{"id":1196,"date":"2019-07-17T06:58:57","date_gmt":"2019-07-17T09:58:57","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1196"},"modified":"2025-12-01T16:07:15","modified_gmt":"2025-12-01T19:07:15","slug":"brumadinho-um-crime-em-acontecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/07\/17\/brumadinho-um-crime-em-acontecimento\/","title":{"rendered":"Brumadinho: Um Crime Em Acontecimento!"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong><span class=\"author\">RODRIGO CHAVES<\/span><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"post-2174\" class=\"post-2174 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-entrevista\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Foto-Capa-Entrevista.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"946\" data-large_image_height=\"885\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1197 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Foto-Capa-Entrevista.jpg\" alt=\"\" width=\"671\" height=\"628\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Foto-Capa-Entrevista.jpg 946w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Foto-Capa-Entrevista-300x281.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Foto-Capa-Entrevista-768x718.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 671px) 100vw, 671px\" \/><\/a><\/div>\n<h6 class=\"post-2174 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-entrevista\" style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0LAMA -RICHARDSON PONTONE<\/strong><\/h6>\n<div class=\"post-2174 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-entrevista\"><\/div>\n<div class=\"post-2174 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-entrevista\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: \u201cAcontecimento\u201d \u00e9 nosso tema de trabalho neste n\u00famero do Almanaque e o entendemos como uma experi\u00eancia que inaugura um antes e um depois. Voc\u00ea considera o rompimento da barragem de Brumadinho no estatuto de acontecimento? \u00c9 uma experi\u00eancia que inaugura um antes e um depois para a popula\u00e7\u00e3o e a cidade?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-foto-Rodrigo-292x600-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"292\" data-large_image_height=\"600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1198 alignleft\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-foto-Rodrigo-292x600-1.jpg\" alt=\"\" width=\"110\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-foto-Rodrigo-292x600-1.jpg 292w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-foto-Rodrigo-292x600-1-146x300.jpg 146w\" sizes=\"auto, (max-width: 110px) 100vw, 110px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Rodrigo Chaves:<\/strong>\u00a0Com certeza. N\u00e3o sei se o conceito a ser utilizado \u00e9 o de acontecimento ou se \u00e9 o de crime, de trag\u00e9dia humana absurda, mas com certeza tem um antes e um depois. \u00c9 crime, que com certeza muda, traz transforma\u00e7\u00f5es muito profundas na vida de uma comunidade, de um territ\u00f3rio. Ocorreram mudan\u00e7as afetivas e mudan\u00e7as culturais muito grandes em t\u00e3o pouco tempo. Percebemos mudan\u00e7as culturais, nas rela\u00e7\u00f5es de afeto entre as pessoas, mas n\u00e3o \u00e9 um crime que aconteceu. \u00c9 um crime em acontecimento.<\/p>\n<p>Se a palavra \u00e9 essa, ele est\u00e1 acontecendo, a trag\u00e9dia est\u00e1 em andamento. Temos como exemplo o caso de uma pessoa que, no primeiro momento, queria muito encontrar o corpo do familiar para poder sepult\u00e1-lo e, logo em seguida, era tomada por uma atitude de nega\u00e7\u00e3o, acreditando que o familiar estivesse vivo. De alguma forma, o luto nem p\u00f4de come\u00e7ar, porque nem se sabia se o familiar desaparecido estava vivo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: Como foi organizada a estrutura da Rede de Sa\u00fade Mental de Brumadinho ap\u00f3s o rompimento da barragem?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: N\u00f3s fomos capazes de dar uma resposta imediata. Fizemos na Sa\u00fade, como um todo, um esquema de plant\u00e3o tanto nos hospitais gerais da microrregi\u00e3o e regi\u00e3o metropolitana \u2013 para receber os feridos, prestar os primeiros socorros \u2013 quanto na sa\u00fade mental, junto a equipes locais (adulto e infantil) e profissionais da Coordena\u00e7\u00e3o Estadual, da FHEMIG, dos munic\u00edpios vizinhos, do CRP, da For\u00e7a Nacional do SUS e de outros parceiros. Mas isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque Brumadinho tem um SUS bem organizado.<\/p>\n<p>\u00c9 um local que tem 100% de cobertura do Programa de Sa\u00fade da Fam\u00edlia e uma equipe de sa\u00fade mental estruturada dentro da necessidade do munic\u00edpio. A cidade j\u00e1 contava com o CAPS e com o CAPS infantil. E, em raz\u00e3o dessa necessidade, ampliamos toda a rede de sa\u00fade mental, aumentando a capacidade do CAPS; credenciamos o CAPS infantil e criamos mais equipes que trabalham no territ\u00f3rio, chamadas de intermedi\u00e1rias. Isso foi aprovado e est\u00e1 sendo financiado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. S\u00e3o quinze profissionais, cinco em cada equipe, que acompanham os casos mais pr\u00f3ximos nas unidades b\u00e1sicas, para que o CAPS fique efetivamente com a crise e com a urg\u00eancia. Estruturamos plant\u00f5es de sa\u00fade mental nos postos da zona quente e na sede. Era preciso que a popula\u00e7\u00e3o tivesse a certeza de que, se fosse necess\u00e1rio, estar\u00edamos l\u00e1. Fundamentalmente, \u00e9 preciso dizer do trabalho territorial anteriormente desenvolvido pela sa\u00fade mental e aprofundado p\u00f3s-rompimento da barragem. O SUS que conhece e sendo reconhecido pela comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: E como foi a resposta da comunidade?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<div class=\"post-2174 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-entrevista\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: Diferente do que esper\u00e1vamos. No primeiro momento, n\u00e3o apareceu ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias ficaram fechadas dentr<a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Entrevista-3.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"959\" data-large_image_height=\"1280\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1204 alignright\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Entrevista-3-767x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"132\" height=\"176\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Entrevista-3-767x1024.jpg 767w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Entrevista-3-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Entrevista-3-768x1025.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Entrevista-3.jpg 959w\" sizes=\"auto, (max-width: 132px) 100vw, 132px\" \/><\/a>o de casa, sem ter certeza do que estava acontecendo, ansiosos esperando uma not\u00edcia. Aparentemente s\u00f3 saiam de casa duas\u00a0vezes por dia, uma de manh\u00e3 e outra \u00e0 tarde, a hora em que sa\u00eda a lista dos bombeiros, para saberem se tinham encontrado algu\u00e9m ou se algu\u00e9m tinha mudado de lista, de desaparecido para encontrado ou dado como morto. Em seguida, voltavam para suas casas. E isso persiste, ainda, em muitos casos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: Como voc\u00ea avalia isso? Uma perplexidade?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: Logo ap\u00f3s o rompimento da barragem, as pessoas ficaram circulando pela cidade tentando fazer contato com familiares, procurado saber se algu\u00e9m tinha not\u00edcias. Em seguida tivemos uma pane e, segundo alguns relatos, os telefones param de funcionar, e n\u00e3o se conseguia comunicar. As pessoas ficaram esperando not\u00edcias do seu familiar, mas, diante da falta de not\u00edcias, a expectativa era de que ele ainda estaria vivo e n\u00e3o dava not\u00edcias por causa da pane que paralisou os telefones. Em seguida, a popula\u00e7\u00e3o ficou na expectativa de que viria uma enchente, de que a lama viria ocupar toda a cidade, e ent\u00e3o eles foram para as partes altas da cidade. Mas isso n\u00e3o aconteceu. A lama parou nas proximidades da cidade, entre a barragem e a cidade. Acumulou ali uma lama gigantesca, uma montanha de lama que segurou a \u00e1gua. O rio que passa pela cidade foi interrompido por algum tempo pela lama e come\u00e7ou a baixar o n\u00edvel de \u00e1gua. Muitas pessoas desceram para a beira do rio e foram acontecendo coisas inusitadas, por exemplo um ajuntamento de pessoas olhando para o rio, paralisadas ali, dias e dias e dias ali, olhando para ver se algo vinha. Porque, nas primeiras semanas, os n\u00fameros eram imprecisos. Eles olhavam ao longe, no rio, na esperan\u00e7a de que o rio trouxesse algo, de encontrar pessoas, ou mesmo fragmentos dos corpos. Era muito ruim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: O rio passou a ter outra conota\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: Sim, ocorreu tamb\u00e9m o \u201cbal\u00e9 dos peixes\u201d. Os peixes saltavam da \u00e1gua e as pessoas come\u00e7aram a descer \u00e0 beira do rio para pegar os peixes com as m\u00e3os. Ou seja, ao mesmo tempo em que se esperava que chegasse algu\u00e9m, um corpo, uma not\u00edcia, o que se v\u00ea s\u00e3o pessoas pegando os peixes com as m\u00e3os. Me pergunto: o que faz o ser humano agir dessa forma? O rio e seus peixes eram um complemento alimentar utilizado normalmente por eles, pela pesca. Mas, naquela situa\u00e7\u00e3o, eles desciam para pegar os peixes devido \u00e0 facilidade, pois os peixes saltavam ap\u00f3s a \u00e1gua baixar de n\u00edvel. Isso \u00e9 muito estranho, pois, ao mesmo tempo em que pegavam os peixes, aguardavam algum familiar, amigo, algo que pudesse ser trazido pela enchente. E tamb\u00e9m corriam o risco de serem levados, caso a enchente aumentasse. E foram muitas pessoas que fizeram isso.<\/p>\n<p>\u00c9 um movimento d\u00fabio que aparece tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Vale. Muitas pessoas est\u00e3o recebendo dinheiro, muito dinheiro, o que nos leva a refletir que isso suspendeu o luto n\u00e3o de quem teve a perda do familiar, mas do resto da comunidade que n\u00e3o teve a perda direta mas estava em luto pelos amigos, pelos vizinhos, pelo crime, pelo chocante da trag\u00e9dia\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: Quais s\u00e3o as outras percep\u00e7\u00f5es sobre esse primeiro tempo, p\u00f3s rompimento da barragem?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: Tivemos tamb\u00e9m uma invas\u00e3o de imagens \u2013 dos tratores, da lama, dos bombeiros, mas n\u00e3o se viam pessoas sendo resgatadas. A cada minuto que passava, ficava mais dif\u00edcil disso acontecer. Me parece que, ap\u00f3s as primeiras setenta e duas horas, os bombeiros falaram que n\u00e3o tinham mais expectativa de encontrar pessoas com vida. Depois de alguns dias, eles anunciaram que iriam entrar com maquin\u00e1rio pesado, e isso estra\u00e7alhou as fam\u00edlias, estra\u00e7alhou as pessoas. A compreens\u00e3o de que os corpos j\u00e1 haviam sido dilacerados no momento da chegada da lama ainda n\u00e3o era corrente. Esperava-se ainda pelos corpos dos familiares, e n\u00e3o fragmentos. O uso de m\u00e1quinas jogava por terra mais essa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Essas pessoas foram muito invadidas. A cidade foi invadida, foi invadida por volunt\u00e1rios, por servi\u00e7os de sa\u00fade de todas as esp\u00e9cies, por gente fazendo pesquisa, por tudo o que voc\u00eas imaginarem. Chegavam \u00f4nibus de psic\u00f3logo, um \u00f4nibus de assistente social\u2026 Colocavam a plaquinha e saiam. Invadiram a cidade inteira. Independentemente de como a pessoa tinha sido atingida, eles batiam na porta da casa o dia inteiro. N\u00e3o tinha um espa\u00e7o para o sofrimento, n\u00e3o tinha um espa\u00e7o para que a fam\u00edlia pudesse sentir a dor da perda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: Qual \u00e9 a perspectiva de passagem do tempo para essa popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: A missa de s\u00e9timo dia, celebrada pelo arcebispo de Belo Horizonte, me parece que n\u00e3o estava muito cheia. Poderia ter sido uma marca\u00e7\u00e3o temporal para essa trag\u00e9dia, mas algumas pessoas disseram \u201ceu n\u00e3o vou \u00e0 missa para quem eu n\u00e3o sepultei\u201d, \u201ceu n\u00e3o reconhe\u00e7o a morte\u201d, \u201ceu n\u00e3o sepultei ningu\u00e9m\u201d. Na missa de trig\u00e9simo dia, tivemos as mesmas falas. Uma pessoa que tinha perdido os familiares deu um testemunho em uma r\u00e1dio, e quando o rep\u00f3rter perguntou para ele \u201ce agora? como \u00e9 come\u00e7ar do zero?\u201d, ele respondeu \u201ceu n\u00e3o sei onde \u00e9 o zero, eu n\u00e3o achei o zero ainda\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para alguns, o tempo n\u00e3o come\u00e7ou a contar ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: Isso afeta a elabora\u00e7\u00e3o do luto\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: Sim, h\u00e1 um tamponamento, uma suspens\u00e3o do luto. Inclusive isso aparece muito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Vale. Escutamos no CAPS falas como \u201ceu ouvi l\u00e1 no supermercado pessoas comentando que foi bom que aconteceu, porque a vida est\u00e1 mais f\u00e1cil agora\u201d. Porque eles est\u00e3o recebendo dinheiro, muitos est\u00e3o recebendo dinheiro, ent\u00e3o as pessoas est\u00e3o podendo fazer a compra do m\u00eas e muitas outras compras n\u00e3o habituais. E essa cidade, que \u00e9 bastante solid\u00e1ria, bastante afetuosa, come\u00e7a a perceber essa divis\u00e3o de opini\u00f5es entre as pessoas que acham que a Vale tem que voltar logo e as pessoas que est\u00e3o muito magoadas, com muito sofrimento.<\/p>\n<p>Nesse sentido, tem algumas coisas que est\u00e3o muito diferentes. Essa quest\u00e3o financeira \u00e9 muito delicada. As crian\u00e7as! Podemos fazer a mesma compara\u00e7\u00e3o com o sentimento das crian\u00e7as: para elas est\u00e3o sendo ofertados, l\u00e1 no Parque da Cachoeira, brinquedos a que elas nunca tiveram acesso ao mesmo tempo em que o irm\u00e3o est\u00e1 desaparecido na lama. Isso j\u00e1 nos primeiros dias. \u00c9 aquele sentimento ambivalente: estou feliz, mas estou triste, porque estou aqui brincando, uma coisa superlegal, mas meu irm\u00e3o n\u00e3o chega.<\/p>\n<p>E muitos s\u00e3o tomados pela culpa, como um paciente que chega procurando ajuda e fala que est\u00e1 insone, que est\u00e1 deprimido, chorando muito e, em seguida fala \u201cn\u00e3o entendo por que isso est\u00e1 acontecendo; eu n\u00e3o perdi ningu\u00e9m, eu n\u00e3o fui atingido, minha esposa est\u00e1 vindo trabalhar todos os dias, a lama n\u00e3o chegou na minha casa\u201d. E completa \u201ceu n\u00e3o estou sendo homem o suficiente, eu n\u00e3o podia estar desse jeito\u201d.<\/p>\n<p>Ora, todo mundo na cidade foi atingido, \u00e9 \u00f3bvio que cada um vai se impactar de uma maneira. Em uma reuni\u00e3o de equipe, um t\u00e9cnico da \u00e1rea da sa\u00fade pergunta \u201ce se todo mundo surtar? como vai ser?\u201d. E a resposta que dei foi \u201cn\u00e3o, isso n\u00e3o vai acontecer\u201d. \u00c9 claro que, nessas situa\u00e7\u00f5es, muitos de n\u00f3s vamos adoecer, inclusive da equipe; j\u00e1 estamos adoecidos. Mas n\u00e3o \u00e9 assim, nesse processo de adoecimento metal, n\u00e3o adoece todo mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 essa coisa do \u201ctodo mundo\u201d, da \u201ctrag\u00e9dia coletiva\u201d, mas, na hora que voc\u00ea recebe as pessoas, uma a uma, voc\u00ea percebe como \u00e9 pessoal; como a viv\u00eancia \u00e9 de cada um mesmo. Ela tem esse car\u00e1ter coletivo, de um crime, de uma trag\u00e9dia coletiva, social. Fazemos pol\u00edtica p\u00fablica para \u201ctodo mundo\u201d, mas, na hora do cuidado, se cuida muito individualmente. Temos casos em que o sofrimento retorna nos sonhos, e o sujeito n\u00e3o para de sonhar com a lama.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: Isso tem a dimens\u00e3o do trauma. \u00c9 uma tentativa de elaborar o que aconteceu?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: Sim. Hoje, tem uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que eu acho que \u00e9 das pessoas que est\u00e3o envolvidas \u2013 muito sofridas, mas envolvidas no processo de agrupamento. Eles est\u00e3o se agrupando, excluem pessoas entendidas como aquelas que est\u00e3o fazendo pol\u00edtica partid\u00e1ria, pol\u00edtica de uma determinada associa\u00e7\u00e3o. Eles querem ser solid\u00e1rios uns com os outros. S\u00e3o grupos de pessoas que perderam familiares e se re\u00fanem para discutir com advogados, com a promotoria, com a pr\u00f3pria Vale. H\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o de que tudo tem que partir da popula\u00e7\u00e3o, assim como todas as estrat\u00e9gias de cuidado, e n\u00f3s temos que partilhar isso com eles. Montamos nossa estrat\u00e9gia de trabalho a partir dessa premissa.<\/p>\n<p>Talvez seja do in\u00edcio de uma retomada, uma retomada de reorganiza\u00e7\u00e3o de vida, de volta \u00e0s a\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 uma retomada muito marcada. N\u00e3o tem perspectiva de fim. Infelizmente eu n\u00e3o vejo assim, de que n\u00f3s vamos, dentro de tr\u00eas anos, por exemplo, superar isso. \u00c9 dif\u00edcil fazer uma elabora\u00e7\u00e3o de uma coisa que n\u00e3o se fechou, n\u00e3o tem nada se fechando. As pessoas continuam por sepultar seus mortos, por entender o que aconteceu, e essa coisa de ter um sentimento muito ruim em rela\u00e7\u00e3o a algo externo, n\u00e3o sei se permite uma elabora\u00e7\u00e3o. Quanto isso vai dificultar? Porque a cidade \u00e9 muito dependente do min\u00e9rio e da Vale, que vai continuar existindo ali.<\/p>\n<p>Hoje a comunidade n\u00e3o tem preocupa\u00e7\u00e3o de que possa acontecer isso de novo, porque j\u00e1 aconteceu, j\u00e1 n\u00e3o tem mais barragem para romper. Os moradores de Macacos, de Bar\u00e3o de Cocais, est\u00e3o vivenciando isso. Isso \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o absolutamente perversa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A: Passados poucos meses, quais sintomas podem ser destacados e relacionados com esse crime em acontecimento?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: H\u00e1 indicadores de que os adoecimentos v\u00e3o aumentar, por exemplo a quest\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica, a quest\u00e3o do uso de \u00e1lcool, a quest\u00e3o das tentativas de autoexterm\u00ednio, quadros de ansiedade severa, a quest\u00e3o da depress\u00e3o na inf\u00e2ncia. Estamos percebendo isso agora, com tr\u00eas meses, quase tr\u00eas meses. Esse fluxo est\u00e1 come\u00e7ando a chegar mais efetivamente, antes estava muito disperso.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<div class=\"post-2174 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-entrevista\">\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Rodrigo Chaves<\/strong><\/h6>\n<h6>Entrevista com Rodrigo Chaves, Coordenador de Sa\u00fade Mental do Munic\u00edpio de Brumadinho- MG, por Alessandra Rocha, Giselle Moreira e Ludmilla F\u00e9res Faria<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RODRIGO CHAVES &nbsp; \u00a0LAMA -RICHARDSON PONTONE &nbsp; Almanaque: \u201cAcontecimento\u201d \u00e9 nosso tema de trabalho neste n\u00famero do Almanaque e o entendemos como uma experi\u00eancia que inaugura um antes e um depois. 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