{"id":1178,"date":"2019-07-17T06:58:57","date_gmt":"2019-07-17T09:58:57","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1178"},"modified":"2025-12-01T16:05:53","modified_gmt":"2025-12-01T19:05:53","slug":"odio-obstaculo-ou-condicao-para-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/07\/17\/odio-obstaculo-ou-condicao-para-a-psicanalise\/","title":{"rendered":"\u00d3dio: Obst\u00e1culo Ou Condi\u00e7\u00e3o Para A Psican\u00e1lise?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong><span class=\"author\">BERNARDO MICHERIF CARNEIRO<\/span><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"post-2193\" class=\"post-2193 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-amor tag-odio tag-recusa\" style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-foto-Benardo.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1280\" data-large_image_height=\"959\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1179\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-foto-Benardo-1024x767.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"767\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-foto-Benardo-1024x767.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-foto-Benardo-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-foto-Benardo-768x575.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/6-foto-Benardo.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>LAMA -RICHARDSON PONTONE<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"post-2193 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-amor tag-odio tag-recusa\"><\/div>\n<div class=\"post-2193 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-amor tag-odio tag-recusa\">\n<div class=\"post-text bigger\">\n<p>Partimos de uma hip\u00f3tese: h\u00e1, em Lacan, duas perspectivas distintas na abordagem do \u00f3dio. Uma primeira, que enfatiza a sua vertente como obst\u00e1culo \u00e0 psican\u00e1lise, e uma segunda, na qual prevalece o \u00f3dio como condi\u00e7\u00e3o para a an\u00e1lise. Tentaremos distinguir essas duas perspectivas para, com isso, delinear a fun\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica do \u00f3dio na experi\u00eancia de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio: obst\u00e1culo \u00e0 psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan (1998b) considerou o \u00f3dio uma das paix\u00f5es do ser, junto ao amor e \u00e0 ignor\u00e2ncia. O termo \u201cpaix\u00f5es do ser\u201d indica que se trata do ser, da forma como o sujeito constitui sua exist\u00eancia. Lacan prop\u00f5e que isso se decide pelo modo como o gozo se relaciona com o saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estabelecer a rela\u00e7\u00e3o com o saber a partir da pergunta \u201co que o Outro quer?\u201d condiciona uma demanda do sujeito ao Outro. Uma demanda que coloca em jogo um buraco no saber. As paix\u00f5es do ser s\u00e3o tr\u00eas modos distintos de tampar esse buraco. O amor se dirige ao saber do Outro suposto como Um. Na ignor\u00e2ncia, trata-se de um n\u00e3o querer saber do vazio no saber do Outro. O \u00f3dio se dirige ao gozo suposto no vazio do saber do Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ou seja, ama-se o saber, ignora-se a verdade do saber ou odeia-se o gozo no saber. O amor dedica uma devo\u00e7\u00e3o ao saber do Outro. O \u00f3dio parte do pressuposto de que o saber \u00e9 um engodo que esconde um gozo. Por isso, o \u00f3dio denuncia o semblante e se dirige ao que o saber n\u00e3o alcan\u00e7a. \u201cO amor ou o \u00f3dio. Um \u00e9 cego e o far\u00e1 entregar as armas. O outro \u00e9 l\u00facido, mas despertar\u00e1 suas suspeitas\u201d (LACAN, 1998a, p. 45). Se o amor se baseia no engano como a via para se alienar no saber, o \u00f3dio, ao expor o engano do amor, torna-se ref\u00e9m das suspeitas que suscita. Mas a suspeita permanece como uma manifesta\u00e7\u00e3o amortecida do \u00f3dio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante da oferta do saber do Outro, h\u00e1 uma pergunta que se coloca do lado do sujeito: \u201cO que ele quer?\u201d. O sujeito, por antecipa\u00e7\u00e3o, suspeita que o saber do Outro o deprecia. Como se o saber que o Outro apresenta fosse um modo de dizer ao sujeito: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe de nada!\u201d. O sujeito interpreta que o Outro goza dessa deprecia\u00e7\u00e3o que ele promove. Tudo o que vem do Outro, qualquer palavra ou gesto, fica sob o jugo dessa interpreta\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma antecipa\u00e7\u00e3o na medida em que vai mais al\u00e9m do que se sabe, uma suspeita que n\u00e3o disp\u00f5e de provas. E quanto mais n\u00e3o se tem provas, mais essa suspeita retorna insistentemente. A suspeita \u00e9 uma resposta do sujeito \u00e0 mensagem de desvaloriza\u00e7\u00e3o que ele recebe do Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando o saber perde sua articula\u00e7\u00e3o ao desejo do Outro, este ressoa como um bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 sem fim. O sujeito considera que o saber que o Outro veicula \u00e9 um meio pelo qual ele goza do sujeito, manipula-o. O sujeito sente-se humilhado e menosprezado. Acusa o Outro de ser invasivo, de se intrometer na sua intimidade. O gozo do Outro torna-se um obst\u00e1culo para a via do saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A recusa, do simb\u00f3lico ao real<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apresentado o \u00f3dio como obst\u00e1culo \u00e0 transfer\u00eancia, cabe questionar como conduzir tal quest\u00e3o. Propomos a no\u00e7\u00e3o de recusa como a via para essa condu\u00e7\u00e3o. A recusa \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que viabiliza um manejo do \u00f3dio na cl\u00ednica. A recusa \u00e9 uma defesa, anterior \u00e0 resist\u00eancia, que est\u00e1 na base da estrutura ps\u00edquica. A recusa \u00e9 inaugural da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o real. Ela visa uma extra\u00e7\u00e3o de gozo para fazer existir o Outro como um lugar onde o sujeito possa se colocar. Se na resist\u00eancia o gozo \u00e9 um obst\u00e1culo, na recusa ele \u00e9 o terreno onde a opera\u00e7\u00e3o se realiza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 um gozo sempre deslocado, um gozo a mais que n\u00e3o encontra seu devido lugar. \u00c9 sobre ele que a recusa incide. Se esse gozo est\u00e1 do lado do sujeito, o Outro interdita. Se se coloca do lado do Outro, o sujeito contesta. Se interditar o gozo do sujeito \u00e9 a via para o amor ao Outro advir, quando o sujeito se defende do gozo do Outro, \u00e9 do \u00f3dio que se trata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan esclarece esse impasse com um aforisma topol\u00f3gico decisivo para a no\u00e7\u00e3o de recusa: \u201cPe\u00e7o-te que me recuses o que te ofere\u00e7o porque n\u00e3o \u00e9 isso\u201d. Pedido, recusa e oferta constituem um n\u00f3 cuja interse\u00e7\u00e3o circunscreve o n\u00e3o \u00e9 isso, onde se apresenta um furo, o objeto\u00a0<em>a<\/em>. \u00c9 preciso decifrar essa montagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Primeiramente, o Outro recusa que o sujeito goze do que n\u00e3o deve, o que chamamos de interdito, opera\u00e7\u00e3o inaugural do campo simb\u00f3lico. Essa recusa nos introduz na estrutura do aforisma ao qual nos dedicamos. A partir da\u00ed, o sujeito\u00a0<em>oferece<\/em>\u00a0ao Outro o gozo ao qual renuncia. Quando esse gozo se transfere, o sujeito\u00a0<em>pede<\/em>\u00a0que o Outro o\u00a0<em>recuse<\/em>\u00a0tamb\u00e9m em seu campo. Ele o pede impondo sua pr\u00f3pria recusa:\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9 isso<\/em>. Sua recusa incide separando o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0e o gozo, esvaziando o objeto para que possa fazer surgir ali o desejo do Outro. Por isso, Lacan (2012) acrescenta ao seu aforisma: \u201cPe\u00e7o-te que me recuses o que te ofere\u00e7o porque n\u00e3o \u00e9 isso o que tu desejas\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o para que o desejo possa se colocar \u00e9 que o gozo do Outro seja barrado. A defasagem entre o gozo obtido e o gozo esperado \u00e9 onde o desejo se instala. Quando o sujeito se recusa ao que o Outro prop\u00f5e, n\u00e3o se trata de uma oposi\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma demanda carregada de \u00f3dio. Uma demanda que se dirige \u00e0 vontade de gozo que o sujeito atribui ao Outro. Considera que o Outro goza de subjug\u00e1-lo como objeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sa\u00edda dessa querela est\u00e1 condicionada a que o desejo do Outro se apresente. Que ele renuncie ao gozo indevido e abra espa\u00e7o para o vazio de saber a partir do qual outros possam se apresentar. Ou seja, a solu\u00e7\u00e3o para o problema do saber est\u00e1 na aus\u00eancia de solu\u00e7\u00e3o, no imposs\u00edvel de saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, a recusa \u00e9 um resultado do deslocamento do gozo do campo do sujeito para o campo do Outro. Contudo, um problema se coloca. Na \u00e9poca do Outro, que n\u00e3o existe, n\u00e3o h\u00e1 Outro para recusar o gozo. Ao contr\u00e1rio, trata-se de uma civiliza\u00e7\u00e3o assolada pelo imperativo: \u201cGoza!\u201d. Esse gozo ilimitado que marca a subjetividade contempor\u00e2nea tem incid\u00eancia sobre a fun\u00e7\u00e3o da recusa. Ela marca uma ruptura do la\u00e7o simb\u00f3lico do sujeito com o Outro e evidencia uma nova rela\u00e7\u00e3o entre esses dois termos em um contexto em que o gozo n\u00e3o encontra mais um limite ou um cativeiro no qual se abrigar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para propor o estatuto da recusa na atualidade, partimos de outro aforisma lacaniano: \u201cO que \u00e9 recusado no simb\u00f3lico (\u2026) reaparece no real\u201d (LACAN, 2003, p. 257). Se o gozo n\u00e3o pode aceder ao simb\u00f3lico, ele retorna no real do corpo, um real n\u00e3o localizado na estrutura. Em outras palavras, quando o Outro \u00e9 recusado como lugar para localizar o gozo, o gozo retorna no corpo como corpo do Outro. A puls\u00e3o se exp\u00f5e como uma exig\u00eancia ac\u00e9fala do corpo, \u201cuma demanda que n\u00e3o se pode recusar\u201d (MILLER, 2011, p. 196).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sociedade do n\u00e3o-todo produz um sujeito que se recusa a representar o gozo do corpo no simb\u00f3lico. Recusa-se a oferecer sua castra\u00e7\u00e3o como prova de amor ao Outro. Trata-se de um corpo que visa ao acesso direto ao gozo como Um, apartado do Outro. Com isso, o Outro resta como corpo, como o corpo do Outro, lugar de manifesta\u00e7\u00e3o de um gozo desregrado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No lugar do amor ao Outro, surge o \u00f3dio ao gozo do corpo. Esse \u00f3dio n\u00e3o se restringe \u00e0 perturba\u00e7\u00e3o que ele experimenta no pr\u00f3prio corpo, mas se coloca tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao gozo do Outro, que se mostra inconcili\u00e1vel com o seu modo de gozar. O insuport\u00e1vel do gozo do Outro \u00e9 a via que o conduzir\u00e1 \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do Outro mau.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos traduzir isso do seguinte modo: primeiramente, o sujeito se recusa ao amor ao Outro, \u201ceu n\u00e3o o amo\u201d, e isso pode leva-lo \u00e0 preval\u00eancia do gozo do Um, \u201ceu s\u00f3 amo a mim mesmo\u201d. Trata-se de uma modalidade megaloman\u00edaca de afeto, uma ideia de grandeza comum na atualidade. Contudo, a presen\u00e7a do gozo do Outro amea\u00e7a esse gozo solit\u00e1rio. Da\u00ed adv\u00e9m uma modifica\u00e7\u00e3o no afeto: \u201cEu n\u00e3o o amo. Eu o odeio\u201d. \u00c9 o \u00f3dio ao Outro que se coloca como condi\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia do Outro mau, o que permite uma interpreta\u00e7\u00e3o: \u201cEu o odeio porque ele me persegue\u201d. Est\u00e1 a\u00ed a l\u00f3gica de assun\u00e7\u00e3o do Outro mau.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A recusa ao amor conduz ao \u00f3dio e \u00e0 consequente localiza\u00e7\u00e3o do Outro mau. Uma passagem do sujeito que recusa o Outro, que n\u00e3o existe, at\u00e9 o sujeito que se encontra submetido a uma presen\u00e7a absoluta de um gozo do Outro sem limites. Para se separar desse Outro que se apossou do gozo do seu corpo, o sujeito pode reincidir em sua recusa de formas cada vez mais extremas. Pode ir, desde o desleixo com a pr\u00f3pria apar\u00eancia, at\u00e9 praticas de risco que testam os limites do corpo e dos la\u00e7os sociais. Pode, at\u00e9 mesmo, oferecer a vida como cacife.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sujeito recusa o campo do Outro por s\u00f3 conseguir faz\u00ea-lo existir sob a forma depreciada do Outro mau. Ele se recusa a oferecer sua castra\u00e7\u00e3o ao Outro, pois isso implica ceder o gozo ao Outro. Um ciclo destrutivo se constitui: quando ele se refugia do gozo do Outro mau, resta confinado no gozo ilimitado de um corpo que \u00e9 Outro. O corpo sozinho \u00e9 lugar de um sofrimento devastador. Mas n\u00e3o h\u00e1 como fugir, pois a amea\u00e7a que habita no corpo tamb\u00e9m est\u00e1 no campo do Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto mais o Outro mau se imp\u00f5e, mais o sujeito se experimenta como um dejeto. A recusa no real \u00e9 sempre uma demanda de que o Outro recuse o gozo que o sujeito lhe atribui, que o Outro recuse a consist\u00eancia do gozo mal\u00e9volo para ascender \u00e0 inconsist\u00eancia dos caminhos do saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio: condi\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez possamos questionar se o \u00f3dio n\u00e3o seria o anteparo mais l\u00facido para viabilizar ao sujeito uma nova alian\u00e7a com o saber. Mas qual seria a alian\u00e7a poss\u00edvel entre o saber e o \u00f3dio que o sujeito direciona ao gozo do Outro? Como diz Lacan (1985, p. 122), \u201cse precisamos hoje renovar a fun\u00e7\u00e3o do saber, \u00e9 talvez porque o \u00f3dio nele n\u00e3o foi, de modo algum, posto em seu lugar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, Lacan (1985, p. 122) constata que \u201cn\u00e3o se conhece nenhum amor sem \u00f3dio\u201d. Os la\u00e7os entre os homens est\u00e3o alicer\u00e7ados nas bases prec\u00e1rias do \u00f3dio entre eles. O \u00f3dio \u00e9 a via para o amor. Se algu\u00e9m n\u00e3o suporta odiar, est\u00e1 impossibilitado de amar o Outro. Essa conclus\u00e3o se op\u00f5e ao mandamento crist\u00e3o de amar ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso distinguir o \u00f3dio como obst\u00e1culo e como condi\u00e7\u00e3o para o acesso ao saber. O \u00f3dio cego ao gozo do Outro faz existir o Outro como um obst\u00e1culo. Ou seja, o sujeito faz do gozo que ele atribui ao Outro um impedimento para o acesso ao saber. Ele n\u00e3o o consegue quando se coloca em uma posi\u00e7\u00e3o de dejeto rejeitado pelo saber do Outro. Torna-se ref\u00e9m de um Outro mau do qual ele se coloca como o alvo a ser atingido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma outra perspectiva. A transfer\u00eancia negativa coloca em jogo o real que movimenta o discurso. O \u00f3dio se dirige ao real que o saber n\u00e3o alcan\u00e7a e evidencia a inexist\u00eancia do Outro. \u00c9 o que Lacan definiu como paix\u00e3o mais l\u00facida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso se evidencia em \u201cuma rela\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a vigilante\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/odio-obstaculo-ou-condicao-para-a-psicanalise\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0(MILLER, 1999, p. 72). O sujeito mant\u00e9m o Outro na mira para verificar como ele se vira com o furo no saber, com o imposs\u00edvel que isso comporta. Isso \u00e9 o que, a princ\u00edpio, garante o la\u00e7o do sujeito com o Outro: \u201cpara desconfiar de algu\u00e9m, \u00e9 preciso esperar algo dele\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/odio-obstaculo-ou-condicao-para-a-psicanalise\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0(<em>Ibid.<\/em>, p. 68). O sujeito pode dedicar-se ao que o Outro diz \u00e0 espera de um trope\u00e7o, de um equ\u00edvoco. Essa contenda pode ser decisiva, desde que a desconfian\u00e7a seja a via para a abertura a um novo saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse real que mobiliza a transfer\u00eancia \u00e9 a via para que o sujeito se separe do gozo que ele sup\u00f5e no Outro e, assim, reverta o saber em um instrumento \u00fatil. Por um lado, h\u00e1 o amor cego que se dirige ao saber do Outro e o \u00f3dio cego que se dirige ao gozo do Outro. Ambos conduzem \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o. Por outro lado, h\u00e1 o \u201c\u00f3dio l\u00facido\u201d, que oculta um amor \u00e0 inexist\u00eancia do Outro. Um novo amor, sem limites, que conduz \u00e0 separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<div class=\"post-2193 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-amor tag-odio tag-recusa\">\n<div class=\"post-text bigger\">\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/odio-obstaculo-ou-condicao-para-a-psicanalise\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o nossa do original:\u00a0<em>una relaci\u00f3n de desconfianza vigilante<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/odio-obstaculo-ou-condicao-para-a-psicanalise\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o nossa do original:\u00a0<em>para desconfiar de alguien hay que esperar algo de \u00e9l<\/em>.<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<div class=\"post-2193 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-amor tag-odio tag-recusa\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1911) \u201cNotas psicanal\u00edticas sobre um relato autobiogr\u00e1fico de um caso de paranoia (<em>dementia paranoides<\/em>)\u201d. In:\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago, v. 12, 1996. p. 15-89.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955) \u201cO semin\u00e1rio sobre \u2018A carta roubada\u2019\u201d. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998a. p. 13-66.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955) \u201cVariantes do tratamento-padr\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998b. p. 325-364.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971-72)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 19:\u00a0<\/strong>\u2026ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 20:<\/strong>\u00a0mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 2\u00aa ed.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>La transferencia negativa<\/strong>. Seminario sobre Pol\u00edtica de la Transferencia. Barcelona: Escola del Campo Freudiano de Barcelona, 1999.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<div class=\"post-text bio\">\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Bernardo Micherif Carneiro<\/strong><\/h6>\n<h6><span id=\"cloak1d1d6c4c0fd222a798260bb030912cdb\"><a href=\"mailto:bernardomcarneiro@yahoo.com.br\">bernardomcarneiro@yahoo.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BERNARDO MICHERIF CARNEIRO &nbsp; LAMA -RICHARDSON PONTONE &nbsp; Partimos de uma hip\u00f3tese: h\u00e1, em Lacan, duas perspectivas distintas na abordagem do \u00f3dio. Uma primeira, que enfatiza a sua vertente como obst\u00e1culo \u00e0 psican\u00e1lise, e uma segunda, na qual prevalece o \u00f3dio como condi\u00e7\u00e3o para a an\u00e1lise. 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