{"id":1166,"date":"2019-07-17T06:58:57","date_gmt":"2019-07-17T09:58:57","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1166"},"modified":"2025-12-01T16:01:23","modified_gmt":"2025-12-01T19:01:23","slug":"quem-se-ocupara-das-criancas-a-solidao-e-os-gadgets-na-familia-atual-nadia-laguardia-de-lima-juliana-tassara-berni-helena-greco-lisita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/07\/17\/quem-se-ocupara-das-criancas-a-solidao-e-os-gadgets-na-familia-atual-nadia-laguardia-de-lima-juliana-tassara-berni-helena-greco-lisita\/","title":{"rendered":"Quem se ocupar\u00e1 das crian\u00e7as? A solid\u00e3o e os gadgets na fam\u00edlia atual &#8211; N\u00e1dia Lagu\u00e1rdia de Lima \/ Juliana Tassara Berni \/ Helena Greco Lisita"},"content":{"rendered":"<h6><strong><span class=\"author\">N\u00c1DIA LAGU\u00c1RDIA DE LIMA \/ JULIANA TASSARA BERNI \/ HELENA GRECO LISITA<\/span><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"post-2199\" class=\"post-2199 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-adolescence tag-contemporaneity tag-culture tag-digital tag-family\" style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-foto-Nadia.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"959\" data-large_image_height=\"1280\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1167\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-foto-Nadia-767x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"767\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-foto-Nadia-767x1024.jpg 767w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-foto-Nadia-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-foto-Nadia-768x1025.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-foto-Nadia.jpg 959w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 100vw, 767px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>LAMA -RICHARDSON PONTONE<\/strong><\/h6>\n<div class=\"post-2199 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-adolescence tag-contemporaneity tag-culture tag-digital tag-family\"><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"post-2199 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-adolescence tag-contemporaneity tag-culture tag-digital tag-family\">\n<div class=\"post-text bigger\">\n<p>Este artigo apresenta uma reflex\u00e3o sobre as transforma\u00e7\u00f5es acarretadas nas rela\u00e7\u00f5es familiares a partir da cultura digital. Tal reflex\u00e3o surge a partir de falas de adolescentes em grupos de conversa\u00e7\u00e3o oferecidos em escolas p\u00fablicas de BH pelo laborat\u00f3rio \u201cAl\u00e9m da tela: psican\u00e1lise e cultura digital\u201d<em>.\u00a0<\/em>Chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o a frequ\u00eancia com que os adolescentes afirmam ter pais ausentes ou pouco interessados por suas vidas. O uso excessivo dos dispositivos eletr\u00f4nicos, feito pelos adolescentes, \u00e9 justificado por eles como forma de suprir essa aus\u00eancia dos pais. Entretanto, para alguns adolescentes, o desinteresse ou a falta de investimento dos pais nos filhos \u00e9 consequ\u00eancia do fasc\u00ednio que esses aparelhos digitais exercem sobre os pais. Consideramos que a adolesc\u00eancia \u00e9 o tempo l\u00f3gico de separa\u00e7\u00e3o da autoridade paterna, momento em que os jovens percebem que os pais falham. Assim, questionamos se o fasc\u00ednio pelas tecnologias seria apenas uma das formas atuais de justificar a falha dos pais ou se haveria algo de novo na fam\u00edlia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O projeto \u201cConversa\u00e7\u00e3o nas escolas: adolescentes e redes sociais\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quem-se-ocupara-das-criancas-a-solidao-e-os-gadgets-na-familia-atual\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>\u00a0\u00e9 desenvolvido em escolas da rede p\u00fablica de Belo Horizonte. Esse projeto, como o pr\u00f3prio nome revela, utiliza a metodologia de Conversa\u00e7\u00e3o, tal como proposta por Jacques Alain-Miller, e visa a intervir junto aos adolescentes, criando espa\u00e7os de reflex\u00e3o nos quais a utiliza\u00e7\u00e3o do ciberespa\u00e7o possa ser interrogada pelos jovens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora a cultura digital seja o tema central dos encontros, ponto de partida das conversa\u00e7\u00f5es, a oferta da palavra permite que outros assuntos caros \u00e0 adolesc\u00eancia apare\u00e7am. As rela\u00e7\u00f5es familiares s\u00e3o temas recorrentes em muitos grupos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um dos grupos, todos os adolescentes t\u00eam pais separados, moram com a m\u00e3e e t\u00eam pouco ou nenhum contato com o pai. Eles se queixam de n\u00e3o poder ficar muito tempo conectados \u00e0 internet devido ao excesso de tarefas dom\u00e9sticas. Alguns se queixam, ainda, da falta de aten\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, do seu v\u00edcio pelas redes sociais e da prefer\u00eancia pelos irm\u00e3os mais novos<em>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em outro grupo, Jo\u00e3o diz: \u201cmeu pai me odeia, s\u00f3 sabe me criticar\u201d. M\u00e1rcia comenta: \u201ceu sou adotada, meus pais biol\u00f3gicos s\u00e3o drogados, meu pai morreu e minha irm\u00e3 \u00e9 puta\u201d, \u201cat\u00e9 um ano de idade eu era totalmente largada, at\u00e9 que uma vizinha come\u00e7ou a cuidar de mim\u201d. Esses adolescentes se designam, de forma ir\u00f4nica, como \u201cos anjos da escola\u201d e dizem que \u201cn\u00e3o conseguem sair da internet\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O tema da fam\u00edlia foi tamb\u00e9m recorrente em outro grupo, no qual os adolescentes parecem se situar entre a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia. A animadora da conversa\u00e7\u00e3o pergunta se eles percebem alguma diferen\u00e7a em suas rela\u00e7\u00f5es com os pais, agora que est\u00e3o na adolesc\u00eancia, e se as redes sociais interferem nessas rela\u00e7\u00f5es. Pedro diz que a vida familiar mudou muito por causa do telefone: \u201cNa minha inf\u00e2ncia, meus pais n\u00e3o sabiam o que era o telefone nem nada, e agora eles vivem por isso. N\u00e3o tem mais aquilo de conversar, \u00e9 tudo registrado em fotos. A vida da minha irm\u00e3 \u00e9 toda registrada em fotos. N\u00e3o tem mais o di\u00e1logo que tinha antes, n\u00e3o tem mais aquela rela\u00e7\u00e3o de conversar, de boca. Eu me sinto sozinho porque agora tudo \u00e9 na base do telefone. N\u00e3o \u00e9 mais como antes. Eu nunca fui de ficar muito na rua, ent\u00e3o eu conversava muito com meus pais. Hoje eles vivem a base de tecnologia. Sempre com o telefone na m\u00e3o, sempre registrando o que minha irm\u00e3 faz\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seguida, todos os adolescentes do grupo come\u00e7am a falar sobre como veem as rela\u00e7\u00f5es de suas m\u00e3es com a internet: \u201cMinha m\u00e3e me tira do computador para ela ficar\u201d. \u201cA minha queima o arroz\u201d. \u201cMinha m\u00e3e fica o dia inteiro jogando, pode cair uma bomba do lado dela que ela nem v\u00ea\u201d. A animadora retoma: \u201cVoc\u00eas acham que era diferente quando voc\u00eas eram crian\u00e7as?\u201d. Marcos responde: \u201cN\u00e3o \u00e9 a idade que t\u00e1 atrapalhando, \u00e9 a tecnologia\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio toma a palavra: \u201cMinha m\u00e3e \u00e9 chata demais. Toda hora ela me chama e me pergunta \u2018como que faz isso aqui no celular?\u2019. E o pior \u00e9 que ela aprende num minuto\u201d. O colega interpela: \u201cU\u00e9, voc\u00ea queria que ela demorasse pra aprender?\u201d. Fl\u00e1vio, ent\u00e3o, explica: \u201cClaro. Eu queria que ela ficasse conversando comigo. Minha m\u00e3e nem conversa comigo direito\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eles seguem reclamando dos pais, mas de forma banalizada, rindo e se zombando mutuamente. A animadora pede que expliquem melhor suas queixas. Eles explicam que o que est\u00e1 atrapalhando n\u00e3o \u00e9 a idade e nem o n\u00famero de filhos, \u00e9 a tecnologia \u201cque atrapalha a fam\u00edlia inteira\u201d. A animadora pergunta o que eles fazem diante disso, e um participante diz: \u201cEu falo \u2018para de mandar GIF, m\u00e3e\u2019\u201d. M\u00e1rio diz: \u201cEu j\u00e1 acostumei. Eu fico no computador e ela fica no telefone. Mas a gente convive\u201d. Lucas fala rindo: \u201cA minha m\u00e3e fala que est\u00e1 ocupada cuidando da minha irm\u00e3, mas na verdade ela est\u00e1 com o celular l\u00e1. Ela nem est\u00e1 vendo o que minha irm\u00e3 est\u00e1 fazendo. A minha irm\u00e3 pode afogar l\u00e1 atr\u00e1s dela que ela nem v\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O adolescente e a fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Lacan (1969\/2003) afirma que a fam\u00edlia, apesar de todas as transforma\u00e7\u00f5es sociais vividas ao longo dos tempos, continua exercendo fun\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva, a de transmitir um desejo n\u00e3o an\u00f4nimo. Destaca que os cuidados maternos trazem a marca de um interesse particularizado e o nome do pai \u00e9 o vetor da encarna\u00e7\u00e3o da lei no desejo. A fun\u00e7\u00e3o do pai \u00e9 a de impor um limite ao gozo da m\u00e3e. Assim, a fun\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia \u00e9 a de promover um sujeito desejante. Em outro texto, de 1968, Lacan ressalta que toda forma\u00e7\u00e3o humana \u2013 e a\u00ed se inclui a fam\u00edlia \u2013 tem, por ess\u00eancia, a fun\u00e7\u00e3o de refrear o gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Posteriormente, Lacan afirma que a perda de gozo \u00e9 estrutural e que o impasse sexual leva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00f5es \u201cque racionalizam a impossibilidade da qual prov\u00e9m\u201d (1972-1973\/2003, p. 531). Sendo assim, cada fam\u00edlia constr\u00f3i as suas fic\u00e7\u00f5es para dar forma ao que se opera na estrutura. Ao mesmo tempo, ela tem a fun\u00e7\u00e3o de refor\u00e7ar essa conten\u00e7\u00e3o estrutural do gozo, viabilizando o surgimento do desejo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As fic\u00e7\u00f5es sobre a fam\u00edlia s\u00e3o, portanto, constru\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas diante do traumatismo origin\u00e1rio que est\u00e1 na origem de todo\u00a0<em>falasser<\/em>. Como afirma Bassols (2016), toda fam\u00edlia \u00e9 um aparato de gozo, um modo de resguardar o segredo do gozo como inomin\u00e1vel. Ao escutar cada adolescente falar de sua fam\u00edlia, \u00e9 poss\u00edvel ter acesso a uma trama discursiva tecida em torno desse inomin\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A puberdade desvela a impossibilidade de a trama simb\u00f3lica tecida na inf\u00e2ncia recobrir o real do gozo. O p\u00fabere \u00e9 confrontado com a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e com a inconsist\u00eancia do Outro, o que o leva a se desligar da autoridade dos pais. Os adolescentes percebem que os pais falham. Assim, questionamos se o uso da tecnologia seria apenas a forma atual de justificar a falha dos pais, desvelada no tempo l\u00f3gico da adolesc\u00eancia, ou se haveria algo de novo. O uso excessivo dos dispositivos tecnol\u00f3gicos pelos pais estaria interferindo na fun\u00e7\u00e3o que eles exercem junto aos filhos?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nossa hip\u00f3tese \u00e9 a de que o uso excessivo dos aparelhos digitais tenha contribu\u00eddo para uma maior indiferen\u00e7a entre pais e filhos, tanto pelo objeto de gozo utilizado, que \u00e9 comum a todos, quanto pelo excesso de uso a que todos est\u00e3o submetidos. Pais, m\u00e3es e filhos est\u00e3o capturados pelo poder fascinante dos celulares, objetos\u00a0<em>mais-de-gozar<\/em>, de forma indistinta. Mas quais seriam os efeitos subjetivos desse apagamento da diferen\u00e7a geracional e da ascens\u00e3o do\u00a0<em>mais-de-gozar<\/em>\u00a0sobre as fam\u00edlias?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A civiliza\u00e7\u00e3o atual e seus efeitos sobre a fam\u00edlia e os la\u00e7os sociais<\/strong><\/p>\n<p>Lacan (1970\/2003) destaca que a civiliza\u00e7\u00e3o atual est\u00e1 marcada pela ascens\u00e3o ao z\u00eanite social do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0e sustentada n\u00e3o pela ren\u00fancia ao gozo, mas, ao contr\u00e1rio, pelo seu imperativo. Em 1972 ele nos apresenta o discurso do capitalista, no qual o lugar de agente \u00e9 ocupado pelo sujeito contempor\u00e2neo e por sua liberdade de consumo. O que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais a falta do sujeito, mas sua demanda enquanto consumidor. A m\u00e1xima \u201ctudo \u00e9 poss\u00edvel\u201d demonstra que o direito ao gozo se tornou dever de gozar e o mercado deve produzir produtos para todas as demandas do sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acompanhamos, na atualidade, o decl\u00ednio do pai, a queda da transmiss\u00e3o vertical fundada no Ideal e a promo\u00e7\u00e3o da horizontalidade das identifica\u00e7\u00f5es e dos la\u00e7os sociais. A fam\u00edlia assume o lugar de uma igualdade formal, sem princ\u00edpio de garantia, sem hierarquia ou autoridade. Al\u00e9m da horizontalidade do la\u00e7o, h\u00e1 uma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com o gozo. Os termos se inverteram: se a fam\u00edlia tentava ordenar o real do gozo, o real do gozo \u00e9 que reordena a fam\u00edlia hoje (BASSOLS, 2016). Vinciguerra (2017) comenta que, se o gozo era ocultado pela institui\u00e7\u00e3o familiar, ele ressurge claramente na atualidade, pois a esfera do privado busca se exibir e a reivindica\u00e7\u00e3o do direito a gozar se afirma livremente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan (1968\/2003) comenta que n\u00e3o existe gente grande e que devemos reintroduzir nossa medida \u00e9tica atrav\u00e9s do gozo. Laurent acrescenta que \u201co que separa a crian\u00e7a da pessoa grande \u00e9 a \u00e9tica que cada um faz de seu gozo\u201d (1994, p. 32). O adulto \u00e9 aquele que se responsabiliza pelo seu modo de gozo. A \u00e9poca atual \u00e9 caracterizada pela \u201ccrian\u00e7a generalizada\u201d (LACAN, 1968\/2003), ou seja, ningu\u00e9m se responsabiliza pelo seu modo de gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na contemporaneidade, h\u00e1 uma tend\u00eancia \u00e0 objetaliza\u00e7\u00e3o do sujeito que desvela a condi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a como objeto resto de um desejo, n\u00e3o mais objeto f\u00e1lico do par parental. As m\u00e3es n\u00e3o est\u00e3o mais ocupadas com os seus filhos, mas sim com os seus\u00a0<em>gadgets<\/em>, deixando mais clara a posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a de objeto resto do desejo materno.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 gente grande, quem se ocupar\u00e1 das crian\u00e7as hoje? O outro an\u00f4nimo do espa\u00e7o virtual? Alguns adolescentes mergulham na virtualidade como uma forma de se manterem numa posi\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o ao Outro, evitando a solid\u00e3o cada vez mais marcante na contemporaneidade. Assim, mant\u00eam-se no gozo com as suas fantasias, atrav\u00e9s dos jogos virtuais que lhes oferecem a oportunidade de se sentirem invenc\u00edveis, fortes e destemidos, ou atrav\u00e9s das redes sociais que os mant\u00eam ligados, conectados aos amigos virtuais, na ilus\u00e3o de n\u00e3o estarem s\u00f3s. Segundo La Sagna (2016), \u201cesses objetos de consumo v\u00e3o entrar em concorr\u00eancia com outros objetos e outras satisfa\u00e7\u00f5es enodando fantasias e usos regressivos do objeto e saturando, por vezes, o local e o uso poss\u00edvel do objeto separador para o sujeito\u201d.<\/p>\n<p><strong>A oferta da escuta como uma sa\u00edda aos impasses contempor\u00e2neos<\/strong><\/p>\n<p>Os adolescentes, em sala de aula, n\u00e3o podem falar do seu pior. As conversa\u00e7\u00f5es permitem que o adolescente fale daquilo que ningu\u00e9m quer ouvir, possibilitando um tratamento simb\u00f3lico ao mal-estar que perturba o la\u00e7o social. Como salienta Vieira, (2012, p. 10), \u201csempre \u00e9 poss\u00edvel encontrar um destino aos extremos do dizer\u201d. Esse espa\u00e7o presencial tem algu\u00e9m \u201cde carne e osso\u201d disposto a escut\u00e1-los, interessado no que eles dizem. O espa\u00e7o da conversa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o lugar an\u00f4nimo do desabafo, mas um lugar onde um sujeito toma a palavra e se implica nela. Dessa forma, o adolescente pode sair da posi\u00e7\u00e3o de objeto e se responsabilizar pelo seu modo de gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Buscamos, via transfer\u00eancia, levar o adolescente a construir a sua rede de sentido, articulando as experi\u00eancias on-line com as off-line. A transfer\u00eancia permite um tratamento ao gozo, uma vez que produz uma nova rela\u00e7\u00e3o com o objeto, mas tamb\u00e9m um novo tipo de objeto, que \u00e9, para Lacan, o objeto causa do desejo (LA SAGNA, 2016).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Procuramos ficar atentos ao que captura cada adolescente na tela, aos efeitos dessa captura no pr\u00f3prio corpo e nos la\u00e7os sociais. Como cada adolescente \u00e9 afetado (no n\u00edvel do afeto) pelas imagens e palavras que emergem da tela? O que cada um inventa com esses dispositivos para dar tratamento ao gozo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A experi\u00eancia com os adolescentes nas conversa\u00e7\u00f5es nos mostra que, d<\/em><em>iante da desorienta\u00e7\u00e3o advinda da falta de referenciais simb\u00f3licos sustent\u00e1veis na atualidade<\/em><em>,\u00a0<\/em><em>eles parecem n\u00e3o recusar o Outro. Ao contr\u00e1rio, tentam, cada um \u00e0 sua maneira, faz\u00ea-lo consistir.\u00a0<\/em><em>O meio virtual torna-se, nesse contexto, prop\u00edcio para a busca de identifica\u00e7\u00e3o de pares e forma\u00e7\u00e3o de grupos<\/em><em>, servindo como\u00a0<\/em><em>ancoragem na travessia at\u00e9 a fase adulta (COSENZA, 2016). Percebemos o quanto \u00e9 importante escutar esses adolescentes, permitir que a palavra se enlace ao gozo.\u00a0<\/em>Jo\u00e3o marca a import\u00e2ncia desse espa\u00e7o de escuta: \u201cO que a gente est\u00e1 falando aqui, tem gente que nunca consegue falar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"post-2199 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-adolescence tag-contemporaneity tag-culture tag-digital tag-family\">\n<div class=\"post-text bigger\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. \u201cFamulus\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Revista FAPOL on-line<\/strong>. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/lacan21_2016_volume2_PT-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/lacan21_2016_volume2_PT-1.pdf<\/a>. 2016. Acesso em jun. 2019.<\/h6>\n<h6>COSENZA, D. \u201cA inicia\u00e7\u00e3o na adolesc\u00eancia:\u00a0entre mito e estrutura\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>CIEN Digital<\/strong>, 19 mar. 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/ciendigital\/n19\/hifen.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/ciendigital\/n19\/hifen.html<\/a>. Acesso em jun. 2019.<\/h6>\n<h6>LA SAGNA, P. \u201cA adolesc\u00eancia prolongada, ontem, hoje e amanh\u00e3.\u00a0<strong>Almanaque on-line.<\/strong>\u00a0IPSM, n. 16. 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/a-adolescencia-prolongada-ontem-hoje-e-amanha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/a-adolescencia-prolongada-ontem-hoje-e-amanha<\/a>. Acesso em jun. 2019.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003<\/h6>\n<h6>______. (1968). \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<em>Op. cit<\/em>., p. 359-368.<\/h6>\n<h6>______. (1969). \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<em>Op. cit<\/em>., p. 369-370.<\/h6>\n<h6>______. (1970). \u201cRadiofonia\u201d. In:\u00a0<em>Op. cit<\/em>., p. 400-447.<\/h6>\n<h6>______. (1972-1973). Televis\u00e3o. In:\u00a0<em>Op. cit<\/em>., p. 508-543.<\/h6>\n<h6>______. (1972\/1978). \u201cDu discours psychanalytique\u201d. In:\u00a0<strong>Lacan in It\u00e1lia<\/strong>\u00a0(p. 32-55). Mil\u00e3o: La Salamandra.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. (1994). \u201cExiste um final de an\u00e1lise para as crian\u00e7as\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 10. S\u00e3o Paulo: Eolia. p. 24-33.<\/h6>\n<h6>LIMA, N. L.\u00a0<em>et al<\/em>. \u201cA identifica\u00e7\u00e3o na contemporaneidade: os adolescentes e as redes sociais\u201d. In:\u00a0<strong>aSephallus<\/strong>, revista eletr\u00f4nica do n\u00facleo S\u00e9phora. Rio de Janeiro: vol. 6, n\u00ba 12. mai-out, 2011. Recuperado em:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0<a href=\"http:\/\/www.isepol.com\/asephallus\/numero_12\/artigo_01.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.isepol.com\/asephallus\/numero_12\/artigo_01.html<\/a>. Acesso em jun. 2019.<\/h6>\n<h6>VINCIGUERRA, R. P. \u201cA psican\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias\u201d. In:\u00a0<strong>Almanaque<\/strong>, revista eletr\u00f4nica do IPSM-MG. n. 18. 2017. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/a-psicanalise-em-relacao-as-familias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/a-psicanalise-em-relacao-as-familias\/<\/a>. Acesso em jun. 2019.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/quem-se-ocupara-das-criancas-a-solidao-e-os-gadgets-na-familia-atual\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Projeto vinculado \u00e0 UFMG realizado pelo \u201cAl\u00e9m da tela\u201d, coordenado pela Prof\u00aa Nadia Lagu\u00e1rdia de Lima. As conversa\u00e7\u00f5es em quest\u00e3o foram animadas por Helena Greco e Juliana Berni.<\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"post-text bigger\">\n<hr \/>\n<\/div>\n<div class=\"post-text bio\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>N\u00e1dia Lagu\u00e1rdia De Lima \/ Juliana Tassara Berni \/ Helena Greco Lisita<\/strong><\/h6>\n<h6>N\u00e1dia Lagu\u00e1rdia de Lima Professora adjunta IV do Departamento de Psicologia e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre e doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela UFMG. P\u00f3s-doutora em Teoria Psicanal\u00edtica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora do Laborat\u00f3rio Al\u00e9m da Tela: psican\u00e1lise e cultura digital |\u00a0<span id=\"cloak406d0ac168f0c63fde3ae11b92a9e49e\"><a href=\"mailto:nadia.laguardia@gmail.com\">nadia.laguardia@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<p>Juliana Tassara Berni Psic\u00f3loga, mestre e doutoranda em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG. Integrante do Laborat\u00f3rio Al\u00e9m da Tela: psican\u00e1lise e cultura digital |\u00a0<span id=\"cloakcd777b23805dfd803d82d5776a611b05\"><a href=\"mailto:jutassara@hotmail.com\">jutassara@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<p>Helena Greco Lisita Psic\u00f3loga, mestre e doutoranda em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG. Integrante do Laborat\u00f3rio Al\u00e9m da Tela: psican\u00e1lise e cultura digital |\u00a0<span id=\"cloakb3b88bec769d4709d7e61fed827aaf6b\"><a href=\"mailto:helenagrecolisita@gmail.com\">helenagrecolisita@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00c1DIA LAGU\u00c1RDIA DE LIMA \/ JULIANA TASSARA BERNI \/ HELENA GRECO LISITA &nbsp; LAMA -RICHARDSON PONTONE Este artigo apresenta uma reflex\u00e3o sobre as transforma\u00e7\u00f5es acarretadas nas rela\u00e7\u00f5es familiares a partir da cultura digital. Tal reflex\u00e3o surge a partir de falas de adolescentes em grupos de conversa\u00e7\u00e3o oferecidos em escolas p\u00fablicas de BH pelo laborat\u00f3rio \u201cAl\u00e9m&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58002,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-1166","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-23","category-19","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1166","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1166"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1166\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58003,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1166\/revisions\/58003"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58002"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}