{"id":1278,"date":"2020-03-17T06:59:33","date_gmt":"2020-03-17T09:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1278"},"modified":"2025-12-01T15:58:47","modified_gmt":"2025-12-01T18:58:47","slug":"uma-epoca-fundamentalmente-descrente-dalila-arpin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/17\/uma-epoca-fundamentalmente-descrente-dalila-arpin\/","title":{"rendered":"Uma \u00e9poca fundamentalmente descrente &#8211; Dalila Arpin"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Resumo<br \/>\n<\/strong>A autora distingue descren\u00e7a de incredulidade, e mesmo de ate\u00edsmo, para mostrar que a descren\u00e7a \u2014 a falta de uma cren\u00e7a ordenadora \u2014 dos dias atuais leva ao surgimento de sujeitos que demandam certezas. Pergunta-se como a psican\u00e1lise pode responder a isso, j\u00e1 que um de seus conceitos fundamentais, a transfer\u00eancia, \u00e9 posto em causa por todos desejarem ser sujeitos supostos saber. Os escritos de Franz Kafka comparecem como exemplos desse mundo angustiado onde falta a cren\u00e7a no Outro.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>cren\u00e7a, descren\u00e7a, certezas, Outro, ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Abstract<br \/>\n<\/strong>A fundamentally disbelieving age<br \/>\nThe author distinguishes between disbelief and incredulity and even atheism to show that disbelief \u2014 the lack of an ordering belief \u2014 nowadays leads to the appearance of subjects that demand certainties. She asks how psychoanalysis can respond to that because one of its main concepts \u2014 transference \u2014 is questioned since everybody wants to be a subject supposed to know. Franz Kafka\u2019s writings come up as examples of this anxious world in which belief in the Other is missing.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0belief, disbelief, certainties, Other, anxiety.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/dalila-scaled.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2560\" data-large_image_height=\"1707\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1279 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/dalila-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"502\" height=\"335\" \/><\/a><br \/>\nFoto de Nelson de Almeida<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>DALILA ARPIN<\/strong><br \/>\n<strong>Psicanalista, membro da Escola da Causa freudiana \u2013 ECF\/AMP<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em nossos dias, fala-se da falta de confian\u00e7a, da incerteza, da perda das ilus\u00f5es \u2014 v\u00e1rias tentativas de reestabelecer a cren\u00e7a no Outro da boa f\u00e9. Uma leitura atenta demonstra que alguns fen\u00f4menos contempor\u00e2neos n\u00e3o se explicam por uma perda de cren\u00e7a, mas pela presen\u00e7a da descren\u00e7a \u2014\u00a0<i>Unglauben<\/i>\u00a0\u2014, uma no\u00e7\u00e3o que a psican\u00e1lise ampliou para al\u00e9m do terreno religioso.<\/p>\n<p><i>O mundo n\u00e3o \u00e9 mais o que era<\/i><\/p>\n<p>Muitos fil\u00f3sofos assinalaram a descren\u00e7a, o ceticismo e at\u00e9 a aus\u00eancia total de cren\u00e7a em nossa \u00e9poca. Nesse sentido, Jacques Bouveresse afirmava:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Mesmo ao se dizerem descrentes, alguns intelectuais colocam-se hoje como defensores da religi\u00e3o em nome de coisas como a necessidade de sagrado e de transcend\u00eancia, ou o fato de que o la\u00e7o social s\u00f3 pode ser, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de natureza religiosa. Mas o que se observa atualmente corresponde sem d\u00favida menos a um \u2018retorno do religioso\u2019 do que ao que Musil chamou de a \u2018nostalgia da cren\u00e7a\u2019, que uma \u00e9poca de outro modo fundamentalmente descrente tem uma desagrad\u00e1vel tend\u00eancia a confundir com a pr\u00f3pria cren\u00e7a. E o que enfrentamos, na realidade, \u00e9 mais um novo uso da religi\u00e3o \u2014 naquilo que ela pode comportar de mais tradicional e at\u00e9 mesmo de mais arcaico \u2014 pelo poder e a pol\u00edtica, do que um renascimento religioso propriamente dito (BOUVERESSE, 2007, texto da contracapa).<\/p>\n<p>Por sua vez, Marcel Gauchet apontava, em\u00a0<i>O desencantamento do mundo\u00a0<\/i>(1985), o luto necess\u00e1rio ap\u00f3s o desmoronamento das utopias de 1968. Ele indicava que a sa\u00edda da religi\u00e3o n\u00e3o significa a sa\u00edda da cren\u00e7a religiosa, mas de um mundo no qual a religi\u00e3o \u00e9 estruturante, onde ela comanda a forma pol\u00edtica das sociedades e onde ela define a economia do la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Estamos, definitivamente, na \u00e9poca d\u2019<i>O Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas de \u00e9tica<\/i>. Se crer \u00e9 crer no Outro, a cren\u00e7a est\u00e1 comprometida\/prejudicada na sociedade contempor\u00e2nea. \u201cO Nome-do-Pai se trincou\u201d, como disse Jacques-Alain Miller (2014, p. 22). As refer\u00eancias das quais disp\u00fanhamos n\u00e3o est\u00e3o mais ao nosso alcance, e assistimos \u00e0 \u201cgrande desordem no real no s\u00e9culo XXI\u201d (<i>Ibid<\/i>., p. 23). Como psicanalistas, recebemos cada vez mais sujeitos que n\u00e3o creem no Outro, que demandam garantias, que s\u00e3o c\u00e9ticos, que exigem resultados&#8230; Na paisagem de descren\u00e7a atual, a cren\u00e7a na psican\u00e1lise n\u00e3o constitui exce\u00e7\u00e3o. A transfer\u00eancia, conceito psicanal\u00edtico e piv\u00f4 essencial de um tratamento, n\u00e3o \u00e9 mais o que era. A quest\u00e3o se coloca agora: como operar nesse contexto com os meios da psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Essa cren\u00e7a a meio-mastro determina o surgimento da ang\u00fastia diante de um real desregulado, o ponto exato em que Freud localizou o nascimento das religi\u00f5es (FREUD, 1927\/1996). O homem primitivo, confrontado com as for\u00e7as indom\u00e1veis da natureza, talhou divindades capazes de vir em seu aux\u00edlio no seu desamparo. Essa inven\u00e7\u00e3o foi extremamente tranquilizadora e lhe permitiu suportar a inclem\u00eancia da natureza. Uma vez que somos confrontados \u00e0 grande desordem do real, as solu\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas d\u00e3o conta n\u00e3o mais do surgimento de cren\u00e7as, mas da busca de certezas. Seguindo Freud e Lacan, constata-se que a certeza se distingue da cren\u00e7a; ela \u00e9 pr\u00f3pria da descren\u00e7a.<\/p>\n<p><i>Uma descren\u00e7a certa demais<\/i><\/p>\n<p>O senso comum da descren\u00e7a est\u00e1 relacionado \u00e0 aus\u00eancia de cren\u00e7a religiosa e \u00e9 frequentemente considerado sin\u00f4nimo de ate\u00edsmo (LE ROBERT, 1996). O termo \u201ccrer\u201d (LE ROBERT, 1988) tinha, a princ\u00edpio, significados profanos e se relacionava \u00e0 confian\u00e7a depositada em qualquer coisa ou pessoa. \u00c9 a introdu\u00e7\u00e3o do cristianismo que o circunscreve \u00e0 esfera religiosa. O termo \u201cdescren\u00e7a\u201d \u00e9 introduzido apenas no s\u00e9culo XIX, pela m\u00e3o de Chateaubriand. Essa palavra permanece pouco comum, frequentemente em concorr\u00eancia com \u201cincredulidade\u201d, recusa a crer. O termo \u201cdescrente\u201d fez sua apari\u00e7\u00e3o um s\u00e9culo mais cedo, mas foi de repente abandonado em favor do termo \u201cn\u00e3o-crente\u201d. De tal modo que a descren\u00e7a, termo tardio e pouco corriqueiro, n\u00e3o conseguir\u00e1, posteriormente, se livrar do sentido religioso. \u00c9 a psican\u00e1lise que vai ampliar sua acep\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do sentido religioso. Freud emprega o termo\u00a0<i>Unglauben\u00a0<\/i>\u2014 que \u00e9 poss\u00edvel traduzir como\u00a0<i>descren\u00e7a<\/i>\u00a0\u2014 a prop\u00f3sito da paranoia na qual, diferentemente da neurose obsessiva, nenhum cr\u00e9dito \u00e9 dado \u00e0 censura (FREUD, 1896\/1996, p. 135). A censura volta-se para o exterior e o outro \u00e9 considerado respons\u00e1vel por ela. O sintoma prim\u00e1rio \u00e9, conforme o caso, a desconfian\u00e7a. Na neurose obsessiva, mais caracterizada pela autocensura e pelo sintoma da escrupulosidade, a\u00a0<i>Unglauben<\/i>\u00a0aparece, ent\u00e3o, como o que separa essas duas entidades cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>Para Lacan, a descren\u00e7a ocupa um lugar importante no in\u00edcio de seu ensino. No semin\u00e1rio sobre as psicoses afirma que o que caracteriza a psicose \u00e9 que, entre as duas fun\u00e7\u00f5es da fala,\u00a0<i>fides<\/i>\u00a0e fingimento, a segunda invadiu a primeira (LACAN, 1955-56\/1988, p. 47). Na dimens\u00e3o de um imagin\u00e1rio submetido, um exerc\u00edcio permanente do engano vai subverter toda a ordem, qualquer que seja. No Semin\u00e1rio \u201cOs quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise\u201d, a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>Unglauben<\/i>\u00a0\u00e9 mais bem esclarecida (LACAN, 1964\/1996, p. 225). Na cren\u00e7a, dois elementos se separam:\u00a0<i>o<\/i>\u00a0<i>sujeito dividido<\/i>, que cr\u00ea, e\u00a0<i>o<\/i>\u00a0<i>sujeito suposto saber<\/i>, aquele a que se d\u00e1 cr\u00e9dito. Para um sujeito dividido \u2014 aquele para quem uma parte do aparelho ps\u00edquico \u00e9 o inconsciente \u2014, a cren\u00e7a nunca \u00e9 plena nem absoluta. Ora, a descren\u00e7a n\u00e3o \u00e9 \u201c<i>n\u00e3o crer nisso<\/i>\u201d, mas a aus\u00eancia do primeiro termo da cren\u00e7a: o sujeito dividido. Ela se define como uma apreens\u00e3o em massa da cadeia significante que impede a abertura dial\u00e9tica pr\u00f3pria \u00e0 cren\u00e7a. A paranoia, que parece estar animada de cren\u00e7a, est\u00e1 mais do lado da descren\u00e7a. Na medida em que a dial\u00e9tica est\u00e1 exclu\u00edda dela, a descren\u00e7a tende a deslizar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 certeza.<\/p>\n<p>Assistimos atualmente a uma busca desenfreada de certezas. Assim como a escalada de fundamentalismos, que recrutam cada vez mais ac\u00f3litos entre os jovens ocidentais. A religi\u00e3o \u00e9 instrumentalizada em benef\u00edcio de uma ideologia de domina\u00e7\u00e3o, de tal modo que aqueles que s\u00e3o seduzidos por ela seguem ensinamentos impregnados de certezas. A rela\u00e7\u00e3o da certeza com a puls\u00e3o encontra sua express\u00e3o \u00faltima na matan\u00e7a. A exist\u00eancia de enciclop\u00e9dias na web constitui um outro exemplo. O leitor \u00e9 tamb\u00e9m autor e pode modificar o texto que, em seguida, ser\u00e1 compartilhado ou mesmo modificado por outros leitores dos quais n\u00e3o se requer nenhuma qualifica\u00e7\u00e3o. Qualquer um pode contribuir para o saber planet\u00e1rio, de tal modo que somos todos sujeitos supostos saber.<\/p>\n<p><i>Franz Kafka, poeta do extravio<\/i><\/p>\n<p>Um escritor do s\u00e9culo XX, pela err\u00e2ncia que lhe era pr\u00f3pria, soube antecipar nossa \u00e9poca fundamentalmente descrente. \u201cAlgu\u00e9m certamente havia caluniado Joseph K. pois uma manh\u00e3 ele foi detido sem ter feito mal algum\u201d (KAFKA, 1997, p. 9). \u00c9 assim que come\u00e7a\u00a0<i>O processo<\/i>, uma das obras-primas do escritor tcheco. Ele \u00e9 confrontado com um mundo e um tempo que o deixam perplexo. Um mundo hostil, de pesadelo e arbitr\u00e1rio:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">[&#8230;] absorvi vigorosamente o elemento negativo do meu tempo, um tempo que me \u00e9 muito pr\u00f3ximo, que n\u00e3o tenho que combater, mas tenho o direito, at\u00e9 certo ponto, de representar. Em seus poucos elementos positivos \u2014 como ao negativo extremo que se torna positivo \u2014 n\u00e3o tive participa\u00e7\u00e3o heredit\u00e1ria. N\u00e3o fui como Kierkegaard guiado pela m\u00e3o j\u00e1 bastante debilitada sem d\u00favida do cristianismo e nem como os sionistas agarrei a custo a \u00faltima franja do xale de prece judeu que esvoa\u00e7a\u201d (FRIEDL\u00c4NDER, 2014, p. 220).<\/p>\n<p>O apelo \u00e0 religi\u00e3o, fosse ela judaica, fosse crist\u00e3, n\u00e3o lhe deu nenhum aux\u00edlio. O historiador Saul Friedl\u00e4nder constata que, se Kafka se documentou abundantemente sobre a literatura \u00eddiche de sua \u00e9poca, foi em busca de uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Esse historiador se pergunta sobre as fontes judaicas da literatura de Kafka e conclui que apenas a novela intitulada \u201cEm nossa sinagoga\u201d lhe faz uma refer\u00eancia expl\u00edcita. Um animal de tamanho e cor imprecisos a elegeu como domic\u00edlio. Sua infelicidade \u00e9 habitar um lugar que \u00e9 animado apenas temporariamente e fadado a transformar-se em celeiro. Como Friedl\u00e4nder sugere, a hist\u00f3ria poderia representar \u201co aspecto indeterminado e a \u2019cor\u2019 incerta da judaicidade, tal como Kafka a percebia\u201d, assim como a eros\u00e3o do juda\u00edsmo europeu (FRIEDL\u00c4NDER, 2014, p. 98). Kafka ele pr\u00f3prio se considerava \u201cexclu\u00eddo pelo seu juda\u00edsmo n\u00e3o sionista [&#8230;] e n\u00e3o crente\u201d (KAFKA, 1988, p. 696).<\/p>\n<p>Numa carta a seu amigo e bi\u00f3grafo Max Brod, ele expressa a grande ang\u00fastia que se apoderara dele uma noite, impedindo-o de dormir. Ele tem a impress\u00e3o de viver uma \u201cdescida em dire\u00e7\u00e3o aos poderes obscuros\u201d (KAFKA, 1984, p. 1.156), onde os esp\u00edritos naturalmente acorrentados se soltam. \u00c9 ent\u00e3o que \u201co diab\u00f3lico da coisa lhe parece bem claro. \u00c9 a vaidade e o apetite de prazer\u201d (FRIEDL\u00c4NDER, 2014, p. 224). \u00c9 nesse momento que, buscando uma sa\u00edda, ele se volta para a escrita. No entanto, mesmo ela lhe parece fraca comparada \u00e0s \u201cfor\u00e7as do Mal\u201d, considerando-a \u201cum sal\u00e1rio a servi\u00e7o do diabo\u201d (FRIEDL\u00c4NDER, 2014, p. 223). Ele se v\u00ea sobre um \u201csolo t\u00e3o fr\u00e1gil, talvez totalmente inexistente, por cima de um buraco de sombra, de onde os poderes obscuros saem \u00e0 vontade para destruir [sua] vida\u201d (KAFKA, 1984, p. 1.155).<\/p>\n<p>O tom \u00e9 desesperado: \u201cTudo \u00e9 quimera, a fam\u00edlia, o escrit\u00f3rio, os amigos, a rua, tudo \u00e9 quimera e quimera mais ou menos distante, a mulher; mas a verdade mais pr\u00f3xima \u00e9 que voc\u00ea bate a cabe\u00e7a contra a parede de uma cela sem porta nem janela\u201d (KAFKA, 1984, p. 514).<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 clara entre o fundo de ang\u00fastia, de depress\u00e3o, de desencanto e o aparecimento da certeza: ele \u00e9 presa de for\u00e7as mal\u00e9ficas que se imiscuem at\u00e9 mesmo na sua esperan\u00e7a de sa\u00fade, a escrita.<\/p>\n<p>Seja em\u00a0<i>O castelo<\/i>, seja em\u00a0<i>O processo<\/i>, o personagem principal est\u00e1 \u00e0s voltas com uma autoridade que ele n\u00e3o chega a identificar nem a enfrentar (FRIEDL\u00c4NDER, 2014, p. 231). As pris\u00f5es s\u00e3o arbitr\u00e1rias, e, as condena\u00e7\u00f5es, inexor\u00e1veis. As narrativas descrevem o longo caminho do personagem, at\u00e9 sua queda. Nada pode ser contra a Lei, pois a pr\u00f3pria exist\u00eancia da Lei pode ser questionada. Como sugeriu \u00c9ric Santner:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">[O] discurso de mestre [que implica a exist\u00eancia da Lei] foi atenuado e disperso num campo de rel\u00e9s e pontos de contato que n\u00e3o possuem mais nenhuma coer\u00eancia, nem mesmo na fantasia, como um \u201coutro\u201d consistente de poss\u00edvel endere\u00e7amento e repara\u00e7\u00e3o. Em Kafka, a Lei est\u00e1 em todo lugar e em lugar nenhum (SANTNER, 2006, p. 22).<\/p>\n<p>Em\u00a0<i>Investiga\u00e7\u00f5es de um c\u00e3o<\/i>, um dos \u00faltimos textos do escritor, um velho c\u00e3o busca compreender diversos aspectos da \u201cra\u00e7a canina\u201d, examinando o maior n\u00famero de elementos que a concernem. \u201cOnde est\u00e3o, portanto, meus cong\u00eaneres? Sim, esta \u00e9 a queixa \u2014 precisamente esta\u201d (KAFKA, 2002, p. 174), exclama o c\u00e3o com amargura. O c\u00e3o aqui pega o bast\u00e3o de Di\u00f3genes, pois, em alem\u00e3o \u2014 bem como nas l\u00ednguas latinas \u2014, uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entre as palavras c\u00e3o (<i>Hund<\/i>) e c\u00ednico (<i>h\u00fcndisch<\/i>)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/60-epoca-descrente#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>\u00a0(KAFKA, 2002, p. 176). Por meio dessa par\u00e1bola, o autor exprime sua incapacidade de reconhecer o mundo dos homens e de suas conven\u00e7\u00f5es. Essa hist\u00f3ria visa a provar, como sustenta Saul Friedl\u00e4nder, os limites do entendimento humano, a incapacidade de perceber certos aspectos da exist\u00eancia: \u201cEssa busca pode n\u00e3o ter sido abandonada, mas ela tornou-se de agora em diante intermin\u00e1vel, fonte de mais ceticismo ainda, de desencanto e ironia\u201d (FRIEDL\u00c4NDER, 2014, p. 235).<\/p>\n<p>O c\u00e3o constata: \u201cN\u00e3o; o que tamb\u00e9m objeto \u00e0 minha \u00e9poca \u00e9 que as gera\u00e7\u00f5es anteriores n\u00e3o foram melhores que as mais novas; num certo sentido foram muito piores e mais fracas. [&#8230;] mas os c\u00e3es ainda n\u00e3o eram \u2013 n\u00e3o consigo exprimi-lo de outro modo \u2013 t\u00e3o caninos<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/60-epoca-descrente#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0como hoje em dia&#8230;\u201d (KAFKA, 2002, p. 176). Atualmente, n\u00e3o obstante as tentativas de redourar o bras\u00e3o da cren\u00e7a, reinstalar o Nome-do-Pai n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel. Tornou-se dif\u00edcil situar o Outro na cultura. Como consequ\u00eancia, \u00e9 a busca de certezas que amea\u00e7a o sujeito. A descren\u00e7a \u00e9, ent\u00e3o, o destino comum dos sujeitos contempor\u00e2neos. Quase ouvir\u00edamos Kafka dizer que\u00a0<i>a ordem simb\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 mais o que foi<\/i>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Ana Helena Souza<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Michelle Sena<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BOUVERESSE, J.\u00a0<strong>Peut-on ne pas croire? Sur la verit\u00e9, la croyance et la foi<\/strong>. Marseille: Editions Agone, 2007.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1896). \u201cManuscrit K\u201d. In:\u00a0<strong>Naissance de la psychanalyse<\/strong>, Paris: PUF, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1927). \u201cO futuro de uma ilus\u00e3o\u201d. In:\u00a0<strong>Obras completas de Sigmund Freud<\/strong>. vol XXI, Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FRIEDL\u00c4NDER, S.\u00a0<strong>Kafka, po\u00e8te de la bont\u00e9<\/strong>. Paris: Seuil, 2014.<\/h6>\n<h6>GAUCHET, M.\u00a0<strong>Le d\u00e9senchantement du monde<\/strong>. Paris: Gallimard, 1985.<\/h6>\n<h6>KAFKA, F.\u00a0<i>Investiga\u00e7\u00f5es de um c\u00e3o<\/i>. In:\u00a0<strong>Narrativas do esp\u00f3lio<\/strong>. (Trad. Modesto Carone). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2002.<\/h6>\n<h6>KAFKA, F.\u00a0<strong>Oeuvres completes III<\/strong>, Bibliot\u00e8que de la Pl\u00e9iade. Paris: Gallimard, 1984.<\/h6>\n<h6>KAFKA, F.\u00a0<strong>Oeuvres completes IV<\/strong>, Bibliot\u00e8que de la Pl\u00e9iade. Paris: Gallimard, 1988.<\/h6>\n<h6>KAFKA, F.\u00a0<strong>O processo<\/strong>. (Trad. Modesto Carone). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1997.<\/h6>\n<h6>LACAN, J, (1955-56)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro III<\/strong>: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J, (1964)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro XI<\/strong>: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.<\/h6>\n<h6><strong>Le Robert, dictionnaire de la langue fran\u00e7aise<\/strong>. Paris: Dictionnaires Le Robert, 1996.<\/h6>\n<h6><strong>Le Robert, dictionnaire historique de la langue fran\u00e7aise<\/strong>, sous la direction d\u2019Alain Rey. Paris: Dictionnaires Le Robert, 1988.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cO real no s\u00e9culo XXI: Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP.\u201d, In: MACHADO, O.; RIBEIRO, V. L. A.\u00a0<strong>Um real para o s\u00e9culo XXI<\/strong>. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>SANTNER, E.\u00a0<strong>On creaturely life, Rilke, Benjamin, Sebald<\/strong>. Chicago: The University Chicago Press, 2006.cado em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir.htm\"><strong>La Cause Du D\u00e9sir<\/strong><\/a>, n\u00ba 90, jun. 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/60-epoca-descrente#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Na edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, as palavras usadas s\u00e3o \u201cc\u00e3o\u201d e \u201ccanino\u201d. A tradutora manteve a palavra \u201cc\u00ednico\u201d por causa da refer\u00eancia ao fil\u00f3sofo c\u00ednico Di\u00f3genes. O termo grego\u00a0<i>kunik\u00f3s<\/i>, que originou o termo latino\u00a0<i>cynicus<\/i>, significa \u201co que concerne a cachorro; c\u00ednico\u201d. Os fil\u00f3sofos receberam esse nome porque viviam nas ruas \u201ccomo c\u00e3es\u201d (N.T.).<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/almanaque24\/60-epoca-descrente#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Ver nota 2.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo A autora distingue descren\u00e7a de incredulidade, e mesmo de ate\u00edsmo, para mostrar que a descren\u00e7a \u2014 a falta de uma cren\u00e7a ordenadora \u2014 dos dias atuais leva ao surgimento de sujeitos que demandam certezas. Pergunta-se como a psican\u00e1lise pode responder a isso, j\u00e1 que um de seus conceitos fundamentais, a transfer\u00eancia, \u00e9 posto em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57994,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-1278","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-24","category-20","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1278"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57995,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1278\/revisions\/57995"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}