{"id":1152,"date":"2019-03-17T06:58:34","date_gmt":"2019-03-17T09:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1152"},"modified":"2025-12-01T16:21:55","modified_gmt":"2025-12-01T19:21:55","slug":"conhecer-seu-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/03\/17\/conhecer-seu-odio\/","title":{"rendered":"Conhecer Seu \u00d3dio"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>GIL CAROZ<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_9556_sRGB.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1616\" data-large_image_height=\"1080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1153\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_9556_sRGB-1024x684.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"684\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_9556_sRGB-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_9556_sRGB-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_9556_sRGB-768x513.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_9556_sRGB-1536x1026.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/IMG_9556_sRGB.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><strong>IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<strong>CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE<\/strong><br \/>\n<strong>BELO HORIZONTE<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Lucidez<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O \u00f3dio \u00e9 l\u00facido. Ele est\u00e1 ligado a um saber. Os crist\u00e3os transformaram o n\u00e3o-\u00f3dio de seu Deus, sinal de sua ignor\u00e2ncia, em uma forma de amor (LACAN, 1982, p. 122). Esse Deus \u00e9 um ser \u201ccomo sendo aquilo pelo que os seres menos seres participam do mais elevado dos seres\u201d (LACAN, 1982, p. 134). \u00c9, ent\u00e3o, um ser ideal, unificador, que re\u00fane nele os seres imperfeitos e, nesse sentido, ele \u00e9 relacionado a um puro amor. No entanto, Lacan recorda \u201cque n\u00e3o se conhece nenhum amor sem \u00f3dio\u201d (LACAN, 1982, p. 122). \u00c9 justamente esse sonho de um amor universal que faz ignorar a irredutibilidade do \u00f3dio e, em primeiro lugar, do seu pr\u00f3prio \u00f3dio. O amor \u00e9 apenas uma constru\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, um semblante que permite uma circunscri\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte. Mas ele n\u00e3o encobre jamais o \u00f3dio como dado prim\u00e1rio. Freud demonstra bem essa irredutibilidade na sua cr\u00edtica detalhada do imperativo \u201cAmar\u00e1s o pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d, que ele designa como sendo \u201creinvindica\u00e7\u00e3o mais gloriosa\u201d do cristianismo (FREUD, 2010, p. 73). Ele salienta: \u201cDepois que o ap\u00f3stolo Paulo fez do amor universal aos homens o fundamento de sua congrega\u00e7\u00e3o, a intoler\u00e2ncia extrema do cristianismo ante os que permaneceram de fora tornou-se uma consequ\u00eancia inevit\u00e1vel\u201d (FREUD, 2010, p. 81). Assim, o \u00f3dio jamais se reduz a zero, ele consegue simplesmente localizar-se de outro modo. O amor entre os membros de uma comunidade reunidos em torno de um ideal se paga sempre com um \u00f3dio dirigido ao exterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio cordial<\/strong><\/p>\n<p>De todas as paix\u00f5es, o \u00f3dio \u00e9, sem d\u00favida, o mais dif\u00edcil de se reconhecer e admitir. Pensemos no sorriso do Homem dos Ratos testemunhando um gozo desconhecido de si mesmo quando ele relata o supl\u00edcio infligido aos soldados no ex\u00e9rcito do Imp\u00e9rio. N\u00f3s lemos em marca-d\u2019\u00e1gua na resposta de Freud ao \u201cPor que a guerra?\u201d, de Albert Einstein, que a quest\u00e3o mesma camufla uma posi\u00e7\u00e3o de bela alma, ignorando a puls\u00e3o de morte, componente irredut\u00edvel em todos os seres humanos. Assim, ignorado e negado, o \u00f3dio se manifesta ocasionalmente pelo seu contr\u00e1rio, a saber, por um amor ao mesmo tempo excessivo e suspeito. Um sujeito em an\u00e1lise fala de bom grado de suas tend\u00eancias altru\u00edstas e caritativas, que ele apresenta, na oportunidade, como um tra\u00e7o que ele gostaria de se livrar, enquanto ele deixa suas hostilidades escondidas, especialmente quando estas s\u00e3o sentidas em rela\u00e7\u00e3o aos seres mais queridos. Ele ir\u00e1 timidamente pronunciar seu \u00f3dio apenas quando tiver acesso \u00e0 sua maldade fundamental.<\/p>\n<p>O que chamamos de \u201cfazer amor\u201d \u00e9 um oximoro. Sabemos que o que acontece sob essa designa\u00e7\u00e3o tem muito pouco a ver com o respeito e o amor. Esses, pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o muitas vezes um fator de inibi\u00e7\u00e3o da vida sexual. Por outro lado, a fantasia, condi\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es sexuais, \u00e9 uma encena\u00e7\u00e3o na qual o \u00f3dio prevalece sobre o amor. Dessa forma, o \u00f3dio n\u00e3o exclui o desejo. O ser a quem o \u00f3dio \u00e9 endere\u00e7ado inclui o objeto a (LACAN, 1982, p. 135). O \u00f3dio, nesse caso, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o consciente de um desejo situando-se entre o ser e o ter. Esse \u00e9 o caso do \u00f3dio ciumento que Santo Agostinho testemunha quando ele observa o homenzinho empalidecendo ao ver seu irm\u00e3o de leite pendurado no peito de sua m\u00e3e. \u00c9 porque ele tem o objeto de desejo que o irm\u00e3o \u00e9 odiado. Essa cena com tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es nos lembra a f\u00f3rmula fantasm\u00e1tica bate-se numa crian\u00e7a, e eu assisto. \u00c9 um \u00f3dio cordial causado por uma rivalidade f\u00e1lica e inscrita na l\u00f3gica edipiana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nosso objeto a<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um outro \u00f3dio, um \u00f3dio que rejeita. Esse n\u00e3o decorre do \u00c9dipo. Ele \u00e9 necess\u00e1rio para a constitui\u00e7\u00e3o do eu (moi). O gozo \u00e9 evacuado como mal para ser localizado no exterior. \u00c9 o \u00f3dio que Lacan descreve como sendo a raiz do racismo. A ignor\u00e2ncia do fundamental do eu (moi) faz com que esse \u00f3dio n\u00e3o esteja nos detalhes. Ele coloca de bom grado seu kakon em um outro coletivo. \u00c9 um \u00f3dio puro. Ele n\u00e3o tem nada do am\u00f3dio (hainamoration) lacaniano, como o \u00f3dio que anda de m\u00e3os dadas com o amor. Atribuir um gozo a uma \u201cmassa de corpos\u201d \u00e9 uma forma de racismo. Esse \u00e9 o caso do antissemitismo e da misoginia, a se distinguir das cr\u00edticas que podem ser feitas em rela\u00e7\u00e3o aos fundamentos de uma cultura. A cr\u00edtica do texto do Alcor\u00e3o n\u00e3o \u00e9 equivalente ao insulto dirigido \u00e0 suposta avidez do judeu pelo dinheiro ou \u00e0 falta de fidelidade da mulher como tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Judeu<\/strong><\/p>\n<p>O Judeu ocupa o lugar de \u201cnosso objeto a\u201d (REGNAULT, 2003) porque, pela sua posi\u00e7\u00e3o no mundo, ele perturba qualquer forma de instala\u00e7\u00e3o em comunidade na medida em que isso responde \u00e0 l\u00f3gica do todo. \u201c\u2019O que tenho em comum com os Judeus?\u2019, escreve Franz Kafka, \u00e9 apenas se eu tenho algo em comum comigo mesmo\u201d (REGNAULT, 2003, p. 23). Falando do \u00f3dio na medida em que este \u00e9 dirigido ao ser, Lacan indica que, se o crist\u00e3o se refere a um ser ideal e amoroso, que re\u00fane nele os seres imperfeitos, n\u00e3o h\u00e1 ser perfeito que possa alojar o judeu. Tudo na tradi\u00e7\u00e3o judaica vai contra isso, diz ele. De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o, \u201co menos perfeito \u00e9 muito simplesmente o que ele \u00e9, quer dizer, radicalmente imperfeito, e n\u00e3o h\u00e1 estritamente nada a fazer sen\u00e3o obedecer ao dedo e ao olho [\u2026], \u00e0quele que tem o nome de Jav\u00e9\u201d (LACAN, 1982, p. 134). E acrescentar que esse Deus, os judeus s\u00f3 poderiam faz\u00ea-lo um ser-de-\u00f3dio, isto \u00e9, \u201dtra\u00ed-lo\u201d (LACAN, 1982, p. 134), porque ele os escolheu para obedec\u00ea-lo sem fornecer-lhes um ideal ao qual eles pudessem se identificar. Assim, o destino do Judeu, do qual ele faz sua \u00e9tica, \u00e9 dedicar-se a uma pr\u00e1tica que se d\u00e1 sem uma garantia do Outro.<\/p>\n<p>L\u00e1 onde a mulher n\u00e3o existe, o Judeu \u00e9 um Nome inating\u00edvel. Os judeus constituem um conjunto \u201cde imperfeitos\u201d, s\u00e9rie aberta de sujeitos, cada um sendo singular na sua imperfei\u00e7\u00e3o. Os elementos desse conjunto aberto n\u00e3o s\u00e3o, mas ex-sistem ao sentido que Jacques-Alain Miller desenvolve sobre a exist\u00eancia no seu curso \u201cO Ser e o Um\u201d. Como tal, eles n\u00e3o s\u00e3o coletiviz\u00e1veis. \u00c9 por isso que \u00e9 proibido na tradi\u00e7\u00e3o judaica listar os membros de um grupo. O uso dos n\u00fameros naturais para contar os sujeitos \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 preval\u00eancia do um por um sobre a coletividade. O que n\u00e3o significa, claro, que, na \u201crealidade\u201d, os judeus n\u00e3o se organizem como comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia ao para-todos<\/strong><\/p>\n<p>A partir da\u00ed, entendemos o uso do termo \u2018nome judeu\u2019, porque dizer simplesmente \u2018o judeu\u2019, como dizer a mulher, o difama. Quando tentamos coletivizar o incoletiviz\u00e1vel, fazemos-lhe necessariamente uma viol\u00eancia. \u00c9 uma forma de abuso que a l\u00f3gica do todo inflige \u00e0 l\u00f3gica do n\u00e3o-todo. Antissemitismo e misoginia s\u00e3o dois nomes desse \u00f3dio irredut\u00edvel que se produz no encontro entre as duas l\u00f3gicas. O agente da l\u00f3gica do todo quer colocar em ordem os sujeitos que respondem \u00e0 l\u00f3gica do n\u00e3o-todo. Assim, o antissemitismo ir\u00e1 censurar os judeus, com mais ou menos viol\u00eancia, por n\u00e3o se assimilarem, por se colocarem em um lugar de exce\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o se alinharem de uma vez por todas e serem \u2018como todo mundo\u2019. A misoginia ir\u00e1 censurar as mulheres por suas pr\u00e1ticas singulares que se op\u00f5em \u00e0 lei do para-todos.<\/p>\n<p>Um judeu, como vimos, s\u00f3 pode trair o seu Deus, isto \u00e9, trair sua posi\u00e7\u00e3o de Judeu com um grande J. Ele sempre est\u00e1 aqu\u00e9m dessa posi\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o de alguns grupos que s\u00e3o mais ou menos bem-sucedidos em assumir a posi\u00e7\u00e3o de ser-judeu, de que Benny L\u00e9vy fala, a saber, uma posi\u00e7\u00e3o de recusa a se inserir em alguma forma de discurso universal, os judeus, de uma maneira ou de outra, aspiram a uma forma de assimila\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o os torna antissemitas, pois, seja o que for que fa\u00e7am, eles permanecem judeus, nem que seja unicamente por nega\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 um \u00f3dio, \u00e9 um \u00f3dio do Judeu que eles carregam dentro deles, mas n\u00e3o um \u00f3dio do outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio ao feminino<\/strong><\/p>\n<p><strong>A caprichosa<\/strong><\/p>\n<p>Se a l\u00f3gica do todo faz viol\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica do n\u00e3o-todo, n\u00e3o h\u00e1 nenhum \u00f3dio veiculado pelo gozo feminino em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 lei do pai. Aqui o caminho do Judeu e da mulher se separam. Se o judeu, em sua pr\u00e1tica, est\u00e1 fora de uma lei universal, se ele pode tolerar certa falta de garantia no Outro, ele permanece fiel a uma vers\u00e3o da lei do pai. Por outro lado, o gozo feminino stricto sensu implica uma s\u00e9rie de singularidades que rompem com essa lei como portadora de interditos. Ela coloca a vontade pulsional antes da lei. \u00c9 o que Jacques-Alain Miller chamou de \u201ccapricho\u201d, ou seja, uma vontade ac\u00e9fala, que vai al\u00e9m dos limites da raz\u00e3o e \u00e0s vezes \u00e9 mort\u00edfera (MILLER, 2001). As manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio desse gozo n\u00e3o t\u00eam causa localiz\u00e1vel e n\u00e3o encontram limites na raz\u00e3o. Ent\u00e3o, Lady Macbeth, a fim de incitar seu homem para o crime, assim formula a loucura do horror que ela seria capaz de cometer a partir de seu \u00f3dio:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>J\u00e1 amamentei e conhe\u00e7o como \u00e9 agrad\u00e1vel amar o terno ser que em mim mama. Pois bem, no momento em que estivesse sorrindo para o meu rosto, teria eu arrancado o bico de meu peito de suas gengivas sem dentes e ter-lhe-ia feito saltar o cr\u00e2nio, se o tivesse jurado como assim juraste\u2026 (Ato I, cena 7) (SHAKESPEARE, 1995, p. 489).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A\u00ed, n\u00f3s vacilamos. Essa manifesta\u00e7\u00e3o de \u00f3dio ao modo de Med\u00e9ia, que amea\u00e7a tocar o mais sagrado, excede o que podemos incorporar como humano. J.-A. Miller faz uma forte observa\u00e7\u00e3o sobre a indigna\u00e7\u00e3o que essa afirma\u00e7\u00e3o pode provocar em n\u00f3s, porque significa que, se somos escandalizados, \u00e9 porque Med\u00e9ia somos n\u00f3s: \u201cPorque cada um de n\u00f3s, diz ele, aturdido de compaix\u00e3o que esteja, tamb\u00e9m \u00e9 solicitado em sua parte irredut\u00edvel de desumanidade, sem a qual n\u00e3o h\u00e1 humanidade se sustente\u201d (MILLER, 2012).<\/p>\n<p>Assim, atrav\u00e9s dos limites da \u201cjusta medida\u201d da posi\u00e7\u00e3o masculina<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/conhecer-seu-odio#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, a ilimita\u00e7\u00e3o do gozo feminino pode parecer completamente fora de propor\u00e7\u00e3o, vontade feroz, sem limite. Por outro lado, da mesma forma que um judeu pode odiar o judeu nele, uma mulher pode odiar sua feminilidade, sem que isso a torne mis\u00f3gina. O caso de uma mulher que, durante muitos anos, n\u00e3o consegue mais estabelecer um relacionamento com um homem demonstra isso. \u00c0 primeira vista, podemos pensar que \u00e9 o amor que ela dedica ao pai, a quem ela est\u00e1 identificada, que aqui faz obst\u00e1culo. De fato, esse amor ao pai atravessa todo o seu ser. Mas, escavando um pouco mais, aparece o que lhe \u00e9 realmente insuport\u00e1vel. Essa mulher bem organizada, que n\u00e3o deixa passar nada do inconsciente, encontrou em si mesma a conduta \u201clouca\u201d de sua m\u00e3e toda vez que tentou estabelecer um relacionamento com um homem. Isso a levou a um relacionamento com o homem marcado por um isso nunca mais, cujo pre\u00e7o \u00e9 a solid\u00e3o que ela inflige a si mesma. Ela odeia os homens, poder\u00edamos dizer, n\u00e3o por causa do Penisneid, mas porque \u201co homem serve aqui de conector para que a mulher se torne esse Outro para ela mesma, como o \u00e9 para ele\u201d (LACAN, 1962\/1998, p. 741).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Curar da misoginia<\/strong><\/p>\n<p>Para o homem freudiano, como sabemos, o final da an\u00e1lise se apresentar\u00e1 quando do encontro com o rochedo da castra\u00e7\u00e3o, no momento em que ele poder\u00e1 assumir o fato de que outro homem possa ser mais forte que ele. Essa ren\u00fancia \u00e0 rivalidade f\u00e1lica \u00e9 uma forma de pacifismo. O homem entrega as armas, o que lhe permite renunciar \u00e0 luta imagin\u00e1ria e f\u00e1lica. No entanto, isso n\u00e3o garante um al\u00edvio com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o feminina. \u00c9 o homem lacaniano que enfrentar\u00e1 essa quest\u00e3o, porque, inicialmente, ele \u00e9 \u201cfundamentalmente medroso e, se for \u00e0 guerra, \u00e9 para fugir das mulheres, fugir do buraco\u201d (MILLER, 1997, p. 11). Esse homem ser\u00e1 capaz de se curar desse medo que o faz odiar desde que ele reconhe\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 o seu \u00f3dio, mas tamb\u00e9m a sua pr\u00f3pria feminilidade, seja qual for sua qualidade de guerreiro. Porque temos que esperar que os homens n\u00e3o estejam totalmente sob a l\u00f3gica do todo, da mesma maneira que as mulheres podem se relacionar com o falo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Inspira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tire os sapatos, diz a psican\u00e1lise ao homem. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 na mesquita. Coloque, ao contr\u00e1rio, o seu par de sapatos femininos, de cor vermelha, e entre no consult\u00f3rio do analista. O analista vai tolerar isso, ele \u00e9 formado para isso. Ele mesmo \u00e9 um pouco mulher. L\u00e1, no consult\u00f3rio do analista, voc\u00ea descobrir\u00e1 que nem todo mal est\u00e1 nela. Que voc\u00ea a conhece intimamente, \u201cde dentro\u201d, que voc\u00ea \u00e9, voc\u00ea mesmo, ocasionalmente, um pouco mulher. Voc\u00ea tem o seu humor, seu amor louco; voc\u00ea pode ser generoso e mau ao mesmo tempo, pragm\u00e1tico e sonhador, caprichoso e racional. Voc\u00ea descobrir\u00e1 que tamb\u00e9m pode ocasionalmente cometer o irrepar\u00e1vel. \u00c9 assim!<\/p>\n<p>Voc\u00ea ent\u00e3o se mover\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fronteira do imp\u00e9rio f\u00e1lico que \u00e9 sua pris\u00e3o e voc\u00ea levar\u00e1 seu olhar para o outro lado da fronteira, para o continente negro da feminilidade. Ent\u00e3o voc\u00ea dir\u00e1 a si mesmo que se ela se tornou a encarna\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio diabo; quem poderia n\u00e3o a amar enquanto a odeia? Ela \u00e9 aut\u00eantica. Ela n\u00e3o se incomoda. Ela \u00e9 generosa. Ela tem humor. Ela sorri. Ela diz: \u201cV\u00e1 em frente, viva a sua vida, n\u00e3o tenha medo. N\u00e3o se deixe desencorajar pelos moralistas que dizem a voc\u00ea para n\u00e3o se mover, para submeter-se \u00e0 raz\u00e3o, a raz\u00e3o deles, ideais deles\u201d. Ela n\u00e3o tem as ang\u00fastias do propriet\u00e1rio nem a preocupa\u00e7\u00e3o com o que v\u00e3o dizer. O Outro est\u00e1 l\u00e1, mas ningu\u00e9m \u00e9 obrigado, diz ela, a obedecer \u00e0 risca \u00e0s suas exig\u00eancias. Ele tamb\u00e9m pode ser louco de vez em quando. Ela \u00e9 pragm\u00e1tica. Existem as regras e a lei, ela diz, mas ela procura a pessoa que as incorpora para fazer acordos com ela, porque ela \u00e9 bastante \u201cconciliadora\u201d. Louca, mas n\u00e3o \u201clouca-de-todo\u201d (LACAN, 1974\/2003, p. 538). Ela fala, ela negocia, ela recebe. Ela atravessa todas as recusas, porque para ela \u201cn\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 uma resposta aceit\u00e1vel.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Michelle Santos Sena de Oliveira<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1930) \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d In: Obras completas, vol. 18, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010 p. 13-122.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973) O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Brasil: Jorge Zahar, 1982.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962) \u201cDiretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina\u201d, Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 734-745.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974) \u201cTelevis\u00e3o\u201d In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 508-543.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cDes semblants dans la relation entre les sexes\u201d In: La Cause freudienne, n\u00ba36, mai 1997, p. 7-16.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J-. \u201cA teoria do capricho\u201d In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n\u00ba 30, S\u00e3o Paulo, 2001, p. 79-86.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cUma partilha sexual\u201d In: Clique, n\u00ba2, Belo Horizonte: Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental, 2003. p. 13-29.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cLe th\u00e9\u00e2tre secret de la pulsion\u201d In: Le Point, n\u00ba 2062, 22 mars 2012.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>REGNAULT, F. Notre objet a. Paris: Verdier, 2003.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SHAKESPEARE, W. \u201cMacbeth\u201d In: Obra completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1995. Vol. I, p.475-528.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/conhecer-seu-odio#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0Cf. Miller, 2003, p. 16: \u201cA \u00e9tica da justa medida \u00e9 por excel\u00eancia uma \u00e9tica masculina\u201d.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GIL CAROZ &nbsp; IMAGENS: \u00c1REA DE SERVI\u00c7O CURA &#8211; CIRCUITO URBANO DE ARTE BELO HORIZONTE &nbsp; Lucidez &nbsp; O \u00f3dio \u00e9 l\u00facido. Ele est\u00e1 ligado a um saber. Os crist\u00e3os transformaram o n\u00e3o-\u00f3dio de seu Deus, sinal de sua ignor\u00e2ncia, em uma forma de amor (LACAN, 1982, p. 122). 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