{"id":1147,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1147"},"modified":"2025-12-01T16:21:12","modified_gmt":"2025-12-01T19:21:12","slug":"as-cores-da-colera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/as-cores-da-colera\/","title":{"rendered":"As Cores Da C\u00f3lera"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>JEAN-DANIEL MATET<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECT_CURA_DANIEL123.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1968\" data-large_image_height=\"1312\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1148\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECT_CURA_DANIEL123-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECT_CURA_DANIEL123-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECT_CURA_DANIEL123-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECT_CURA_DANIEL123-768x512.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECT_CURA_DANIEL123-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/SELECT_CURA_DANIEL123.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>Encolerizado<\/strong><\/h6>\n<p>Ficar vermelho, branco ou preto de raiva; c\u00f3lera quente ou fria. Adjetivos n\u00e3o faltam para dar conta dos signos dessa emo\u00e7\u00e3o particular que \u00e9 a c\u00f3lera. Eles tentam descrever uma fenomenologia do que afeta o corpo tomado por aquilo que o domina. Parox\u00edstica ou permanente, rara ou frequente, a crise de c\u00f3lera recobre realidades cl\u00ednicas muito diversas. Alguns homens ou algumas mulheres dizem que apenas a experimentam raramente, enquanto ela se apresenta como sintoma ou tra\u00e7o de car\u00e1ter em outros.<\/p>\n<p>Manifesta\u00e7\u00f5es de ang\u00fastia, uma impulsividade ou uma passagem ao ato podem ser tomadas por c\u00f3lera, o que, \u00e0s vezes, s\u00e3o. Todavia, a propens\u00e3o de alguns criminologistas em interpretar toda passagem ao ato, at\u00e9 o crime (BORTEYROU X., BRUCHON-SCHWEIRZER M., SPIELBERGER C. D., s\/d), como a express\u00e3o de uma c\u00f3lera da qual eles fazem uma hip\u00f3tese que constantemente aparece for\u00e7ada, em detrimento de uma cl\u00ednica mais refinada.<\/p>\n<p>A inibi\u00e7\u00e3o ou sua aus\u00eancia pode dar conta dessas diferentes modalidades, de desencadeamentos violentos, e se declina de maneiras diferentes no neur\u00f3tico, no psic\u00f3tico ou no perverso. O interpretativo, exposto a fen\u00f4menos discretos de parasita\u00e7\u00e3o linguageira, pode responder, aqui, por aquilo que aparece como uma c\u00f3lera permanente, na qual seus pr\u00f3ximos s\u00e3o as v\u00edtimas. A hostilidade persecut\u00f3ria do ambiente, as redes sociais, as informa\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e televis\u00e3o do mundo podem alimentar uma c\u00f3lera permanentemente envernizada por passagens ao ato. As not\u00edcias locais di\u00e1rias de beb\u00eas fustigados ou viol\u00eancias dom\u00e9sticas testemunham isso.<\/p>\n<p><strong>A revolta<\/strong><\/p>\n<p>C\u00f3lera na primeira p\u00e1gina! A imprensa nacional faz, com gosto, manchetes sobre a c\u00f3lera de tal grupo social, tal categoria profissional, tal lobby. Os pesquisadores; os profissionais de sa\u00fade, do petr\u00f3leo; os pais de crian\u00e7as autistas e at\u00e9 os psiquiatras ou os psicanalistas podem protestar, se manifestar, gritar contra a injusti\u00e7a ou o assassinato, e \u00e9 o significante \u201cc\u00f3lera\u201d, entre desespero, tristeza e revolta, que vai se impor. A c\u00f3lera est\u00e1 na moda, ao ponto do que se designa n\u00e3o ser necessariamente a experi\u00eancia aut\u00eantica do que a c\u00f3lera experimentada faz sentir.<\/p>\n<p>Desde sempre, esse afeto \u00e9 objeto de coment\u00e1rios, de tentativas de precisar seu sentido, de conden\u00e1-lo ou defend\u00ea-lo em nome da moral, da religi\u00e3o ou da \u00e9tica. \u00c9 necess\u00e1rio deixar que ela se exprima como libera\u00e7\u00e3o salvadora da inibi\u00e7\u00e3o ou, pelo contr\u00e1rio, refre\u00e1-la contra o desastre que ela pode provocar ao redor do \u201cencolerizado\u201d?<\/p>\n<p>Da c\u00f3lera dos deuses ou do Deus que dominava os homens, a c\u00f3lera passou ao registro do afeto; aqui ladeiam a tristeza, o ci\u00fame, a alegria, e tentativas de precis\u00e1-la e defini-la n\u00e3o faltam. Descartes (1990) fez dela uma paix\u00e3o entre o \u00f3dio e a indigna\u00e7\u00e3o. S\u00eaneca denunciou sua inutilidade e reclamou seu banimento, de tanto que ela oprime o g\u00eanero humano (v\u00edcio nocivo \u00e0 alma), opondo-se a Arist\u00f3teles (os peripat\u00e9ticos), que a considerava necess\u00e1ria, agu\u00e7ando a coragem e dando-lhe f\u00f4lego. S\u00e3o Tom\u00e1s distingue em toda paix\u00e3o um elemento formal; \u00e9 o movimento do apetite sensitivo e um elemento material, \u00e9 a mudan\u00e7a que se opera no corpo decorrente do movimento do apetite. Na c\u00f3lera, o movimento do apetite sensitivo \u00e9 de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Para Spinoza, a c\u00f3lera \u00e9 a consequ\u00eancia imediata do \u00f3dio, ele mesmo causado por diferentes sentimentos negativos, como a sensa\u00e7\u00e3o de ser amea\u00e7ado, uma ofensa, uma humilha\u00e7\u00e3o, etc. E enquanto desejo de causar um mal \u00e0quele que, antes, nos fez dele padecer, ela \u00e9, por sua vez, causa de viol\u00eancia, de conflito, logo, retornando como \u00f3dio e c\u00f3lera. Ele op\u00f5e \u00e0 c\u00f3lera a animositas, n\u00e3o a animosidade no sentido de c\u00f3lera ou da hostilidade dur\u00e1vel contra uma pessoa, mas de um \u201cardor, firmeza, coragem\u201d. Com a generosidade, ele faz da animositas uma das virtudes fundamentais, ou for\u00e7as da alma (SPINOZA, 1993). Para lutar contra tudo o que pode nos destruir, Spinoza op\u00f5e \u00e0 c\u00f3lera cega a coragem da animositas, \u201cdesejo que leva cada um de n\u00f3s a fazer um esfor\u00e7o para conservar seu ser na virtude dos mandamentos \u00fanicos da raz\u00e3o\u201d (SPINOZA, 1993a).<\/p>\n<p>Michaux (1963, p. 131) e Artaud (1976, p. 47-46) a quiseram po\u00e9tica \u2013 Podemos escrever em estado de c\u00f3lera? \u2013, debru\u00e7ando-se sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a c\u00f3lera e a literatura. Mas \u00e9 poss\u00edvel ser um artista mission\u00e1rio da c\u00f3lera coletiva? Uma vers\u00e3o romanesca da c\u00f3lera \u00e9 levada \u00e0 incandesc\u00eancia por Musil e Nizan (BOYER-WEINMANN, s\/d).<\/p>\n<p>Erguendo-se contra uma neurofisiopatologia nascente da c\u00f3lera, que inscreve hoje as emo\u00e7\u00f5es em um sistema l\u00edmbico e demonstra que a estimula\u00e7\u00e3o hipotal\u00e2mica desencadeia a c\u00f3lera, Jean-Paul Sartre dota a c\u00f3lera de uma efic\u00e1cia pragm\u00e1tica, e mesmo criadora, ao fazer dela uma emo\u00e7\u00e3o mutante relacionada com o medo (SARTRE, 2000). Roland Barthes, que se dizia pouco sujeito \u00e0 c\u00f3lera, descreveu em seu Semin\u00e1rio sobre o Neutro \u2013 \u201co Neutro definido como aquilo que contraria o paradigma\u2026 O paradigma sendo a oposi\u00e7\u00e3o de dois termos virtuais dos quais atualizo um, para falar, para produzir sentido\u201d (BARTHES, 1977-1978, p. 31) \u2013 a c\u00f3lera como o antineutro. Ele nos d\u00e1 tr\u00eas vers\u00f5es: a c\u00f3lera como fuga (recusa de uma situa\u00e7\u00e3o de espera, de uma situa\u00e7\u00e3o transferencial \u2013 m\u00e9dicos, dentistas, bancos, aeroportos); a c\u00f3lera como higiene ou como utilidade (teatralizar sua c\u00f3lera para controlar o n\u00e3o-controle); e a c\u00f3lera como fogo (que remete a um ardor, a um desejo, como a c\u00f3lera do ciumento, ou a uma ira, como a c\u00f3lera de Deus).<\/p>\n<p><strong>A c\u00f3lera justa<\/strong><\/p>\n<p>Algumas c\u00f3leras parecem justas, como as de Freud, ao enfrentar fisicamente os antissemitas que insultaram sua fam\u00edlia (L\u00c9VY, 2008, p. 135-154). A cena \u00e9 relatada por Martin Freud. Depois de um primeiro aviso, que permitiu a Freud dizer a seus filhos que aquela situa\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora se repetiria, o grupo antissemita foi para cima deles, e Freud se lan\u00e7ou, bengala em punho, para os dispersar, o que conseguiu fazer. Como n\u00e3o evocar aqui a lembran\u00e7a do pequeno Sigmund, vendo seu pai humilhado por um ato antissemita? A c\u00f3lera que se apossa dele \u00e9 equivalente \u00e0 passagem ao ato daquele que n\u00e3o se deixa aviltar e coloca a covardia do lado do agressor. A c\u00f3lera reclama um castigo que parece muito frequentemente como justo, e, por essa mec\u00e2nica, cultivada at\u00e9 a ambiguidade, a c\u00f3lera social se exprime por colocar a justi\u00e7a e a legitimidade do seu lado.<\/p>\n<p>Uma exposi\u00e7\u00e3o recente no Instituto H\u00fangaro em Paris sobre O tempo dos asilos me lembrou a rea\u00e7\u00e3o de Freud, interpretando o atraso para responder a Istvan Hollos, que lhe enviara um exemplar do seu Recorda\u00e7\u00f5es da Casa Amarela. O antissemitismo o havia expulsado desse lugar original de responsabilidade pela loucura, em que a produ\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, art\u00edstica dos psic\u00f3ticos, era valorizada. A c\u00f3lera de Freud na carta a I. Hollos (FREUD, 1984, p. 23-28), apresentada na Ornicar? em 1985 e retomada por Jacques-Alain Miller em seu curso em 2008<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/as-cores-da-colera#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, \u00e9 objeto de uma sess\u00e3o de autoan\u00e1lise:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Mesmo apreciando seu tom caloroso (\u2026), encontrei-me, contudo, numa esp\u00e9cie de oposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era f\u00e1cil de compreender. Tive finalmente de confessar que a raz\u00e3o era que eu n\u00e3o gostava desses doentes; de fato, eles me deixam encolerizado, eu me irrito por senti-los t\u00e3o distantes de mim e de tudo o que \u00e9 humano. Uma intoler\u00e2ncia surpreendente, que faz de mim um mau psiquiatra.<\/em><\/p>\n<p>J-A. Miller nota que, por meio dessa carta de Freud, \u00e9 o recalque que \u00e9 visado nele, seu n\u00e3o-quero-saber-nada-disso acerca da psicose. Freud \u00e9 surpreendido por um afeto, cuja mola n\u00e3o compreende. A confid\u00eancia de J.-A. Miller, nessa ocasi\u00e3o, sobre a fun\u00e7\u00e3o dos encontros semanais do curso, sobre seu combate a sua resist\u00eancia em admitir \u2013 a c\u00f3lera, por vezes \u2013, faz parte desse n\u00e3o-quero-saber-nada-disso.<\/p>\n<p><strong>A c\u00f3lera-sintoma<\/strong><\/p>\n<p>As crises de c\u00f3lera das crian\u00e7as pequenas aparecem como manifesta\u00e7\u00f5es de afirma\u00e7\u00e3o, de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o, daquilo que exige delas sua perda de autonomia em rela\u00e7\u00e3o aos pais. Elas podem tomar configura\u00e7\u00f5es diversas, endere\u00e7ar-se \u00e0 voz grossa paterna, ao corpo a corpo materno ou, ao contr\u00e1rio, ter for\u00e7a de apelo dessa voz ou dessa proximidade perdida ou jamais encontrada. A c\u00f3lera pode aparecer como uma passagem inevit\u00e1vel num processo de individua\u00e7\u00e3o e de separa\u00e7\u00e3o ou para arrancar-se da Hilfslosigkeit freudiana, da imbecillitas descrita por Santo Agostinho e retomada por Lacan v\u00e1rias vezes. O fort-da \u00e9 uma resposta a essa c\u00f3lera da impot\u00eancia da crian\u00e7a pequena que mostra, assim, sua capacidade de mobilizar o simb\u00f3lico para fazer face a ela.<\/p>\n<p>As crises de c\u00f3lera podem se sistematizar em fun\u00e7\u00e3o do peso que t\u00eam na economia familiar, e reencontramos aqui a conjuntura descrita por Lacan na sua \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d (LACAN, 2001, p. 373). A dimens\u00e3o agressiva ou passiva da puls\u00e3o \u00e9 colocada em jogo no exerc\u00edcio da c\u00f3lera infantil e modela sua express\u00e3o s\u00e1dica ou masoquista na fantasia em germe. Passaremos ao largo de uma parte nada negligenci\u00e1vel da quest\u00e3o ao n\u00e3o evocar as consequ\u00eancias das c\u00f3leras parentais, da sua aus\u00eancia ou seu excesso. Indica\u00e7\u00e3o de um limite transposto pela exig\u00eancia todo-poderosa da crian\u00e7a ou confiss\u00e3o de impot\u00eancia parental que a c\u00f3lera pode tentar apagar.<\/p>\n<p><strong>Hans<\/strong><\/p>\n<p>O jovem Hans sabia algo sobre isso e o testemunhou junto a Freud, por interm\u00e9dio de seu pai, pela manobra para provoc\u00e1-lo e para tentar ativar o agente da castra\u00e7\u00e3o. Hans diz a seu pai que ele fica encolerizado, o que este refuta. Hans insiste. Hans, longe de seguir as afirma\u00e7\u00f5es, quer de Freud, quer de seu pai, tra\u00e7a sua via. O pr\u00f3prio Freud sublinha: \u201cHans segue seu pr\u00f3prio caminho e n\u00e3o chega a lugar nenhum quando queremos desvi\u00e1-lo\u201d. Trata-se de \u201cdeixar o garotinho exprimir seus pr\u00f3prios pensamentos\u201d. A sequ\u00eancia da an\u00e1lise mostrar\u00e1 que Hans, longe de ter medo do pai, o chama, ao contr\u00e1rio, para estar presente e o convoca em sua c\u00f3lera: \u201cPor que voc\u00ea fica encolerizado?\u201d pergunta ele a seu pai, ao que este responde: \u201cMas n\u00e3o \u00e9 verdade\u201d, e Hans lhe lan\u00e7a este apelo: \u201cSim, \u00e9 verdade, tu ficas encolerizado, eu sei disso. Isso deve ser verdade\u201d (FREUD, 2003, p. 351). Como nota Lacan, \u201c\u00e9 a chave da observa\u00e7\u00e3o [\u2026]. Trata-se de que o pequeno Hans encontra uma supl\u00eancia para este pai que se obstina em n\u00e3o querer castr\u00e1-lo\u201d (LACAN, 1994, p. 365). Se, num primeiro tempo, a supl\u00eancia \u00e9 a fobia, Hans, na sequ\u00eancia da sess\u00e3o de 30 de mar\u00e7o, gra\u00e7as a Freud, mas tamb\u00e9m apesar de Freud, prossegue na sua elucida\u00e7\u00e3o da fobia e procura diferentes solu\u00e7\u00f5es para suprir a car\u00eancia do pai e fazer entrar a m\u00e3e no sistema significante, para fazer dela um elemento equivalente aos outros, suscet\u00edvel ele tamb\u00e9m de entrar na dial\u00e9tica significante.<\/p>\n<p><strong>\u00c9lise<\/strong><\/p>\n<p>Desde sempre, \u00c9lise se dizia sujeita a arrebatamentos passionais. Encontrar um analista foi para ela a tentativa de limitar sua aspira\u00e7\u00e3o a essa forma de vida que a fazia sofrer. Ela oscilava entre uma vida de raz\u00e3o, sem paix\u00e3o, que era sem sabor, e as paix\u00f5es, que a torturavam. A vis\u00e3o de uma satisfa\u00e7\u00e3o autoer\u00f3tica de seu parceiro tinha exacerbado a sua divis\u00e3o sob o golpe de c\u00f3lera que ela n\u00e3o sabia como apaziguar. O fio de suas associa\u00e7\u00f5es a conduziu a evocar os berros que acompanhavam seu furor de vencer os combates esportivos que encarava e dos quais fizera sua profiss\u00e3o. Era como uma segunda natureza, que mal se distinguia de seu desejo de lutar com um parceiro que ela procurava sem parar. A trama de um cen\u00e1rio fantasm\u00e1tico veio \u00e0 luz por meio de um sonho, repetido da inf\u00e2ncia, de castra\u00e7\u00e3o das zonas er\u00f3genas de um parceiro que a fazia evocar um irm\u00e3o. A vis\u00e3o do p\u00eanis ereto a colocara numa c\u00f3lera que alimentava, reconstitu\u00eda seu cen\u00e1rio fantasm\u00e1tico.<\/p>\n<p>Essa c\u00f3lera de menina indicava sua rea\u00e7\u00e3o completamente freudiana ao constar o p\u00eanis no menino. Penisneid sem d\u00favida, mas tamb\u00e9m questionamento sobre essa emo\u00e7\u00e3o espec\u00edfica que as qualidades caracter\u00edsticas do pai n\u00e3o puderam apaziguar. O nascimento dos filhos tamb\u00e9m n\u00e3o havia estabilizado a oscila\u00e7\u00e3o, e a c\u00f3lera se transmutara em tra\u00e7o de car\u00e1ter que obscurecia seu cotidiano familiar.<\/p>\n<p>Mais do que uma emo\u00e7\u00e3o ou um afeto diante da impot\u00eancia de sustentar um desejo, a c\u00f3lera, em seu car\u00e1ter repetitivo, \u00e0 flor da pele, pode se tornar um estilo, um modo de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o do Outro e, nessa medida, um sintoma.<\/p>\n<p>Do mesmo modo que o afeto depressivo assume aspectos diferentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura do sujeito \u2013 melancolia \u2013 ansiedade-depress\u00e3o \u2013 fadiga \u2013 desmoronamento \u2013 abandonar-se \u2013, a c\u00f3lera se manifesta de diferentes maneiras: n\u00e3o est\u00e1 presente num bom n\u00famero de passagens ao ato? O crime das irm\u00e3s Papin d\u00e1 um exemplo disso. \u00c9 uma forma de mau humor, c\u00f3lera permanente a m\u00ednima, que toca no real, nos diz Lacan, enquanto aquilo que n\u00e3o conv\u00e9m (LACAN, 2001a, p. 527).<\/p>\n<p><strong>Melancolia<\/strong><\/p>\n<p>Em alguns casos cl\u00ednicos, Freud constata que a autodeprecia\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o real, e resulta disso que a autocr\u00edtica do melanc\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 marcada pela vergonha; o sujeito busca cobrir-se de vergonha, mas n\u00e3o a sente. Al\u00e9m do mais, ele n\u00e3o esconde sua desestima, exprime-a para todas as pessoas a seu redor \u2013 e \u00e0s vezes numa ladainha incessante.<\/p>\n<p>Suas autocr\u00edticas s\u00e3o, na verdade, destinadas a outrem, quer dizer, a um objeto perdido, mas por um mecanismo de identifica\u00e7\u00e3o de queixas que caem sobre o eu do sujeito. Eis porque quando o sujeito busca rebelar-se contra o objeto, gritando-lhe sua c\u00f3lera quando o insulta, ele se insulta e se desvaloriza a si mesmo. \u201cA sombra do objeto tombou assim sobre o Eu\u201d (FREUD, 1968, p. 156). Essas pessoas est\u00e3o em rebeli\u00e3o e \u00e9 por isso que quebram as pernas daqueles a seu redor.<\/p>\n<p><strong>Cavilhas e furos<\/strong><\/p>\n<p>As defini\u00e7\u00f5es da c\u00f3lera dadas por Lacan pertencem \u00e0 primeira parte de seu ensino. Em outras palavras, a c\u00f3lera testemunha aquilo que do real se coloca em oposi\u00e7\u00e3o aos empreendimentos do desejo. Recentemente, uma colega me liga para mencionar que est\u00e1 dando continuidade a uma atividade que come\u00e7amos juntos, mas que, sendo ela a respons\u00e1vel, mudou tudo para chegar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em que preceder\u00e1 de minha interven\u00e7\u00e3o. Um afeto de c\u00f3lera me submergiu, ocasionando algumas dificuldades para manter a calma que geralmente acompanha nossas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Reconheci nela o car\u00e1ter das raras c\u00f3leras que me afetam. A tradu\u00e7\u00e3o f\u00edsica desse afeto o distingue radicalmente daquilo que d\u00e1 irrita\u00e7\u00e3o, da rea\u00e7\u00e3o revoltada ou da indigna\u00e7\u00e3o frente a uma situa\u00e7\u00e3o que parece injusta ou contr\u00e1ria \u00e0 sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma primeira defini\u00e7\u00e3o \u00e9 dada por Lacan no Semin\u00e1rio VI, O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o (LACAN, 2013, p. 172): um afeto fundamental como a c\u00f3lera n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m disso; o real que chega no momento em que fizemos uma bel\u00edssima trama simb\u00f3lica, em que tudo vai muit\u00edssimo bem, a ordem, a lei, nosso m\u00e9rito e nosso bem querer. Percebemos de repente que as cavilhas n\u00e3o entram nos furinhos. \u00c9 esse o reino do afeto da c\u00f3lera, retomado em A \u00e9tica da psican\u00e1lise: \u201ccomo uma rea\u00e7\u00e3o do sujeito a uma decep\u00e7\u00e3o, ao fracasso de uma correla\u00e7\u00e3o esperada entre uma ordem simb\u00f3lica e a resposta do real. Em outras palavras (\u2026) \u2013 \u00e9 quando as pequenas cavilhas n\u00e3o cabem nos furinhos\u201d (LACAN, 1986, p. 123).<\/p>\n<p>Que o afeto seja do corpo, Lacan o retoma de Freud, corpo como lugar do Outro. O corpo \u00e9 o \u201clugar do Outro\u201d (LACAN, 2001b, p. 409), \u00e9 o lugar onde o simb\u00f3lico toma corpo para ali se incorporar, mas esse lugar tem por propriedade o gozo. A estrutura \u00e9 o efeito de linguagem sobre o gozo. E o efeito primeiro \u00e9 de perda: \u201cde afeto, h\u00e1 apenas um, e \u00e9 o objeto a\u201d (LACAN, 2001a). \u00danico afeto que n\u00e3o engana, a ang\u00fastia: \u201cNa ang\u00fastia, (\u2026) o sujeito \u00e9 afetado pelo desejo do Outro. Ele \u00e9 afetado por isso de uma maneira que devemos chamar de imediata, n\u00e3o dialetiz\u00e1vel. \u00c9 a\u00ed que a ang\u00fastia est\u00e1, no afeto do sujeito, o que n\u00e3o engana\u201d (LACAN, 2005, p. 70).<\/p>\n<p>Os diferentes exemplos expostos, pela diversidade de sua ocorr\u00eancia e de seu desencadeamento, mostram que a c\u00f3lera, no caso do semblante, se desdobra sobre um fundo de eu-n\u00e3o-quero-saber-nada-disso e n\u00e3o evita o logro, a menos que encontre a ang\u00fastia no \u201cencolerizado\u201d ou no seu parceiro, dando-lhe, assim, sua b\u00fassola.<\/p>\n<p>Se o mist\u00e9rio do falasser \u00e9 que ele fala sem saber o que diz, como foi recordado quando do \u00faltimo congresso da AMP, fazendo do inconsciente freudiano o mist\u00e9rio desse corpo falante, \u00e9 bem o n\u00f3 da linguagem, do corpo e do inconsciente que a c\u00f3lera sublinha ao lhe dar suas diferentes cores.<\/p>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Helena Souza<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Let\u00edcia Soares<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>ARTAUD, A. \u201cL\u2019ombilic des limbres\u201d (1925) In: \u0152uvres compl\u00e8tes, Paris: Gallimard, 1976, p.46-47.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BARTHES, R. Le Neutre: notes de cours au Coll\u00e8ge de France (1977-1978), Paris: Seiul, p.31.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BORTEYROU, X. BRUCHON-SCHWEIRZER M., SPIELBERGER C. D., \u201cUne adaptation fran\u00e7aise du STAXI-2, inventairede col\u00e8re-trait et de col\u00e8re-\u00e9tait de C. D. Spielberger\u201d In: L\u2019enc\u00e9phale, disponible sur internet.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BOYER-WEINMANN, M. \u201cThymotique d\u2019une ordinaire: em quoi la col\u00e8re est-elle litt\u00e9rairement f\u00e9conde?\u201d In: Fabula, Les colloques.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>DESCARTES, R. Les Passions de l\u2019\u00e2me. Paris: Le Livre de poche, 1990.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Deuil et m\u00e9lancolie. Paris: Gallimard, 1968, p. 156.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cLettre \u00e0 Istvan Hollos\u201d In: Ornicar?. n 32, 1984, p. 23-28.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cAnalyse d\u2019une phobie d\u2019un petit gar\u00e7on de cinq ans\u201d In: Cinq psychanalyses. Paris: PUF, 2003, p. 351.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le S\u00e9minaire, livre VII: l\u2019\u00e9thique de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1986, p. 123.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le Seminaire, livre IV: La relation d\u2019objet. Paris: Seuil, 1994, p. 365.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cNote sur l\u2019enfant\u201d In: Autres \u00c9crits. Paris: Seiul, 2001, p. 373.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cT\u00e9l\u00e9vision\u201d In: Autres \u00c9crits. Paris: Seiul, 2001a, p. 527.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cRadiophonie\u201d In: Autres \u00c9crits. Paris: Seiul, 2001b, p. 409.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Des Noms-du-p\u00e8re. Paris: Seiul, 2005, p. 70.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le S\u00e9minaire livre VI: Le d\u00e9sir et son interpr\u00e9tation. Paris: La Martini\u00e8re \/ Le Champ freudien, 2013, p. 172.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>L\u00c9VY, D. \u201cLa canne de Freud at autres moments de col\u00e8re\u201d In: Che vuoi?, n 29, 2008, p. 135-154.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MICHAUX, H. \u201cMouvements de l\u2019\u00eatre int\u00e9rieur\u201d, \u201cDifficult\u00e9s\u201d (1930) In: Plume, pr\u00e9c\u00e9d\u00e9 de Lointain int\u00e9rieur. Paris: Gallimard, 1963, p.131.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SARTRE, J-P. Esquisse d\u2019une th\u00e9orie des \u00e9motions. Paris: Le livre de poche, 2000.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SPINOZA B. \u00c9thique III. Paris: Garnier-Flammarion, 1993.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SPINOZA B. \u00c9thique IV. Paris: Garnier-Flammarion, 1993a.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/as-cores-da-colera#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0MILLER, J.-A., \u201cL\u2019orientation lacanienne. Choses de finesse en psychanalyse\u201d, enseignement prononc\u00e9 dans le cadre du Departement de psychanalyse de l\u2019universit\u00e9 Paris VIII, cours du 26 novembre 2008, in\u00e9dit.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>JEAN-DANIEL MATET<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista, membro da Escola da Causa Freudiana. MILLER, J.-A., \u201cL\u2019orientation lacanienne. Choses de finesse en psychanalyse\u201d, enseignement prononc\u00e9 dans le cadre du Departement de psychanalyse de l\u2019universit\u00e9 Paris VIII, cours du 26 novembre 2008, in\u00e9dit.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JEAN-DANIEL MATET Encolerizado Ficar vermelho, branco ou preto de raiva; c\u00f3lera quente ou fria. Adjetivos n\u00e3o faltam para dar conta dos signos dessa emo\u00e7\u00e3o particular que \u00e9 a c\u00f3lera. Eles tentam descrever uma fenomenologia do que afeta o corpo tomado por aquilo que o domina. 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