{"id":1618,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1618"},"modified":"2020-03-19T06:39:44","modified_gmt":"2020-03-19T09:39:44","slug":"o-homem-e-uma-mulher-e-o-imaginario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/o-homem-e-uma-mulher-e-o-imaginario\/","title":{"rendered":"O HOMEM E UMA MULHER E O IMAGIN\u00c1RIO"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">L\u00cdVIA SERRETTI AZZI FUCCIO<br \/>\nPsicanalista em forma\u00e7\u00e3o (Aluna do IPSM-MG), t\u00e9cnica em assuntos educacionais (IFMG).<br \/>\nMestre em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade (UNIFEI).<br \/>\nEspecialista em Elabora\u00e7\u00e3o, Gest\u00e3o e Avalia\u00e7\u00e3o de Projetos Sociais\u00a0 (UFMG). Pedagoga (UniBH).\u00a0\u00a0<span id=\"cloak2072dbe8e93b0f4f7a5900d5b31f5ecb\"><a href=\"mailto:livsazzi@gmail.com\">livsazzi@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>]<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>Este trabalho busca localizar as disjun\u00e7\u00f5es da histeria e da feminilidade no di\u00e1rio de Ana\u00efs Nin (1931\u20131932\/1986). Para tanto, ser\u00e3o demarcados tr\u00eas posicionamentos: (I) a posi\u00e7\u00e3o de Ana\u00efs diante de June, ao eleg\u00ea-la como A mulher; (II) o papel que Henry Miller encarna para Ana\u00efs, como o semblante do homem ideal; e (III) o di\u00e1rio como sintoma da elabora\u00e7\u00e3o do que fazer diante da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>Histeria, feminilidade, semblantes do feminino<strong>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This paper seeks to locate the disjunctions of hysteria and femininity in Ana\u00efs Nin&#8217;s diary (1931\u20131932\/1986). To this end, three positions will be demarcated: (I) Ana\u00efs position towards June, by electing her as The Woman; (II) Henry Miller\u2019s role for Ana\u00efs as the ideal man&#8217;s semblance; (III) the diary as a symptom of the elaboration of what to do in the face of non-sexual relations.\u00a0<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Hysteria, femininity, feminine semblance.7<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/101_-_Foto_para_texto_Livia_-_Sobre_o_peso_do_meu_corpo_-_Barbara_Schall.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"800\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1620 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/101_-_Foto_para_texto_Livia_-_Sobre_o_peso_do_meu_corpo_-_Barbara_Schall.jpg\" alt=\"\" width=\"334\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/101_-_Foto_para_texto_Livia_-_Sobre_o_peso_do_meu_corpo_-_Barbara_Schall.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/101_-_Foto_para_texto_Livia_-_Sobre_o_peso_do_meu_corpo_-_Barbara_Schall-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/><\/a>Sobre o peso do meu corpo &#8211; Barbara Schall<strong><br \/>\n<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Come\u00e7o servindo-me da frase \u201cUm homem e uma mulher e a psican\u00e1lise\u201d, que Lacan (2009) utilizou para intitular um dos cap\u00edtulos do Semin\u00e1rio 18. Ao parafrase\u00e1-lo no t\u00edtulo do presente artigo, substituo \u201cum homem\u201d por \u201co homem\u201d e \u201ca psican\u00e1lise\u201d por \u201co imagin\u00e1rio\u201d. A escolha desse t\u00edtulo se deu n\u00e3o apenas pela inspira\u00e7\u00e3o que me tirou da in\u00e9rcia para iniciar este texto, mas, sobretudo, por parecer-me adequada ao enquadramento que proponho aqui: analisar as constru\u00e7\u00f5es de Ana\u00efs Nin (1931\u20131932\/1986) acerca do feminino em\u00a0<em>Henry, June e eu: di\u00e1rios n\u00e3o expurgados 1931-1932<\/em>, no qual a autora utiliza a escrita como forma de elaborar o seu processo de tornar-se mulher.<\/p>\n<p>Cabe salientar que, em \u201cDe um discurso que n\u00e3o fosse semblante\u201d, Lacan (2009) ir\u00e1 situar o leitor em tr\u00eas cap\u00edtulos diferentes, nos quais ele destaca os seguintes enunciados: \u201cO homem e a mulher\u201d, \u201cO homem e a mulher e a l\u00f3gica\u201d e \u201cUm homem e uma mulher e a psican\u00e1lise\u201d. Dando aten\u00e7\u00e3o a isso, busquei compreender qual dessas nomea\u00e7\u00f5es seria mais apropriada para demarcar essas diferen\u00e7as, e, ainda, em que medida essas no\u00e7\u00f5es ajudam a localizar, nas descri\u00e7\u00f5es feitas no di\u00e1rio \u00edntimo de Ana\u00efs, o modo como ela tentar\u00e1 resolver o enigma do feminino, partindo da hip\u00f3tese de que o seu interesse por Henry e por June se desenvolve numa constru\u00e7\u00e3o especular de homem e mulher. Posto isso, questiono: qual homem e qual mulher ela ir\u00e1 buscar nesses personagens?<\/p>\n<p>Em \u201cO homem e a mulher\u201d, Lacan (2009) vai dizer que a mulher \u00e9 precisamente a hora da verdade para o homem, quer seja, diferentemente dos termos \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d, que demarcam a identidade de g\u00eanero, o que define o homem \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a mulher, e vice-versa. Se essa rela\u00e7\u00e3o existe, existe pela via de suporte de um semblante. No cap\u00edtulo intitulado \u201cO homem e a mulher e a l\u00f3gica\u201d, Lacan (2009) aconselha estudar a carta\/letra, destacando a estrutura de fic\u00e7\u00e3o da verdade no conto \u201cA carta roubada\u201d, de Edgar Allan Poe, na medida em que testemunha o ponto em que a fic\u00e7\u00e3o trope\u00e7a e se articula com a linguagem: a acentuada defici\u00eancia de certa promo\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o sexual. Ele diz que a rela\u00e7\u00e3o sexual fracassa ao ser inscrit\u00edvel na linguagem, precisamente porque a inscri\u00e7\u00e3o efetiva do que seria a rela\u00e7\u00e3o sexual teria que relacionar os dois polos \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d, termos estes que, em fun\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica, marcam o impasse sexual. J\u00e1 no cap\u00edtulo \u201cUm homem e uma mulher e a psican\u00e1lise\u201d, fa\u00e7o os seguintes destaques: \u00e9 num discurso que, sendo homens e mulheres, t\u00eam que se valer como tais; s\u00f3 h\u00e1 discurso de semblante, e este s\u00f3 se anuncia a partir da verdade, que, como tal, s\u00f3 pode dizer o semblante sobre o gozo.<\/p>\n<p>Neste \u00faltimo cap\u00edtulo aqui referenciado \u2014 que, na verdade, \u00e9 o cap\u00edtulo IX do Livro 18 \u2014 para designar um homem e uma mulher, juntamente com a psican\u00e1lise, Lacan enuncia a hist\u00e9rica como aquela que conjuga a verdade de seu gozo com \u201co seu saber implac\u00e1vel de que o Outro apropriado para o causar \u00e9 o falo, ou seja, um semblante\u201d (2009, p. 143). Em sequ\u00eancia, Lacan enfatiza que a hist\u00e9rica se atribui daqueles que ela finge serem detentores desse semblante, ao menos um \u2014 o qual Lacan teve necessidade de reescrever como\u00a0<em>ahomenozum<\/em>. Todavia, h\u00e1 um problema, visto que, como Lacan pontua, \u201ca hist\u00e9rica n\u00e3o \u00e9 uma mulher\u201d (2009, p. 145). Desse ponto, buscar\u00e1 saber se a psican\u00e1lise d\u00e1 acesso a uma mulher.<\/p>\n<p>N\u00e3o proponho, aqui, psicanalisar os di\u00e1rios de Ana\u00efs Nin, mas sim investig\u00e1-los, partindo dessa defini\u00e7\u00e3o negativa de histeria, j\u00e1 que a hist\u00e9rica n\u00e3o \u00e9 uma mulher, tal como aponta M\u00e1rcia Rosa (2019, p. 76): \u201ctornar-se mulher implica ter atravessado a histeria\u201d, e acrescenta: \u201cH\u00e1, portanto, uma disjun\u00e7\u00e3o entre os dois campos: da histeria e da feminilidade\u201d.<\/p>\n<p>Considerando tal distin\u00e7\u00e3o, desenvolverei este trabalho buscando localizar as disjun\u00e7\u00f5es da histeria e da feminidade nas descri\u00e7\u00f5es dos personagens Henry e June no di\u00e1rio de Ana\u00efs Nin, correspondente aos anos de 1931-1932. O enredo, embora n\u00e3o seja o motivo da an\u00e1lise, permite a organiza\u00e7\u00e3o de tr\u00eas posicionamentos. Estes, sim, motivam a presente investiga\u00e7\u00e3o, quais sejam: (I) a posi\u00e7\u00e3o de Ana\u00efs diante de June ao eleg\u00ea-la, em suas palavras, \u201ca \u00fanica mulher que j\u00e1 correspondeu \u00e0s exig\u00eancias de minha imagina\u00e7\u00e3o\u201d; (II) o papel que Henry Miller encarna para Ana\u00efs quando ela diz sobre o casal: \u201cEles dois fazem parte de mim: a mulher que age como Henry e a mulher que sonha em agir como June\u201d (1986, p. 91); e (III) o di\u00e1rio personificado como o seu fiel confidente, o sintoma de Ana\u00efs: \u201cO di\u00e1rio \u00e9 produto de minha doen\u00e7a, talvez uma acentua\u00e7\u00e3o e um exagero dela\u201d (p. 136) \u2014 \u00e9 nele que Ana\u00efs elabora suas descobertas e desordens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, \u00e9 por meio dele que vai se dando conta do imposs\u00edvel da linguagem e do que fazer diante da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto ao primeiro posicionamento, recorro ao cl\u00e1ssico caso de Freud: \u201cQuando Dora falava sobre a Sra. K, costumava elogiar seu \u2018ador\u00e1vel corpo alvo\u2019 num tom mais apropriado a um amante do que uma rival derrotada\u201d (2006, p. 65, grifos do autor). Em paralelo, cito Ana\u00efs ao referir-se a June: \u201cUm rosto surpreendentemente branco, olhos ardentes, a esposa de Henry\u201d (1986, p. 18). Em \u201cInterven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia\u201d, Lacan (1998) vai constatar, como o pr\u00f3prio Freud reconheceu, que, durante muito tempo, n\u00e3o p\u00f4de deparar com essa tend\u00eancia homossexual, t\u00e3o constante nas hist\u00e9ricas, justamente pelo preconceito em considerar a primazia do personagem paterno.<\/p>\n<p>Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2015), em \u201cA homossexualidade feminina no plural ou Quando as hist\u00e9ricas prescindem de seus homens testa de ferro\u201d, explica que a homossexualidade \u00e9 claramente indicada por Freud como um elemento-chave do caso Dora e da histeria em geral, sob a forma de tend\u00eancia inconsciente n\u00e3o culminada num ato sexual. O texto de Brousse contribui para a localiza\u00e7\u00e3o desse elemento-chave do caso Dora: \u201cO interesse homossexual de Dora pela Senhora K. decorre de sua pr\u00f3pria quest\u00e3o sobre o que \u00e9 a mulher, saber sobre o feminino que ela considera n\u00e3o ter e que ela atribui a essa Outra mulher\u201d (2015, p. 3).<\/p>\n<p>Esse elemento tamb\u00e9m pode ser destacado no interesse de Ana\u00efs por June e em suas tentativas de vincular os semblantes a algum significante de dif\u00edcil apreens\u00e3o. Por n\u00e3o ter o falo, ela busca vincular-se \u00e0quilo que ela cr\u00ea que o possua, a posi\u00e7\u00e3o masculina: \u201cNo final da noite eu era como um homem, terrivelmente apaixonado por seu corpo, que prometia tanto, e odiava o eu criado nela por outros\u201d (NIN, 1986, p. 17).<\/p>\n<p>Ana\u00efs percebia que \u201co eu de June criado nos outros\u201d nem sempre correspondia a sua June imagin\u00e1ria. Por exemplo, ao avistar June caminhando em sua dire\u00e7\u00e3o, ela indaga em seu di\u00e1rio: \u201cO homem no\u00a0<em>American<\/em>\u00a0<em>Express<\/em>\u00a0n\u00e3o v\u00ea a maravilha que ela \u00e9?\u201d (NIN, 1986, p. 20). Fatos como esse suscitaram-na a escrever: \u201cTinha medo de ficar ali exatamente como ficara em outros lugares, observando a multid\u00e3o e sabendo que nenhuma June apareceria porque June era um produto de minha imagina\u00e7\u00e3o\u201d (Ibid., p. 20).<\/p>\n<p>Em \u201cDiretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina\u201d, Lacan (1998) vai dizer que, tal como o amor cort\u00eas, que se gaba de ser quem d\u00e1 aquilo que n\u00e3o tem, \u201c\u00e9 exatamente isso que a homossexual se esmera em fazer no tocante \u00e0quilo que lhe falta\u201d. A escolha homossexual na mulher n\u00e3o \u00e9 uma escolha que elege um objeto incestuoso \u00e0s custas do seu sexo, mas sim um impasse diante do inaceit\u00e1vel de que \u201cesse objeto s\u00f3 assuma seu sexo \u00e0s custas da castra\u00e7\u00e3o\u201d. Ele prossegue: \u201cEm todas as formas, mesmo inconscientes, \u00e9 sobre a feminilidade que recai o interesse supremo\u201d (LACAN, 1998, p. 744).<\/p>\n<p>Esse interesse supremo pela feminilidade na histeria \u00e9 sintetizado por Brousse (2015), no caso Dora, pelo processo de identifica\u00e7\u00e3o estabelecido por Dora ao Sr. K ou ao seu pai:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA liga\u00e7\u00e3o com os homens, com o Senhor K. ou com seu pai resulta, portanto, de uma identifica\u00e7\u00e3o ao amor e ao desejo deles por uma mulher, que permite concluir que esta, contrariamente a ela mesma, \u00e9 uma verdadeira mulher e det\u00e9m a chave de um saber que ela n\u00e3o tem. Lacan qualifica essa posi\u00e7\u00e3o dos homens na estrutura hist\u00e9rica: s\u00e3o os \u201ctestas de ferro\u201d do sujeito hist\u00e9rico, testas de ferro de seu desejo pelo feminino. Ela deve passar por eles, pelo amor e pelo desejo deles por outra para ter acesso a uma feminilidade idealizada. O benef\u00edcio \u00e9 duplo: evitar ser ela mesma submetida \u00e0s regras que organizam a posi\u00e7\u00e3o feminina no discurso do Mestre e elevar o feminino \u00e0 dignidade de um ideal poss\u00edvel de ser universalizado. Em suma, evitar ser, por ela mesma e para ela mesma, \u201ca mulher de sua vida\u201d e, portanto, inventar uma solu\u00e7\u00e3o feminina que n\u00e3o valeria sen\u00e3o para ela mesma\u201d (Brousse, 2015, p. 3, grifos meus).<\/p>\n<p>Embasada nas invers\u00f5es dial\u00e9ticas expostas por Freud (2006) no caso Dora, destacadas e desenvolvidas em \u201cInterven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia\u201d, em\u00a0<em>Escritos<\/em>, por Lacan (1998), bem como nas contribui\u00e7\u00f5es de Brousse (2015), em \u201cA homossexualidade feminina&#8230;\u201d, e de Rosa (2019), sobre \u201cO que restou da neurose hist\u00e9rica em Dora? Histeria e feminilidade\u201d, posso afirmar, a partir do di\u00e1rio de Ana\u00efs Nin, que h\u00e1, no registro escrito da diarista, o enredo de uma escolha amorosa homossexual orientada para al\u00e9m do \u00c9dipo, quer seja, orientada pelo modo enigm\u00e1tico que a feminilidade se encarna para uma outra.<\/p>\n<p>Tanto Dora quanto Ana\u00efs colocam, respectivamente, o Sr. K e Henry como testas de ferro do desejo feminino. Assim como Dora, de acordo com Freud, \u201cinvejava o pai pelo amor da Sra. K e que n\u00e3o perdoava \u00e0 mulher amada a desilus\u00e3o que esta lhe causara\u201d (2016, p. 66), Ana\u00efs indaga em seus di\u00e1rios: \u201cSer\u00e1 que amo Henry porque me identifico com ele e com o seu amor e posse de June?\u201d (1986, p. 90). No entanto, ao que toca a identifica\u00e7\u00e3o, diferentemente de Dora, que posicionava K apenas como um intermedi\u00e1rio, e n\u00e3o como o homem com o qual ela vai sustentar um relacionamento como amante, Ana\u00efs elege Henry o semblante do homem ideal e interessa-se por investigar como ser mulher para esse homem. Para isso, tenta assumir especularmente a posi\u00e7\u00e3o masculina e, como um homem, investigar aquilo que aquela mulher tem e que interessaria a esse homem: \u201ca amaria por sua beleza enquanto ela poderia me amar como se ama um homem, por seu talento, seu desempenho, seu car\u00e1ter\u201d (NIN, 1986, p. 90-91). Trata-se, aqui, de localizar o segundo posicionamento entre a histeria e a feminilidade de Nin.<\/p>\n<p>Por fim, o \u00faltimo posicionamento de Ana\u00efs. Ainda servindo das aproxima\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as com o caso Dora, esta, enquanto paciente de Freud, apresenta uma complexidade de sintomas no corpo que o pr\u00f3prio m\u00e9dico vai correlacionar como causados pelas desordens da vida psicossocial e \u201cexpress\u00e3o dos seus mais secretos desejos recalcados\u201d (FREUD, 2016, p. 19). N\u00e3o pude localizar tais sintomas relacionados ao corpo nessa parte do di\u00e1rio sobre Henry e June, correspondente aos anos de 1931-1932. Ao que parece, os sintomas de Ana\u00efs s\u00e3o seus pr\u00f3prios escritos. \u00c9 no di\u00e1rio que Ana\u00efs Nin elabora suas quest\u00f5es sobre a sexualidade e sobre o que fazer com essa June, sua June, pela qual ela nutria, em v\u00e3o, a esperan\u00e7a de ver desmascarada. O que h\u00e1 \u00e9 apenas uma June, uma June pelo que ela \u00e9, por si mesma, e, consequentemente, v\u00ea instaurada a falta em Henry e em si pr\u00f3pria:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cOntem \u00e0 noite eu chorei. Chorei porque o processo pelo qual me tornei mulher foi doloroso. Chorei porque n\u00e3o era mais uma crian\u00e7a com a f\u00e9 cega de uma crian\u00e7a. Chorei porque meus olhos estavam abertos para a realidade \u2014 para o ego\u00edsmo de Henry, para o amor de June pelo poder, para minha criatividade insaci\u00e1vel que deve preocupar-se com outras pessoas e n\u00e3o consegue ser suficiente a si mesma\u201d (NIN, 1986, p. 177).<\/p>\n<p>Paralelamente a essas descobertas, Ana\u00efs vai arranjando, pela escrita, n\u00e3o apenas sua impot\u00eancia diante de si mesma, decorrente da castra\u00e7\u00e3o, mas, principalmente, vai tentando fazer com as palavras, intuitivamente, alguma amarra\u00e7\u00e3o para o seu gozo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>BROUSSE. M-H.\u201cA homossexualidade feminina no plural ou Quando as hist\u00e9ricas prescindem de seus homens testa de ferro\u201d 2015. Trad. M\u00e1rcia Bandeira. Dispon\u00edvel em: http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/brousse.pdf Acesso em: 18, set. 2019.<\/h6>\n<h6>Freud, S. (1905).\u00a0<strong>Fragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria<\/strong>. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0 (1951). \u201cInterven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia\u201d.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960).\u00a0<strong>Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina<\/strong>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 18<\/strong>: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.<\/h6>\n<h6>NIN, A.\u00a0<strong>Henry, June e eu<\/strong>. Di\u00e1rios n\u00e3o expurgados 1931-1932. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1986.<\/h6>\n<h6>ROSA, M. \u201cO que restou da neurose hist\u00e9rica em Dora? Histeria e feminilidade\u201d.\u00a0<strong>Por onde andar\u00e3o as hist\u00e9ricas de outrora<\/strong>. Belo Horizonte: Edi\u00e7\u00e3o da autora, 2019.<\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00cdVIA SERRETTI AZZI FUCCIO Psicanalista em forma\u00e7\u00e3o (Aluna do IPSM-MG), t\u00e9cnica em assuntos educacionais (IFMG). Mestre em Desenvolvimento, Tecnologias e Sociedade (UNIFEI). Especialista em Elabora\u00e7\u00e3o, Gest\u00e3o e Avalia\u00e7\u00e3o de Projetos Sociais\u00a0 (UFMG). Pedagoga (UniBH).\u00a0\u00a0livsazzi@gmail.com &nbsp; ] Resumo Este trabalho busca localizar as disjun\u00e7\u00f5es da histeria e da feminilidade no di\u00e1rio de Ana\u00efs Nin (1931\u20131932\/1986). Para&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-25","category-21","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1618\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}