{"id":1245,"date":"2020-03-17T06:59:33","date_gmt":"2020-03-17T09:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1245"},"modified":"2025-12-01T15:55:31","modified_gmt":"2025-12-01T18:55:31","slug":"o-tempo-faz-sintoma-no-inconsciente-a-ceu-aberto-fernando-casula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/17\/o-tempo-faz-sintoma-no-inconsciente-a-ceu-aberto-fernando-casula\/","title":{"rendered":"O tempo faz sintoma no inconsciente \u00e0 c\u00e9u aberto &#8211; Fernando Casula"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Resumo<br \/>\nA partir das premissas freudianas, o texto recupera e descreve o conceito lacaniano de \u201cinconsciente a c\u00e9u aberto\u201d como modo de funcionamento do inconsciente psic\u00f3tico. Disserta sobre a no\u00e7\u00e3o de tempo em psican\u00e1lise e busca delimitar a incid\u00eancia do tempo nesse inconsciente que est\u00e1 descoberto da met\u00e1fora paterna.<br \/>\nPalavras-chaves: Inconsciente a c\u00e9u aberto, psicose, met\u00e1fora paterna, tempo.<\/p>\n<p>Abstract<br \/>\nFrom Freud&#8217;s premises, the text recovers and describes the Lacanian concept of \u201cunconscious in the open sky\u201d as a way of functioning of the psychotic unconscious. It discusses the notion of time in psychoanalysis and seeks to delimit the incidence of time in this unconscious that is uncovered from the paternal metaphor.<\/p>\n<p>Keywords: Unconscious in the open sky, psychosis, paternal metaphor, time.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/casula-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2560\" data-large_image_height=\"1707\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1246 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/casula-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"280\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Foto de Ant\u00f4nio Augusto Gomes Batista<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>FERNANDO CASULA<\/strong><br \/>\n<strong>Psiquiatra, mestre em Psicologia (FAFCH-UFMG),<\/strong><br \/>\n<strong>psicanalista membro da EBP e da AMP |\u00a0<span id=\"cloaka5953615d913674a7c7cea603af62de8\"><a href=\"mailto:fernando.casula@hotmail.com\">fernando.casula@hotmail.com<\/a><\/span><\/strong><\/h6>\n<p>O momento hist\u00f3rico que vivemos \u00e9 marcado pela m\u00e1xima capitalista que equivale o tempo ao dinheiro. A voz do coelhinho de\u00a0<i>Alice\u00a0<\/i>n\u00e3o cessa de nos atormentar: \u201c\u00e9 tarde, \u00e9 tarde\u201d&#8230; Estamos sempre em atraso. Ao mesmo tempo, somos confrontados com os efeitos do tempo em nosso corpo biol\u00f3gico e convocados a responder ao apelo social da supervaloriza\u00e7\u00e3o de uma eterna juventude. A quantidade e a velocidade fren\u00e9tica com que circulam as informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixam de impactar as subjetividades de nossa \u00e9poca. Se esses fatores s\u00e3o vistos por alguns como motivos suficientes para provocar a ang\u00fastia existencial, para a psican\u00e1lise, a ang\u00fastia provocada pelo tempo \u00e9 de outra ordem.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent (2017), no editorial da\u00a0<i>Revue de la Cause freudienne<\/i>, n\u00famero 26, dedicada \u00e0 tem\u00e1tica do tempo, diz que a psican\u00e1lise captura seu objeto na incid\u00eancia (do tempo) sobre a diferen\u00e7a dos sexos, no ponto onde esse faz sintoma. Ou seja, antes de considerar o tempo em sua rela\u00e7\u00e3o direta com a ang\u00fastia, a psican\u00e1lise considera o ponto onde se inscreve como linguagem e o modo como se d\u00e1 essa inscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, podemos dizer que o impacto cl\u00ednico do tempo para a psican\u00e1lise se solidifica no ponto onde esse faz sintoma. Se revela, por vezes, na forma mais peculiar da inscri\u00e7\u00e3o significante e seus paradigmas recorrentes de acordo com as estruturas cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>Se a medida do tempo \u00e9 verificada de forma objetiva \u2014 da mesma maneira que se d\u00e1 a medida do espa\u00e7o, por uma norma que dita o n\u00famero de instantes dentro de uma dura\u00e7\u00e3o finita \u2014, tal conven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reconhecida pelo inconsciente: \u201cO inconsciente n\u00e3o conhece o tempo\u201d. Essa assertiva de Freud est\u00e1 escrita no texto \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d e \u00e9 retomada e desenvolvida com requintes em seus textos metapsicol\u00f3gicos de 1915, \u201cO inconsciente\u201d e \u201cSuplemento metapsicol\u00f3gico \u00e0 teoria dos sonhos\u201d. Nestes, o conceito de regress\u00e3o temporal \u00e9 substitu\u00eddo e faz contraponto ao conceito de regress\u00e3o topogr\u00e1fica. Temos, ent\u00e3o, o inconsciente, o pr\u00e9-consciente e a consci\u00eancia, cada um regido por regras pr\u00f3prias. Enquanto o tempo inscreve suas marcas junto com a linguagem e com a representa\u00e7\u00e3o das palavras no pr\u00e9-consciente, no inconsciente o tempo \u00e9 eterno, compat\u00edvel com o tempo imemorial do mito. Assim, ele recebe a descri\u00e7\u00e3o topogr\u00e1fica n\u00e3o como uma medida cronol\u00f3gica de dados de mem\u00f3ria, e sim como espa\u00e7o deformado em torno de buracos e substitui\u00e7\u00f5es de tra\u00e7os desordenados de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A tese freudiana sobre o tempo e o inconsciente permitiu que Lacan desenvolvesse o estatuto l\u00f3gico dessas cadeias de mem\u00f3ria e estabelecesse como a \u00fanica medida conhecida pelo inconsciente: o falo. Este n\u00e3o determina a identidade sexual, mas permite o c\u00e1lculo de uma identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa forma, o ensino de Lacan apresentar\u00e1 as modalidades de articula\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria inconsciente e o aparecimento temporal do sujeito: buracos de mem\u00f3ria, defeitos de medida temporal, persist\u00eancia inquietante, esquecimentos marcantes, esquecimentos de esquecimentos. Todas essas lacunas e trope\u00e7os s\u00e3o materiais que denotam uma l\u00f3gica do tempo em psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Encontramos essa l\u00f3gica formulada em tr\u00eas momentos distintos do ensino de Lacan. A primeira vez, em seu sofisma &#8220;O tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o de certeza antecipada\u201d. Mais tarde, em suas f\u00f3rmulas na l\u00f3gica da aliena\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o, no fechamento e abertura do inconsciente (<i>Semin\u00e1rio 11<\/i>), e, finalmente, em sua topologia com o t\u00edtulo de um semin\u00e1rio que re\u00fane as duas dimens\u00f5es do espa\u00e7o e do tempo: &#8220;A topologia e o tempo\u201d, o \u00faltimo proferido por Lacan, ainda n\u00e3o estabelecido. Retomaremos esses momentos mais adiante, ao articul\u00e1-los ao inconsciente, por\u00e9m n\u00e3o antes de fazer uma certa digress\u00e3o, na qual tentarei precisar o termo \u201cinconsciente a c\u00e9u aberto\u201d.<\/p>\n<p>Habitualmente, os analistas utilizam o termo \u201cinconsciente a c\u00e9u aberto\u201d quando se referem ao inconsciente psic\u00f3tico. Face \u00e0 adjetiva\u00e7\u00e3o do inconsciente freudiano, ao lado do inconsciente transferencial e inconsciente real, mais do que nunca, \u00e9 tempo de empenharmos em um programa de pesquisa para delimit\u00e1-los. Pois Freud, ao descobri-lo, n\u00e3o o fez, embora deixasse pegadas a serem rastreadas e sistematizadas.<\/p>\n<p>O termo \u201cinconsciente a c\u00e9u aberto\u201d surge em meados dos anos 50, em seu\u00a0<i>Semin\u00e1rio 3: as psicoses<\/i>. Na li\u00e7\u00e3o de 14 de dezembro de 55, ao se referir a uma apresenta\u00e7\u00e3o de paciente, Lacan diz que aquele caso cl\u00ednico \u201cfazia o inconsciente funcionar a descoberto\u201d (1985, p. 73). Cabe pontuar que o texto original franc\u00eas diz \u201c<i>jouer \u00e0 ciel ouvert<\/i>\u201d (ibid., p. 71), equivalente a jogar, representar, funcionar a c\u00e9u aberto. \u00c9 interessante notar que Lacan se serve de um caso de neurose para apresentar o tema. Esse paciente, em sua dificuldade de entrar no discurso psicanal\u00edtico, fazia o inconsciente funcionar a c\u00e9u aberto, porque \u201ctudo o que em outro sujeito haveria entrado no recalque, encontrava-se nele suportado por uma outra linguagem\u201d (ibid., p. 73). O motivo desse funcionamento \u00e9 que ele fora criado em Paris por pais que falavam entre si um dialeto corso. O paciente acabou aprendendo duas l\u00ednguas e, com isso, criou para si dois mundos: um familiar e outro compartilhado com o mundo externo. Esse dialeto acabou se tornando seu mundo familiar, um dialeto em que se depositavam todas quest\u00f5es relacionadas a sua inf\u00e2ncia. Para esse paciente, Lacan equivale o dialeto corso ao sintoma como express\u00e3o do recalcado, no caso do neur\u00f3tico. Logo adiante, na mesma li\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio, recorre ao texto de Schreber e diz este \u201cfaz o mesmo sem necessitar de um dialeto\u201d. Ele escreve claramente o que se passa em seu sistema delirante usando palavras do idioma que \u00e9 conhecido por todos. Aqui, sim, podemos falar do inconsciente a c\u00e9u aberto enquanto uma forma espec\u00edfica de estrutura\u00e7\u00e3o do discurso, no qual o sujeito se localiza fora dele e \u00e9 invadido, habitado e tagarelado pelo Outro.<\/p>\n<p>Interessante notar que Freud tomou o modo de funcionamento do esquizofr\u00eanico para avaliar e validar as teorias do inconsciente e o suplemento metapsicol\u00f3gico \u00e0 teoria do sonho, ambas de 1914. Segundo Freud, h\u00e1 uma peculiaridade de funcionamento do esquizofr\u00eanico: tratar as palavras como coisas. N\u00e3o h\u00e1 uma comunica\u00e7\u00e3o entre as representa\u00e7\u00f5es das coisas e das palavras. A leitura de Freud por Lacan, pela sua teoria do significante, permitiu dizer que h\u00e1 algo na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva do psic\u00f3tico que n\u00e3o foi simbolizado: \u201co que fora rejeitado (do interior) do simb\u00f3lico retorna no (exterior) no real\u201d (1985, p. 158). A alucina\u00e7\u00e3o \u00e9 o exemplo mais claro disso. \u201cNo real\u201d n\u00e3o deve ser entendido como localiza\u00e7\u00e3o, e sim como modaliza\u00e7\u00e3o, ou seja, maneira como algo se apresenta: com um car\u00e1ter de intrus\u00e3o e de \u201cc\u00e9u aberto\u201d. N\u00e3o se trata, no caso da psicose, de o inconsciente ser mais primitivo, mais original ou infantil. \u00c9 porque, nessa estrutura, o que o neur\u00f3tico peleja para velar apresenta-se ali com mais clareza.<\/p>\n<p>Na entrevista<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/65-tempo-sintoma#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>\u00a0sobre o tema das psicoses ordin\u00e1rias, concedida a Jacques Munier, \u00c9ric Laurent (2017) responde:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c<strong>Jacques Munier<\/strong>: Interpretar a psicose \u00e9 ter um olhar sobre o inconsciente a c\u00e9u aberto\u2026<br \/>\n<strong>\u00c9ric Laurent<\/strong>: Sim, \u00e9 um inconsciente cujo c\u00e9u n\u00e3o est\u00e1 coberto pelo que Freud chamou de o complexo de \u00c9dipo. O essencial j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a trag\u00e9dia de S\u00f3focles, onde o menino quer matar seu pai para ter sua m\u00e3e pra ele sozinho e dormir com ela\u2026 \u00c9, al\u00e9m disso.<br \/>\n<strong>M.<\/strong>:O Nome-do-Pai?<br \/>\n<strong>\u00c9. L.<\/strong>: Sim, este Nome-do-Pai faz um ponto de amarra\u00e7\u00e3o, um ponto de\u00a0<i>capit<\/i>\u00f3n, diz Lacan. Mas \u00e9 precisamente esse ponto que n\u00e3o existe na psicose. Ent\u00e3o, como \u00e9 que isso para? Como funciona a certeza que existe na psicose? \u00c9 assim que se faz a passagem da psicose extraordin\u00e1ria para a psicose ordin\u00e1ria\u201d<br \/>\n(Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2017\/10\/22\/a-psicose-ordinaria-1\/?lang=pt-br\">http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2017\/10\/22\/a-psicose-ordinaria-1\/?lang=pt-br<\/a>).<\/p>\n<p>Importante notar que \u00c9ric Laurent correlaciona o inconsciente a c\u00e9u aberto \u00e0 aus\u00eancia do Nome-do-Pai, sintetizando todo o esfor\u00e7o empreendido por Lacan ao longo do\u00a0<i>Semin\u00e1rio 3<\/i>\u00a0e no escrito \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d. Lembremos que o significante Nome-do-pai \u00e9 a leitura lacaniana do \u00c9dipo freudiano. Um significante capaz de instituir a linguagem como discurso para o sujeito (entrada do sujeito no simb\u00f3lico) e possibilitar a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Podemos consider\u00e1-lo um divisor de \u00e1guas entre as estruturas neurose e psicose. \u00c9 o que Lacan (1957\/1998, p. 582) formula em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar&#8230;\u201d:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c[&#8230;] \u00e9 num acidente desse registro e do que nele se realiza, a saber, na foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai no lugar do Outro, e no fracasso da met\u00e1fora paterna, que apontamos a falha que confere a psicose sua condi\u00e7\u00e3o essencial, com a estrutura que a separa da neurose\u201d.<\/p>\n<p>Ao definir o mecanismo da\u00a0<i>Verwefung<\/i>\u00a0(foraclus\u00e3o), Lacan destaca uma temporalidade peculiar \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica. O termo jur\u00eddico foraclus\u00e3o implica, precisamente, a impossibilidade de fazer uso de um direito quando n\u00e3o exercido no prazo prescrito.<\/p>\n<p>O modo de nega\u00e7\u00e3o colocado em jogo na\u00a0<i>Verwefung<\/i>\u00a0destr\u00f3i a coisa no momento mesmo em que a faz existir: &#8220;N\u00e3o s\u00f3 exclui as possibilidades vindouras e fere o futuro, mas tamb\u00e9m expressa um desejo que lesa o passado&#8221; (RABINOVITCH, 2001, p. 19).<\/p>\n<p>Ao se defrontar com a n\u00e3o-inscri\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora paterna como ponto de basta, o psic\u00f3tico estaria submerso em um abismo temporal, desprovido de balizas simb\u00f3licas, pois n\u00e3o ocorre uma ordena\u00e7\u00e3o poss\u00edvel no n\u00edvel da cadeia significante. Nas psicoses, estar\u00edamos confrontados com tal infinitiza\u00e7\u00e3o, estando o tempo do significante eternizado.<\/p>\n<p>Diante dessa dimens\u00e3o temporal fundante, na qual encerra a possibilidade de que, entre o campo do sujeito e do Outro, possa se estabelecer um intervalo puls\u00e1til, um\u00a0<i>ritmo\u00a0<\/i>capaz de colocar em cena certa dura\u00e7\u00e3o no tempo, encontramos na psicose a impossibilidade de escans\u00e3o da voz materna, do Outro primordial, pois n\u00e3o houve a simboliza\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Lacan formula a no\u00e7\u00e3o de inconsciente enquanto inst\u00e2ncia puls\u00e1til, intrinsecamente subjugada \u00e0 dimens\u00e3o temporal, no\u00a0<i>Semin\u00e1rio 11<\/i>, em que podemos ler: &#8220;Voc\u00eas compreendem que, se lhes falei do inconsciente como do que se abre e se fecha, \u00e9 que sua ess\u00eancia \u00e9 de marcar esse tempo pelo qual, por nascer com o significante, o sujeito nasce dividido&#8221; (LACAN, 1964\/1988, p. 188). Nota-se uma temporalidade atrelada ao movimento no circuito pulsional. Segundo Lacan, \u201ca transfer\u00eancia \u00e9 o meio pelo qual se interrompe a comunica\u00e7\u00e3o do inconsciente, pelo qual o inconsciente torna a se fechar\u201d (p. 125). Assim, a transfer\u00eancia atualizaria o ponto de fechamento do inconsciente, onde a interpreta\u00e7\u00e3o do analista incide no ponto onde o inconsciente j\u00e1 fizera a interpreta\u00e7\u00e3o. O movimento puls\u00e1til do inconsciente \u2014 abrir e fechar \u2014 permite a cria\u00e7\u00e3o das suas forma\u00e7\u00f5es pelo neur\u00f3tico: sintomas, atos falhos, sonhos e chistes, al\u00e9m das resist\u00eancias durante a an\u00e1lise. No psic\u00f3tico, a falta da barra proporcionada pela foraclus\u00e3o do Nome-do-pai impede esse fechamento. Da\u00ed a articula\u00e7\u00e3o com a proposta de Lacan de um inconsciente a c\u00e9u aberto, na perspectiva de um tempo eternizado.<\/p>\n<p>No\u00a0<i>Semin\u00e1rio 3<\/i>, Lacan indicar\u00e1 uma maneira do psic\u00f3tico j\u00e1 desencadeado colocar a barra, por uma via diferente daquela do neur\u00f3tico, e recobrir o inconsciente. Na falta da met\u00e1fora paterna (foraclus\u00e3o do Nome-do-pai no simb\u00f3lico), resta a constru\u00e7\u00e3o de uma met\u00e1fora delirante, que cumpriria essa fun\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que nos mostra Schreber em seu texto retomado por Lacan. A met\u00e1fora delirante \u201cA-Mulher-de-Deus\u201d \u00e9 constru\u00edda como uma solu\u00e7\u00e3o elegante que dar\u00e1 sentido a uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos alucinat\u00f3rios invasivos e delirantes. Essa solu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m far\u00e1 uma escan\u00e7\u00e3o no tempo infinito do del\u00edrio e organizar\u00e1 o campo da realidade para o sujeito. Com essa feita, o tempo, para Schreber, p\u00f4de ser demarcado: tempo para escrever o livro; cuidar de seus afazeres sociais e familiares; entregar-se aos caprichos divinos etc. Cabe ressaltar que esse trabalho de Schreber n\u00e3o foi favorecido por um la\u00e7o transferencial com um analista. A transfer\u00eancia nas psicoses \u00e9 complicada, dado que n\u00e3o \u00e9 instaurada no tempo do fechamento do inconsciente e, dessa forma, n\u00e3o se estabelece a posi\u00e7\u00e3o do sujeito suposto saber. H\u00e1 que se conduzir o tratamento por parte do analista com bastante cautela, pois, no cerne da rela\u00e7\u00e3o do sujeito, encontra-se a certeza do Outro gozador. A rela\u00e7\u00e3o de Schreber com seu psiquiatra ilustra bem isso. Flechsig \u00e9 tomado como perseguidor e acusado por v\u00e1rias atrocidades expostas pelo seu sistema delirante alucinat\u00f3rio. Mesmo assim, Lacan orienta os analistas a n\u00e3o recuar diante da psicose e localiza a posi\u00e7\u00e3o que dever\u00e3o assumir ao conduzir um caso dessa estrutura: o de secret\u00e1rio do alienado. Nessa \u00e9poca de seu ensino,\u00a0<i>Semin\u00e1rio 3<\/i>, cabe \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de secret\u00e1rio, al\u00e9m de testemunhar as solu\u00e7\u00f5es delirantes, orientar o tratamento rumo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de uma met\u00e1fora delirante. Estamos a\u00ed no tempo do ensino de Lacan no qual ele prioriza o tratamento do real pelo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>O inconsciente psic\u00f3tico sempre fora um ponto de estudo para Lacan, de Schreber a Joyce. No decorrer de seu ensino, a quest\u00e3o da loucura passou a ser abordada n\u00e3o mais como um d\u00e9ficit, mas a partir da forma original de linguagem.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos de seu ensino, a \u00eanfase dada por Lacan n\u00e3o mais ser\u00e1 da parti\u00e7\u00e3o entre as categorias de psicose extraordin\u00e1ria e neurose cl\u00e1ssica. Ser\u00e1 em um\u00a0<i>continuum<\/i>\u00a0que a quest\u00e3o ser\u00e1 colocada. Lacan manter\u00e1 o inconsciente e seus modos de distribui\u00e7\u00e3o nas categorias do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio. Podemos resumir da seguinte maneira: o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo; o simb\u00f3lico s\u00e3o as palavras que se diz; e o real s\u00e3o os efeitos que tem o gozo no corpo e os acontecimentos que atravessam esse corpo tomado pela subst\u00e2ncia gozante. N\u00e3o haver\u00e1 mais a primazia do simb\u00f3lico. Isso \u00e9 o que nos aponta Laurent quando estende a fun\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai ao sentido topol\u00f3gico, como ponto de amarra\u00e7\u00e3o, de\u00a0<i>capiton<\/i>, para al\u00e9m das psicoses extraordin\u00e1rias \u00e0s psicoses ordin\u00e1rias. Esse dado me parece muito importante, pois, assim sendo, nos permite estender caracter\u00edsticas abarcadas pela no\u00e7\u00e3o de inconsciente a c\u00e9u aberto incluindo, a\u00ed, o impacto espec\u00edfico do tempo aos sujeitos que constroem solu\u00e7\u00f5es de amarra\u00e7\u00e3o para al\u00e9m \u2014 ou apesar \u2014 de estarem na condi\u00e7\u00e3o de impossibilidade de acess\u00e1-lo (Nome-do-Pai enquanto significante). Laurent responde ainda sobre uma variante do \u201cinconsciente a c\u00e9u aberto\u201d nas psicoses ordin\u00e1rias ao se referir \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a linguagem de forma nua.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c\u00c9 uma variante do \u2018a c\u00e9u aberto\u2019 que Freud instalou. N\u00e3o h\u00e1 mais prote\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mais cobertura, n\u00e3o h\u00e1 mais garantias de que as palavras querem dizer alguma uma coisa, porque, em \u00faltima an\u00e1lise, foi dito pelo pai, com a declina\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai e da tradi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma conversa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve encerrar-se no fechamento delirante, mas sim permitir uma abertura, um percurso sobre o significado da experi\u00eancia\u201d (LAURENT, 2017, s\/p.).<\/p>\n<p>A partir desses referenciais, caber\u00e1 ao analista atuar para al\u00e9m de ser o secret\u00e1rio do alienado, isto \u00e9, n\u00e3o mais conduzir o tratamento rumo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma met\u00e1fora delirante, e sim um saber fazer mais generalizado com as disrup\u00e7\u00f5es de gozo. Nesse sentido, espera-se do ato anal\u00edtico a institui\u00e7\u00e3o, de maneira contingencial, de escan\u00e7\u00f5es temporais moderadoras de gozo em um inconsciente desprovido das amarras temporais condicionadas pela aus\u00eancia do Nome-do-pai enquanto ponto de\u00a0<i>capiton<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ROBERT.\u00a0<strong>Dictionnaire du fran\u00e7ais primordial<\/strong>. Paris. Dictionnaires Le Robert, 1986. Apresenta a express\u00e3o \u201ca c\u00e9u aberto\u201d como uma das significa\u00e7\u00f5es do verbete\u00a0<i>Ouvert<\/i>: \u201cdisposto de maneira a deixar comunicar com o exterior. [&#8230;] A c\u00e9u aberto\u201d. Em Franc\u00eas, \u201c<i>Dispos\u00e9 de mani\u00e8re \u00e0 laisser communiquer avec l&#8217;ext\u00e9rieur. [&#8230;]. \u00c0 ciel ouvert<\/i>\u201d<i>.<\/i>\u00a0p. 1751.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915). \u201cO inconsciente\u201d.\u00a0<strong>Obras completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago Editora, v. XIV, 1976.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915). \u201cSuplemento metapsicol\u00f3gico \u00e0 teoria dos sonhos\u201d.\u00a0<strong>Obras completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago Editora, v. XIV, 1976.<\/h6>\n<h6>LACAN. J. (1957-1958) \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-1956)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 3<\/strong>: as psicoses. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964-1965)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/strong>: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. (2017). Entrevista. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.lacan21.com\/sitio\/2017\/10\/22\/a-psicose-ordinaria-1\/?lang=pt-br. Acesso em: 5 dez. 2019.<u><\/u><\/h6>\n<h6>LAURENT, E. \u201cLe savoir inconscient et le temps\u201d. In:\u00a0<strong>Revue La Cause freudienne<\/strong>, n\u00ba 26. Paris: fev. 1994. CD-ROM.<\/h6>\n<h6>RABINOVITCH, S.\u00a0<strong>A foraclus\u00e3o<\/strong>: presos do lado de fora. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/65-tempo-sintoma#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Transcrita em portugu\u00eas e estabelecida no jornal da FAPOL Lacan XXI, 22 out. 2017.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo A partir das premissas freudianas, o texto recupera e descreve o conceito lacaniano de \u201cinconsciente a c\u00e9u aberto\u201d como modo de funcionamento do inconsciente psic\u00f3tico. Disserta sobre a no\u00e7\u00e3o de tempo em psican\u00e1lise e busca delimitar a incid\u00eancia do tempo nesse inconsciente que est\u00e1 descoberto da met\u00e1fora paterna. Palavras-chaves: Inconsciente a c\u00e9u aberto, psicose,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57986,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-1245","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-24","category-20","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1245","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1245"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1245\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57987,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1245\/revisions\/57987"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57986"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1245"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1245"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1245"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}