{"id":1625,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1625"},"modified":"2020-03-19T06:39:44","modified_gmt":"2020-03-19T09:39:44","slug":"o-infamiliar-e-o-outro-mau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/o-infamiliar-e-o-outro-mau\/","title":{"rendered":"O INFAMILIAR E O OUTRO MAU"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">IVAN VITOVA JUNQUEIRA<br \/>\nPsiquiatra e psicanalista praticante, coordenador da Reuni\u00e3o Cl\u00ednica no Complexo Penitenci\u00e1rio da Parceria P\u00fablico Privada em Ribeir\u00e3o das Neves<br \/>\n<span id=\"cloakf4de7067b5fce55d1b79170c09d0d47a\"><a href=\"mailto:ivanvitova@hotmail.com\">ivanvitova@hotmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>O presente artigo \u00e9 baseado em uma pesquisa realizada com uma populac\u00e3o encarcerada, que recebe atendimento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico h\u00e1 mais de seis anos, e no qual se tenta articular os sentimentos de ang\u00fastia e terror que surgem nos atendimentos ao conceito freudiano de infamilar, assim como ao conceito de dejeto, proposto por Miller em seu texto \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d. A partir desses conceitos, \u00e9 poss\u00edvel pensar se esses sujeitos podem estar identificados ao objeto \u201ca\u201d enquanto dejeto Real.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>horror; ser falante; dejeto; infamiliar; Outro mau.<\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article is based on a research done with an incarcerated population that receives psychological and psychiatric treatment for more than six years in wich is made an attempt to articulate the feelings of anguish and terror that emerge in their stories to Freud\u2019s concept of the uncanny, as well as the concept of psychic litter proposed by Miller in his text \u201cSalvation through the litter\u201d Through theses concepts it is also possible to think if those subjets could be identified to object \u201ca\u201d as a waste of the Real.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0horror; speaking being; waste; uncanny; Other bad.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61_-_Foto_para_texto_Ivan_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"1204\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1626 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61_-_Foto_para_texto_Ivan_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-1-680x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"330\" height=\"497\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61_-_Foto_para_texto_Ivan_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-1-680x1024.jpg 680w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61_-_Foto_para_texto_Ivan_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-1-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61_-_Foto_para_texto_Ivan_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-1-768x1156.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/61_-_Foto_para_texto_Ivan_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-1.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><\/a>Coletoras &#8211; Barbara Schall<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO horror, o horror\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mau#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em \u201cO infamiliar\u201d (1919), Freud coloca que o psicanalista, em uma investiga\u00e7\u00e3o est\u00e9tica \u2014 que se ocupa, de prefer\u00eancia, dos sentimentos belos e grandiosos \u2014, pode se interessar a\u00ed por um dom\u00ednio espec\u00edfico, por algo comumente deixado de lado, negligenciado pela literatura especializada: os sentimentos contradit\u00f3rios, repugnantes e penosos. Freud coloca tamb\u00e9m que algo desse dom\u00ednio \u00e9 o \u201cinfamiliar\u201d, que diz respeito ao aterrorizante, ao que suscita ang\u00fastia e horror, seguro de que essa palavra coincide com aquilo que angustia e na espera de que exista um determinado n\u00facleo que justifique a utiliza\u00e7\u00e3o desse conceito. Passa, ent\u00e3o, a investigar o que seria esse n\u00facleo comum que permitiria diferenciar, no interior do angustiante, algo \u201cinfamiliar\u201d. Observa diversos fatores a partir dos quais o angustiante se torna assim infamiliar \u2014 como o animismo, a magia e a feiti\u00e7aria, a onipot\u00eancia de pensamentos, a rela\u00e7\u00e3o com a morte, a repeti\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria e o complexo de castra\u00e7\u00e3o \u2014 e conclui que este \u00e9 o familiar dom\u00e9stico que sofreu um recalcamento e dele retorna. O prefixo de nega\u00e7\u00e3o \u201cin-\u201d, nessa palavra, \u00e9 a marca do recalcamento, ou seja, o infamiliar designaria algo correlato ao retorno do recalcado, fonte de ang\u00fastia para o ser falante.<\/p>\n<p>Miller, digamos, retornando \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o est\u00e9tica pela via dos \u201csentimentos contradit\u00f3rios, repugnantes e penosos\u201d (FREUD, 1919, p. 31), em \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d (2010), retoma o mito de H\u00e9rcules, que, como a humanidade, teria se situado diante de uma escolha entre duas vias: \u201cE, como por uma escolha for\u00e7ada, se poderia dizer que a humanidade tivesse sempre escolhido a salva\u00e7\u00e3o pelos ideais at\u00e9 que Freud, o primeiro, lhe tenha aberto outra via, totalmente in\u00e9dita, a da salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d (MILLER, 2010, p. 1).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) o que \u00e9 o dejeto? \u00c9 o que cai, \u00e9 o que tomba quando por outro lado algo se eleva. \u00c9 o que se evacua, ou que se faz desaparecer enquanto o ideal resplandece. O que resplandece tem forma. Pode-se dizer que o ideal \u00e9 a gl\u00f3ria da forma, enquanto o dejeto \u00e9 informe. Ele prevalece sobre uma totalidade da qual ele \u00e9 s\u00f3 um peda\u00e7o, uma pe\u00e7a avulsa (MILLER, 2010, p. 1).<\/p>\n<p>Ou seja, a descoberta freudiana primeiramente foi, como se sabe, a desses dejetos da vida ps\u00edquica, do mental \u2212 que s\u00e3o o sonho, o lapso, o ato falho e, mais al\u00e9m, o sintoma, enquanto decifr\u00e1vel. Poder\u00edamos dizer ent\u00e3o que o mecanismo de recalcamento, nesse caso, marca comum, enla\u00e7a o infamiliar aos dejetos da vida ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Retornando a H\u00e9rcules e \u00e0 escolha da humanidade, falemos de uma parcela desta que, ao que parece, escolheu a via do v\u00edcio, ou seja, a do dejeto. Mais especificamente, trata-se de uma popula\u00e7\u00e3o encarcerada (CPPP Ribeir\u00e3o das Neves, MG), com a qual trabalhamos h\u00e1 mais de seis anos. Trata-se de parte dos cerca de tr\u00eas mil detentos, encaminhada para atendimento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico e como casos para supervis\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o na reuni\u00e3o cl\u00ednica devido ao intenso sofrimento mental decorrente do encarceramento. Nessa popula\u00e7\u00e3o, as caracter\u00edsticas mais marcantes s\u00e3o a precariedade simb\u00f3lica e uma hist\u00f3ria que se repete: desamparo familiar, abandono precoce da escola e in\u00edcio tamb\u00e9m precoce do uso de drogas e envolvimento com tr\u00e1fico, roubo e homic\u00eddio. Nessa cl\u00ednica, em geral, o sofrimento emerge sob a forma do horror quando o ser falante vislumbra a possibilidade de abandono, de ruptura da rela\u00e7\u00e3o com a companheira, percebida como uma maldade proposital. Emerge tamb\u00e9m quando o ser falante cr\u00ea que o Outro da institui\u00e7\u00e3o de uma &#8220;ordem rija&#8221; (LACAN, 1950, p. 131) o persegue e o prejudica intencionalmente, de algum modo. Nesses casos, na impossibilidade de matar esse Outro, o ser falante evolui com ideias de autoexterm\u00ednio ou passa ao ato na tentativa de enforcamento. Nesses momentos, a dire\u00e7\u00e3o do tratamento, constru\u00edda pela equipe cl\u00ednica em conjunto com a seguran\u00e7a, tem como base operar como o Outro m\u00ednimo na constru\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o transferencial com o ser falante em sofrimento, ou seja, construir um Outro que n\u00e3o abandona, que faz barra \u00e0 puls\u00e3o de morte e lhe abre espa\u00e7o para colocar em palavras o que o aterroriza. Para isso, muitas vezes \u00e9 necess\u00e1rio coloc\u00e1-lo em cela especial no setor de sa\u00fade, sob vigil\u00e2ncia ostensiva para evitar um suic\u00eddio, o que, \u00e0s vezes, n\u00e3o ocorre por um triz. Em geral, v\u00e3o acontecendo os atendimentos quando \u00e9 poss\u00edvel ir construindo, na rela\u00e7\u00e3o transferencial, um Outro menos persecut\u00f3rio, o que abre para a possibilidade de outros modos de amarra\u00e7\u00e3o para o ser falante al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o ao criminoso.<\/p>\n<p>Nesse trabalho cl\u00ednico, um a um, quando da emerg\u00eancia do aterrorizante, do que suscita ang\u00fastia e horror, perguntamo-nos se podemos identificar, a\u00ed, o infamiliar enquanto dejeto marcado pelo mecanismo de recalcamento. Para tentar responder a essa quest\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio nos aprofundarmos no estudo de caracter\u00edsticas comuns dessa cl\u00ednica prec\u00e1ria do simb\u00f3lico, que s\u00e3o a passagem ao ato, a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao Outro, a vontade de gozo e a aus\u00eancia de sentimentos de culpa ou responsabilidade pelos atos que motivaram a pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Diferentemente do texto de Lacan de 1950, \u201cPremissas a todo desenvolvimento poss\u00edvel da criminologia\u201d, onde este percebe o ser falante encarcerado como \u201csujeito culpado\u201d e com \u201cesperan\u00e7a de se integrar num sentido vivido\u201d (p. 131), Miller (2011), em \u201c<i>La experi\u00eancia de lo real em la cura psicoanal\u00edtica<\/i>\u201d, enla\u00e7ando o \u00faltimo ensino de Lacan a Freud, desenvolve a articula\u00e7\u00e3o entre os termos car\u00e1ter e resist\u00eancia, no qual o primeiro est\u00e1 designando elementos de personalidade do ser falante, que, apesar de patol\u00f3gicos, se expressam de modo consciente, sem culpa e como modo de gozo.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cA patologia da conduta\u201d, Miller (2011) constr\u00f3i a articula\u00e7\u00e3o entre sintoma e car\u00e1ter, desde suas origens. Cita, como os p\u00f3s-freudianos, que,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) a partir da no\u00e7\u00e3o de sintoma localizado, necessitaram introduzir o car\u00e1ter, que \u00e9 o conceito que serviu, quando a patologia se apresentou de alguma maneira assintom\u00e1tica, mas afetando o comportamento, a conduta do sujeito, o conjunto de sua vida&#8230; O conceito de car\u00e1ter foi o instrumento conceitual para estender a neurose para mais al\u00e9m do sintoma. Para Alexander, Glover, Jones e outros, o sintoma freudiano \u00e9 um enclave na personalidade do sujeito que sofre. Com respeito ao car\u00e1ter, sem d\u00favida, a quest\u00e3o \u00e9 convenc\u00ea-lo de que est\u00e1 doente, na medida em que sua conduta caracterial lhe d\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o (MILLER, 2011, p. 138).<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o, Miller, citando os tr\u00eas tipos de car\u00e1ter de Freud, presentes em \u201cAlguns tipos de car\u00e1ter encontrados no trabalho psicanal\u00edtico\u201d (1916), mais especificamente no cap\u00edtulo \u201cCriminosos em consequ\u00eancia de um sentimento de culpa\u201d, coloca que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) a origem comum \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o\u00a0<i>lust<\/i>, com o prazer ou o gozo. Ent\u00e3o no car\u00e1ter est\u00e1 em primeiro plano a satisfa\u00e7\u00e3o, a\u00a0<i>befriedigung<\/i>. E Freud nomeia car\u00e1ter ao que no sujeito n\u00e3o se satisfaz com o sintoma, o faz parecer como um modo de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, que n\u00e3o mobiliza o sintoma como mensagem ao Outro (MILLER, 2011, p. 119).<\/p>\n<p>Continua, em rela\u00e7\u00e3o a outra caracter\u00edstica dessa cl\u00ednica, citada anteriormente, a passagem ao ato, que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) o car\u00e1ter se caracteriza pelo fato de que no lugar dos sintomas se tem a\u00e7\u00f5es, atos afora na vida&#8230; Com o car\u00e1ter apontaram para algo mais arcaico que o sintoma, anterior ao est\u00e1gio de sua forma\u00e7\u00e3o, onde a puls\u00e3o se satisfaz na a\u00e7\u00e3o, que o substitui. Por isso o car\u00e1ter se apresenta como patologia da conduta (MILLER, 2011, p. 140).<\/p>\n<p>Miller continua apontando que o car\u00e1ter \u00e9, ent\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) um.a inst\u00e2ncia, uma forma\u00e7\u00e3o, um objeto, algo com que se cruza no trabalho anal\u00edtico e que precisamente o obstaculiza de uma maneira que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. E porque, se seguirmos Freud, se inscreve no trabalho anal\u00edtico como obst\u00e1culo, penso que \u00e9 leg\u00edtimo inscrever o car\u00e1ter como experi\u00eancia do real na cura anal\u00edtica. Simplesmente e conforme as indica\u00e7\u00f5es freudianas, localizaria o termo car\u00e1ter como diferente do sintoma. O sintoma \u00e9 decifr\u00e1vel e o car\u00e1ter se apresenta como o que n\u00e3o se deixa ler, onde n\u00e3o h\u00e1 intencionalidade inconsciente (MILLER, 2011, p. 112-113)<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, Miller desenvolve como Lacan, apoiando-se em artigos de Jones e Abraham sobre a ideia da base pulsional do car\u00e1ter, caminha para a quest\u00e3o do car\u00e1ter como defesa e de como isso afeta o trabalho psicanal\u00edtico como interpreta\u00e7\u00e3o: se o car\u00e1ter representa uma resist\u00eancia ao trabalho psicanal\u00edtico como interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque \u201cinteressa ao que Freud denominou no Eu e o Isso de defesa\u201d (Miller, 2011, p. 135), referindo-se ao inconsciente n\u00e3o recalcado. Defesa que difere do sintoma, por este estar diretamente conectado ao Real, \u00e0 puls\u00e3o e ao gozo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essas observa\u00e7\u00f5es, podemos retornar \u00e0 quest\u00e3o sobre o que suscita a ang\u00fastia, o horror e o aterrorizante nessa cl\u00ednica espec\u00edfica do ser falante encarcerado. Tratar-se-ia do infamiliar enquanto dejeto marcado pelo recalcamento, a saber, um dejeto enla\u00e7ado \u00e0 ordem simb\u00f3lica?<\/p>\n<p>Na nossa experi\u00eancia, o horror parece emergir no ser falante quando este se aproxima de uma experi\u00eancia singular, descrita por Miller em \u201cEfeito do retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria\u201d como uma das externalidades \u00edndices de um defeito na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida (2010, p. 18). Seria a experi\u00eancia da identifica\u00e7\u00e3o ao objeto \u201ca\u201d enquanto dejeto real, na qual o ser falante \u201cvai na dire\u00e7\u00e3o de realizar o dejeto sobre a sua pessoa, negligenciando a si mesmo ao ponto mais extremo\u201d (MILLER, 2010, p. 18), podendo chegar ao suic\u00eddio. Em outras palavras, poder\u00edamos dizer que o que causa horror \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o da possibilidade de o ser falante ocupar o lugar de objeto de gozo do Outro. Mais especificamente, de um Outro que Miller nomeou \u201cOutro Mau\u201d: \u201ctrata de um Outro que quer meu mal e tamb\u00e9m de um Outro que goza do mal que faz\u201d (2011, p. 74). Situa\u00e7\u00e3o essa que emerge quando o ser falante perde suas defesas \u2014 no caso, o enla\u00e7amento \u00e0 imagem e ao modo de gozo do bandido, que pode se defender do Outro que quer gozar dele \u2014 ou, em outras palavras, quando tem perturbado o seu car\u00e1ter enquanto defesa e modo de gozo expl\u00edcito do ser falante.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos concluir questionando se, nessa popula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de nossa pesquisa, que escolheu a \u201cvia do v\u00edcio\u201d, o mais comum seria a emerg\u00eancia do horror \u2014 n\u00e3o como \u00edndice de retorno do infamiliar, enquanto dejeto articulado ao recalcado, mas como \u00edndice de um defeito na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida \u2014 quando o ser falante se aproxima da identifica\u00e7\u00e3o ao objeto enquanto dejeto real e, ainda: n\u00e3o seria tamb\u00e9m essa a situa\u00e7\u00e3o de boa parte dos seres falantes fora do sistema prisional, na nossa civiliza\u00e7\u00e3o atual?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund (1916). \u201cAlguns tipos de car\u00e1ter encontrados no trabalho psicanal\u00edtico\u201d. In:\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/strong>. Vol XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 325.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund (1919). O Infamiliar. In:\u00a0<strong>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/strong>. Aut\u00eantica, 2019, p. 29-115.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques (1950). \u201cPremissas a Todo Desenvolvimento Poss\u00edvel da Criminologia\u201d. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. p.131.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain (2011).\u00a0<strong>La experi\u00eancia de lo real em la cura psicoanal\u00edtica<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, p. 109-145.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain (2011).\u00a0<strong>Quando el Otro es malo.\u00a0<\/strong>Buenos Aires: Paid\u00f3s, p. 74.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain (2010). \u201cEfeito do Retorno \u00e0 Psicose Ordin\u00e1ria\u201d.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online<\/strong>\u00a0ano 1 &#8211; n\u00famero 3 &#8211; Novembro de 2010.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/mau#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Coronel Walter E. Kurtz, personagem interpretado por Marlon Brando no filme\u00a0<i>Apocalypse Now<\/i>, de Francis Ford Copolla, 1979, baseado em\u00a0<i>Heart of Darkness<\/i>, de Joseph Conrad.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; IVAN VITOVA JUNQUEIRA Psiquiatra e psicanalista praticante, coordenador da Reuni\u00e3o Cl\u00ednica no Complexo Penitenci\u00e1rio da Parceria P\u00fablico Privada em Ribeir\u00e3o das Neves ivanvitova@hotmail.com &nbsp; Resumo O presente artigo \u00e9 baseado em uma pesquisa realizada com uma populac\u00e3o encarcerada, que recebe atendimento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico h\u00e1 mais de seis anos, e no qual se&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-25","category-21","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1625\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}