{"id":1209,"date":"2019-07-17T06:58:57","date_gmt":"2019-07-17T09:58:57","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1209"},"modified":"2025-12-01T16:07:42","modified_gmt":"2025-12-01T19:07:42","slug":"diante-da-escalada-dos-perigos-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2019\/07\/17\/diante-da-escalada-dos-perigos-a-psicanalise\/","title":{"rendered":"Diante Da Escalada Dos Perigos, A Psican\u00e1lise?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong><span class=\"author\">JEAN-DANIEL MATET<\/span><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"post-2172 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-liberdade tag-odio tag-perigo tag-psicanalise\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/02-foto-Matet.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"959\" data-large_image_height=\"1280\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1210 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/02-foto-Matet-767x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"472\" height=\"630\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/02-foto-Matet-767x1024.jpg 767w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/02-foto-Matet-225x300.jpg 225w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/02-foto-Matet-768x1025.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/02-foto-Matet.jpg 959w\" sizes=\"auto, (max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"post-2172 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-liberdade tag-odio tag-perigo tag-psicanalise\">\n<p>A inven\u00e7\u00e3o freudiana sobreviveu a todos os desastres do s\u00e9culo XX, mas nada garante que ser\u00e1 assim nos tempos que vir\u00e3o. O que foi demonstrado \u00e9 que o desejo do analista resiste, por meio de sua transmiss\u00e3o original atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, enquanto houver sujeitos divididos por esse saber que lhes aflige, lhes faz suportar a exist\u00eancia humana ao pre\u00e7o de sintomas; enquanto houver mulheres e homens que acreditem no inconsciente. Se algumas condi\u00e7\u00f5es foram reunidas para que essa inven\u00e7\u00e3o (LACAN, 2003, p. 29-90) viesse \u00e0 luz, outras permanecem necess\u00e1rias para que ela se desenvolva. A liberdade de pensamento \u00e9 uma delas, assim como a liberdade de circular e de encontrar livremente seus concidad\u00e3os, a liberdade de exercer a profiss\u00e3o de psicanalista. Essas condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o reunidas hoje na Europa, mas estar\u00e3o amanh\u00e3? Em 1933, os livros de Freud foram queimados em pra\u00e7a p\u00fablica pelos nazistas, e mesmo que a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise \u201cn\u00e3o tenha sido proibida na Alemanha hitlerista, ela foi interditada aos analistas judeus\u201d (SOKOLOWSKY, 2013, p. 265). As declara\u00e7\u00f5es de Freud reunidas por Laura Sokolowsky fazem pensar que ele n\u00e3o dava cr\u00e9dito ao futuro da psican\u00e1lise, principalmente quando a seguran\u00e7a de Berlim caiu por terra e os nazistas e seus colaboradores tomaram o Instituto de Berlim. Outro acontecimento foi o desaparecimento de Ferenczi na Hungria, o que n\u00e3o permitiu o desenvolvimento esperado da psican\u00e1lise, da mesma forma como nos EUA (mas ali por raz\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o). Entretanto, em nenhum momento, Freud considerou a causa perdida, empenhando-se em encontrar a resposta \u00e0 altura da urg\u00eancia do momento, particularmente com seu Mois\u00e9s, ou, ainda, com \u201cAn\u00e1lise finita e infinita\u201d. Sua idade n\u00e3o foi motivo de absten\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, na medida de suas for\u00e7as, contribuiu para sustentar o que podia ser sustentado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A puls\u00e3o de morte<\/strong><\/p>\n<p>A Primeira Guerra Mundial foi, para Freud, o encontro com um real que perturbou sua percep\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas e teve uma grande repercuss\u00e3o sobre sua pr\u00f3pria teoria. O nacionalismo alem\u00e3o de sua juventude (FREUD, 1987, p. 199) e o orgulho pelo engajamento de seu filho Martin na guerra, seguido de Ernest, n\u00e3o se estenderam por muito tempo diante do massacre de uma jovem gera\u00e7\u00e3o de homens, mesmo que seus pr\u00f3prios filhos tenham sobrevivido. A ang\u00fastia, durante quatro anos, de n\u00e3o saber se os veria novamente, a morte de pessoas pr\u00f3ximas, transformou Freud radicalmente, que tirou da\u00ed as consequ\u00eancias na teoria e na pr\u00e1tica do p\u00f3s-guerra. Suas preocupa\u00e7\u00f5es sobre a morte orientaram textos maiores, tais como \u201cLuto e melancolia\u201d, \u201cAs puls\u00f5es e seus destinos\u201d, \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d. Em 1915: \u201cDe fato, \u00e9 imposs\u00edvel imaginar nossa pr\u00f3pria morte e, sempre que tentamos faz\u00ea-lo, podemos perceber que ainda estamos presentes como espectadores\u201d (FREUD, 1969, p. 327). Por isso Freud vai \u201ctentar dar um sentido \u00e0\u00a0<em>impens\u00e1vel<\/em>\u00a0destrui\u00e7\u00e3o generalizada da qual \u00e9 a testemunha\u201d (KAMIENIACK, 2008), construindo sua metapsicologia. \u00c9 sua concep\u00e7\u00e3o da sociedade e da cultura que se encontra perturbada pelas terr\u00edveis consequ\u00eancias da guerra. Como as na\u00e7\u00f5es de cultura podem cometer tais crimes de massa? Ele tentar\u00e1 responder retomando Gustave Le Bon e dar\u00e1, nos textos\u00a0<em>O futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, a ideia de que a cultura n\u00e3o d\u00e1 nenhuma esperan\u00e7a de coexist\u00eancia pac\u00edfica entre os humanos, sempre prontos a empregar a agressividade do narcisismo e das puls\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No cora\u00e7\u00e3o do ser<\/strong><\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller demonstrou como Lacan soube ler Freud acerca dessas quest\u00f5es sublinhando seu sil\u00eancio editorial durante a Segunda Guerra Mundial e destacando a import\u00e2ncia desse per\u00edodo para aquele que soube intervir face o antijuda\u00edsmo que se abateu sobre sua fam\u00edlia. \u00c0 sensibilidade frente ao antissemitismo, Freud, que desde muito jovem sentiu na viol\u00eancia contra seu pai, far\u00e1 assumir o fato de ser judeu, como dir\u00e1 ao pai do pequeno Hans. Ele d\u00e1 indica\u00e7\u00e3o do que a psican\u00e1lise deve enfrentar, ainda que tenha havido avan\u00e7os no processo de a \u201ctornar laica\u201d. N\u00e3o negligenciemos que ainda hoje as redes sociais d\u00e3o voz a coment\u00e1rios cuja virul\u00eancia antissemita ainda \u00e9 dirigida a Freud e a seus descendentes. Por essa raz\u00e3o, as consequ\u00eancias do projeto nazista de exterminar massivamente os judeus da Europa continuam sendo aquilo com o que a psican\u00e1lise e os psicanalistas nunca poder\u00e3o negociar. Que Lacan tenha feito uma refer\u00eancia aos campos de concentra\u00e7\u00e3o em sua \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967\u201d refor\u00e7a ainda mais essa exig\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao dar seu semin\u00e1rio na rua Ulm, na \u00c9cole Normale Sup\u00e9rieure, nos degraus do Panth\u00e9on durante a greve da Sorbonne, e legalmente criar o departamento de Vincennes n\u00e3o sem se endere\u00e7ar aos estudantes \u201cenraivecidos\u201d no local, Lacan nos mostrou que defender a extens\u00e3o da psican\u00e1lise exige sair do consult\u00f3rio e se juntar ao real dos transbordamentos sociais para perceber algo que diz daquilo que \u00e9 o gosto do momento, at\u00e9 mesmo o desgosto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele sustentou essas consequ\u00eancias para a psican\u00e1lise, e seu semin\u00e1rio\u00a0<em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>\u00a0formaliza as modalidades do discurso que afetam aquele que se analisa e as passagens poss\u00edveis ou imposs\u00edveis de um ao outro (mestre, histeria, universidade, psican\u00e1lise). Percebe-se uma constante necessidade de se reformular os conceitos com os quais trabalhamos, com o objetivo de mant\u00ea-los ativos no real que tentamos abordar e na experi\u00eancia do tratamento, para reduzi-lo a um matema transmiss\u00edvel e, assim, entender esse real que ruge e amea\u00e7a o mundo. V\u00ea-se assim que a atualidade tem esta frase da \u201cProposi\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cNosso futuro dos mercados comuns encontrar\u00e1 seu equil\u00edbrio numa amplia\u00e7\u00e3o cada vez mais dura dos processos de segrega\u00e7\u00e3o!\u201d (LACAN, 2003, p. 263).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma exig\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan localizou um pouco antes o que se tornou uma exig\u00eancia e que o levou a se separar da IPA, n\u00e3o por sua pr\u00f3pria vontade, mas assumindo posi\u00e7\u00f5es que deram uma chance \u00e0 psican\u00e1lise freudiana de se reinventar: \u201cEis onde nos demitimos daquilo que nos faz respons\u00e1veis, ou seja, da posi\u00e7\u00e3o em que fixei a psican\u00e1lise em sua rela\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia, a de extrair a verdade que lhes corresponde em termos cujo resto de voz nos \u00e9 alocado\u201d (LACAN, 2003, p. 257).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao terminar os\u00a0<em>Escritos<\/em>\u00a0por \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d, Lacan lan\u00e7ou um sinal decisivo. J.-A. Miller foi capaz de nos transmitir sua for\u00e7a e nos conduzir atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o da AMP, e, ainda mais, a n\u00e3o dar import\u00e2ncia aos golpes daqueles que s\u00e3o facilmente fascinados pela ci\u00eancia e desejavam esquecer as consequ\u00eancias de seus posicionamentos. Seja pela invas\u00e3o da pr\u00e1tica avaliadora, seja utilizando as miragens do imagin\u00e1rio e da gen\u00e9tica, o respeito que essas disciplinas imp\u00f5em apenas se mant\u00e9m quando deixam um lugar para a palavra. Esse ainda \u00e9 e sempre ser\u00e1 o papel do movimento dos F\u00f3runs, hoje europeus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O fim da democracia libera<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/diante-da-escalada-dos-perigos-a-psicanalise\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o importa sua dura\u00e7\u00e3o: dois s\u00e9culos para a democracia ateniense, cinco para o Imp\u00e9rio Romano, mil anos para a rep\u00fablica vienense, os sistemas pol\u00edticos mudam. A alegria econ\u00f4mica ou o regime das liberdades de seus povos nada mudaram. Desde a \u00faltima guerra mundial, vivemos na Europa e na Am\u00e9rica do Norte em um sistema que garante globalmente as liberdades individuais e promete um futuro de desenvolvimento econ\u00f4mico para seus habitantes com mais ou menos intervencionismo para corrigir o excesso do mercado. Depois de menos de um s\u00e9culo, essa \u201cdemocracia liberal [\u2026] poderia de fato estar chegando ao fim\u201d (MOUNK, 2018, p. 364). O fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e de seus vassalos, ao marcar o fim das \u201cdemocracias populares\u201d, abriu a era de uma liberdade da qual eram privados, sem democracia. O autoritarismo que prevalecia retornou mascarado por um populismo travestido pelo sufr\u00e1gio universal, uma for\u00e7a que tende a ser ouvida na Europa (Pol\u00f4nia, Hungria, \u00c1ustria, It\u00e1lia, etc\u2026). As vocifera\u00e7\u00f5es do presidente Trump, dos EUA, mal escondem sua ambi\u00e7\u00e3o nesse dom\u00ednio, e mesmo que as institui\u00e7\u00f5es americanas enquadrem seus excessos, isso ainda respinga em outros pa\u00edses do mundo (Filipinas, Venezuela e amea\u00e7as no Brasil). Essa disjun\u00e7\u00e3o entre democracia e liberdades individuais \u00e9 percept\u00edvel nos sistemas em que a pot\u00eancia do mercado exige, para a sua expans\u00e3o profunda, um ataque \u00e0s liberdades individuais \u2013 ou, pelo contr\u00e1rio, deseja restringir a satisfa\u00e7\u00e3o da reivindica\u00e7\u00e3o dos povos \u2013 e tamb\u00e9m nos sistemas em que as oligarquias se instalam para controlar a sociedade civil em benef\u00edcio dos seus interesses econ\u00f4micos ou ideol\u00f3gicos (Erdogan, na Turquia, por exemplo). Ocasionalmente, as manifesta\u00e7\u00f5es de massa permitiram limitar essa evolu\u00e7\u00e3o (contra a presid\u00eancia corrupta da Coreia do Sul ou contra o partido polon\u00eas Direito e Justi\u00e7a, em 2007). Os chefes de Estado que devem suas elei\u00e7\u00f5es \u00e0s promessas \u201cpopulistas\u201d t\u00eam, frequentemente, uma vis\u00e3o a curto prazo que lhes permite assegurar uma reelei\u00e7\u00e3o, por uma redistribui\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel em um primeiro tempo, e, em seguida, \u00e9 a hora dos sacrif\u00edcios com a priva\u00e7\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas para assegurar a perenidade de um regime desligado de todas as realidades (o exemplo da Venezuela \u00e9 surpreendente a esse respeito). In\u00fatil convocar o grau de cultura dos povos ou a anterioridade de seu sistema democr\u00e1tico: o equil\u00edbrio conseguido entre liberdade e democracia \u00e9 amea\u00e7ado quando as dificuldades complexas do mundo real conduzem as personalidades pol\u00edticas a fazer proposi\u00e7\u00f5es simples e a curto prazo para trat\u00e1-las. A qualifica\u00e7\u00e3o de demag\u00f3gico \u00e9 insuficiente para qualificar os comportamentos pol\u00edticos que conduzem ao desastre, como a hist\u00f3ria n\u00e3o t\u00e3o antiga demonstrou na Europa ocidental. Sob o pretexto de satisfazer as reivindica\u00e7\u00f5es do povo, os partidos da Fran\u00e7a tornaram-se movimentos ou agrupamentos, prontos a tomar as pesquisas de opini\u00e3o como a realidade dos desejos de um povo ou de uma na\u00e7\u00e3o. Nem a pena de morte teria sido abolida nem o aborto, legalizado, sem a for\u00e7a de convic\u00e7\u00e3o de um Robert Badinter ou de uma Simone Veil. Foi, contudo, necess\u00e1rio que um presidente eleito tivesse a coragem de dizer que ele era fiador dos interesses do povo franc\u00eas e obter o aval da representa\u00e7\u00e3o parlamentar. Veremos desaparecer essas equa\u00e7\u00f5es que nos permitem falar de democracia liberal (no sentido anglo-sax\u00e3o, e n\u00e3o somente do lado do liberalismo econ\u00f4mico) sob o golpe das palavras de ordem t\u00e3o absurdas quanto injustas sobre a imigra\u00e7\u00e3o ou o aumento da inseguran\u00e7a?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A mola de tudo isso \u00e9 o medo instilado nos habitantes de um pa\u00eds ao brandir amea\u00e7as que afetam sua exist\u00eancia, por mais pac\u00edfica e isolada que ela seja. Basta observar as regi\u00f5es nas quais os extremos (direita e esquerda) fazem suas melhores pontua\u00e7\u00f5es eleitorais na Fran\u00e7a para compreender esse am\u00e1lgama entre as reais dificuldades econ\u00f4micas e sociais e os discursos de medo ou de \u00f3dio que constituem as reivindica\u00e7\u00f5es que sustentam os regimes autorit\u00e1rios at\u00e9 mesmo as ditaduras (TONDELIER, 2017).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Combater<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ci\u00eancia, \u00e0 medida que amplia seu conhecimento e seu dom\u00ednio da realidade do nosso planeta (bem como dos seres vivos), exige sempre mais meios econ\u00f4micos e liberdade de a\u00e7\u00e3o. Por defini\u00e7\u00e3o, sob o modelo do experimentador que n\u00e3o se inclui em sua experi\u00eancia, como Lacan o demonstrou, os atores do mundo cient\u00edfico contempor\u00e2neo que atuam supostamente pelo interesse de todos, para o seu desenvolvimento, \u00e0s vezes s\u00e3o, a contragosto, os profetas de um mundo que caminha para a destrui\u00e7\u00e3o. As quest\u00f5es dos or\u00e7amentos de pesquisa demonstram que, frequentemente, as promessas de resultados ocupam a dianteira da cena, e isso sem dar informa\u00e7\u00f5es completas sobre o que \u00e9 visado. A maneira como s\u00e3o solicitadas as doa\u00e7\u00f5es nos grandes setores de pesquisa (da medicina \u00e0 ecologia) se assemelha, por vezes, \u00e0s promessas de\u00a0<em>startups<\/em>\u00a0em busca de investidores. O avesso dessas promessas revela ser os medos que elas veiculam quando os resultados dessas investiga\u00e7\u00f5es ou dessas pesquisas n\u00e3o se realizam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A meteorologia e a ecologia doutrin\u00e1ria tamb\u00e9m fazem crescer o n\u00edvel de apreens\u00e3o dos riscos (lembremo-nos dos milenaristas). Os medos das crian\u00e7as, como nossa cl\u00ednica o demonstra, nutrem a ang\u00fastia do adulto que se exprime na cl\u00ednica p\u00f3s-traum\u00e1tica. O terreno \u00e9, ent\u00e3o, prop\u00edcio para que a mola desses medos seja ativada e oriente os votos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s prote\u00e7\u00f5es prometidas ou \u00e0 designa\u00e7\u00e3o de um bode expiat\u00f3rio: o emigrante ser\u00e1 o escolhido, como se cada um devesse compartilhar diretamente seu prato com aquele que foge dos horrores da guerra e da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o os movimentos da popula\u00e7\u00e3o que amea\u00e7am a liberdade ou a democracia, mas o medo que dela se pode sentir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da psican\u00e1lise nos confronta com a exig\u00eancia de achar os recursos para viver com os outros, mesmo com aqueles que n\u00e3o escolhemos, como os pais ou ascendentes, e at\u00e9 mesmo para nos mantermos afastados sem desconhecer as raz\u00f5es devastadoras que ter\u00edamos para faz\u00ea-lo. Ela nos ensina a n\u00e3o ignorar os processos de segrega\u00e7\u00e3o (SIDON, 2102) que amea\u00e7am, sem parar, as coletividades humanas e a medir a parte que nos \u00e9 devida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As diferentes associa\u00e7\u00f5es, os CPCTs, reunidos na FIPA, continuam sendo observat\u00f3rios excepcionais dessas manifesta\u00e7\u00f5es do real no social, desses sintomas contempor\u00e2neos que n\u00e3o conduzem necessariamente a encontrar um psicanalista. Indicadores dos limites tamb\u00e9m daquilo que \u00e9 esperado dos efeitos da fala em nossa sociedade.\u00a0 Que as Jornadas da ECF das Escolas da AMP tenham um grande sucesso p\u00fablico testemunha o que \u00e9 esperado do ponto extremo da experi\u00eancia quando se trata do testemunho dos AE. Os atentados de 2015 mostraram a fragilidade de nossas constru\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m sua vitalidade, quando, no ano seguinte ao cancelamento, um p\u00fablico ainda maior esteve presente nas Jornadas da ECF.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mais \u00edntimo que se mistura a essa performance p\u00fablica no passe continua a ser uma ferramenta maior para interpretar n\u00e3o somente a Escola de psican\u00e1lise que o acolhe, mas tamb\u00e9m o mundo que o envolve. A esse pre\u00e7o, a psican\u00e1lise tem um futuro, mas n\u00e3o sem combater os germes do \u00f3dio, sempre prontos a se expressar. As declara\u00e7\u00f5es de amor n\u00e3o s\u00e3o suficientes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"post-2172 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-liberdade tag-odio tag-perigo tag-psicanalise\">\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Luciana Silviano Brand\u00e3o Lopes<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:\u00a0<\/strong>Ana Helena Souza e M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<div class=\"post-2172 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-almanaque-no-23 tag-liberdade tag-odio tag-perigo tag-psicanalise\">\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1900) \u201cO material infantil como fonte dos sonhos\u201d.\u00a0\u00a0<em>In<\/em>: Obras completas de Sigmund Freud.\u00a0<strong>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago, 1987. p. 199.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1914-1916) \u201cReflex\u00f5es para os tempos de guerra e a morte\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: Obras completas de Sigmund Freud.\u00a0<strong>A hist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. XIV. p. 327.<\/h6>\n<h6>KAMIENIACK, J-P. \u201cMort et travail de pens\u00e9e chez Sigmund Freud\u201d.\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Le Coq H\u00e9ron<\/strong>, 2008, n\u00ba 195.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cOs complexos familiares\u201d,\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003. p. 29-90.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967\u201d,\u00a0<em>In<\/em>:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003.<\/h6>\n<h6>MOUNK, Y. (2008)\u00a0<strong>Le peuple contra la d\u00e9mocratie<\/strong>, Paris: Ed. L`Observatoire, 2018. p. 364.<\/h6>\n<h6>SIDON P.\u00a0<strong>Le discours universel comme refus de la segregation<\/strong>. Les d\u00e9bats de l\u00b4observatoire, soir\u00e9e du 8 janvier 2012 [<a href=\"http:\/\/www.lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/Observatoire-Sidon.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/Observatoire-Sidon.pdf<\/a>].<\/h6>\n<h6>SOKOLOWSKY, L.\u00a0<strong>Freud et les Berlinois<\/strong>. Rennes: PUR, 2013. p. 265.<\/h6>\n<h6>TONDELIER, M.\u00a0<strong>Nouvelles du Front<\/strong>. Paris: \u00c9ditions Les liens qui lib\u00e8rent, 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/diante-da-escalada-dos-perigos-a-psicanalise\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0MOUNK, Y.\u00a0<em>Le peuple contre la d\u00e9mocratie<\/em>.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>JEAN-DANIEL MATET<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista membro da Escola da Causa Freudiana e da Escola Lacaniana de Psican\u00e1lise<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JEAN-DANIEL MATET &nbsp; A inven\u00e7\u00e3o freudiana sobreviveu a todos os desastres do s\u00e9culo XX, mas nada garante que ser\u00e1 assim nos tempos que vir\u00e3o. O que foi demonstrado \u00e9 que o desejo do analista resiste, por meio de sua transmiss\u00e3o original atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, enquanto houver sujeitos divididos por esse saber que lhes&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58015,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-1209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-23","category-19","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1209"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58016,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1209\/revisions\/58016"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58015"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}