{"id":1021,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1021"},"modified":"2025-12-01T16:30:34","modified_gmt":"2025-12-01T19:30:34","slug":"o-saber-absoluto-e-o-declinio-do-viril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/o-saber-absoluto-e-o-declinio-do-viril\/","title":{"rendered":"O Saber Absoluto E O Decl\u00ednio Do Viril"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>M\u00d4NICA CAMPOS SILVA<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo-1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"189\" data-large_image_height=\"217\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1022\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sem-ttulo-1.png\" alt=\"\" width=\"189\" height=\"217\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>ROSE-PAULE &#8211; MICHEL TRPAK<\/strong><\/h6>\n<p>Em 27 de junho de 1994, Miller apresenta, em seu semin\u00e1rio Lacan e o saber do s\u00e9culo, uma aula sob o t\u00edtulo \u201cKoj\u00e8ve, a sabedoria do s\u00e9culo\u201d. A ideia de Miller era combinar o anseio de falar de Koj\u00e8ve e de seu artigo \u201cO \u00faltimo mundo novo\u201d, articulando-o ao Semin\u00e1rio IV de Lacan, \u201cA rela\u00e7\u00e3o de objeto\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa li\u00e7\u00e3o, Miller parte de um problema apreendido por Koj\u00e8ve, ou seja, o mundo novo \u00e9, com e p\u00f3s Napole\u00e3o, um mundo do saber absoluto, chamado por ele de \u201cverdadeiro mundo novo\u201d. Koj\u00e8ve v\u00ea, nas novelas de Fran\u00e7oise Sagan[1], entre elas Bom dia, tristeza, o que s\u00e3o as consequ\u00eancias do saber absoluto na rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, Miller inicia sua articula\u00e7\u00e3o apontando que, em \u201cO \u00faltimo novo mundo\u201d, Koj\u00e8ve inscreve tr\u00eas nomes do pai, estando, na origem desses, Napole\u00e3o na batalha de Jena[2]. O primeiro nome seria Hegel, o fil\u00f3sofo. O segundo seria Sade, que, segundo Koj\u00e8ve, tem esse lugar pois \u00e9 a partir de sua liberta\u00e7\u00e3o que se compreendeu que, no novo mundo livre, tudo deveria acontecer no privado. Sade \u00e9, ent\u00e3o, o her\u00f3i do privado, um dos far\u00f3is deste novo mundo. Sob o terceiro, Miller deixa, naquele momento, em aberto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O leitor acompanhar\u00e1, nessa li\u00e7\u00e3o, o percurso de Miller quando retoma essa discuss\u00e3o para destacar o contraponto que Lacan estabelece, no Semin\u00e1rio 4[3], ao final de sua an\u00e1lise sobre o pequeno Hans, entre legalidade e legitimidade, esclarecendo que Hans est\u00e1 na legalidade por se interessar pelas meninas, mas que isso acontece de uma forma passiva, n\u00e3o tendo nada de viril em sua posi\u00e7\u00e3o. Segundo Miller, Lacan faz do pequeno Hans um paradigma da rela\u00e7\u00e3o sexual da gera\u00e7\u00e3o de 1945. Segundo Lacan, esses jovens esperam que a iniciativa venha do outro lado, que venha das damas, colocando como exce\u00e7\u00e3o Dom Juan, como o que n\u00e3o deixava para o outro sexo tomar a iniciativa. Entretanto, para Lacan, esse personagem, ao buscar o falo feminino \u2013 e sem encontr\u00e1-lo \u2013, se depara, ao final, com o pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller nos mostra como as novelas de Fran\u00e7oise Sagan situam para Koj\u00e8ve a figura contempor\u00e2nea das rela\u00e7\u00f5es sexuais, ou seja, a \u00e9poca do saber absoluto como correlata do decl\u00ednio do viril ou, como ele diz, \u201cencontramo-nos em um mundo sem homens\u201d, restando apenas um \u201ccerto sorriso\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em \u201cBonjour, sagesse\u201d, a tese de Miller em que o decl\u00ednio e o desaparecimento do viril n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis de serem pensados sem o decl\u00ednio do pai \u00e9 problematizada com a pergunta sobre o que \u00e9 a desapari\u00e7\u00e3o do viril. Para o autor, \u00e9 o que fica da f\u00f3rmula da sexua\u00e7\u00e3o masculina ao anularmos a parte esquerda da f\u00f3rmula, restando simplesmente o \u201ctodos juntos\u201d, f\u00f3rmula da igualdade, o todo da democracia. Como consequ\u00eancia, o dano causado \u00e0 fun\u00e7\u00e3o paterna e, portanto, o decl\u00ednio do pai, explica o sentimento de desapari\u00e7\u00e3o do viril. Miller lembra Lacan em 1938, em Os complexos familiares, quando este sinaliza o decl\u00ednio da imago paterna como provocador de uma crise psicol\u00f3gica que faz surgir a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante das quest\u00f5es levantadas, Miller nos anuncia o terceiro nome do pai p\u00f3s-Napole\u00e3o. Seria Brumell[4], que se junta a Hegel e Sade no nascimento do novo mundo. O que d\u00e1 esse lugar a Brumell? Para Miller, o que se admira em Brumell \u00e9 a aventura de um homem s\u00f3, capaz de produzir um imp\u00e9rio com sua opini\u00e3o, fazendo-se \u00fanico. Como figura excepcional, Brumell teria sido a inspira\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do personagem de Dom Juan, sendo comparado a Napole\u00e3o principalmente no fasc\u00ednio que provocava, pelas maneiras e eleg\u00e2ncia e pelo dom\u00ednio da compostura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller prop\u00f5e verificar a rela\u00e7\u00e3o entre Brumell e o aparecimento do dandismo. Segundo ele, antes havia o belo e, com Brumell, surge o dandismo, apontando que a diferen\u00e7a entre eles \u00e9 que, no belo h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de agradar; no dandismo, a finalidade reside mais em assombrar, surpreender, do que em agradar, ou seja, desagradando, se fascina ainda mais. Por essa via, Miller utiliza-se de Baudelaire em sua descri\u00e7\u00e3o do dandismo como o \u00faltimo flash de hero\u00edsmo em decad\u00eancia, para marcar a resist\u00eancia heroica do d\u00e2ndi diante do discurso moderno, como uma forma de sabedoria moderna para resistir ao mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir da literatura francesa da \u00e9poca, Miller revela a presen\u00e7a de uma recusa do hero\u00edsmo, ou seja, sob a continuidade aparente do g\u00eanero tr\u00e1gico, observa-se uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o dos costumes, uma revolu\u00e7\u00e3o cultural. Miller constata que a desviriliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a\u00ed desde o s\u00e9culo XVI, antes de Napole\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao estabelecer uma sequ\u00eancia \u2013 o cavaleiro, o cort\u00eas e o d\u00e2ndi -, Miller inclui a figura do analista, assinalando que este tem algo a ver com o d\u00e2ndi, pois, em seu discurso, ocupa o lugar de causa. O analista seria o semblante que faz tremer os semblantes.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BAUDELAIRE, C. O pintor da vida Moderna. Brasil: Aut\u00eantica Editora, 1 \u00aa Edi\u00e7\u00e3o, 2010.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>KOJ\u00c8VE, A. (1984) Le dernier monde nouveau Fran\u00e7oise Sagan. Dispon\u00edvel em: www.association-freudienne.be\/pdf\/bulletins\/7-BF1_BIBLIOTHEQUE.pdf?phpMyAdmin=0k39wA0M-rYtTueZFUi-nHQMKb1.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1938) Os complexos familiares. Brasil: Zahar Editora, 1987.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1956). O Semin\u00e1rio, livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cBuenos d\u00edas, sabidur\u00eda\u201d. Colof\u00f3n, 14 jul. 1996.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SAGAN, F. Bom dia, tristeza. Brasil: Livraria Cultura, 2007.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Fran\u00e7oise Sagan (1934\u20132004), escritora francesa.<\/h6>\n<h6>[2] As batalhas de Jena (ou Iena) e Auerstedt ocorreram em 14 de outubro de 1806 pelo controle dessas cidades localizadas no interior da Pr\u00fassia e, na \u00e9poca, sob o governo dos Hohenzollern, oponentes aos ex\u00e9rcitos de Napole\u00e3o Bonaparte.<\/h6>\n<h6>[3] \u201cO pequeno Hans se situa numa certa posi\u00e7\u00e3o apassivada, e, qualquer que seja a legalidade heterossexual de seu objeto, n\u00e3o podemos considerar que ela esgote a legitimidade de sua posi\u00e7\u00e3o. Ele alcan\u00e7a a\u00ed um tipo que n\u00e3o vai lhes parecer estranho em nossa \u00e9poca, o da gera\u00e7\u00e3o de um certo estilo que conhecemos, o estilo do ano de 1945, daqueles encantadores rapazes que esperam que as iniciativas venham do outro lado \u2013 que esperam, para dizer tudo, que se lhes tirem as cal\u00e7as\u201d (LACAN, 1956\/1995, p. X).<\/h6>\n<h6>[4] George Bryan \u201cBeau\u201d Brummell (1778\u20131840), figura ic\u00f4nica na Reg\u00eancia da Inglaterra e, por muitos anos, o \u00e1rbitro da moda masculina. Era amigo \u00edntimo do Pr\u00edncipe Regente. Brummell \u00e9 lembrado como exemplo preeminente do d\u00e2ndi e possui toda uma literatura fundada em seu estilo.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00d4NICA CAMPOS SILVA ROSE-PAULE &#8211; MICHEL TRPAK Em 27 de junho de 1994, Miller apresenta, em seu semin\u00e1rio Lacan e o saber do s\u00e9culo, uma aula sob o t\u00edtulo \u201cKoj\u00e8ve, a sabedoria do s\u00e9culo\u201d. 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