{"id":1121,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1121"},"modified":"2025-12-01T16:12:18","modified_gmt":"2025-12-01T19:12:18","slug":"desmontagem-da-pulsao-na-toxicomania-a-prevalencia-do-objeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/desmontagem-da-pulsao-na-toxicomania-a-prevalencia-do-objeto\/","title":{"rendered":"Desmontagem Da Puls\u00e3o Na Toxicomania: A Preval\u00eancia Do Objeto"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>LU\u00cdS FERNANDO DUARTE COUTO<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Luis-Fernando-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1945\" data-large_image_height=\"1297\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1122\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Luis-Fernando-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Luis-Fernando-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Luis-Fernando-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Luis-Fernando-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Luis-Fernando-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Imagem-Luis-Fernando-1.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><strong>IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<strong>CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE<\/strong><br \/>\n<strong>BELO HORIZONTE<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise acompanha o mundo, suas modifica\u00e7\u00f5es e seus efeitos na subjetividade. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, passamos de uma civiliza\u00e7\u00e3o em que os ideais da cultura traziam alguma ordem para um novo mundo, em que o que prevalece \u00e9 o objeto mais-de-gozar. Essa mudan\u00e7a trar\u00e1 uma nova maneira de se pensar a toxicomania, a partir das consequ\u00eancias advindas da preval\u00eancia do objeto na cultura. A oferta incessante de objetos, fruto da alian\u00e7a do discurso da ci\u00eancia e do discurso capitalista, incluir\u00e1 todos na l\u00f3gica do consumo, obedientes ao imperativo que ordena consumir, gozar. Podemos pensar, assim, em uma l\u00f3gica toxic\u00f4mana para o mundo atual (BENETI, 2014).<\/p>\n<p>\u00c9 a partir das considera\u00e7\u00f5es acerca da preval\u00eancia do objeto que propomos, neste trabalho, a retomada do conceito de puls\u00e3o em sua montagem e desmontagem, que ter\u00e1 agora, na imensa oferta de objetos, a promessa da garantia de sua satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A montagem da puls\u00e3o em Freud e Lacan<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es freudianas acerca da puls\u00e3o aparecem com maior riqueza de descri\u00e7\u00f5es e elabora\u00e7\u00f5es em \u201cAs puls\u00f5es e suas vicissitudes\u201d (FREUD, 1915\/2006). Nesse texto, Freud afirma que se trata de um conceito situado na fronteira entre o mental e o som\u00e1tico e ir\u00e1 diferenci\u00e1-lo dos est\u00edmulos externos. Descreve, assim, os quatro componentes da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>A press\u00e3o (Drang) \u00e9 definida como o motor da montagem pulsional, sua pr\u00f3pria ess\u00eancia. \u00c9 um conceito importante que nos ajuda a pensar o circuito pulsional na toxicomania, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de anular a press\u00e3o pulsional \u2013 a n\u00e3o ser com a morte. O segundo elemento da puls\u00e3o \u00e9 o alvo (Ziel), ou a sua finalidade, que diz respeito \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o. Uma terceira parte dessa montagem \u00e9 a fonte (Quelle), que, para Freud, corresponderia \u00e0 parte som\u00e1tica, processo que ocorreria em uma parte do corpo (FREUD, 1915\/2006). Podemos pensar, com Lacan, que a fonte da puls\u00e3o est\u00e1 nos buracos do corpo, regi\u00f5es que se diferenciam por sua estrutura de borda (LACAN, 1964\/2008). Por fim, o \u00faltimo elemento da puls\u00e3o \u00e9 o objeto (Objekt) que ser\u00e1 alguma coisa, por meio da qual a puls\u00e3o atingir\u00e1 sua satisfa\u00e7\u00e3o. Para Freud, esse ser\u00e1 o elemento mais vari\u00e1vel da puls\u00e3o (FREUD, 1915\/2006).<\/p>\n<p>Lacan, ao retomar o conceito de puls\u00e3o em Freud, afirma que toda sua elabora\u00e7\u00e3o vai contra a ideia de que esta estaria no registro org\u00e2nico e nos apresenta uma constata\u00e7\u00e3o l\u00f3gica da teoria freudiana: a puls\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel de ser satisfeita. Freud traz as bases para essa afirma\u00e7\u00e3o, uma vez que a press\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a constante e que exigir\u00e1 sempre satisfa\u00e7\u00e3o. Lacan afirma que nenhum objeto, de nenhuma necessidade, ir\u00e1 satisfazer a puls\u00e3o. Nesse sentido, o circuito pulsional n\u00e3o atinge o objeto, mas passa por ele, contorna-o. \u201cContorno\u201d ganha a\u00ed um duplo sentido, na medida em que a puls\u00e3o d\u00e1 borda ao objeto e o escamoteia (LACAN, 1964\/2008).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O circuito da puls\u00e3o na toxicomania<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na medida em que o objeto n\u00e3o satisfaz a puls\u00e3o, Lacan destaca o imposs\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do prazer. Retomamos em Freud que o desprazer corresponde a um aumento na quantidade de excita\u00e7\u00e3o e, o prazer, a uma diminui\u00e7\u00e3o. De acordo com sua teoria, o aparelho mental se esfor\u00e7a para manter a excita\u00e7\u00e3o nele presente t\u00e3o baixa quanto poss\u00edvel (FREUD, 1920\/2006).<\/p>\n<p>Mais uma vez, Freud dar\u00e1 as bases para a constata\u00e7\u00e3o lacaniana. A partir dessas duas ideias apresentadas em \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, Freud desenvolver\u00e1 sua investiga\u00e7\u00e3o buscando lidar com a contradi\u00e7\u00e3o presente em suas duas premissas: afinal, se o prazer \u00e9 decorrente dos baixos n\u00edveis de excita\u00e7\u00e3o, e o n\u00edvel de menor excita\u00e7\u00e3o \u00e9 o estado inorg\u00e2nico \u2013 ou seja, a morte \u2013, conclui que todo o caminho do homem visar\u00e1 a esse retorno ao inorg\u00e2nico. Aparece ent\u00e3o, pela primeira vez em sua obra, o conceito de puls\u00e3o de morte, sendo que identifica que a energia das puls\u00f5es de vida e morte tem a mesma natureza, a saber, sexual. Afasta, ent\u00e3o, o conceito de sexualidade \u2013 ou de puls\u00e3o sexual \u2013 de uma fun\u00e7\u00e3o exclusivamente reprodutora.<\/p>\n<p>Nesse sentido, podemos pensar a puls\u00e3o como uma montagem por meio da qual a sexualidade participa da vida ps\u00edquica (LACAN, 1964\/2008, p. 173) ou, de outro modo, ser\u00e1 uma montagem que serve para contornar um vazio. O vazio a ser contornado pode, \u00e0s vezes, surgir como intervalo. Essa frase est\u00e1 em Lacan, ao abordar a puls\u00e3o parcial e seu circuito: \u201cNo intervalo, a sexualidade\u201d (LACAN, 1964\/2008, p. 173). H\u00e1 uma economia libidinal em jogo no intervalo, o que pode torn\u00e1-lo insuport\u00e1vel para o toxic\u00f4mano diante da exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o. H\u00e1 que se pensar o funcionamento do circuito pulsional no intervalo. Afinal, a puls\u00e3o insiste entre uma pedra e outra, e talvez se possa apostar em uma abertura para a fala, naquilo que ela comporta a dimens\u00e3o do gozo. Nesse sentido, o intervalo na toxicomania pode ser sustentado pela possibilidade do gozo de falar com o Outro (ALVARENGA, 2014).<\/p>\n<p>As tentativas de interven\u00e7\u00e3o do Outro ganham um acento na pr\u00e1tica com toxic\u00f4manos por poderem provocar alguma mudan\u00e7a no circuito pulsional. Lacan nos adverte que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00e3o ou de matura\u00e7\u00e3o entre as puls\u00f5es parciais. N\u00e3o se passaria, por exemplo, da puls\u00e3o oral \u00e0 anal por um processo de matura\u00e7\u00e3o. A retifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel est\u00e1 no n\u00edvel da satisfa\u00e7\u00e3o (LACAN, 1964\/2008) e pode ter sua chance com a entrada do Outro. Para Lacan, \u201co sujeito se aperceber\u00e1 de que seu desejo \u00e9 apenas v\u00e3o contorno da pesca, do fisgamento do gozo do outro \u2013 tanto que, o outro intervindo, ele se aperceber\u00e1 de que h\u00e1 um gozo mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d (LACAN, 1964\/2008, p. 180).<\/p>\n<p>Para Miller (1989), a droga permite obter um gozo sem passar pelo Outro. Assim, n\u00e3o se pode fazer dela um objeto causa de desejo, mas causa de gozo. A droga se apresenta em sua positividade, ao contr\u00e1rio do objeto a, que, em sua negatividade, pode mobilizar o desejo. A produ\u00e7\u00e3o de excedente de gozo que n\u00e3o passa pelo Outro e n\u00e3o \u00e9 mediado pelo falo se apresenta como solu\u00e7\u00e3o para o toxic\u00f4mano, na medida em que permite n\u00e3o colocar o problema sexual. A transfer\u00eancia pode surgir a\u00ed, para intervir nesse circuito autoer\u00f3tico. De acordo com Miller, \u201cno fundo, o analista deveria ser um dealer da droga da palavra\u201d (MILLER, 1989, p. 29).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Circuito pulsional e la\u00e7o social<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 interessante pensar o circuito pulsional no uso de drogas em sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro; em que medida o sujeito mobilizar\u00e1 a puls\u00e3o no sentido do la\u00e7o social ou, por outro lado, em que medida se satisfar\u00e1 autisticamente. Podemos assim diferenciar um circuito pulsional que ir\u00e1 contornar o objeto, tentando busc\u00e1-lo no campo do Outro, ou, uma segunda possibilidade, um circuito que lan\u00e7ar\u00e1 m\u00e3o da droga e do corpo pr\u00f3prio para a sua satisfa\u00e7\u00e3o. Podemos discutir a pertin\u00eancia de uma aproxima\u00e7\u00e3o entre o circuito pulsional e o la\u00e7o social a partir das elabora\u00e7\u00f5es sobre a teoria da puls\u00e3o e a teoria do discurso.<\/p>\n<p>Assim, uma hip\u00f3tese de aproxima\u00e7\u00e3o diz respeito a como podemos localizar os elementos da puls\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos elementos do discurso. O discurso, segundo Lacan, ser\u00e1 formado a partir de quatro elementos que se disp\u00f5em em quatro lugares e far\u00e3o a articula\u00e7\u00e3o do sujeito ao Outro, possibilitando, assim, algum la\u00e7o social (LACAN, 1969-1970\/1992). O lugar da verdade provoca o agente a se dirigir ao Outro, e este ir\u00e1 produzir algo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-22\/Capturar-1.png\" alt=\"\" width=\"252\" height=\"113\" \/><\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o que merece ser investigada \u00e9 se podemos localizar o circuito pulsional, em sua vertente de la\u00e7o com o Outro, dentro da montagem do discurso. Essa hip\u00f3tese, que deve ser verificada, conferiria \u00e0 puls\u00e3o uma estrutura discursiva ou, de outro modo, a inscri\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o no la\u00e7o social.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-22\/Capturar-2.png\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"102\" \/><\/p>\n<p>Nesse sentido, a fonte, enquanto buraco do corpo, seria o que mobiliza a for\u00e7a motriz (press\u00e3o) em dire\u00e7\u00e3o a um objeto, supostamente no campo do Outro, produzindo satisfa\u00e7\u00e3o (alvo). \u00c9 interessante notar que a satisfa\u00e7\u00e3o, nesse caso, est\u00e1 tamb\u00e9m no campo do sujeito, e n\u00e3o no campo do Outro. Lacan exemplifica esse ponto ao afirmar que \u201co alvo n\u00e3o \u00e9 ave que voc\u00eas abatem, \u00e9 ter acertado o tiro e, assim, atingido o alvo de voc\u00eas\u201d (LACAN, 1964\/2008, p. 176). O paradoxo na toxicomania \u00e9 que se acredita no logro do objeto, mas n\u00e3o no Outro, de forma que todo o circuito pulsional passa pela tentativa de contornar o objeto no pr\u00f3prio corpo, sem se lan\u00e7ar ao Outro. Freud afirma que, no autoerotismo, tratar-se-ia de uma s\u00f3 boca que beija si mesma. Lacan questiona se n\u00e3o seria ela uma boca fechada, costurada, \u201cem que vemos na an\u00e1lise, apontar ao m\u00e1ximo em certos sil\u00eancios, a inst\u00e2ncia pura da puls\u00e3o oral, fechando-se sobre sua satisfa\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1964\/2008, p. 176).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Caminhos para a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>procurou o CMT[1] h\u00e1 alguns anos, em um quadro de excita\u00e7\u00e3o man\u00edaca. Estava usando crack em grande quantidade, vendendo tudo o que tinha em casa. Os familiares \u201cfugiram\u201d dele indo para o interior, tendo ele ficado um curto per\u00edodo de tempo na rua. Nos atendimentos, exalta suas qualidades dizendo ser um dos melhores jogadores de futebol, poeta, l\u00edder comunit\u00e1rio, um exemplo para a comunidade \u2013 mesmo com o uso da droga. Afirma que o prazer do crack \u00e9 sexual e rejeita medica\u00e7\u00f5es, por lhe suprimirem a libido.<br \/>\nEm atendimentos seguintes, diz ser bombeiro, eletricista, pedreiro, sempre ressaltando suas habilidades. Considera-se um \u201cdependente c\u00ednico\u201d, e n\u00e3o um dependente qu\u00edmico, por se considerar um \u201cmalandro\u201d. \u201cSou dependente c\u00ednico sem ser hip\u00f3crita\u201d: sabe que \u201cas drogas est\u00e3o a\u00ed em qualquer lugar\u201d e que as usa por malandragem.<\/p>\n<p>Em alguns momentos, a malandragem lhe traz inc\u00f4modo, por ter perdido muito com o uso da droga. Durantes os atendimentos, surge uma constru\u00e7\u00e3o, fruto de uma interven\u00e7\u00e3o, da qual ele se apropria e traz consigo ainda hoje, passados mais de cinco anos: malandragem \u00e9 um outro nome para intelig\u00eancia. Apostando em sua intelig\u00eancia, passa a escrever seus poemas e identifica-se ao \u201cpoeta\u201d. Leva seus escritos para os atendimentos e abandona suas outras qualidades: \u201cJ\u00e1 fui jogador, soldado do ex\u00e9rcito, hoje sou poeta\u201d. Interessa-se pela escrita cada vez mais e passa a produzir incessantemente. Seus textos abordam com frequ\u00eancia os temas referentes a sexo, amor, mulheres e drogas \u2013 principalmente as mulheres. Publica um primeiro livro com a ajuda do Centro de Conviv\u00eancia e permanece, nos \u00faltimos anos, \u00e0s voltas com seus textos, que t\u00eam como marca a presen\u00e7a do gozo na escrita.<\/p>\n<p>Podemos pensar, a partir desse caso, as respostas singulares que cada sujeito encontra e, no caso de R., como a puls\u00e3o toma outro caminho, passando de um circuito restrito ao pr\u00f3prio corpo para um outro circuito, que inclui o gozo na escrita, e que pode ser, de alguma forma, socializado. O objeto, dessa vez, est\u00e1 no campo do Outro, na medida em que a produ\u00e7\u00e3o dos livros possibilita o la\u00e7o social. R. coloca suas obras para venda em bancas de revista, oferta seu produto em uma pra\u00e7a da cidade, convida os trabalhadores para lan\u00e7amentos e \u00e9 convidado para saraus e divulga\u00e7\u00e3o de seus livros. H\u00e1 um outro circuito pulsional, que n\u00e3o desconsidera o gozo, e que pode fazer algum la\u00e7o. \u00c9 interessante que R. tenha sustentado seu lugar de poeta h\u00e1 mais de cinco anos.<\/p>\n<p>Freud afirma que \u201ctodo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo espec\u00edfico pode ser salvo\u201d (FREUD, 1930\/2006, p. 91). Miller nos indica um caminho da salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos em contraposi\u00e7\u00e3o a uma salva\u00e7\u00e3o pelos ideais. Ele toma o termo \u201csalva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u2019\u2019 de Paul Val\u00e9ry, que assim define o surrealismo (MILLER, 2011). \u00c9 curioso notar que Lacan ir\u00e1 definir a puls\u00e3o como uma colagem surrealista, em que as partes n\u00e3o est\u00e3o naturalmente articuladas (LACAN, 1964\/2008).<\/p>\n<p>Sendo o surrealismo uma arte, Miller a define como a estetiza\u00e7\u00e3o do dejeto. Essa \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o: dar est\u00e9tica ao dejeto, para que ele possa se entrela\u00e7ar ao discurso do Outro. Assim, o gozo do Um, sempre autista, pode se inscrever no la\u00e7o social, sendo que, por outro lado, algo do gozo resta insocializ\u00e1vel. Penso que Miller nos apresenta, nesse texto, uma orienta\u00e7\u00e3o importante para a condu\u00e7\u00e3o do tratamento com os toxic\u00f4manos, na medida em que precisamos considerar o gozo no tratamento que o sujeito inventa para si. O gozo deve estar contemplado em sua resposta, sendo esta a opera\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>O toxic\u00f4mano monta um aparelho pulsional que dispensa o Outro, o que conhecemos como o gozo c\u00ednico (SANTIAGO, 2017) \u2013 como bem explica nosso paciente R. Lacan afirma que, na medida em que a puls\u00e3o obt\u00e9m alguma satisfa\u00e7\u00e3o, com ela, os sujeitos se contentam. Questiona, ent\u00e3o, por que n\u00f3s nos metemos com isso. A partir de nossas considera\u00e7\u00f5es sobre a desmontagem da puls\u00e3o, percebemos que h\u00e1 outras vias para a satisfa\u00e7\u00e3o, que podem ser menos mort\u00edferas.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>ALVARENGA, E. \u201cAs mulheres e suas drogas\u201d. In: MEZ\u00caNCIO, M. et al (Orgs.) Tratamento poss\u00edvel das toxicomanias. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BENETI, A. \u201cA toxicomania n\u00e3o \u00e9 mais o que era\u201d. In: MEZ\u00caNCIO, M. et al (Orgs.) Tratamento poss\u00edvel das toxicomanias. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905) \u201cTr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol.VII. Rio de Janeiro: Imago, 2006. P.59-60.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1911) \u201cNotas psicanal\u00edticas sobre um relato autobiogr\u00e1fico de um caso de paranoia\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915) \u201cOs instintos e suas vicissitudes\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1920) \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1930) \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 2006.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970) Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964) Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.A. (1989) \u201cPara uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o gozo autoer\u00f3tico\u201d. Pharmakon digital. V.02. p.29.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Perspectivas dos escritos e outros escritos de Lacan: entre o desejo e o gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. A droga do toxic\u00f4mano: uma parceria c\u00ednica na era da ci\u00eancia. 2.ed. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio Edi\u00e7\u00f5es, 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] CMT: Centro Mineiro de Toxicomania, institui\u00e7\u00e3o da FHEMIG na cidade de Belo Horizonte\/MG.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LU\u00cdS FERNANDO DUARTE COUTO &nbsp; IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE BELO HORIZONTE &nbsp; Introdu\u00e7\u00e3o &nbsp; A psican\u00e1lise acompanha o mundo, suas modifica\u00e7\u00f5es e seus efeitos na subjetividade. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, passamos de uma civiliza\u00e7\u00e3o em que os ideais da cultura traziam alguma ordem para um novo mundo, em que o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58030,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-1121","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-22","category-17","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1121","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1121"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1121\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58031,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1121\/revisions\/58031"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58030"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1121"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1121"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1121"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}