{"id":1086,"date":"2021-07-17T07:16:23","date_gmt":"2021-07-17T10:16:23","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1086"},"modified":"2025-12-01T13:34:54","modified_gmt":"2025-12-01T16:34:54","slug":"entrevista-cao-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/17\/entrevista-cao-guimaraes\/","title":{"rendered":"Entrevista Cao Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ALESSANDRA THOMAZ ROCHA, DADE SENA E LUDMILLA F\u00c9RES FARIA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/cao-by-flor-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2560\" data-large_image_height=\"1707\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1087\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/cao-by-flor-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" \/><\/a><strong>FLORENCIA MARTINEZ<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A GAMBIARRA[1] COMO PARADIGMA DA QUEDA DO FALOCENTRISMO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante dos imperativos consumistas contempor\u00e2neos, quando o mercado se torna cada vez mais sedutor e agressivo, com promessas e ofertas cada dia mais criativas e de forma a impulsionar o consumo do objeto ideal inconsum\u00edvel, a gambiarra surge como paradigma de solu\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica desta \u00e9poca, da queda do falocentrismo, na qual a transgress\u00e3o se inscreve como imperativo de gozo diante de um desejo imposs\u00edvel de sustentar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A obra fotogr\u00e1fica art\u00edstica Gambiarras, de Cao Guimar\u00e3es, nos traz o frescor da inven\u00e7\u00e3o moderna e nos mostra, de forma instigante, como a falta se inscreve no discurso capitalista, subvertendo-o. Ela inaugura um espa\u00e7o entre a ordem e a desordem, entre a conten\u00e7\u00e3o e a soltura, entre o imprevis\u00edvel e o previsto, diante do peso da norma. Ela surge, finalmente, t\u00e3o fugaz, prec\u00e1ria e inst\u00e1vel, como uma solu\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica do improviso. As gambiarras demonstram, de forma contundente, como a civiliza\u00e7\u00e3o responde ao imperativo de gozo com o vazio de sentido e seu avesso, o c\u00famulo de sentido: o enigma, que se traduz na inven\u00e7\u00e3o singular de um objeto resto, constru\u00eddo a partir do que \u00e9 in\u00fatil e descart\u00e1vel. Demonstra, assim, a fun\u00e7\u00e3o do in\u00fatil. Foi a partir dessa leitura que a equipe do Almanaque realizou a entrevista abaixo com Cao Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cao Guimar\u00e3es \u00e9 um cineasta e artista pl\u00e1stico mineiro nascido em 1965, em Belo Horizonte, cidade onde vive e trabalha. Atuando na interface entre o cinema e as artes pl\u00e1sticas, aborda e documenta a realidade a partir de seu olhar questionador, astuto, sens\u00edvel e atento. Consoante \u00e0 l\u00f3gica de sua \u00e9poca, demonstra, de forma brilhante, como o artista sempre precede o psicanalista em sua leitura sobre o mundo. Por meio da fotografia como objeto de arte, bem como de seus filmes, v\u00eddeos e exposi\u00e7\u00f5es, nos lan\u00e7a a quest\u00e3o do uso das imagens e do saber fazer com elas, de forma a causar a surpresa ou o espanto, tanto quanto a fascina\u00e7\u00e3o e o desejo de saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0Almanaque: Poder\u00edamos saber um pouco sobre o processo de escolha dos temas de seus trabalhos e, em especial, sobre o que suscitou seu desejo de retratar, documentar as gambiarras?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cao Guimar\u00e3es<\/strong>: Geralmente essa entidade movedi\u00e7a chamada realidade \u00e9 o grande substrato dos meus trabalhos, realidade na qual me movo, \u00e0s vezes de forma contemplativa, \u00e0s vezes propositiva e, \u00e0s vezes, imersiva, podendo tamb\u00e9m ser de duas ou tr\u00eas dessas formas ao mesmo tempo. A fagulha inicial que gera o desejo de realizar algo sobre alguma coisa \u00e9 o espanto, um sentimento que coloca meus sentidos em alerta e que, de alguma forma, me transcende ou me transporta para al\u00e9m de mim mesmo, na dire\u00e7\u00e3o de um outro que desconhe\u00e7o e que me fascina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico das gambiarras, foi uma esp\u00e9cie de reencontro com meu eu, minha cultura, minhas origens. Ap\u00f3s dois anos morando no exterior, empreendi uma viagem de dois meses por dez estados brasileiros, principalmente pelo Nordeste, para realizar meu primeiro longa-metragem (O fim do sem fim) e me deparei com essa pr\u00e1tica bastante comum em pa\u00edses como o Brasil, onde a realidade socioecon\u00f4mica instiga, quase obriga, as pessoas a produzir gambiarras para viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: O que voc\u00ea teria a dizer sobre a est\u00e9tica da gambiarra? Pode-se dizer que ela encarna a dimens\u00e3o abjeta do objeto ideal, ou seja, ela materializa o objeto do desejo a partir de uma est\u00e9tica transgressiva? Nesse sentido, a est\u00e9tica da gambiarra abdica de toda ordem?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cao Guimar\u00e3es<\/strong>: Sou partid\u00e1rio da posi\u00e7\u00e3o de Nietzsche, de que o objeto ideal n\u00e3o existe. Para ele, S\u00f3crates (via Plat\u00e3o) e Jesus Cristo (mais precisamente seus ap\u00f3stolos e principalmente S\u00e3o Paulo, que fundaram o catolicismo) s\u00e3o os dois grandes art\u00edfices de uma certa deforma\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o da realidade: impregnaram a cultura ocidental da concep\u00e7\u00e3o de um mundo ideal (no caso de Plat\u00e3o) ou de um mundo transcendente no pior sentido da palavra, ou seja, da abdica\u00e7\u00e3o de viver esta vida para perenizar-se na exist\u00eancia id\u00edlica do para\u00edso ap\u00f3s a morte (no caso do catolicismo). J\u00e1 no mundo capitalista contempor\u00e2neo, o objeto ideal n\u00e3o est\u00e1 no mundo das ideias nem na vida ap\u00f3s a morte, mas nas prateleiras de um supermercado ou nas roupas de uma celebridade, ou seja, num mundo da descartabilidade, um mundo feito para poucos que joga com o desejo de todos. Transgredir, ent\u00e3o, \u00e9 resistir a esse jogo, reinventando, de forma criativa, solu\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia n\u00e3o programada. A gambiarra faz parte dessa resist\u00eancia e traz no seu cerne a imprevisibilidade e a transgress\u00e3o de uma certa ordem imposta pela for\u00e7a do consumo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Voc\u00ea retrata bastante em seus trabalhos a vertente do documento, da imagem documental e do testemunho como contraponto \u00e0 literatura e \u00e0 arte de fic\u00e7\u00e3o. Que rela\u00e7\u00e3o voc\u00ea estabelece entre sua obra fotogr\u00e1fica Gambiarra e o documento?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cao Guimar\u00e3es<\/strong>: Para mim, o simples fato de eleger algo dentro da mir\u00edade de coisas que se v\u00ea e enquadrar este algo com as lentes de uma c\u00e2mera ou de sua consci\u00eancia e sensibilidade j\u00e1 produz um am\u00e1lgama fundindo o documento com o que voc\u00ea chama de literatura ou arte de fic\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m j\u00e1 disse \u201cn\u00e3o existe maior fic\u00e7\u00e3o do que a realidade\u201d. O que me interessa \u00e9 justamente essa \u201cfric\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que voc\u00ea estabelece entre a gambiarra como dimens\u00e3o abjeta do objeto de arte e os ready-made de Marcel Duchamp?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cao Guimar\u00e3es<\/strong>: A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 total. Duchamp foi quem deu o chute inicial na bola (objeto art\u00edstico) e deixou o campo invertido, sem linhas definidas; um gramado infinito, imposs\u00edvel de ser de novo contido dentro de quatro linhas, onde a bola sempre havia rolado. A for\u00e7a da vida ordin\u00e1ria que se manifesta em qualquer coisa, incapaz de ser contida em uma moldura, em uma defini\u00e7\u00e3o. O mict\u00f3rio que n\u00e3o \u00e9 mais para receber urina, mas para ser contemplado em um museu. O tijolo furado que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais para construir casas, mas para receber vassouras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1] Gambiarra: solu\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia n\u00e3o programada.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ALESSANDRA THOMAZ ROCHA, DADE SENA E LUDMILLA F\u00c9RES FARIA &nbsp; FLORENCIA MARTINEZ &nbsp; A GAMBIARRA[1] COMO PARADIGMA DA QUEDA DO FALOCENTRISMO &nbsp; Diante dos imperativos consumistas contempor\u00e2neos, quando o mercado se torna cada vez mais sedutor e agressivo, com promessas e ofertas cada dia mais criativas e de forma a impulsionar o consumo do objeto&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57929,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-1086","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-21","category-18","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1086"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1086\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57930,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1086\/revisions\/57930"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}