{"id":1100,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1100"},"modified":"2025-12-01T16:09:45","modified_gmt":"2025-12-01T19:09:45","slug":"o-que-a-histerica-quer-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/o-que-a-histerica-quer-saber\/","title":{"rendered":"O Que A Hist\u00e9rica Quer Saber?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>GRACIANA GUIMAR\u00c3ES<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Graciana.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2100\" data-large_image_height=\"1400\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1101\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Graciana-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Graciana-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Graciana-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Graciana-768x512.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Graciana-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Graciana.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste trabalho pretendo investigar a posi\u00e7\u00e3o em que a hist\u00e9rica se coloca frente a sua busca por saber. Na tentativa de localizar o saber no Outro, a hist\u00e9rica esquiva-se do seu pr\u00f3prio saber sobre seu gozo, como tentaremos averiguar a seguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O saber em psican\u00e1lise<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A palavra \u2018saber\u2019 deriva do latim sapere, que se refere a \u201cter conhecimento, ci\u00eancia, informa\u00e7\u00e3o ou not\u00edcia\u201d e \u201cter sabor, agradar ao paladar\u201d (CUNHA, 1982, p. 695). No decorrer do ensino de Lacan, essa palavra adquire um sentido diferente, se afastando dos termos \u2018conhecimento\u2019, \u2018ci\u00eancia\u2019 e \u2018informa\u00e7\u00e3o\u2019 para, ent\u00e3o, o saber flertar com o \u2018sabor\u2019 da verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O saber em psican\u00e1lise difere do conhecimento, e \u00e9 isso o que Lacan explicita em \u201co que descobrimos na experi\u00eancia de qualquer psican\u00e1lise \u00e9 justamente da ordem do saber, e n\u00e3o do conhecimento ou da representa\u00e7\u00e3o\u201d. O saber est\u00e1 relacionado a um encadeamento significante, \u201ctrata-se precisamente de algo que se liga, em uma rela\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o, um significante S1 a um outro significante S2\u201d, e n\u00e3o ao ac\u00famulo de conhecimento, informa\u00e7\u00f5es acerca de uma realidade (LACAN, 1969-70\/1992, p. 30).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan, no semin\u00e1rio 17, explica que \u201csaber \u00e9 coisa que se diz, que \u00e9 dita\u2026 o saber fala por conta pr\u00f3pria \u2013 eis o inconsciente\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p. 73). Nesse sentido, saber e inconsciente se parelham, podendo sugerir que o saber \u00e9 inconsciente, um saber que n\u00e3o se sabe. \u00c9 pela surpresa, quando o sujeito se sente ultrapassado, pelo que Freud denominou fen\u00f4menos do inconsciente, que esse saber aparece. Nesse trope\u00e7o, nessa hi\u00e2ncia, produz-se um achado, que, para o sujeito, tem um valor \u00fanico, de verdade (LACAN, 1964\/2008).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nesse semin\u00e1rio 17, Lacan estabelece os quatro discursos, importantes para a compreens\u00e3o do que pretendemos neste trabalho, sendo eles o discurso do mestre, o discurso da universidade, o discurso da hist\u00e9rica e o discurso do analista. Luiz Henrique Vidigal, em Ensaios sobre os discursos em Lacan (sd), lan\u00e7a luz sobre como esses discursos s\u00e3o constitu\u00eddos. Em cada um desses discursos observa-se que se delimitam quatro lugares ocupados por quatro letras diferentes. Essas letras circulam na mesma orienta\u00e7\u00e3o e ocupam lugares de acordo com o discurso a que se referem, como pode ser visto abaixo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-22\/Capturar3.png\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"85\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O S1 corresponde ao significante mestre; S2, ao saber; $, ao sujeito; e a letra a corresponde ao mais-de-gozo. Os lugares s\u00e3o de agente, de Outro, de produ\u00e7\u00e3o e de verdade, que se posicionam da seguinte forma:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-22\/Capturar4.png\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"55\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O lado esquerdo, onde est\u00e3o os lugares de agente e verdade, pode ser entendido como sendo o campo do pr\u00f3prio, do \u00edntimo, daquele que sustenta o discurso. O lado direito sendo o campo da alteridade, onde est\u00e3o os lugares do Outro e da produ\u00e7\u00e3o (VIDIGAL, sd).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d, como explicita Vidigal, \u201cLacan substitui o campo do Outro pela bateria de significantes (S2) que forma um campo n\u00e3o disperso, j\u00e1 estruturado de um saber\u201d (VIDIGAL, sd, p. 16). Um significante externo (S1) interv\u00e9m no campo j\u00e1 constitu\u00eddo de outros significantes (S2), e a articula\u00e7\u00e3o desses significantes faz surgir $, denominado sujeito dividido. Desse trajeto de S1 a S2 aparece algo definido como uma perda, designado pela letra a como objeto a, mais-de-gozo (LACAN, 1969-70\/1992).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa articula\u00e7\u00e3o de significantes importa para compreender as nuances do saber. O saber deriva do tra\u00e7o un\u00e1rio, em que um significante S1 faz uma primeira marca e, a partir da\u00ed, se liga a um outro significante S2. Essa liga\u00e7\u00e3o S1-S2, de uma articula\u00e7\u00e3o significante, de um saber em trabalho, instaura a dimens\u00e3o do gozo. O saber trabalhando produz uma entropia, uma perda introduzida pela repeti\u00e7\u00e3o, em que se estabelece um mais-de-gozar a recuperar. O gozo seria um movimento de recupera\u00e7\u00e3o dessa perda, de algo que se perdeu por esse trabalho do saber instaurado na articula\u00e7\u00e3o significante. Como tentativa de preencher essa perda, surgem ent\u00e3o objetos (objeto oral, anal, esc\u00f3pico e vocal) denominados objetos a. \u00c9 a partir do saber como meio de gozo que se busca um sentido, mencionado por Lacan como um sentido obscuro, que \u00e9 o da verdade (LACAN, 1969-70\/1992).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan, em Radiofonia, nos diz \u201c\u00c9 que, da verdade, n\u00e3o temos que saber tudo. Basta um bocado\u2026\u201d, e ainda, \u201co real n\u00e3o \u00e9 antes de mais nada para ser sabido\u201d e \u201ca verdade situa-se por supor o que do real faz fun\u00e7\u00e3o no saber\u201d (Lacan, 1970\/2003, p. 442 e 443). Uma verdade que s\u00f3 \u00e9 acess\u00edvel por um semidizer, alerta Lacan no semin\u00e1rio 17, que n\u00e3o pode ser dita por inteiro, porque, para al\u00e9m de sua metade, \u00e9 indiz\u00edvel (LACAN, 1969-70\/1992).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em Radiofonia, Lacan ironiza que com a verdade n\u00e3o se pode estabelecer rela\u00e7\u00e3o amorosa poss\u00edvel, a n\u00e3o ser a qual ele garante ser segura, com a castra\u00e7\u00e3o (LACAN, 1970\/2003). \u201cO amor \u00e0 verdade \u00e9 o amor a essa fragilidade cujo v\u00e9u n\u00f3s levantamos, \u00e9 o amor ao que a verdade esconde, e que se chama castra\u00e7\u00e3o\u201d. Ent\u00e3o, a verdade se liga \u00e0 impot\u00eancia. O amor \u00e0 fraqueza, \u00e0 impot\u00eancia, isso \u00e9 a ess\u00eancia do amor, \u00e9 dar o que n\u00e3o se tem a fim de reparar essa fraqueza original (LACAN, 1969-70\/1992, p. 54).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A hist\u00e9rica e o saber<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos quatro discursos elaborados por Lacan, o saber, S2, ocupa diferentes lugares em cada um deles, e neste trabalho deterei principalmente nos discursos do mestre e da hist\u00e9rica, os quais nos ajudar\u00e3o a compreender, de certa forma, a rela\u00e7\u00e3o da hist\u00e9rica com o saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No discurso do mestre, o saber est\u00e1 essencialmente no lugar do Outro, o do escravo, que possui um saber-fazer referente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de gozo. E o mestre, por sua vez, busca extorquir o escravo a fim de recuperar o resto de um gozo perdido (NAVAEAU, 2017).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No discurso hist\u00e9rico, o saber est\u00e1 colocado no lugar de gozo, e o mestre \u00e9 quem trabalha para produzi-lo. A hist\u00e9rica se embara\u00e7a, interroga o mestre, S1, sobre sua rela\u00e7\u00e3o com o saber, S2, como visto no seu discurso essa rela\u00e7\u00e3o sugerida, S1\/S2. Esse questionamento remete-se ao valor de a, sobre o que ela mesma seria, uma pergunta lan\u00e7ada no campo do Outro sobre algo que est\u00e1 no seu pr\u00f3prio campo, $\/a, e o que escapa ao saber (NAVAEAU, 2017).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela quer que o Outro seja um mestre, da\u00ed S1 situado \u00e0 direita acima, no discurso da hist\u00e9rica, e que esse mestre saiba de muitas coisas, mas n\u00e3o tantas a ponto de acreditar ser ela o pr\u00eamio m\u00e1ximo de todo o seu saber. Ela quer um mestre sobre o qual ela reine e ele n\u00e3o governe (LACAN, 1969-70\/1992).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No discurso hist\u00e9rico est\u00e1 institu\u00edda a pergunta sobre o que vem a ser a rela\u00e7\u00e3o sexual, de como um sujeito pode sustentar ou n\u00e3o essa rela\u00e7\u00e3o. Colocando o Outro como lugar desse saber, o sujeito hist\u00e9rico mostra-se estranho ao que de fato est\u00e1 em jogo no saber sexual, permanecendo, assim, um saber recalcado (LACAN, 1969-70\/1992).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sujeito hist\u00e9rico se aliena do significante-mestre o qual efetua a divis\u00e3o do sujeito e se recusa a dar-lhe corpo, explicitado por Helenice de Castro (2018) como \u201cuma recusa do corpo ao efeito de castra\u00e7\u00e3o determinada pela incid\u00eancia do S1\u201d. Na recusa do corpo, o sujeito n\u00e3o se coloca como escravo frente ao significante-mestre. A hist\u00e9rica faz a seu modo, ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de greve, como disse Lacan no semin\u00e1rio 17, e n\u00e3o entrega o seu saber. Ela desmascara a fun\u00e7\u00e3o do mestre, mas permanece solid\u00e1ria valorizando o que h\u00e1 de mestre no que \u00e9 o Um, esquivando-se, assim, de ser objeto de desejo (LACAN, 1969-70\/1992).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para a hist\u00e9rica, o n\u00e3o saber ser a mulher a coloca em uma posi\u00e7\u00e3o de enuncia\u00e7\u00e3o, na qual o gozo do homem \u00e9 posto como um saber da mulher. E que ela, por sua vez, acredita n\u00e3o saber como proceder nem o que \u00e9 preciso fazer para o gozo do homem. E, ainda, acredita existir a mulher detentora desse saber. O problema para a hist\u00e9rica n\u00e3o \u00e9 o gozo feminino, mas sim o gozo masculino. \u201c\u00c9 saber se o homem \u00e9 um homem, se ele sustenta o Um\u201d, se ele n\u00e3o tem medo da castra\u00e7\u00e3o, se ele consegue ser um mestre e se \u00e9 capaz de colocar em jogo o Um da vida. Ent\u00e3o se direciona \u00e0 outra que ela julga ter esse saber, do gozo do homem, e a faz seu objeto de admira\u00e7\u00e3o e adora\u00e7\u00e3o (NAVAEAU, 2017, p. 165).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A hi\u00e2ncia entre a hist\u00e9rica e a mulher, a que sabe, instaura um conflito em que mesmo a hist\u00e9rica n\u00e3o alcan\u00e7ando o gozo todo da mulher, que \u00e9 imposs\u00edvel, n\u00e3o se cansa de desejar esse todo, permanecendo o seu desejo sempre insatisfeito e recusando os gozos relativos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, a hist\u00e9rica se v\u00ea dividida entre o gozo e o desejo, caracterizado pela rela\u00e7\u00e3o que ela estabelece com a mulher. A hist\u00e9rica n\u00e3o \u00e9 nem a mulher, a que sabe, nem uma mulher, a \u00fanica de um homem (NAVAEAU, 2017).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O saber de Dora: o que ela nos ensina?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O caso Dora, publicado por Freud em 1905, exemplifica a rela\u00e7\u00e3o da hist\u00e9rica com o saber, e \u00e9 relembrado por Lacan em diversos momentos em que aborda a tem\u00e1tica da histeria. Dora chega a Freud levada pelo pai. A perda da consci\u00eancia ap\u00f3s uma breve discuss\u00e3o com esse pai foi o acontecimento \u00faltimo que, mesmo relutante, a fez aceitar o tratamento. As intrigas em que Dora se envolveu na rela\u00e7\u00e3o que se estabeleceu entre ela, o Sr. K., a Sra. K. e seu pai diz da forma como ela conseguiu lidar com cenas nomeadas por Freud como traum\u00e1ticas \u2013 a cena do lago, em que o Sr. K. faz uma investida amorosa a Dora, e uma cena anterior, quando esta tinha quatorze anos, em que o Sr. K. a imprensa num v\u00e3o de janela e a beija. Associado a isso, o pai, que mant\u00e9m um caso amoroso com a Sra. K. e \u00e9 visto basicamente pela filha, enquanto a m\u00e3e pouco aparece, envolvida apenas com as tarefas dom\u00e9sticas (FREUD, 1905\/1996).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre a Sra. K. e seu pai faz sustentar para Dora o desejo do pai idealizado. Lacan, no semin\u00e1rio 17, relembra a situa\u00e7\u00e3o delicada de sa\u00fade do pai de Dora, que escancara o homem castrado, e isso inclusive em rela\u00e7\u00e3o a sua pot\u00eancia sexual. O pai, em sua destina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, como um ex-combatente, ex-genitor, est\u00e1 sempre em pot\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o. Esse papel-mestre que o pai ocupa no discurso da hist\u00e9rica, sob a perspectiva de pot\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que faz sustentar sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, mesmo esse pai estando fora de forma, como disse Lacan (LACAN, 1969-70\/1992). Como aquele que j\u00e1 n\u00e3o possui e, ao mesmo tempo, possui o \u00f3rg\u00e3o, faz com que o pai n\u00e3o possa ser castrado, pois j\u00e1 o \u00e9 desde sempre. A hist\u00e9rica mant\u00e9m o pai nessa posi\u00e7\u00e3o idealizada, tirando-o do combate, o que faz sustentar a cren\u00e7a de acesso a um gozo absoluto. Com o vislumbre ao gozo absoluto, a hist\u00e9rica recusa o gozo sexual, j\u00e1 que, neste, ela se depara com o gozo relativo que surge do embara\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o com o outro, dos entraves da quest\u00e3o da pot\u00eancia e impot\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o masculino (CASTRO, 2018).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o de Sr. K. que Dora disputa com a Sra. K., mas sim a joia que seu pai, impotente, d\u00e1 a sua amante. No caso de Dora, a Sra. K. ocupa a posi\u00e7\u00e3o de suposto saber, em que ela dirige sua admira\u00e7\u00e3o e adora\u00e7\u00e3o. A Sra. K. \u00e9 a mulher que sabe o que fazer para o gozo do homem, nesse caso, o de seu pai, e \u00e9 a ela em que Dora se interroga sobre o que \u00e9 o gozo. Dora demonstra como a transfer\u00eancia na hist\u00e9rica \u00e9 orientada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher e como esse amor se endere\u00e7a ao saber (NAVEAU, 2017).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na cena do lago, algo que se sustentava na rela\u00e7\u00e3o entre o quarteto Sr. e Sra. K., Dora e seu pai, se desmorona. Quando Dora questiona o Sr. K. sobre sua mulher, e este diz \u201cminha mulher n\u00e3o \u00e9 nada para mim\u201d, ela se depara com duas situa\u00e7\u00f5es. Tem-se, ent\u00e3o, a queda da mulher, quem ela julgava ter o saber sobre o gozo e quem sustentava o desejo do pai idealizado. E tamb\u00e9m, nesse momento, o gozo do Outro \u00e9 ofertado diretamente a ela, o que ela rapidamente recusa, esbofeteando o Sr. K., porque, na verdade, o que ela quer \u00e9 o saber como meio de gozo (LACAN, 1969-70\/1992).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No segundo sonho de Dora, seu pai est\u00e1 morto, e ela \u00e9 convidada a comparecer ao enterro. Ela at\u00e9 tenta ir, mas se v\u00ea em sua casa vazia, folheando um grande livro, um dicion\u00e1rio. Nesse sonho, observa-se a passagem pelo pai idealizado: o pai est\u00e1 morto, e evidencia-se a manobra hist\u00e9rica de instalar o saber como meio de gozo quando Dora escolhe folhear o dicion\u00e1rio. Dora encontra um substituto para esse pai em um livro, um livro em que se ensina o que diz respeito ao sexo, como salienta Lacan. E isso demonstra que o que de fato importa a Dora, para al\u00e9m inclusive da morte de seu pai, \u00e9 o que ele produz de saber, de um saber sobre a verdade (LACAN, 1969-70\/1992). Dora, ao fazer confus\u00f5es com as intrigas envolvendo seus familiares, \u00e9 levada a Freud como mentirosa, e \u00e9 no percurso da an\u00e1lise que ela p\u00f4de fazer valer a sua verdade (LAURENT, 2007 apud CASTRO, 2018). \u201cIsto \u00e9 o que lhe bastar\u00e1 da experi\u00eancia anal\u00edtica. Essa verdade em que, preciosamente, Freud a ajuda\u201d (LACAN, 1969-70\/1992, p.102).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse momento, como salienta Helenice de Castro (2018), teria sido uma virada na an\u00e1lise de Dora que, caso tivesse continuado, poderia ter constru\u00eddo um saber que a aproximasse de seu modo particular de gozo, desvinculado daquele ligado \u00e0 priva\u00e7\u00e3o em que ela se encontrava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir da escrita deste trabalho foi poss\u00edvel verificar que esse questionamento da hist\u00e9rica ao Outro, de buscar o saber no campo do Outro, s\u00f3 a faz distanciar mais do seu pr\u00f3prio saber sobre o seu gozo. A hist\u00e9rica, ent\u00e3o, n\u00e3o quer saber nada sobre o seu pr\u00f3prio gozo, e isso, de certa forma, seria uma defesa. Ao sustentar um mestre potente, detentor de um saber total, a hist\u00e9rica esquiva-se de deparar com a impot\u00eancia, com a castra\u00e7\u00e3o. Com a possibilidade de um trabalho em an\u00e1lise, como visto no caso Dora, essa figura de mestre pode se esvair aos poucos. Com isso, \u00e9 poss\u00edvel dar lugar \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um saber sobre a pr\u00f3pria verdade, sobre o que h\u00e1 de particular no gozo de cada hist\u00e9rica.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>CASTRO, H. de. (2018) Neurose sem \u00c9dipo: Enxame#1. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/jornadaebpmg.blogspot.com\/2018\/05\/enxame-2-2-pingos-nos-is.html&gt; Acesso em: 13 jun. 2018.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>CUNHA A. G. da. Dicion\u00e1rio etimol\u00f3gico nova fronteira da l\u00edngua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1882.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905) \u201dFragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-70) O Semin\u00e1rio. Livro XVII: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______ (1964) O Semin\u00e1rio, Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______ (1970) \u201cRadiofonia\u201d, In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 403-447.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>NAVEAU, P. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP, 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>VIDIGAL, L. H. Ensaios sobre os discursos em Lacan. Belo Horizonte: Editora Tahl, sd.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>GRACIANA GUIMAR\u00c3ES<\/strong><\/h6>\n<h6>GRACIANA GUIMAR\u00c3ES Aluna do curso de psican\u00e1lise do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental \u2013 MG<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GRACIANA GUIMAR\u00c3ES &nbsp; &nbsp; Neste trabalho pretendo investigar a posi\u00e7\u00e3o em que a hist\u00e9rica se coloca frente a sua busca por saber. Na tentativa de localizar o saber no Outro, a hist\u00e9rica esquiva-se do seu pr\u00f3prio saber sobre seu gozo, como tentaremos averiguar a seguir. &nbsp; O saber em psican\u00e1lise &nbsp; A palavra \u2018saber\u2019 deriva&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58021,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-1100","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-22","category-17","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1100"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58022,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1100\/revisions\/58022"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}