{"id":1234,"date":"2020-03-17T06:59:33","date_gmt":"2020-03-17T09:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1234"},"modified":"2025-12-01T15:48:46","modified_gmt":"2025-12-01T18:48:46","slug":"1234-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/17\/1234-2\/","title":{"rendered":"A temporalidade do inconsciente na cl\u00ednica das toxicomanias &#8211; Cl\u00e1udia Generoso"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Resumo<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Elegendo o eixo de investiga\u00e7\u00e3o a temporalidade do inconsciente (ICS) e sua incid\u00eancia nas toxicomanias, o artigo prop\u00f5e interrogar alguns fen\u00f4menos que surgem na cl\u00ednica com toxic\u00f4manos, tais como a temporalidade do ICS no ato de se drogar e na fissura, bem como suas correla\u00e7\u00f5es com a passagem ao ato, o acting-out e a itera\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>Um<\/i>\u00a0sozinho.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0temporalidade do inconsciente (ICS), passagem ao ato, acting-out, fissura, toxicomania.<\/p>\n<p><strong>Abstract<br \/>\n<\/strong>ICS temporality in a drug addiction clinic<br \/>\nChoosing as a research axis the temporality of the ICS and its incidence in drug addictions, the article proposes the questioning of some phenomena that arise in the clinic with drug addicts, such as the temporality of the ICS in act of drugging and drug craving and its correlations with the passage to the act, the acting out, the iteration of the One alone.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0ICS temporality, passage to act, acting out, drug craving, drug addiction.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/genereso-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1917\" data-large_image_height=\"2560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1235 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/genereso-767x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"293\" height=\"391\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Foto de Nelson de Almeida<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>CL\u00c1UDIA MARIA GENEROSO<\/strong><br \/>\n<strong>Coordenadora do N\u00facleo de Toxicomania IPSM-MG (2018-2019),<\/strong><br \/>\n<strong>doutora em Psicologia\/Estudos Psicanal\u00edticos (UFMG),<\/strong><br \/>\n<strong>psic\u00f3loga no CAPS-AD Betim e professora da PUC-Minas.<\/strong><br \/>\n<strong><span id=\"cloak9a8629970df8db653831a226eecd7088\"><a href=\"mailto:claudia.generoso@yahoo.com.br\">claudia.generoso@yahoo.com.br<\/a><\/span><\/strong><\/h6>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong>No N\u00facleo de Toxicomania do 2\u00ba Semestre de 2019, orientamos nossas investiga\u00e7\u00f5es em torno do tema dos afetos e da temporalidade do inconsciente (ICS) na cl\u00ednica das toxicomanias. Interrogamos como \u00e9 a temporalidade do ICS na fissura e no ato de se drogar, assim como suas correla\u00e7\u00f5es com a passagem ao ato, o acting-out, a itera\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>Um<\/i>\u00a0sozinho e as solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis encontradas por cada sujeito para lidar com o mal-estar da vida.<\/p>\n<p>Sendo assim, como pensar a temporalidade do ICS na cl\u00ednica das toxicomanias? Antes, vamos destacar alguns pontos da rela\u00e7\u00e3o do ICS com o tempo. No artigo \u201cO inconsciente\u201d, Freud (1915) o conceitua a partir da rela\u00e7\u00e3o com o material ps\u00edquico recalcado, sustentando que nem tudo que \u00e9 ps\u00edquico \u00e9 consciente. O ICS tem suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas, entre elas o desconhecimento da nega\u00e7\u00e3o, dos contr\u00e1rios e do tempo. Por ser atemporal, o ICS desconhece a passagem do tempo referente \u00e0 cronologia, \u00e0 sucess\u00e3o dos acontecimentos. Dessa forma, os processos inconscientes n\u00e3o s\u00e3o modificados pelo tempo: \u201cA passagem do tempo n\u00e3o modifica o desejo e isso se revela nas manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente\u201d (SALUM, 2019).<\/p>\n<p>Em Lacan, podemos delimitar duas formas de pensar o ICS: pela via do sentido, do simb\u00f3lico; e pela via do real, do gozo. Nessas duas concep\u00e7\u00f5es, o tempo tamb\u00e9m se apresenta de forma diferente. Na via do simb\u00f3lico, o ICS \u00e9 estruturado como uma linguagem, uma articula\u00e7\u00e3o significante e suas leis da linguagem \u2014 met\u00e1fora e meton\u00edmia. O tempo ser\u00e1 concebido a partir do\u00a0<i>Nachtr\u00e4glich\u00a0<\/i>freudiano, o\u00a0<i>s\u00f3 depois\u00a0<\/i>(efeitos retroativos), uma revers\u00e3o temporal. Uma temporalidade puls\u00e1til que Lacan nomeia de \u201cpulsa\u00e7\u00e3o de borda\u201d, referente \u00e0 abertura e fechamento da hi\u00e2ncia do ICS, que tem a fun\u00e7\u00e3o estruturante de uma falta, instaurando o trope\u00e7o, \u201ca descontinuidade na qual alguma coisa se manifesta como vacila\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1964, p. 30-31). No ordenamento temporal da cadeia significante, no intervalo entre S1 e S2, h\u00e1 o surgimento do desejo, do sujeito do ICS atrav\u00e9s de suas forma\u00e7\u00f5es, tais como os atos falhos, os sonhos e os sintomas pass\u00edveis de decifra\u00e7\u00e3o de um sentido.<\/p>\n<p>A outra via relaciona o ICS ao real, e ser\u00e1 pensado n\u00e3o apenas como uma articula\u00e7\u00e3o significante, mas como um enxame de S1, situando-o fora do sentido e conectado \u00e0\u00a0<i>lal\u00edngua\u00a0<\/i>e ao\u00a0<i>falasser<\/i>. Ao status de sujeito como opera\u00e7\u00e3o significante que surge fugazmente, Lacan acrescentou o corpo como falante, o\u00a0<i>falasser<\/i>, instituindo o corpo como o lugar de um sujeito e tamb\u00e9m sua consist\u00eancia de gozo. Trata-se do ICS como escrita que cifra o gozo fora do sentido, tendo uma rela\u00e7\u00e3o com a temporalidade diferente.<\/p>\n<p>Entre as forma\u00e7\u00f5es do ICS, o sintoma difere das outras pelo seu car\u00e1ter de const\u00e2ncia. \u00c9 devido a essa caracter\u00edstica que Miller (2016) dir\u00e1 que \u201co sintoma \u00e9 o que de mais real a psican\u00e1lise nos d\u00e1\u201d, carregando a conjun\u00e7\u00e3o de duas faces: sentido e real. Ou seja, o que \u00e9 interpret\u00e1vel e um resto que resiste. Algo decifr\u00e1vel e restos sintom\u00e1ticos referentes ao n\u00facleo real do sintoma que precisam ser confrontados, e n\u00e3o interpretados, fazendo importante outras formas de interven\u00e7\u00e3o. Mahjoub nos indica que o tempo de fazer vacilar o gozo remete a uma pulsa\u00e7\u00e3o de borda concernente aos orif\u00edcios corporais, possibilitando outras sa\u00eddas, pois, \u201cse deixarmos o sujeito entregue ao seu gozo, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma chance de tocar um real sob as formas do objeto\u00a0<i>a<\/i>, essa redu\u00e7\u00e3o do gozo que n\u00e3o \u00e9 de forma alguma d\u00f3cil ao tempo\u201d (2014, p. 347). H\u00e1, assim, uma dimens\u00e3o do objeto\u00a0<i>a<\/i>, do gozo, para se pensar a temporalidade, ao contr\u00e1rio da temporalidade fugaz referente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es do sujeito do ICS decifr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, Miller (2000, p. 64) evidenciar\u00e1 uma outra modalidade do tempo do discurso, que Lacan nomear\u00e1 \u201cpresente espesso\u201d e que se refere \u00e0 libido. Se, por um lado, temos o sujeito dividido (<i>$<\/i>), pontual e fugaz, por outro, temos o objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0relacionado \u00e0 libido, \u00e0 in\u00e9rcia, \u00e0 consist\u00eancia que indica \u201co lastro de uma retirada de uma parte do corpo: objeto anal, vocal (&#8230;)\u201d, apontando para a vertente do gozar (MILLER, 2000, p. 66). Considerando essa via \u00e9 que Lacan acrescentou o corpo ao status do sujeito, instituindo o\u00a0<i>falasser<\/i>\u00a0\u2014 que n\u00e3o \u00e9 o sujeito, mas o corpo falante \u2014, que tem sua consist\u00eancia e dura\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias (MILLER, 2000, p. 67). Ele nos indica que h\u00e1 certa necessidade de o objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0ser depositado, absorvido, exemplificando que isso pode acontecer pela arte, como a pintura e a m\u00fasica, como possibilidade de absor\u00e7\u00e3o ou dep\u00f3sito do objeto\u00a0<i>a<\/i>, insinuando outra forma de manejo cl\u00ednico, que vai al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o. Desse modo, verificamos a necessidade de ir al\u00e9m da escuta, incluindo saber ler o sintoma que condiz mais com a cl\u00ednica dos modos gozos (MILLER, 2016).<\/p>\n<p>A partir desses elementos, interrogamos como pensar a temporalidade do ICS nas toxicomanias. Muito j\u00e1 foi debatido sobre a rela\u00e7\u00e3o dos toxic\u00f4manos com o ICS se referir a uma tentativa de obturar a falta, a hi\u00e2ncia estrutural do sujeito que remete \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Como vimos, \u00e9 nessa hi\u00e2ncia que o ICS se manifesta, instaurando um desencontro e a impossibilidade de satisfa\u00e7\u00e3o plena da puls\u00e3o. Mas, como indica Freud, apesar dessa impossibilidade, haver\u00e1 sempre uma exig\u00eancia para a descarga da puls\u00e3o que busca insistentemente uma satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hugo Freda (2010) destaca algumas refer\u00eancias de Lacan \u00e0 toxicomania ao longo de sua obra e faz uma aproxima\u00e7\u00e3o de Freud e Lacan na concep\u00e7\u00e3o de que a droga \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o um sintoma (Freud, com \u201cMal-Estar na Cultura\u201d, e Lacan sobre a droga, em 1975). Mas Freda, junto com Bernard Lecoeur, afirma que a toxicomania \u00e9 uma nova forma de sintoma mais congruente ao mundo contempor\u00e2neo, sendo um prot\u00f3tipo desse momento na civiliza\u00e7\u00e3o. O autor ressalta que, nas primeiras observa\u00e7\u00f5es de Lacan, at\u00e9 1960 (\u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo do sujeito no inconsciente freudiano\u201d), na perspectiva da preval\u00eancia do simb\u00f3lico, \u201ca intoxica\u00e7\u00e3o seria uma resposta n\u00e3o sintom\u00e1tica que tenta anular a divis\u00e3o, a marca de uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva caracterizada por um n\u00e3o querer saber nada do ICS. (&#8230;) um tipo de resposta do sujeito ante o reconhecimento da exist\u00eancia do ICS\u201d, visando apag\u00e1-lo (FREDA, 2010, p. 305).<\/p>\n<p>J\u00e1 nas observa\u00e7\u00f5es posteriores de seu ensino (\u201cPsican\u00e1lise e Medicina\u201d [1966], \u201cOs n\u00e3o tolos erram\u201d\/\u201dOs nomes do pai\u201d [1973\/74] e \u201cDiscurso de fechamento das jornadas de carteis da EFP\u201d [1975)], Lacan aponta para uma mudan\u00e7a de concep\u00e7\u00e3o a partir da cl\u00ednica borromeana, estando mais afinado com a ideia de ICS na perspectiva do real, do gozo implicado no sintoma. Nessa via, a toxicomania ser\u00e1 pensada no embara\u00e7o que surge da rela\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia com a castra\u00e7\u00e3o, sendo a droga uma resposta eficaz para romper essa rela\u00e7\u00e3o (\u201ca droga \u00e9 o que permite romper com o pequeno pipi\u201d), um rompimento com a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, com o gozo do corpo. Freda (2010) evidencia tamb\u00e9m que, no toxic\u00f4mano, mais do que romper com essa rela\u00e7\u00e3o, h\u00e1 nele uma identifica\u00e7\u00e3o com a nomea\u00e7\u00e3o de ser toxic\u00f4mano cerceando a possibilidade de o ICS fazer um sintoma.<\/p>\n<p>Diante da dificuldade que se coloca frente ao sintoma como uma forma\u00e7\u00e3o do ICS decifr\u00e1vel, como pensar as forma\u00e7\u00f5es do ICS nas toxicomanias? Forma\u00e7\u00f5es tais que podem causar uma surpresa, uma quest\u00e3o, e n\u00e3o apenas a pr\u00e1tica reiterada de se drogar? Como diz Freda (2010), essa nomea\u00e7\u00e3o r\u00edgida \u2014 sou um toxic\u00f4mano \u2014 d\u00e1 outra dimens\u00e3o ao uso da droga, como refer\u00eancia a uma pr\u00e1tica (toxicomania) e \u00e0 pessoa que consome como um personagem, e n\u00e3o como um sujeito. Afirma ainda que \u201ca toxicomania \u00e9 uma nova forma do sintoma na medida em que define o sujeito por uma pr\u00e1tica, mas n\u00e3o por seu sintoma\u201d (FREDA, 2010, p. 307). Nesse sentido, o toxic\u00f4mano \u00e9 um personagem da modernidade que, a partir de sua pr\u00e1tica, quer provar que o ICS n\u00e3o existe. N\u00e3o por acaso, podemos observar o aumento do uso de medica\u00e7\u00f5es psicotr\u00f3picas que tamb\u00e9m entram nesse movimento de aniquilar o mal-estar na cultura, a falta do ser falante \u2014 que \u00e9 estrutural.<\/p>\n<p>Podemos pensar a pr\u00e1tica, o ato incessante de se drogar dos toxic\u00f4manos e sua rela\u00e7\u00e3o com o ICS a partir do que J\u00e9sus Santiago (2017) diz, que, nos toxic\u00f4manos, h\u00e1 uma perturba\u00e7\u00e3o do ato diferenciando-o do ato falho, que revela uma manifesta\u00e7\u00e3o do ICS. Dessa forma, \u201cos trope\u00e7os e equ\u00edvocos que cometem n\u00e3o fazem enigma, mas s\u00e3o remetidos \u00e0 ordem de um n\u00e3o saber maci\u00e7o\u201d (p. 222). \u00c9 comum observamos, na cl\u00ednica, que esses pacientes n\u00e3o conseguem fazer uma associa\u00e7\u00e3o do ato de se drogar com algum acontecimento de sua vida, uma localiza\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia perturbadora em seu percurso, sendo dif\u00edcil a cria\u00e7\u00e3o de uma quest\u00e3o e a instaura\u00e7\u00e3o do SSS que possa levar a uma demanda de tratamento, ou, como diz Santiago, a um \u201cequ\u00edvoco do pensamento\u201d. O autor diz que a pr\u00e1tica met\u00f3dica n\u00e3o se confunde com a manifesta\u00e7\u00e3o da mensagem do sintoma endere\u00e7ada ao Sujeito Suposto Saber do ICS, pois o que se testemunha na cl\u00ednica \u00e9 a presen\u00e7a massiva de acting-outs e passagens ao ato. H\u00e1 mais o ato do que o pensamento.<\/p>\n<p>Miller (2014), em seu artigo \u201cJacques Lacan: observa\u00e7\u00f5es sobre o conceito de passagem ao ato\u201d, nos ajuda a entender as especificidades da passagem ao ato e do acting-out. Segundo o autor, Lacan faz a diferen\u00e7a entre dois atos: o bem-sucedido e o falho. E Miller indaga: \u201cO que \u00e9 o ato falho, sen\u00e3o o pensamento inconsciente que emerge no pensamento consciente, na fala, no corpo, e desloca o ato, faz com que diga outra coisa?\u201d. Na experi\u00eancia anal\u00edtica, Lacan toma o ato verdadeiro a partir do paradigma da passagem ao ato suicida, havendo um \u201csuic\u00eddio do sujeito\u201d. O autor diz que a passagem ao ato desvela a estrutura do ato anal\u00edtico, uma vez que o sujeito pode renascer de forma diferente a partir desse ato. Nessa perspectiva, \u201ctodo ato que marca, que conta, \u00e9 transgress\u00e3o. (&#8230;) uma ultrapassagem de um c\u00f3digo, de uma lei, de um conjunto simb\u00f3lico que ele infringe, e \u00e9 a infra\u00e7\u00e3o que permite que esse ato tenha a oportunidade de remanejar essa codifica\u00e7\u00e3o\u201d. Faz uma diferen\u00e7a entre ato e a\u00e7\u00e3o, agita\u00e7\u00e3o motora, pois \u201c\u00e9 preciso que haja tamb\u00e9m um dizer que enquadre e fixe esse ato. (&#8230;) para que haja ato, \u00e9 preciso que o sujeito nele seja modificado por esse franqueamento significante\u201d (MILLER, 2014, s\/p.).<\/p>\n<p>J\u00e1 o ato suicida alcan\u00e7a o gozo em curto-circuito e, ao mesmo tempo, exclui o mundo subjetivo, o franqueamento significante. Nesse ponto, o ato visa o cerne do ser, que \u00e9 o gozo. O suic\u00eddio atinge o mal encarnado pelo gozo, \u201cessa coisa que o habita, que o corr\u00f3i, e nesse momento o destr\u00f3i\u201d. E \u00e9 por isso que o ato visa ao gozo. O sintoma traz esse gozo que faz mal ao sujeito, mas tamb\u00e9m o sustenta. Um gozo tal que \u201c(&#8230;) quando se autonomiza, \u00e9 at\u00e9 a morte\u201d (ibid.).<\/p>\n<p>Nesse vi\u00e9s, o ato suicida referente a uma passagem ao ato leva ao movimento curto-circuitado do gozo e \u00e9 uma resposta ao embara\u00e7o em que se encontra o sujeito, que sai da cena. \u201cO sujeito se subtrai, digamos, aos equ\u00edvocos da fala como a toda dial\u00e9tica do reconhecimento; ele coloca o Outro em um impasse, e \u00e9 por a\u00ed que o prop\u00f3sito do ato propriamente dito n\u00e3o \u00e9 cifr\u00e1vel\u201d (ibid.). Nesse sentido, o ato \u00e9 o que separa do Outro e \u201co sujeito est\u00e1 eventualmente morto\u201d. E, diversamente, no acting-out, h\u00e1 um enquadramento em um apelo, uma demanda endere\u00e7ada ao Outro, uma cena \u201cque \u00e9 a fala, e o sujeito se p\u00f5e a agir diante do Outro nessa cena. \u00c9 preciso o Outro, \u00e9 preciso o espectador\u201d. Miller nos dir\u00e1 que \u201ca cl\u00ednica da passagem ao ato nos lembra a inscri\u00e7\u00e3o temporal inevit\u00e1vel do ato \u2014 especialmente sob a forma da urg\u00eancia\u201d (ibid.), assim como \u201c\u00e9 no tempo precipitado que esconde a incid\u00eancia do gozo\u201d (MILLER, 2000, p. 69).<\/p>\n<p>\u00c9 com esses elementos que nos perguntamos qual \u00e9 a temporalidade que concerne mais ao funcionamento dos toxic\u00f4manos com suas formas de agir e seus fen\u00f4menos, tais como a fissura e o ato de se drogar compulsivamente. Quando o ato de se drogar \u00e9 uma passagem ao ato ou uma atua\u00e7\u00e3o? Quando o ato de se drogar \u00e9 uma separa\u00e7\u00e3o do Outro, apagando o sujeito? Quando o ato de se drogar pode ser um suic\u00eddio n\u00e3o violento, conforme diz Lacan (1938) sobre a toxicomania? Observamos que esses sujeitos est\u00e3o sempre numa urg\u00eancia configurada pela satisfa\u00e7\u00e3o imediata, n\u00e3o se importando nem mesmo por preservar suas vidas, tal como na fissura. Ou, ent\u00e3o, encontram-se na monotonia tanto do seu ato quanto da fala sobre a droga. O gozo do sintoma mais congruente com a toxicomania, que remete a sua itera\u00e7\u00e3o, pode ser um operador cl\u00ednico para trabalharmos situa\u00e7\u00f5es que surgem, tal como a fissura, ao pens\u00e1-la como um imperativo de gozo do supereu em que o sujeito \u00e9 identificado ao seu ser de gozo (ALVARENGA, 2006). A ang\u00fastia tamb\u00e9m \u00e9 um operador cl\u00ednico nessas situa\u00e7\u00f5es na medida em que surge sem um gozo circunscrito.<\/p>\n<p>Algumas situa\u00e7\u00f5es em nossa pr\u00e1tica nos chamam a aten\u00e7\u00e3o quanto ao agir dos pacientes. Entre elas, \u00e9 comum, nas institui\u00e7\u00f5es que acolhem toxic\u00f4manos, aqueles que usam drogas dentro desses espa\u00e7os, levando-nos a perguntar sobre a natureza desse agir: seria uma atua\u00e7\u00e3o? Nesse caso, qual endere\u00e7amento est\u00e1 sendo feito \u00e0 equipe e o que n\u00e3o est\u00e1 sendo escutado? Seria todo uso de drogas dentro das institui\u00e7\u00f5es da ordem de uma atua\u00e7\u00e3o? Sendo assim, entender as situa\u00e7\u00f5es a partir do caso a caso \u00e9 imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p>Enfim, as experi\u00eancias vivenciadas pelos toxic\u00f4manos nos colocam diante do tempo a partir da urg\u00eancia do gozo, da satisfa\u00e7\u00e3o imediata, encontrando-se em um movimento de itera\u00e7\u00e3o incessante com um objeto artificial, que \u00e9 a droga. Como fazer vacilar o tempo de urg\u00eancia da satisfa\u00e7\u00e3o do gozo na toxicomania e abrir um intervalo no tempo curto-circuitado do gozo? Nessa rela\u00e7\u00e3o interceptada dos toxic\u00f4manos com o ICS na via do simb\u00f3lico e suas forma\u00e7\u00f5es, seria mais apropriado nos valer mais da concep\u00e7\u00e3o do ICS real para o manejo no tratamento com esses sujeitos?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><sup>[1]<\/sup>\u00a0Abertura do N\u00facleo de Toxicomania, 2\u00ba semestre de 2019.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ALVARENGA, E. Fissura e crise.\u00a0<strong>\u00c1lcool e outras drogas: escolhas, impasses e sa\u00eddas poss\u00edveis.\u00a0<\/strong>Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2006, p. 87-92<\/h6>\n<h6>FREDA, H. (MILLER, J-A). La secta y la globalisaci\u00f3n.\u00a0<strong>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010, p. 303-324.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. O inconsciente (1915), Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, 2\u00aa ed., Rio de Janeiro, 1987, Imago, vol. XIV, p. 183\u2011233.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. O inconsciente e a repeti\u00e7\u00e3o [1964].\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, Livro XI: os quatro conceitos fundamentais.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Zahar, 1979b. p.23-65.LACAN, Jacques. Complexos familiares [1938]. Outros escritos<\/h6>\n<h6>MAHJOUB, L. Sess\u00e3o curta. Um real para o s\u00e9culo XXI. Scilicet. Belo Horizonte: Scriptum, 2014, p. 347.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. A er\u00f3tica do tempo. Latusa. EBP. Rio de Janeiro, 2000, 79p.<\/h6>\n<h6>\u00a0MILLER, J-A (2011). Ler um sintoma.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br\">http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2016\/04\/16\/ler-um-sintoma\/?lang=pt-br<\/a>&gt;. Acesso em: 28\/07\/2019.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Jacques Lacan: observa\u00e7\u00f5es sobre o conceito de passagem ao ato: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online (13), mar\u00e7o de 2014. &lt;<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_13\/Passagem_ao_ato.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_13\/Passagem_ao_ato.pdf<\/a>.&gt; Acesso em: 28\/07\/2019.<\/h6>\n<h6>SALUM, M. J. G. O manejo do tempo da sess\u00e3o anal\u00edtica. 2019, Lapso 01. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/46-manejot\">http:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/index.php\/2-uncategorised\/46-manejot<\/a>.&gt; Acesso em: 29\/07\/2019.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. Vontade de ser infiel ao gozo f\u00e1lico e conclus\u00e3o.\u00a0<strong>A droga do toxic\u00f4mano \u2013 uma parceria c\u00ednica na era da ci\u00eancia<\/strong>. Belo Horizonte, Relic\u00e1rio, 2017, p. 189-229.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo Elegendo o eixo de investiga\u00e7\u00e3o a temporalidade do inconsciente (ICS) e sua incid\u00eancia nas toxicomanias, o artigo prop\u00f5e interrogar alguns fen\u00f4menos que surgem na cl\u00ednica com toxic\u00f4manos, tais como a temporalidade do ICS no ato de se drogar e na fissura, bem como suas correla\u00e7\u00f5es com a passagem ao ato, o acting-out e a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57982,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-1234","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-24","category-20","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1234"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1234\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57983,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1234\/revisions\/57983"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57982"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}