{"id":1093,"date":"2021-07-17T07:16:23","date_gmt":"2021-07-17T10:16:23","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1093"},"modified":"2021-07-17T07:16:23","modified_gmt":"2021-07-17T10:16:23","slug":"o-ordinario-do-gozo-fundamento-da-nova-clinica-do-delirio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2021\/07\/17\/o-ordinario-do-gozo-fundamento-da-nova-clinica-do-delirio\/","title":{"rendered":"O Ordin\u00e1rio Do Gozo, Fundamento Da Nova Cl\u00ednica Do Del\u00edrio"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>DOMINIQUE LAURENT<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862-1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"810\" data-large_image_height=\"699\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1094\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862-1.png\" alt=\"\" width=\"810\" height=\"699\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862-1.png 810w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862-1-300x259.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/CaoGuimaraes_Gambiarras_5-e1533300376862-1-768x663.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><strong>CAO GUIMARAES<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tese da inexist\u00eancia do Outro, sustentada por Jacques-Alain Miller em 1996, em seu semin\u00e1rio, inaugura, dizia ele: \u201ca \u00e9poca lacaniana da psican\u00e1lise\u201d, aquela \u201cda err\u00e2ncia, aquela dos Nomes-do-Pai (non-dupes errent), aquela daqueles que s\u00e3o mais ou menos tolos (dupes) do pai, mais ou menos tolos (dupes) do Outro\u201d[1].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dizer que o Outro da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea n\u00e3o existe \u00e9 dizer que os ideais, enquanto tudo, s\u00e3o inconsistentes. Friedrich Nietzsche, ao escrever, em A Gaia Ci\u00eancia, que \u201cDeus est\u00e1 morto\u201d, j\u00e1 n\u00e3o colocava essa quest\u00e3o? Houve, entretanto, ideais que tiveram uma vida dura e puderam consolidar, de modo decisivo, a fun\u00e7\u00e3o paterna, um dos sustentadores do t\u00edtulo de Outro. Isso \u00e9 t\u00e3o verdadeiro que, na psican\u00e1lise, \u201co reinado do Nome-do-Pai [p\u00f4de aparecer] como o significante de que o Outro existe\u201d[2]. Esse reinado aparente foi uma etapa no caminho da sua desconstru\u00e7\u00e3o e da sua pluraliza\u00e7\u00e3o no equ\u00edvoco dos Nomes do Pai (non-dupes errent). Os ideais, mergulhados na inconsist\u00eancia, n\u00e3o encontram seu ponto de capiton. N\u00e3o h\u00e1 mais necessidade de algu\u00e9m para encarn\u00e1-lo. A cren\u00e7a no pai n\u00e3o est\u00e1 menos presente. Ela simplesmente tornou-se louca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cren\u00e7a e loucura<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o paterna se apresenta no avesso do mestre, sob a forma rebaixada do escravo. Ela sustenta a cren\u00e7a louca naquele que trabalharia por todos, para assegurar a satisfa\u00e7\u00e3o dos seus desejos, consagrando-lhes um amor igual. O verdadeiro Outro ao qual se recorre como garantia \u00e9 o Outro do direito. Esse Outro do discurso jur\u00eddico deve garantir a distribui\u00e7\u00e3o do gozo que a civiliza\u00e7\u00e3o oferece a partir dos semblantes. Ela indica \u00e0quele que encarna a fun\u00e7\u00e3o de pai como se comportar, mas autoriza e reconhece, de maneira in\u00e9dita, estilos de vida antes condenados. O direito aos gozos n\u00e3o normatizados pelo pai induziu os movimentos de reivindica\u00e7\u00e3o e luta das mulheres, dos gays e l\u00e9sbicas em registros diversos, cujo \u00faltimo, depois do casamento para todos, diz respeito ao direito dos homossexuais de conceber uma crian\u00e7a por PMA[3].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa perspectiva deixa em suspenso a quest\u00e3o do desejo para al\u00e9m do pai. O bom uso da fun\u00e7\u00e3o do significante mestre \u00e9 o de encarnar um desejo humanizado que n\u00e3o esteja fora da lei. O discurso do direito, assegurando a promo\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 diferen\u00e7a pelo vi\u00e9s dos comunitarismos, tem como correlato uma pacifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao gozo? Dito de outro modo, a identifica\u00e7\u00e3o a um significante mestre permite um saber-fazer com o gozo? O gozo n\u00e3o \u00e9 todo absorvido na pr\u00e1tica sexual; o sintoma \u00e9 a prova mesmo de que o parceiro sexual \u00e9, eventualmente, o parceiro sintoma do sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A norma neur\u00f3tica, constru\u00edda sob a lei do pai, prevaleceu por muito tempo. Como Lacan fazia ouvir em \u201cOs complexos familiares\u201d (LACAN, 2003), a neurose \u00e9, sob v\u00e1rios aspectos, um efeito de perspectiva captado numa relatividade sociol\u00f3gica na qual prevalece a fam\u00edlia paternalista. \u00c9 a falsa evid\u00eancia que se imp\u00f4s num momento da hist\u00f3ria do patriarcado. Sem d\u00favida, Lacan falava de um momento terminado. Mas a norma neur\u00f3tica n\u00e3o \u00e9 a lei, como sublinhou Michel Foucault em Vigiar e punir. A lei simb\u00f3lica n\u00e3o recobre o campo das normas. As normas se dizem no plural. Elas proliferam, s\u00e3o tagarelas. A lei se diz no singular. Ela pode, para Lacan, reduzir-se aos \u2018mandamentos da palavra\u2019, segundo o Dec\u00e1logo, que se deduz da enuncia\u00e7\u00e3o do Deus-dizer. As normas sociais s\u00e3o tamb\u00e9m aquelas majoritariamente representadas por um estilo de vida. O estilo de vida \u00e9 o estilo de conflito entre as exig\u00eancias da civiliza\u00e7\u00e3o e o modo de se viver a puls\u00e3o. As normas majorit\u00e1rias admitem suas minorias, suas margens. Nesse sentido, a quase norma neur\u00f3tica n\u00e3o est\u00e1 sozinha. Ela coexiste com o estilo de vida das novas parentalidades aparelhadas pelas concep\u00e7\u00f5es assistidas, o estilo de vida dos homossexuais ou transexuais, casados ou n\u00e3o, encarregados de uma fam\u00edlia ou n\u00e3o. O combate de emancipa\u00e7\u00e3o feminista frente \u00e0 ordem simb\u00f3lica tradicional, substitu\u00eddo pela no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero na tentativa de absorver a diferen\u00e7a homem\/mulher, d\u00e1 lugar tamb\u00e9m a outros estilos de vida, inclusive os queer, que, confrontados com uma fuga de identifica\u00e7\u00f5es, se arranjam com modos de gozar cada vez mais singulares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passamos de uma sociedade centrada no pai para uma sociedade do parceiro sintoma; melhor dizendo, do parceiro gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do patriarcado ao parceiro gozo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa passagem precisou renovar as fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas do casal na sua composi\u00e7\u00e3o e recomposi\u00e7\u00e3o, da mesma forma que as da parentalidade. Mais ainda, fomos confrontados com uma nova er\u00f3tica do divino, marcada pelo fundamentalismo, o retorno pelo artif\u00edcio \u00e0s n\u00fapcias funestas da puls\u00e3o de morte com a imposs\u00edvel identifica\u00e7\u00e3o primordial ao pai. A \u00e9poca do fundamentalismo n\u00e3o pode ser interpretada como um retorno a um regime pacificador do pai. Trata-se de uma nova figura da cren\u00e7a que pode ser examinada como um novo regime, bem mais pr\u00f3ximo da psicose enquanto vontade louca de Deus. Os Deuses de Schreber est\u00e3o a\u00ed para testemunhar isso. Essas normas est\u00e3o em competi\u00e7\u00e3o no mercado de estilos de vida. O valor social atribu\u00eddo a uma ou outra varia segundo o pre\u00e7o estabelecido pela civiliza\u00e7\u00e3o para o ideal e o objeto a. Mas n\u00e3o deixa de ser verdade que a neurose hist\u00e9rica e a neurose obsessiva, que, sublinhemos, n\u00e3o existem mais na classifica\u00e7\u00e3o do DSM V, resistem na sua forma de religi\u00e3o privada, na singularidade de seus sintomas. Por quanto tempo? Em todo caso, \u00e9 in\u00fatil crer que elas ainda sejam a norma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os tipos de sintoma e as exig\u00eancias de gozo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan apreendeu o sintoma na sua dimens\u00e3o singular, quer dizer, a partir do sentido e do gozo em jogo para cada sujeito. Nesse sentido, o sintoma est\u00e1 sempre fora da norma, uma vez que reenvia sempre ao um por um. Essa perspectiva do sintoma, no entanto, \u00e9 correlativa de outra, a do sintoma captado pela estrutura. Na \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos\u201d (LACAN, 2003), Lacan coloca a quest\u00e3o dos tipos de sintoma como a cl\u00ednica os havia isolado antes da psican\u00e1lise, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 particularidade do sintoma. Como dar conta de uma certa validade de seus tipos, como a fobia, a obsess\u00e3o ou a convers\u00e3o hist\u00e9rica e, poder\u00edamos acrescentar, a psicose? Esses tipos cl\u00ednicos n\u00e3o dependem do nominalismo da conting\u00eancia, mas do realismo da estrutura. H\u00e1 tipos de sintomas porque a estrutura, furada, inscreve um certo n\u00famero de restos t\u00edpicos do encontro do gozo com o Outro. Poder\u00edamos dizer que os sintomas s\u00e3o, ent\u00e3o, identific\u00e1veis pela \u201cexig\u00eancia de gozo\u201d. A Zwangsneurose deve ser generalizada para al\u00e9m do que a neurose obsessiva permite perceber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o do gozo est\u00e1 no primeiro plano do caso freudiano do Homem dos lobos, o inclassific\u00e1vel por excel\u00eancia. J.-A. Miller, em 1985, lhe consagrou todo um semin\u00e1rio de DEA[4]. Foi com esse caso que Freud introduziu, pela primeira vez, o termo Verwerfung, de rejei\u00e7\u00e3o a prop\u00f3sito da castra\u00e7\u00e3o, que se fazia acompanhar, ao mesmo tempo, por um reconhecimento da castra\u00e7\u00e3o. Para Lacan, como nota J.-A. Miller, o problema te\u00f3rico pode ser colocado desta forma: \u201ccomo formular a coexist\u00eancia da Verwerfung com o reconhecimento da realidade?\u201d (MILLER, 2009, p. 82). J.-A. Miller situa primeiro a etapa que constitui o isolamento da Verwerfung, que ele chama de foraclus\u00e3o como mecanismo simb\u00f3lico (LACAN, 1998, p. 394). A no\u00e7\u00e3o de Verwerfung \u201csup\u00f5e que haja um elemento de linguagem significante \u2013 e n\u00e3o um sentido \u2013 que est\u00e1 subtra\u00eddo do circuito\u201d. \u00c9 um elemento \u201cque s\u00f3 faz sentir seus efeitos por sua aus\u00eancia e que mobiliza muitas significa\u00e7\u00f5es ao seu redor, sem que essas significa\u00e7\u00f5es cheguem a se juntar ao pr\u00f3prio significante\u201d (MILLER, 2009, p. 86). A foraclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o no Homem dos Lobos vai aparecer erraticamente e encontrar um meio de se manifestar na alucina\u00e7\u00e3o do dedo cortado. Essa Verwerfung da castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o recoloca em causa toda a ordem simb\u00f3lica. A problem\u00e1tica do caso \u201cn\u00e3o parece se centrar sobre a assun\u00e7\u00e3o [\u2026] da fun\u00e7\u00e3o paterna, mas sobre a da castra\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 2009, p. 91). A foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai s\u00f3 aparecer\u00e1 em 1956, com a \u201cQuest\u00e3o preliminar \u2026\u201d. A partir desse texto, a rela\u00e7\u00e3o de causalidade introduzida entre o pai e a castra\u00e7\u00e3o abre uma grande quest\u00e3o cl\u00ednica. Se a met\u00e1fora paterna garante a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, o inverso \u00e9 verdadeiro? A elis\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica implica uma foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da mesma maneira, as rela\u00e7\u00f5es entre o pai da realidade e sua fun\u00e7\u00e3o de ser o suporte do Nome-do-Pai s\u00e3o questionadas. O pai pode permanecer coordenado \u00e0 ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o e aparecer assim em sua vers\u00e3o catastr\u00f3fica. O in\u00edcio da doen\u00e7a do Homem dos Lobos e a sequ\u00eancia de seus sintomas colocam em primeiro plano n\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o paterna, mas a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Desde que um menos avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao falo imagin\u00e1rio, quer seja sua gonorreia aos dezoito anos ou as figuras do pai imagin\u00e1rio marcadas por um menos, o sujeito fica desestabilizado. \u00c9 isso que faz com que J.-A. Miller diga que tudo se passa \u201ccomo se o falo imagin\u00e1rio tivesse uma fun\u00e7\u00e3o de Nome-do-Pai\u201d (2009, p. 110).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A paranoia e a cl\u00ednica universal do del\u00edrio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tese da foraclus\u00e3o generalizada introduzida no semin\u00e1rio de DEA n\u00e3o abole as classifica\u00e7\u00f5es psicopatol\u00f3gicas. Ela as subverte: a foraclus\u00e3o generalizada vem pontuar o fato de que o real do gozo nunca \u00e9 inteiramente absorvido pela mortifica\u00e7\u00e3o significante e que, no que diz respeito a isso, a met\u00e1fora paterna nunca \u00e9 inteiramente realizada. Lacan chega a considerar que, ali onde est\u00e1 o gozo, e n\u00e3o apenas o gozo-sentido (joui-sens) f\u00e1lico, \u00e9 a l\u00edngua, em seu conjunto, que se encarrega dele. A metaforiza\u00e7\u00e3o do gozo na l\u00edngua se d\u00e1 com a ajuda de elementos que n\u00e3o s\u00e3o mais Nomes-do-Pai. Esses elementos que se fixam dependem do sinthome e asseguram uma articula\u00e7\u00e3o entre uma opera\u00e7\u00e3o significante e o gozo, articula\u00e7\u00e3o ligada ao corpo. A perspectiva do sinthome tem como desafio n\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o de novas categorias cl\u00ednicas, mas a procura, em cada caso, da singularidade da distribui\u00e7\u00e3o do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O conceito de sinthome constituiu um avan\u00e7o consider\u00e1vel para apreender uma cl\u00ednica complicada, \u201cinclassific\u00e1vel\u201d, aquela do que se chama, desde a Conversa\u00e7\u00e3o de Arcachon, de psicose ordin\u00e1ria. Para al\u00e9m do binarismo r\u00edgido neurose\/psicose, o acento colocado por Lacan sobre o impacto do dizer sobre o corpo antes de qualquer entrada em jogo do olhar no est\u00e1dio do espelho radicaliza a paranoia constitutiva do sujeito. \u201cA psicose paranoica e a personalidade (\u2026) \u00e9 a mesma coisa\u201d (LACAN, 2007, p. 52). Lacan havia, desde o est\u00e1dio do espelho, mostrado a paranoia constitutiva do sujeito no seu imagin\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao outro e elaborado os diferentes tratamentos da paranoia constitutiva. Chega a concluir, com a teoria dos n\u00f3s, que a psicose paranoica consiste no fato de o sujeito enodar-se em tr\u00eas, numa continuidade, o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real. Esses tr\u00eas n\u00f3s t\u00eam uma \u00fanica e mesma consist\u00eancia. Cada um desses registros cont\u00e9m o germe da paranoia fundamental. No registro imagin\u00e1rio, \u00e9 a paranoia constitutiva do sujeito desde o est\u00e1dio do espelho. No registro simb\u00f3lico, \u201co sujeito ent\u00e3o, ele n\u00e3o fala. Isso fala dele e \u00e9 a\u00ed que ele se apreende\u201d (LACAN, 1998, p. 849). No registro real, o traumatismo do gozo \u00e9 a marca do significante que falta e que tem como matema S ().<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O impacto do dizer sobre o corpo, antes de qualquer entrada em jogo do olhar no est\u00e1dio do espelho, prov\u00e9m do troumatisme. Ele \u00e9 apreendido a partir do furo (trou), da borda que une o corpo e o la\u00e7o da linguagem. Esse troumatisme pode ser qualificado como alucina\u00e7\u00e3o generalizada no sentido em que o corpo percebe a linguagem exterior, como o que faz furo com seu impacto irremedi\u00e1vel de gozo. Nesse sentido, o troumatisme \u00e9 correlativo a uma nova defini\u00e7\u00e3o do sintoma. N\u00e3o \u00e9 mais o sintoma como met\u00e1fora, mas acontecimento de corpo, emerg\u00eancia de gozo. J.-A. Miller chamou de \u201ccl\u00ednica universal do del\u00edrio, aquela que toma seu ponto de partida disto, de que todos os nossos discursos s\u00e3o apenas defesas contra o real\u201d (1993, p. 7). A f\u00f3rmula \u201ctodo mundo \u00e9 louco, quer dizer, delirante\u201d (LACAN, 2010, p. 31) reenvia \u00e0 \u201cextens\u00e3o da categoria da loucura a todos os seres falantes que sofrem da mesma car\u00eancia de saber no que diz respeito \u00e0 sexualidade\u201d (MILLER, 2014, p. 22). Isso perturba as diferen\u00e7as feitas, at\u00e9 ent\u00e3o, entre neurose e psicose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para concluir, n\u00e3o \u00e9 excessivo dizer que, com o decl\u00ednio do Nome-do-Pai, o discurso do neur\u00f3tico, para se defender do real, n\u00e3o \u00e9 mais a norma, mesmo se ainda haja pais e m\u00e3es em torno dos quais o discurso se agarra mais ou menos. Os conceitos do \u00faltimo ensino de Lacan s\u00e3o, quanto a isso, fundamentais para compreender os desafios cl\u00ednicos para al\u00e9m de uma taxonomia fixa.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Helena Souza<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Let\u00edcia Soares<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>AFLALO, A., \u201cR\u00e9\u00e9valuation du cas de l\u2019Homme aux loups\u201d, La Cause Freudienne, 43, out. 1999.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J., \u201cOs complexos familiares e a forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J., \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d, In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 849.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J., \u201cTransfer\u00eancia para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes!\u201d, Correio, revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 65, S\u00e3o Paulo, 2010, p. 31-32.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN. J., O semin\u00e1rio, livro XXIII: o sinthoma, (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A., \u201cL\u2019Homme aux loups\u201d, La Cause Freudienne, 72, nov. 2009.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER. J-A., \u201cClinique ironique\u201d, La Cause Freudienne, 23, fev. 1993, p. 7.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER. J-A., \u201cUm Real para s\u00e9culo XXI\u201d, O real no s\u00e9culo XXI \u2013 Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP. Scilicet. Belo Horizonte: Scriptum e Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2014.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] MILLER J.A., \u201cL\u2019Autre qui n\u2019existe pas et ses comit\u00e9s d\u2019\u00e9thique\u201d, ensino pronunciado na cadeira do departamento de psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII, aula de 20 nov. 1996, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>[2] Ibidem.<\/h6>\n<h6>[3] Em franc\u00eas, PMA: Procr\u00e9ation M\u00e9dicalement Assist\u00e9e [N.T.].<\/h6>\n<h6>[4] Cf. AFLALO, A., \u201cR\u00e9\u00e9valuation du cas de l\u2019Homme aux loups\u201d, La Cause Freudienne, 43, octobre 1999, p. 85-117.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>DOMINIQUE LAURENT<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista, AE da \u00c9cole de la Cause Freudienne (AMP)\u00a0<span id=\"cloak72e2cdd254f9a4c829877a050caa6ce4\"><a href=\"mailto:laurent.dominique@wanadoo.fr\">laurent.dominique@wanadoo.fr<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOMINIQUE LAURENT &nbsp; CAO GUIMARAES &nbsp; A tese da inexist\u00eancia do Outro, sustentada por Jacques-Alain Miller em 1996, em seu semin\u00e1rio, inaugura, dizia ele: \u201ca \u00e9poca lacaniana da psican\u00e1lise\u201d, aquela \u201cda err\u00e2ncia, aquela dos Nomes-do-Pai (non-dupes errent), aquela daqueles que s\u00e3o mais ou menos tolos (dupes) do pai, mais ou menos tolos (dupes) do Outro\u201d[1].&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-1093","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-21","category-18","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1093","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1093"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1093\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1093"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1093"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1093"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}