{"id":1062,"date":"2021-07-17T07:16:23","date_gmt":"2021-07-17T10:16:23","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1062"},"modified":"2025-12-01T13:32:52","modified_gmt":"2025-12-01T16:32:52","slug":"a-queda-do-falocentrismo-e-os-estatutos-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/17\/a-queda-do-falocentrismo-e-os-estatutos-da-violencia\/","title":{"rendered":"A Queda Do Falocentrismo E Os Estatutos Da Viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ANA MARIA COSTA DA SILVA LOPES \/ ANDR\u00c9A EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_35.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1440\" data-large_image_height=\"1080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1063\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_35-1024x768.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_35-1024x768.png 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_35-300x225.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_35-768x576.png 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_35.png 1440w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>CAO GUIMARAES<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es nos la\u00e7os sociais, associadas \u00e0 queda dos ideais e da crescente desvaloriza\u00e7\u00e3o do falo que ordenava a nossa civiliza\u00e7\u00e3o, t\u00eam nos colocado quest\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 quanto aos desdobramentos conceituais da psican\u00e1lise, mas sobre a condu\u00e7\u00e3o do tratamento anal\u00edtico sem a exclusividade da fun\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai como tratamento do gozo pelo sentido e sem uma refer\u00eancia clara ao \u00c9dipo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sabemos que a ordem simb\u00f3lica introduzida por Freud, com a inven\u00e7\u00e3o do inconsciente, era centrada no falo como significante ordenador. Apesar das cr\u00edticas feministas, Freud foi irredut\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tese do falocentrismo no inconsciente, quem, por sua vez, reconhece apenas um significante \u2013 o falo \u2013 para designar a dissimetria dos sexos, no qual organizar\u00e1 a quest\u00e3o da sexualidade por meio dos complexos de \u00c9dipo e de castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Atualmente, \u00e0 frente da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, o discurso da ci\u00eancia e o discurso capitalista, derivado do discurso do mestre tradicional, se potencializam, assumindo o comando das mais variadas formas de gozar. A desapari\u00e7\u00e3o da figura de autoridade encarnada pelo pai e a consequente desvaloriza\u00e7\u00e3o dos valores f\u00e1licos \u00e9 correlata \u00e0s muta\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito social e individual. Os efeitos na subjetividade se fazem notar pelo rebaixamento dos sujeitos a uma posi\u00e7\u00e3o de objetos, reduzidos ao seu valor de uso em detrimento dos poderes da palavra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abre-se, portanto, uma outra dimens\u00e3o da psican\u00e1lise, que nos aproxima da singularidade da cl\u00ednica do falasser. Se o sintoma antes dessa nova perspectiva era decifrado pela vertente do sentido, nos dias atuais, o sintoma \u00e9 tamb\u00e9m signo do real, efeito da incid\u00eancia da palavra sobre o corpo e que se manifesta sob a forma de acontecimentos diversos, fazendo prevalecer, muitas vezes, a puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Miller, a queda do falocentrismo decorre principalmente do fen\u00f4meno denominado \u201caspira\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e0 feminilidade\u201d (MILLER, 2011), que muito caracteriza a nova ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI e que surge em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201caspira\u00e7\u00e3o \u00e0 virilidade\u201d, termo utilizado por Freud para designar a recusa \u00e0 feminilidade de homens e mulheres ao final de an\u00e1lise (FREUD 1937\/1976, p. 261).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O falocentrismo, como fun\u00e7\u00e3o de gozo para Lacan, imp\u00f5e-se para todos no lado masculino das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o \u2013 conjunto definido a partir de que \u201cexiste ao menos um que escapa \u00e0 castra\u00e7\u00e3o\u201d \u2013, ao passo que, do lado feminino, \u201cn\u00e3o existe exce\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, situar-se numa posi\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 estar tamb\u00e9m submetido ao gozo f\u00e1lico, por\u00e9m n\u00e3o-todo (FUENTES, 2015).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 a virilidade \u00e9 o que protege o sujeito do enlouquecimento de um gozo feminino que, ao se desprender dos limites da castra\u00e7\u00e3o a partir do v\u00ednculo com o pai, apresenta-se de modo mort\u00edfero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sendo assim, a feminiza\u00e7\u00e3o do mundo, que decorre da aus\u00eancia de exce\u00e7\u00e3o \u2013 seja a exce\u00e7\u00e3o reguladora do pai e dos ideais, seja a exce\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica \u2013, e, por conseguinte, o enfraquecimento do viril, d\u00e3o lugar \u00e0 ferocidade do supereu feminino, que, distinto do supereu freudiano, que sinalizava o proibido, o dever e a culpa, exige a m\u00e1xima de gozo para todos (LACAN, 1974). Portanto, no lugar do significante-mestre que se destacava como um elemento simb\u00f3lico, mais ou menos est\u00e1vel, para as identifica\u00e7\u00f5es e representa\u00e7\u00f5es no Outro, encontra-se, atualmente, nesse lugar, o objeto a, que provoca uma fixa\u00e7\u00e3o de gozo que n\u00e3o remete ao Outro, mas ao corpo, dispersando e pluralizando as identifica\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, a feminiza\u00e7\u00e3o do mundo contribui para a viol\u00eancia, j\u00e1 que ela caminha pela via da deslocaliza\u00e7\u00e3o da irrup\u00e7\u00e3o pulsional, em desacordo com o gozo f\u00e1lico e paralelamente \u00e0 desordem do real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, ao considerarmos o que n\u00e3o \u00e9 mais o que era, ou seja, que essa nova dimens\u00e3o da psican\u00e1lise converge para pluraliza\u00e7\u00e3o dos Nomes-do-Pai, para a ostenta\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e para o real do sintoma, como ficariam, nos dias de hoje, a assun\u00e7\u00e3o do falo enquanto regulador de gozo e a orienta\u00e7\u00e3o do sujeito na confronta\u00e7\u00e3o com o desejo do Outro e com a castra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao longo de seu ensino, Lacan se refere ao falo de diferentes maneiras, sempre ressaltando sua import\u00e2ncia como operador cl\u00ednico. De significante do desejo e, depois, ao \u201csignificante do gozo\u201d, o falo \u00e9, antes de mais nada, um semblante (LACAN, 1988, p. 838).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se, em O Semin\u00e1rio 3, Lacan antecipa a consist\u00eancia de semblante do falo ao fazer refer\u00eancia \u00e0s apari\u00e7\u00f5es inapreens\u00edveis e ef\u00eameras do meteoro, ou seja, ainda que exista um esfor\u00e7o para ocultar algo, o que oculta \u00e9 nada (LACAN, 1955-1956, p. 357). Em O Semin\u00e1rio 23, Lacan ir\u00e1 conferir ao falo uma nova posi\u00e7\u00e3o, enquanto \u201co \u00fanico real que verifica o que quer que seja (\u2026)\u201d (LACAN, 1975-1976, 2007, p. 114). Sendo assim, o falo n\u00e3o mais se situa como efeito da significa\u00e7\u00e3o ed\u00edpica, ele \u00e9 positivado e reencontrado ao lado do signo, num deslizamento que marca um modo de gozo nomeado como sua pura repeti\u00e7\u00e3o, isolado na dimens\u00e3o do Um-sozinho e que n\u00e3o se liga a nada. Para Laurent, o falo enquanto \u201cum semblante que d\u00e1 testemunho de um real est\u00e1 fora da met\u00e1fora paterna\u201d (LAURENT, 2013).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As elabora\u00e7\u00f5es sobre a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, em seu car\u00e1ter operat\u00f3rio, nos orientam tanto na cl\u00ednica quanto na abordagem dos fen\u00f4menos sociais. Nesta \u00e9poca em que os semblantes vacilam, podemos situar o desencadeamento dos fen\u00f4menos de viol\u00eancia em sua dimens\u00e3o real como um dos efeitos da subida ao z\u00eanite social do objeto a. Uma dimens\u00e3o que n\u00e3o toma a rela\u00e7\u00e3o de causalidade como sua raz\u00e3o e o sentido a partir do Pai, mas que se trata de um dizer inconsciente que n\u00e3o faz apelo \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se liga a nada e n\u00e3o faz la\u00e7o com o semelhante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quais as incid\u00eancias para a psican\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o ao que se passa ao lado da inscri\u00e7\u00e3o, da n\u00e3o inscri\u00e7\u00e3o ou das falhas na inscri\u00e7\u00e3o do falo, sobretudo no que concerne \u00e0 violencia na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia? O que as crian\u00e7as e os adolescentes violentos que recebemos nos ensinam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 articula\u00e7\u00e3o inconsciente \u2013 recalque, sintoma? De quais maneiras a viol\u00eancia se presentifica nos dias de hoje? Quando o recalque est\u00e1 omisso, ou seja, quando a met\u00e1fora paterna e o \u00c9dipo rateiam, o que pode operar como regulador do desejo na cl\u00ednica do falasser?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller (2017), em sua interven\u00e7\u00e3o de encerramento da IV Jornada do Instituto da Crian\u00e7a, introduz a seguinte pergunta: \u201cA viol\u00eancia na crian\u00e7a \u00e9 um sintoma?\u201d. Para tanto, resgata a defini\u00e7\u00e3o do sintoma em \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, feita por Freud como \u201csigno e substituto (\u2026) de uma satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o\u201d. Ou seja, \u201co sintoma seria o signo e o substituto de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que n\u00e3o aconteceu\u201d (FREUD, 1951). Ent\u00e3o, como entender os atos violentos? Segundo Miller, \u00e9 preciso dar lugar a uma viol\u00eancia infantil como modo de gozar. Nesse sentido, ele prop\u00f5e dez pontos concernentes \u00e0 viol\u00eancia na crian\u00e7a (MILLER, 2017).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>A viol\u00eancia na crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um sintoma.<\/li>\n<li>Ela \u00e9, na verdade, o contr\u00e1rio de um sintoma.<\/li>\n<li>Ela n\u00e3o \u00e9 o resultado do recalque, mas, antes, a marca de que o recalque n\u00e3o operou.<\/li>\n<li>A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um substituto da puls\u00e3o; ela \u00e9 a puls\u00e3o. A viol\u00eancia \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte. O advers\u00e1rio de Eros, o advers\u00e1rio do amor, n\u00e3o \u00e9 o \u00f3dio, \u00e9 a morte, Th\u00e2natos.<\/li>\n<li>O \u00f3dio est\u00e1 do lado de Eros. \u00c9, efetivamente, uma liga\u00e7\u00e3o ao outro muito forte, \u00e9 um la\u00e7o social eminente.<\/li>\n<li>A viol\u00eancia est\u00e1 do lado de Th\u00e2natos. Eros fabrica o Um, introduz o soci\u00e1vel. Th\u00e2natos desfaz os Uns, solta, fragmenta. A crian\u00e7a violenta encontra satisfa\u00e7\u00e3o no simples fato de quebrar, de destruir.<\/li>\n<li>Pode ser que a viol\u00eancia na crian\u00e7a anuncie, exprima uma psicose em forma\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>\u00c9 preciso distinguir quando a viol\u00eancia resulta de um erro no processo de recalcamento ou de uma falha no estabelecimento da defesa.<\/li>\n<li>Deve-se distinguir o ato violento como aquilo que emerge de uma pot\u00eancia no real da viol\u00eancia simb\u00f3lica inerente ao significante, que se mant\u00e9m na imposi\u00e7\u00e3o de um significante mestre. Se essa imposi\u00e7\u00e3o de um significante mestre falta, o sujeito marca a si mesmo \u2013 escarifica\u00e7\u00e3o, tatuagem, diferentes maneiras de se cortar, de se torturar, de causar viol\u00eancia contra o pr\u00f3prio corpo.<\/li>\n<li>No que concerne \u00e0 viol\u00eancia no imagin\u00e1rio, ela surge tal como o fen\u00f4meno do transitivismo (quando o outro \u00e9 voc\u00ea e voc\u00ea \u00e9 o outro).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao s\u00e9timo item, Miller salienta que \u00e9 preciso questionar quatro pontos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>A viol\u00eancia nessa crian\u00e7a \u00e9 uma viol\u00eancia sem fala? \u00c9 pura irrup\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte, um gozo no real?<\/li>\n<li>O sujeito pode traduzi-la em palavras? \u00c9 um puro gozo no real ou bem ela \u00e9 simbolizada ou simboliz\u00e1vel?<\/li>\n<li>O puro gozo no real n\u00e3o assinala, necessariamente, a psicose. Mas traduz uma ruptura na trama simb\u00f3lica: trata-se de saber se \u00e9 puntiforme ou ampla.<\/li>\n<li>E se \u00e9 uma viol\u00eancia de que se pode falar, resta saber o que ela diz. \u00c9 importante buscar tra\u00e7os discretos de uma paranoia precoce (MILLER, 2017).<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Considerando os pontos destacados por Miller sobre as crian\u00e7as violentas, a pr\u00e1tica cl\u00ednica tem nos colocado diante da quest\u00e3o \u201cpsicose ou n\u00e3o?\u201d. Encontramos, em alguns adolescentes, a posi\u00e7\u00e3o de isolamento social, nos quais eles se colocam \u00e0 margem da fam\u00edlia ou dos grupos sociais. Nesses casos, \u00e9 preciso acolher os signos de estranheza e solid\u00e3o, as situa\u00e7\u00f5es marcadas pelos atos violentos na superf\u00edcie do corpo e possibilitar que cada sujeito, a sua maneira, construa novas solu\u00e7\u00f5es. Muitos adolescentes nos dizem que se cortam para aliviar a \u201cdor psicol\u00f3gica\u201d, mas \u00e9 preciso ir al\u00e9m dessa resposta universal, \u00e9 preciso capturar o que h\u00e1 de particular em cada caso. Qual seria o lugar que esse adolescente ocupa no Romance familiar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos atendimentos tamb\u00e9m s\u00e3o marcados pela perpetua\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio. \u00c9 preciso que o analista acolha as mais distintas formas de inven\u00e7\u00f5es, como a passagem de um adolescente que desloca os cortes feitos com a l\u00e2mina de barbear na superf\u00edcie do corpo para o desenho da linha guiada pelo l\u00e1pis ou pela agulha na superf\u00edcie de um papel ou uma toalha, com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o chore pelos pulsos\u201d. Os adolescentes tamb\u00e9m buscam os espa\u00e7os virtuais na tentativa de nomear a sua \u201cdor de existir\u201d, e ser\u00e1 no tratamento anal\u00edtico que se poder\u00e1 acolher esses restos e possibilitar outras solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller salienta que, na falta de um significante que nomeie seu sofrimento, o adolescente marca a si mesmo por meio das escarifica\u00e7\u00f5es e da viol\u00eancia contra o pr\u00f3prio corpo. Ponto demonstrativo nomeado por Miller de \u201cpsicose civilizacional normal\u201d, uma perturba\u00e7\u00e3o que traduz a ordem simb\u00f3lica herdeira da tradi\u00e7\u00e3o e que se destaca como t\u00edpica da civiliza\u00e7\u00e3o. Miller prop\u00f5e, como perspectiva de tratamento, que n\u00e3o se deve atacar de frente os atos violentos \u2013 tais como as escarifica\u00e7\u00f5es \u2013, mas visar reparar uma falha do simb\u00f3lico ou reordenar a defesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os adolescentes nos ensinam como \u00e9 poss\u00edvel inventar um bom encontro, construir la\u00e7os, redes fundamentadas na escuta cl\u00ednica, em parceria com os espa\u00e7os que se constroem para al\u00e9m de suas fronteiras. Se, por um lado, as novas tecnologias e as redes sociais d\u00e3o consist\u00eancia ao cutting \u2013 esses sintomas que se inscrevem como pura repeti\u00e7\u00e3o meton\u00edmica \u2013, ser\u00e1 poss\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es via tratamento anal\u00edtico. E, tal como nos orienta Miller, \u00e9 preciso colher a revolta da crian\u00e7a e do adolescente. Revolta que se distingue da viol\u00eancia err\u00e1tica (MILLER, 2010).<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1926) \u201cInibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ang\u00fastia\u201d. In: Obras psicol\u00f3gicas completas: Edi\u00e7\u00e3o Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1937) \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud., Vol. XXIII, 1976, p. 261.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FUENTES, M.J. A \u201cmulher face ao espelho: novas virilidades\u201d. In: ENAPOL VII \u2013 O imp\u00e9rio das imagens. Set. 2015, S\u00e3o Paulo. Dispon\u00edvel em: http:\/\/oimperiodasimagens.com.br\/pt\/faq-items\/a-mulher-face-ao-espelho-novas-virilidades-maria-josefina-fuentes\/. Acesso em: 2 mar. 2018.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955\/1956) O semin\u00e1rio, livro 3: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960). \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo\u201d. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 838.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975\/1976). O seminario, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p.114.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 21: les non-dupes errent. Li\u00e7\u00e3o de 19\/3\/1974.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cFalar com seu sintoma, falar com seu corpo\u201d. Argumento do VI Enapol, 2013. Dispon\u00edvel em:http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento\/Hablar-con-el-propio-sintoma_Eric-Laurent.html. Acesso em: 2 mar. 2018.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (2017). \u201cCrian\u00e7as violentas\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 77, p. 23-31, ago. 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cComment se r\u00e9volter?\u201d In: La Cause Freudienne, n. 75, p. 212-217, juil. 2010.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cL\u2019etre et l\u2019 Um\u201d, aula de 9 de fevereiro de 2011, Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana III, 13.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>ANA MARIA COSTA DA SILVA LOPES \/ ANDR\u00c9A EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA<\/strong><\/h6>\n<h6>ANA MARIA COSTA DA SILVA LOPES Mestre em Psicologia \u2013 \u00c1rea de Concentra\u00e7\u00e3o: Estudos Psicanal\u00edticos \u2013 FAFICH\/UFMG. Doutora em Ci\u00eancias da Sa\u00fade pela Faculdade de Medicina\/UFMG. Psicanalista praticante. Membro Aderente da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas.\u00a0<span id=\"cloak29d80d24ae4cbbd220f10638858b4634\"><a href=\"mailto:amcslopes65@gmail.com\">amcslopes65@gmail.com<\/a><\/span><br \/>\nANDR\u00c9A EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA Psic\u00f3loga. Mestre em Psicologia \u2013 \u00c1rea de Concentra\u00e7\u00e3o: Estudos Psicanal\u00edticos \u2013 FAFICH\/UFMG. Psicanalista praticante. Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise.\u00a0<span id=\"cloakc98dc9ad9dae896ae41413e67bb64891\"><a href=\"mailto:andrea.eulalio@hotmail.com\">andrea.eulalio@hotmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA MARIA COSTA DA SILVA LOPES \/ ANDR\u00c9A EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA &nbsp; CAO GUIMARAES &nbsp; As transforma\u00e7\u00f5es nos la\u00e7os sociais, associadas \u00e0 queda dos ideais e da crescente desvaloriza\u00e7\u00e3o do falo que ordenava a nossa civiliza\u00e7\u00e3o, t\u00eam nos colocado quest\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 quanto aos desdobramentos conceituais da psican\u00e1lise, mas sobre a condu\u00e7\u00e3o do tratamento&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57921,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-1062","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-21","category-18","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1062","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1062"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1062\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57922,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1062\/revisions\/57922"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57921"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1062"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1062"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1062"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}