{"id":1240,"date":"2020-03-17T06:59:33","date_gmt":"2020-03-17T09:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1240"},"modified":"2025-12-01T15:49:41","modified_gmt":"2025-12-01T18:49:41","slug":"o-tempo-e-o-inconsciente-guilherme-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/17\/o-tempo-e-o-inconsciente-guilherme-ribeiro\/","title":{"rendered":"O tempo e o inconsciente \u2013 Guilherme Ribeiro"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Resumo<br \/>\n<\/strong>Este trabalho aborda o manejo do tempo no tratamento psicanal\u00edtico, as orienta\u00e7\u00f5es de Freud sobre a dura\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es e as elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre o tempo l\u00f3gico. Tamb\u00e9m pretende estudar como as modula\u00e7\u00f5es do tempo das sess\u00f5es anal\u00edticas permitem entender o inconsciente como efeito de discurso.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>tempo, l\u00f3gica, inconsciente, escans\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Abstract<br \/>\n<\/strong>Time and the unconcious<br \/>\nThis paper delas with time management in psychoanalytic treatment, Freud\u2019s orientations on session\u2019s time, and Lacan\u2019s elaborations on logical time. It also intends to study how the time modulations of the analytic sessions allow us to understand the unconscious as a discourse effect.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Time, logic, unconscious, scansion.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/guilhermeribeiro.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"720\" data-large_image_height=\"1080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1241 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/guilhermeribeiro-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"354\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/guilhermeribeiro-683x1024.jpg 683w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/guilhermeribeiro-200x300.jpg 200w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/guilhermeribeiro.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Foto do Museu Mineiro<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>GUILHERME CUNHA RIBEIRO<\/strong><br \/>\n<strong>Psiquiatra e psicanalista, membro da EBP e da AMP\u00a0<\/strong><\/h6>\n<p>Para come\u00e7ar a falar sobre o tempo e a psican\u00e1lise, \u00e9 importante dizer que n\u00e3o h\u00e1 como definir um\u00a0<i>standard<\/i>, um padr\u00e3o para o tempo no tratamento, seja para o tempo das sess\u00f5es, seja para a dura\u00e7\u00e3o do tratamento. As orienta\u00e7\u00f5es nesse sentido \u2014 aquelas ditadas por Freud ou as que partiram do ensino de Lacan \u2014 s\u00e3o recomenda\u00e7\u00f5es para que a dire\u00e7\u00e3o do tratamento se d\u00ea caso a caso. Quando Freud trouxe contribui\u00e7\u00f5es a respeito do tempo em psican\u00e1lise, o fez como recomenda\u00e7\u00f5es que n\u00e3o foram tratadas por ele como princ\u00edpios fundamentais da psican\u00e1lise. Lacan aportou suas contribui\u00e7\u00f5es ao incluir o tempo dentro de uma l\u00f3gica do tratamento. \u00c9ric Laurent (2007) nos mostrou de maneira muito clara que o \u00fanico\u00a0<i>standard<\/i>\u00a0da psican\u00e1lise \u00e9 o do caso a caso, o da singularidade. Portanto, o ensino e a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise nos mostram que o manejo do tempo \u00e9 essencial para seguir em dire\u00e7\u00e3o do que \u00e9 singular.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de\u00a0<i>standard<\/i>\u00a0no tratamento ganha um estatuto de princ\u00edpio do ato anal\u00edtico, e uma das justificativas para tanto, em especial no que concerne ao tempo das sess\u00f5es ou \u00e0 dura\u00e7\u00e3o do tratamento, \u00e9 que a psican\u00e1lise reconhece a incid\u00eancia do tempo nas manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente. A consequ\u00eancia dessa incid\u00eancia \u00e9 que o manejo do tempo \u00e9 indissoci\u00e1vel da pol\u00edtica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso considerar que a psican\u00e1lise mudou com o tempo. Miller (2002) faz um percurso da psican\u00e1lise no tempo e indica que Freud inventou a psican\u00e1lise nos tempos da sociedade disciplinar, que interditava a sexualidade. O que escapava ao interdito e \u00e0s regras da sociedade foram objeto do trabalho de Freud. Na releitura de Freud feita por Lacan, temos o uso do Nome-do-Pai, do recalque, da castra\u00e7\u00e3o e dos conceitos de met\u00e1fora e meton\u00edmia para formalizar o inconsciente. Lacan, mais al\u00e9m dessa releitura da obra de Freud, aponta que \u00e9 a pr\u00f3pria linguagem que opera a interdi\u00e7\u00e3o: pluraliza o Nome-do-Pai e revela um novo operador, o objeto\u00a0<i>a<\/i>, que obtura a falta. Mais ainda, Lacan aponta a inexist\u00eancia do Outro e indica que o gozo n\u00e3o faz mais oposi\u00e7\u00e3o ao desejo e passa a ser o operador que indica que, no n\u00edvel da puls\u00e3o, \u201co sujeito \u00e9 sempre feliz\u201d. Miller assinala que \u00e9 esse o campo do inconsciente em nosso tempo, recuperando a m\u00e1xima lacaniana \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, o inconsciente orienta o tempo no tratamento, seja em suas manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas, seja nos sonhos, lapsos ou chistes, assim como aponta para o real, como podemos apreender a partir dos avan\u00e7os que Lacan trouxe no seu \u00faltimo ensino.<\/p>\n<p>Em sua teoriza\u00e7\u00e3o sobre o inconsciente, Freud (1915) prop\u00f5e que \u201cos processos do sistema\u00a0<i>Ics<\/i>\u00a0s\u00e3o atemporais\u201d, ou seja, n\u00e3o se alteram nem fazem refer\u00eancia ao tempo. Essa refer\u00eancia ao tempo s\u00f3 ocorre no sistema consciente. Os mecanismos de manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente se d\u00e3o pela condensa\u00e7\u00e3o e pelo deslocamento, com liga\u00e7\u00e3o aos materiais ideativos no n\u00edvel consciente. Esse material se manifesta por meio de sintomas, sonhos, chistes e atos falhos, revelando o infantil. Portanto, para Freud, a passagem do tempo n\u00e3o interfere no material inconsciente, que pode estar dispon\u00edvel com a suspens\u00e3o do recalque.<\/p>\n<p>Ao falar sobre o in\u00edcio do tratamento, Freud (1913) prop\u00f5e como recomenda\u00e7\u00e3o um princ\u00edpio pessoal: que o tratamento tenha um in\u00edcio considerado provis\u00f3rio, &#8220;por um per\u00edodo de uma ou duas semanas&#8221;, para que se possa avaliar as condi\u00e7\u00f5es e a pertin\u00eancia de tratar ou n\u00e3o o paciente. Esse tempo seria aquele necess\u00e1rio para uma avalia\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica da possibilidade do tratamento. Lacan nomeou como preliminar o momento do tratamento que visa a estabelecer se h\u00e1 um sofrimento articulado a uma posi\u00e7\u00e3o de gozo, sendo a localiza\u00e7\u00e3o desse gozo o trabalho nesse tempo. Cabe ao analista saber transmitir ao candidato \u00e0 an\u00e1lise uma quest\u00e3o sobre esse gozo, o que d\u00e1 ao tratamento a dire\u00e7\u00e3o para o inconsciente. Essa localiza\u00e7\u00e3o de gozo indica que o tratamento deixou o tempo preliminar para abrir-se \u00e0 possibilidade do que \u00e9 atemporal, o material inconsciente, e passar a ser contado no tempo.<\/p>\n<p>Sobre a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise propriamente dita, Freud (1913) revelou como manejava o tempo no tratamento. Ele dedicava, a cada um de seus pacientes, uma hora de sess\u00e3o, abrindo espa\u00e7o para uma varia\u00e7\u00e3o do tempo quando alguns pacientes &#8220;gastam a maior parte dessa hora para se extroverter e tornar-se comunicativos&#8221;. Ele considerou que o tempo que o psicanalista disp\u00f5e para cada paciente \u00e9 de responsabilidade do paciente, que deve estar presente e pagar por sua presen\u00e7a ou aus\u00eancia, n\u00e3o importando a raz\u00e3o de sua falta. Freud n\u00e3o vacila mesmo com doen\u00e7as que possam ocorrer. Ele abre exce\u00e7\u00f5es quando a doen\u00e7a impede a presen\u00e7a, mas, nesse caso, o tratamento s\u00f3 \u00e9 retomado com a total disponibilidade do paciente. Freud atendia, diariamente, de seis a oito pacientes, seis vezes por semana, permitindo uma redu\u00e7\u00e3o para tr\u00eas atendimentos semanais em &#8220;casos leves ou continua\u00e7\u00f5es de tratamentos bastante avan\u00e7ados&#8221;.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 prov\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o do tratamento, Freud expressou que essa quest\u00e3o &#8220;praticamente n\u00e3o pode ser respondida&#8221;, mas o que ele assevera \u00e9 que, na psican\u00e1lise, &#8220;trata-se sempre de longos per\u00edodos, semestres ou anos inteiros&#8221;. Como vemos, desde o in\u00edcio, a dura\u00e7\u00e3o do tratamento sempre foi prolongada. Freud costumava limitar os tratamentos em meses ou poucos anos. Hoje em dia, a dura\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior, podendo ser contada em d\u00e9cadas. As experi\u00eancias relatadas pelos analistas que puderam testemunhar sobre o t\u00e9rmino de sua an\u00e1lise nos revelam que \u00e9 sempre assim. De qualquer forma, tanto a entrada quanto a sa\u00edda est\u00e3o a cargo do paciente; ele \u00e9 o senhor da decis\u00e3o de terminar uma an\u00e1lise, assim como foi dele a decis\u00e3o de entrar. Cabe ao analista se posicionar em rela\u00e7\u00e3o ao final, de acordo com cada um.<\/p>\n<p>Em certa ocasi\u00e3o, Freud encontrou uma raz\u00e3o para modificar suas orienta\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao tempo de tratamento. No caso do Homem dos Lobos, ao constatar que o paciente se mantinha em uma apatia, sem avan\u00e7ar, sem conseguir abordar seus sintomas, Freud fixou um momento para encerrar a an\u00e1lise. Ele informou ao paciente que a an\u00e1lise terminaria em uma determinada data, n\u00e3o importando o quanto houvesse progredido. Essa proposta executada por Freud foi a forma encontrada para que o sujeito pudesse achar uma sa\u00edda para o que parecia ser infinito, o gozo pulsional experimentado pelo paciente. Essa experi\u00eancia vai ser repetida e sistematizada por Lacan ao teorizar sobre o tempo l\u00f3gico nas sess\u00f5es de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>A elabora\u00e7\u00e3o de Lacan (1945) sobre o tempo l\u00f3gico orientou sua teoria sobre a dura\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es no tratamento anal\u00edtico. Destaco que, al\u00e9m dos tempos l\u00f3gicos \u2014 instante de olhar, tempo de elaborar e momento de concluir \u2014, Lacan expressa a presen\u00e7a de acontecimentos que fazem parte dessa l\u00f3gica. A l\u00f3gica que orienta o tempo das sess\u00f5es \u00e9 extra\u00edda a partir da an\u00e1lise de um sofisma que j\u00e1 \u00e9 bem conhecido: tr\u00eas prisioneiros s\u00e3o informados pelo diretor da pris\u00e3o que um deles poder\u00e1 ser liberado diante da apresenta\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o de uma quest\u00e3o. Os tr\u00eas presos em uma sala receber\u00e3o um disco cada um, branco ou preto, de um total de cinco discos, sendo tr\u00eas brancos e dois pretos. Cada um deles poder\u00e1 ver os discos dos outros e poder\u00e1 sair da pris\u00e3o quando concluir e explicar logicamente qual \u00e9 a cor do seu disco. No desenvolvimento do sofisma, todos os tr\u00eas detentos recebem discos brancos e, ap\u00f3s algumas escans\u00f5es temporais, todos saem ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para esse sofisma \u00e9 a seguinte: toma-se o prisioneiro A como o sujeito real e os prisioneiros B e C como sujeitos refletidos, pois todos eles est\u00e3o com discos brancos. Quando A v\u00ea o disco branco em B e em C, ele pensa que tem duas solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, dois brancos e um preto ou tr\u00eas brancos. No momento inicial, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o que traria uma resposta imediata \u00e9 &#8220;diante de dois pretos, sabe-se que se \u00e9 branco&#8221;. Fora disso, o problema \u00e9 insol\u00favel se n\u00e3o se considerar uma modula\u00e7\u00e3o do tempo, abrindo-se um tempo para compreender. Aqui tem que se levar em conta a in\u00e9rcia do outro, quando B e C n\u00e3o saem assim que veem os discos dos semelhantes, o que um deles faria se estivesse diante de dois pretos. A in\u00e9rcia do outro, ou seja, uma modula\u00e7\u00e3o do tempo, \u00e9 um acontecimento que se traduz na forma de escans\u00f5es temporais atreladas \u00e0 procrastina\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s as escans\u00f5es temporais, o sujeito A se apressa em sair para se afirmar branco. Junto com ele saem os sujeitos refletidos B e C.<\/p>\n<p>O primeiro acontecimento \u00e9 a escans\u00e3o do tempo quando, no instante do olhar, se conclui que o problema \u00e9 inicialmente insol\u00favel, pois a proposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a conclus\u00e3o imediata est\u00e1 ausente. Essa escans\u00e3o fornece um fato contingente: o de ser preciso compreender como cada um dos sujeitos refletidos ir\u00e3o agir; o tempo para compreender. O segundo acontecimento \u00e9 a d\u00favida apresentada pelos tr\u00eas sujeitos quando caminham em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda para dizer qual \u00e9 a sua cor, no momento de concluir, n\u00e3o sem antes verificar que os outros dois tamb\u00e9m pararam.<\/p>\n<p>Os acontecimentos do sofisma indicam o manejo do tempo na sess\u00e3o anal\u00edtica. Temos a escans\u00e3o no tempo e o corte. Na escans\u00e3o do tempo, a elabora\u00e7\u00e3o significante remete o sujeito a um sentido, S2, que interpreta o discurso do inconsciente, S1. J\u00e1 o corte da sess\u00e3o pelo analista produz uma interrup\u00e7\u00e3o na elabora\u00e7\u00e3o significante, tomada como procrastina\u00e7\u00e3o do saber, com o corte indicando para a posi\u00e7\u00e3o de objeto. A fun\u00e7\u00e3o do corte visa a apressar essa elabora\u00e7\u00e3o de saber.<\/p>\n<p>O sofisma apresentado nos mostra que, para a compreens\u00e3o do tempo pela psican\u00e1lise, \u00e9 preciso levar em conta que se trata de uma quest\u00e3o de l\u00f3gica. Mas, al\u00e9m disso, ele contribui para Lacan progredir na defini\u00e7\u00e3o de inconsciente em seu \u00faltimo ensino. Em &#8220;Televis\u00e3o&#8221; (LACAN, 1973), Miller indaga Lacan sobre o inconsciente ao dizer: &#8220;Inconsciente \u2014 que palavra esquisita!&#8221;. A resposta de Lacan \u00e9 que Freud n\u00e3o encontrou outra melhor. Mas, se no inconsciente freudiano trata-se de suspender o recalque para retirar o sujeito da atemporalidade, o inconsciente lacaniano se revela na escans\u00e3o do tempo. No entanto, Lacan (1976) continua a avan\u00e7ar e diz que &#8220;quando o\u00a0<i>esp\u00a0<\/i>de um\u00a0<i>laps<\/i>\u00a0\u2014 ou seja, visto que s\u00f3 escrevo em franc\u00eas, o espa\u00e7o de um lapso \u2014 j\u00e1 n\u00e3o tem nenhum impacto de sentido (ou interpreta\u00e7\u00e3o), s\u00f3 ent\u00e3o temos a certeza de estar no inconsciente&#8221;.<\/p>\n<p>Lacan ultrapassa o inconsciente freudiano, sustentado pelo recalque institu\u00eddo pelo Nome-do-Pai, para falar de um inconsciente como sua raz\u00e3o no &#8220;espa\u00e7o de um lapso&#8221;. Aqui, o inconsciente n\u00e3o mais se sustenta na atemporalidade, numa eterniza\u00e7\u00e3o que s\u00f3 \u00e9 suspensa quando o recalque \u00e9 desvelado pela interpreta\u00e7\u00e3o. O inconsciente surge no lapso de tempo, no intervalo do discurso, entre os significantes, fora do sentido e fora da interpreta\u00e7\u00e3o. O inconsciente s\u00f3 se verifica por estar em um discurso, e a modula\u00e7\u00e3o do tempo decorre do efeito da estrutura significante.<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, volto \u00e0 estrutura do tempo l\u00f3gico, que est\u00e1 enla\u00e7ada com o conceito de inconsciente. Al\u00e9m dos tempos l\u00f3gicos, nomeados como instante de olhar, tempo para compreender e momento de concluir, o sofisma apresenta a modula\u00e7\u00e3o do tempo em dois momentos: na espera pela elabora\u00e7\u00e3o significante e na urg\u00eancia em concluir. Essas modula\u00e7\u00f5es s\u00e3o efeitos de linguagem, s\u00e3o efeitos da estrutura significante. J\u00e9sus Santiago (2004) aponta que \u00e9 a estrutura significante que determina a posi\u00e7\u00e3o subjetiva da espera, essencial na er\u00f3tica da sess\u00e3o anal\u00edtica. Al\u00e9m disso, do lado do analista, a estrutura significante exige a modula\u00e7\u00e3o temporal da urg\u00eancia. Essa exig\u00eancia se imp\u00f5e para que o analisante n\u00e3o se mantenha eternamente em uma elabora\u00e7\u00e3o, para que ele n\u00e3o se mantenha na procrastina\u00e7\u00e3o, na evita\u00e7\u00e3o, na demora em saber sobre sua posi\u00e7\u00e3o de gozo. A urg\u00eancia em concluir trabalha contra essa procrastina\u00e7\u00e3o e aponta para o objeto\u00a0<i>a<\/i>, abrindo a possibilidade de um saber sobre sua posi\u00e7\u00e3o de objeto. Santiago refor\u00e7a que &#8220;para um analista lacaniano importa mais a suspens\u00e3o do que a dura\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o&#8221;. Portanto, se, no momento em que Miller o indaga sobre o nome &#8220;inconsciente&#8221;, Lacan vacila em encontrar um novo nome, posteriormente, o lapso \u00e9 um significante que ele encontra para dizer de um inconsciente que n\u00e3o leva em conta a significa\u00e7\u00e3o, um inconsciente articulado com o real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915). \u201cO inconsciente\u201d. In: Obras completas de Sigmund Freud.\u00a0<strong>A hist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico, escritos sobre a metapsicologia e outros trabalhos<\/strong>\u00a0\u2013 1914\u20131916. Rio de Janeiro: Imago, vol. 14, 1969.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1913). \u201cSobre o in\u00edcio do tratamento\u201d. In:\u00a0<strong>Fundamentos da cl\u00ednica Psicanal\u00edtica<\/strong>. Belo Horizonte: Editora Aut\u00eantica, 2017.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1945). \u201cO tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o da certeza antecipada\u201d. In:<\/h6>\n<h6><strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973). \u201cTelevis\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1976). &#8220;Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11&#8221;. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. \u201cPrinc\u00edpios diretores do ato anal\u00edtico\u201d. In:\u00a0<strong>A sociedade do sintoma<\/strong>. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, JA.\u00a0<strong>Intui\u00e7\u00f5es Milanesas 1<\/strong>. 2011. Dispon\u00edvel em:<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero6\/texto1.html\">&lt;<\/a><a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero6\/texto1.html\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero6\/texto1.html<\/a><a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero6\/texto1.html\">&gt;<\/a>. Acesso em 30\/11\/2019.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. \u201c<strong>A sess\u00e3o l\u00f3gica: extrair o tempo de sua dura\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong>. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n1\/textob.asp\">&lt;<\/a><a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n1\/textob.asp\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n1\/textob.asp<\/a><a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n1\/textob.asp\">&gt;<\/a>. Acesso em 31\/11\/2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo Este trabalho aborda o manejo do tempo no tratamento psicanal\u00edtico, as orienta\u00e7\u00f5es de Freud sobre a dura\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es e as elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre o tempo l\u00f3gico. Tamb\u00e9m pretende estudar como as modula\u00e7\u00f5es do tempo das sess\u00f5es anal\u00edticas permitem entender o inconsciente como efeito de discurso. Palavras-chave:\u00a0tempo, l\u00f3gica, inconsciente, escans\u00e3o. Abstract Time and&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57984,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-1240","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-24","category-20","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1240"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57985,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1240\/revisions\/57985"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57984"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}