{"id":1641,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1641"},"modified":"2025-12-01T15:40:42","modified_gmt":"2025-12-01T18:40:42","slug":"a-psicose-o-infamiliar-e-o-intraduzivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/a-psicose-o-infamiliar-e-o-intraduzivel\/","title":{"rendered":"A PSICOSE, O INFAMILIAR E O INTRADUZ\u00cdVEL"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>FREDERICO FEU DE CARVALHO<br \/>\nPsicanalista. Membro da EBP-MG\/AMP<br \/>\n<strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>O infamiliar \u00e9 trabalhado por Freud como a emerg\u00eancia no campo da realidade de algo \u00edntimo e secreto, que deveria permanecer oculto, e que \u00e9 experimentado em seu oposto, ou seja, como algo estranho \u2014 infamiliar. O surgimento de alguma coisa que produz essa inquietante estranheza modifica, por um momento, nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade. \u00c9 poss\u00edvel se perguntar, por meio dessa palavra-conceito expressa por Freud, quais rela\u00e7\u00f5es aproximativas podem ser feitas entre o infamiliar, o sentimento de estranheza e a \u201cperda da realidade\u201d na psicose.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>Infamiliar; inconsciente; intraduz\u00edvel; psicose<\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The uncanny is a a word chosen by Freud to designate the emergency of something intimate and secret that should have remained hidden in the field of reality and that is experienced by the subject in its opposite form, that is, like something odd or uncanny. The emergency of something that produces this unsettling strangeness modifies, for an instant, our perception of reality. Through this word-concept proposed by Freud, one might ask what the possible relations between the uncanny and the loss of reality in psychoses are.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Uncanny; unconscious; untranslatable; psychoses<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1642\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Coletoras_Barbara_Schall.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"700\" data-large_image_height=\"1054\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1642\" class=\"wp-image-1642\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Coletoras_Barbara_Schall-680x1024.jpg\" alt=\"Coletoras - Barbara Schall\" width=\"382\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Coletoras_Barbara_Schall-680x1024.jpg 680w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Coletoras_Barbara_Schall-199x300.jpg 199w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Coletoras_Barbara_Schall.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1642\" class=\"wp-caption-text\">Coletoras &#8211; Barbara Schall<\/p><\/div>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No in\u00edcio de seu artigo \u201cO infamiliar\u201d, de 1919<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/intraduzivel#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, Freud evoca o tratamento diferenciado que a disciplina da Est\u00e9tica dedica \u00e0quelas percep\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pertencem ao campo do belo e do sublime e que, ao contr\u00e1rio, despertam a ang\u00fastia e o horror. Entre essas percep\u00e7\u00f5es, Freud se dedica a investigar como aquilo que nos \u00e9 \u00edntimo ou familiar pode surgir, em determinadas ocasi\u00f5es, como o seu oposto, ou seja, como estranho a n\u00f3s, como algo que nos \u00e9 infamiliar, provocando a ang\u00fastia. No \u00e2mbito desse artigo, gostaria de examinar o estatuto te\u00f3rico dessa palavra-conceito (<i>Begriffswortes<\/i>), como se expressa Freud, e como a emerg\u00eancia do infamiliar afeta a nossa apreens\u00e3o da realidade e os la\u00e7os sociais por ela circunscritos, na medida em que definimos a realidade como um compartilhamento de semblantes sociais. Nesse sentido, cabe perguntar que rela\u00e7\u00f5es aproximativas podemos conjecturar entre o infamiliar e o sentimento de estranheza que caracteriza a rela\u00e7\u00e3o com a realidade em algumas formas da psicose, por efeito do que Freud denomina \u201cperda da realidade\u201d, e que se reflete em falas como \u201ceu n\u00e3o me reconhe\u00e7o neste mundo\u201d ou \u201ceu n\u00e3o consigo habitar este mundo\u201d.<\/p>\n<p>O ensaio \u201cO infamiliar\u201d \u00e9 contempor\u00e2neo de \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d e de \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do eu\u201d e retoma um tema que Freud teria deixado na gaveta desde seu outro ensaio, \u201cTotem e tabu\u201d, de 1913, isto \u00e9, a sobreviv\u00eancia da vis\u00e3o animista do homem primitivo na \u00e9poca da raz\u00e3o e da ci\u00eancia. O ano de reda\u00e7\u00e3o de \u201cO infamiliar\u201d \u00e9 marcado pelo fim da Primeira Guerra Mundial e pela epidemia da gripe espanhola. A Europa estava, ent\u00e3o, assombrada por uma sucess\u00e3o de mortes, ora provocadas pelas puls\u00f5es destrutivas e pela intoler\u00e2ncia de regimes totalit\u00e1rios fundados no amor ao pai, ora pela intrus\u00e3o de um ser biol\u00f3gico invis\u00edvel que amea\u00e7ava a esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>A ang\u00fastia provocada pelo infamiliar, no entanto, n\u00e3o remete diretamente a uma ang\u00fastia real diante da imin\u00eancia da morte derivada de uma causa externa, como a guerra ou a epidemia. O infamiliar designa, antes, uma forma de manifesta\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, em geral transit\u00f3ria, associada a alguma coisa que nos \u00e9 \u00edntima e secreta, mas que, como a outra face de uma mesma moeda, surge inesperadamente no campo da realidade, quando deveria permanecer oculta. A longa medita\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica desenvolvida por Freud no segundo cap\u00edtulo desse artigo tem como objetivo mostrar o sentido antit\u00e9tico do termo alem\u00e3o\u00a0<i>Das Unheimliche<\/i>, ou seja, o fato de \u201cinfamiliar\u201d derivar de \u201ch\u00e1 muito familiar\u201d, daquilo que se tornou \u00edntimo e que, por meio de um deslocamento, passa a designar o que \u00e9 oculto ou escondido. \u00c9 essa deriva\u00e7\u00e3o que o leva a associar a ang\u00fastia do infamiliar ao retorno do recalcado inconsciente e, de uma forma gen\u00e9rica, \u00e0 sobreviv\u00eancia de cren\u00e7as primitivas e complexos infantis em nossa apreens\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Tal como ocorre no conto de Franz Kafka, \u201cA preocupa\u00e7\u00e3o do pai de fam\u00edlia\u201d, em que somos obrigados a conviver com o estranho ser chamado Odradek em nossa casa sem que possamos saber muito a seu respeito, sem que possamos captur\u00e1-lo. E, quando pensamos que ele se foi, Odradrek reaparece como que do nada, nas ocasi\u00f5es mais ins\u00f3litas, para nos lembrar de que n\u00e3o somos senhores em nossa pr\u00f3pria casa; que somos habitados pelo estrangeiro em n\u00f3s mesmos, apesar de nosso narcisismo original querer afirmar sempre o contr\u00e1rio, isto \u00e9, que, em nossa casa, somos soberanos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista fenomenol\u00f3gico, o sentimento do infamiliar pode ser comparado a outras formas de desencadeamento da ang\u00fastia, como o susto, o medo e o p\u00e2nico<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/intraduzivel#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, levando-se em conta, por exemplo, a sua dimens\u00e3o temporal, a sua intensidade ou as condi\u00e7\u00f5es de sua irrup\u00e7\u00e3o. Freud busca discernir, nesse ensaio, o tra\u00e7o diferencial do infamiliar reivindicando uma leitura psicanal\u00edtica desse fen\u00f4meno, o que culmina na aproxima\u00e7\u00e3o entre o infamiliar e o recalcado.<\/p>\n<p>O que distingue o sentimento do infamiliar da ang\u00fastia, em geral, no campo de nossas percep\u00e7\u00f5es, \u00e9 a emerg\u00eancia de alguma coisa que produz uma inquietante estranheza, que \u201cdesrealiza\u201d, por um momento, por assim dizer, nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade. Segundo Freud, a rela\u00e7\u00e3o com a realidade depende de uma opera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica: a substitui\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do prazer pelo princ\u00edpio de realidade, obtida gra\u00e7as \u00e0 moeda de troca da fantasia. A fim de que a realidade possa ser adequadamente enquadrada e funcionar como um semblante, \u00e9 preciso que o objeto de gozo seja localizado na fantasia, e n\u00e3o no campo da realidade. Lacan nomeia essa opera\u00e7\u00e3o \u201cextra\u00e7\u00e3o do objeto\u201d. Em termos freudianos, a extra\u00e7\u00e3o do objeto do campo da realidade equivale, portanto, \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o da fantasia inconsciente, ou seja, \u00e0 configura\u00e7\u00e3o de uma\u00a0<i>Outra cena<\/i>, gra\u00e7as ao investimento de objeto na fantasia, como condi\u00e7\u00e3o para que a cena do mundo, sustentada pelo princ\u00edpio de realidade, possa operar adequadamente.<\/p>\n<p>O artigo \u201cA nega\u00e7\u00e3o\u201d, de 1925<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/intraduzivel#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, nos permite esclarecer em que consiste essa extra\u00e7\u00e3o do objeto do campo da realidade. A tese de Freud, depois retomada por Lacan, sustenta que a realidade deve ser enquadrada pelo sujeito, n\u00e3o sendo, portanto, uma simples extens\u00e3o de nossos sentidos. Freud sugere que as nossas primeiras cis\u00f5es ps\u00edquicas, influenciadas pelo \u201cEu prazer\u201d, modelam o campo da realidade incorporando ao Eu as representa\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis, ao passo que as representa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis s\u00e3o exclu\u00eddas do Eu e se tornam, ent\u00e3o, hostis a ele. Tal distor\u00e7\u00e3o ser\u00e1 depois corrigida pela evolu\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do princ\u00edpio de realidade, que imp\u00f5e uma vis\u00e3o mais ajustada e menos vinculada ao princ\u00edpio do prazer em nossa apreens\u00e3o da realidade. Mas o princ\u00edpio de realidade incide sobre um real j\u00e1 modelado, segundo a disposi\u00e7\u00e3o inicial do \u201cEu prazer\u201d, ou seja, por uma exclus\u00e3o prim\u00e1ria que recorta determinada regi\u00e3o do real como inassimil\u00e1vel, fora do campo da representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse artigo de 1925, Freud distingue a nega\u00e7\u00e3o que caracteriza o recalque (<i>Verdr\u00e4gung<\/i>) \u2014 que afeta as representa\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas inconscientes \u2014 daquela que resulta em exclus\u00e3o do Eu \u2014 opera\u00e7\u00e3o \u00e0 qual ele deu o nome de\u00a0<i>Ausstossung\u00a0<\/i>\u2014, que se refere a um n\u00facleo real que permanece estranho a ele pelo fato de n\u00e3o se vincular a nenhuma representa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, mesmo que recalcada. Para tratarmos das rela\u00e7\u00f5es entre o infamiliar e a psicose, ter\u00edamos que nos reportar a essa primeira diferencia\u00e7\u00e3o. De fato, se, na neurose, podemos remeter o infamiliar ao recalcado inconsciente, \u00e0quilo do qual o neur\u00f3tico nada quer saber, mas que surge no campo da realidade como uma intromiss\u00e3o da\u00a0<i>Outra cena<\/i>\u00a0na cena do mundo, na psicose, por sua vez, o infamiliar parece habitar o pr\u00f3prio campo da realidade pelo fato desta n\u00e3o estar enquadrada pela fantasia.<\/p>\n<p>No entanto, apesar de Freud associar, na terceira parte de seu ensaio, o infamiliar e o recalcado, o infamiliar n\u00e3o \u00e9 tratado ali como uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente t\u00edpica, vinculada \u00e0 estrutura da linguagem e condensadora de sentidos (<i>Sinn<\/i>). O infamiliar evoca, ao contr\u00e1rio, uma forma inabitual do retorno do recalcado, sendo mais pr\u00f3ximo do retorno no real que caracteriza a psicose. De fato, o tipo de fen\u00f4meno que interessa a Freud investigar em \u201cO infamiliar\u201d n\u00e3o se estrutura a partir do retorno da cadeia significante, mas da presen\u00e7a de um objeto que se comporta como um signo de gozo, como \u00edndice de\u00a0<i>um real<\/i>, ou seja, que n\u00e3o se estrutura a partir da cadeia significante do sintoma como uma forma\u00e7\u00e3o de compromisso, mas como algo intrusivo, como uma emerg\u00eancia de\u00a0<i>um real<\/i>\u00a0que retorna desde\u00a0<i>fora<\/i>.<\/p>\n<p>Esse \u00edndice do real, se tomamos como paradigma a neurose, tem como referente (<i>Bedeutung<\/i>) o\u00a0<i>objeto<\/i>\u00a0da fantasia, ou seja, o n\u00facleo real que a fantasia encapsula com sua vestimenta significante e cuja presen\u00e7a no campo da realidade suscita ang\u00fastia, borrando a fronteira entre a cena do mundo e a\u00a0<i>Outra cena<\/i>. Trata-se aqui da emerg\u00eancia real de um objeto que havia sido extra\u00eddo do campo da realidade, que volta a se apresentar onde deveria faltar para que ent\u00e3o pudesse causar o desejo na neurose, no lugar da falta que condicionou a constru\u00e7\u00e3o da cena do mundo e o enquadre da realidade devido \u00e0 extra\u00e7\u00e3o do objeto e do seu investimento na fantasia inconsciente.<\/p>\n<p>\u00c9 essa presen\u00e7a no real de um signo de gozo que satura o campo da realidade na psicose, conferindo-lhe uma aura de estranheza. A \u201cperda da realidade\u201d na psicose, evocada por Freud em 1924, na esteira das reformula\u00e7\u00f5es de sua segunda t\u00f3pica, \u00e9 uma consequ\u00eancia dessa satura\u00e7\u00e3o, se definimos o enquadramento da realidade a partir da extra\u00e7\u00e3o do objeto da fantasia. A percep\u00e7\u00e3o da realidade, assim como o la\u00e7o social, pressup\u00f5e o esvaziamento do gozo e sua redu\u00e7\u00e3o ao objeto\u00a0<i>a<\/i>, ou seja, ao objeto da fantasia que condensa, condiciona e particulariza esse gozo, que passa, assim, ao inconsciente. Quando o psic\u00f3tico se queixa de estar ouvindo vozes ou de estar sendo olhado, perseguido ou vigiado, ele testemunha, justamente, a presen\u00e7a excessiva do objeto voz e do objeto olhar, que perturbam a rela\u00e7\u00e3o com a realidade. A perplexidade da \u201cviv\u00eancia delirante prim\u00e1ria\u201d, descrita pela psiquiatria cl\u00e1ssica, poderia ser, nesse sentido, comparada ao infamiliar generalizado e radicalizado que aponta para a presen\u00e7a de um signo de gozo no campo perceptivo que desencadeia a ang\u00fastia e provoca o desmoronamento do sentido que suportava, para o sujeito em quest\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Podemos sustentar que a ang\u00fastia suscitada por um filme de suspense ou de terror depende, igualmente, da expectativa de intromiss\u00e3o do infamiliar na realidade. Mas essa intromiss\u00e3o do infamiliar na realidade est\u00e1 resguardada pela fic\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. Os efeitos assustadores de um filme de terror ou de suspense dependem da evoca\u00e7\u00e3o de formas t\u00edpicas do estranho que povoam o nosso imagin\u00e1rio, como os fen\u00f4menos de duplica\u00e7\u00e3o, de anima\u00e7\u00e3o de seres inanimados, de ressuscita\u00e7\u00e3o de mortos ou, ainda, de emerg\u00eancia desmedida do gozo do Outro, que deveria permanecer aplacado pelas exig\u00eancias da civiliza\u00e7\u00e3o que garantem a manuten\u00e7\u00e3o dos semblantes discursivos. A ang\u00fastia em um filme de terror ou suspense se nutre, portanto, da expectativa do surgimento de um objeto na cena ficcional cuja falta permanece resguardada no campo da realidade gra\u00e7as \u00e0 estrutura discursiva do la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Essa estrutura discursiva se imp\u00f5e a todo ser falante e tem como condi\u00e7\u00e3o a ren\u00fancia ao gozo e o recalcamento daquelas representa\u00e7\u00f5es que se vinculam ao gozo interdito. Como efeito dessa ren\u00fancia, o gozo interdito prolifera no inconsciente. Devido \u00e0 estrutura de linguagem que caracteriza o inconsciente, a ang\u00fastia pode, por exemplo, ser condensada em um objeto f\u00f3bico, com a conhecida prolifera\u00e7\u00e3o de sentidos dessa forma\u00e7\u00e3o do inconsciente e com a ajuda da qual se torna poss\u00edvel delimitar, no campo da realidade, aquilo que se deve evitar ou aquilo de que se deve defender. A fobia \u00e9, nesse sentido, uma forma suplementar de extra\u00e7\u00e3o do objeto do campo da realidade que visa compensar as fragilidades do Nome-do-pai para levar a bom termo a interdi\u00e7\u00e3o do gozo e sua redu\u00e7\u00e3o inconsciente \u00e0 fantasia.<\/p>\n<p>Em uma vertente paralela, ter\u00edamos o objeto fetiche da fantasia perversa, que localiza a vontade de gozo do sujeito tamponando, ao mesmo tempo, o furo da castra\u00e7\u00e3o. Uma das diferen\u00e7as evidentes entre o objeto f\u00f3bico e o objeto fetiche pode ser assim formulada: na fobia, observamos a transmuta\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica da ang\u00fastia em medo a partir do trabalho metaf\u00f3rico e meton\u00edmico do inconsciente sobre o gozo, que leva \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do objeto f\u00f3bico; no fetichismo, ao contr\u00e1rio, o trabalho do inconsciente, como uma esp\u00e9cie de met\u00e1fora estancada, se det\u00e9m diante de um objeto que desmente a castra\u00e7\u00e3o e que captura a vontade de gozo do sujeito.<\/p>\n<p>O objeto que podemos qualificar como\u00a0<i>infamiliar<\/i>\u00a0se distingue, por sua vez, tanto do objeto fetiche, que captura a vontade de gozo de um sujeito, quanto do objeto f\u00f3bico, ao qual podemos atribuir o \u201cquerer dizer\u201d que caracteriza as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. O infamiliar designa um objeto intraduz\u00edvel, n\u00e3o recoberto pela vestimenta da cadeia significante, embora possamos referi-lo ao modo singular de gozo de um\u00a0<i>falasser<\/i>. Nada se pode dizer do olhar vivificado da boneca Olympia, no conto de E.T.A. Hoffmann, comentado por Freud em seu artigo, a n\u00e3o ser que esse olhar obseda o personagem Nathanael. Olympia nada diz a Nathanael a n\u00e3o ser um balbucio, um rudimento de linguagem em tom de assentimento, sem que se possa atribuir a esse rudimento um valor metaf\u00f3rico ou meton\u00edmico. O objeto infamiliar poderia ser tomado, nesse sentido, como fora do simb\u00f3lico \u2014 embora ele possa ser associado, eventualmente, ao recalcado \u2014, na medida em que ele retorna no real sem a moldura da fantasia. Esse retorno no real, t\u00e3o caracter\u00edstico da psicose, acontece aqui sem se vincular a uma estrutura definida. O que \u00e9 uma regra na psicose pode, assim, ser observado como uma conting\u00eancia na neurose. Em outros termos, o valor conceitual do infamiliar consiste em demonstrar uma forma transestrutural do retorno no real que transtorna, mesmo que de maneira contingente, nossa apreens\u00e3o da realidade e os semblantes sociais a ela referidos.<\/p>\n<p>Em suma, na psicose, o infamiliar parece potencialmente associado ao desencadeamento da ang\u00fastia em fun\u00e7\u00e3o do encontro no real de um signo de gozo que n\u00e3o se ligou a uma representa\u00e7\u00e3o inconsciente. Por essa raz\u00e3o, o campo da realidade se mostra, nas psicoses, envolto em uma aura de estranheza generalizada, mais dif\u00edcil de enquadrar, mais amea\u00e7ado pela onipresen\u00e7a do signo de gozo n\u00e3o desdobrado na cadeia significante da fantasia. O mundo na psicose \u00e9 um mundo infamiliar, por assim dizer, na medida em que aquilo que foi uma vez exclu\u00eddo do Eu n\u00e3o encontrou seu retorno pela via da fantasia inconsciente e permaneceu inassimil\u00e1vel. Na neurose, ter\u00edamos que associar o infamiliar \u00e0 possibilidade de o objeto da fantasia se apresentar inesperadamente onde deveria faltar, ou seja, de forma desvinculada da fic\u00e7\u00e3o da fantasia, sem o suporte da cadeia significante, na modalidade da\u00a0<i>disjun\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0que articula, entre outras possibilidades \u2014 conforme o matema lacaniano da fantasia $ &lt;&gt; a \u2014, o sujeito barrado e o objeto.<\/p>\n<p>Visto a partir da perspectiva do infamiliar, o tratamento das psicoses vai ao encontro daquilo que as solu\u00e7\u00f5es psic\u00f3ticas evidenciam, ou seja, que esse objeto pode ser, por vezes, encapsulado ou, conforme a analogia lacaniana, posto no bolso. Isso n\u00e3o corresponde a uma \u201cexternalidade-interna\u201d do objeto, como poder\u00edamos esperar do investimento na fantasia inconsciente que faz desse objeto a causa do desejo na neurose. O objeto no bolso designa, na terminologia lacaniana, o objeto do qual o psic\u00f3tico n\u00e3o se separa, ao qual ele permanece aderido, e que retorna no real como o signo da presen\u00e7a desse gozo inassimil\u00e1vel e para sempre intraduz\u00edvel. Mas a possibilidade de coloc\u00e1-lo no bolso pode ser pensada, no tratamento da psicose, como uma maneira de circunscrever esse objeto, seja atrav\u00e9s de uma constru\u00e7\u00e3o delirante, ou de um objeto de arte, seja atrav\u00e9s de alguma outra inven\u00e7\u00e3o que possa operar como uma forma de supl\u00eancia para a n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o do objeto e que lhe permita minimamente enquadrar a realidade, ou seja, proteger a realidade da presen\u00e7a insidiosa do gozo intraduz\u00edvel, que torna o mundo t\u00e3o infamiliar.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cO infamiliar\u201d In: Obras Incompletas de S. Freud, v. 8. Belo Horizonte: Ed. Aut\u00eantica, 2019. p. 27-115.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. \u201cA perda da realidade na neurose e na psicose\u201d. In: Obras Incompletas de S. Freud. v. 5. Belo Horizonte: Ed. Aut\u00eantica, 2016. p. 279-284.<\/h6>\n<h6>KAFKA, Franz. \u201cA Preocup\u00e7\u00e3o do Pai de Fam\u00edlia\u201d. In:\u00a0<i>Um M\u00e9dico Rural \u2013 pequenas narrativas<\/i>. Trad. Modesco Carone. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 1999<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/intraduzivel#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o proposta para\u00a0<i>Das Unheimliche<\/i>\u00a0pelo editor e tradutores das Obras Incompletas de Sigmund Freud da Editora Aut\u00eantica.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/intraduzivel#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0O susto evoca a irrup\u00e7\u00e3o de uma ang\u00fastia s\u00fabita diante de um perigo tomado como real, mesmo que depois ele se mostre imagin\u00e1rio; o medo remete a uma expectativa angustiante diante de um perigo, real ou imagin\u00e1rio, que poder\u00e1 emergir a qualquer momento no campo perceptivo, associado a um determinado acontecimento ou objeto, que tanto podem ser verdadeiros como imagin\u00e1rios; o p\u00e2nico evoca uma ang\u00fastia desencadeada como um perigo iminente, sem que o acontecimento ou o seu objeto possam ser claramente circunscritos no campo da realidade.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/intraduzivel#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0FREUD, S. \u201cA nega\u00e7\u00e3o\u201d. In:\u00a0<i>Obras Incompletas de S. Freud, v. 5. Belo Horizonte: Ed. Aut\u00eantica, 2016, p. 305-310.<\/i><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; FREDERICO FEU DE CARVALHO Psicanalista. Membro da EBP-MG\/AMP Resumo O infamiliar \u00e9 trabalhado por Freud como a emerg\u00eancia no campo da realidade de algo \u00edntimo e secreto, que deveria permanecer oculto, e que \u00e9 experimentado em seu oposto, ou seja, como algo estranho \u2014 infamiliar. 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