{"id":1112,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1112"},"modified":"2025-12-01T16:10:45","modified_gmt":"2025-12-01T19:10:45","slug":"sobre-a-colera-de-aquiles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/sobre-a-colera-de-aquiles\/","title":{"rendered":"Sobre A C\u00f3lera De Aquiles"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>JEAN-PIERRE VERNANT<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECIONADAS_NOTURNAS_18_12075.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1257\" data-large_image_height=\"1885\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1113\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECIONADAS_NOTURNAS_18_12075-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"683\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECIONADAS_NOTURNAS_18_12075-683x1024.jpg 683w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECIONADAS_NOTURNAS_18_12075-200x300.jpg 200w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECIONADAS_NOTURNAS_18_12075-768x1152.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECIONADAS_NOTURNAS_18_12075-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECIONADAS_NOTURNAS_18_12075.jpg 1257w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong><em>Canta, \u00f3 deusa, a c\u00f3lera de Aquiles, o Pelida,<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>(mort\u00edfera!, que tantas dores trouxe aos Aqueuse<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>tantas almas valentes de her\u00f3is lan\u00e7ou no Hades,<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>ficando seus corpos como presa para c\u00e3es e aves<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>de rapina enquanto se cumpria a vontade de Zeus),<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>desde o momento em que primeiro se desentenderam<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.[1]\u00a0<\/em><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Logo no primeiro canto da Il\u00edada, Aquiles, em sua c\u00f3lera, se afirma como o homem da solid\u00e3o, do hero\u00edsmo individual. Para preservar a ideia elevada de que ele tem do ideal heroico, postulado como absoluto de honra, ele se separa de seu grupo. Ao faz\u00ea-lo, retira-se da guerra que era sua raz\u00e3o de ser. Situa\u00e7\u00e3o sem sa\u00edda da qual sair\u00e1 por motivos estritamente pessoais, para saciar sua sede de vingan\u00e7a contra aquele que, ao vencer P\u00e1troclo, fez morrer um outro de si mesmo. Ao contr\u00e1rio de Heitor, Aquiles se afasta dos outros gregos associados a ele no combate para preservar at\u00e9 o fim sua identidade de her\u00f3i singular, quase estranho \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana pela eleva\u00e7\u00e3o de sua coragem e pela superioridade de sua for\u00e7a, para n\u00e3o falar em seu nascimento semidivino. Quando volta para a batalha, n\u00e3o aparece como um campe\u00e3o do lado aqueu; \u00e9 uma pot\u00eancia de destrui\u00e7\u00e3o sem r\u00e9deas que guerreia como respira, naturalmente e sem esfor\u00e7o. S\u00f3 sabe matar, matar sempre, at\u00e9 sua pr\u00f3pria morte, n\u00e3o s\u00f3 prevista e aceita, como tamb\u00e9m assumida como a face secreta, o reverso de seu personagem heroico \u2013 essa vis\u00e3o l\u00facida do mundo da morte ao qual o her\u00f3i se dedica ao escolher a gl\u00f3ria e priva o jogo guerreiro de seu prest\u00edgio falacioso. A consci\u00eancia desabusada de n\u00e3o passar de uma criatura perec\u00edvel como as outras, at\u00e9 na fa\u00e7anha, torna f\u00fatil e derris\u00f3ria a oposi\u00e7\u00e3o entre vencido e vencedor, reunidos por destinos semelhantes. Ao contr\u00e1rio de Heitor, Aquiles n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i tr\u00e1gico em si: n\u00e3o sucumbe sob o peso de seus pr\u00f3prios erros, de suas a\u00e7\u00f5es. Porta-voz do ideal heroico, \u00e9 mais uma voz que o relato empresta para dar a ouvir sua mensagem tr\u00e1gica, para sugerir, no fim da narra\u00e7\u00e3o, como uma constata\u00e7\u00e3o final, a incompreensibilidade, a vaidade da exist\u00eancia humana mesmo quando, iluminada pelos fogos de artif\u00edcio da gl\u00f3ria, brilha com um esplendor que parece igualar aos deuses.<\/p>\n<p>Entretanto, por ser expressa em uma obra que, devido a sua organiza\u00e7\u00e3o formal, constitui um mundo fechado e harmonioso, um cosmos, essa insignific\u00e2ncia da vida humana, ao se ofertar \u00e0 intelig\u00eancia est\u00e9tica, \u00e9, ao mesmo tempo, deslocada e superada. Deslocada: doravante olhamos para ela de outro ponto de vista, como se estiv\u00e9ssemos ao mesmo tempo dentro e fora da vida, pr\u00f3ximos e engajados como um homem, distantes e afastados como um deus. Superada: a insignific\u00e2ncia do vivido sofre, na experi\u00eancia imagin\u00e1ria da arte, uma transmuta\u00e7\u00e3o, torna-se significa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica. A desordem, a confus\u00e3o, o disforme que toda cultura se esfor\u00e7a em rejeitar para fora dela na natureza, sem nunca conseguir plenamente, fornece aos homens a mat\u00e9ria para uma cria\u00e7\u00e3o original em que tudo \u00e9 ordem, forma, beleza, porque tudo est\u00e1 organizado no plano da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O relato da Il\u00edada, em sua progress\u00e3o, ilustra o duplo movimento de desorganiza\u00e7\u00e3o e de reorganiza\u00e7\u00e3o, o ir e vir entre a ordem aparente da vida e a desordem que nela se dissimula e entre a desordem assim revelada e uma ordem nova, de um tipo muito diferente. No decorrer da intriga, assistimos a uma esp\u00e9cie de decomposi\u00e7\u00e3o do mundo heroico. Seguindo a inclina\u00e7\u00e3o natural da viol\u00eancia, a guerra, primeiro nobre e cavalheiresca, com seu ideal elevado, suas regras, seus interditos, abre-se para o desencadeamento progressivo da selvageria. Quando a bestialidade a invadiu por inteiro, os her\u00f3is dos dois campos se transformam em animais selvagens, em aves de rapina predadoras que, em sua f\u00faria guerreira, n\u00e3o tratam mais o inimigo como um parceiro em um confronto leal, como um homem diferente, mas como uma coisa, uma presa cuja carne crua se quer devorar. A carnificina que a guerra dissimula aflora, de certa forma, nas falas e nas condutas dos her\u00f3is que n\u00e3o se contentam em triunfar no combate, mas que maltratam o vencido, mutilam-no, despeda\u00e7am-no, dispersam seu corpo, privam-no de sepultura, entregam-no aos c\u00e3es e \u00e0s aves por n\u00e3o poder devor\u00e1-lo eles mesmos, como se, na guerra, a quest\u00e3o fosse menos vencer, ou at\u00e9 mesmo matar, e sim destruir no inimigo at\u00e9 o \u00faltimo rastro de seu aspecto humano, acabar com seu ser social e pessoal lan\u00e7ando-o para sempre para fora da cultura a que pertence, em um n\u00e3o-ser de caos.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>[1] Homero, \u201cCanto I\u201d. In: Il\u00edada. Trad. Frederico Louren\u00e7o. Lisboa: Livros Cotovia, 4\u00aa. ed., 2010.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JEAN-PIERRE VERNANT &nbsp; Canta, \u00f3 deusa, a c\u00f3lera de Aquiles, o Pelida, (mort\u00edfera!, que tantas dores trouxe aos Aqueuse tantas almas valentes de her\u00f3is lan\u00e7ou no Hades, ficando seus corpos como presa para c\u00e3es e aves de rapina enquanto se cumpria a vontade de Zeus), desde o momento em que primeiro se desentenderam o Atrida,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58025,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-1112","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-22","category-17","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1112"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1112\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58026,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1112\/revisions\/58026"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58025"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}