{"id":1134,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1134"},"modified":"2025-12-01T16:13:45","modified_gmt":"2025-12-01T19:13:45","slug":"entrevista-damasia-amadeo-de-freda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/entrevista-damasia-amadeo-de-freda\/","title":{"rendered":"Entrevista Damasia Amadeo De Freda"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>DAMASIA AMADEO DE FREDA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Damasia-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"906\" data-large_image_height=\"604\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1135\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Damasia-1.jpg\" alt=\"\" width=\"906\" height=\"604\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Damasia-1.jpg 906w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Damasia-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Damasia-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 906px) 100vw, 906px\" \/><\/a><strong>IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<strong>CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE<\/strong><br \/>\n<strong>BELO HORIZONTE<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>NOVEMBRO\/2018<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Damasia-2.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"196\" data-large_image_height=\"190\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1136\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Damasia-2.jpg\" alt=\"\" width=\"196\" height=\"190\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>DAMASIA<\/strong><\/h6>\n<p><strong>CIEN MINAS: O CIEN, em sua especificidade, consiste em apreender, via conversa\u00e7\u00e3o, o ponto de real ao qual se est\u00e1 confrontado nas diversas disciplinas diante do esfor\u00e7o de normatiza\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea salienta em v\u00e1rios textos que os jovens, atualmente, apresentam um \u201cn\u00e3o sabe por qu\u00ea\u201d que n\u00e3o \u00e9 proveniente de uma verdade oculta no sintoma. Esse \u201cn\u00e3o sabe por qu\u00ea\u201d parece se referir a uma desorienta\u00e7\u00e3o pela aus\u00eancia de coordenadas identificat\u00f3rias s\u00f3lidas. Qual \u00e9 o desafio que os adolescentes colocam para a pr\u00e1tica do CIEN atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DAMASIA FREDA<\/strong>: O que \u00e9 poss\u00edvel extrair da cl\u00ednica com adolescentes e crian\u00e7as para o CIEN, a partir da particularidade que encontrei \u2013 o \u201cn\u00e3o saber o que se passa\u201d \u2013, \u00e9 acompanhado de uma grande preocupa\u00e7\u00e3o por parte das escolas e de institui\u00e7\u00f5es sociais. H\u00e1 uma imensa preocupa\u00e7\u00e3o por parte dos agentes sociais em rela\u00e7\u00e3o a certos sintomas que crian\u00e7as e adolescentes apresentam. Essa preocupa\u00e7\u00e3o por parte dos agentes, por n\u00e3o saberem o que fazer, leva \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o de uma normatiza\u00e7\u00e3o via protocolos dentro das escolas. Isso \u00e9 uma tend\u00eancia da sociedade, \u00e9 uma tend\u00eancia dos governos tamb\u00e9m: a normatiza\u00e7\u00e3o de inclu\u00ed-los, crian\u00e7as e adolescentes, dentro de protocolos de comportamentos, devido a essa desorienta\u00e7\u00e3o que h\u00e1 tamb\u00e9m entre os adultos, por n\u00e3o saberem, por n\u00e3o entenderem determinadas condutas nas crian\u00e7as nos adolescentes. E, atualmente, em minha pr\u00e1tica institucional, na universidade, onde temos centros de aten\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes, o que mais me chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a quantidade de demandas das escolas pelo que se chama de hiperatividade ou s\u00edndrome de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o nas crian\u00e7as, por lhes atribu\u00edrem uma falta de aten\u00e7\u00e3o, uma falta de concentra\u00e7\u00e3o associada a uma hiperatividade. Ou que essa hiperatividade faz com que n\u00e3o possam se concentrar nas tarefas que se acredita serem as centrais. \u00c9 importante notar que crian\u00e7as vistas com base nessa cataloga\u00e7\u00e3o n\u00e3o apresentam essa hiperatividade no consult\u00f3rio nem distra\u00e7\u00e3o \u00e0s perguntas que s\u00e3o feitas. H\u00e1 uma normatiza\u00e7\u00e3o. Colocam-se nomes em mudan\u00e7as que se apresentam na cultura, mudan\u00e7as de gera\u00e7\u00f5es, mudan\u00e7as que ocorrem com a entrada no novo mil\u00eanio. Crian\u00e7as que chegam a partir do ano 2000 s\u00e3o hoje os adolescentes tardios. Para os que nascem em 2010, 2011, por exemplo, temos que pensar que as configura\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito distintas. J\u00e1 s\u00e3o nascidas no mundo virtual, nas novas tecnologias; t\u00eam uma facilidade e destreza para manejar os aparatos eletr\u00f4nicos que a maioria dos adultos n\u00e3o tem. Isso faz com que tenham uma rela\u00e7\u00e3o distinta com o conhecimento, muito diferente da imagem que t\u00ednhamos. H\u00e1 muitas informa\u00e7\u00f5es que podem buscar simultaneamente. Apresentam, assim, uma capacidade de aten\u00e7\u00e3o muito distinta daquela que se pretende, de que prestem aten\u00e7\u00e3o ao professor ou ao educador, a essa figura do saber. Esse problema faz com que o professor ou o educador, como agente do saber, como sujeito suposto saber, como chamamos n\u00f3s, psicanalistas, j\u00e1 n\u00e3o funcione mais. A institui\u00e7\u00e3o escolar \u00e9 primitiva para essas crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se considerar que h\u00e1 uma mudan\u00e7a de paradigma no s\u00e9culo XXI e que as crian\u00e7as s\u00e3o os protagonistas que encarnam esse novo paradigma, e, nesse sentido, est\u00e3o mais adiantadas que n\u00f3s, adultos, que pertencemos a uma gera\u00e7\u00e3o anterior. Nesse sentido, creio que os adultos est\u00e3o mais desorientados que as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CIEN MINAS: Ent\u00e3o a desorienta\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais do lado dos adultos, dos educadores?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DAMASIA FREDA<\/strong>: Em rela\u00e7\u00e3o a isso, sim. Al\u00e9m disso, creio que \u2013 isso \u00e9 uma hip\u00f3tese \u2013 se h\u00e1 uma desorienta\u00e7\u00e3o ou se h\u00e1 condutas que manifestam alguns adolescentes que respondem a uma desorienta\u00e7\u00e3o, os adultos n\u00e3o est\u00e3o mais orientados que eles. Essa desorienta\u00e7\u00e3o est\u00e1 localizada numa ruptura que existe entre a cultura e a sociedade no s\u00e9culo XIX e no s\u00e9culo XX, sede dessa transi\u00e7\u00e3o at\u00e9 uma nova configura\u00e7\u00e3o social. Antes havia o que era chamado de institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, a ideia de Pai ou de qualquer figura de autoridade para, de alguma maneira, representar essa figura patriarcal, como chamam algumas correntes. Desde a psican\u00e1lise \u2013 n\u00e3o s\u00f3 a psican\u00e1lise, mas a sociologia, a hist\u00f3ria, a antropologia \u2013, classificaram o s\u00e9culo XX como o s\u00e9culo em que essa figura da autoridade foi desaparecendo, abrandando, se dessolidificando para que pass\u00e1ssemos ao que chamamos de uma sociedade l\u00edquida. Essa \u00e9 uma hip\u00f3tese e continua sendo, de alguma maneira. Essa no\u00e7\u00e3o que n\u00f3s, na psican\u00e1lise, chamamos de Pai. Freud chamou de Pai essa ideia central, o n\u00facleo central do Complexo de \u00c9dipo, que podia ser descoberto a partir do sintoma, desarticulando-o e descobrindo as condi\u00e7\u00f5es ed\u00edpicas de cada um, cujo fator principal era o Pai. Lacan, cujas ideias seguimos, traz o significante Nome do Pai. Tudo isso \u00e9 o que foi desarticulado durante o s\u00e9culo XX, chegando a sua forma mais contundente no s\u00e9culo XXI. Minha ideia, minha hip\u00f3tese, \u00e9 a de que a desorienta\u00e7\u00e3o, ou, dizendo de forma afirmativa, a orienta\u00e7\u00e3o dada pelo Pai, foi perdida. A perda dessa b\u00fassola deu lugar a uma desorienta\u00e7\u00e3o. Observamos mais essa desorienta\u00e7\u00e3o nos adolescentes, mais que nos adultos e mais que nas crian\u00e7as. Por que mais na adolesc\u00eancia que em outras faixas et\u00e1rias? Porque, como Freud dizia, seguramente com raz\u00e3o, na inf\u00e2ncia, recorria-se ao Pai como elemento, sobretudo, de identifica\u00e7\u00e3o. Para Freud, o Pai era a primeira figura de identifica\u00e7\u00e3o; a primeira forma de identifica\u00e7\u00e3o era com a figura paterna, ou com o Pai como no\u00e7\u00e3o. Por outro lado, Freud destacava em seus outros textos que o adolescente se separava do Pai para eleger outro \u2013 os professores, tutores, enfim, os orientadores de seu futuro \u2013, para concluir a etapa da adolesc\u00eancia e passar \u00e0 vida adulta. Se essa no\u00e7\u00e3o de Pai est\u00e1 afetada desde o in\u00edcio, na adolesc\u00eancia, por haver essa passagem de uma figura a outra, se a figura orientadora est\u00e1 afetada, nos deixa nessa desorienta\u00e7\u00e3o. Essa era minha ideia. Essa desorienta\u00e7\u00e3o manifestada no \u201cn\u00e3o sei o que me passa, n\u00e3o sei o que fa\u00e7o aqui\u2026 o que se passa comigo n\u00e3o tem nenhum sentido digno de ser tratado pela palavra\u2026\u201d se faz presente tamb\u00e9m nos agentes envolvidos com os adolescentes, porque n\u00e3o sabem o que fazer com eles. Ent\u00e3o estamos todos desorientados, devido a essa crise. O orientador, essa no\u00e7\u00e3o de Pai, n\u00e3o \u00e9 mais regulador das fam\u00edlias, dos governos. N\u00e3o encontramos mais isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CIEN MINAS: Recentemente, no CIEN Minas, em uma conversa\u00e7\u00e3o com professores, educadores e familiares, ficou evidente o recurso \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes como sa\u00edda para impasses enfrentados no campo da educa\u00e7\u00e3o: os professores dizem que n\u00e3o sabem mais o que fazer com problemas que s\u00e3o da fam\u00edlia, e os familiares, por sua vez, dizem que est\u00e3o solit\u00e1rios, sem apoio. Em outra conversa\u00e7\u00e3o com profissionais do campo do Direito, \u00e9 marcada a situa\u00e7\u00e3o na qual, primordialmente, pr\u00e9-adolescentes e adolescentes, quando adotados, s\u00e3o devolvidos, como mercadorias, porque n\u00e3o \u201cagradam\u201d as fam\u00edlias adotivas. Uma pr\u00e9-adolescente considerada insuport\u00e1vel faz uma peregrina\u00e7\u00e3o por algumas fam\u00edlias. Como trabalhar com esses impasses na conversa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DAMASIA FREDA<\/strong>: Primeiro, a medicaliza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes e, depois, a ado\u00e7\u00e3o de adolescentes que s\u00e3o devolvidos como objetos de mercadoria. O que chama mais aten\u00e7\u00e3o \u00e9 como \u00e9 natural para as fam\u00edlias medicar as crian\u00e7as, por exemplo, dar um sedativo para que n\u00e3o incomodem \u00e0 noite; como as fam\u00edlias consideram normal medicar uma crian\u00e7a ou adolescente porque um neurologista indica por considerar que haja um d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 consequ\u00eancia do progresso da ci\u00eancia a forma quase planet\u00e1ria que assumiu o sistema capitalista, no qual o que se ambiciona como objetivo a ser alcan\u00e7ado \u00e9 a mercadoria. Se h\u00e1 algo que designa um valor humano, algo que designa uma pessoa, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que se sabe, a autoridade que se imp\u00f5e, mas sim os objetos que tem. Da\u00ed as pessoas passam a ser mercadorias. Isso se v\u00ea muito claramente nas ado\u00e7\u00f5es. Os pais, quando v\u00e3o adotar, querem uma crian\u00e7a com determinadas caracter\u00edsticas, como objetos. As tecnologias j\u00e1 permitem manipular os genes n\u00e3o para evitar doen\u00e7as, mas porque pessoas querem ter filhos com determinadas caracter\u00edsticas, como objetos. Isso faz com que eu possa devolver uma crian\u00e7a, como um produto num supermercado, porque n\u00e3o me satisfaz, porque n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CIEN MINAS: Em seu livro El adolescente actual voc\u00ea comenta sobre a conversa\u00e7\u00e3o no subt\u00edtulo \u201cLa conversaci\u00f3n y l\u00e1 lengua desarticula\u201d. Voc\u00ea diria que, na atualidade, os adolescentes continuam falando entre si, mas numa fala\u00e7\u00e3o sem se dirigir ao Outro, de forma desarticulada em rela\u00e7\u00e3o ao Outro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>A conversa\u00e7\u00e3o poderia propiciar ao adolescente fazer uma nova articula\u00e7\u00e3o com algum Outro?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DAMASIA FREDA<\/strong>: Sim. N\u00e3o digo que n\u00e3o. Os adolescentes conversam entre eles ou n\u00e3o, na medida em que conversam com os aparatos eletr\u00f4nicos, conectados com muitos outros adolescentes. Ter\u00edamos que ver essas conversa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, j\u00e1 que hoje em dia predominam as conversa\u00e7\u00f5es virtuais, e n\u00e3o a conversa\u00e7\u00e3o com grupos de amigos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CIEN MINAS: Teria um efeito distinto quando um analista convida para um espa\u00e7o de conversa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DAMASIA FREDA<\/strong>: O que creio \u00e9 uma ideia, porque tamb\u00e9m sou docente, na universidade, de alunos que tamb\u00e9m s\u00e3o adolescentes, de uma adolesc\u00eancia prolongada, porque s\u00e3o jovens. Creio que h\u00e1 uma crise de desejo de saber como a academia o prop\u00f5e, tal como Freud considerava. O bom encontro com um professor era determinante para Freud. O desejo de saber, nesse sentido, est\u00e1 muito modificado. Os adolescentes atuais t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o distinta com o saber. Eles sabem. N\u00e3o \u00e9 que eles n\u00e3o saibam, mas t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o diferente. Necessitam do Google para saber as disciplinas, para saber hist\u00f3ria, geografia. O problema n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o saibam; \u00e9 que h\u00e1 uma ruptura com o Outro encarnado como figura de saber, como tesouro de saber. Se n\u00f3s procurarmos a conversa\u00e7\u00e3o para rearticular isso, n\u00e3o me parece ser recomend\u00e1vel, porque o paradigma est\u00e1 mudado. Me parece que \u00e9 mais positivo entender como os adolescentes interpretam a sociedade contempor\u00e2nea do que como os interpretarmos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CIEN MINAS: Nossa \u00faltima pergunta \u00e9 sobre o projeto que vimos ali da rua Sapuca\u00ed, que \u00e9 o CURA, sobre os grafites. O modo como o adolescente se apresenta no mundo muitas vezes passa por algo marginal, fora da Lei. A picha\u00e7\u00e3o, diferentemente do grafite, \u00e9 vista como algo marginal, fora da Lei. O que voc\u00ea poderia nos dizer sobre a manifesta\u00e7\u00e3o dos adolescentes em rela\u00e7\u00e3o a esses dois modos de agir na cidade, tanto a picha\u00e7\u00e3o quanto o grafite?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DAMASIA FREDA<\/strong>: A picha\u00e7\u00e3o, diferentemente do grafite, sempre foi uma manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos jovens e adolescentes com um compromisso social que os adolescentes atuais n\u00e3o mostram. As picha\u00e7\u00f5es estavam sempre relacionadas a manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de oposi\u00e7\u00e3o, reivindica\u00e7\u00e3o\u2026 j\u00e1 o grafite \u00e9 uma arte. N\u00e3o posso dizer muito dos murais da cidade de BH, que s\u00e3o charmosos e me encanta que se cubram enormes paredes de edif\u00edcios. S\u00e3o grafites. Recordo-me do caso de um adolescente que fazia grafites. \u00c9 claro que os grafites t\u00eam essa caracter\u00edstica de utilizar os muros, as paredes. Quando entra o munic\u00edpio, o governo, perdem o encanto (risos). Recordo que o adolescente me relatava que sa\u00eda de noite com amigos para procurar espa\u00e7os diferentes, entre eles, vag\u00f5es de metr\u00f4. Havia trechos com leis muito espec\u00edficas, que diziam que n\u00e3o poderia, que proibia grafitar os monumentos hist\u00f3ricos e os patrim\u00f4nios da humanidade. Respeitavam determinados espa\u00e7os. A arte \u00e9 sempre transgressora; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer arte quando sou incapaz de inovar, fazer algo novo. A transgress\u00e3o \u2013 e a arte \u00e9 isso tamb\u00e9m \u2013 \u00e9 instalar uma Lei nova, uma nova regra dentro desse movimento art\u00edstico. Quando est\u00e1 muito normatizado, \u00e9 dif\u00edcil que a criatividade surja. A arte \u00e9, sobretudo, liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Na ditadura militar argentina, os comandantes decidiram pintar de branco os troncos das \u00e1rvores at\u00e9 um metro e meio de sua altura. Ent\u00e3o, eram todas iguais.<\/p>\n<p>Aqui se passa o contr\u00e1rio. Na paisagem da cidade h\u00e1 essas figuras enormes, diferentes\u2026 esse vestido, por exemplo. Creio que \u00e9 um tema interessante que o Brasil perceba se os grafites e as picha\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o existindo. Seria bom tirar fotografias. Os grafites nos dizem se a cidade transpira arte ou n\u00e3o. Pessoalmente, me encantam os grafites e as picha\u00e7\u00f5es de jovens e adolescentes no Brasil e, sinceramente, espero que n\u00e3o as pintem de branco.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DAMASIA AMADEO DE FREDA &nbsp; IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE BELO HORIZONTE NOVEMBRO\/2018 DAMASIA CIEN MINAS: O CIEN, em sua especificidade, consiste em apreender, via conversa\u00e7\u00e3o, o ponto de real ao qual se est\u00e1 confrontado nas diversas disciplinas diante do esfor\u00e7o de normatiza\u00e7\u00e3o. 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