{"id":1047,"date":"2021-07-17T07:16:23","date_gmt":"2021-07-17T10:16:23","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1047"},"modified":"2025-12-01T13:31:18","modified_gmt":"2025-12-01T16:31:18","slug":"a-queda-do-falocentrismo-consequencias-para-a-clinica-das-toxicomanias-claudia-maria-generoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/17\/a-queda-do-falocentrismo-consequencias-para-a-clinica-das-toxicomanias-claudia-maria-generoso\/","title":{"rendered":"A queda do falocentrismo: consequ\u00eancias para a cl\u00ednica das toxicomanias &#8211; CL\u00c1UDIA MARIA GENEROSO"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"810\" data-large_image_height=\"699\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1048\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862.png\" alt=\"\" width=\"810\" height=\"699\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862.png 810w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862-300x259.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862-768x663.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>Cao Guimar\u00e3es<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CL\u00c1UDIA MARIA GENEROSO<br \/>\nCoordenadora do N\u00facleo de Toxicomania do IPSM-MG, doutora em Psicologia\/Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG, psic\u00f3loga no CAPS-AD Betim.<br \/>\nAv. Brasil, 1.831, sala 1011, Belo Horizonte \u2013 MG<br \/>\n<a href=\"mailto:claudia.generoso@yahoo.com.br\"><span id=\"cloak4cc32f55c29281396b8daca38c8dfb53\">claudia.generoso@yahoo.com.br<\/span><br \/>\n<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 (31) 996144466<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O artigo visa tra\u00e7ar um breve caminho sobre a no\u00e7\u00e3o de falo, nos momentos do ensino de Lacan, circunscrevendo alguns pontos que se referem \u00e0 queda do falocentrismo para situar, a partir de Miller, suas consequ\u00eancias na cl\u00ednica da toxicomania.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Falo; Queda do falocentrismo; Toxicomania.<\/p>\n<p><em>The fall of phallocentrism: consequences for the clinic of drug addiction<\/em><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The article aims to trace a brief path of the notion of phallus, in different moments of Lacan&#8217;s teaching, circumscribing some points that refer to the fall of phallocentrism to situate, from Miller on, its consequences to the clinic of drug addiction.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Phallus; Fall of phallocentrism; Drug addiction.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A queda do falocentrismo: consequ\u00eancias para a cl\u00ednica das toxicomanias<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/36-almanaque-no-21\/479-falocentrismo#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para falar sobre as consequ\u00eancias da queda do falocentrismo na cl\u00ednica das toxicomanias, vamos, antes, tra\u00e7ar um breve caminho sobre a no\u00e7\u00e3o do falo nos momentos do ensino de Lacan, que foi se modificando no desenrolar de suas pr\u00f3prias investiga\u00e7\u00f5es. Se, no primeiro ensino, a quest\u00e3o do simb\u00f3lico ocupava o centro, mais para o final ser\u00e1 em torno do real que suas elabora\u00e7\u00f5es ser\u00e3o desenvolvidas. De maneira breve, destacamos dois momentos: um primeiro momento, em que a no\u00e7\u00e3o de real estava articulada ao simb\u00f3lico, isto \u00e9, o real como possibilidade de ser simbolizado, e sendo o Nome do Pai (NP) sua chave, assim como seu correlato, que era o ordenamento f\u00e1lico da libido (MILLER, 2014, p. 24); e um segundo momento, j\u00e1 no final de seu ensino, quando Lacan p\u00f4de vislumbrar os efeitos do capitalismo associado \u00e0 ci\u00eancia, que dariam novo movimento \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, e os efeitos na subjetividade, sendo em torno dessa conjuntura que desenvolveu suas elabora\u00e7\u00f5es sobre a outra concep\u00e7\u00e3o sobre o real.<\/p>\n<p>No momento simb\u00f3lico, o falo ser\u00e1 concebido a partir do significante, considerando a constru\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora paterna, que \u00e9 uma maneira de formalizar, com os elementos da lingu\u00edstica, o \u00c9dipo freudiano. Nessa constru\u00e7\u00e3o, Lacan define o Nome do Pai como um significante que tem fun\u00e7\u00e3o de lei. Um significante fundamental, com valor de \u201cmet\u00e1fora que coloca esse Nome em substitui\u00e7\u00e3o ao lugar primeiramente simbolizado pela opera\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia da m\u00e3e\u201d (LACAN, 1958, p. 563), significante tal que barra o desejo materno produzindo uma nova significa\u00e7\u00e3o, nomeada de significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, que regular\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e crian\u00e7a. O falo como significante ordenar\u00e1 o desejo, regulando o gozo e tornando-se um operador fundamental na dimens\u00e3o desejante humana. O NP ter\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o de normatiza\u00e7\u00e3o do mundo pela ordena\u00e7\u00e3o do campo simb\u00f3lico, em que cada coisa est\u00e1 em seu lugar, sustentado pela for\u00e7a f\u00e1lica do Outro e de seus ideais.<\/p>\n<p>Nos semin\u00e1rios finais de Lacan haver\u00e1 uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao estatuto do simb\u00f3lico, que n\u00e3o mais se destacar\u00e1 como orientador das rela\u00e7\u00f5es humanas, visto que a civiliza\u00e7\u00e3o sofrer\u00e1 os efeitos da queda do falo na vida social contempor\u00e2nea e na cl\u00ednica. Nessa perspectiva, no Semin\u00e1rio 17,\u00a0<em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>, Lacan demarcar\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o do mais-de-gozar no mundo contempor\u00e2neo e sua incid\u00eancia sobre o objeto a, dizendo que<\/p>\n<p>A sociedade de consumidores adquire seu sentido quando ao elemento, entre aspas, que se qualifica de humano se d\u00e1 o equivalente homog\u00eaneo de um mais-de-gozar qualquer, que \u00e9 o produto de nossa ind\u00fastria, um mais-de-gozar \u2013 para dizer de uma vez \u2013 forjado (LACAN, 1969-70, p. 76).<\/p>\n<p>O mercado, ao bancar o mais-de-gozar, amplia o registro do objeto\u00a0<em>a<\/em>, que se multiplica no n\u00edvel dos objetos forjados pela ind\u00fastria, os\u00a0<em>gadgets<\/em>, para provocar o consumo com a promessa de obturar a falta, produzindo novos modos de gozo insaci\u00e1veis. Nesse contexto, Lacan apontar\u00e1 para a ascens\u00e3o do objeto e para a queda da fun\u00e7\u00e3o paterna na ordena\u00e7\u00e3o social e, como consequ\u00eancia, para uma defici\u00eancia do gozo f\u00e1lico, a fim de normalizar as rela\u00e7\u00f5es dos seres humanos.<\/p>\n<p>Os efeitos da queda do falocentrismo ficam ainda mais evidentes no Semin\u00e1rio 20,\u00a0<em>Mais, ainda<\/em>, e nos posteriores, quando Lacan elabora uma teoria da sexualidade cujo norte n\u00e3o \u00e9 o gozo f\u00e1lico, mas sim um outro tipo de gozo, que o autor nomeia de suplementar, ou seja, o gozo feminino, o gozo do corpo. Se o falo como significante simboliza o lado do homem, do lado da mulher haver\u00e1 uma car\u00eancia do significante para simboliz\u00e1-la, entrando em cena um outro tipo de gozo, que \u00e9 suplementar.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de gozo feminino ser\u00e1 sustentada por Lacan a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, em que contrap\u00f5e a l\u00f3gica do\u00a0<em>todo\u00a0<\/em>\u00e0 l\u00f3gica do\u00a0<em>n\u00e3o-todo\u00a0<\/em>em rela\u00e7\u00e3o gozo f\u00e1lico, sendo que qualquer \u201cser falante se inscreve de um lado ou de outro\u201d (LACAN, 1972-73, p. 107). Se o lado homem se define pela l\u00f3gica do todo, a mulher \u201cse define por uma posi\u00e7\u00e3o com o n\u00e3o-todo no que se refere ao gozo f\u00e1lico\u201d (LACAN, 1972-73, p. 15, p. 99), apresentando, a\u00ed, um gozo suplementar. Gozo tal que indica que h\u00e1 algo a mais, estando conectado ao gozo do corpo, o qual se experimenta e do qual n\u00e3o se sabe nada, pautando-se pelo sem sentido. Gozo sem limites, sustentado pela itera\u00e7\u00e3o de uma satisfa\u00e7\u00e3o superegoica que se multiplica por n\u00e3o estar circunscrita, recusando o vazio estrutural que define a subjetividade devido \u00e0 inexist\u00eancia do gozo universal.<\/p>\n<p>\u00c9 na l\u00f3gica do n\u00e3o-todo que vemos a sociedade contempor\u00e2nea se constituir, demarcando uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao objeto\u00a0<em>a<\/em>. Se no Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0se refere ao regime da exce\u00e7\u00e3o, no Semin\u00e1rio 20 (<em>Mais ainda<\/em>) ele ser\u00e1 regido pela l\u00f3gica do n\u00e3o-todo, correlacionado ao mais-de-gozar e, por isso, se proliferar\u00e1, estando em toda parte (MILLER, 2005, p. 24;25<u>)<\/u>. \u00c9 nessa conjuntura de ascens\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0ao z\u00eanite social (LACAN, 1970) que Miller, no texto \u201cA teoria do parceiro\u201d, dir\u00e1 que a toxicomania representa bem o momento contempor\u00e2neo, pois \u201cela traduz a solid\u00e3o de cada um com seu parceiro mais-de-gozar\u201d (2000\/1997, p. 170). Condi\u00e7\u00e3o tal que pertence ao liberalismo e seus desdobramentos \u201c(&#8230;) em que n\u00e3o nos ocupamos de construir o Outro, e que os valores ideais do Outro desagregam-se frente \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o que prescinde do Ideal\u201d (<em>Ibid<\/em>.).<\/p>\n<p>Sabemos que o mestre contempor\u00e2neo, ou seja, o discurso capitalista, acarreta consequ\u00eancias na civiliza\u00e7\u00e3o e na subjetividade. Sinatra, no III Col\u00f3quio Americano TyA\/2017<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/36-almanaque-no-21\/479-falocentrismo#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, diz que h\u00e1 um componente aditivo no circuito do consumo de mercadorias na atualidade, produzindo drogas-mercadorias no sentido de as mercadorias terem, em si, um valor aditivo.<\/p>\n<p>Isso se torna poss\u00edvel porque se valem diretamente da condi\u00e7\u00e3o estrutural da subjetividade, que se constitui a partir da marca da inexist\u00eancia de um gozo universal. Essa marca do vazio se institui tamb\u00e9m, nos tempos atuais, como matriz onde se inserem os\u00a0<em>gadgets<\/em>. O discurso capitalista interv\u00e9m no mercado produzindo um objeto para saturar, com os pequenos objetos, este vazio central do gozo imposs\u00edvel. Sua fun\u00e7\u00e3o: a de fazer existir um gozo suplementar dos sexos, que n\u00e3o h\u00e1 (SINATRA, 2017).<\/p>\n<p>Com isso, o que se substitui n\u00e3o \u00e9 um objeto, mas sim um gozo que n\u00e3o existe. Nessa promessa de suturar o vazio pelos objetos-mercadoria, o que se produz \u00e9 a itera\u00e7\u00e3o do gozo imposs\u00edvel de se satisfazer.<\/p>\n<p>No contexto do Outro dos ideais que se esvanecem, e em que Miller se refere ao Outro que n\u00e3o existe, abre-se um processo no qual o sujeito contempor\u00e2neo se encontra em movimentos acelerados e encontros ef\u00eameros, abertos, por um lado, \u00e0 diversidade de formas de gozo e \u00e0 multiplicidade de comunidades e tribos, mas, por outro lado, observa-se uma crescente intoler\u00e2ncia aos modos de gozo do outro, ao diferente, o que leva a uma profus\u00e3o de formas de segrega\u00e7\u00e3o. Laurent (2014) comenta que Lacan j\u00e1 se preocupava com a globaliza\u00e7\u00e3o como efeito do capitalismo e, em suas elabora\u00e7\u00f5es sobre o racismo, especialmente o nazista, antevia os desdobramentos de novas segrega\u00e7\u00f5es, dizendo em seu texto de 1967: \u201cNosso futuro de mercados comuns encontrar\u00e1 sua balan\u00e7a na extens\u00e3o cada vez mais dura dos processos de segrega\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1967, p. 263). O que est\u00e1 em jogo nessa frase de Lacan \u00e9 a dificuldade de suportar o modo de gozo do outro que se apresenta como estrangeiro, \u201crejeitando um gozo distinto do meu\u201d e que remete ao inquietante estranho que cada um comporta, estando a segrega\u00e7\u00e3o ancorada nessa rejei\u00e7\u00e3o. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0O autor prossegue dizendo que, se Lacan insistia nessa discuss\u00e3o do racismo, era para demonstrar que \u201ctodo conjunto humano comporta em seu fundo um gozo deslocado, um n\u00e3o-saber fundamental sobre o gozo, que corresponderia a uma identifica\u00e7\u00e3o\u201d (LAURENT, 2014, s\/p.), e \u00e9 isso que est\u00e1 no fundamento do la\u00e7o social. Lacan, em\u00a0<em>Televis\u00e3o<\/em>, comenta que, \u201cno desatino do nosso gozo, s\u00f3 h\u00e1 o Outro para situ\u00e1-lo, mas na medida em que estamos separados dele\u201d (1973, p. 534). No entanto, o contempor\u00e2neo demostra uma colagem de modos de gozo, rejeitando o gozo imposs\u00edvel e, com isso, o que lhe \u00e9 diferente. Em tempos de queda dos ideais e de uma civiliza\u00e7\u00e3o cada vez mais orientada pela l\u00f3gica do gozo feminino, vemos se multiplicar as formas de gozo e seus embates na sociedade. Laurent dir\u00e1 que n\u00e3o se trata de choque de civiliza\u00e7\u00f5es, mas sim de choque dos gozo: \u201cEsses gozos m\u00faltiplos fragmentam o la\u00e7o social, da\u00ed a tenta\u00e7\u00e3o de apelo a um Deus unificador\u201d (LAURENT, 2014, s\/p.).<\/p>\n<p>No Brasil, podemos situar uma das novas formas de segrega\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as \u201ccracol\u00e2ndias\u201d e seus efeitos no social. Diante desses espa\u00e7os fora da lei, que atualizam um modo de gozo estranho, sempre surgem tentativas de interven\u00e7\u00f5es sociais, sejam de car\u00e1ter de inser\u00e7\u00e3o social, sejam de medidas higienistas. Destacamos duas delas: por um lado, a proposta de incluir esse agrupamento de alguma forma no social a partir das no\u00e7\u00f5es de direitos humanos e cidadania, contempladas pela ideia de redu\u00e7\u00e3o de danos. Por outro lado, as antigas formas proibicionistas e higienistas de combate \u00e0s drogas, cada vez mais crescentes atualmente. Mas quanto mais se combate as \u201ccracol\u00e2ndias\u201d, como o exemplo de S\u00e3o Paulo, mais se espalham os agrupamentos pela cidade. Tais agrupamentos nos mostram tamb\u00e9m a atualidade do gozo aut\u00edstico como uma modalidade do contempor\u00e2neo, pois, mesmo os consumidores estando em um mesmo espa\u00e7o, cada um se encontra imerso em seu pr\u00f3prio gozo.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cl\u00ednica, nos perguntamos como podemos pensar a toxicomania considerando a queda do falocentrismo. Naparstek, no argumento do Encontro TyA que aconteceu em abril deste ano em Barcelona, destaca tr\u00eas tempos de elabora\u00e7\u00f5es sobre a toxicomania no ensino de Miller, desenvolvidas considerando a tese de Lacan da \u201crela\u00e7\u00e3o da droga com o pequeno pipi\u201d. Naparstek diz que a primeira vers\u00e3o de Miller sobre as toxicomanias se encontra ancorada nas elabora\u00e7\u00f5es sobre o falo, fazendo refer\u00eancia ao texto \u201cPara uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o gozo autoer\u00f3tico\u201d, de 1989. Nesse texto, Miller refere-se \u00e0 toxicomania como o que coloca quest\u00e3o ao falo. Diz que a especificidade do gozo toxic\u00f4mano \u00e9 que n\u00e3o passa pelo Outro nem pelo gozo f\u00e1lico, caracterizando-se por romper o casamento com o pequeno pipi, n\u00e3o permitindo, assim, colocar o problema sexual (MILLER, 1989\/2016, p. 28). \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00c9, portanto, uma rela\u00e7\u00e3o de ruptura com o gozo f\u00e1lico.<\/p>\n<p>O segundo momento das elabora\u00e7\u00f5es de Miller giram em torno do objeto pequeno\u00a0<em>a<\/em>, fazendo refer\u00eancia aos textos da \u00e9poca do parceiro sintoma (\u201cTeoria do parceiro\u201d, 1997\/2000). J\u00e9sus Santiago, em\u00a0<em>A droga do toxic\u00f4mano<\/em>\u00a0(2017, p. 233), demarca que essa formula\u00e7\u00e3o de Miller possibilitou conceber o Outro n\u00e3o apenas como lugar do significante, mas tamb\u00e9m como o que se representa como corpo, permitindo entender os novos sintomas, tal como a toxicomania, como supremacia do gozo aut\u00edstico e mort\u00edfero. Nesse sentido, a toxicomania aparece como um gozo assexuado, prescindindo do parceiro sexual, tendo o car\u00e1ter de um antiamor, uma vez que estabelece o parceiro-droga como mais-de-gozar, havendo a preval\u00eancia dessa vertente em conex\u00e3o com um objeto artificial. A teoria da droga como ruptura f\u00e1lica \u00e9 comentada por Santiago considerando as concep\u00e7\u00f5es do \u00faltimo ensino de Lacan, situando a especificidade do ato toxic\u00f4mano como uma ruptura com o gozo decorrente da parceria com o falo. Parceria esta que fomenta o gozo necess\u00e1rio ao ser falante para lidar com os embara\u00e7os decorrentes do gozo como imposs\u00edvel. Na toxicomania, o que se observa \u00e9 um excesso de gozo prevalecendo sua vertente mort\u00edfera, que n\u00e3o conv\u00e9m \u00e0 vida, numa ruptura com o desejo e o amor (ponto a ser desenvolvido por Mariana Vidigal, no semin\u00e1rio te\u00f3rico\u00a0<em>\u201c<\/em>O uso de drogas como anti-amor e o recurso do falo\u201d, e pelos coment\u00e1rios de Cristina Nogueira).<\/p>\n<p>No terceiro momento das formula\u00e7\u00f5es de Miller, em \u201cLer um sintoma\u201d (2011), Naparstek, em \u201cEnganches y desenganches en las toxicomanias y las adicciones\u201d, destaca que o autor se refere mais \u00e0 adi\u00e7\u00e3o do que \u00e0 toxicomania: \u201cNeste caso, n\u00e3o se trata do falo ou do objeto pequeno a, mas do sintoma nos termos do \u00faltimo Lacan. Refere-se \u00e0 itera\u00e7\u00e3o do sintoma e \u00e0 adi\u00e7\u00e3o como modelo do sintoma enquanto tal. Um sintoma separado do Outro e vazio de sentido\u201d (2018, p. 22). Assim sendo, a concep\u00e7\u00e3o das psicoses ordin\u00e1rias coloca em quest\u00e3o a no\u00e7\u00e3o da tese de ruptura relacionada \u00e0 droga no ensino de Lacan, especialmente aquela pautada pela refer\u00eancia ao NP. Mais do que ruptura, o autor sugere, com Miller, pensar em ligamentos e desligamentos do Outro, reafirmando a no\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica borromeana, flex\u00edvel \u00e0s solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas como amarra\u00e7\u00f5es. Nessa perspectiva, o Nome do Pai, concebido como predicado, se instala como uma solu\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria ao substituir o substituto NP. Por esse vi\u00e9s, Santiago comenta, referindo-se \u00e0s psicoses ordin\u00e1rias, que a droga pode se revelar um \u201csubstituto substitu\u00eddo\u201d, podendo ser um NP na rela\u00e7\u00e3o que o sujeito tem com seu corpo. Ou seja, uma solu\u00e7\u00e3o para as desordens do gozo do toxic\u00f4mano, especialmente quando se verifica a pr\u00e1tica do consumo como uma t\u00e9cnica de corpo com a droga (SANTIAGO, 2017, p. 240). Na cl\u00ednica das amarra\u00e7\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel pensar pr\u00e1ticas de consumo de drogas que podem funcionar como uma forma compensat\u00f3ria de ligamentos ou desligamentos do Outro (quest\u00f5es que ser\u00e3o trabalhadas por Maria Wilma Faria em torno do tema \u201cruptura ou queda do falo nas toxicomanias e suas implica\u00e7\u00f5es na cl\u00ednica\u201d).<\/p>\n<p>Considerando os pontos levantados \u00e9 que foram abertos os trabalhos do semestre, ressaltando que a toxicomania nos mostra um funcionamento congruente ao gozo feminino, uma vez que nos indica o que escapa \u00e0 norma f\u00e1lica e aponta muito mais para uma itera\u00e7\u00e3o do gozo. Como vimos acima, o estatuto do gozo feminino refere-se ao ilimitado, a uma dificuldade de contornar aquilo que, no gozo, se mostra como deslocado, que se apresenta como imposs\u00edvel. Nesse sentindo, colocamos como quest\u00e3o a ser investigada: a rela\u00e7\u00e3o com o parceiro-droga seria uma maneira de ruptura f\u00e1lica, uma forma rejeitar ou de contornar o gozo deslocalizado? Quest\u00e3o a ser abordada ao longo do semestre, no N\u00facleo de Toxicomania, por meio dos pontos desenvolvidos nas apresenta\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, tal como o tema de Rachel Botrel, \u201cA toxicomania como uma resposta \u00e0 queda do falocentrismo\u201d, e tamb\u00e9m verificados nos casos cl\u00ednicos apresentados por Marina Melo e comentado por Lilany Pacheco; por Marcelo Quint\u00e3o, com coment\u00e1rios de Francisco Paes Barreto; pelo coment\u00e1rio de Maria Jos\u00e9 Salum sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes de 2017; e tamb\u00e9m pela pr\u00e1tica da apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes a ser feita por J\u00e9sus Santiago.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1967). Proposi\u00e7\u00e3o 9 de outubro, In:\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.<\/h6>\n<h6>______. (1968-69)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio<\/strong>, Livro XVI: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6>______. (1969-70)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio<\/strong>, Livro XVII: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6>______. (1971).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio<\/strong>, Livro XIX: &#8230; ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012.<\/h6>\n<h6>______. (1972-73),\u00a0<strong>O semin\u00e1rio<\/strong>, Livro XX: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/h6>\n<h6>______. (1970\/2003). \u201cRadiofonia\u201d, In:\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>.\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.<\/h6>\n<h6>______. (1973) \u201cTelevis\u00e3o\u201d,\u00a0In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.<\/h6>\n<h6>LACAN, J (1975\/76).\u00a0<strong>Encerramento das Jornadas de Estudos de Cart\u00e9is da Escola Freudiana<\/strong>, Revista Pharmakon digital (2016), n. 02, vol. 1. Dispon\u00edvel em: &lt;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pharmakondigital.com\/indice2016_vol1_pt.html\">http:\/\/www.pharmakondigital.com\/indice2016_vol1_pt.html<\/a>&gt;.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. (2014).\u00a0<strong>O racismo 2.0<\/strong>: Lacan Cotidiano n. 371. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/ampblog2006.blogspot.com.br\/2014\/02\/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html\">http:\/\/ampblog2006.blogspot.com.br\/2014\/02\/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html<\/a>&gt;.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cPara uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o gozo autoer\u00f3tico\u201d,\u00a0<strong>Revista Pharmakon<\/strong>\u00a0digital (2016), n. 02, vol. 1. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.pharmakondigital.com\/indice2016_vol1_pt.html\">http:\/\/www.pharmakondigital.com\/indice2016_vol1_pt.html<\/a>&gt;.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A (2013). \u201cO Outro sem o Outro\u201d. Diretoria na Rede. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/dr\/orientacao\/orientacao005.asp%20\">https:\/\/www.ebp.org.br\/dr\/orientacao\/orientacao005.asp\u00a0<\/a>&gt;.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura do Semin\u00e1rio 10 da Ang\u00fastia de Jacques Lacan\u201d, In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana.<\/strong>\u00a0S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia, n. 43. Maio de 2005, p. 7-91.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. (1997). \u201cA teoria do parceiro\u201d, In:\u00a0<strong>Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000, p. 153-207.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A (1998). \u201cO sintoma como aparelho\u201d, In:\u00a0<strong>O sintoma-charlat\u00e3o<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 9-21.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>El partenaire-s\u00edntoma<\/strong>: Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2008.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cLer um sintoma\u201d (2011). Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br\">http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br<\/a>.<\/h6>\n<h6>NAPARSTEK, F. \u201cEnganches y desenganches en las toxicomanias y las adicciones\u201d, In:\u00a0<strong>La inquietante familiaridad de las<\/strong>\u00a0<strong>drogas<\/strong>. Olivos &#8211; Buenos Aires: Grama Ediciones, 2018, p. 21-23.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. \u201cDroga, ruptura f\u00e1lica e psicose ordin\u00e1ria\u201d, In:\u00a0<strong>A droga do toxic\u00f4mano \u2013 uma parceria c\u00ednica na era da ci\u00eancia<\/strong>. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2017, p. 231-241.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/36-almanaque-no-21\/479-falocentrismo#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Abertura do 1\u00ba semestre de 2018 do N\u00facleo de Toxicomania.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/36-almanaque-no-21\/479-falocentrismo#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0O III Col\u00f3quio Americano da rede\u00a0<em>TyA<\/em>\u00a0ocorreu em 13 de setembro de 2017, na cidade de Buenos Aires, Argentina, como um dos eventos sat\u00e9lites do VIII ENAPOL, debatendo o tema \u201c<em>A inquietante familiaridade das drogas<\/em>\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cao Guimar\u00e3es &nbsp; &nbsp; CL\u00c1UDIA MARIA GENEROSO Coordenadora do N\u00facleo de Toxicomania do IPSM-MG, doutora em Psicologia\/Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG, psic\u00f3loga no CAPS-AD Betim. Av. Brasil, 1.831, sala 1011, Belo Horizonte \u2013 MG claudia.generoso@yahoo.com.br \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 (31) 996144466 &nbsp; \u00a0 Resumo:\u00a0O&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57915,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-1047","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-21","category-18","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1047"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57916,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1047\/revisions\/57916"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57915"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}