{"id":1089,"date":"2021-07-17T07:16:23","date_gmt":"2021-07-17T10:16:23","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1089"},"modified":"2025-12-01T13:42:38","modified_gmt":"2025-12-01T16:42:38","slug":"ponto-de-loucura-na-era-do-parletre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/17\/ponto-de-loucura-na-era-do-parletre\/","title":{"rendered":"Ponto De Loucura Na Era Do Parl\u00eatre"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>VICTORIA HORNE REINOSO<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_36.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1440\" data-large_image_height=\"1080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1090\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_36-1024x768.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_36-1024x768.png 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_36-300x225.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_36-768x576.png 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_36.png 1440w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>CAO GUIMARAES<\/strong><\/h6>\n<p>Loucura e psicose<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se, muitas vezes, a psicose pode ser identificada como loucura e a loucura se revelar da ordem da psicose, esses dois termos, que s\u00e3o utilizados frequentemente um em lugar do outro, pertencem a registros diferentes, que n\u00e3o se recobrem completamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psicose, herdada da psiquiatria cl\u00e1ssica do s\u00e9culo XIX, retomada e reformulada por Freud, \u00e9 uma categoria cl\u00ednica, uma classe nosogr\u00e1fica que permite ordenar um diagn\u00f3stico. Com Lacan, ela foi inicialmente erigida como estrutura, tendo em seu centro a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai, para, mais tarde, no seu \u00faltimo ensino, acrescentar a esses marcos estruturais aqueles da cl\u00ednica borromeana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A loucura \u00e9 transestrutural. \u00c9 um termo antigo que pertence \u00e0 l\u00edngua comum e variou segundo as \u00e9pocas. Apesar de uma grande latitude na utiliza\u00e7\u00e3o da palavra loucura em in\u00fameros contextos sem que ela nos remeta for\u00e7osamente \u00e0 doen\u00e7a mental, ela designa, de maneira mais restrita, as m\u00faltiplas formas de perder a raz\u00e3o, de estar fora das normas sociais, fora da realidade, de delirar, de sair da linha, diriam os autores antigos\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cada \u00e9poca, seus loucos, sua forma de conceber, de descrever e de tratar a loucura. S\u00e1bios que det\u00eam uma certa verdade, marginais que encarnam o objeto dejeto, homens livres, perigosos, violentos, criminosos, delirantes\u2026 \u00c9 sempre, no entanto, um tra\u00e7o do excesso, do transbordamento de um limite, que os estigmatiza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os dois termos, loucura e psicose, t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com uma \u201cnorma\u201d, com uma categoria do \u201cnormal\u201d, da qual todos dois viriam encarnar o al\u00e9m, o patol\u00f3gico, o a-normal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se Freud descobriu o inconsciente com as hist\u00e9ricas e inventou a psican\u00e1lise a partir da neurose, Lacan entrou na psican\u00e1lise pelas psicoses e pelo seu encontro com Aim\u00e9e. \u00c0 frente do seu tempo, ele nos conduziu a uma p\u00f3s-modernidade na qual a psicose se tornou, pouco a pouco, um paradigma da subjetividade contempor\u00e2nea. N\u00e3o que todo mundo seja psic\u00f3tico, ainda que ele tenha dito que \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d (LACAN, 2010, p. 31), mas a perda de consist\u00eancia da figura do pai e do Outro, a deprecia\u00e7\u00e3o dos discursos estabelecidos pelos sujeitos individualmente e pela sociedade em geral, v\u00e3o no sentido de uma subjetividade na qual os modos tradicionais de manter os equil\u00edbrios prec\u00e1rios dos enodamentos dos parl\u00eatres cedem lugar a solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o padronizadas, bricolagens, a inven\u00e7\u00f5es sob medida e singulares de realizar a estrutura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que Lacan soube iniciar e aquilo em que continuamos a trabalhar, apoiando-nos na orienta\u00e7\u00e3o de Jacques-Alain Miller, \u00e9 uma reviravolta da psican\u00e1lise que, de agora em diante, tem a ver com uma civiliza\u00e7\u00e3o exposta \u00e0 subvers\u00e3o inevit\u00e1vel da no\u00e7\u00e3o de \u201dnormalidade\u201d. Uma vez que esta \u00faltima \u00e9 t\u00e3o atacada em nossa contemporaneidade, como ent\u00e3o pensar a loucura?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abordamos essa quest\u00e3o a partir de duas proposi\u00e7\u00f5es de Lacan, emblem\u00e1ticas de duas viradas maiores em seu ensino, e nas quais o termo loucura n\u00e3o poderia ser substitu\u00eddo pelo termo psicose. De fato, sua utiliza\u00e7\u00e3o comporta um pequeno deslocamento e passa ent\u00e3o a apreender outra coisa, uma outra vertente do termo. Trata-se de \u201ctodas as mulheres s\u00e3o loucas\u201d (LACAN, 2001, p. 538) e de \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d (LACAN, 2010, p. 31).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, podemos tentar esclarecer o paradoxo do termo loucura que, mesmo ao designar a loucura no sentido psic\u00f3tico ou parox\u00edstico, pode igualmente visar esse ponto de loucura inerente ao parl\u00eatre na nossa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De \u201ctodas as mulheres s\u00e3o loucas\u201d a \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas duas proposi\u00e7\u00f5es, longe de se contradizerem, articulam-se e se sucedem logicamente. Efetivamente, Lacan precisou passar pelo remanejamento do seu ensino nos anos setenta ao abordar os impasses do feminino a partir do gozo e ao desenvolver o para-al\u00e9m do \u00c9dipo, para chegar \u00e0 foraclus\u00e3o generalizada. Com a elabora\u00e7\u00e3o das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o e a concep\u00e7\u00e3o da sexualidade feminina como n\u00e3o respondendo completamente \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica, Lacan produz uma invers\u00e3o da leitura estruturalista, passando pelo n\u00e3o-todo da posi\u00e7\u00e3o feminina at\u00e9 o regime do n\u00e3o-todo generalizado, quer dizer, at\u00e9 pensar que n\u00e3o tudo do real do gozo do parl\u00eatre seja reabsorv\u00edvel pelo Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cTodas as mulheres s\u00e3o loucas\u201d \u00e9 uma conclus\u00e3o que emana dessas elabora\u00e7\u00f5es. Ela introduz um jogo entre \u201ctodas \/ n\u00e3o toda\u201d e \u201cloucas \/ n\u00e3o loucas\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Assim o universal do que elas desejam \u00e9 a loucura: todas as mulheres s\u00e3o loucas, como se diz. \u00c9 por isso mesmo que s\u00e3o n\u00e3o todas, isto \u00e9, n\u00e3o loucas-de-todo, mas antes conciliadoras, a ponto de n\u00e3o haver limites para as concess\u00f5es que cada uma faz a um homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens (LACAN, 2003. p. 358).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que Lacan visa nessa frase com o termo loucura \u00e9 o resultado dessa parte n\u00e3o limitada pelo falo, o lado n\u00e3o-toda da mulher. Esse fora da norma-macho[1] acarreta simultaneamente a emancipa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lei do pai e o pronta-pra-tudo das mulheres que poderia ser qualificado de loucura. Mas, ao mesmo tempo, esse passo de trav\u00e9s em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 norma f\u00e1lica as torna tamb\u00e9m menos loucas, pois mais pr\u00f3ximas do real e mais realistas quanto aos semblantes, \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com o S( ) (LACAN, 1985, p. 87).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui, portanto, esse tra\u00e7o simultaneamente do sem limite, do fora da norma, do excesso, que \u00e9 um dos tra\u00e7os da loucura, sem que isso remeta \u00e0 psicose. \u00c9 um tra\u00e7o que, da psicose ao feminino, faz um ponto de loucura: o ilimitado, o transbordamento dessa fun\u00e7\u00e3o normativa que \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A segunda proposi\u00e7\u00e3o coloca igualmente em jogo a quest\u00e3o do \u201ctodo\u201d, de uma certa \u201cuniversaliza\u00e7\u00e3o\u201d que Lacan tempera com \u201cse se pode dizer semelhante express\u00e3o\u201d. No entanto, essa proposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser compreendida a partir da mudan\u00e7a de estatuto do Nome-do-Pai e de sua pluraliza\u00e7\u00e3o, que permitir\u00e1, com a foraclus\u00e3o generalizada, uma outra perspectiva sobre a cl\u00ednica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c[Freud] considerou que nada \u00e9 sen\u00e3o sonho, e que todo mundo (se se pode dizer semelhante express\u00e3o), todo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9, delirante\u201d (LACAN, 2010, p. 31).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aproximar a express\u00e3o \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d a \u201cnada \u00e9 sen\u00e3o sonho\u201d coloca essa frase em contato com a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com a realidade enquanto subjetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud adianta que, mesmo se pudesse ser simples dizer que \u201ca perda da realidade seria, para a psicose, dada de in\u00edcio\u201d e que \u201cpara a neurose seria o caso de pensar que ela \u00e9 evitada\u201d, na verdade, \u201ctoda neurose perturba de uma maneira ou de outra a rela\u00e7\u00e3o do doente com a realidade\u201d (FREUD, 1924\/1969, p. 205). H\u00e1 sempre, tanto para os psic\u00f3ticos como para os neur\u00f3ticos, um \u201cn\u00e3o querer saber\u201d de um real que levar\u00e1 o sujeito a se defender dele. Ele substituir\u00e1 ou limitar\u00e1 esse \u201cimposs\u00edvel de suportar\u201d (LACAN, 1979, pp. 7;11) por uma constru\u00e7\u00e3o pessoal, quer seja del\u00edrio, quer seja fantasia. Todo mundo \u00e9 louco quer dizer que todo mundo tem uma maneira singular de tratar esse imposs\u00edvel e de acreditar na realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J.-A. Miller faz dessa frase uma b\u00fassola, um condensado do ultim\u00edssimo ensino de Lacan (MILLER, 2009, p. 69). Nesse texto, mira as certezas dos universit\u00e1rios que acreditam ter o verdadeiro saber sem considerar que, como \u201ctodo mundo\u201d, eles tamb\u00e9m deliram. Mas, no contexto de seu ultim\u00edssimo ensino, Lacan se esfor\u00e7a para \u201cconcernir\u201d esses cl\u00ednicos que n\u00e3o querem saber nada do real que, na loucura de que d\u00e3o testemunho os psic\u00f3ticos, vem toc\u00e1-los intimamente, mesmo se o \u201cpara todos\u201d da loucura est\u00e1 implicitamente em tens\u00e3o com um \u201cn\u00e3o para todos\u201d da psicose. Pois, se a loucura \u00e9 para todos, ela n\u00e3o \u00e9 \u201ctoda\u201d a mesma. Lacan se serve disso, ent\u00e3o, para visar e fazer ressoar esse ponto de certeza mais singular do parl\u00eatre, ponto de loucura irredut\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O particular e o singular<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0 biparti\u00e7\u00e3o \u201ch\u00e1\u201d ou \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d o Nome-do-Pai que ancora a cl\u00ednica descontinu\u00edsta das categorias cl\u00ednicas se op\u00f5e uma continuidade da foraclus\u00e3o generalizada, com \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d. No entanto, como J.-A. Miller relembrou muitas vezes, essas duas modalidades, ainda que em tens\u00e3o, n\u00e3o se op\u00f5em. A foraclus\u00e3o generalizada n\u00e3o incide sobre o significante do Nome-do-Pai, mas sobre a impossibilidade de inscri\u00e7\u00e3o de um real que concerne \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do parl\u00eatre com o outro sexo: \u00e9 a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. Isso afirma, contudo, a import\u00e2ncia do furo que constitui esse ponto de real em torno do qual o parl\u00eatre poder\u00e1 construir sua por\u00e7\u00e3o de del\u00edrio a fim de suprir aquilo que n\u00e3o se inscreve. Por outro lado, embora o Nome-do-Pai possa ser um apoio para tratar a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual, a met\u00e1fora paterna nunca \u00e9 completamente realizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cl\u00ednica descontinu\u00edsta nos leva a trabalhar com as categorias cl\u00ednicas. Estas re\u00fanem os signos particulares de uma classe. O particular \u00e9 \u201co que se assemelha de um sujeito a outro\u201d (MILLER, 2009, p. 27). A cl\u00ednica borromeana e continu\u00edsta \u00e9 aquela das singularidades dos \u201cesparsos disparatados\u201d (LACAN, 2003, p. 569), aquela do reconhecimento dos achados particulares de cada parl\u00eatre, aquela do sinthome. Ela trabalha a partir do Um de gozo de cada um.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando, no s\u00e9culo XX, havia casos paradigm\u00e1ticos \u2013 tal como Schreber encarnando a categoria cl\u00ednica da psicose \u2013, com Joyce, Lacan mostra a maneira pr\u00f3pria e singular de fazer sustentar o enodamento dos registros. O caso n\u00e3o \u00e9 mais, portanto, paradigm\u00e1tico de uma classe. Na cl\u00ednica do sinthome, um caso n\u00e3o basta para demonstrar uma categoria porque n\u00e3o se trata mais de dar conta de um \u201cpara todos\u201d da classe cl\u00ednica, mas de um \u201cn\u00e3o-todo\u201d que, de cada singularidade, faz a infinita pluralidade dos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psicose ordin\u00e1ria veio tirar conclus\u00f5es em ato dessa transforma\u00e7\u00e3o que a nossa \u00e9poca exige que se leve em conta. \u00c9 um primeiro passo. Entretanto, a psicose ordin\u00e1ria ainda tem um p\u00e9 no discurso do mestre classificador: \u00e9 uma psicose. Tem, por\u00e9m, o outro p\u00e9 no fora da norma e na singularidade, vindo iluminar essa nova forma de conceber a cl\u00ednica. Desmancha-prazeres do nosso conforto cl\u00ednico, obriga a fazer um esfor\u00e7o de des-classifica\u00e7\u00e3o dos parl\u00eatres para se situar sobre os signos discretos e as inven\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas de cada um.<\/p>\n<p>Como dar um passo a mais?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 sabemos que a estrutura da sociedade tal como era com suas normas, seus princ\u00edpios, seus interditos, se alterou. Os neur\u00f3ticos est\u00e3o igualmente sujeitos a ter que inventar uma forma de fazer, pois esses elementos da tradi\u00e7\u00e3o pr\u00eat-\u00e0-porter que lhes permitiam construir uma maneira de enodar os registros de forma padronizada foram alterados, sofreram muta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o t\u00eam o mesmo lugar no mundo. A inven\u00e7\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o necess\u00e1ria \u201cpara todos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A evacua\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel pelo discurso do mestre atual deixa todos os sujeitos \u00e0 merc\u00ea de um ilimitado. Por que ent\u00e3o essas amarra\u00e7\u00f5es singulares, quando est\u00e1veis, estariam fora da \u201cnormalidade\u201d e de qual? A partir do momento em que nos orientamos rumo a uma \u201cigualdade cl\u00ednica\u201d (MILLER, 2015), o Nome-do-Pai \u00e9 apenas uma entre outras formas de enodar os registros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma vez que Lacan se pergunta se Joyce era louco (LACAN, 2007, p. 75), mais do que a resposta que ele n\u00e3o d\u00e1, o que \u00e9 interessante \u00e9 que ele se coloca essa quest\u00e3o enquanto demonstra, ao mesmo tempo, a maneira singular que Joyce tem de enodar os registros, prescindindo do Nome-do-Pai. \u00c9 com efeito outra forma de separar loucura e psicose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Num certo n\u00famero de casos, o que se passava antigamente por \u201cloucura\u201d pode, a partir de agora, ser integrado em nosso mundo de todos os poss\u00edveis. As loucuras se dissolvem hoje na selva dos estilos de vida, a cada um seu modo de gozar. Se \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d, cada um o \u00e9 de uma forma, de uma loucura diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 feita de uma multiplicidade de subjetividades que coexistem, talvez menos territoriais que antes do mundo globalizado, mas, em compensa\u00e7\u00e3o, mais variadas. Essa coexist\u00eancia de subjetividades faz com que, por um lado, a vida tenha uma vertente mais padronizada, mas, por outro, tudo pode tamb\u00e9m ser cada vez mais sob medida. \u00c9 preciso, antes de tudo, escolher, pois a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o orienta mais os parl\u00eatres como antes. Entretanto, ao mesmo tempo, somos muito \u201corientados\u201d nas nossas escolhas, por exemplo pelos algoritmos e pelo que nos \u00e9 insidiosamente imposto pelo avan\u00e7o do mundo tecnol\u00f3gico. E a padroniza\u00e7\u00e3o ou a exce\u00e7\u00e3o, a escolha ou a imposi\u00e7\u00e3o, comportam muito bem seu ponto de loucura (LAURENT, 2009, p. 9).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O termo loucura implica este interessante paradoxo que faz com que possa remeter \u00e0quilo que h\u00e1 de mais \u201cextraordin\u00e1rio\u201d na psicose e mesmo nos momentos igualmente massivos da neurose, como \u00e0quele ponto mais singular do parl\u00eatre, ponto de loucura irredut\u00edvel que ressoa na express\u00e3o \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Helena Souza<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S., (1924\/1969). \u201cA perda da realidade na neurose e na psicose\u201d, In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago vol. XIX.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. O Semin\u00e1rio, Livro XXIII, O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2007.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. \u201cOverture de la section clinique\u201d, de Jacques Lacan (estabelecida por J.-A. Miller), Ornicar? 1979, n.\u00ba 9, pp. 7-11.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. \u201cTransfer\u00eancia para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes!\u201d, Correio, revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 65, S\u00e3o Paulo, 2010, p. 31.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1985, p. 87.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LAURENT, E. \u201cA modo de pr\u00f3logo\u201d, In: O sentimento delirante da vida. Buenos Aires: Collecc\u00edon Diva, 2011.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cNous sommes pouss\u00e9s par des hasards \u00e0 droite et \u00e0 gauche\u201d, In: La Cause Freudienne, 2009, n\u00ba 71, p. 69.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A., \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d. Confer\u00eancia de encerramento do IX Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (2014). O osso de uma an\u00e1lise. Mais O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A., \u201cS\u00e3o os acasos que nos fazem ir a torto e a direito\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n\u00b0 55, novembro, 2009. p. 27.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Em franc\u00eas, h\u00e1 um jogo de homofonia entre norme-m\u00e2le, aqui traduzido como \u201cnorma-macho\u201d, e a palavra normal [N.T.].<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>VICTORIA HORNE REINOSO<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista, membro da Escola da Causa Freudiana<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VICTORIA HORNE REINOSO CAO GUIMARAES Loucura e psicose &nbsp; Se, muitas vezes, a psicose pode ser identificada como loucura e a loucura se revelar da ordem da psicose, esses dois termos, que s\u00e3o utilizados frequentemente um em lugar do outro, pertencem a registros diferentes, que n\u00e3o se recobrem completamente. &nbsp; A psicose, herdada da psiquiatria&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57931,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-1089","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-21","category-18","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1089"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1089\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57932,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1089\/revisions\/57932"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57931"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}