{"id":1171,"date":"2019-07-17T06:58:57","date_gmt":"2019-07-17T09:58:57","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1171"},"modified":"2025-12-01T16:05:15","modified_gmt":"2025-12-01T19:05:15","slug":"o-afeto-da-indignacao-como-resposta-frente-a-posicao-de-indignidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/07\/17\/o-afeto-da-indignacao-como-resposta-frente-a-posicao-de-indignidade\/","title":{"rendered":"O Afeto Da Indigna\u00e7\u00e3o Como Resposta Frente \u00c0 Posi\u00e7\u00e3o De Indignidade"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong><span class=\"author\">SILVANE CAROZZI<\/span><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"post-2197\" class=\"post-2197 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-afeto tag-dejeto tag-dignidade tag-indignacao tag-salvacao\" style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7-Silvane-Carozzi-3.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"959\" data-large_image_height=\"1280\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1172\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7-Silvane-Carozzi-3-767x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"767\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7-Silvane-Carozzi-3-767x1024.jpg 767w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7-Silvane-Carozzi-3-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7-Silvane-Carozzi-3-768x1025.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7-Silvane-Carozzi-3.jpg 959w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 100vw, 767px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>LAMA -RICHARDSON PONTONE<\/strong><\/h6>\n<div class=\"post-2197 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-afeto tag-dejeto tag-dignidade tag-indignacao tag-salvacao\">\n<div class=\"figcaption blog-figcaption\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"post-text bigger\">\nEm seu texto \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d, Miller nos possibilita uma leitura da sublima\u00e7\u00e3o na vertente do gozo \u2013 n\u00e3o daquele sublimado pela Coisa, o gozo reduzido \u00e0 falta, \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, mas sim em sua vertente de crueza. Foi preciso que a psican\u00e1lise aparecesse com sua promessa de salvar pelos dejetos para que se percebesse que, at\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 se havia procurado a salva\u00e7\u00e3o pelos ideais. O que \u00e9 o dejeto? \u201cO dejeto \u00e9 o que os alquimistas chamavam de\u00a0<em>caput mortuum.<\/em>\u00a0\u00c9 o que cai, \u00e9 o que tomba quando por outro lado algo se eleva\u201d (MILLER, 2010, p. 19).&nbsp;<\/p>\n<p>Essa defini\u00e7\u00e3o nos remete \u00e0 formula\u00e7\u00e3o que Lacan dava \u00e0 sublima\u00e7\u00e3o: \u201celevar o objeto \u00e0 dignidade de Coisa\u201d. Para Miller, o que ele designa como a Coisa j\u00e1 \u00e9 uma vers\u00e3o sublimada do gozo. O gozo como tal, no entanto, \u00e9 nu e cru, n\u00e3o tem a dignidade com que se recobrir. Trata-se do gozo \u201crebaixado \u00e0 indignidade do dejeto\u201d. Nessa perspectiva, elevar o gozo \u00e0 dignidade da Coisa estaria na possibilidade de entrela\u00e7\u00e1-lo ao Outro, desde que esse gozo n\u00e3o seja encarnado por um Outro de forma maci\u00e7a, mas que mantenha \u201co esplendor vazio da Coisa\u201d. \u201cCondi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que o sujeito fa\u00e7a de sua posi\u00e7\u00e3o de dejeto algo novo, in\u00e9dito, construindo uma poss\u00edvel conex\u00e3o com o Outro\u201d (MILLER, 2010, p. 20).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da tr\u00edade \u00d3dio, C\u00f3lera e Indigna\u00e7\u00e3o, pretendemos destacar as nuances da indigna\u00e7\u00e3o buscando uma diferencia\u00e7\u00e3o entre esta e a posi\u00e7\u00e3o de objeto indigno a partir de tr\u00eas fragmentos \u201ccl\u00ednicos\u201d\u00a0<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-afeto-da-indignacao-como-resposta-frente-a-posicao-de-indignidade\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, trata do afeto da indignidade a partir da sublima\u00e7\u00e3o, da puls\u00e3o e de\u00a0<em>das Ding<\/em>. A sublima\u00e7\u00e3o seria \u201celevar um objeto \u00e0 dignidade da Coisa\u201d (LACAN, 2008, p. 140-141). Ele faz refer\u00eancia a\u00a0<em>algama<\/em>, objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0como causa de desejo, ao contr\u00e1rio de um objeto que se posiciona como obturador de uma falta, estando fora de sua posi\u00e7\u00e3o de dignidade. Ele destaca que a raiz de\u00a0<em>agalma<\/em>\u00a0se aproxima do \u201ctermo amb\u00edguo que \u00e9\u00a0<em>agamai,<\/em>\u00a0\u2018eu admiro\u2019, [\u2026] que vai em dire\u00e7\u00e3o a\u00a0<em>agaiomai<\/em>, que quer dizer estar indignado\u201d (LACAN, 1992, p. 145).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan retoma a quest\u00e3o da dignidade relacionando-a ao desejo, o\u00a0<em>agalma,<\/em>\u00a0esse objeto \u201csupervalorizado tem a fun\u00e7\u00e3o de salvar nossa singularidade. [\u2026] Ele faz de n\u00f3s algo distinto do sujeito da fala, algo \u00fanico, de inapreci\u00e1vel insubstitu\u00edvel, afinal, que \u00e9 o verdadeiro ponto onde podemos designar aquilo a que chamei a dignidade do sujeito\u201d (LACAN, 1992, p. 173). A singularidade \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica privilegiada com um objeto que \u201csalva\u201d a dignidade, ao fazer do sujeito uma coisa \u00fanica \u00a0(LACAN, 1947\/2003, p. 115).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se a singularidade est\u00e1 na base da dignidade, por outro lado, \u201ca indigna\u00e7\u00e3o, como afeto de um corpo individual ou pol\u00edtico, surge quando o singular \u00e9 recha\u00e7ado ou desconhecido e, com isso, \u00e9 tocado algo da juntura \u00edntima do sentimento de vida\u201d (MORAGA, 2018).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No\u00a0<em>Semin\u00e1rio 8: a transfer\u00eancia<\/em>, a indignidade \u00e9 designada como uma resposta frente a uma afronta \u00e0 dignidade, tal como ele indica no coment\u00e1rio do choque sofrido por Hamlet: \u201cSer\u00e1 que, respondendo \u00e0 estranha iniquidade do gozo materno, uma certa\u00a0<em>hubris<\/em>\u00a0(Hybris) n\u00e3o responde aqui, tra\u00edda pela forma que assume aos olhos de Hamlet o ideal do pai?\u201d (LACAN, 1992, p. 277). Esse pai era o ideal do cavaleiro, um homem que atapetava de flores o caminho a ser percorrido pela rainha e que afastava de seu rosto o m\u00ednimo sopro de vento. Hamlet conhece o pai como o homem ideal. A afronta que representa o assassinato do pai investe Hamlet de indigna\u00e7\u00e3o. Para ele, a figura do pai foi aviltada tanto pelo assassino como pela sua m\u00e3e, que parece lhe consentir com as a\u00e7\u00f5es em Elsinor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sabemos que a pe\u00e7a come\u00e7a pouco depois da morte misteriosa de um rei muito admir\u00e1vel, o ideal tanto de rei como de pai. A vers\u00e3o de sua morte \u00e9 que ele foi picado por uma serpente em um pomar (<em>orchard).\u00a0<\/em>Alguns meses depois, a m\u00e3e de Hamlet desposou o cunhado, Cl\u00e1udio. E, ainda mais, o pai que aparece no terra\u00e7o de Elsinor, como\u00a0<em>ghos<\/em><em>t,\u00a0<\/em>\u201cum fantasma\u201d, para lhe revelar em quais condi\u00e7\u00f5es de trai\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica se operou, lhe diz que foi efetivamente um atentado (LACAN, 2016, p. 262).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir desse encontro com o\u00a0<em>ghost\u00a0<\/em>surgem muitos sentimentos: \u201cde usurpa\u00e7\u00e3o, de rivalidade, de vingan\u00e7a, e mais ainda, da ordem expressa recebida de um pai admirado acima de tudo. Seguramente, em Hamlet tudo est\u00e1 de acordo para que aja, e ele n\u00e3o age!\u201d (LACAN, 2016, p. 266). Mas por qu\u00ea? De certo modo, h\u00e1 um mandamento do supereu materializado por esse pai que retorna do al\u00e9m-t\u00famulo para lhe ordenar a vingan\u00e7a. Contudo, h\u00e1 outra tend\u00eancia imperativa, a de querer defender sua m\u00e3e e guard\u00e1-la para si. \u00c9 nesse ponto, diz Lacan, que tocamos em alguma coisa de essencial, que torna esse ato dif\u00edcil e essa tarefa repugnante para Hamlet: o seu desejo (LACAN, 2016, p. 302).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O desejo de Hamlet nos leva \u00e0 cena da alcova, onde o filho est\u00e1 cara a cara com a m\u00e3e. \u201cN\u00e3o h\u00e1 outro momento em que a f\u00f3rmula\u00a0<em>o desejo do homem \u00e9 o desejo do Outro\u00a0<\/em>seja mais tang\u00edvel\u201d (LACAN, 2016, p. 309). Fato \u00e9 que Hamlet n\u00e3o se endere\u00e7a ao Outro, com sua pr\u00f3pria vontade, mas como suporte e representante do pai, da ordem, do pudor e da dec\u00eancia. A indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 uma resposta frente \u00e0 afronta \u00e0 dignidade do pai, mas ele fica suspenso entre a iniquidade do gozo materno e o ideal encarnado pelo pai assassinado. Ao se endere\u00e7ar ao Outro, a resposta que recebe da m\u00e3e \u00e9: \u201cSou o que sou, n\u00e3o tenho jeito, sou uma verdadeira genital [\u2026] luto n\u00e3o \u00e9 comigo\u201d (LACAN, 2016, p. 309). N\u00e3o podemos deixar de constatar que \u00e9 pelo vi\u00e9s do luto que o objeto entra em jogo. Vimos ao longo de toda a cena que se trata do \u201cdrama de que haja um objeto digno e um objeto indigno.\u00a0<em>Senhora, um pouco de asseio, por favor, afinal, alguma diferen\u00e7a h\u00e1 entre esse deus e esse lixo!<\/em>\u201d (LACAN, 2016, p. 309-310).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas que drama \u00e9 esse? \u201cO drama de Hamlet \u00e9 o encontro com a morte\u201d, diz Lacan. \u00c9 preciso matar Cl\u00e1udio. O assassinato a ser consumado \u00e9 um assassinato justo\u201d (LACAN, 2016, p. 309-316). Mas esse assassinato n\u00e3o se executar\u00e1 a n\u00e3o ser quando Hamlet \u00e9 golpeado de morte. Seu ato se situa em seu termo no encontro \u00faltimo de todos os encontros, que s\u00f3 tem sentido em rela\u00e7\u00e3o a um sujeito enquanto fala e enquanto \u00e9 estruturado numa rela\u00e7\u00e3o complexa com o significante. O sentido daquilo que Hamlet conhece pelo pai \u00e9 a irremedi\u00e1vel, insond\u00e1vel trai\u00e7\u00e3o do amor mais puro, o amor desse rei que poderia ter sido um grande cafajeste, mas que, com sua mulher, afastava de seu rosto o m\u00ednimo sopro de vento. E a absoluta falsidade daquilo que apareceu a Hamlet como o pr\u00f3prio testemunho da beleza, da verdade, do essencial. A\u00ed est\u00e1 a resposta, diz Lacan. \u201cA verdade de Hamlet \u00e9 uma verdade sem esperan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgio, em todo o\u00a0<em>Ham<\/em><em>l<\/em><em>et,\u00a0<\/em>de uma eleva\u00e7\u00e3o para algo que estaria mais al\u00e9m, Salva\u00e7\u00e3o, reden\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 2016, p. 321).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hamlet \u00e9, ent\u00e3o, uma trag\u00e9dia?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan nos informa que, para Hegel, a trag\u00e9dia crist\u00e3, situada na \u201cFenomenologia do esp\u00edrito\u201d, est\u00e1 ligada \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o, \u00e0 reden\u00e7\u00e3o. A trag\u00e9dia antiga sempre acaba sem remiss\u00e3o; na verdade, nesse Hamlet n\u00e3o aparece o menor tra\u00e7o de uma reconcilia\u00e7\u00e3o ou uma reden\u00e7\u00e3o qualquer, pura trag\u00e9dia (LACAN, 1992, p. 276).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Encontramos tamb\u00e9m em Schreber a indigna\u00e7\u00e3o como uma resposta frente \u00e0 afronta \u00e0 sua dignidade. Sabemos que, ao ser tocado pelo s\u00edmbolo da presid\u00eancia, ser\u00e1 logo arrebatado pela ideia que seria belo ser uma mulher no momento da c\u00f3pula. Essa ideia seria tratada com a maior indigna\u00e7\u00e3o caso surgisse em plena consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan (1998, p. 574) dir\u00e1 que, em Schreber, ap\u00f3s o desencadeamento:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>&#8220;Sem d\u00favida, n\u00e3o lhe teria escapado, tr\u00eas anos depois (1911- 1914), a verdadeira mola da invers\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o que a ideia da Evira\u00e7\u00e3o (Entmannung)\u00a0inicialmente suscitara na pessoa do sujeito: e que, muito precisamente, nesse intervalo o sujeito havia morrido.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre o momento de indigna\u00e7\u00e3o frente \u00e0 evira\u00e7\u00e3o at\u00e9 sua aceita\u00e7\u00e3o, o sujeito estava morto. Schreber descreveu essa fase como o \u201ctempo sagrado\u201d \u00e9 uma morte em vida. N\u00e3o apenas ele se sentia morrendo v\u00e1rias vezes por dia como chegou a ver no jornal o an\u00fancio de sua pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse tempo, Schreber n\u00e3o apenas era v\u00edtima do processo de feminiza\u00e7\u00e3o que se iniciava, mas tamb\u00e9m de despeda\u00e7amento de membros, esfacelamento de \u00f3rg\u00e3os, liquefa\u00e7\u00e3o dos genitais, cadaveriza\u00e7\u00e3o, fen\u00f4menos que testemunham a incid\u00eancia do gozo do Outro, mort\u00edfero e destruidor, com todas as suas caracter\u00edsticas \u2013 dilaceramento e ang\u00fastia avassaladores. O pr\u00f3prio Schreber se descreve como \u201cum cad\u00e1ver leproso que carrega um cad\u00e1ver leproso\u201d. Descri\u00e7\u00e3o brilhant\u00edssima pontua Lacan: \u201cde uma identidade reduzida ao confronto com seu duplo ps\u00edquico, mas que, al\u00e9m disso, deixa patente a regress\u00e3o do sujeito, n\u00e3o gen\u00e9tica, mas t\u00f3pica, ao est\u00e1dio do espelho, na medida em que a rela\u00e7\u00e3o com o outro especular reduz-se a\u00ed a seu gume mortal\u201d (LACAN, 1998, p. 574).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conv\u00e9m assinalar a aten\u00e7\u00e3o que Lacan dispensa \u00e0 experi\u00eancia de morte de Schreber em seu trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o. Ela teria um papel fundamental na virada que teria se operado, da indigna\u00e7\u00e3o e do horror inicial \u00e0 ideia de evira\u00e7\u00e3o ao posterior consentimento, da vol\u00fapia \u00e0 beatitude. \u00c9 em torno da morte, que Schreber organiza a sua reconstru\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>&#8220;podemos colocar sob o signo da criatura o ponto decisivo de onde a linha escapa em suas duas ramifica\u00e7\u00f5es, a do gozo narc\u00edsico e a da identifica\u00e7\u00e3o ideal\u2026 E tamb\u00e9m, nesse caso, a linha gira em torno de um furo, precisamente aquele em que o assassinato de almas instalou a morte (LACAN, 1998, p. 577).&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em suas Mem\u00f3rias, Schreber indaga: \u201cGostaria de ver qual o homem que, tendo de escolher entre tornar-se um idiota com apar\u00eancia masculina ou mulher de esp\u00edrito, n\u00e3o preferiria a \u00faltima alternativa\u201d (SCHREBER, 1985, p. 178). Encontram-se, pois, duas posi\u00e7\u00f5es do sujeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fantasia \u201cser uma mulher\u201d: a primeira \u00e9 de indigna\u00e7\u00e3o, uma vez que essa fantasia \u00e9 articulada a um \u201cpara um homem\u201d, ou seja, ser objeto de abusos sexuais; a segunda \u00e9 a de aceita\u00e7\u00e3o, em que se trata, para Schreber, de ser Mulher de Deus com o objetivo de uma procria\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da qual garantir\u00e1 a lei e o bom funcionamento do Universo. Ele sacrifica o ideal da virilidade pelo ideal de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tomado na experi\u00eancia enigm\u00e1tica do desejo do Outro, na feminiza\u00e7\u00e3o produzida pelo inconsciente, Schreber precisou inventar uma via que tornasse mais aceit\u00e1vel essa solu\u00e7\u00e3o. A met\u00e1fora delirante\u00a0<em>Mulher de Deus\u00a0<\/em>vem, ent\u00e3o, suprir o furo no simb\u00f3lico correspondente a\u00a0<em>Verwerfung<\/em>, na medida em que ela lhe permite, ainda que assintoticamente, como observa Freud, vir um dia a procriar. Pela evira\u00e7\u00e3o sempre postergada, Schreber se mantem numa temporalidade eternamente adiada. \u201cUma solu\u00e7\u00e3o elegante\u201d nos diz Lacan\u00a0 (LACAN, 1998, p. 578).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Encontramos a posi\u00e7\u00e3o de objeto indigno no caso apresentado por Philippe de Georges em seu livro\u00a0<em>L\u2019Autre M\u00e9chant<\/em>\u00a0(2010). Trata-se de uma senhora, nomeada de Madame S., que procura o analista quando soube da morte de sua analista anterior. A transfer\u00eancia havia se estabelecido a partir da erudi\u00e7\u00e3o da analista e sua cultura liter\u00e1ria. Foi no contexto dessa perda que Madame S. precisava encontrar um interlocutor que acolhesse seu profundo sofrimento. Contudo, esse luto, t\u00e3o dif\u00edcil de elaborar, remetia a uma outra perda, a de sua jovem tia, que, para ela, era um ser de exce\u00e7\u00e3o; de uma completa feminilidade, feita de gra\u00e7a e pureza, inating\u00edvel pelas mesquinharias da vida. O la\u00e7o entre elas era t\u00e3o intenso quanto exclusivo, eleito em todos os sentidos do termo. Contudo, a morte dessa tia rompe esse la\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A perda da analista \u00e9 um golpe gratuito que coloca a nu, definitivamente, a solid\u00e3o radical e a aus\u00eancia de recursos desse sujeito. O esgotamento f\u00edsico e moral \u00e9 permanente. O corpo \u00e9 uma fonte difusa de sofrimento, com cefaleias que se imp\u00f5em violentamente desde a hora em que ela acorda e que se tornam aut\u00eanticas enxaquecas. Nenhum tratamento medicamentoso apazigua realmente, exigindo o isolamento total no sil\u00eancio e na escurid\u00e3o. Madame S. as conhece desde a adolesc\u00eancia e dir\u00e1, mais tarde, que essas enxaquecas constituem um ref\u00fagio: a viol\u00eancia da dor f\u00edsica distrai a dor moral e as ideias suicidas obsedantes. \u00a0(FERREIRA, 2014, p. 194-195).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Devido ao seu grande sentimento de rejei\u00e7\u00e3o e de hostilidade, na juventude, Madame S. foi estudar longe de tudo o que lhe poderia ser familiar. Era preciso tomar a contram\u00e3o da fam\u00edlia puritana e hip\u00f3crita. Desde muito cedo, passou a sair para beber at\u00e9 se embriagar. Muitas vezes chegou ao coma alco\u00f3lico. Com isso, multiplicava suas experi\u00eancias sexuais, as mais cruas, e o excesso era um desafio, mesmo se essas aventuras s\u00f3 fizessem aprofundar seu desespero e seu sentimento de rejei\u00e7\u00e3o. O \u00f3dio de si se alimentava, sem parar, de situa\u00e7\u00f5es feitas para confirm\u00e1-lo em seu ser de sujeira e nulidade (GEORGES, 2010, p. 50).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse caso, constata-se a presen\u00e7a do excesso como manifesta\u00e7\u00e3o autodestrutiva. Isso culminava sempre em um \u00f3dio de si mesma, que alimentaria sem cessar as situa\u00e7\u00f5es que confirmariam seu ser de pecado e de vazio (FERREIRA, 2014, p. 195-196).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do feminino, merece destaque o trabalho que ela nomeia de \u201cpesquisa\u201d.\u00a0 Madame S. \u00e9 reconhecida por sua tese, publicada, sobre Joana d\u2019Arc e pelos trabalhos sempre singulares, que apresenta com paix\u00e3o. Suas monografias falam sobre as mulheres que tiveram uma vida fora do comum \u2013 assassinadas, envenenadas, decapitadas ap\u00f3s terem desafiado poderes malignos e poderosos tir\u00e2nicos (FERREIRA, 2014, p. 197).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com de Georges, quaisquer que sejam os afetos e os tormentos do sujeito, o que est\u00e1 a\u00ed em filigrana culmina na seguinte formula\u00e7\u00e3o: o Outro \u00e9 definitivamente um lugar de amea\u00e7a e precisa ser denunciado. Esse postulado \u00e9 o n\u00facleo: a\u00ed reside, no fim das contas, um gozo maligno do qual o sujeito arrisca ser o objeto, mesmo se for a t\u00edtulo de perspectiva. \u00c9 sempre poss\u00edvel que o perigo se realize (GEORGES, 2010, p. 56).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, a aposta do analista para Madame S. visa essencialmente fazer com que essa perspectiva mortal permane\u00e7a assint\u00f3tica. Se alguma coisa deve ser criada, \u00e9 uma alternativa para o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No debate que se seguiu a essa apresenta\u00e7\u00e3o, Alexandre Stevens (2010) aponta para o fato de que, no lugar de um del\u00edrio, Madame S. buscou a solu\u00e7\u00e3o via escrita liter\u00e1ria. A produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria constitui uma de suas solu\u00e7\u00f5es por meio da constru\u00e7\u00e3o do saber. Ela trata, assim, o Outro mau, de um modo universit\u00e1rio. Sua solu\u00e7\u00e3o reside no fato de ser pesquisadora e de ser uma combatente que n\u00e3o cede diante do mundo mau. Uma solu\u00e7\u00e3o descrita por seu analista como uma supl\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tratamos aqui a indigna\u00e7\u00e3o, em tr\u00eas diferentes posi\u00e7\u00f5es subjetivas, como uma resposta frente a uma afronta \u00e0 dignidade. Cada uma delas, \u00e0 sua maneira, buscando \u201celevar o objeto \u00e0 dignidade de Coisa\u201d, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para transformar \u201csua posi\u00e7\u00e3o de dejeto em algo novo, in\u00e9dito, construindo uma poss\u00edvel conex\u00e3o com o Outro\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<div class=\"post-2197 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-afeto tag-dejeto tag-dignidade tag-indignacao tag-salvacao\">\n<div class=\"figcaption blog-figcaption\">\n<div class=\"post-text bigger\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FERREIRA, Maria de F\u00e1tima.\u00a0<strong>A dor moral da melancolia<\/strong>. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2014. p. 193 \u2013 194.<\/h6>\n<h6>DE GEORGES, Philippe. \u201cL\u2019Autre M\u00e9chant: Six cas cliniques comment\u00e9s\u201d. In:\u00a0<strong>La Bibliotheque Lacanienne<\/strong>. Dirigido por Jacques-Alain Miller e Editado por Christiane Alberti. Paris: Navarin \u00c9diteur, 2010..<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u201cA psiquiatria inglesa e a guerra\u201d (1947).\u00a0<em>In<\/em>: ______.\u00a0<strong>Outros escritos.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 106-126.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d (1955-1956).\u00a0<em>In<\/em>: ______.\u00a0<strong>Escritos.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 574.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jaques. Sete li\u00e7\u00f5es sobre Hamlet. In: ______.\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 6:\u00a0\u00a0<\/strong>O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o(1958-1959). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2016, p. 255-379.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 7:\u00a0<\/strong>A \u00e9tica da psican\u00e1lise\u00a0(1959-1960). 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 8:\u00a0<\/strong>a transfer\u00eancia (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d.\u00a0<strong>Revista Correio<\/strong>, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo, n. 67, dez. 2010, p. 19-26.<\/h6>\n<h6>MORAGA, Patr\u00edcia. \u201cPinceladas de dignidade\u201d. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/ampblog2006.blogspot.com\/2018\/08\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/ampblog2006.<sub>blogspot<\/sub>.com\/2018\/08\/<\/a>. Acesso em jun. 2019.<\/h6>\n<h6>SCHREBER, Daniel Paul.\u00a0<strong>Mem\u00f3rias de um doente dos nervos<\/strong>. Rio de Janeiro: Graal, 1985, p. 178.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-afeto-da-indignacao-como-resposta-frente-a-posicao-de-indignidade\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Dois deles, Hamlet e Schreber, s\u00e3o fragmentos liter\u00e1rios.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<div class=\"post-text bio\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>SILVANE CAROZZI<\/strong><\/h6>\n<h6>Graduada em Filosofia e Psicologia, mestre em Letras e doutora em Psicologia. Analista praticante, membro correspondente da EBP &#8211; Se\u00e7\u00e3o Minas. Av. do Contorno, 9.215, sl. 2017 | Prado &#8211; Belo Horizonte\/MG | CEP: 30110-941<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SILVANE CAROZZI &nbsp; LAMA -RICHARDSON PONTONE &nbsp; Em seu texto \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d, Miller nos possibilita uma leitura da sublima\u00e7\u00e3o na vertente do gozo \u2013 n\u00e3o daquele sublimado pela Coisa, o gozo reduzido \u00e0 falta, \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, mas sim em sua vertente de crueza. 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