{"id":1068,"date":"2021-07-17T07:16:23","date_gmt":"2021-07-17T10:16:23","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1068"},"modified":"2025-12-01T13:33:26","modified_gmt":"2025-12-01T16:33:26","slug":"acontecimento-de-corpo-e-intrusao-de-pensamento-nas-psicoses-uma-precisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/17\/acontecimento-de-corpo-e-intrusao-de-pensamento-nas-psicoses-uma-precisao\/","title":{"rendered":"Acontecimento De Corpo E Intrus\u00e3o De Pensamento Nas Psicoses: Uma Precis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>SIMONE SOUTO<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_17.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"806\" data-large_image_height=\"591\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1069\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_17.png\" alt=\"\" width=\"806\" height=\"591\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_17.png 806w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_17-300x220.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_17-768x563.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 806px) 100vw, 806px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pensei em abordar o acontecimento de corpo e a intrus\u00e3o de pensamento nas psicoses a partir de uma refer\u00eancia que nos permita n\u00e3o s\u00f3 entend\u00ea-los e localiz\u00e1-los com alguma precis\u00e3o mas que tamb\u00e9m possa nos fornecer elementos para nos orientarmos, quanto a esses fen\u00f4menos, no que concerne \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do tratamento. Portanto, situarei esses dois tipos de fen\u00f4menos encontrados na cl\u00ednica das psicoses, a partir da distin\u00e7\u00e3o entre a foraclus\u00e3o localizada e a foraclus\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O fato de n\u00e3o existir na linguagem um significante que possibilitaria a inscri\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre os sexos e reuniria as puls\u00f5es sexuais sob a \u00e9gide de uma \u00fanica e pretensa puls\u00e3o genital faz surgir um furo que afeta a vida de todo falasser, de forma generalizada. Desde que h\u00e1 linguagem, em parte alguma, sob signo algum, o sexo se inscreve atrav\u00e9s de uma rela\u00e7\u00e3o. Trata-se, portanto, de uma condi\u00e7\u00e3o universal colocada para todo aquele que \u00e9 habitado pela linguagem, presente em todas as estruturas cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa impossibilidade de inscrever a rela\u00e7\u00e3o sexual na linguagem e, consequentemente, faz\u00ea-la existir como uma rela\u00e7\u00e3o que seria proporcional (ou mesmo completa) entre os sexos, \u00e9 o que podemos designar, com Lacan, de uma foraclus\u00e3o generalizada. Trata-se da presen\u00e7a de um furo, de um vazio, que afeta a vida de todo ser falante de forma generalizada e que torna evidente um real imposs\u00edvel de ser atingido pela palavra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O neur\u00f3tico responde a esse furo criando uma fantasia na qual ele tenta fazer a rela\u00e7\u00e3o sexual existir, localizando no Outro o objeto de seu pr\u00f3prio gozo. Assim, na neurose, o sujeito consegue desprender um peda\u00e7o do gozo autoer\u00f3tico, um objeto que \u00e9 colocado no lugar do Outro e sustentado por uma significa\u00e7\u00e3o que constitui a fantasia. Portanto, a fantasia possibilita uma localiza\u00e7\u00e3o do gozo no corpo, nas zonas er\u00f3genas, mas tamb\u00e9m fora do corpo: o sujeito pode se referir, por exemplo, ao olhar do pai, ou \u00e0 voz da m\u00e3e, como sendo o objeto dessa fantasia, e fazer disso uma lenda, um romance.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso das psicoses, deparamo-nos com dois tipos de foraclus\u00e3o, de furo, pois, al\u00e9m da foraclus\u00e3o generalizada, relativa \u00e0 n\u00e3o exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, com a qual o psic\u00f3tico tamb\u00e9m tem que se haver, encontramos, nessa estrutura cl\u00ednica, a foraclus\u00e3o localizada relativa \u00e0 aus\u00eancia de um significante fundamental, o significante do Nome-do-Pai, que assegura todo um processo de simboliza\u00e7\u00e3o da realidade que, na psicose, n\u00e3o funciona justamente por falta desse significante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos dizer que os fen\u00f4menos de intrus\u00e3o de pensamento, como o del\u00edrio e as alucina\u00e7\u00f5es auditivas, assim como o automatismo mental, por exemplo, s\u00e3o uma resposta, um efeito da foraclus\u00e3o localizada, pois dizem respeito ao retorno no real de um significante que foi foraclu\u00eddo do simb\u00f3lico. \u00c9 uma foraclus\u00e3o que est\u00e1 localizada no significante do Nome-do-Pai. Assim, em determinadas situa\u00e7\u00f5es bem precisas da vida, nas quais o psic\u00f3tico precisaria fazer uso desse significante para abordar a realidade, para signific\u00e1-la, como esse significante n\u00e3o existe no simb\u00f3lico, ele retorna no real sob a forma, por exemplo, de vozes ou de pensamentos que n\u00e3o consegue controlar e que, de maneira geral, lhe adquirem uma fun\u00e7\u00e3o de comando ou de inj\u00faria. \u00c9, ent\u00e3o, com rela\u00e7\u00e3o a esse furo no simb\u00f3lico que n\u00f3s podemos situar os fen\u00f4menos de intrus\u00e3o de pensamento. Tanto o del\u00edrio quanto o automatismo mental podem ser tomados como uma interpreta\u00e7\u00e3o, ou seja, uma tentativa de localizar o gozo na via do sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a aus\u00eancia da met\u00e1fora paterna ter\u00e1, tamb\u00e9m, outra consequ\u00eancia: a n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o do objeto a como um condensador do gozo. Isso quer dizer que n\u00e3o encontramos, na psicose, o gozo condensado, localizado em um objeto (seio, fezes, olhar, voz), como acontece na neurose por meio da fantasia. Por isso, de acordo com Eric Laurent[1], tamb\u00e9m encontramos, nas psicoses, fen\u00f4menos que se referem a uma vers\u00e3o da foraclus\u00e3o diferente da foraclus\u00e3o localizada do significante Nome-do-Pai. Segundo Laurent, o que vemos na mania, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 um retorno localizado de um significante no real, mas o retorno do gozo sobre o corpo, uma esp\u00e9cie de suplemento de vida, \u201cum mais de vida\u201d, \u201cum mais de gozo\u201d que, por n\u00e3o estar circunscrito ao objeto a, como acontece na fantasia do neur\u00f3tico, invade o organismo e pode destruir, inclusive, todo o equil\u00edbrio biol\u00f3gico. V\u00e1rios fen\u00f4menos que, na psicose, atingem o corpo de maneiras diversas, como os excessos com a alimenta\u00e7\u00e3o, o uso abusivo de drogas e \u00e1lcool, a neglig\u00eancia com o pr\u00f3prio corpo, dores e agressividade, podem ser tomados na sua intensidade como essa agita\u00e7\u00e3o do real que adv\u00e9m do retorno do gozo n\u00e3o localizado sobre o corpo. No que diz respeito a essa invas\u00e3o de gozo, encontramos, no Semin\u00e1rio 20, o exemplo, descrito por Lacan, do rato que aperta uma alavanca e aciona uma engrenagem que lhe causa prazer: ele vai apertando, apertando, at\u00e9 morrer de gozo. Na mania, por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o com o gozo \u00e9 dessa mesma ordem. Nesse sentido, se seguimos Laurent, podemos dizer que os transtornos de humor, assim como toda a s\u00e9rie de acontecimentos de corpo que observamos nas psicoses, s\u00e3o uma resposta \u00e0 foraclus\u00e3o generalizada. Primeiro, porque s\u00e3o uma resposta \u00e0 inexist\u00eancia de uma inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da rela\u00e7\u00e3o sexual e, consequentemente, de um gozo imposs\u00edvel de simbolizar, que, como j\u00e1 dissemos antes, se imp\u00f5e, de maneira geral, para todo ser falante. Segundo, porque n\u00e3o \u00e9 como na alucina\u00e7\u00e3o, na qual temos a foraclus\u00e3o de um significante e seu retorno no real, com o posterior trabalho do del\u00edrio, para construir um sentido. Trata-se, como indica Lacan em Televis\u00e3o, de uma perturba\u00e7\u00e3o geral da linguagem, que se manifesta, por exemplo, na melancolia, como mutismo e depress\u00e3o, e, na excita\u00e7\u00e3o man\u00edaca (e de alguns fen\u00f4menos de corpo que aparecem nas psicoses), como um excesso pulsional, um retorno da vida sobre o corpo, um retorno que se faz mortal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica da psicose, os fen\u00f4menos de intrus\u00e3o de pensamento relativos \u00e0 foraclus\u00e3o localizada do Nome-do-Pai e os fen\u00f4menos de acontecimento de corpo relativos a uma n\u00e3o localiza\u00e7\u00e3o do gozo no objeto a, ou seja, relativos \u00e0 foraclus\u00e3o generalizada, podem aparecer isoladamente, como em alguns casos de mania e melancolia que se apresentam na forma de uma psicose ordin\u00e1ria, nas quais observamos, muitas vezes, apenas os acontecimentos de corpo. Mas observamos, tamb\u00e9m, casos bastante frequentes em que precisamos levar em conta essas duas vers\u00f5es da foraclus\u00e3o e n\u00e3o nos limitarmos em considerar apenas uma delas. Dessa forma, no que concerne \u00e0s psicoses, a foraclus\u00e3o localizada do significante Nome-do-Pai nos ajuda a fazer o diagn\u00f3stico estrutural a partir da aus\u00eancia desse significante no simb\u00f3lico, permitindo-nos acompanhar melhor a l\u00f3gica dos fen\u00f4menos de intrus\u00e3o do pensamento. Por sua vez, a foraclus\u00e3o generalizada nos possibilita situar melhor o que aparece nos dist\u00farbios de humor, em v\u00e1rios tipos de acontecimentos de corpo e mesmo em algumas compuls\u00f5es, como uma perturba\u00e7\u00e3o geral da linguagem e uma aus\u00eancia da localiza\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] Ver confer\u00eancias e coment\u00e1rios de \u00c9ric Laurent em Curinga, revista da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP-MG), n\u00ba. 14.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>SIMONE SOUTO<\/strong><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><span id=\"cloak79d0223aeb1b691f7355da90f7e5cd41\"><a href=\"mailto:ssouto.bhe@gmail.com\">ssouto.bhe@gmail.com<\/a><\/span>\u00a0AME, membro da EBP\/AMP<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SIMONE SOUTO &nbsp; &nbsp; Pensei em abordar o acontecimento de corpo e a intrus\u00e3o de pensamento nas psicoses a partir de uma refer\u00eancia que nos permita n\u00e3o s\u00f3 entend\u00ea-los e localiz\u00e1-los com alguma precis\u00e3o mas que tamb\u00e9m possa nos fornecer elementos para nos orientarmos, quanto a esses fen\u00f4menos, no que concerne \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do tratamento.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57923,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-1068","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-21","category-18","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1068"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1068\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57924,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1068\/revisions\/57924"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57923"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}