{"id":1630,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1630"},"modified":"2025-12-01T15:39:17","modified_gmt":"2025-12-01T18:39:17","slug":"o-estranho-familiar-uma-leitura-a-partir-de-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/o-estranho-familiar-uma-leitura-a-partir-de-freud\/","title":{"rendered":"O ESTRANHO FAMILIAR: UMA LEITURA A PARTIR DE FREUD"},"content":{"rendered":"<p>JEANNINE NARCISO<br \/>\nPsic\u00f3loga e psicanalista, especialista em Sa\u00fade Mental. Membro da EBP-MG\/ AMP.\u00a0<span id=\"cloakcb891d6948aa0f0de74e0aeb78333781\"><a href=\"mailto:jannarciso31@gmail.com\">jannarciso31@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>Este texto apresenta um ensaio de Freud, no qual aparece um novo significante, que diz respeito ao aterrorizante, ao que causa a ang\u00fastia e aponta o esmaecimento dos dom\u00ednios entre o familiar e o estrangeiro. Retoma-se a quest\u00e3o com Miller ao dizer que, para Lacan, o &#8220;infamiliar&#8221; resulta na no\u00e7\u00e3o da extimidade. Aborda-se a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a linguagem como o que faz furo no real.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>infamiliar, familiar, ang\u00fastia, linguagem, extimidade.<\/p>\n<p>The familiar stranger: a reading from Freud<\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This text presents the essay by Freud in which a new signifier appears, which concerns the terrifying, causes anguish and points to the fading of the domains between the familiar and the foreign. This text resumes the question raised by Miller once more, when he states that for Lacan, the &#8220;Unheimliche&#8221;, results in the notion of &#8220;extimit\u00e9&#8221;. The work addresses the subject&#8217;s relationship with language as being what makes a hole in reality.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>Uncanny, familiar, anguish, language, ex-timate.<\/p><\/blockquote>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81_-_Foto_para_texto_Jeaninne_-_Coletoras_-_Barbara_Schall.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"1204\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1632 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81_-_Foto_para_texto_Jeaninne_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-680x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81_-_Foto_para_texto_Jeaninne_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-680x1024.jpg 680w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81_-_Foto_para_texto_Jeaninne_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81_-_Foto_para_texto_Jeaninne_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-768x1156.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81_-_Foto_para_texto_Jeaninne_-_Coletoras_-_Barbara_Schall.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a>Coletoras &#8211; Barbara Schall<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Estranho<i>\u00a0em Freud<\/i><\/p>\n<p>O encontro com o texto de Freud se deu em tr\u00eas diferentes tradu\u00e7\u00f5es, a saber, &#8220;O estranho&#8221;, &#8220;O inquietante&#8221; e &#8220;O infamiliar&#8221; \u2014 tradu\u00e7\u00e3o esta de Ernani Chaves e Pedro Heliodoro Tavares \u2014, cujas particularidades aparecem em cada percurso de tradu\u00e7\u00e3o. No ensaio, entre outras obras, Freud cita\u00a0<i>Hamlet<\/i>, texto de Shakespeare sobre o qual a tradutora comenta: &#8220;traduzir\u00a0<i>Hamlet se\u00a0<\/i>mostra uma tarefa para sempre inacabada, infinita, aberta a novas interpreta\u00e7\u00f5es, compreens\u00f5es, tradu\u00e7\u00f5es, como \u00e9 praxe de sua leitura, da frui\u00e7\u00e3o el\u00edptica de nosso solil\u00f3quio mais insuspeito ao longo da vida: amor e morte, amor e morte&#8221; (BEBER, 2019, p. 6).<\/p>\n<p><i>Freud e o infamiliar<\/i><\/p>\n<p>Segundo Iannini, em\u00a0<i>Freud<\/i>\u00a0(2019),\u00a0<i>Das unheimliche<\/i>\u00a0\u00e9 uma palavra e um conceito; a palavra-conceito \u00e9 o t\u00edtulo do escrito de Freud. E mais: \u00e9 o nome de um sentimento aterrorizante, um dom\u00ednio desprezado pela pesquisa est\u00e9tica e o efeito da leitura de certos contos fant\u00e1sticos. Para Iannini, o que Freud pretendia era convocar o psicanalista a n\u00e3o perder de vista o real que a palavra\u00a0<i>unheimliche<\/i>\u00a0recorta. Assim, entrega um significante novo e intraduz\u00edvel, que diz respeito ao aterrorizante, ao que causa a ang\u00fastia. A equipe tradutora optou por traduzir\u00a0<i>unheimliche<\/i>, do alem\u00e3o, por um aparente neologismo, \u201cinfamiliar\u201d, e mostra que essa tradu\u00e7\u00e3o causa problema. \u201c&#8217;O infamiliar&#8217; mostra que o muro entre as l\u00ednguas n\u00e3o \u00e9 intranspon\u00edvel, mas que a passagem de uma l\u00edngua a outra exige um certo for\u00e7amento\u201d (FREUD, 2019, p. 40). \u201c\u00c9 uma marca vis\u00edvel da impossibilidade da tradu\u00e7\u00e3o perfeita\u201d (FREUD, 2019, p. 42).<\/p>\n<p>A palavra<i>\u00a0unheimliche<\/i>, usada por Freud, \u00e9 formada pelo prefixo de nega\u00e7\u00e3o\u00a0<i>un,\u00a0<\/i>um \u00edndice de castra\u00e7\u00e3o, e o adjetivo\u00a0<i>heimliche,\u00a0<\/i>que exprime aquilo que \u00e9 \u201cfamiliar e \u00edntimo<i>,\u00a0<\/i>mas que pode evocar o que \u00e9 secreto e desconhecido\u201d (FREUD, 2019, p. 205) e deriva do substantivo\u00a0<i>Heim\u00a0<\/i>(lar, morada).<\/p>\n<p>Em\u00a0<i>Freud<\/i>\u00a0(2019), Iannini aponta como fundamental, no ensaio freudiano, o movimento de descentramento subjetivo, de esmaecimento dos dom\u00ednios entre o familiar e o estrangeiro:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">como respondemos \u00e0quilo que um estrangeiro nos aporta, especialmente quando este algo \u00e9 absolutamente familiar e dom\u00e9stico para ele, mas claramente ex\u00f3tico e amea\u00e7ador, pelo menos da perspectiva de nossa suposta integridade identit\u00e1ria, que resiste a assimilar o estrangeiro. Os nexos profundos entre tradu\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica n\u00e3o tardam a aparecer (FREUD, 2019, p. 102).<\/p>\n<p><i>O infamiliar<\/i><\/p>\n<p>Para Freud (2019), o termo \u00e9 peculiar. Relaciona-se com o que \u00e9 assustador, com o que provoca medo e horror; \u00e9 aquela categoria do assustador que remete ao que \u00e9 conhecido de velho e, h\u00e1 muito, familiar. Mas, ao mesmo tempo, o infamiliar seria algo do qual nada se sabe. Freud consulta v\u00e1rios dicion\u00e1rios para buscar encontrar algum novo significado para al\u00e9m da equival\u00eancia infamiliar (n\u00e3o conhecido).<\/p>\n<p>O efeito infamiliar pode ser criado, na literatura, nos contos que colocam o leitor diante da incerteza \u201cse ele tem diante de si, uma determinada figura, uma pessoa ou um aut\u00f4mato\u201d (FREUD, 2019, p. 1012). Dessa maneira, o leitor fica com uma incerteza intelectual diante de algo que n\u00e3o sabe como abordar de fato. No conto \u201cO homem da Areia\u201d, E.T.A. Hoffmann estabeleceu essa manobra psicol\u00f3gica. O tema &#8220;O homem da Areia&#8221;, aquele que arranca os olhos das crian\u00e7as, foi considerado por Freud como central no conto. Portanto, n\u00e3o \u00e9 Ol\u00edmpia, a boneca aparentemente viva, que causa o efeito infamiliar do conto nem as elucubra\u00e7\u00f5es fantas\u00edsticas do jovem estudante Natanael.<\/p>\n<p>O sentimento do infamiliar ser\u00e1 provocado pela figura do Homem da Areia, que deve roubar os olhos e substitui o temido pai, de quem se espera a castra\u00e7\u00e3o. Na experi\u00eancia psicanal\u00edtica, aparece a ang\u00fastia da crian\u00e7a de se machucar ou de perder os olhos \u2014 que aparece tamb\u00e9m nos adultos. Tanto que existe o dizer sobre aquilo que se protege como a \u201cmenina dos olhos\u201d. O medo de ficar cego \u00e9 correlativo \u00e0 ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o, assim como, no mito de \u00c9dipo, h\u00e1 o ato punitivo de cegar a si mesmo.<\/p>\n<p>Freud investiga v\u00e1rios fatores que provocam o efeito infamiliar, e alguns desses prov\u00eam de fontes infantis e de fases espec\u00edficas do desenvolvimento do Eu. No tema do duplo, o Eu se forma e inst\u00e2ncias singulares aparecem: a \u201cconsci\u00eancia moral\u201d \u2014 contrapondo ao restante do Eu, que serve de censura ps\u00edquica \u2014 e, nos casos patol\u00f3gicos, o del\u00edrio de se ser observado.<\/p>\n<p>O fator da repeti\u00e7\u00e3o do mesmo, outra fonte do sentimento do infamiliar, aparece nos sonhos e nas situa\u00e7\u00f5es de desamparo. Freud conta algo que aconteceu com ele em uma quente tarde de ver\u00e3o, enquanto caminhava pelas ruelas de uma cidadezinha italiana, acabou voltando, por tr\u00eas vezes, a um mesmo trecho, onde haviam mulheres maquiadas debru\u00e7adas nas janelas das pequenas casas. Nesse momento, ele diz ter experimentado o sentimento do infamiliar e ficou feliz por ter renunciado a fazer outras descobertas. A repeti\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria pode derivar da vida an\u00edmica infantil e exprime a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, ligada \u00e0 natureza das puls\u00f5es.<\/p>\n<p>Freud prop\u00f5e a aproxima\u00e7\u00e3o de casos que validariam a hip\u00f3tese do infamiliar apresentando a hist\u00f3ria cl\u00ednica de um neur\u00f3tico obsessivo que quer ocupar um quarto em uma cl\u00ednica, mas este est\u00e1 ocupado por outro paciente, e ent\u00e3o diz: \u201cque ele morra de infarto\u201d (FREUD, 2019, p. 1200). Dias depois, isso ocorre. Para o paciente, foi uma viv\u00eancia \u201cinfamiliar\u201d.<\/p>\n<p>Nesse ensaio, Freud ainda cita outros fatores a partir dos quais o angustiante se torna infamiliar. Na sequ\u00eancia, faz duas observa\u00e7\u00f5es consideradas essenciais. Em primeiro lugar, que \u201ctodo afeto de uma mo\u00e7\u00e3o de sentimento \u2014 de qualquer esp\u00e9cie, transforma-se em ang\u00fastia por meio de recalques \u2014 este angustiante \u00e9 algo recalcado que retorna\u201d (FREUD, 2019, p. 1230).<\/p>\n<p>Em segundo lugar, aponta que \u201co uso da l\u00edngua permitiu que o familiar deslizasse para seu oposto, o infamiliar<i>,\u00a0<\/i>uma vez que esse infamiliar nada tem de novo ou de estranho, mas \u00e9 algo \u00edntimo \u00e0 vida an\u00edmica desde muito tempo e que foi afastado pelo processo de recalcamento\u201d (FREUD, 2019, p. 1230).<\/p>\n<p><i>O infamiliar no mundo em que a gente vive<\/i><\/p>\n<p>Em\u00a0<i>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/i>, Freud (1930\/2010) diz que, se os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos n\u00e3o tivessem acontecido, o filho n\u00e3o deixaria a cidade natal, o amigo n\u00e3o viajaria para longe e n\u00e3o precisar\u00edamos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o para acalmar a nossa inquietude. Na atualidade, a avia\u00e7\u00e3o comercial possibilitou cruzar os oceanos. Mas, ainda hoje, ser um estrangeiro, ser um imigrante, traz algo do infamiliar. Para Bassols, \u201c\u00c9 o estrangeiro (\u2026) que encarna, para cada um, um gozo estranho, segregado, alheio (&#8230;) que n\u00f3s, psicanalistas, designamos \u00e0s vezes como \u2018o real\u2019, sempre inquietante\u201d (FREUD, 1930\/2010, p. 6).<\/p>\n<p>Afinal, como o infamiliar se apresenta no mundo em que a gente vive? A fam\u00edlia moderna apresenta um estatuto extremamente reduzido; a redu\u00e7\u00e3o das solidariedades familiares deixa o sujeito desatado da sabedoria tradicional. Nos casos atendidos na cl\u00ednica, aparecem a fam\u00edlia da \u00e9poca da ci\u00eancia e tamb\u00e9m a da \u00e9poca da psican\u00e1lise, em um mundo onde o discurso da ci\u00eancia dessubjetiva o significante e introduz a universaliza\u00e7\u00e3o, desatando o sujeito da sabedoria tradicional. E o real do trauma, por sua vez, irrompe na modalidade temporal das urg\u00eancias. \u00c9 o tempo do inconsciente real, um inconsciente sem recalque, ou com pontos em que o Nome-do-pai (NP) n\u00e3o incidiu, de onde adv\u00eam os fen\u00f4menos que n\u00e3o obedecem \u00e0s leis da linguagem e cujo conte\u00fado que retorna n\u00e3o poder\u00e1 ser historiado pelo sujeito.<\/p>\n<p>Desde Freud, os psicanalistas n\u00e3o deixam de pensar o sujeito na sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem. Lacan chama de\u00a0<i>falasser\u00a0<\/i>a rela\u00e7\u00e3o do falar com o ser: \u201ca linguagem est\u00e1 ligada a alguma coisa que faz furo no real. Ali\u00e1s, a linguagem come o real\u201d (LACAN, 2007, p. 31). Portanto, uma pergunta \u00e9 formulada: como se d\u00e1 o encontro de uma crian\u00e7a que imigra com o infamiliar da linguagem? Brousse (2007) considera que o beb\u00ea n\u00e3o nasce falando, mas \u00e9 exposto \u00e0 alteridade da linguagem e ser\u00e1 um sujeito falante quando souber as palavras e puder devolv\u00ea-las ao Outro. Para o psicanalista, o encontro com a hist\u00f3ria de vida de uma crian\u00e7a se d\u00e1 a partir da entrevista inicial com os pais e ser\u00e1 no a posteriori que se ver\u00e1 como cada crian\u00e7a ressignificar\u00e1 o vivido.<\/p>\n<p>Vejamos como esse encontro ocorre atualmente: quando imigra, no primeiro ano de vida, a crian\u00e7a tem seu nome pr\u00f3prio \u2014 Tain\u00e1<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/leitura#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Lacan (2007) diz que o nome pr\u00f3prio faz tudo o que pode para se fazer mais que um S1. Se dirige rumo S2, onde se \u201cacumula o que concerne ao saber\u201d (LACAN, 2007, p. 86). A pron\u00fancia do nome da crian\u00e7a, de origem ind\u00edgena, causa a preocupa\u00e7\u00e3o dos pais. No entanto, o que provoca a ang\u00fastia \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o do real, que adv\u00e9m com o seu primeiro adoecimento, quando come\u00e7a a ir \u00e0 creche. Ou seja, quando o infamiliar emerge, o encontro com aquilo que \u00e9 invasivo convoca, no pai, a tentativa de dar um sentido, lan\u00e7ando m\u00e3o do simb\u00f3lico, para lastimar contra os malditos microrganismos \u2014 v\u00edrus e afins \u2014 e ao custo de uma vida social<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/leitura#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Quando outra crian\u00e7a se muda de pa\u00eds enquanto est\u00e1 aprendendo a falar, normalmente rompe com as rotinas com as quais tinha intimidade. Ap\u00f3s algum tempo, quando convocada, a crian\u00e7a n\u00e3o consegue falar com desenvoltura sua l\u00edngua materna nem a segunda l\u00edngua, mas, ao seu modo, diz do medo de ficar sozinha. Miller (2011, p. 15) vai dizer que \u201c<i>intimidad es estar calentito<\/i>\u201d\u00a0<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/leitura#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0e que, do lado \u00edntimo, est\u00e1 o interior mais pessoal<i>.<\/i><\/p>\n<p>Ao imigrar, uma crian\u00e7a tem que aprender uma terceira l\u00edngua, que possui certa dificuldade, mas pode n\u00e3o mostrar interesse em participar das aulas nem progredir na seria\u00e7\u00e3o escolar. Tal dificuldade pode impedir o acesso \u00e0 universidade, despertando a ang\u00fastia dos pais.<\/p>\n<p>O infamiliar faz surgir a ang\u00fastia mobilizando o sujeito quando o gozo invasivo emerge e deixa aparecer o que \u00e9 da ordem do real. O infamiliar, para Freud, toca o limite entre o interno e o externo. Para Lacan, resulta na no\u00e7\u00e3o da extimidade, isso que \u00e9 o mais interior sem deixar de ser exterior (MILLER, 2011). Segundo Miller (2011), a extimidade, o falar \u201cdo Outro de dentro\u201d, aponta para a quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, termo considerado relativamente novo, contempor\u00e2neo da revolu\u00e7\u00e3o industrial. O sujeito, ao vivenciar a perturba\u00e7\u00e3o de estabelecer-se em um pa\u00eds estrangeiro, faz c\u00e1lculos \u201cpara saber se dever\u00e1 abandonar sua l\u00edngua, suas cren\u00e7as, suas vestimentas, sua forma de falar, se trata do fato de saber em que abandonar\u00e1 o Outro gozo\u201d (MILLER, 2011, p. 55). Em psican\u00e1lise, ser um imigrante \u00e9 o estatuto do sujeito. \u201cO sujeito como tal definido por seu lugar no Outro, \u00e9 um imigrante&#8230; O problema do sujeito precisamente \u00e9 que este pa\u00eds estrangeiro \u00e9 seu pr\u00f3prio pa\u00eds\u201d (MILLER, 2011, p. 43).<\/p>\n<p>Na modernidade, com o objeto a que &#8220;<i>es tan \u00eaxtimo al sujeito como al Otro<\/i>&#8221; (MILLER, 2011, p. 22), no z\u00eanite, com o decl\u00ednio do NP, temos duas vias para pensar a ang\u00fastia trazida pelo infamiliar. Segundo S\u00e9rgio de Castro (2020), na via da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o, temos um\u00a0<i>unheimliche<\/i>\u00a0pass\u00edvel de ser interpretado e que traz a marca do NP, apreens\u00edvel pela linguagem. O sujeito sustentado pelo NP poder\u00e1 decodificar, compreender um certo mal-estar, lan\u00e7ando m\u00e3o do simb\u00f3lico. Na via da ang\u00fastia lacaniana, quando o objeto se presentifica, quando falta a falta, aparece um\u00a0<i>unheimliche,<\/i>\u00a0um real que remete ao campo do gozo, que tem algo de invasivo. O sujeito, sem a sustenta\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e sem a media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, pode se ver sem a possibilidade de dar um sentido \u00e0quilo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>BASSOLS, M.\u00a0<strong>O b\u00e1rbaro: Transtornos de linguagem e segrega\u00e7\u00e3o<\/strong>. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, S\u00e3o Paulo, n. 25\/26, 2018. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/texto2.html. Acesso em 30 out. 2019.<\/h6>\n<h6>BEBER, Bruna. (2019),\u00a0<strong>Hamlet.\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2019.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. (2007)\u00a0<strong>Objets \u00e8tranges, objets immat\u00e9riels: pourquoi Lacan inclut la voix et le regard dans la s\u00e9rie des objets freudiens?<\/strong>\u00a0Arq. bras. psicol., Rio de Janeiro, v. 59, n. 2, p. 287-293, dez. 2007. Dispon\u00edvel em: http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1809-52672007000200017. Acesso em 8 abr. 2020.<\/h6>\n<h6>CASTRO, S\u00e9rgio de. Semin\u00e1rio ministrado em Montes Claros &#8211; MG em 13 fev. 2020.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1919).\u00a0<strong>O Estranho<\/strong>. In:\u00a0<strong>Obras completas, vol. XVII.\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: Imago Editora, 1990.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1919)\u00a0<strong>O Infamiliar [<i>Das Unheimliche<\/i>] \u2013 Edi\u00e7\u00e3o comemorativa bil\u00edngue (1919-2019): Seguido de &#8220;O homem da areia&#8221; de E. T. A. Hoffmann<\/strong>. Belo Horizonte, MG: Editora Aut\u00eantica, 2019.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. \u201cO Inquietante\u201d, In:\u00a0<strong>Obras completas, v. 14<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1930) \u201cO Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, In:<strong>\u00a0Obras completas, vol. 18<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>HOFFMANN, E.T.A. \u201dO homem de areia\u201d, In:\u00a0<strong>Contos Fant\u00e1sticos do S\u00e9culo XIX<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2004.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques.\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 23:\u00a0<i>O sinthoma<\/i><\/strong><i>.\u00a0<\/i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. ,2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain.\u00a0<strong>Extimidad<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/leitura#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Nome fict\u00edcio.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/leitura#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Este texto foi escrito antes de a OMS declarar a pandemia do coronav\u00edrus, em 11 mar. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/leitura#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0&#8220;Intimidade \u00e9 estar quentinho&#8221; (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JEANNINE NARCISO Psic\u00f3loga e psicanalista, especialista em Sa\u00fade Mental. Membro da EBP-MG\/ AMP.\u00a0jannarciso31@gmail.com Resumo Este texto apresenta um ensaio de Freud, no qual aparece um novo significante, que diz respeito ao aterrorizante, ao que causa a ang\u00fastia e aponta o esmaecimento dos dom\u00ednios entre o familiar e o estrangeiro. Retoma-se a quest\u00e3o com Miller ao&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57959,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1630","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-25","category-21","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1630"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1630\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57960,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1630\/revisions\/57960"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57959"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}