{"id":1106,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1106"},"modified":"2025-12-01T16:10:15","modified_gmt":"2025-12-01T19:10:15","slug":"primeau-joyce-wolfson-e-as-falas-impostas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/primeau-joyce-wolfson-e-as-falas-impostas\/","title":{"rendered":"Primeau, Joyce, Wolfson E As Falas Impostas"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>GISELLE GON\u00c7ALVES MATTOS MOREIRA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Giselle-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1707\" data-large_image_height=\"2560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1107\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Giselle-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"683\" height=\"1024\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<strong>CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE<\/strong><br \/>\n<strong>BELO HORIZONTE<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan, em O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma, afirma que o doente vai mais longe que o homem saud\u00e1vel no que concerne ao testemunho da incid\u00eancia do parasitismo da fala e se indaga: \u201cComo \u00e9 que todos n\u00f3s n\u00e3o sentimos que as falas das quais dependemos s\u00e3o, de algum modo, impostas?\u201d (LACAN, 1975-76, p. 92). Essa quest\u00e3o surge em seu semin\u00e1rio logo ap\u00f3s uma apresenta\u00e7\u00e3o de paciente conduzida pelo pr\u00f3prio Lacan no hospital Sainte-Anne, cujo paciente em quest\u00e3o ficou conhecido por Gerard Primeau. Ao fim da entrevista, Lacan diz aos ouvintes que eles acabavam de testemunhar uma \u201cpsicose lacaniana\u201d e chama a aten\u00e7\u00e3o para a experi\u00eancia que o pr\u00f3prio paciente nomeou \u201cfalas impostas\u201d. Entretanto, o agravante \u2013 que deixa Lacan pessimista em rela\u00e7\u00e3o ao caso \u2013 \u00e9 o destino dado a essa imposi\u00e7\u00e3o da fala: Primeau, em um segundo tempo, formula frases reflexivas a partir das falas impostas, mas essas reflex\u00f5es escapavam de seu controle e podiam ser registradas por outras pessoas. Primeau n\u00e3o podia ajustar sua pr\u00f3pria mente, e seus mais \u00edntimos pensamentos estavam a descoberto; ele se diz um \u201ctelepata emissor\u201d, e essa constru\u00e7\u00e3o o leva ao pior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O automatismo mental<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ga\u00ebtan Gatian de Cl\u00e9rambault, psiquiatra franc\u00eas designado por Lacan como seu \u00fanico mestre em psiquiatria, em seu conhecido artigo \u201cAutomatismo mental e cis\u00e3o do Eu\u201d (1920), desenvolve a no\u00e7\u00e3o de \u2018automatismo mental\u2019, a partir do relato de tr\u00eas casos de sua cl\u00ednica. Na sua concep\u00e7\u00e3o, esse fen\u00f4meno teria uma primazia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do del\u00edrio, ou seja, a constru\u00e7\u00e3o delirante seria uma rea\u00e7\u00e3o (interpretativa ou imaginativa) do paciente ao movimento autom\u00e1tico das palavras. Portanto, para Cl\u00e9rambault, seria fundamental fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre \u201co fato primordial, isto \u00e9, o automatismo mental\u201d e \u201ca constru\u00e7\u00e3o intelectual secund\u00e1ria, a \u00fanica a merecer o nome de del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o\u201d (CL\u00c9RAMBAULT, 1920, p. 166). Nesse sentido, diferentes elabora\u00e7\u00f5es ou concatena\u00e7\u00f5es podem surgir como tentativas de explica\u00e7\u00e3o desse mesmo \u201cmaterial imposto pelo inconsciente\u201d (idem, p. 167), a depender da constitui\u00e7\u00e3o de cada sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nota-se que essa concep\u00e7\u00e3o da primazia do automatismo mental trabalhada por Cl\u00e9rambault parece cara a Lacan em sua forma de conceber as repercuss\u00f5es das falas impostas presentes no caso de Gerard Primeau, como em suas elabora\u00e7\u00f5es sobre a dimens\u00e3o da linguagem advindas dessa apresenta\u00e7\u00e3o de paciente e desenvolvidas em O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma: \u201cA quest\u00e3o \u00e9 antes saber por que um homem dito normal n\u00e3o percebe que a fala \u00e9 um parasita, que a fala \u00e9 uma excresc\u00eancia, que a fala \u00e9 uma forma de c\u00e2ncer pela qual o ser humano \u00e9 atingido.\u201d (LACAN, 1975-76, p. 92). Lacan insiste em ressaltar o car\u00e1ter de parasitismo da fala, colocando \u00eanfase nessa rela\u00e7\u00e3o da imposi\u00e7\u00e3o das palavras que, vindas do campo do Outro, \u201catingem\u201d o ser. Portanto, nessa concep\u00e7\u00e3o da fala como parasita, o \u201cfalasser\u201d seria, \u201cem seu corpo, hospedeiro do uso da palavra\u201d (LAIA, 2001, p. 120).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gerard Primeau testemunha sua experi\u00eancia com as falas impostas e, a pedido de Lacan, d\u00e1 exemplos de frases que emergem na sua cabe\u00e7a desvinculadas de um significado imediato. Nas palavras de Primeau: \u201cEle vai me matar o p\u00e1ssaro azul. \u00c9 um sistema an\u00e1rquico. \u00c9 um assassinato pol\u00edtico (\u2026) um \u2018assastinato\u2019 pol\u00edtico, que \u00e9 a contra\u00e7\u00e3o das palavras \u2018assassinato\u2019 e \u2018assist\u00eancia\u2019, que evoca a no\u00e7\u00e3o de assassinato\u201d (LACAN, 1976, p. 6). Durante a entrevista, Lacan retorna a esse ponto \u2013 a essa mistura sonora que se d\u00e1 por um deslizamento entre assassinato e assist\u00eancia \u2013, ao que Primeau esclarece que essas palavras \u201cemergem\u201d \u201cespontaneamente\u201d, como \u201cexplos\u00f5es\u201d. Ao evocar essa fala de Primeau em seu semin\u00e1rio, Lacan dir\u00e1 que vemos muito bem que \u201co significante se reduz a\u00ed ao que ele \u00e9, ao equ\u00edvoco, a uma tor\u00e7\u00e3o de voz\u201d (LACAN, 1975-76, p. 92). Mais adiante Primeau recorre a outro exemplo: \u201c\u2019Eles querem governar meu intelecto\u2019 \u00e9 uma emerg\u00eancia. \u2018Mas a realeza est\u00e1 derrotada\u2019 \u00e9 uma reflex\u00e3o\u201d (LACAN, 1976, p. 12). Desse modo, a partir de uma frase imposta, Primeau acrescenta um \u201cmas\u201d que introduz sua reflex\u00e3o, numa tentativa de neutralizar a frase anterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas reflex\u00f5es poderiam ser uma defesa contra a experi\u00eancia perturbadora com as falas impostas, entretanto, Primeau n\u00e3o conseguia mais ajustar sua pr\u00f3pria mente, e seus mais \u00edntimos pensamentos estavam a descoberto: ele se diz um \u201ctelepata emissor\u201d. Essa constru\u00e7\u00e3o o expunha, causando grande \u201cansiedade\u201d, a ponto de provocar uma tentativa de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma reflex\u00e3o escrita<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir da experi\u00eancia de Gerard Primeau com as falas impostas, Lacan evoca o escritor James Joyce ao perceber que a rela\u00e7\u00e3o do escritor com as palavras tamb\u00e9m refletia um car\u00e1ter de imposi\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ver que uma certa rela\u00e7\u00e3o com a fala lhe \u00e9 cada vez mais imposta (\u2026), a ponto de ele acabar por dissolver a pr\u00f3pria linguagem\u201d (LACAN, 1975-76, p. 93). Se, por um lado, a defesa reflexiva de Primeau fracassa, por outro, Lacan localiza que Joyce, no progresso da sua obra, opera uma reflex\u00e3o ao n\u00edvel da escrita:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sem d\u00favida, h\u00e1 a\u00ed uma reflex\u00e3o ao n\u00edvel da escrita. \u00c9 por interm\u00e9dio da escrita que a fala se decomp\u00f5e ao se impor como tal, a saber, em uma deforma\u00e7\u00e3o acerca da qual permanece amb\u00edguo saber se \u00e9 o caso de se livrar do parasita falador (\u2026) ou, ao contr\u00e1rio, de se deixar invadir por propriedades de ordem essencialmente fon\u00eamica da fala, pela polifonia da fala.(LACAN, 1975-76, p.93)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Banhado pelos murm\u00farios da l\u00edngua, o ato de Joyce \u00e9 \u2013 por interm\u00e9dio da escrita \u2013 o de quebrar, desfigurar as palavras que lhe s\u00e3o impostas, e, no pr\u00f3prio ato de decomposi\u00e7\u00e3o, reatar o n\u00f3, produzindo uma amarra\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica. Como l\u00ea Ram Mandil, h\u00e1 \u201cuma dupla dimens\u00e3o do sinthoma atrav\u00e9s desse procedimento da escrita: de uma defesa frente ao \u2018parasita falador\u2019, mas, ao mesmo tempo, fonte de uma nova satisfa\u00e7\u00e3o, de \u2018deixar-se invadir\u2026 pela polifonia das palavras\u2019\u201d (MANDIL, 2018).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deixar-se atravessar por essa l\u00edngua desmantelada, gozar da desfigura\u00e7\u00e3o das palavras e, por fim, fazer uma tessitura com os peda\u00e7os quebrados. Mas essa trama vai al\u00e9m da linearidade da hist\u00f3ria, se aproximando mais de um encadeamento borromeano, ou, como quer Lacan, de um \u201ctran\u00e7amento de terra e de ar\u201d (LACAN, 1975-76, p. 163). Cada elemento \u00e9 tomado em sua cardinalidade: cada palavra \u00e9 escrita de forma \u201cparticular\u00edssima\u201d, ainda que o sentido comum se perca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos notar essa dissolu\u00e7\u00e3o da linguagem por interm\u00e9dio da escrita (em que a sonoridade e o ritmo ganham uma preval\u00eancia em detrimento do sentido), na seguinte epifania de Joyce:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sr. Vance \u2013 (chega com uma vara)\u2026 Oh, a senhora entende, ele tem que pedir desculpas, Sra. Joyce.<\/p>\n<p>Sra. Joyce \u2013 Oh sim\u2026 Ouviu isso, Jim?<\/p>\n<p>Sr. Vance \u2013 Sen\u00e3o \u2013 se ele n\u00e3o se desculpar \u2013 as \u00e1guias v\u00eam tirar os olhos dele fora.<\/p>\n<p>Sra. Joyce \u2013 Oh, mas tenho certeza de que ele vai se desculpar.<\/p>\n<p>Joyce \u2013 (embaixo da mesa, para si mesmo)<\/p>\n<p>\u2013 Os olhos dele fora<\/p>\n<p>Agora<\/p>\n<p>Agora<\/p>\n<p>Os olhos dele fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora<\/p>\n<p>Os olhos dele fora<\/p>\n<p>Os olhos dele fora<\/p>\n<p>Agora.<\/p>\n<p>(JOYCE, 2018, p. 9)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Schizo e as l\u00ednguas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de recolher algumas pistas sobre a experi\u00eancia com a imposi\u00e7\u00e3o da fala em Primeau e Joyce, passemos a Louis Wolfson, escritor norte-americano, autor do livro Le Schizo et les langues (1970). Wolfson se nomeia sempre no impessoal: \u201co jovem homem esquizofr\u00eanico\u201d, \u201co doente mental\u201d ou, ainda, \u201co estudante de l\u00ednguas esquizofr\u00eanico\u201d. Trata-se, para o autor, de escrever em livro exatamente o procedimento no qual ele submete a l\u00edngua, sendo este quase um empreendimento cient\u00edfico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Wolfson opta por escrever em franc\u00eas pelo fato de o ingl\u00eas, sua l\u00edngua materna, lhe causar as maiores perturba\u00e7\u00f5es. Deleuze, no pref\u00e1cio que escreve ao livro Le Schizo et les langues, descreve bem o \u201cprocedimento lingu\u00edstico de Wolfson\u201d, que vai al\u00e9m de uma simples tradu\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas para o franc\u00eas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que o estudante faz \u00e9 o seguinte: dada uma palavra da l\u00edngua materna, encontrar uma palavra estrangeira com sentido similar, mas que tenha sons ou fonemas comuns (de prefer\u00eancia em franc\u00eas, alem\u00e3o, russo ou hebraico, as quatro l\u00ednguas principais estudadas pelo autor) (DELEUZE, 1970, p. 17).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como localiza Deleuze, o procedimento de Wolfson consiste em fazer uma tradu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o privilegia apenas o sentido das palavras, mas que busca encontrar, em outras l\u00ednguas, sons semelhantes, fazendo uma combina\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica. Para n\u00e3o precisar de se servir do ingl\u00eas, Wolfson diz preferir fazer uma l\u00edngua \u201coriginal dele mesmo\u201d (WOLFSON, 1970, p. 221).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do livro Le Schizo et les langues, retiro a descri\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o em que determinadas palavras s\u00e3o de algum modo impostas ao estudante de l\u00ednguas. Trata-se de grandes caracteres vermelhos escritos em ingl\u00eas: \u201csore throat\u201d. Esse enunciado, que acompanha a propaganda de um rem\u00e9dio, se encontrava espalhado por toda a cidade e atraia involuntariamente os olhos de Wolfson, causando um estado de estupor. Imediatamente uma antiga lembran\u00e7a infantil era despertada: o prel\u00fadio de uma amigdalectomia, em que sua m\u00e3e se dirige a uma enfermeira elogiando sua \u201cbaguette m\u00e1gica\u201d. A obsess\u00e3o por esse pensamento paralelo fazia com que seu c\u00e9rebro se tonasse um \u00f3rg\u00e3o oco. Desse modo, o termo \u201csore throat\u201d deixava sua mente dominada. Wolfson encontra uma poss\u00edvel sa\u00edda para essa perturba\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de seu procedimento lingu\u00edstico. Ele diz:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Mas finalmente \u2013 como por quase todas as outras palavras inglesas que o chateava ou o angustiava \u2013 o estudante de l\u00ednguas esquizofr\u00eanico encontra os voc\u00e1bulos estrangeiros, ou ele se lembra deles, nos quais ele poderia pensar por obter o grande al\u00edvio quando se aborrece pela express\u00e3o sore throat (WOLFSON, 1970, p. 118).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Aplicando seu procedimento, Wolfson converte sore (dor) nas palavras alem\u00e3s: schmerzhaft, schmerzlich, schmervoll, substituindo o s da palavra inglesa pelo sch alem\u00e3o, de forma que o sentido e o som fossem considerados. Ele desliza essa substitui\u00e7\u00e3o at\u00e9 encontrar souffrant na l\u00edngua francesa, passando ainda por palavras do hebraico, do russo, etc. Desse modo, Wolfson tenta barrar o que ele mesmo nomeia \u201cpensamentos parasitas\u201d, recorrendo aos voc\u00e1bulos estrangeiros e deformando \u2013 a seu modo ir\u00f4nico \u2013 a l\u00edngua inglesa (WOLFSON, 1970, p. 121).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como localiza Deleuze, o estudante de l\u00ednguas vive com distanciamento a convers\u00e3o da palavra de origem no novo voc\u00e1bulo estrangeiro, sustentando sempre um tom protocolar e impessoal, intensificado pela escrita em terceira pessoa: \u201cO procedimento lingu\u00edstico gira em falso e n\u00e3o reagrega um processo vital capaz de produzir uma vis\u00e3o (\u2026). Em Wolfson o procedimento \u00e9 ele mesmo seu pr\u00f3prio acontecimento\u201d (DELEUZE, 1970, p. 21). Portanto, o \u201cprocedimento lingu\u00edstico\u201d seria um fazer, ou mesmo uma ajuda contra a constru\u00e7\u00e3o delirante e contra a voz da m\u00e3e, \u201cempurrada\u201d sobre sua cabe\u00e7a atrav\u00e9s de palavras injuriosas. Podemos pensar nessa fun\u00e7\u00e3o, mesmo que ele ainda esteja preso, como ressalta Deleuze, \u00e0s semelhan\u00e7as de som e sentido entre as palavras de origem e \u00e0s palavras transformadas pelas l\u00ednguas estrangeiras, faltando-lhe uma sintaxe criadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Wolfson diz encontrar um grande prazer no estudo das l\u00ednguas, assim como na escrita detalhada de seu procedimento: \u201cMas, mesmo a sua maneira louca, sen\u00e3o imbecil, era agrad\u00e1vel estudar as l\u00ednguas!\u201d (WOLFSON, 1970, p. 70). Ou, ainda, quando questionado por tamanho trabalho, ele reconhece n\u00e3o receber nenhum dinheiro por isso, e diz: \u201cMas eu existo!\u201d (p. 192). Por fim, Wolfson localiza que seu procedimento lingu\u00edstico \u2013 ou nas suas palavras \u201co saber ativo, em ato, em opera\u00e7\u00e3o\u201d (p. 249) \u2013 lhe retirava da paralisia que a experi\u00eancia com as falas impostas lhe causava. Por meio de seus estudos, ele diz se deparar com o belo e, mais ainda, com a possibilidade de \u2018gozar da vida\u2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tr\u00eas loucuras absolutamente distintas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir das diferentes experi\u00eancias com o parasitismo da fala em Primeau, Joyce e Wolfson, fica evidente como cada um encontra uma solu\u00e7\u00e3o diferente e absolutamente pr\u00f3pria para esse fato primordial que \u00e9 o automatismo mental, descrito desde Cl\u00e9rambault.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sobre Primeau, temos o registro da entrevista conduzida por Lacan no hospital Sainte-Anne, diante de um p\u00fablico de analistas e psiquiatras. Durante a entrevista, Lacan aposta na habilidade do paciente em operar com a ambiguidade significante, dizendo que ele seria \u201cincontestavelmente um poeta\u201d. Entretanto, essa tentativa de nomea\u00e7\u00e3o (um poeta) parece n\u00e3o se sustentar, e Lacan n\u00e3o localiza um saber apontado por Primeau, a partir do qual pudesse regular a perturbadora experi\u00eancia com as falas impostas. A tentativa de construir uma defesa reflexiva frente ao gozo da l\u00edngua parece fracassar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Joyce, \u00e9 a partir de sua obra, como de sua biografia, que Lacan percebe que a rela\u00e7\u00e3o do escritor com as palavras tamb\u00e9m apontava para esse car\u00e1ter de imposi\u00e7\u00e3o. Se, a partir das falas impostas, Primeau faz uma reflex\u00e3o ao n\u00edvel do pensamento, de outra forma, a reflex\u00e3o de Joyce se d\u00e1 ao n\u00edvel da escrita. Se Joyce encontra um ponto de amarra\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica \u2013 no caso sua obra, essa \u201ccoisa t\u00e3o particular\u201d \u2013, Lacan n\u00e3o diz o mesmo de Primeau. Ainda em O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma, Lacan retoma a rela\u00e7\u00e3o de Joyce com as epifanias, que \u00e9 tamb\u00e9m uma t\u00e9cnica da escrita joyceana: \u201c\u00c9 totalmente leg\u00edvel em Joyce que a epifania \u00e9 o que faz com que, gra\u00e7as \u00e0 falha, inconsciente e real se enodem\u201d (LACAN, 1975-76, p. 151). Para Lacan, a epifania \u00e9 uma consequ\u00eancia do erro do n\u00f3, falha que solta o Imagin\u00e1rio. Desse modo, atrav\u00e9s de sua obra, Joyce faz um la\u00e7o estreito entre simb\u00f3lico e real, ou uma \u201ctessitura das palavras impostas\u201d, como quer S\u00e9rgio Laia (2001).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, Wolfson. Como destaca Deleuze, seu livro n\u00e3o \u00e9 nem uma obra de arte nem um experimento cientifico leg\u00edtimo; seu aspecto original est\u00e1 no fato de ser um \u201cprotocolo de experimenta\u00e7\u00e3o\u201d. Se Joyce se deixa invadir pela polifonia da fala, Wolfson, por interm\u00e9dio de seu \u201cprocedimento lingu\u00edstico\u201d, tenta destruir a l\u00edngua materna. Por vezes, Wolfson se culpa por gozar atrav\u00e9s de suas investiga\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas, duvidando da moralidade de suas fa\u00e7anhas intelectuais. De uma oposi\u00e7\u00e3o radical entre vida e saber, Wolfson, por fim, toma seu procedimento como condi\u00e7\u00e3o de sair da paralisia e consente com a possibilidade do saber se tornar meio de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seriam tr\u00eas loucuras absolutamente distintas? Primeau, Joyce e Wolfson encontram diferentes solu\u00e7\u00f5es diante da experi\u00eancia com as palavras impostas, seja atrav\u00e9s de uma defesa reflexiva ao n\u00edvel do pensamento no caso Primeau, da obra como reflex\u00e3o escrita em Joyce, seja de um protocolo de experimenta\u00e7\u00e3o, como faz Wolfson. Entre amarra\u00e7\u00f5es e desamarra\u00e7\u00f5es, Wolfson, Joyce e Primeau, cada um a seu modo, lan\u00e7am m\u00e3o de recursos que tratam, compensam ou mesmo fracassam em fazer uma defensa frente ao gozo da l\u00edngua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>CL\u00c9RAMBAULT, Ga\u00ebtan. (1920) \u201cAutomatismo mental e cis\u00e3o do Eu (Apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes)\u201d, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, S\u00e3o Paulo: vol.2 n.1, 1999, p. 160-168.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>DELEUZE, Gilles. (1970) \u201cLouis Wolfson, ou o procedimento\u201d, In: Cr\u00edtica e cl\u00ednica. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1997.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>JOYCE, James. Epifanias. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2018.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. (1975-1976) O semin\u00e1rio, livro XXIII: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. (1976) \u201cUma psicose lacaniana: entrevista conduzida por Jacques Lacan\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. S\u00e3o Paulo, abril\/2000, p. 5-16.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LAIA, S\u00e9rgio. Os escritos fora de si \u2013 Joyce, Lacan e a loucura. Belo Horizonte: Aut\u00eantica\/FUMEC, 2001.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MANDIL, Ram. \u201cLos signos discretos de la locura en James Joyce\u201d, Revista Mediodicho, C\u00f3rdoba. No prelo.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>WOLFSON, Louis. (1970) Le Schizo et les Langues ou la Phon\u00e9tique chez le psychotique. Paris: Gallimard, 1970.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>GISELLE GON\u00c7ALVES MATTOS MOREIRA<\/strong><\/h6>\n<h6>Mestranda em Letras (Estudos Liter\u00e1rios) pela UFMG. Aluna do Curso de Forma\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental \u2013 MG. Rua Manaus, 341\/103\u00a0<span id=\"cloakcaa665174c0e318ab1c9fd77b39f7de2\"><a href=\"mailto:giselegmm@gmail.com\">giselegmm@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GISELLE GON\u00c7ALVES MATTOS MOREIRA &nbsp; IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE BELO HORIZONTE &nbsp; Lacan, em O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma, afirma que o doente vai mais longe que o homem saud\u00e1vel no que concerne ao testemunho da incid\u00eancia do parasitismo da fala e se indaga: \u201cComo \u00e9 que todos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58023,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-1106","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-22","category-17","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1106","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1106"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1106\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58024,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1106\/revisions\/58024"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58023"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1106"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1106"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1106"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}