{"id":1271,"date":"2020-03-17T06:59:33","date_gmt":"2020-03-17T09:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1271"},"modified":"2025-12-01T15:57:35","modified_gmt":"2025-12-01T18:57:35","slug":"glosa-sobre-uma-bussola-antonio-de-ciaccia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/17\/glosa-sobre-uma-bussola-antonio-de-ciaccia\/","title":{"rendered":"Glosa Sobre uma b\u00fassola &#8211; Ant\u00f4nio de Ciaccia"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Resumo<br \/>\n<\/strong>Nas religi\u00f5es monote\u00edstas, h\u00e1 diferen\u00e7a entre cren\u00e7a e f\u00e9. A cren\u00e7a \u00e9 uma opini\u00e3o considerada verdadeira e a f\u00e9 o efeito de um encontro entre um sujeito ou um povo com um Outro que lhe fala. No entanto, na psican\u00e1lise Lacan opera um deslocamento em rela\u00e7\u00e3o ao piv\u00f4 que organiza a f\u00e9. Esse ponto ser\u00e1 a palavra enquanto tal e a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o em jogo ser\u00e1 a do sujeito com a palavra.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chaves:<\/strong>\u00a0cren\u00e7a, f\u00e9, palavra, psican\u00e1lise, religi\u00e3o<\/p>\n<p><strong>Abstract<br \/>\n<\/strong>In monotheistic religions, there is a difference between belief and faith. Belief is an opinion considered true and faith is the effect of an encounter between a subject or a people with an Other who speaks to them. However, in psychoanalysis Lacan operates a shift in relation to the pivot that organizes the faith. This point will be the word as such and the only relationship at stake will be that of the subject with the word.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Belief, faith, Psychoanalysis, religion<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/antoniodiciacca.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2448\" data-large_image_height=\"1632\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1272 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/antoniodiciacca-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"529\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/antoniodiciacca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/antoniodiciacca-300x200.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/antoniodiciacca-768x512.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/antoniodiciacca-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/antoniodiciacca.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 529px) 100vw, 529px\" \/><\/a><br \/>\nFoto de Nelson de Almeida<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0ANTONIO DI CIACCIA<\/strong><br \/>\n<strong>Psicanalista, membro da ECF.<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre todas as b\u00fassolas humanas (cf. MILLER, 2015), h\u00e1 uma que denota o\u00a0<i>homo religiosus<\/i>: a f\u00e9. A palavra adquire uma conota\u00e7\u00e3o precisa no \u00e2mbito das tr\u00eas religi\u00f5es monote\u00edstas, a saber, de todos aqueles que seguem os passos de Abra\u00e3o, que \u00e9 &#8220;o pai de todos os que aderem&#8221; (<i>Rm<\/i>., 4,11).<\/p>\n<p><i>As palavras para diz\u00ea-lo<\/i><\/p>\n<p>No monote\u00edsmo, se desdobram o sentido e a significa\u00e7\u00e3o de uma verdadeira constela\u00e7\u00e3o que gira em torno do termo &#8220;f\u00e9&#8221;, e entram em jogo dois polos que nomearemos, para simplificar, o sujeito e o Outro.<\/p>\n<p>Em geral, os termos &#8220;f\u00e9&#8221; e &#8220;cren\u00e7a&#8221; s\u00e3o usados como sin\u00f4nimos, mas, enquanto a f\u00e9 diz respeito a esses dois polos, a cren\u00e7a diz respeito a apenas um, o sujeito. De fato, a cren\u00e7a, encontrada em todo homem e em toda comunidade, implica uma opini\u00e3o considerada verdadeira e segura. Ela diz respeito tanto ao indiv\u00edduo quanto \u00e0 coletividade e se refere a no\u00e7\u00f5es ou conceitos cuja demonstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser produzida. Trata-se, em suma, de uma convic\u00e7\u00e3o de um sujeito ou de uma comunidade inteira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia de algo ou de algu\u00e9m. Na maioria das vezes, no que diz respeito a assuntos religiosos, a cren\u00e7a est\u00e1 presente em toda teoria. A cren\u00e7a, definitivamente, est\u00e1 ligada ao pensamento.<\/p>\n<p>A f\u00e9, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma quest\u00e3o de palavra. \u00c9 o efeito de um encontro de um sujeito ou de um povo com um Outro que lhe fala. Para permanecer na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, \u00e9 pela palavra que Yahv\u00e9 se anuncia a Mois\u00e9s (<i>Ex.<\/i>, 3, 1-15), o qual ir\u00e1 lhe responder atrav\u00e9s de uma f\u00e9 s\u00f3lida (<i>Hb.<\/i>, 11, 23-29), e, no\u00a0<i>Novo Testamento<\/i>, em sua \u201cEp\u00edstola aos Romanos\u201d, S\u00e3o Paulo insiste na f\u00e9 como efeito da palavra (<i>Rm<\/i>, 10, 17). Desde ent\u00e3o, se toda f\u00e9 comporta a cren\u00e7a, nem toda cren\u00e7a comporta a f\u00e9.<\/p>\n<p>Partamos do texto b\u00edblico. No\u00a0<i>Antigo Testamento<\/i>\u00a0h\u00e1 uma variedade de voc\u00e1bulos que refletem a complexidade da atitude do crente e que, fundamentalmente, est\u00e3o correlacionados a duas ra\u00edzes:\u00a0<i>aman<\/i>, que remete \u00e0 firmeza e \u00e0 certeza, e\u00a0<i>batah<\/i>, que remete \u00e0 confian\u00e7a.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo III antes de Cristo, os tradutores judeus da\u00a0<i>B\u00edblia<\/i>\u00a0para a vers\u00e3o grega, a\u00a0<i>Septante<\/i>, tiveram que inventar os termos, pois os gregos acreditavam em deuses e n\u00e3o tinham palavras apropriadas para expressar a cren\u00e7a em um s\u00f3 Deus. Eles ent\u00e3o traduziram a raiz &#8211;<i>batah\u00a0<\/i>pelos termos\u00a0<i>elpis, elpizo, p\u00e8poitha<\/i>, que S\u00e3o Jer\u00f4nimo fez, na vers\u00e3o latina, a\u00a0<i>Vulgate<\/i>, por\u00a0<i>spes, sperare, confido<\/i>, que foi traduzida em franc\u00eas por \u201c<i>espoir<\/i>\u201d, \u201ce<i>sp\u00e9rer<\/i>\u201d, \u201c<i>avoir confiance<\/i>\u201d, \u201c<i>se fier en<\/i>\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. A raiz &#8211;<i>aman<\/i>, ainda presente em nosso\u00a0<i>am\u00e9m<\/i>, foi traduzida em grego pelos termos\u00a0<i>pistis<\/i>,\u00a0<i>pisteuo<\/i>,\u00a0<i>aletheia<\/i>, em latim, na\u00a0<i>Vulgate<\/i>, por\u00a0<i>fides, credere, veritas<\/i>, e enfim, em franc\u00eas, por \u201c<i>foi<\/i>\u201d, \u201c<i>croire<\/i>\u201d, \u201c<i>verit\u00e9<\/i>\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>O estudo dos termos b\u00edblicos apresenta, portanto, a f\u00e9 segundo estas duas vertentes: por um lado, a confian\u00e7a, colocada pelo sujeito, dirigida a esse Outro que lhe fala e que \u00e9 fiel \u00e0 sua palavra, e, por outro lado, um certo passo do sujeito que lhe permite aceitar essa palavra vinda do Outro, uma palavra que lhe d\u00e1 acesso ao que S\u00e3o Paulo chama de &#8220;a prova das realidades que n\u00e3o se v\u00ea&#8221; (<i>Hb.<\/i>, 11:1). Nas l\u00ednguas romanas, o termo em latim\u00a0<i>fides<\/i>\u00a0est\u00e1 na origem do termo \u201cfiel\u201d, empregado em geral como sin\u00f4nimo de crente. No texto b\u00edblico, entretanto, esse termo \u00e9 inicialmente uma prerrogativa de Yahv\u00e9, definido quando de sua revela\u00e7\u00e3o a Mois\u00e9s como \u201crico em gra\u00e7a e em fidelidade\u201d (<i>Ex.<\/i>, 34, 6). A fidelidade (<i>emet<\/i>) quer dizer que a palavra de Yahv\u00e9 n\u00e3o mente e n\u00e3o se retrata (<i>Nm.,\u00a0<\/i>23, 19), embora n\u00e3o houvesse meios de discutir com ele, como o diz J\u00f3 em sua afli\u00e7\u00e3o (<i>J\u00f3<\/i>, 9,32). De fato, entre a palavra de Yahv\u00e9 e a do homem, existe uma profunda imparidade, se quisermos utilizar um termo caro a Lacan. Se Yahv\u00e9 \u00e9 fiel, seu povo, ao contr\u00e1rio, oscila entre uma irredut\u00edvel infidelidade, que o deixa surdo e cego (<i>Is<\/i>., 42, 18ss). Essa \u00e9 a origem da c\u00f3lera divina, pois a fidelidade que Yahv\u00e9 exige de seu povo \u00e9 que tenham um pacto de alian\u00e7a (<i>J<\/i>\u00f3, 24, 14). Finalmente, \u00e9 pela contiguidade com a fidelidade divina que o homem pode se dizer fiel. No cristianismo, essa fidelidade \u00e9 encarnada, por antonom\u00e1sia, por Cristo.<\/p>\n<p>No entanto, tanto no\u00a0<i>Antigo<\/i>\u00a0como no\u00a0<i>Novo Testamento<\/i>, o crente n\u00e3o pode ser fiel sem receber essa\u00a0<i>fides<\/i>, essa f\u00e9, como um dom que lhe chega por parte de Deus, dom gratuito que prov\u00e9m de Yahv\u00e9, o Fiel, mas tamb\u00e9m aquele que \u00e9 rico em gra\u00e7a (<i>ben<\/i>), uma outra das prerrogativas divinas. Esse termo, que se diz em \u00e1rabe, no isl\u00e3, pela palavra \u201cmisericordioso\u201d, se tornou, em grego,\u00a0<i>Karis\u00a0<\/i>e foi traduzido em latim por\u00a0<i>gratia<\/i>. \u00c9 pela gra\u00e7a de Deus que o fiel recebe o dom da f\u00e9 em Deus.<\/p>\n<p>Vamos compartilhar esses termos de acordo com os dois polos da experi\u00eancia religiosa. A gra\u00e7a \u00e9 uma prerrogativa de Deus. A f\u00e9 \u00e9 um dom que a gra\u00e7a de Deus faz ao homem, que lhe permite aceitar a palavra de Deus, a saber, a revela\u00e7\u00e3o. De sua parte, o homem pode ser um homem de f\u00e9, ou seja, capaz de confiar na palavra de Deus, de ter confian\u00e7a nele, como o profeta sugere (<i>Jr.<\/i>, 17, 5-7), mas tamb\u00e9m de ser fiel a sua pr\u00f3pria palavra: \u201cQue vossa linguagem seja: Sim? Sim. N\u00e3o? N\u00e3o.\u201d (<i>Mt<\/i>., 5, 37). Ora, essa confian\u00e7a na palavra do Outro, a pr\u00f3pria possibilidade de receber essa palavra, n\u00e3o deixa de ter uma prerrogativa, dessa vez, tipicamente humana, a humildade, cujo paradigma \u00e9 dado por Mois\u00e9s, &#8220;o homem mais humilde que a terra tenha criado&#8221; (<i>Nm.<\/i>, 12, 3). Somente a humildade permite ao homem ouvir a palavra de Yahv\u00e9, &#8220;devor\u00e1-la em \u00eaxtase e alegria&#8221;, usando as palavras de Jeremias (<i>Jr.<\/i>, 15, 16). &#8220;Confian\u00e7a e humildade s\u00e3o de fato insepar\u00e1veis&#8221;<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, lembra o monge Marc-Fran\u00e7ois Lacan.<\/p>\n<p><i>E a psican\u00e1lise? N\u00e3o h\u00e1 conex\u00e3o&#8230;entre o sujeito e o Outro<\/i><\/p>\n<p>Lacan, Jacques, desta vez, n\u00e3o sem conhecer essas indica\u00e7\u00f5es, vai operar um deslocamento essencial em rela\u00e7\u00e3o ao ponto piv\u00f4 que organiza a f\u00e9. Esse ponto deixa de ser a rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o Outro. Ser\u00e1 a palavra enquanto tal, e a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o em jogo consistir\u00e1, de agora em diante, essa do sujeito \u00e0 palavra, \u201cque se revela na quest\u00e3o do que falar quer dizer\u201d (LACAN, 1998, p. 332\u2013333). Todavia, \u00e9 por uma \u201cverdadeira\u201d humildade (<i>Ibid<\/i>.) que cada um poder\u00e1 acolher um discurso. No entanto, acolher o que o sujeito \u201cquer dizer\u201d j\u00e1 deixa claro que ele n\u00e3o o diz. Mas o que quer dizer esse \u201cquer dizer\u201d \u00e9 uma dupla escuta que compete ao ouvinte: escutar o que o falante quer lhe dizer pelo discurso que lhe dirige ou o que esse discurso lhe ensina sobre a condi\u00e7\u00e3o do falante.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Assim, n\u00e3o somente o sentido desse discurso reside naquele que o escuta, como \u00e9 tamb\u00e9m de sua acolhida que depende quem o diz, ou seja, ou \u00e9 o sujeito a quem ele d\u00e1 sua confian\u00e7a e autoriza\u00e7\u00e3o, ou \u00e9 esse outro que lhe \u00e9 dado por seu discurso como constitu\u00eddo. [&#8230;] Ora, o analista apodera-se desse poder discricion\u00e1rio do ouvinte para elev\u00e1-lo a uma segunda pot\u00eancia (<i>Ibid<\/i>. p. 331).<\/p>\n<p>\u00c9, pois, a palavra que tem o poder de distribuir as cartas, embora os atores em jogo permane\u00e7am os mesmos: o locutor e o ouvinte. N\u00e3o \u00e9 mais o poder de Deus, mas o poder da palavra enquanto tal que exige a humildade da acolhida, a confian\u00e7a e a f\u00e9 nela. E \u00e9 em nome da palavra que o analista toma esse poder at\u00e9 o ponto que \u201cele imp\u00f5e ao sujeito, no dito de seu discurso, a abertura pr\u00f3pria da regra que lhe atribui como fundamental\u201d (<i>Ibid<\/i>. p. 333).<\/p>\n<p>O c\u00e9u esvaziou-se do poder da palavra. Ela est\u00e1 esva\u00edda e seu poder se reduz \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que o homem mant\u00e9m com ela. Da mesma maneira, Lacan desloca a constela\u00e7\u00e3o em torno da f\u00e9 tal como declina a tradi\u00e7\u00e3o religiosa no que chamamos virtudes teol\u00f3gicas: a f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade. Da esperan\u00e7a, Lacan fala, em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, respondendo pessoalmente a seu interlocutor, Jacques- Alain Miller, que lhe havia proposto as tr\u00eas quest\u00f5es retomadas por Kant do dominicano Agostinho de D\u00e1cia para a forma\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os pregadores. Uma das quais foi formulada nestes termos: &#8220;O que me \u00e9 l\u00edcito esperar?&#8221;. Sua resposta \u00e9: &#8220;Espere o que lhe aprouver\u201d (LACAN, 2003, p. 540).<\/p>\n<p>Ainda em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Lacan trata tamb\u00e9m da caridade. Falando do psicanalista e nomeando-o segundo o termo de \u201csanto\u201d, emprestado da tradi\u00e7\u00e3o religiosa, ele diz que, como este \u00faltimo, o psicanalista \u201cn\u00e3o faz caridade. Antes, presta-se a bancar o dejeto: faz descaridade&#8221; (<i>Ibid<\/i>, p. 518). Lacan joga com o equ\u00edvoco e com os deslizamentos entre as l\u00ednguas. Se a palavra \u201ccaridade\u201d prov\u00e9m do latim, significa amor ao pr\u00f3ximo que nos \u00e9\u00a0<i>carus<\/i>\u00a0e pode se abrir para uma reciprocidade que S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino chama de amizade, retomando a\u00a0<i>philia<\/i>\u00a0aristot\u00e9lica. O termo\u00a0<i>charitas<\/i>\u00a0tamb\u00e9m ressoa do termo grego\u00a0<i>Karis<\/i>, que significa gra\u00e7a. O analista n\u00e3o se situa em rela\u00e7\u00e3o a seu analisante do lado de quem faz caridade, que esbanja ao pr\u00f3ximo um amor que seria um efeito do dom da gra\u00e7a. Tampouco precisa se situar como algu\u00e9m que expande a gra\u00e7a feita ou n\u00e3o ao sujeito, salvo se for louco. Mas ele deve se ater ao que a estrutura da linguagem imp\u00f5e, ou seja, &#8220;permitir ao sujeito, ao sujeito do inconsciente, tom\u00e1-lo como causa de seu desejo&#8221; (<i>Ibid<\/i>, p. 518).<\/p>\n<p>Enfim, a f\u00e9. Lacan dir\u00e1 que o analista n\u00e3o tem que tomar posi\u00e7\u00e3o sobre a conveni\u00eancia ou n\u00e3o de uma cren\u00e7a. Neste breve artigo, eu me referirei a uma passagem de Lacan na qual \u00e9 esclarecida a utiliza\u00e7\u00e3o do verbo crer, limitando-me \u00e0s significa\u00e7\u00f5es de \u201c<i>croire \u00e0<\/i>\u201d e \u201c<i>croire en<\/i>\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Esse verbo, assim utilizado, se situa, de fato, no cruzamento dos dois termos de f\u00e9 e de cren\u00e7a, e pode se aplicar tanto a um quanto a outro. Essa possibilidade de mal-entendido inclusa na l\u00edngua resultou em grandes disputas entre Roma, Lutero e Calvino no que concerne notadamente \u00e0 exegese dos textos de S\u00e3o Paulo. N\u00e3o \u00e9 o mesmo dizer, por exemplo, que acreditamos \u201cnos deuses\u201d e de dizer que acreditamos \u201cem Deus\u201d. A express\u00e3o \u201c<i>croire \u00e0<\/i>\u201d quer dizer que o sujeito est\u00e1 convencido da conveni\u00eancia de uma proposi\u00e7\u00e3o, de uma descoberta ou de uma hip\u00f3tese, enquanto que a express\u00e3o \u201c<i>croire e<\/i>n\u201d quer dizer \u201cter confian\u00e7a em\u201d, \u201cse fiar a\u201d, portanto, ter a f\u00e9, entendida aqui como uma virtude teol\u00f3gica.<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio\u00a0<i>Mais ainda<\/i>, Lacan, ap\u00f3s ter falado da exist\u00eancia de Deus e de ter sido zombado pelos te\u00f3logos, pouco inclinados a crer nisso, exclama: \u201cvoc\u00eas v\u00e3o ficar todos convencidos de que eu creio em Deus. Eu creio no gozo da mulher no que ele \u00e9 a mais, com a condi\u00e7\u00e3o de que esse a mais, voc\u00eas coloquem um anteparo antes que eu o tenha explicado bem\u201d (LACAN, 1985, p. 103).<\/p>\n<p>O c\u00e9u esvaziou-se. Para o falasser, resta a fun\u00e7\u00e3o e o poder da palavra, sem outra garantia sen\u00e3o sua ocorr\u00eancia, seja sua iman\u00eancia.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Maria de F\u00e1tima Ferreira<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Luciana Silviano Brand\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>LACAN, J. \u201cVariantes do tratamento-padr\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong><i>.<\/i>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201c<i>Televis\u00e3o<\/i>\u201d.\u00a0<strong>Outros escritos<\/strong>. In: Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro XX<\/strong>: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6>MILLER J-A. \u201cUma fantasia\u201d. In:\u00a0<strong>Mental<\/strong>, n. 15. fev. 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Em portugu\u00eas, respectivamente, \u201cesperan\u00e7a\u201d, \u201cesperar\u201d, \u201cter confian\u00e7a\u201d, \u201cconfiar em\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Em portugu\u00eas, respectivamente, \u201cf\u00e9\u201d, \u201ccrer\u201d, \u201cverdade\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Cf. deste autor os artigos \u201cConfian\u00e7a\u201d, \u201cFidelidade\u201d, \u201cAlegria\u201d, \u201cHumildade<i>\u201d, Vocabul\u00e1rio de Teologia b\u00edblica<\/i>, Paris.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/59-glosa#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0Em franc\u00eas, o verbo\u00a0<i>croire<\/i>\u00a0(crer) prev\u00ea as preposi\u00e7\u00f5es \u201c<i>\u00e0<\/i>\u201d e \u201c<i>en<\/i>\u201d, cujo uso se adequa a varia\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas. Em portugu\u00eas, no entanto, utilizamos o verbo \u201ccrer\u201d, como TI, apenas sob a reg\u00eancia da preposi\u00e7\u00e3o \u201cem\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo Nas religi\u00f5es monote\u00edstas, h\u00e1 diferen\u00e7a entre cren\u00e7a e f\u00e9. A cren\u00e7a \u00e9 uma opini\u00e3o considerada verdadeira e a f\u00e9 o efeito de um encontro entre um sujeito ou um povo com um Outro que lhe fala. No entanto, na psican\u00e1lise Lacan opera um deslocamento em rela\u00e7\u00e3o ao piv\u00f4 que organiza a f\u00e9. Esse ponto&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57992,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-1271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-24","category-20","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1271"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57993,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1271\/revisions\/57993"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57992"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}