{"id":1228,"date":"2020-03-17T06:59:33","date_gmt":"2020-03-17T09:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1228"},"modified":"2020-03-17T06:59:33","modified_gmt":"2020-03-17T09:59:33","slug":"1228-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/17\/1228-2\/","title":{"rendered":"A solid\u00e3o e o isolamento nas psicoses &#8211; Fernanda do Valle"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Resumo<br \/>\n<\/strong>A partir das no\u00e7\u00f5es de isolamento, estabelecidas por La Sagna (2017), e de desordem mais \u00edntima no sentimento de vida do sujeito, trazida por Lacan (1958), este trabalho discute o estado de solid\u00e3o como poss\u00edvel \u00edndice de desencadeamento nas psicoses. Tamb\u00e9m estabelece a diferencia\u00e7\u00e3o entre a solid\u00e3o como fen\u00f4meno e como ponto de estrutura do ser na linguagem, indicando-a como uma forma de segrega\u00e7\u00e3o do ser do sujeito e, nas psicoses, como \u00edndice de ruptura com o campo do Outro. Encontra como resultados a correla\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o nas psicoses \u00e0 melancolia, bem como ponto de estabiliza\u00e7\u00e3o em alguns casos de psicose.<br \/>\n<strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0psicoses, solid\u00e3o, melancolia, segrega\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Abstract<br \/>\n<\/strong>From the notion of isolation established by La Sagna (2017) and of a more intimate disorder in the subject&#8217;s feeling of life brought by Lacan (1958), this paper discusses the states of isolation and loneliness as possible indexes of triggering in psychoses. It also establishes the differentiation between loneliness as a phenomenon and as a point of structure of being in language, indicating it as a kind of segregation of the subject&#8217;s being and, in psychoses, as an index of rupture with the Other&#8217;s field. It finds as a result the correlation of loneliness in psychosis to melancholy, as well as stabilization point in some cases of psychosis.<br \/>\n<strong>Keywords:\u00a0<\/strong>psychoses, loneliness, melancholy, segregation.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fernandavalle.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"595\" data-large_image_height=\"1024\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1229 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fernandavalle.jpg\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fernandavalle.jpg 595w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fernandavalle-174x300.jpg 174w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>Foto do Museu Mineiro<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><strong>FERNANDA DO VALLE<\/strong><br \/>\n<strong>Aluna do IPSM-MG (2017\/19)<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Solid\u00e3o e isolamento s\u00e3o significantes que recolhemos da experi\u00eancia cl\u00ednica cotidiana. Pacientes relatam sentimentos de estarem sozinhos, vivendo vidas infelizes em fun\u00e7\u00e3o de serem deixados de fora dos la\u00e7os sociais ou submetidos a um ex\u00edlio do qual n\u00e3o conseguem escapar.<\/p>\n<p>Contudo, para a psican\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 propriamente das pessoas que o sujeito se isola e nem \u00e9 por isolar-se que se torna solit\u00e1rio. Para Philippe La Sagna (2017), por exemplo, isolamento e solid\u00e3o indicam formas com que o simb\u00f3lico se coloca para cada sujeito e como cada um se enla\u00e7a a ele. Ele prop\u00f5e o isolamento como correlato a um mais-de-gozar contempor\u00e2neo, indicativo do que denomina \u201csuave segrega\u00e7\u00e3o\u201d (p. 74), uma forma individualista e consentida de nos mantermos separados de todos. Ao fazer ver que o isolamento implica exclus\u00e3o do Outro, sua proposi\u00e7\u00e3o nos permite ler que, para al\u00e9m da estrutura cl\u00ednica, \u201cisolar-se \u00e9 evitar a solid\u00e3o\u201d. Em uma solu\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria frente ao muro da linguagem, que dificulta o estabelecimento dos la\u00e7os sociais, o sujeito busca o isolamento recorrendo a um objeto que o estimule \u2014 uma droga, uma fantasia ou um del\u00edrio \u2014, \u201csem que se tenha a m\u00ednima realiza\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o\u201d. A seu turno, a solid\u00e3o seria o testemunho de que somos seres de fala e de linguagem e uma tentativa de dar sentido ao ser de falta.<\/p>\n<p>Sendo assim, no sentido de um afastamento ou mesmo de uma ruptura com o la\u00e7o e o conv\u00edvio sociais, podemos recorrer \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia de uma ordem fenom\u00eanica para o isolamento e para a solid\u00e3o. Sobre esta, podemos tamb\u00e9m recorrer \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o de uma ordem estrutural. Tal ordem se torna \u00edndice de inser\u00e7\u00e3o e desinser\u00e7\u00e3o do sujeito no Outro da linguagem. Trata-se de uma quest\u00e3o v\u00e1lida tanto para a neurose quanto para a psicose, estrutura que se tornou um paradigma cl\u00ednico para Lacan, uma vez privilegiada a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o real e com o gozo no decorrer de seu ensino.<\/p>\n<p>Em tempos do Outro que n\u00e3o existe e partindo da premissa que o psic\u00f3tico est\u00e1 inserido na linguagem, por\u00e9m est\u00e1 fora do discurso, nos interrogamos: a partir de quais balizas conceituais podemos pensar a solid\u00e3o, face \u00e0 fr\u00e1gil rela\u00e7\u00e3o do sujeito psic\u00f3tico com o simb\u00f3lico? Se a solid\u00e3o em Schreber nos indica o tempo de seu desencadeamento, como pens\u00e1-la em casos em que ela se torna um aparente resqu\u00edcio desse processo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Solid\u00e3o estrutural<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um conceito estabelecido ou investigado por Lacan dentro de sua doutrina. Contudo, em\u00a0<i>O semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/i>, tempo da primeira cl\u00ednica, vemos Lacan abord\u00e1-la a partir dos her\u00f3is tr\u00e1gicos de S\u00f3focles, trazendo a hist\u00f3ria de Ant\u00edgona como um paradigma. Ant\u00edgona se lan\u00e7a a uma ruptura social radical em que a solid\u00e3o se apresenta como \u201cuma morte em vida\u201d. Para Lacan, os her\u00f3is sofoclianos sempre participam do seu isolamento, havendo uma esp\u00e9cie de fora dos limites que os mant\u00e9m \u201carrancados por algum lado da estrutura\u201d (1960\/1997, p. 328), bem como confrontados com uma fixidez que \u201cindica a posi\u00e7\u00e3o do sujeito numa zona em que a morte invade a vida\u201d (LACAN, 1960\/1988, p. 344). Nessa morte em vida, tal como indica Lacan, o ser est\u00e1 s\u00f3, est\u00e1 \u201cna-finda-linha\u201d de uma aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o da cadeia significante, numa suspens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do seu de sujeito \u00e0 linguagem.<\/p>\n<p>A nosso ver, se estabelece uma suspens\u00e3o do ser do sujeito que o coloca em um deslizamento meton\u00edmico em rela\u00e7\u00e3o ao Outro. O que se recolhe \u00e9 uma busca incessante pelo sentido do ser, numa rela\u00e7\u00e3o iminente do sujeito com a vertente simb\u00f3lica da linguagem. Trata-se de uma falha a ser recoberta pelo sentido.<\/p>\n<p>No\u00a0<i>Semin\u00e1rio 20<\/i>, tempo da segunda cl\u00ednica e de estabelecimento do estatuto do gozo e da verdade inconsciente, Lacan situa a solid\u00e3o como algo inerente \u00e0quilo que fala, \u00e0quilo que n\u00e3o pode se escrever. Ao afirmar que o eu n\u00e3o \u00e9 um ser, mas apenas suposto a quem fala [1], Lacan afirma que a solid\u00e3o se coloca do lado do ser em rela\u00e7\u00e3o ao saber inconsciente. Como \u00edndice da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o significante, ela \u00e9 aquilo que \u201cn\u00e3o pode se escrever\u201d, de um furo no real que o simb\u00f3lico n\u00e3o recobre de todo. A solid\u00e3o \u00e9 estabelecida como um tra\u00e7o de gozo daquilo que, referido ao saber inconsciente, n\u00e3o se escreve. Lacan indica, nessas formula\u00e7\u00f5es, que o sujeito est\u00e1 sempre isolado e exilado de si mesmo. Na rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o Outro, h\u00e1 sempre um objeto estabelecido como resto, como tra\u00e7o de gozo \u2014 ex\u00edlio do sujeito do significante e interrup\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do eu ao seu ser e, portanto, em rela\u00e7\u00e3o ao Outro. O UM, segundo Lacan, indica o gozo extra\u00eddo da linguagem, sendo, ao mesmo tempo, o representante da solid\u00e3o do ser do sujeito.<\/p>\n<p>Seguindo Lacan no\u00a0<i>Semin\u00e1rio 20<\/i>, Marcelo Veras afirma que \u00e9 na condi\u00e7\u00e3o de falasser que se \u201cexperimenta a linguagem em seu limite \u00faltimo, exilada de toda e qualquer significa\u00e7\u00e3o\u201d (VERAS, 2017, p. 91) e que tal experi\u00eancia se refere a um n\u00facleo de solid\u00e3o e incomunicabilidade sobre o qual se funda o ser a partir dos restos pulsionais que incidem sobre seu corpo.<\/p>\n<p>De acordo com Helo\u00edsa Prado Teles (2019), a experi\u00eancia da solid\u00e3o somente se constitui a partir da articula\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a ou aus\u00eancia do Outro simb\u00f3lico, indicando a exist\u00eancia de uma quest\u00e3o bascular do sujeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do desejo do Outro. Dessa forma, para a autora, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s psicoses, a solid\u00e3o se constitui como uma \u201cdor de existir\u201d, ao passo que nas neuroses ela seria o indicativo das paix\u00f5es do ser. Seguindo as indica\u00e7\u00f5es de Miquel Bassols (2009), Teles (2009 s\/p) afirma que \u201cna psicose a solid\u00e3o est\u00e1 mais referida ao sil\u00eancio das puls\u00f5es ou \u00e0 experi\u00eancia de uma solid\u00e3o extrema\u201d e nos remete \u00e0 experi\u00eancia de abandono por Deus, relatada por Schreber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Solid\u00e3o, forclus\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o nas psicoses<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do desencadeamento da psicose de Schreber, Lacan (1958) indica, em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, que o momento do an\u00fancio do assassinato de sua alma corresponde a uma ordem simb\u00f3lica cuja afirma\u00e7\u00e3o primordial \u00e9 percebida de forma original a partir da inscri\u00e7\u00e3o de um signo. A\u00a0<i>Verwerfung\u00a0<\/i>desse signo resulta na n\u00e3o inscri\u00e7\u00e3o do significante f\u00e1lico. Lacan nos esclarece que a marca da forclus\u00e3o \u00e9 um furo feito no lugar da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, o qual se estabelece em raz\u00e3o de uma car\u00eancia de um efeito metaf\u00f3rico. Nas psicoses, seu efeito \u00e9 uma esp\u00e9cie de ritornelo no que toca \u00e0s tentativas de significa\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o do sujeito para fora do campo do Outro.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do adoecimento de Schreber, diante da solid\u00e3o do imposs\u00edvel de significar o furo da forclus\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel verificar um ponto de recuo dos la\u00e7os sociais e de isolamento do sujeito nos fen\u00f4menos elementares que o desencadeamento produz. S\u00e9rgio Laia (2000), a partir dos pressupostos estabelecidos por Lacan no escrito de 1958, elucida que, nas psicoses, cujas irrup\u00e7\u00f5es se fazem atrav\u00e9s de uma ruptura do simb\u00f3lico, prov\u00e9m um desastre crescente do imagin\u00e1rio. Trata-se, nos dizeres de Laia, de uma desamarra\u00e7\u00e3o, ou desalinhavo, no ponto denominado por Lacan como ponto de capiton\u00ea. A retroa\u00e7\u00e3o do eixo metaf\u00f3rico se mostra incapaz de dar ou de manter a estabilidade de sentido ao conjunto de significantes. Logo, o enigma do sentido produzido pela forclus\u00e3o pontual de um significante ordenador \u00e9 obturado pela produ\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos que organizam a realidade do sujeito de forma particular.<\/p>\n<p>Exilado de um significante que fa\u00e7a ancoragem na jun\u00e7\u00e3o significante e reordene seu sentimento de vida, Schreber est\u00e1 s\u00f3. Restam-lhe os fen\u00f4menos elementares, a partir dos quais ele tentar\u00e1 ordenar o sentido que lhe escapa por meio da captura de um deslizamento meton\u00edmico particular, e a perturba\u00e7\u00e3o em seu ser, denominada por Lacan de \u201cdesordem na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima no sentimento de vida\u201d. Tal sentimento \u00e9 o que exprime o ser do sujeito. Como ponto de ex\u00edlio do ser do sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao Outro, a solid\u00e3o na psicose diz respeito \u00e0 disjun\u00e7\u00e3o que afeta o sentimento de vida do sujeito.<\/p>\n<p>Em 1998, em\u00a0<i>A conven\u00e7\u00e3o de Antibes<\/i>, Jacques Alain-Miller retorna a essa no\u00e7\u00e3o da \u201cjun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima ao sentimento de vida\u201d para dizer de quadros de psicose em que tal desordem, apesar de presente, n\u00e3o chega a produzir fen\u00f4menos elementares. Miller indica que a no\u00e7\u00e3o de sentimento de vida n\u00e3o somente est\u00e1 colocada para todos os sujeitos em todas as estruturas, como tamb\u00e9m todos s\u00e3o pass\u00edveis de experimentar alguma desordem nesse sentimento, de forma mais ou menos intensa, com ou sem a presen\u00e7a de fen\u00f4menos elementares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Solid\u00e3o e melancolia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cMinha solid\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ter uma linguagem com a qual eu posso dizer quem eu sou\u201d. \u201cEu sou um nada! Sou um lixo! Sou como S\u00edsifo, condenado a rolar a mesma pedra\u201d. \u201cAcho que nunca fui normal. Eu gosto de falar com as pessoas. Prefiro ficar sozinha\u201d.<\/p>\n<p>Essas passagens, escutadas cotidianamente em nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica, revelam que a quest\u00e3o da melancolia se apresenta para alguns pacientes, seja em sua vers\u00e3o de estado melanc\u00f3lico, seja como uma posi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica do ser, como indicativos, segundo Sophie Marret-Maleval, da presen\u00e7a de uma desordem na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima no sentimento de vida. Em sua investiga\u00e7\u00e3o em torno dessa no\u00e7\u00e3o, Marret-Maleval a considera um ponto de forclus\u00e3o que faz do humor \u201ca base cont\u00ednua da exist\u00eancia subjetiva\u201d (2017, s\/p). Portanto, a autora prop\u00f5e certa associa\u00e7\u00e3o entre tal desordem, a melancolia e a solid\u00e3o, e, para refor\u00e7ar sua tese, aponta que, ao aproximar a forclus\u00e3o das varia\u00e7\u00f5es de humor, Miller faz dessas varia\u00e7\u00f5es um ponto de refer\u00eancia fundamental da desordem na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida. Em consequ\u00eancia, ele as direciona \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de um fundo melanc\u00f3lico nas psicoses.<\/p>\n<p>Tal posicionamento de Marret-Maleval pode ser entendido tamb\u00e9m a partir do que Teles (2019) postula a respeito da solid\u00e3o nas psicoses como uma dor de existir. Nas psicoses, essa dor pertinente \u00e0 desordem do sentimento de vida adquire os tons da melancolia, muitas vezes impeditivos do engajamento do sujeito ao la\u00e7o social e de dif\u00edcil manejo cl\u00ednico. Em situa\u00e7\u00f5es assim, o sujeito n\u00e3o s\u00f3 se retira do conv\u00edvio social como tamb\u00e9m presentifica a exclus\u00e3o de seu ser do Outro em uma suave segrega\u00e7\u00e3o (La Sagna, 2017), manifestada sob a forma do sil\u00eancio, do isolamento ou de uma reinvindica\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica. Aqui, a solid\u00e3o aparece como um ponto da linguagem exilado de significa\u00e7\u00e3o, que empurra o sujeito a uma esp\u00e9cie de ritornelo no que toca \u00e0s tentativas de significa\u00e7\u00e3o, l\u00e1 onde o simb\u00f3lico n\u00e3o se inscreve e o real se apresenta como um furo. Verifica-se o empuxo do ser a uma morte em vida, a um estar \u201cna-finda-linha\u201d, tal como nos indica Lacan em rela\u00e7\u00e3o a algo que marca uma aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o ou, nos termos de Laia, um vazio correlato \u00e0 aus\u00eancia de liga\u00e7\u00e3o entre um significante e seu referente, pr\u00f3pria \u00e0 forclus\u00e3o e \u00e0 forclus\u00e3o generalizada. Se, para Schreber, a solid\u00e3o aparece como \u00edndice do desencadeamento, para alguns pacientes, ela se mostra como um poss\u00edvel ponto de ancoragem, apesar dos embara\u00e7os que lhes causam tal ex\u00edlio. Acreditamos que as psicoses (desencadeada ou ordin\u00e1ria) nos apresentam essa experi\u00eancia de forma radical.<\/p>\n<p>Sendo assim, a solid\u00e3o pode ser considerada a partir tanto da desordem que atinge a jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida do sujeito, no momento de um desencadeamento, quanto como seu aparente ponto de ancoragem, caso o analista consinta com a constru\u00e7\u00e3o de uma forma do ser que inclua, na experi\u00eancia anal\u00edtica do paciente, o estar a s\u00f3s com seu furo e com um bordejamento que lhe seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Refer\u00eancia tamb\u00e9m encontrada na aula de 20 de maio de 1959, do\u00a0<i>Semin\u00e1rio 6: o Desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0(1959), em que Lacan afirma que o ser s\u00f3 pode ser encontrado em intervalos, a partir do corte que a linguagem opera no real. A partir dessa refer\u00eancia, Marcos Andr\u00e9 Vieira (1998) recorta tr\u00eas ideias mais ampliadas a respeito da no\u00e7\u00e3o do ser em Lacan, quer sejam: o ser s\u00f3 existe na linguagem; o ser \u00e9 resultado da opera\u00e7\u00e3o da linguagem no real; o ser \u00e9 o simb\u00f3lico no real.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. \u201cSoledades I e II\u201d. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/miquelbassols.blogspot.com\/search?q=soledades+II\">http:\/\/miquelbassols.blogspot.com\/search?q=soledades+II<\/a>. Acesso em 20 set. 2019.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d (1958). In:____.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 537-590.<\/h6>\n<h6>LA SAGNA, P. \u201cDo isolamento \u00e0 solid\u00e3o, pela via da ironia\u201d. In:\u00a0<strong>Curinga<\/strong>. Belo Horizonte, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas, n. 44, jul.\/dez. 2017, p. 73-78.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 7<\/strong>: a \u00e9tica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1997.<\/h6>\n<h6>LAIA, S. \u201cPsicose\u00a0<i>unplugged:\u00a0<\/i>os desligamentos do Outro\u201d. In:\u00a0<strong>Curinga<\/strong>. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas, n. 14. abr. 2000. p. 100-109.<\/h6>\n<h6>MARRET-MALEVAL, S. \u201cA jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida\u201d. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>\u00a0online &#8211; nova s\u00e9rie. Ano 8, n\u00ba 23, jul. 2017. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_23\/A_juncao_intima_do_sentimento_de_vida.pdf. Acesso em 16 set. 2019.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. \u201cEfeito retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria\u201d. In: BATISTA, M.C.D; LAIA, S. (org.)\u00a0<strong>A psicose ordin\u00e1ria<\/strong>: a conven\u00e7\u00e3o de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012. p. 339-428.<\/h6>\n<h6>TELES, H. P. \u201cQuem fala s\u00f3 tem a ver com a solid\u00e3o\u201d. In:\u00a0<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/ix-jornadas\/perspectivas-do-tema-ix-jornadas\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/ix-jornadas\/perspectivas-do-tema-ix-jornadas\/<\/a>. Acesso em 16 set. 2019.<\/h6>\n<h6>VERAS, M. \u201cO avesso da segrega\u00e7\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Curinga<\/strong>. Belo Horizonte, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas, n\u00ba. 44, jul\/dez. 2017. p. 87-93<\/h6>\n<h6>VIEIRA, M. A. \u201cO ser das paix\u00f5es\u201d. In: LUTTERBACK-H\u00d6LCK, A.L.; SOARES, C.E.L.V. (orgs.).\u00a0<strong>As paix\u00f5es do ser<\/strong>: amor, \u00f3dio e ignor\u00e2ncia\/KALIMEROS. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1998. p. 80.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo A partir das no\u00e7\u00f5es de isolamento, estabelecidas por La Sagna (2017), e de desordem mais \u00edntima no sentimento de vida do sujeito, trazida por Lacan (1958), este trabalho discute o estado de solid\u00e3o como poss\u00edvel \u00edndice de desencadeamento nas psicoses. 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