{"id":1032,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1032"},"modified":"2025-12-01T16:24:08","modified_gmt":"2025-12-01T19:24:08","slug":"adeus-ao-pai-morto-ou-clinica-da-pai-versao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/adeus-ao-pai-morto-ou-clinica-da-pai-versao\/","title":{"rendered":"Adeus Ao Pai Morto Ou Cl\u00ednica Da Pai-Vers\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>J\u00c9SUS SANTIAGO<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-JESUS-Helena-Almeida-Pintura-habitada-1975-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"659\" data-large_image_height=\"571\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1033\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-JESUS-Helena-Almeida-Pintura-habitada-1975-1.jpg\" alt=\"\" width=\"659\" height=\"571\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-JESUS-Helena-Almeida-Pintura-habitada-1975-1.jpg 659w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-JESUS-Helena-Almeida-Pintura-habitada-1975-1-300x260.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 659px) 100vw, 659px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>HELENA ALMEIDA, PINTURA HABITADA, 1975<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es cl\u00ednicas com a qual a psican\u00e1lise atual se debate \u00e9 saber at\u00e9 que ponto a doutrina do pai, no primeiro classicismo cl\u00ednico de Jacques Lacan, est\u00e1 aqu\u00e9m do que se considera como a figura do pai na vida contempor\u00e2nea. No fundo, o que se apresenta como um problema cl\u00ednico se traduz pela quest\u00e3o de uma pol\u00edtica do sintoma, do sintoma do que \u00e9 ser pai nos dias de hoje. A cr\u00edtica que se faz \u00e9 que a concep\u00e7\u00e3o do pai, decorrente da concep\u00e7\u00e3o lacaniana do Nome-do-Pai como fator estruturante do inconsciente, est\u00e1 em franca defasagem com a insurrei\u00e7\u00e3o de estilos de vida que, de uma maneira ou de outra, veiculam modos de gozo que, em si, j\u00e1 constituem uma contesta\u00e7\u00e3o contundente \u00e0 fam\u00edlia tradicional patriarcal. Desde os anos 70 que o conservadorismo da psican\u00e1lise, nessa mat\u00e9ria, valeu-lhe uma acusa\u00e7\u00e3o de \u201cfamilialismo\u201d. S\u00e3o Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari, com o Anti-\u00e9dipo, que deploravam o atraso da psican\u00e1lise com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cesquizofreniza\u00e7\u00e3o\u201d geral do fluxo da libido. O processo instaurado por eles aparentemente visava apenas o \u00c9dipo freudiano, por\u00e9m, na verdade, o seu intuito era atingir a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o pai confundido com a lei do desejo. Em outras palavras, esse processo procura atingir a equa\u00e7\u00e3o entre o pai e a lei, considerada como mais uma tentativa de fazer sobreviver o chamado \u201cdogma paterno\u201d na psican\u00e1lise[1].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 a guardi\u00e3 da ordem paterna<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode negar que, em muitos momentos, o que se tornou um lugar comum \u2013 a tese lacaniana do \u201cdecl\u00ednio do pai\u201d \u2013 \u00e9 apresentado com certo sentimento de nostalgia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. N\u00e3o faltam psicanalistas, mesmo lacanianos, que sonham com a ideia de recolocar a ordem simb\u00f3lica e, evidentemente, o Nome-do-Pai no seu devido lugar, para poderem ainda ser subversivos. Jacques-Alain Miller prop\u00f5e esse questionamento quando conjectura que, talvez, amanh\u00e3, ter-se-\u00e1 uma psican\u00e1lise que ter\u00e1 como objetivo reconstituir o inconsciente do papai. Em um futuro bastante pr\u00f3ximo, n\u00e3o v\u00e3o faltar psicanalistas que procurar\u00e3o reconstituir o inconsciente do papai ou o inconsciente de ontem. \u00c9 a esse respeito que se compreende a diretiva ir\u00f4nica que Miller teve ocasi\u00e3o de assinalar, no IV Congresso da AMP, em agosto de 2004, na cidade de Comandatuba, a todos psicanalistas ali presentes: \u201c(\u2026) mais um esfor\u00e7o para ser reacion\u00e1rios, sen\u00e3o voc\u00eas n\u00e3o ser\u00e3o mais revolucion\u00e1rios\u2026!\u201d (MILLER, 2005, p. 10).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nada mais avesso \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o lacaniana do que tomar a psican\u00e1lise como uma guardi\u00e3 da ordem paterna. Para o analista que se orienta pelo real, o cotidiano da cl\u00ednica \u00e9 um convite para dar provas de que as manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente se mostram dissociadas do Nome-do-Pai. Em uma \u00e9poca em que o psicanalista lida com sintomas que se articulam com as mais novas express\u00f5es do mal-estar contempor\u00e2neo, torna-se uma tarefa v\u00e3 recorrer ao pai enquanto uma lei necess\u00e1ria, universal e, portanto, capaz de dar consist\u00eancia \u00e0 realidade ps\u00edquica. Por outro lado, ao considerar os alicerces sobre os quais se constitu\u00edram o edif\u00edcio da psican\u00e1lise, \u00e9 fato de que n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil, para o analista, operar com o inconsciente que se apresenta desembara\u00e7ado do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Basta dar uma repassada no modo com que Lacan formula a quest\u00e3o preliminar a todo tratamento das psicoses para se perceber o quanto a estrutura\u00e7\u00e3o do inconsciente se funda na simboliza\u00e7\u00e3o primordial do Nome-do-Pai. Essa estrutura\u00e7\u00e3o sup\u00f5e admitir que o inconsciente \u00e9 o discurso do Outro, ou seja, \u00e9 o lugar da mem\u00f3ria, concebida como palco de uma quest\u00e3o que permanece em aberto, tendo em vista que se mostra condicionada pela indestrutibilidade do desejo. A possibilidade de resposta a essa quest\u00e3o \u00e9 dada, no tratamento anal\u00edtico, pela pr\u00f3pria instala\u00e7\u00e3o da cadeia significante, cadeia que se inaugura com a simboliza\u00e7\u00e3o primordial, referida antes, e \u00e9 considerada como o fator que torna poss\u00edvel captar as liga\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas entre o que h\u00e1 por significar e os efeitos do significante no sujeito, descritos como met\u00e1fora e meton\u00edmia. \u00c9 o acidente nesse registro da simboliza\u00e7\u00e3o, a saber, a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai no lugar do Outro, que se aponta como a falha que confere especificidade \u00e0 pr\u00f3pria a estrutura do inconsciente na psicose, especifidade que a separa da neurose (LACAN, 1998, pp. 581-582).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito dessa lei simb\u00f3lica do pai como fundamento \u00faltimo da ordem inconsciente, \u00e9 o caso, inclusive, de se levar em conta as refer\u00eancias de Freud que atestam o quanto o monote\u00edsmo judaico-crist\u00e3o \u00e9 um passo decisivo na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. Se o pr\u00f3prio Freud elegeu o mito da lei do pai como a fonte do recalque, \u00e9 evidente a dificuldade em desfazer-se de uma leitura da produ\u00e7\u00e3o inconsciente que n\u00e3o se deixe contaminar por interpreta\u00e7\u00f5es de cunho paterno e f\u00e1lico. Sugerir que o inconsciente \u00e9 incuravelmente f\u00e1lico e dependente do amor ao pai \u00e9, no fundo, admitir que ele \u00e9 surdo, por exemplo, ao ideal contempor\u00e2neo da igualdade entre os sexos. O analista surdo \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o feminista da igualdade entre os sexos seria aquele que se inclui na chamada rea\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, visto que os ares dos tempos sopram no sentido de fazer vacilar os semblantes que davam sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as sexuais, sobretudo \u00e0quelas que se alimentavam do valor universal da dimens\u00e3o paterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, h\u00e1 uma sombra que permanece presente nessa paisagem, pois dificilmente se pode, nos dias de hoje, escutar o inconsciente pela orelha do amor ao pai. Nesse ponto preciso, retoma-se a discuss\u00e3o n\u00e3o apenas sobre o elemento subversivo da psican\u00e1lise, mas, sobretudo, sobre a efic\u00e1cia de sua pr\u00e1tica na civiliza\u00e7\u00e3o do gozo. No meu ponto de vista, parece-me in\u00fatil propor ao psicanalista que permane\u00e7a a reboque da sociologia feminista e da racionalidade relativista p\u00f3s-moderna, com o argumento de que essas diferen\u00e7as \u2013 sexuais \u2013 se restringem aos semblantes produzidos por essa civiliza\u00e7\u00e3o, visto que s\u00e3o ficcionais, transit\u00f3rios e inst\u00e1veis. \u00c9 insuficiente, para ele, restringir-se a proposi\u00e7\u00f5es de que uma orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica para o sintoma e para o gozo deveria levar em conta o fato \u00f3bvio de que a fam\u00edlia nuclear patriarcal est\u00e1 a ponto de ser extinta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A cren\u00e7a no Um-inteiramente-s\u00f3<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para contrapor-se ao ideal feminista de \u2018igualdade entre os sexos\u2019, \u00e9 preciso levar em conta que o seu pano de fundo \u00e9 a cren\u00e7a no \u201cUm-inteiramente-s\u00f3\u201d (Un-tout-seul), que, como se sabe, tornou-se um significante-mestre da modernidade, uma esp\u00e9cie de standard do \u201cp\u00f3s-humano\u201d. Como afirma o feminismo p\u00f3s-identit\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 nada que assegure a estabilidade das desordens da fam\u00edlia moderna, considerada a fam\u00edlia recomposta, sen\u00e3o a cren\u00e7a na igualdade entre os sexos. Em outras termos, para esses supostos representantes das muta\u00e7\u00f5es que se processam na \u00e9poca atual, resta-lhes o culto do \u201cUm-inteiramente-s\u00f3\u201d (COTTET, 2005, p. 130).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, o \u00faltimo ensino de Lacan adverte ao psicanalista que se pode lan\u00e7ar um outro olhar sobre a presen\u00e7a dessa tend\u00eancia civilizat\u00f3ria, expressa nesse signficante-mestre do \u201cUm-inteiramente-s\u00f3\u201d. \u00c9 a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do inconsciente que se interp\u00f5e nessa contraposi\u00e7\u00e3o, pois, ainda que seja ac\u00e9falo, o sujeito do inconsciente s\u00f3 faz o que ele quer, s\u00f3 faz o que lhe d\u00e1 na cabe\u00e7a (l\u2019inconscient n\u2019en fait qu\u2019\u00e0 sa t\u00eate)[2]. Utiliza-se essa defini\u00e7\u00e3o, l\u2019inconscient n\u2019en fait qu\u2019\u00e0 sa t\u00eate, para dar subst\u00e2ncia ao autismo do gozo que \u00e9 inerente a cada tomada de posi\u00e7\u00e3o do sujeito do inconsciente. Esse autismo quer dizer que o inconsciente decidir\u00e1, por ele pr\u00f3prio, crer ou n\u00e3o crer, em fun\u00e7\u00e3o dos significantes-mestres que ele encontra em seu caminho e que lhe \u00e9 poss\u00edvel, a partir da\u00ed, gozar. \u00c9 nisso que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica (MILLER, 2011). Ao encarnar a pol\u00edtica, ele deve ser lido a partir da puls\u00e3o e do objeto perdido, e n\u00e3o mais a partir da identifica\u00e7\u00e3o ao pai e \u00e0 lei do amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com isso quero dizer que, diante da inexist\u00eancia do Outro, o inconsciente busca se compatibilizar com a exig\u00eancia subjetiva de inven\u00e7\u00e3o, exig\u00eancia caracter\u00edstica do discurso do mestre p\u00f3s-moderno. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 mais significantes-mestres \u00fanicos que tecem, de modo est\u00e1vel e prevalente, os ideais que comandam os rumos da exist\u00eancia humana. Se, no primeiro tempo, o inconsciente isola um significante-mestre, no momento seguinte, esse significante que se destacou se pluraliza e se multiplica, segundo um processo que, na l\u00edngua francesa, se traduz pela homofonia entre \u201cS1\u201d e \u201cenxame\u201d (\u201cessaim\u201d). Isso quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 apenas Um, h\u00e1 v\u00e1rios, h\u00e1 muitos significantes. Na \u00e9poca atual, h\u00e1, portanto, sempre uma pulveriza\u00e7\u00e3o dos significantes-mestres (S1). Nada nos assegura que essa pluraliza\u00e7\u00e3o seja algo distinto de um conjunto ca\u00f3tico, mesmo sabendo que o enxame se desloca de modo agrupado. Em suma, afirmar a inexist\u00eancia do Outro \u00e9 admitir que a unicidade do significante-mestre deu lugar a uma constela\u00e7\u00e3o de significantes (Ibid. p. 20).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para-al\u00e9m da unicidade do significante paterno<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ir al\u00e9m da unicidade do significante-mestre do pai \u00e9 colocar \u00e0 prova a cl\u00ednica do Nome-do-Pai, concebido como um constructo necess\u00e1rio \u00e0 apreens\u00e3o das diversas posi\u00e7\u00f5es do sujeito personificadas pelas modalidades do desejo: desejo insatisfeito, imposs\u00edvel, prevenido e outros. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria recente dos homens propaga a id\u00e9ia de que o pai deixou de ser uma lei universal e necess\u00e1ria para se tornar um semblante que vem sendo, gradativamente, desvelado, desnudado. \u00c9 o que tamb\u00e9m nos permite dizer, por outras vias, que a fun\u00e7\u00e3o do pai \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do sintoma. Mais do que nunca, o psicanalista se v\u00ea habilitado a utilizar-se da hip\u00f3tese cl\u00ednica de que a quest\u00e3o paterna se mostra inserida no horizonte do que faz sintoma no \u00e2mbito do gozo. \u00c9, certamente, quando, no curso do tratamento, a posi\u00e7\u00e3o de um pai inscreve-se, para o sujeito, nos moldes de um sintoma em que se criam as condi\u00e7\u00f5es para ir al\u00e9m dele. \u00c9 quando se pode cifrar o gozo do pai como sintoma que se tem uma chance de dispens\u00e1-lo por meio de um uso poss\u00edvel. Apenas pode-se dispens\u00e1-lo com a condi\u00e7\u00e3o de saber usar essa letra de gozo, ou seja, coloc\u00e1-la a servi\u00e7o de uma outra forma de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, forma, certamente, mais compat\u00edvel com o vivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Colocar em pr\u00e1tica um tal princ\u00edpio cl\u00ednico exigiu abandonar a ideia de que apenas o simb\u00f3lico tem o poder de nomear o que \u00e9 real e o que \u00e9 imagin\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 somente a triplicidade do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio que Lacan insere, na obra de Freud, mas tamb\u00e9m uma concep\u00e7\u00e3o de que esses tr\u00eas registros se mant\u00eam atados pelo significante do Nome-do-Pai. Enfim, cabe colocar a quest\u00e3o: os elementos desse tern\u00e1rio podem estar amarrados de um modo distinto? \u00c9, certamente, isso que constitui toda a elabora\u00e7\u00e3o de Lacan a partir dos anos 70. Se os tr\u00eas registros podem ser enla\u00e7ados de uma outra maneira, ou seja, por uma via distinta da nomea\u00e7\u00e3o que tem como fonte o simb\u00f3lico, torna-se necess\u00e1rio proceder a uma releitura do Nome-do-Pai. Em primeiro lugar, essa releitura do Nome-do-Pai o conduziu a estabelecer uma disjun\u00e7\u00e3o entre uma teoria do nome e uma teoria do pai. \u00c9 a separa\u00e7\u00e3o entre os problemas canibal\u00edsticos, ligados ao pai \u2013 os problemas da incorpora\u00e7\u00e3o de um tra\u00e7o, que remontam a uma forma prim\u00e1ria da identifica\u00e7\u00e3o \u2013, e a quest\u00e3o da nomea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia \u00faltima desse questionamento \u00e9 afirmar que a nomea\u00e7\u00e3o pode ser tomada n\u00e3o apenas como simb\u00f3lica, mas tamb\u00e9m como imagin\u00e1ria e real. Se Lacan enfrenta a quest\u00e3o da nomea\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque, no primeiro tempo de seu ensino, a nomea\u00e7\u00e3o aparece, quase que espontaneamente, sob o encargo do simb\u00f3lico. Nesse primeiro tempo, a quest\u00e3o da nomea\u00e7\u00e3o se coloca da seguinte maneira: a chamada simboliza\u00e7\u00e3o primordial \u00e9, antes de tudo, uma forma de nomea\u00e7\u00e3o que incide sobre o real concernido pelo desejo da m\u00e3e, cujo agente essencial \u00e9 o Nome-do-Pai, que equivale ao pai esvaziado de gozo \u2013 enfim, ao pai morto. Em suma, antes, a nomea\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, promovida pelo pai morto, cumpria um papel de ordena\u00e7\u00e3o da estrutura do inconsciente e, portanto, de transmiss\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Ao contr\u00e1rio, o \u00faltimo ensino passa, assim, a ser receptivo ao tomar tanto o imagin\u00e1rio quanto o real como fatores de nomea\u00e7\u00e3o. \u00c9 evidente que essa mudan\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao problema da nomea\u00e7\u00e3o repercute diretamente naquele da transmiss\u00e3o do pai necess\u00e1ria \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Adeus ao pai morto!<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quero sublinhar em que a quest\u00e3o paterna, para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica, se institui, por sua radical irredutibilidade, a uma determinada fun\u00e7\u00e3o universal dada pelo Nome-do-Pai. Desde o momento em que Lacan inventa o objeto (a), a face singular do exerc\u00edcio da paternidade define-se pelo fato de que o pai \u00e9 sempre o \u201cvetor de uma encarna\u00e7\u00e3o da lei no desejo\u201d, na medida em que \u00e9 capaz de deixar vazio o lugar que ocupa no seio da fam\u00edlia. O pai que se toma por um pai, um pai sem falhas, um pai ideal, a exemplo do pai do Presidente Schreber, mostra-se um tirano na vida dom\u00e9stica, quer colocar ordem na casa impondo uma solu\u00e7\u00e3o e um regulamento para tudo. Sob essa perspectiva, a impostura paterna define-se pelo modo como o pai se confunde com uma lei universal, tornando-se, assim, a pr\u00f3pria causa do filho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cencarna\u00e7\u00e3o da lei no desejo\u201d quer dizer, tamb\u00e9m, encarna\u00e7\u00e3o da lei naquilo que n\u00e3o pode ser, de forma alguma, um ideal. N\u00e3o se desconhece, portanto, o fato de que as leis s\u00e3o feitas em nome de ideais e, nesse sentido, \u00e9 preciso considerar que o discurso religioso, bem como o discurso jur\u00eddico, apenas funciona com o apoio desses ideais, buscando fazer acreditar que, sem eles, nada na vida tem \u00eaxito. Afirmar que a encarna\u00e7\u00e3o da lei se efetua no plano do desejo \u2500 e n\u00e3o no plano do ideal \u2500 \u00e9 dizer que o pai pode humanizar o desejo pela via de um tratamento efetivo da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que lhe concerne. \u00c9 essa satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que assume, no ensino de Lacan, o nome de \u201cmodo de gozo\u201d. Assim, a lei paterna n\u00e3o se alimenta das mais diversas virtudes morais, mas da quest\u00e3o de um pai, diante de seus filhos, saber, ou n\u00e3o, ser respons\u00e1vel pelo seu \u201cmodo de gozo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso significa que n\u00e3o h\u00e1 regras universais que configurem um manual de instru\u00e7\u00f5es concernentes ao que \u00e9 ser pai. H\u00e1 sempre pais, no plural \u2500 isto \u00e9, pais singulares \u2500, pois estes se caracterizam sempre em fun\u00e7\u00e3o dos seus modos pr\u00f3prios de gozo. Se \u00e9 preciso vislumbrar a quest\u00e3o paterna para al\u00e9m de uma lei universal, \u00e9 porque ser pai \u00e9 tornar lei o particular \u2013 o particular do gozo que resiste a se deixar absorver pelos ideais, pelas identifica\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis ao longo do percurso de vida de um sujeito. Se essa responsabiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece, n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja transmiss\u00e3o do pai, exatamente, no ponto em que o pai se afirma com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 montagem particular de seu modo de gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 algo no pai que extrapola a suposta fun\u00e7\u00e3o pacificadora do pai morto, pois \u00e9 sabido que a met\u00e1fora do pai fracassa sempre em barrar o gozo. Muitas vezes, \u00e9-se for\u00e7ado a admitir, no trabalho cl\u00ednico, que o elemento transmiss\u00edvel da met\u00e1fora do pai corresponde muito mais \u00e0 meton\u00edmia do gozo. Se h\u00e1, no mito freudiano, morte do pai, e se h\u00e1, no del\u00edrio schereberiano, morte da alma, morte do sujeito, n\u00e3o h\u00e1, contudo, morte do gozo. A obra do Marqu\u00eas de Sade \u00e9 o maior exemplo desse car\u00e1ter indestrut\u00edvel do gozo, obra que coincide com a dimens\u00e3o constante da puls\u00e3o. Conhece-se o gesto do Marqu\u00eas, lavrado em testamento, que ordenava o apagamento de qualquer ind\u00edcio do nome pr\u00f3prio em seu monumento f\u00fanebre. Apenas se compreende essa recusa da inscri\u00e7\u00e3o de seu nome quando se leva em conta o seu interesse supremo pela dimens\u00e3o do gozo. Portanto, ele sempre postulou o gozo como o que o eternizaria enquanto ser, pois sempre concebeu o gozo como infinito e indestrut\u00edvel. \u00c9 essa dimens\u00e3o do gozo infinito e inesgot\u00e1vel que eternizaria o seu ser e n\u00e3o como o significante do nome-pr\u00f3prio inscrito na sua obra escrita (SANTIAGO, 1996, p. 22).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se, do ponto de vista da met\u00e1fora paterna, esse gozo infinito e indestrut\u00edvel se mostra imposs\u00edvel, do ponto de vista da meton\u00edmia, ele \u00e9 real \u2013 o que n\u00e3o o torna mais permitido. Para que o gozo se fa\u00e7a permitido, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o tanto matar o pai \u2013 via sem sa\u00edda \u2013, mas reconhec\u00ea-lo como semblante. O semblante do pai \u00e9 o signo de que houve transmiss\u00e3o do pai, naquilo que o divide, a saber, o real de seu modo de gozo. A apreens\u00e3o do semblante paterno, no curso do tratamento, constitui o \u00edndice de que o sujeito p\u00f4de tocar no real do gozo tal como ele se explicita pelo modo como se instaurou a pai-vers\u00e3o. Fica evidente que \u00e9 essa aproxima\u00e7\u00e3o do pai ao gozo que levou Lacan a calcar sua nova concep\u00e7\u00e3o do fun\u00e7\u00e3o paterna na asson\u00e2ncia entre a vers\u00e3o do pai (p\u00e8re-version) e a pervers\u00e3o (perversion). Ao contr\u00e1rio do pai morto, concebe-se a no\u00e7\u00e3o de pai-vers\u00e3o como uma contrapartida do car\u00e1ter indestrut\u00edvel do gozo trans-estrutural e trans-categorial e, nesse sentido, ela se constitui enquanto um pilar do que se designa como a vertente continu\u00edsta da cl\u00ednica lacaniana, visto que convive bem com a transmiss\u00e3o do pai tanto em casos de neurose quanto em casos de psicose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fazer do pai um semblante<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o pai singular que pude apresentar, no in\u00edcio desta exposi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 aqu\u00e9m de saber se responsabilizar pelo seu pr\u00f3prio modo de gozo. Em poucas palavras, tornar particular o gozo equivale a poder viver a puls\u00e3o. Nesse particular, o desejo do analista faz a diferen\u00e7a. Enquanto a transfer\u00eancia conduz a demanda \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o, separando-a da puls\u00e3o, ao contr\u00e1rio, o desejo do analista, operando sobre essa curto-circuito da imagem, abre caminho para a puls\u00e3o. O que \u00e9 que se produz quando a demanda do sujeito, dirigida ao analista, alcan\u00e7a a puls\u00e3o? \u00c9 uma pergunta que Lacan faz e, a meu ver, possui um alcance cl\u00ednico inestim\u00e1vel. Ele diz algo, a esse prop\u00f3sito, bastante curioso. Algo que, no fundo, envolve alguma obscuridade em sua formula\u00e7\u00e3o. Ele diz, simplesmente, que, nesse momento, a fantasia se torna puls\u00e3o. \u00c9 muito estranho dizer que a fantasia, uma vez que se tenha franqueado o plano das identifica\u00e7\u00f5es, se transforma na puls\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o dessa quest\u00e3o apenas \u00e9 poss\u00edvel porque tanto a puls\u00e3o como a fantasia se articulam em fun\u00e7\u00e3o do tra\u00e7o comum que re\u00fanem, uma e outra, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o ao gozo. Isso comporta a ideia de que o sujeito mais aqu\u00e9m do plano da identifica\u00e7\u00e3o, ou mesmo instalado no plano da identifica\u00e7\u00e3o, deixa a puls\u00e3o confinada pela satisfa\u00e7\u00e3o da fantasia. Cabe colocar a quest\u00e3o sobre o que \u00e9 o gozo sob o crivo da fantasia e o que se faz com ele para-al\u00e9m do dispositivo fantasia. \u00c9 preciso, assim, criar as condi\u00e7\u00f5es para que o sujeito possa localizar-se com rela\u00e7\u00e3o ao objeto (a) para que a fantasia cesse de mascarar a puls\u00e3o. De outro modo, o chamado franqueamento do plano da identifica\u00e7\u00e3o apenas \u00e9 poss\u00edvel por meio da separa\u00e7\u00e3o do sujeito, na experi\u00eancia anal\u00edtica, do ponto em que ele se confunde com o objeto (a).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa separa\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto (a), no desenrolar do tratamento anal\u00edtico, equivale \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre os significantes-mestres e o mais-gozar, de forma que este \u00faltimo vai, pouco-a-pouco, adquirindo consist\u00eancia. Captar a pai-vers\u00e3o \u00e9 fazer do pai um semblante, \u00e9 resgatar o \u201ccomo\u201d do gozo que contrasta, frontalmente, com as virtudes e os ideais que esse pai encarnava enquanto um religioso devoto e abnegado \u00e0 causa do cristianismo. Eu diria que o eixo essencial da orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, do \u00faltimo ensino, sobre a quest\u00e3o paterna, exige levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias a separa\u00e7\u00e3o entre os significantes-mestres e o mais-gozar. A pai-vers\u00e3o \u00e9 a apreens\u00e3o do pai no ponto preciso do seu la\u00e7o com uma mulher particular, e n\u00e3o com um universal, tampouco da m\u00e3e enquanto sempre proibida e, nesse sentido, sempre universal \u2013 \u00e9 o la\u00e7o com algo particular do feminino que presentifica, para um pai, a causa de desejo.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>COTTET, Serge. \u201cFeu sur l\u2019ordre symbolique\u201d, In: La Cause Freudienne. Nouvelle revue de psychanalyse, Paris, jun. 2005, p. 130.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d (1958), In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas I e II\u201d, Dispon\u00edvel em: www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero5\/ e www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero6\/, jun. e nov. 2011.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. \u201cUma fantasia\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista internacional de psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo, fev. 2005, p. 10.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J\u00e9sus. \u201cO nome-pr\u00f3prio n\u00e3o nomeia a causa do desejo\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista internacional de psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo, fev. 1996, p. 22.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>TORT, Michel. Fin du dogme paternal. Paris: Flammarion, 2005<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1]TORT, Michel. Fin du dogme paternal. Paris: Flammarion, 2005. O livro busca lan\u00e7ar as bases de uma hist\u00f3ria positiva da paternidade, procurando contrapor-se \u00e0s an\u00e1lises nost\u00e1lgicas sobre o relato de um decl\u00ednio permanente. Intenciona apreender as principais causas da decomposi\u00e7\u00e3o da \u201csolu\u00e7\u00e3o paterna\u201d e das tentativas de restaura\u00e7\u00e3o pelo bricolage de uma \u201cordem simb\u00f3lica\u201d, encarregada de resistir \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o da ordem antiga, mas tamb\u00e9m discernir a inven\u00e7\u00e3o dos novos modos de paternidade, ligados \u00e0s novas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eaneros e de sexo. Apesar da cr\u00edtica mordaz do uso dogm\u00e1tico da quest\u00e3o paterna, na psican\u00e1lise, n\u00e3o me parece, no entanto, que o autor tenha levado em conta aspectos essenciais da quest\u00e3o do pai, presentes no primeiro momento quanto no per\u00edodo final do ensino de Jacques Lacan.<\/h6>\n<h6>[2]COTTET, Serge. Ibid.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>J\u00c9SUS SANTIAGO<\/strong><\/h6>\n<h6>AE, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (AMP)\u00a0<span id=\"cloak3b0684540aa56c6cd138e839939dab78\"><a href=\"mailto:santiago.bhe@terra.com.br\">santiago.bhe@terra.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00c9SUS SANTIAGO HELENA ALMEIDA, PINTURA HABITADA, 1975 &nbsp; Uma das quest\u00f5es cl\u00ednicas com a qual a psican\u00e1lise atual se debate \u00e9 saber at\u00e9 que ponto a doutrina do pai, no primeiro classicismo cl\u00ednico de Jacques Lacan, est\u00e1 aqu\u00e9m do que se considera como a figura do pai na vida contempor\u00e2nea. 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