que Lacan ainda n\u00e3o havia formalizado por ocasi\u00e3o de seu escrito sobre \u201cA carta roubada\u201d, aparece nesse pref\u00e1cio-carta como algo que se destina a seu leitor, convocando-o a se haver com a verdade de uma satisfa\u00e7\u00e3o \u00edntima que dele cobra uma transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse sentido que seis escritos conduzem o leitor \u201ca uma consequ\u00eancia em que precisa colocar algo de si\u201d.<\/p>\n<p>E de fato \u00e9 imposs\u00edvel, eu dizia em outro momento, ler diletantemente os Escritos, na farsa do erudito movido pelo ideal que dele se serve para aumentar seu cabedal de cultura. Em meu caso, para acess\u00e1-los, foi-me necess\u00e1rio conservar, por longo tempo na estante, o objeto-livro inacess\u00edvel, fascinante e estranho, at\u00e9 que suas p\u00e1ginas se abrissem vagarosamente, no ritmo de minha pr\u00f3pria modifica\u00e7\u00e3o \u00edntima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANT\u00d4NIO TEIXEIRA<\/strong><\/p>\n<p>Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (AMP)\u00a0<span id=\"cloak8ea59c533d99889ca60a4130c8fec2f9\"><a href=\"mailto:amrteixeira@uol.com.br\">amrteixeira@uol.com.br<\/a><\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANT\u00d4NIO TEIXEIRA ENTREVISTA NEM MESTRE NEM JOKER: O DESTINO DA CARTA EM DERRIDA E LACAN\u00a0 &nbsp; Almanaque: Alguns autores consideram que Derrida, ao elaborar cr\u00edticas pontuais e certeiras \u00e0 leitura lacaniana de \u201cA carta roubada\u201d, se precipita ao generalizar essas cr\u00edticas ao conjunto da obra de Lacan, mais especificamente aos Escritos. 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