{"id":1648,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1648"},"modified":"2025-12-01T15:42:29","modified_gmt":"2025-12-01T18:42:29","slug":"os-dias-do-unheimlich-familiar1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/os-dias-do-unheimlich-familiar1\/","title":{"rendered":"OS DIAS DO\u00a0UNHEIMLICH\u00a0 FAMILIAR[1]"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>MARIANA SCHWARTZMAN<br \/>\nPsicanalista. Membro da Escola de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana EOL\/AMP<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo<br \/>\n<\/strong>Esta cr\u00f4nica relaciona a epidemia do coronav\u00edrus e suas consequ\u00eancias na vida cotidiana ao conceito freudiano de infamiliar [<em>Unheimlich<\/em>] e ao conceito de extimidade, proposto por Jacques-Alain Miller. Esses conceitos s\u00e3o abordados enquanto uma chave de leitura poss\u00edvel do momento atual e de seus efeitos infamiliares em cada sujeito, na sua rela\u00e7\u00e3o com o que lhe seria mais familiar: sua casa.<strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>estranho; familiar; infamiliar; extimidade; coronav\u00edrus<strong>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0This chronicle refers to the coronavirus epidemic and its consequences in everyday life as a freudian concept of\u00a0<em>Unheimlich<\/em>\u00a0and as a concept proposed by Jacques-Alain Miller of ex-timete. These concepts are approached as a possible reading key for the current moment and its effects, uncanny, on each subject in their relationship with what would be most familiar to them: their home.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>strange, familiar, uncanny; ex-timate; coronavirus.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1649\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41_-_Foto_para_texto_Mariana_Schwartzman_-_Posso_me_ver_nos_teus_olhos-_Barbara_Schall.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"700\" data-large_image_height=\"469\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1649\" class=\"wp-image-1649\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41_-_Foto_para_texto_Mariana_Schwartzman_-_Posso_me_ver_nos_teus_olhos-_Barbara_Schall.jpg\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41_-_Foto_para_texto_Mariana_Schwartzman_-_Posso_me_ver_nos_teus_olhos-_Barbara_Schall.jpg 700w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41_-_Foto_para_texto_Mariana_Schwartzman_-_Posso_me_ver_nos_teus_olhos-_Barbara_Schall-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1649\" class=\"wp-caption-text\">Posso me ver nos teus olhos- Barbara Schall<\/p><\/div>\n<p>Posso me ver nos teus olhos- Barbara Schall<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como, desde que nasci, falo alem\u00e3o, sempre senti esse conceito bastante \u201cfamiliar\u201d. Mas isso tem o problema de, \u00e0s vezes, acreditarmos compreend\u00ea-lo demais. At\u00e9 que algo \u201cexterior\u201d irrompe e se faz necess\u00e1rio revis\u00e1-lo um pouco. Foi a partir da irrup\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus e da quarentena que voltei a ler o texto de Freud (1919\/2019) \u201cO infamiliar\u201d, para tentar articul\u00e1-lo de algum modo com o que acontece no momento atual.<\/p>\n<p>Freud escreve esse artigo em 1919. Com o\u00a0<i>Unheimlich<\/i>, refere-se ao familiar que se torna aterrorizante, sinistro. Ao realizar uma investiga\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica sobre esse voc\u00e1bulo em diferentes dicion\u00e1rios, descobre-se que\u00a0<i>Heimlich<\/i>\u00a0(que, em alem\u00e3o, representa o dom\u00e9stico, o familiar, o \u00edntimo, o lar, a casa em sentido amplo) e\u00a0<i>Unheimlich<\/i>\u00a0(o alheio, l\u00fagubre, sinistro ou inc\u00f4modo de um lar) coincidem em v\u00e1rias das defini\u00e7\u00f5es. \u00c9 a defini\u00e7\u00e3o de Schelling que chama a aten\u00e7\u00e3o de Freud principalmente. Ali, a palavra\u00a0<i>Heimlich<\/i>\u00a0assume ambas dimens\u00f5es: algo relacionado ao familiar, ao lar, mas tamb\u00e9m ao contr\u00e1rio: \u201ctudo o que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que veio \u00e0 tona\u201d (FREUD, 1919\/2019, p. 45). Referindo-se a essa defini\u00e7\u00e3o, Freud assinala que o familiar coincide \u201ccom seu oposto, o infamiliar\u201d (FREUD, 1919\/2019, p. 47-48).<\/p>\n<p>H\u00e1 uma melhor defini\u00e7\u00e3o que a freudiana para explicar o que se sente nestes dias?<\/p>\n<p>O familiar, o caseiro, o lar, tornou-se estranho: encarnamos a voz dos professores de nossos filhos transmitindo (inclusive traduzindo, corrigindo) o dever de casa; nossos parceiros trabalham e fazem\u00a0<i>conference calls<\/i>\u00a0de nossa sala de estar (muito perto de n\u00f3s); instalamos o consult\u00f3rio no nosso quarto<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/dias#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>; vemos nossos rostos ao fazer sess\u00f5es por\u00a0<i>Skype<\/i>\u00a0(rostos que, ao escutar o paciente deitado no div\u00e3, permaneciam ocultos, velados ao nosso pr\u00f3prio olhar); recebemos a toda hora \u201cchamadas em grupo\u201d de amigos estrangeiros que, por causa do v\u00edrus e dessa causa em comum, desejam estar mais pr\u00f3ximos, penetrando em nosso dia a dia familiar, o tempo todo\u2026 Outras coisas habituais e rotineiras se tornaram amea\u00e7adoras, sinistras: sair \u00e0 rua, as compras de supermercado, nas quais borrifamos \u00e1lcool e \u00e1gua, respirar quando estamos fora \u2014 com medo de inalar o v\u00edrus \u2014, etc., etc., etc., etc.<\/p>\n<p>O \u00edntimo tem se tornado um estranho. O estranho penetra em nossa intimidade.<\/p>\n<p>O que a psican\u00e1lise pode oferecer? Al\u00e9m da brilhante e l\u00facida escrita de Freud, que nos serve para pensar o que estamos vivendo, gostaria de ressaltar outro conceito e articul\u00e1-lo com a escuta que um psicanalista poderia oferecer. Diz respeito ao conceito lacaniano de\u00a0<i>extimidade<\/i>. \u00c9 um neologismo de Lacan que Jacques-Alain Miller, em seu curso do mesmo nome, explora ao longo de v\u00e1rias p\u00e1ginas. \u201cExtimidade\u201d, diz-nos Miller, baseia-se na palavra intimidade. Ele usa a descri\u00e7\u00e3o do termo segundo o\u00a0<i>Robert<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/dias#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/i>, que qualifica a intimidade desta maneira: \u201cencanto de um lugar onde se sente em casa, livre do mundo exterior\u201d (MILLER, 2010, p. 15, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Miller localiza: \u201c(\u2026) a extimidade \u00e9, para n\u00f3s, uma fratura constitutiva da intimidade. Colocamos o \u00eaxtimo no lugar onde se espera, se aguarda, onde se acredita reconhecer o mais \u00edntimo. (\u2026) Em seu foro mais \u00edntimo, o sujeito descobre outra coisa. (\u2026) o mais pr\u00f3ximo, o mais interior sem deixar de ser exterior\u201d (2010, p. 17, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>O interessante desse conceito lacaniano \u00e9 que ele n\u00e3o deixa de expor como o interior \u00e9 exterior e vice-versa. Algo interior que aparece no exterior, mas que, por sua vez, n\u00e3o deixa de s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 o momento de escutar como cada sujeito (que vinha falar no consult\u00f3rio, ou, talvez, novas vozes que nos demandem escut\u00e1-las) dar\u00e1 conta do que de seu interior irrompeu no exterior\u2026 de suas pr\u00f3prias casas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Ernesto Anzalone<br \/>\nRevis\u00e3o: Michelle Santos Sena de Oliveira<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1919). \u201dO Infamiliar \/ Das Unheimliche\u201d. In: O infamiliar \/ Das Unheimliche \/ Sigmund Freud; seguido de O Homem da Areia \/ E. T. A. Hoffman (Obras incompletas de Sigmund Freud; 8). Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2019.<br \/>\nMILLER, J.-A. Extimidad. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/dias#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0Texto originalmente publicado em Cr\u00f3nicas XXI, n. 12, Grama Ediciones, em abril de 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/vo.mydplr.com\/a69434b74753925c46ebf32d01f9655e-ce69bbe059e210a75023e795d3e2594b<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/dias#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0Alguns colegas o fizeram na sua varanda. Outros t\u00eam, como \u00fanico lugar \u201c\u00edntimo\u201d, seu carro.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/dias#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Dicion\u00e1rio Sper Editorial.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; MARIANA SCHWARTZMAN Psicanalista. Membro da Escola de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana EOL\/AMP Resumo Esta cr\u00f4nica relaciona a epidemia do coronav\u00edrus e suas consequ\u00eancias na vida cotidiana ao conceito freudiano de infamiliar [Unheimlich] e ao conceito de extimidade, proposto por Jacques-Alain Miller. Esses conceitos s\u00e3o abordados enquanto uma chave de leitura poss\u00edvel do momento atual e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57968,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1648","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-25","category-21","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1648","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1648"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1648\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57969,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1648\/revisions\/57969"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57968"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}