{"id":1636,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1636"},"modified":"2025-12-01T15:40:10","modified_gmt":"2025-12-01T18:40:10","slug":"o-feminino-infamiliar-dizer-o-indizivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/o-feminino-infamiliar-dizer-o-indizivel\/","title":{"rendered":"O FEMININO INFAMILIAR: DIZER O INDIZ\u00cdVEL"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>ANDR\u00c9A EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA<br \/>\nPsicanalista, mestre em Psicologia pela UFMG. Membro da EBP\/AMP.\u00a0<span id=\"cloak86e1bd8f3222f3961cbb0502d65c5c23\"><a href=\"mailto:andrea.eulalio@hotmail.com\">andrea.eulalio@hotmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>Tanto a palavra quanto a experi\u00eancia do\u00a0<i>Unheimlich\u00a0<\/i>remetem a um ponto enigm\u00e1tico que \u00e9 da ordem do indiz\u00edvel e do inomin\u00e1vel, a algo irredut\u00edvel e n\u00e3o mediatizado pelo simb\u00f3lico e que n\u00e3o pode ser interpretado. Um fragmento cl\u00ednico elucida como que, no mais \u00edntimo de cada l\u00edngua familiar, existe uma l\u00edngua estranha, estrangeira, cujo encontro retorna, segundo Freud, como \u201cinquietante estranheza\u201d.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Infamiliar, inconsciente, l\u00edngua familiar, gozo.<\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong><\/p>\n<p>Both the word and the Unheimlich experience refer to an enigmatic point that is of the order of the unspeakable and the unspeakable, to something irreducible and not mediated by the symbolic and that cannot be interpreted. A clinical fragment that elucidates as if in the most intimate of each familiar language, there is a strange, foreign language whose encounter returns, according to Freud, as &#8220;disturbing strangeness&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Uncanny, unconscious, familiar language,\u00a0<i>jouissance<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71_-_Foto_para_texto_Andrea_-_Coletoras_-_Barbara_Schall.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"1204\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1637 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71_-_Foto_para_texto_Andrea_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-680x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"344\" height=\"518\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71_-_Foto_para_texto_Andrea_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-680x1024.jpg 680w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71_-_Foto_para_texto_Andrea_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71_-_Foto_para_texto_Andrea_-_Coletoras_-_Barbara_Schall-768x1156.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71_-_Foto_para_texto_Andrea_-_Coletoras_-_Barbara_Schall.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 344px) 100vw, 344px\" \/><\/a>Coletoras &#8211; Barbara Schall<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Logo de in\u00edcio, em seu famoso texto \u201c<i>Das Unheimliche<\/i>\u201d, publicado em 1919 e traduzido para o portugu\u00eas como \u201cO estranho\u201d, Freud adverte o leitor acerca das circunst\u00e2ncias sob as quais \u00e9 poss\u00edvel que o familiar se converta no lugar do mais estranho, do mais estrangeiro, do mais alheio e ignorado para cada ser falante.<\/p>\n<p>Na primeira parte desse texto, Freud (1919, p. 277) apresenta os resultados de sua pesquisa sobre o uso sem\u00e2ntico do termo\u00a0<i>heimlich<\/i>\u00a0(dom\u00e9stico, \u00edntimo, conhecido, amistoso) e de seu ant\u00f4nimo\u00a0<i>unheimlich<\/i>\u00a0(misterioso, oculto, secreto, estranho, inquietante, sinistro).<\/p>\n<p>A pesquisa sobre o uso lingu\u00edstico do termo\u00a0<i>heimlich<\/i>\u00a0revela que essa palavra n\u00e3o deixa de ser amb\u00edgua, pertencendo a dois conjuntos de ideias, as quais, mesmo n\u00e3o sendo contradit\u00f3rias, s\u00e3o muito diferentes e significam, por um lado, aquilo que \u00e9 familiar e agrad\u00e1vel e, por outro, o que est\u00e1 \u201coculto da vista\u201d (FREUD, 1919, p. 280). Freud aponta que, entre os diversos significados da palavra\u00a0<i>heimlich,\u00a0<\/i>h\u00e1 um que coincide com o seu oposto,\u00a0<i>unheimlich<\/i>, e que, de um modo ou de outro, representa uma subesp\u00e9cie de\u00a0<i>heimlich.<\/i><\/p>\n<p>Segundo Bassols (2017, p. 39), se tiv\u00e9ssemos que transpor literalmente a express\u00e3o\u00a0<i>Das Unheimliche\u00a0<\/i>para nossa l\u00edngua, seria melhor falarmos \u201co infamiliar\u201d, como se encontra agora traduzido pela Editora Aut\u00eantica (2019), \u201csendo que o \u2018in\u2019 pode ser tanto a nega\u00e7\u00e3o do familiar como tamb\u00e9m o mais interior a ela\u201d (BASSOLS, 2017, p. 39).<\/p>\n<p>A indica\u00e7\u00e3o bastante precisa de Freud, segundo a qual o exterior est\u00e1 presente no interior, vai ao encontro ao termo \u201c\u00eaxtimo\u201d, cunhado por Lacan. A estrutura da extimidade relaciona-se \u00e0 constante vacila\u00e7\u00e3o da identidade do sujeito consigo mesmo revelando o mais \u00edntimo e familiar ao sujeito como um ponto de absoluta opacidade. Esse \u201cin\u201d que se transforma em \u201cex\u201d indica que quanto maior a proximidade do familiar, mais ele se transforma em estranho. Indica que ele \u00e9, ao mesmo tempo, interior e estranho.<\/p>\n<p>Tanto a palavra quanto a experi\u00eancia do\u00a0<i>Unheimlich\u00a0<\/i>remetem-nos a um ponto enigm\u00e1tico que \u00e9 da ordem do indiz\u00edvel e do inomin\u00e1vel, a algo irredut\u00edvel e n\u00e3o mediatizado pelo simb\u00f3lico e que, por isso mesmo, n\u00e3o pode ser interpretado. Mesmo no encontro origin\u00e1rio com a l\u00edngua, Freud ressalta a dimens\u00e3o paradoxal da experi\u00eancia do\u00a0<i>Unheimlich<\/i>, na qual o encontro com o mais \u00edntimo retorna enquanto \u201cinquietante estranheza\u201d.<\/p>\n<p>Reencontraremos a part\u00edcula \u201cUn\u201d, que designa o inconsciente, presente em\u00a0<i>Das Unbewusste\u00a0<\/i>e em\u00a0\u00a0<i>Das Unheimliche<\/i>, em Lacan, (1971-1972, p.132) no \u201cUm\u201d sem Outro, sem alteridade poss\u00edvel, no \u201cUm\u201d sozinho do gozo, que faz do seio familiar a sua morada e que vem transformando a estrutura familiar cl\u00e1ssica (BASSOLS, 2017, p. 39).<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 a possibilidade de cada ser falante dar uma resposta, uma vers\u00e3o sintom\u00e1tica, nos melhores casos, a esse gozo do Um sozinho que aparece como Outro estranho e se encarna ali onde n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual entre um homem e uma mulher.<\/p>\n<p>Como encontramos a incid\u00eancia desse gozo b\u00e1rbaro, demon\u00edaco, do Um sozinho nas novas configura\u00e7\u00f5es familiares e diversidades sexuais?<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es e remodela\u00e7\u00f5es em torno da estrutura familiar, com implica\u00e7\u00f5es para o parentesco e para a filia\u00e7\u00e3o, atestam que a crian\u00e7a se tornou o fundamento da fam\u00edlia, e n\u00e3o mais o seu efeito, restando a ela escolher o seu lugar em uma diferen\u00e7a sexual que se pluralizou. Os pais se redefiniram em termos dos cuidados com a crian\u00e7a, e n\u00e3o mais em termos da diferen\u00e7a sexual, e a incid\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que possibilita o ser falante nomear-se como ser sexuado encontra-se submetida \u00e0s novas vers\u00f5es de nomea\u00e7\u00e3o e a autonomea\u00e7\u00f5es. Devemos considerar tamb\u00e9m a impossibilidade de habitar um corpo e fixar uma imagem. Enfim, uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es que t\u00eam deixado a crian\u00e7a muito mais exposta ao Um sozinho, esse Um do\u00a0<i>Un<\/i><i>heimlich<\/i>\u00a0desenla\u00e7ado do Outro, e a uma \u201cinf\u00e2ncia desregulada e disruptiva\u201d\u00a0<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/dizer-indizivel#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/sup><\/p>\n<p>A dificuldade que aparece ao tratarmos do assunto \u201cfam\u00edlia\u201d, independentemente do discurso da qual ela se depreende, j\u00e1 se encontra explicitada numa passagem de\u00a0<i>O semin\u00e1rio<\/i>,\u00a0<i>livro 23<\/i>, sobre \u201co sinthoma\u201d, na qual Lacan afirma: \u201cAchamos que dizemos o que queremos, mas \u00e9 o que quiseram os outros, mais particularmente nossa fam\u00edlia que nos fala. Escutem esse n\u00f3s como um objeto direto. Somos falados e, por cauda disso, fazemos, dos acasos que nos levam, alguma coisa de tramado\u201d (LACAN, 1975-1976, p. 158-159).<\/p>\n<p>Segundo Bassols (2017, p. 46), cada sujeito \u00e9 servo do discurso familiar, no sentido de que \u00e9 a l\u00edngua familiar que nos fala sobre aquilo que nos determina como sujeitos. Ou seja, \u00e9 a l\u00edngua dos significantes mestres fundamentais na hist\u00f3ria de cada um de n\u00f3s, os quais servem para nos identificarmos com os outros e entre os outros. Contudo, a transmiss\u00e3o simb\u00f3lica est\u00e1 marcada por um furo, que passa n\u00e3o s\u00f3 pelos significantes j\u00e1 articulados na linguagem mas, sobretudo, pela lal\u00edngua pr\u00f3pria a cada um.<\/p>\n<p>Devemos identificar, ent\u00e3o, a l\u00edngua do Outro, a fam\u00edlia do Outro, como o lugar que encarna o Outro de cada sujeito e tamb\u00e9m da crian\u00e7a. \u00c9 o estrangeiro, o b\u00e1rbaro enquanto signo daquilo que recha\u00e7amos como radicalmente diferente e que est\u00e1, ao mesmo tempo, no lugar mais familiar, mais \u00edntimo e pr\u00f3ximo de nossa realidade e da nossa forma de viv\u00ea-la.<\/p>\n<p>Em qual l\u00edngua a fam\u00edlia nos fala? Qual \u00e9 essa l\u00edngua familiar para cada um? Em qual l\u00edngua somos realmente falados pela fam\u00edlia?<\/p>\n<p>Penso que, nesse sentido, a confer\u00eancia\u00a0<i>A l\u00edngua familiar<\/i>, de Miquel Bassols, nos orienta quando diz que cada um \u00e9 um b\u00e1rbaro em sua pr\u00f3pria l\u00edngua familiar. O termo b\u00e1rbaro, tal como o termo\u00a0<i>heimlich<\/i>, comporta dois sentidos ambivalentes. Pode tanto designar o mais estranho e intrusivo para a l\u00edngua familiar quanto algo que experimentamos como um grande prazer, de acordo com nossa forma de gozar. E o analista tamb\u00e9m deve ser um b\u00e1rbaro da l\u00edngua para escutar o sujeito, ou seja, deve escutar aquilo da fam\u00edlia que o fala quando o sujeito quer falar dela.<\/p>\n<p>Para Bassols, a crian\u00e7a sempre chega \u00e0 fam\u00edlia como um verdadeiro b\u00e1rbaro inesperado, como um intruso para o casal parental. Esse dizer de Bassols pode ser elucidado em Freud quando este trata a exist\u00eancia da sexualidade infantil como um gozo perverso e polimorfo, descentrado, o qual nunca ser\u00e1 unificado, introdutor de uma dificuldade particular: n\u00e3o h\u00e1 c\u00f3digo que permita ao sujeito decifrar o que lhe ocorre, e nem mesmo a m\u00e3e ou o pai sabe muito bem o que fazer com esse gozo. Sendo assim, a crian\u00e7a encarna esse lugar do b\u00e1rbaro tanto para o adulto como para ela pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a surge como um b\u00e1rbaro na l\u00edngua familiar porque sua tagarelice \u00e9, com efeito, o tagarelar de um b\u00e1rbaro que ningu\u00e9m entende. Lacan, ao abordar esse real do gozo da l\u00edngua, nomeou esse \u201ctagarelar b\u00e1rbaro\u201d\u00a0<i>lalangue<\/i>. A m\u00e3e e o pai costumam ser os encarregados de interpretar a l\u00edngua do b\u00e1rbaro \u2014 inventada a partir das particularidades \u201clinguageiras\u201d de cada um e desprendida do compromisso com a comunica\u00e7\u00e3o \u2014, dando-lhe um sentido e supostamente civilizando a l\u00edngua familiar. \u201cO problema \u00e9 que esta l\u00edngua familiar supostamente civilizadora \u00e9 ela mesma um dialeto da l\u00edngua b\u00e1rbara do gozo perverso e polimorfo da pr\u00f3pria inf\u00e2ncia dos pais, que tamb\u00e9m foram b\u00e1rbaros em seu momento\u201d (BASSOLS, 2017, p. 46). H\u00e1, portanto, um mal-entendido inaugural e permanente que n\u00e3o cessa de se escrever entre a l\u00edngua amorosa e terna dos adultos e a l\u00edngua do gozo infantil, esse gozo opaco, indiz\u00edvel e enraizado no corpo.<\/p>\n<p>Geralmente, o melhor que pode ocorrer a\u00ed \u00e9 a crian\u00e7a fazer o seu sintoma ao se fazer representante da verdade do casal parental como \u201ca verdade do b\u00e1rbaro que est\u00e1 na origem da sua l\u00edngua familiar\u201d, tal como Lacan (1969) observou em \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d (LACAN, 1969, p. 369). Podemos tratar a no\u00e7\u00e3o de verdade no contexto familiar como aquela que implica o encontro sexual que concerne ao gozo e ao desejo do casal parental. A outra possibilidade, muito mais sinistra, \u00e9 a crian\u00e7a encarnar o objeto do fantasma materno, \u201ce n\u00e3o tem outra fun\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a de revelar a verdade desse objeto\u201d (LACAN, 1969, p. 369).<\/p>\n<p>Outro momento decisivo que envolve o Outro familiar e a l\u00edngua do Outro se d\u00e1 quando o b\u00e1rbaro se depara com o real da puberdade. Ao representar-se como ser sexuado, o sujeito se v\u00ea privado da l\u00edngua de sua inf\u00e2ncia, que sustentava sua identifica\u00e7\u00e3o e seu sentimento de vida. As modifica\u00e7\u00f5es do corpo causam um sentimento de estranheza que o adolescente enfrenta como algo intraduz\u00edvel na l\u00edngua do Outro. Quando esse ponto de apoio vacila, o sujeito se confronta com algo que faz \u201cfuro no real\u201d, reenviando-o a um vazio de significa\u00e7\u00e3o. Essa delicada passagem se converte, novamente, em um momento de mal-entendidos absolutos, incertezas e inquietudes e de uma grande confus\u00e3o de l\u00ednguas no seio familiar.<\/p>\n<p>\u201cTudo isso que foi dito nos indica que n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil discernir o que e qual \u00e9 a l\u00edngua familiar do sujeito. Sobre que linguagem, como aparato simb\u00f3lico, o ser falante elucubra para situar o real em jogo de cada l\u00edngua?\u201d (BASSOLS, p. 46).<\/p>\n<p>A seguir, apresento um fragmento de caso no qual o encontro com o real da puberdade traz consequ\u00eancias perturbadoras para a rela\u00e7\u00e3o desse sujeito com o pr\u00f3prio corpo, com a imagem e com a l\u00edngua, deixando-o exilado em seu pr\u00f3prio gozo.<\/p>\n<p><i>Esse estranho que me habita<\/i><\/p>\n<p>\u201cEle \u00e9 o \u00fanico em nossa fam\u00edlia a ter problemas\u201d. Foi desse lugar do estranho que um adolescente me foi apresentado por sua m\u00e3e em nosso primeiro encontro. A fam\u00edlia paterna do garoto \u00e9 estrangeira e os poucos contatos que ele tem com esses familiares s\u00e3o permeados pelos mal-entendidos. Ele n\u00e3o sabe dizer o porqu\u00ea de ser tratado com tamanha rispidez e intoler\u00e2ncia por seus familiares.<\/p>\n<p>Quando Lacan diz que somos filhos do mal-entendido e que somos atravessados pelos mal-entendidos que proliferam na confus\u00e3o dos la\u00e7os e das l\u00ednguas faladas entre nossos ascendentes, ele indica que, por n\u00e3o haver \u201crevela\u00e7\u00e3o ou dissolu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, resta-nos incorporar esse mal-entendido\u201d (GROISMAN, 2016, p. 47). \u00c9 isso que esse adolescente vem tratando em sua an\u00e1lise: desse gozo estranho que o acomete no corpo e que \u00e9 vivido com muita estranheza. Afinal, nada \u00e9 mais familiar e mais estranho que a experi\u00eancia do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>A cada discuss\u00e3o familiar que se v\u00ea envolvido, o garoto \u00e9 tomado por uma sensa\u00e7\u00e3o de estranheza, por um afeto que o ultrapassa, e a sua forma de responder a isso \u00e9 uma cis\u00e3o entre o eu e o corpo real de seu ser. Ele se v\u00ea vendo, como se estivesse enquadrado na cena de um filme. O mundo fica estranho \u2014 lugares e situa\u00e7\u00f5es familiares ficam diferentes \u2014, dando-lhe a sensa\u00e7\u00e3o de que ele \u201cj\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo\u201d; sua voz tamb\u00e9m lhe soa estranha, irreconhec\u00edvel, tudo fica no autom\u00e1tico, como se ele \u201cn\u00e3o mais fizesse parte da vida\u201d.<\/p>\n<p>Sabemos que o \u201ceu\u201d se sustenta em determina\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e pela extra\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0no real. A vacila\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas do sujeito consigo mesmo e a consequente perda dos pontos de refer\u00eancia imagin\u00e1rios revelam o mais \u00edntimo e familiar ao sujeito como um ponto de absoluta opacidade. Sendo assim, o lugar que o sujeito havia encontrado para si no Outro, seu lar, seu\u00a0<i>Heim<\/i>, se torna ent\u00e3o\u00a0<i>Unheim,<\/i>\u00a0estranho. Com rela\u00e7\u00e3o a esse ponto do estranhamento, Lacan afirmar\u00e1, em\u00a0<i>O semin\u00e1rio, livro 23<\/i>, que \u201cA inquietante estranheza, incontestavelmente, prov\u00e9m do imagin\u00e1rio\u201d (LACAN, 1975-1976, p. 47).<\/p>\n<p>Em uma an\u00e1lise, tentar dissolver o mal-entendido s\u00f3 o alimenta, diz Lacan. Ser\u00e1 preciso que o sujeito possa reencontrar, em sua pr\u00f3pria fala, as fontes desses mal-entendidos n\u00e3o como o que escutou ou entendeu mal, mas como aquilo que encerra em si a opacidade do desejo que lhe deu origem, deixando, assim, uma via para inven\u00e7\u00e3o (REGO, BARROS, 2016, p. 41).<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. O b\u00e1rbaro: transtornos da linguagem e segrega\u00e7\u00e3o. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<i>,\u00a0<\/i>ano 9, n. 25 e 26, mar.-jul. 2018. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_Barbaro_Transtornos_de_linguagem_e_segregacao.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/O_Barbaro_Transtornos_de_linguagem_e_segregacao.pdf<\/a>. Acesso em: 8 mar. 2020.<\/h6>\n<h6>BASSOLS, M. A l\u00edngua familiar. Op\u00e7\u00e3o lacaniana, n. 79. Confer\u00eancia apresentada no VIII Enapol, em Buenos Aires, em setembro de 2017.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cO estranho\u201d (1919). In: Freud, S. Obras completas, volume 14, S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. O infamiliar [Das Unheimliche]. \u2013 Edi\u00e7\u00e3o comemorativa bil\u00edngue (1919-2019). Obras Incompletas de Freud, Belo Horizonte: Editora Aut\u00eantica, 2019.<\/h6>\n<h6>GROISMAN, A.T. O mal-entendido que entre pelos Ouvidos. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 72, p. 47, mar. 2016.<\/h6>\n<h6>La sexuacion des enfants, 6 e Journ\u00e9e D\u2019\u00c9tude. Zapresse, n. 2. Lettre d\u2019information de L\u2019institut psychanalytique de l\u2019enfant.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Nota sobre a crian\u00e7a. (1969). In: Lacan, J.<i>,\u00a0<\/i>Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma, 1975\/1976. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior.1971-1972. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.<\/h6>\n<h6>R\u00caGO BARROS, M. R. O mal-entendido e a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<i>,<\/i>\u00a0n. 72, p. 41, mar. 2016.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/dizer-indizivel#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>La sexuacion des enfants, 6 e Journ\u00e9e D\u2019\u00c9tude.\u00a0<i>Zapresse<\/i>, n.2. Lettre d\u2019information de L\u2019Institut psychanalytique de l\u2019enfant.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; ANDR\u00c9A EUL\u00c1LIO DE PAULA FERREIRA Psicanalista, mestre em Psicologia pela UFMG. Membro da EBP\/AMP.\u00a0andrea.eulalio@hotmail.com Resumo Tanto a palavra quanto a experi\u00eancia do\u00a0Unheimlich\u00a0remetem a um ponto enigm\u00e1tico que \u00e9 da ordem do indiz\u00edvel e do inomin\u00e1vel, a algo irredut\u00edvel e n\u00e3o mediatizado pelo simb\u00f3lico e que n\u00e3o pode ser interpretado. 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