{"id":1131,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1131"},"modified":"2025-12-01T16:13:17","modified_gmt":"2025-12-01T19:13:17","slug":"a-violencia-na-civilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/a-violencia-na-civilizacao\/","title":{"rendered":"A Viol\u00eancia Na Civiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>SANDRA MARIA ESPINHA OLIVEIRA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Imagem-Sandra.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1784\" data-large_image_height=\"1186\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3190 size-full\" src=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Imagem-Sandra.jpg\" alt=\"\" width=\"1784\" height=\"1186\" \/><\/a>IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<strong>CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE<\/strong><br \/>\n<strong>BELO HORIZONTE<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, Freud anuncia que a civiliza\u00e7\u00e3o abriga em si seu obst\u00e1culo mais poderoso: a inclina\u00e7\u00e3o para a agress\u00e3o como inelimin\u00e1vel \u00e0 natureza humana e principal derivado e representante da puls\u00e3o de morte. Freud afirma a impossibilidade de erradicar essa \u201cmaldade constituinte do humano\u201d e descreve a evolu\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o como uma luta entre Eros e a Morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A viol\u00eancia, como uma manifesta\u00e7\u00e3o atual desse mal-estar humano, assume formas extremas e invade a totalidade da vida social. Seu incremento n\u00e3o anula seu car\u00e1ter atemporal e inerente \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o. Freud fez do assassinato do pai primevo o fundamento da sociedade dos irm\u00e3os e da lei da proibi\u00e7\u00e3o do incesto, e suas an\u00e1lises sobre a guerra ensinam que \u201ca viol\u00eancia \u00e9 a civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (BROUSSE, 2017, p. 10).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Freud e a guerra<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os horrores da Primeira Guerra Mundial levaram Freud a interpretar a cultura, seu mal-estar, o futuro de suas ilus\u00f5es e a psicologia de suas massas. Em Reflex\u00f5es sobre os tempos de guerra e morte, ele destaca como o progresso cient\u00edfico n\u00e3o moderara a viol\u00eancia, dotando-a, pelo contr\u00e1rio, de armas que ampliavam seu alcance. Mais tarde, em Por que a Guerra?, ele afirma que uma comunidade se mant\u00e9m unida pela for\u00e7a coercitiva da viol\u00eancia e pelas identifica\u00e7\u00f5es que ligam seus membros entre si. Freud prop\u00f5e uma evolu\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o que vai da viol\u00eancia ao direito. A lei, que, originalmente, era a domina\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a bruta de um \u00fanico indiv\u00edduo, passa a representar a uni\u00e3o do grupo, sem deixar de ser viol\u00eancia pronta a se voltar contra quem a ela se opor. Sua teoria das puls\u00f5es estabelece que as a\u00e7\u00f5es humanas \u201csurgem da a\u00e7\u00e3o confluente ou mutuamente contr\u00e1ria\u201d de Eros e Thanatos, reafirmando que \u201cde nada vale tentar eliminar as inclina\u00e7\u00f5es agressivas dos homens\u201d (FREUD, 1932, 254).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Da psicologia dos grupos ao mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Miller, Psicologia dos grupos \u00e9 uma teoria pol\u00edtica que introduz o Outro sob a forma do Ideal do eu e mostra o poder apaziguador do significante mestre na coes\u00e3o amorosa da humanidade. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, por sua vez, corrige essa teoria ao testemunhar o fracasso da identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e do amor fundado nessa identifica\u00e7\u00e3o para resolver o problema do gozo e ao fazer surgir, nesse lugar, a figura do supereu (MILLER, 2010, p. 15-17).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse percurso \u201cdo amor \u00e0 morte\u201d (MILLER, 2010b), trata-se do destino do gozo pulsional na ordem social. \u00c9 pela via do amor que Freud constr\u00f3i, em dois tempos, o conceito de supereu: no primeiro, n\u00e3o h\u00e1 supereu, mas depend\u00eancia do amor do Outro e, no segundo, o supereu \u00e9 a introje\u00e7\u00e3o do Outro que sabe e do qual nada pode ser escondido, resultando na culpa universal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Miller, essa g\u00eanese do supereu a partir da introje\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do Outro \u00e9 retomada por Freud do lado do gozo, em um confronto direto entre as puls\u00f5es e o supereu, quando afirma que este se nutre da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional \u00e0 qual se renunciou por amor. Quanto mais se renuncia ao gozo, mais se goza dessa ren\u00fancia e mais culpado \u00e9 o sujeito, sendo o gozo a face cruel das exig\u00eancias do supereu. N\u00e3o h\u00e1 ren\u00fancia no n\u00edvel do gozo, pode-se experiment\u00e1-lo diretamente ou atrav\u00e9s de sua renuncia. Formula-se a crueldade s\u00e1dica do supereu e conclui-se que as exig\u00eancias da consci\u00eancia moral se sustentam de exig\u00eancias pulsionais. Toda moral, ao tentar eliminar o mal, s\u00f3 faz revel\u00e1-lo. Freud se det\u00e9m, ent\u00e3o, diante da mais elevada exig\u00eancia moral da civiliza\u00e7\u00e3o, o mandamento \u201cAmar\u00e1s a teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d, e enuncia que \u00e9 \u201cporque teu pr\u00f3ximo n\u00e3o \u00e9 digno de amor, mas, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 teu inimigo, que deves am\u00e1-lo como a ti mesmo\u201d (FREUD, 1929, p. 132-133).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Lacan, o que det\u00e9m Freud \u00e9 a presen\u00e7a dessa maldade profunda que habita em cada um: \u201cE o que \u00e9 mais pr\u00f3ximo do que esse \u00e2mago em mim mesmo que \u00e9 o do meu gozo, do que n\u00e3o posso me aproximar?\u201d (LACAN, 1988, p. 227).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia do significante e a l\u00f3gica lacaniana do la\u00e7o social<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em sua origem, a psican\u00e1lise \u00e9 confrontada com uma viol\u00eancia que Freud interpretou como crime a partir da lei, fundando a fam\u00edlia e a sociedade nos crimes do parric\u00eddio e do incesto, com os mitos de \u00c9dipo de Totem e tabu, ambos regidos pela interdi\u00e7\u00e3o paterna. Lacan, por sua vez, formalizou o \u00c9dipo a partir das leis da linguagem com o conceito de met\u00e1fora paterna. Ele fez do Nome-do-Pai o operador simb\u00f3lico, que ordena as rela\u00e7\u00f5es do sujeito com a linguagem, e do objeto a, um conceito que permite deslocar a castra\u00e7\u00e3o e o recalque do interdito paterno para a pr\u00f3pria linguagem. Com Lacan, a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 deduzida da linguagem como uma viol\u00eancia inerente ao significante, expressa no axioma da fantasia \u201cbate-se numa crian\u00e7a\u201d. Bater \u201c\u00e9 o modo de funcionamento do significante sobre o corpo, o que bate no corpo \u00e9 o significante\u201d (BROUSSE, 2017, p. 24).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Suporte da l\u00edngua e de suas formas de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, o significante \u00e9 a primeira viol\u00eancia exercida sobre o corpo (BASSOLS, 2018). O gozo proveniente do encontro contingente entre as palavras e o corpo faz irrup\u00e7\u00e3o no campo do simb\u00f3lico como um gozo que lhe escapa. Lacan assinala esse ponto onde reina a viol\u00eancia: \u201cAcaso n\u00e3o sabemos que nos confins onde a fala se demite come\u00e7a o \u00e2mbito da viol\u00eancia, e que ela j\u00e1 reina ali mesmo sem que a provoquemos?\u201d (LACAN, 1998, p. 376). O dom\u00ednio da viol\u00eancia come\u00e7a onde se rompe o pacto simb\u00f3lico da palavra, e a puls\u00e3o aparece como pura puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No campo do significante, Lacan diferenciou o efeito de sentido, resultante da articula\u00e7\u00e3o significante, do efeito de gozo, correlato da ex-sist\u00eancia do S1 sozinho, fora do sentido, fora da lei, que opera onde n\u00e3o h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o. O S1 sozinho n\u00e3o \u00e9 um significante do discurso universal nem do discurso do inconsciente, mas um significante imposs\u00edvel de negativizar, que tem valor de real, que n\u00e3o \u00e9 do Outro, mas do Um (MILLER, 2003, p. 11). O gozo se inscreve a partir do Um sozinho como uma satisfa\u00e7\u00e3o singular, surgida do que n\u00e3o se partilha, do gozo do corpo pr\u00f3prio, gozo autoer\u00f3tico que dispensa o Outro. \u201cO corpo \u2018se goza\u2019 sozinho e [por isso] o encontro com o sexual faz furo, troumatisme\u201d (SOLANO-SUAREZ, 2018, p. 16) constituinte de uma forclus\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No fim do seu ensino, Lacan inverte sua perspectiva inicial, a do Outro, para centrar-se no mais singular a cada um. O essencial passa a ser o Um do gozo, que n\u00e3o tem contr\u00e1rio, segundo a m\u00e1xima lacaniana de que, no n\u00edvel da puls\u00e3o, \u201co sujeito \u00e9 sempre feliz\u201d. Para Miller, passa a haver \u201capenas percursos, arranjos e regimes de gozo\u201d (MILLER, 2011, p. 11).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A l\u00f3gica do la\u00e7o social ser\u00e1 constru\u00edda a partir desse troumatisme, dessa primeira rejei\u00e7\u00e3o pulsional decorrente da entrada no universo simb\u00f3lico, rejei\u00e7\u00e3o estrutural do gozo, presente como uma alteridade radical interna ao Outro e suporte das singularidades de gozo que n\u00e3o s\u00e3o universais nem universaliz\u00e1veis, mas inclassific\u00e1veis. \u201cTodo conjunto humano comporta (\u2026) um gozo deslocado, um n\u00e3o saber sobre o gozo\u201d e, nessa l\u00f3gica, \u201co crime fundador n\u00e3o \u00e9 o assassinato do pai, mas a vontade de aniquilar aquele que encarna o gozo que eu rejeito\u201d (LAURENT, 2014).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan prop\u00f5e um regime de la\u00e7o social que n\u00e3o passa pela identifica\u00e7\u00e3o a um tra\u00e7o comum, mas funciona como um \u201ccorpo que faz la\u00e7o com outros corpos, para al\u00e9m das identifica\u00e7\u00f5es, por uma experi\u00eancia de gozo comum\u201d (LAURENT, 2017, p. 39). Freud parte da \u2018interdi\u00e7\u00e3o\u2019 paterna, e Lacan constata que \u00e9 \u2018imposs\u00edvel\u2019 gozar do corpo do Outro, o comum sendo a disc\u00f3rdia entre o corpo e o Outro, que n\u00e3o existe. O que existe \u00e9 o corpo afetado pela linguagem, na medida em que a palavra condiciona seu gozo. Nesse n\u00edvel, o Outro \u00e9 o corpo. Nenhum discurso \u00e9 capaz de capturar esse gozo opaco \u00e0s tentativas de significa\u00e7\u00e3o do Outro, pois a supremacia do Um prov\u00e9m da pr\u00f3pria linguagem e configura um n\u00facleo de solid\u00e3o inelimin\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 universal que elimine o trauma implicado no gozo ou apazigue a disc\u00f3rdia entre o corpo e o Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse furo no fundamento de todo la\u00e7o social, constitu\u00eddo pela \u2018extimidade\u2019 do gozo, implica um imposs\u00edvel que se traduz como \u00f3dio ao gozo do Outro suposto subtra\u00ed-lo do sujeito. Se o Outro \u00e9 Outro dentro de mim mesmo, em posi\u00e7\u00e3o de \u2018extimidade\u2019, esse \u00f3dio ao gozo do Outro \u00e9 o \u00f3dio ao meu pr\u00f3prio gozo (MILLER, 2010c, p. 43). \u201cNada concentra mais \u00f3dio do que esse dizer onde se situa a ex-sist\u00eancia\u201d (LACAN, 1985, p. 164), cujo suporte \u00e9 o Um da diferen\u00e7a absoluta. A ess\u00eancia da viol\u00eancia \u00e9 essa rejei\u00e7\u00e3o primordial do gozo, que designa o real do Outro. As viol\u00eancias s\u00e3o tentativas, sempre falidas, de recuperar o que foi expulso e perdido, de alcan\u00e7ar esse Outro gozo (HOLGUIN, 2016, p. 60).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia e a \u00e9poca<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com o modelo edipiano de regula\u00e7\u00e3o do gozo, referido ao interdito paterno, Freud interpretou a sociedade disciplinar de sua \u00e9poca e fez da neurose uma norma. Lacan reconheceu essa fun\u00e7\u00e3o do Pai freudiano na estrutura da sexua\u00e7\u00e3o masculina como a matriz de uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica constitu\u00edda como um todo incompleto. Segundo Miller, a sociedade da globaliza\u00e7\u00e3o deixou de viver sob esse regime paterno e cedeu \u00e0 inconsist\u00eancia do n\u00e3o-todo feminino, em que nada existe em posi\u00e7\u00e3o de interdito e um \u2019enxame\u2019 de possibilidades \u00e9 introduzido, \u201cuma constela\u00e7\u00e3o de significantes, mais do que uma unicidade do significante-mestre\u201d (MILLER, 2011b, p. 15). Um S1 passa a valer tanto quanto qualquer outro, e esse enxame de S1s sozinhos, correlatos da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, faz da norma ed\u00edpica um regime de gozo entre outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica do Um sozinho, o sintoma torna-se o regime pr\u00f3prio do gozo que n\u00e3o pode ser negativizado, \u201co sujeito experimentando-o necessariamente\u201d como uma satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva no lugar de uma satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o interditada, mas imposs\u00edvel de ser alcan\u00e7ada: a da rela\u00e7\u00e3o sexual, que n\u00e3o existe. Essa metaforiza\u00e7\u00e3o do gozo na l\u00edngua permite solu\u00e7\u00f5es que prescindem da fun\u00e7\u00e3o paterna e se d\u00e3o com os recursos do sintoma numa articula\u00e7\u00e3o direta entre gozo e significante, ligada ao corpo (DRUMMOND, 2018). O sinthoma torna-se o equivalente da fun\u00e7\u00e3o do pai: \u201cum operador de consist\u00eancia que mant\u00e9m juntos o corpo, a palavra e o real\u201d (SOLANO-SUAREZ, 2018, p. 16). O Outro que n\u00e3o existe tem um corpo como lugar do gozo e ponto de inser\u00e7\u00e3o do aparelho significante de onde o discurso se origina como la\u00e7o social, n\u00e3o havendo discurso que n\u00e3o seja do gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan d\u00e1 conta do modo singular do funcionamento do significante sobre o corpo pela presen\u00e7a de um gozo infiltrado em toda comunica\u00e7\u00e3o humana e confirma a tese de que n\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o, mas mal-entendido. A pr\u00e1tica anal\u00edtica passa a depender do real tal como ele adv\u00e9m em cada \u00e9poca (LACAN, 2011, p. 19).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para M-H Brousse, a viol\u00eancia \u00e9 um significante mestre da civiliza\u00e7\u00e3o atual, quando a articula\u00e7\u00e3o entre castra\u00e7\u00e3o e NP deixou de funcionar em termos de sentido. Para ela, essa ascens\u00e3o da viol\u00eancia \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de S1 deve-se \u00e0 ascens\u00e3o atual da categoria do real. A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais capturada pelos significantes que lhe davam o sentido do sacrif\u00edcio, da culpa, do castigo, mas surge sem a lei e constitui um sentido m\u00ednimo dado a esse real (BROUSSE, 2017, p. 18-19).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Brousse observa que, na fantasia \u201cbate-se numa crian\u00e7a\u201d, a atribui\u00e7\u00e3o do gozo ao pai, que d\u00e1 sentido de amor ao bater, permite que seja por amor que o gozo condescenda ao desejo. Hoje, quando esse Outro respons\u00e1vel pelo gozo desfalece e o gozo deixa de ser-lhe atribu\u00eddo, passamos da heterossexualidade ao autoerotismo generalizado. Verifica-se uma dissocia\u00e7\u00e3o entre o gozo do corpo e o amor pelo Outro e, como consequ\u00eancia, uma impossibilidade de localizar esse real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Brousse isola dois novos tratamentos dessa marca do gozo no corpo, que n\u00e3o passam pelo pai: o tratamento pelo ego e o tratamento pela cren\u00e7a na fantasia. No tratamento pelo ego, recorre-se \u00e0 imagem mais que ao significante para fazer-se um corpo \u00e0 medida. S\u00e3o pr\u00e1ticas de corte com o gozo que implicam a passagem da viol\u00eancia ao imagin\u00e1rio do corpo sem recurso ao Outro: o corpo tatuado, o corpo cortado ou escarificado, o corpo customizado. Quanto \u00e0 cren\u00e7a na fantasia, fortalece-se seu uso p\u00fablico. A fantasia passa de simb\u00f3lico-imagin\u00e1rio a real. Apaga-se seu uso como marco da realidade, e esta \u00e9 invadida pela fantasia. O sujeito identifica-se com o objeto de gozo em uma posi\u00e7\u00e3o masoquista e, a prop\u00f3sito da viol\u00eancia, transforma-se em v\u00edtima (BROUSSE, 2017b, p. 27-28).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vivemos a contradi\u00e7\u00e3o de uma \u00e9poca na qual o respeito \u00e0s diferen\u00e7as convive com um processo de homogeneiza\u00e7\u00e3o cuja magnitude faz desaparecer a categoria do Outro e d\u00e1 lugar a uma subjetividade embotada pelo gozo, de narcisismo crescente e desejo minguante, surgida na passagem do direito ao gozo \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de gozar (BARROS, 2016, p. 97).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa era p\u00f3s-patriarcal nasce com o capitalismo que, ao operar pela destitui\u00e7\u00e3o da autoridade, se torna paradoxalmente um poder totalit\u00e1rio sem precedentes, abrigado no interior das democracias mais liberais. Com a ajuda da ci\u00eancia, o Um tir\u00e2nico do capitalismo n\u00e3o se limita a tirar a vida, mas a produz, administra e controla. Nunca o poder teve tanto poder como agora, sendo tanto mais poderoso quanto mais prescinde da autoridade, isto \u00e9, quanto mais ac\u00e9falo ele for. A obedi\u00eancia sem autoridade est\u00e1 impl\u00edcita na f\u00f3rmula do discurso capitalista que faz pensar que o objeto de gozo cura a divis\u00e3o subjetiva. O supereu \u00e9 a verdade desse sujeito consumidor que n\u00e3o necessita obedecer a uma autoridade, pois sua explora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma autoexplora\u00e7\u00e3o. Ele obedece aos imperativos do supereu, purificado e aperfei\u00e7oado pela destitui\u00e7\u00e3o da autoridade paterna (BARROS, 2016, p. 102).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A permiss\u00e3o de gozar n\u00e3o muda nada quanto \u00e0 estrutura do gozo, da mesma forma que n\u00e3o faz falta o pai que interdita para explicar seus excessos. Interessa-nos o que Miller destaca no texto Crian\u00e7as violentas sobre a viol\u00eancia como pura irrup\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte, quando esses Erzats do gozo, que s\u00e3o a fantasia e o sintoma, n\u00e3o operam e, mais al\u00e9m do \u00f3dio e do amor, a maldade do Outro se realiza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A essa desordem no real, caracter\u00edstica da \u00e9poca, a psican\u00e1lise faz valer o real sem lei e fora do sentido como o lugar no qual cada Um pode alojar seu sintoma, sua solid\u00e3o e seu ex\u00edlio pr\u00f3prio \u00e0 linguagem. Nessa desordem do mundo, a psican\u00e1lise l\u00ea o n\u00e3o-todo e separa o real sem lei de toda tentativa de retifica\u00e7\u00e3o subjetiva de massa. Ela opera a partir do \u201ch\u00e1 Um\u201d como o que jamais constituir\u00e1 um conjunto unificado. Ela vai contra o universal e a domina\u00e7\u00e3o, preferindo sempre o Outro ao Um. Seu uso do simb\u00f3lico \u00e9 antissegregativo e se op\u00f5e \u00e0 homogeneiza\u00e7\u00e3o promovida pela uni\u00e3o da ci\u00eancia com o mercado, permitindo que cada um encontre a solu\u00e7\u00e3o para o traumatismo do significante e fazendo valer a verdadeira autoridade, a do significante mestre, que transcreve no simb\u00f3lico a divis\u00e3o do sujeito face \u00e0 puls\u00e3o. \u00c9, ainda, orientando-se por esse real que ela resiste \u00e0s tentativas que visam segreg\u00e1-la ou reduzi-la a uma terap\u00eautica, indo contra a diferen\u00e7a absoluta e a dignidade do sujeito que ela promove.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BARROS, M. Obediencia sin autoridad: o sadismo nuestro de cada d\u00eda. Violencia y radicalizaci\u00f3n, Buenos Aires: Grama Ediciones, 2016, p.95-102.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BASSOL, M. \u201cActo de violencia\u201d. Rayuela, n. 4, agosto 2018.<\/h6>\n<h6>Dispon\u00edvel em :<\/h6>\n<h6>http:\/\/www.revistarayuela.com\/es\/004\/template.php?file=Notas\/Acto-de-violencia.html<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BOUSSE, M-H. \u201cViolencia en la cultura\u201d. Bit\u00e1cora lacaniana, Buenos Aires, Grama Ediciones, n\u00famero extraordin\u00e1rio, p. 9-20, abril 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BOUSSE, M-H. \u201cViolencia en las fam\u00edlias\u201d In: Bit\u00e1cora lacaniana, Buenos Aires, Grama Ediciones, n\u00famero extraordin\u00e1rio, p.21-36, abril 2017b.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>DRUMMOND, C. \u201cQue nomea\u00e7\u00e3o adv\u00e9m da queda do falocentrismo\u201d In: Polifonias #4, Boletim do XXII Encontro da EBCF, Rio de Janeiro, 2018. Dispon\u00edvel em:<\/h6>\n<h6>encontrobrasileiro2018.com.br\/16908-2\/<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Reflex\u00f5es para o tempo de guerra e morte (1915). Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud, vol. XIV), p. 310-341.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o (1929). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud, vol. XXI), p. 75-171.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Por que a guerra? (1932). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud, vol. XXII), p. 237-259.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>HOLGUIN, C. M. \u201cPor que nos odiamos? La brutalidad opaca de la vida\u201d In: Violencia y radicalizaci\u00f3n, Buenos Aires: Grama Ediciones, 2016, p.55-62.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1954) Introdu\u00e7\u00e3o ao coment\u00e1rio de Jean Hypolite In: Escritos, rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 370-382.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1959-1960) \u201cO amor ao pr\u00f3ximo\u201d In: O semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p. 219-232.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973) \u201cRodinhas de barbante\u201d In: O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p. 160-178.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974) \u201cA terceira\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana. S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 62, p.11-34, dezembro 2011.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cRacismo 2.0\u201d In: Lacan cotidiano, 371, 2014. Dispon\u00edvel em:<\/h6>\n<h6>http:\/\/ampblog2006.blogspot.com\/2014\/02\/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. \u201cPaix\u00f5es religiosas do ser\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana. S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 75\/76, p. 33-45, maio 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cO \u00faltimo ensino de Lacan\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana , S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 35, janeiro 2003, p. 6-24.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cConverg\u00eancia e diverg\u00eancia\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana on line, nova s\u00e9rie, ano 1, n\u00famero 2, julho 2010.<\/h6>\n<h6>Dispon\u00edvel em : http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero2\/texto1.html<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cDo amor \u00e0 morte\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana on line, nova s\u00e9rie, ano 1, n\u00famero 2, julho 2010b.<\/h6>\n<h6>Dispon\u00edvel em : http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero2\/texto1.html<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cRacismo\u201d In: Extimidade. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010c, p. 43-58.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas I\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana online, nova s\u00e9rie, ano 2, n. 5, novembro 2011. Dispon\u00edvel em:<\/h6>\n<h6>http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intuicoes_Milanesas_I.pdf<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas II\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana online, nova s\u00e9rie, ano 2, n. 5, novembro 2011b. Dispon\u00edvel em:<\/h6>\n<h6>http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_6\/Intuicoes_Milanesas_II.pdf<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cCrian\u00e7as violentas\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana, S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 77, p.23-31, agosto 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SOLANO-SUAREZ, E. \u201cPsicosis ordinaria y despertar\u201cIn: Papers 777, n.7, Barcelona, 2018. Dispon\u00edvel em :<\/h6>\n<h6>https:\/\/congresoamp2018.com\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/PAPERS7.7.7.N%C2%B07-MULTILINGUE-DEF.pdf<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SOUTO, S. \u201cUma pol\u00edtica do corpo falante\u201d In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana, S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 77, p.51-54, agosto 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SOUTO, S. \u201cDescontinuidade do \u00c9dipo, continuidade do gozo\u201d In: Curinga, Belo Horizonte, n. 44, p. 145-149, jul.\/dez. 2017b.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>VERAS, M. \u201cEn la multitud estamos siempre solos\u201d. IX Jornadas da Nel, outubro 2016, Guayaquil, Equador. Dispon\u00edvel em:<\/h6>\n<h6>http:\/\/ix.jornadasnel.com\/template.php?file=Textos-Videos-y-Entrevistas\/Textos\/16-08-29_En-la-multitud-estamos-siempre-solos.html<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Sandra Maria Espinha Oliveira<\/strong><\/h6>\n<h6>SANDRA MARIA ESPINHA OLIVEIRA Analista praticante (AP) EBP\/AMP Rua Santa Rita Dur\u00e3o, 321 \/ 407 (31) 3227-7527 (31) 99973-2680\u00a0<span id=\"cloak77ce1ac6366498632b085837455045d2\"><a href=\"mailto:sandra_espinha@uol.com.br\">sandra_espinha@uol.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANDRA MARIA ESPINHA OLIVEIRA &nbsp; IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE BELO HORIZONTE &nbsp; Em O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, Freud anuncia que a civiliza\u00e7\u00e3o abriga em si seu obst\u00e1culo mais poderoso: a inclina\u00e7\u00e3o para a agress\u00e3o como inelimin\u00e1vel \u00e0 natureza humana e principal derivado e representante da puls\u00e3o de morte. 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