{"id":1318,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1318"},"modified":"2020-03-19T06:39:44","modified_gmt":"2020-03-19T09:39:44","slug":"um-mistico-para-a-nocao-de-gozo-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/um-mistico-para-a-nocao-de-gozo-feminino\/","title":{"rendered":"UM M\u00cdSTICO PARA A NO\u00c7\u00c3O DE GOZO FEMININO"},"content":{"rendered":"<h6>RODRIGO SANTOS DA MATTA MACHADO<\/h6>\n<h6>rsmattamachado@gmail.com<br \/>\nPsic\u00f3logo, mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG, diretor de cl\u00ednica credenciada ao Detran, psic\u00f3logo cl\u00ednico e aluno do m\u00f3dulo III do curso do IPSM\u2013MG<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong> S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz apareceu em meio \u00e0 psican\u00e1lise lacaniana como um instrumento de aux\u00edlio na transmiss\u00e3o do saber psicanal\u00edtico. Surge, portanto, nesse contexto, como um exemplo de m\u00edstico prestigiado por Lacan, que o tinha como uma pessoa dotada. Investigaram-se a obra e biografias de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, buscando conhecer algumas importantes facetas da sua vida para melhor aplica\u00e7\u00e3o desse exemplo nas elabora\u00e7\u00f5es da t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o. As facetas po\u00e9tica e m\u00edstica de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz foram \u00fateis em importantes transmiss\u00f5es do psicanalista.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> m\u00edstica, gozo n\u00e3o-todo, poesia, Lacan, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p><strong>A mystic for the notion of feminine enjoyment<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong> Saint John of the Cross has appeared within Lacanian psychoanalysis as a helpful resource in the transmission of the psychoanalytic knowledge. Saint John of the Cross emerges in such context as an example of a mystic esteemed by Lacan, who considered him to be a gifted person. The work of Saint John of the Cross, as well as a number of biographies written on him were examined, in an attempt to comprehend some of the most relevant facets of his life, and in the hopes of attaining a better application of such example in the elaborations of the sexuation table. The poetic and the mystical facets of Saint John of the Cross were useful in important teachings of the psychoanalyst.<\/p>\n<p><strong>Keywords: <\/strong>mysticism, not-all jouissance, poetry, Lacan, Saint John of the Cross.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Maltratado e abandonado, portando apenas papel e tinta no c\u00e1rcere do mosteiro Carmelita Cal\u00e7ado, em Toledo, Espanha, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz (doravante SJC) d\u00e1 voz a sua m\u00edstica e a sua po\u00e9tica. Esse importante santo da Igreja Cat\u00f3lica, amplamente conhecido no contexto religioso, suscitou o interesse de Jaques Lacan em meio \u00e0s suas elabora\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas.<\/p>\n<p>Em <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>, no decorrer das formula\u00e7\u00f5es sobre o gozo <em>n\u00e3o-todo<\/em> f\u00e1lico e sobre o lado feminino na t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o, Lacan (1972-73\/2008) menciona SJC explicitamente. O santo foi tomado, pelo psicanalista, como um representante da m\u00edstica que teria algo importante a nos informar. No entanto, justamente por SJC se tratar de um homem, essa coloca\u00e7\u00e3o teve o car\u00e1ter de exce\u00e7\u00e3o, pois as mais comuns representantes da m\u00edstica eram as mulheres, mas, como o pr\u00f3prio psicanalista franc\u00eas indicou, SJC s\u00f3 ocupou esse lugar por estar entre as \u201cpessoas dotadas\u201d (LACAN, 1972-73\/1975, p. 70, tradu\u00e7\u00e3o minha)<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Em decorr\u00eancia da import\u00e2ncia dada por Lacan ao m\u00edstico, recorri \u00e0 biografia e \u00e0 obra de SJC em busca do motivo pelo qual este se tornou um exemplo precioso, principalmente na explora\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de <em>gozo n\u00e3o-todo<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Breve biografia de SJC<\/em><\/p>\n<p>Jo\u00e3o de Yepes nasceu em 1542, na cidade de Fontiveros, Espanha. Em sua primeira inf\u00e2ncia, viveu em extrema dificuldade devido \u00e0 pobreza familiar e ao falecimento do pai e de um irm\u00e3o mais velho. Aos dez anos de idade, ingressou em um col\u00e9gio de of\u00edcios e, depois, tornou-se coroinha em um mosteiro. Aos quatorze, entrou em um hospital como enfermeiro e recolhedor de esmolas e, em consequ\u00eancia, p\u00f4de frequentar aulas de Filosofia e Gram\u00e1tica. Aos 21 anos, ingressou para a ordem dos Carmelitas.<\/p>\n<p>No momento em que estava insatisfeito com o pouco rigor das diretrizes espirituais de sua ordem, o frei teve um encontro com a carmelita Madre Teresa de Jesus (mais tarde, canonizada Santa Teresa de \u00c1vila), que lhe apresentou um projeto de reforma do Carmelo que propunha maior rigor nas diretrizes espirituais, como ele desejava. Assim, em 1568, nasceu um novo bra\u00e7o da ordem, os Carmelitas Descal\u00e7os masculino, e tamb\u00e9m Jo\u00e3o da Cruz \u2014 nome adotado por ele.<\/p>\n<p>Poucos anos ap\u00f3s o in\u00edcio da reforma, Frei Jo\u00e3o se tornou alvo de persegui\u00e7\u00e3o pelos Carmelitas Cal\u00e7ados contr\u00e1rios ao movimento, sendo sequestrado e encarcerado por duas vezes. A primeira, em 1575, foi curta, por\u00e9m violenta, gerando sequelas f\u00edsicas permanentes. A segunda, em 1577, durou oito meses e foi marcada por torturas corporais e mentais. Embora as condi\u00e7\u00f5es do c\u00e1rcere tivessem sido as piores poss\u00edveis, foi nesse per\u00edodo que surgiram as facetas mais importantes desse homem: a m\u00edstica e a po\u00e9tica. Em agosto de 1578, ele conseguiu fugir e retomou sua fun\u00e7\u00e3o como reformador. SJC faleceu em 1591, aos 49 anos.<\/p>\n<p>Em uma vida de supera\u00e7\u00e3o, SJC alcan\u00e7ou destaque como religioso e m\u00edstico, o que provavelmente contribuiu para o interesse de Lacan. Al\u00e9m desse destaque, a faceta de escritor do santo certamente fomentou a valoriza\u00e7\u00e3o desse homem por Lacan. O psicanalista, em uma compara\u00e7\u00e3o de SJC com Schreber, demonstrou um reconhecimento \u00e0 poesia do m\u00edstico:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSchreber n\u00e3o nos introduz numa dimens\u00e3o nova da experi\u00eancia. H\u00e1 poesia toda vez que um escrito nos introduz num mundo diferente do nosso, e, ao nos dar a presen\u00e7a de um ser, de uma certa rela\u00e7\u00e3o fundamental, faz com que ela se torne tamb\u00e9m nossa. A poesia faz com que n\u00e3o possamos duvidar da autenticidade da experi\u00eancia de San Juan de la Cruz, nem da de Proust ou da de G\u00e9rard de Nerval. A poesia \u00e9 cria\u00e7\u00e3o de um sujeito assumindo uma nova ordem de rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica com o mundo. N\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada disso nas <em>Mem\u00f3rias <\/em>de Schreber.\u201d (LACAN, 1955-56\/1988, p. 96).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A poesia, por proporcionar uma entrada do leitor em uma \u201cdimens\u00e3o nova da experi\u00eancia\u201d, ganhou a fun\u00e7\u00e3o de avalista de autenticidade. O processo de cria\u00e7\u00e3o da poesia pelo \u201csujeito assumindo uma nova ordem de rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica como o mundo\u201d, presente em SJC, foi, para Lacan, o ponto marcante de distin\u00e7\u00e3o entre a escrita do m\u00edstico e a de Schreber, que n\u00e3o teria o mesmo alcance. Assim, me lan\u00e7arei a conhecer melhor a faceta po\u00e9tica de SJC.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A arte po\u00e9tica de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O poeta SJC parece ter surgido, expressivamente, dentro do c\u00e1rcere, em Toledo. Sua arte po\u00e9tica pareceu socorrer o frei das ang\u00fastias, do sofrimento e do abandono vivenciados nessa ocasi\u00e3o. Ele \u201cn\u00e3o aspirava criar uma obra que perdurasse ou que tivesse ecos mais amplos. Em resumo, n\u00e3o vivia para a arte, valia-se dela\u201d (JIM\u00c9NEZ, 1991, p. 16).<\/p>\n<p>Nas poesias de SJC, \u00e9 poss\u00edvel encontrar alguns temas e ideias recorrentes. A rela\u00e7\u00e3o amorosa (amante-amado), a experi\u00eancia de \u00eaxtase, a abnega\u00e7\u00e3o, o abandono, o gozo e a dor s\u00e3o frequentemente abordados, estando SJC, em in\u00fameras passagens, como sujeito da ora\u00e7\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o feminina. Essa posi\u00e7\u00e3o pode ser observada na seguinte estrofe:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cAli me deu peito<\/p>\n<p>e me ensinou ci\u00eancia saborosa;<\/p>\n<p>e dei-me de tal jeito,<\/p>\n<p>a mim todo, ditosa:<\/p>\n<p>ali lhe prometi ser sua esposa.\u201d<\/p>\n<p>(CRUZ, 1577-1585\/1991, p. 43)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os escritos po\u00e9ticos ganham ainda mais \u00eanfase ao seguirmos a tese apresentada por Jean Baruzi (1924\/2001), que indicou que o melhor meio de aproxima\u00e7\u00e3o da m\u00edstica de SJC seria a sua poesia. Ele afirmou que o que h\u00e1 de mais original na experi\u00eancia m\u00edstica do santo se traduziu em seus primeiros cantos. Inclusive, Baruzi defendeu que SJC, por influ\u00eancia doutrinal, alterou seus escritos e poemas em um segundo momento, como se quisesse ocultar algo que, na experi\u00eancia original, estaria fora de alguns preceitos religiosos que seguia. As express\u00f5es m\u00edsticas contidas na sua po\u00e9tica seriam perturbadoras para a ordem Carmelita.<\/p>\n<p>A intimidade da experi\u00eancia m\u00edstica de SJC com sua cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica em um eu l\u00edrico feminino provavelmente sustentou o uso que Lacan fez de seu exemplo. Assim, vi tamb\u00e9m a necessidade de explorar as singularidades da m\u00edstica SJC, para que tivesse maior compreens\u00e3o sobre a no\u00e7\u00e3o pela qual estou transitando aqui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A m\u00edstica de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um m\u00edstico aspira a uma rela\u00e7\u00e3o outra, al\u00e9m da comum rela\u00e7\u00e3o entre os seres falantes. Levando em considera\u00e7\u00e3o as concep\u00e7\u00f5es mais usuais, o m\u00edstico \u00e9 aquele que leva sua vida centrado na experi\u00eancia de procura por um caminho para o Absoluto. SJC afirmava que \u201cuma alma come\u00e7a a servir a Deus at\u00e9 chegar ao \u00faltimo estado de perfei\u00e7\u00e3o<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, que \u00e9 o matrim\u00f4nio espiritual\u201d (CRUZ, 1577-91\/2002, p. 592).<\/p>\n<p>A m\u00edstica abarcaria toda uma maneira singular de viver para o alcance da uni\u00e3o com Deus. Lacan, ao afirmar que \u201cos m\u00edsticos tentaram, por seu caminho, chegar \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do gozo com o Um\u201d (1968-69\/2008, pp. 133-134), pareceu resumir teoricamente aquilo que ele entendeu sobre a experi\u00eancia m\u00edstica. A no\u00e7\u00e3o do <em>Um<\/em>, nesse contexto, ocupou o lugar que o Absoluto ou a Divindade ocupam para o m\u00edstico na sua tentativa de uni\u00e3o.<\/p>\n<p>SJC \u00e9 tamb\u00e9m conhecido como <em>Doutor do tudo e nada<\/em><a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, nome que indica a centralidade do seu ensinamento sobre o caminho que deve ser percorrido por aqueles que desejam o encontro com o divino. De modo sint\u00e9tico, Deus seria o tudo, o ser completo, aquele que sustenta toda a exist\u00eancia, e o ser humano seria a criatura que, para ter acesso ao tudo, deveria se colocar como nada, sendo a radicalidade do ato de abnega\u00e7\u00e3o o caminho principal para o encontro divino.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, Lacan indicou \u201cque a porta de entrada da experi\u00eancia m\u00edstica seja muito precisamente a extin\u00e7\u00e3o completa, radical at\u00e9 suas \u00faltimas ra\u00edzes, de todas as paix\u00f5es do amor pr\u00f3prio\u201d (1954\/2008, p. 69). Essa abnega\u00e7\u00e3o possibilitaria a uni\u00e3o do m\u00edstico com a divindade e, consequentemente, permitiria a experi\u00eancia de \u00eaxtase. Sobre o tema, afirmou SJC: \u201cEm verdade, chegando ao estado da uni\u00e3o divina, a alma goza de grande sossego em suas pot\u00eancias naturais e tem adormecido os seus \u00edmpetos e \u00e2nsias sens\u00edveis na parte espiritual\u201d (1577-91\/2002, p. 186).<\/p>\n<p>Os momentos de \u00eaxtase s\u00e3o narrados de forma impactante, e o deleite vivido durante o contato com o transcendente \u00e9 bastante intenso. Apesar do esfor\u00e7o em descrever esses encontros, pouco pode ser falado sobre eles: \u201cN\u00e3o nos \u00e9 permitido conhecer as formas mais elevadas de experi\u00eancia porque s\u00e3o muito inef\u00e1veis para poderem ser compreendidas pela intelig\u00eancia humana\u201d (BORRIELLO et al., 1998\/2003, p. 407).<\/p>\n<p>O \u00eaxtase parece guardar um mist\u00e9rio acess\u00edvel apenas para aqueles que procuraram o caminho m\u00edstico e alcan\u00e7aram essa experi\u00eancia de maneira plena. Muitas vezes os m\u00edsticos lan\u00e7am m\u00e3o do recurso po\u00e9tico para tentar transmitir a experi\u00eancia. SJC apresentou can\u00e7\u00f5es em \u00edntima liga\u00e7\u00e3o com a uni\u00e3o divina e afirmou que elas n\u00e3o poderiam ser totalmente desvendadas, pois seriam uma inspira\u00e7\u00e3o direta de Deus durante seus momentos de intimidade com Ele:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSeria, ao contr\u00e1rio, ignor\u00e2ncia supor que as express\u00f5es amorosas de intelig\u00eancia m\u00edstica, como s\u00e3o as Can\u00e7\u00f5es, possam ser explicadas com clareza por meio de palavras&#8230;<\/p>\n<p>Essas Can\u00e7\u00f5es, tendo sido compostas em amor de abundante intelig\u00eancia m\u00edstica, n\u00e3o poder\u00e3o ser explicadas completamente\u201d. (CRUZ, 1577-91\/2002, pp. 575-576).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan tamb\u00e9m pareceu perceber a dificuldade no relato do \u00eaxtase ao afirmar que \u201co testemunho essencial dos m\u00edsticos \u00e9 justamente o de dizer que eles o experimentam, mas n\u00e3o sabem nada dele\u201d (LACAN, 1972-73\/2008, p. 82).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A m\u00edstica e o gozo feminino<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, a no\u00e7\u00e3o de gozo da mulher entrela\u00e7a-se de forma relevante aos exemplos dos m\u00edsticos em suas manifesta\u00e7\u00f5es de \u00eaxtase. As narrativas desses efeitos levaram Lacan a entend\u00ea-los como um tipo de gozo <em>\u2014 <\/em>gozo da mulher ou gozo<em> n\u00e3o-todo<\/em>.<\/p>\n<p>Importa esclarecer sinteticamente que o gozo <em>n\u00e3o-todo<\/em>, no meu entendimento, \u00e9 aquele que escapa\/nega a ordem f\u00e1lica. J\u00e1 o gozo f\u00e1lico pode ser entendido como \u201catributo essencial da posi\u00e7\u00e3o masculina \u2014, concebido como um regime libidinal normatizado e, portanto, submetido aos limites estritos do significante\u201d (SANTIAGO, 2013, p. 90).<\/p>\n<p>Lacan descreveu explicitamente que o m\u00edstico, em seu \u00eaxtase, experimenta um modo pr\u00f3prio de gozo: \u201cPara a Hadewijch em quest\u00e3o, \u00e9 como para santa Tereza \u2014 basta que voc\u00eas v\u00e3o olhar em Roma a est\u00e1tua de Bernini para compreenderem logo que ela est\u00e1 gozando, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida\u201d (1972-73\/2008, p. 82). A utiliza\u00e7\u00e3o dos exemplos m\u00edsticos em meio \u00e0s elabora\u00e7\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o de gozo<em> n\u00e3o-todo<\/em> cumpre um papel elucidativo e de visualiza\u00e7\u00e3o. O psicanalista diferenciou esse gozo de outras poss\u00edveis interpreta\u00e7\u00f5es e assim exp\u00f4s, de modo sint\u00e9tico, todo seu entendimento sobre essa viv\u00eancia da m\u00edstica: \u201cEsse gozo que se experimenta e do qual n\u00e3o se sabe nada, n\u00e3o \u00e9 ele o que nos coloca na via da ex-sist\u00eancia? E por que n\u00e3o interpretar uma face do Outro, a face Deus, como suportada pelo gozo feminino?\u201d (1972-1973\/2008, p. 82). A m\u00edstica, naquilo que ela tem de indiz\u00edvel e naquilo que a aproxima de uma viv\u00eancia de um gozo feminino, articula-se definitivamente com no\u00e7\u00f5es concernentes ao plano do real. A utiliza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do exemplo de SJC nas elabora\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o acrescenta ainda mais conte\u00fado para avan\u00e7ar na compreens\u00e3o dessas articula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz e a t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na refer\u00eancia a SJC no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, Lacan o colocou em lugar de destaque por ser um exemplo precioso para a argumenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que vinha desenvolvendo. Referindo-se \u00e0 m\u00edstica, Lacan afirmou:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 algo de s\u00e9rio, sobre o qual nos informam algumas pessoas, e mais freq\u00fcentemente mulheres, ou bem gente dotada como s\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u2013 porque n\u00e3o se \u00e9 for\u00e7ado, quando se \u00e9 macho, de se colocar do lado do \uf022x\u0424x. Pode-se tamb\u00e9m colocar-se do lado do n\u00e3o-todo. H\u00e1 homens que l\u00e1 est\u00e3o tanto quanto as mulheres. Isto acontece. E que, ao mesmo tempo, se sentem l\u00e1 muito bem. Apesar, n\u00e3o digo de seu Falo, apesar daquilo que os atrapalha quanto a isso, eles entrev\u00eaem, eles experimentam a id\u00e9ia de que deve haver um gozo que esteja mais al\u00e9m. \u00c9 isto que chamamos os m\u00edsticos\u201d. (1972-73\/2008, p. 81-82).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SJC era, para Lacan, um aut\u00eantico m\u00edstico. Al\u00e9m disso, para esse psicanalista, a m\u00edstica estava intimamente ligada ao gozo<em> n\u00e3o-todo<\/em>. Por isso, SJC, inevitavelmente, ocuparia o lado da mulher na t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o. Essa t\u00e1bua, tendo uma divis\u00e3o descritiva entre o lado do homem e o da mulher, foi uma maneira de exibir o modo como os sujeitos se colocam em sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro e tamb\u00e9m com o gozo envolvido nos dois lugares. A fian\u00e7a da viv\u00eancia m\u00edstica estaria no gozo feminino, mas o referido m\u00edstico foi o exemplo maior de que n\u00e3o se trata de ser uma mulher, mas de uma posi\u00e7\u00e3o de gozo em sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Embora essa ocupa\u00e7\u00e3o no lado da mulher n\u00e3o seja para qualquer um, ela foi condicionada ao fato de SJC estar entre as \u201cpessoas dotadas\u201d (LACAN, 1972-73\/1975, p. 70, tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel concluir que o uso de SJC por Lacan, na elabora\u00e7\u00e3o sobre o lado da mulher na t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o, ganha relev\u00e2ncia, em especial, em raz\u00e3o da possibilidade de acesso \u00e0 experi\u00eancia de \u00eaxtase do santo por meio de sua poesia. Verifico, ainda, que a proximidade existente entre essa experi\u00eancia e o entendimento lacaniano sobre o gozo <em>n\u00e3o-todo<\/em> \u00e9 notada no uso espont\u00e2neo e constante pelo m\u00edstico do eu l\u00edrico na posi\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BARUZI, J. (1924) <strong>San Juan de la Cruz y el problema de la experiencia m\u00edstica<\/strong>. Junta de Castilla y Le\u00f3n: Consejer\u00eda de Educaci\u00f3n y Cultura, 2001.<\/h6>\n<h6>BORRIELLO, L.; CARUANA, E.; DEL GENIO, M.; SUFFI, N. (Dirs) (1998). <strong>Dicion\u00e1rio de m\u00edstica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Paulus: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2003.<\/h6>\n<h6>CRUZ, J. (1577-85) <strong>S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: poesias completas edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Consejer\u00eda de Educaci\u00f3n de la Embajada de Espan\u00e3, 1991.<\/h6>\n<h6>CRUZ, J. (1577-91). <strong>S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: obras completas<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2002.<\/h6>\n<h6>JIM\u00c9NEZ, F. Pref\u00e1cio. CRUZ, J. <strong>S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: poesias completas edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Consejer\u00eda de Educaci\u00f3n de la Embajada de Espan\u00e3, 1991.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1954\/2008) \u201cDo s\u00edmbolo e de sua fun\u00e7\u00e3o religiosa\u201d. <strong>O mito individual do neur\u00f3tico, ou, A poesia e a verdade na neurose<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-56) <strong>O Semin\u00e1rio, livro 3: as psicoses<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1968-69) <strong>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73) <strong>Le s\u00e9minaire de Jaques Lacan, livre XX: encore<\/strong>. Paris: \u00c9ditions du Seuil, 1975.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73) <strong>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. (2013) \u201cA plasticidade da sexua\u00e7\u00e3o feminina\u201d. <strong>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia, n. <em>65<\/em>, 2013, p. 89-92.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> No original: \u201cgens dou \u00e9s\u201d (LACAN, 1972-73\/1975, p. 70). Optei por utilizar a vers\u00e3o em franc\u00eas e traduzi-la \u00e0 minha maneira, pois a tradu\u00e7\u00e3o \u201cbem gente dotada\u201d (LACAN, 1972-73\/2008, p. 81) n\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o usual de nossa l\u00edngua.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> O estado de perfei\u00e7\u00e3o refere-se ao estado de uni\u00e3o divina.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Essa nomea\u00e7\u00e3o de SJC \u00e9 o subt\u00edtulo de uma das biografias consultadas neste trabalho.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RODRIGO SANTOS DA MATTA MACHADO rsmattamachado@gmail.com Psic\u00f3logo, mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG, diretor de cl\u00ednica credenciada ao Detran, psic\u00f3logo cl\u00ednico e aluno do m\u00f3dulo III do curso do IPSM\u2013MG Resumo: S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz apareceu em meio \u00e0 psican\u00e1lise lacaniana como um instrumento de aux\u00edlio na transmiss\u00e3o do saber psicanal\u00edtico. Surge, portanto, nesse contexto,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1318","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-25","category-21","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1318"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1318\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}