{"id":1656,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1656"},"modified":"2025-12-01T15:44:08","modified_gmt":"2025-12-01T18:44:08","slug":"o-infamiliar-freudiano1-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/o-infamiliar-freudiano1-2\/","title":{"rendered":"O INFAMILIAR FREUDIANO[1]\u00a0[2]\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6><i>MARINA LUSA<\/i><br \/>\nPsicanalista.\u00a0 Membro da Escola da Causa Freudiana &#8211; ECF\/AMP<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>Como se construiu, em Freud, o conceito de Unheimlich? Quais caminhos Freud pega emprestado para apreender esse inapreens\u00edvel que, entretanto, marca nossa experi\u00eancia? O texto prop\u00f5e uma arqueologia desse conceito, assim como o contexto e as refer\u00eancias que Freud trabalhou para fazer emergir, na psican\u00e1lise, o infamiliar, que, por si s\u00f3, faz ressoar o movimento das profundezas com as quais o sujeito se confronta. O estudo de Ernest Jentsch (1906), Schelling e a decifra\u00e7\u00e3o do conto de Hoffmann, \u201cO homem da areia\u201d, s\u00e3o alguns dos pontos que Freud vai com, contra e\/ou al\u00e9m para a investiga\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno angustiante.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Infamiliar; familiar, inconsciente, Freud.<\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong><\/p>\n<p>How was the concept of Unheimlich constructed in Freud? What ways does Freud borrow to apprehend this unapprehensible that, however, marks our experience? The text proposes an archeology of this concept, as well as the context and references that Freud worked to bring out, in psychoanalysis, the infamiliar, which, by itself, resonates the movement of the depths with which the subject is confronted. The study by Ernest Jentsch (1906), Schelling and the deciphering of Hoffmann&#8217;s short story, \u201cThe Sandman\u201d, are some of the points that Freud goes with, against and \/ or beyond to investigate this distressing phenomenon.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Uncanny; familiar, unconscious; Freud<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1657\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11_-_Foto_para_texto_Marina_Lusa_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schall-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"531\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1657\" class=\"wp-image-1657\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11_-_Foto_para_texto_Marina_Lusa_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schall-1.jpg\" alt=\"\" width=\"619\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11_-_Foto_para_texto_Marina_Lusa_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schall-1.jpg 800w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11_-_Foto_para_texto_Marina_Lusa_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schall-1-300x199.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11_-_Foto_para_texto_Marina_Lusa_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schall-1-768x510.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 619px) 100vw, 619px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1657\" class=\"wp-caption-text\">Trajeto I &#8211;\u00a0di\u00e1rio. B\u00e1rbara Schall<\/p><\/div>\n<p>Em maio de 1919, as hostilidades tinham acabado de terminar. Logo ap\u00f3s a guerra, as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia se tornaram muito dif\u00edceis na \u00c1ustria. Mas Sigmund Freud n\u00e3o era homem de reclamar. Para esse trabalhador incans\u00e1vel, o trabalho \u00e9 o melhor rem\u00e9dio contra a inquietude e as contrariedades. Assim, em 12 de maio daquele mesmo ano, escreveu a Ferenczi: \u201cEu n\u00e3o s\u00f3 terminei o projeto de \u2018Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u2019, que ser\u00e1 reproduzido para voc\u00eas, mas tamb\u00e9m retomei esse pequeno nada sobre o \u2019Infamiliar\u2019 e tentei, atrav\u00e9s de uma ideia simples, dar uma base \u0470\u03b1 \u00e0 psicologia das massas\u201d (FREUD\/FERENCZI, 1996, p. 391-392).<\/p>\n<p>Acompanhando Ernest Jones, \u201cesse pequeno nada\u201d \u00e9 um artigo antigo\u00a0encontrado em uma gaveta que Freud decidiu retomar, a fim de preencher suas poucas horas de folga antes de sua partida para Bad Gastein (JONES, 2006, p. 44). \u201c<em>Das Unheimliche<\/em>\u201d, provavelmente redigido entre maio e junho, foi publicado pela primeira vez no outono de 1919, pela revista\u00a0<em>Imago<\/em>. \u201cEnt\u00e3o houve um primeiro projeto\u201d (<em>Ibid<\/em>, p. 451), sugere Jones. O que quer que seja, sabemos somente que essa dimens\u00e3o do infamiliar j\u00e1 preocupava Freud na \u00e9poca em que ele concebeu \u201cTotem e tabu\u201d (1913). A nota adicionada a seu texto de 1919 o mostra bem: \u201cParece que n\u00f3s conferimos o car\u00e1ter de\u00a0<em>Unheimlich<\/em>\u00a0\u00e0s impress\u00f5es que tendem a confirmar toda pot\u00eancia de pensamentos e o modo de pensamento animista em geral, quando j\u00e1 nos afastamos deles no julgamento\u201d.<\/p>\n<p>Por que\u00a0<em>das Unheimliche<\/em>?<\/p>\n<p>Freud avisa o leitor na sua introdu\u00e7\u00e3o: a est\u00e9tica, considerada a \u201cteoria das qualidades da nossa sensibilidade\u201d (<em>Ibid<\/em>, p. 213), n\u00e3o \u00e9 o campo habitual de pesquisa da psican\u00e1lise. Mas, observa Freud, \u00e9 poss\u00edvel fazer com que o psicanalista se interesse por um dom\u00ednio particular da est\u00e9tica, aquele que se situa na abertura negligenciada pela literatura especializada. O\u00a0<em>Unheimliche<\/em>, sublinha ele assim, \u00e9 um desses dom\u00ednios.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XVIII e no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, alguns ep\u00edtetos (<em>eerie<\/em>,\u00a0<em>uncanny<\/em>,\u00a0<em>weird<\/em>) de origem anglo-sax\u00f4nica ou escocesa entram em circula\u00e7\u00e3o na l\u00edngua inglesa. Elas servir\u00e3o para definir esses lugares ou coisas que inspiram uma onda de horror. Em alem\u00e3o, esses ep\u00edtetos s\u00e3o perfeitamente traduzidos pela palavra\u00a0<em>unheimlich\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/infamiliar-freudiano#_edn2\" name=\"_ednref2\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>A esse respeito, reconhecendo a dificuldade de dar uma defini\u00e7\u00e3o precisa da palavra\u00a0<em>unheimlich<\/em>, trata-se, mais frequentemente, de uma aproxima\u00e7\u00e3o com o que provoca a ang\u00fastia em geral. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida de que (o infamiliar) diz respeito ao aterrorizante, ao que suscita ang\u00fastia e horror\u201d (FREUD, 2019, p. 23), explica Freud. O infamiliar \u00e9 um fen\u00f4meno angustiante que n\u00e3o poderia ser confundido com a ang\u00fastia. Dito isso, acrescenta: \u201cpode-se esperar que exista um determinado n\u00facleo espec\u00edfico\u201d que justifique \u201ca utiliza\u00e7\u00e3o de um termo conceitual\u201d (<em>Ibid<\/em>, p. 23) que lhe \u00e9 associado. Para Freud, trata-se, desde ent\u00e3o, de elucidar o que \u00e9 esse \u201cn\u00facleo espec\u00edfico\u201d reenviando, ao seio do que \u00e9 angustiante, esse ponto que se distingue como um estranhamento inquietante<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/infamiliar-freudiano#_edn3\" name=\"_ednref3\">[4]<\/a>. \u00c9 esse ponto obscuro que ele tenta elucidar entregando-se a uma pesquisa psicanal\u00edtica longa e minuciosa, a fim de extrair a verdadeira origem do que provoca o sentimento do infamiliar. Sobre esse tema, constata Freud, n\u00e3o encontramos quase nada nas obras consagradas \u00e0 est\u00e9tica. Essa \u00faltima prefere se ocupar de objetos que provocam os sentimentos belos, atraentes, positivos, em vez daqueles dif\u00edceis, que inspiram uma intensa repulsa. H\u00e1 nisso uma lacuna. Por outro lado, pelo lado da psicologia m\u00e9dica, Freud cita um estudo \u201csubstancial, mas n\u00e3o exaustivo\u201d, lan\u00e7ado em 1906, intitulado \u201cSobre a psicologia do infamiliar\u201d, do psiquiatra alem\u00e3o Ernest Jentsch, ao qual confronta sua pr\u00f3pria teoria. Todo o ensaio de Freud pretende ser uma recusa da tese de Jentsch, que mostra, por assim dizer, uma psicologia descritiva e cognitiva do infamiliar.<\/p>\n<p>Antes de explicitar suas aprecia\u00e7\u00f5es sobre o ensaio de Jentsch, Freud apresenta as duas vias de pesquisa que seguiu para abordar seu estudo de 1919. Primeiramente, a an\u00e1lise lingu\u00edstica do sentido que a evolu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua testemunhou na palavra\u00a0<em>unheimlich<\/em>. Em segundo lugar, a aproxima\u00e7\u00e3o de todos os acontecimentos, experi\u00eancias vividas e situa\u00e7\u00f5es que despertam em n\u00f3s o sentimento do infamiliar, a fim de deduzir da\u00ed o car\u00e1ter comum. Nos dois casos, sublinha ele, o resultado \u00e9 o mesmo. Essa constata\u00e7\u00e3o o leva a dar uma primeira defini\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno: \u201cde que o infamiliar \u00e9 uma esp\u00e9cie do que \u00e9 aterrorizante, que remete ao velho conhecido, h\u00e1 muito \u00edntimo\u201d (FREUD,\u00a0<em>op. cit.<\/em>\u00a0p. 33). O inquietante se destaca \u2014 \u00e9 necess\u00e1rio o cernir \u2014 tendo o familiar como tela de fundo o tempo todo, no qual ele faz furo. De onde vem a quest\u00e3o: em quais condi\u00e7\u00f5es o familiar pode se tornar subitamente t\u00e3o estranho, t\u00e3o inquietante?<\/p>\n<p>Depois de ter lembrado que, na l\u00edngua alem\u00e3,\u00a0<em>heimlich<\/em>\u00a0significa, por vezes, o que faz parte da casa, do familiar, \u00edntimo e secreto, mantido escondido, querendo dissimul\u00e1-lo nos outros, Freud defende que a palavra\u00a0<em>unheimlich<\/em>\u00a0\u00e9 manifestadamente o oposto do\u00a0<em>heimlich<\/em>,\u00a0<em>heimisch<\/em>,\u00a0<em>vertraut<\/em>, na medida em que designa o que n\u00e3o \u00e9 conhecido, o novo. Ou, em seguida a essa l\u00f3gica, seremos tentados a concluir que uma coisa \u00e9 inquietante justamente porque n\u00e3o \u00e9 conhecida nem familiar, escreve Freud. No entanto, a experi\u00eancia o contradiz. Com efeito, nem tudo o que \u00e9 novo, ins\u00f3lito, n\u00e3o familiar \u00e9 assustador ou causa incerteza. Alguma coisa deve necessariamente vir se acrescentar ao novo, ao n\u00e3o-familiar, para que ele se torne infamiliar (FREUD,\u00a0<em>op. cit.<\/em>\u00a0p. 33). O que \u00e9, ent\u00e3o, esse elemento?, interroga-se Freud.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise etimol\u00f3gica do termo\u00a0<em>heimlich<\/em>\u00a0lhe d\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o. Ao final dessa investiga\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, a fronteira entre\u00a0<em>heimlich<\/em>\u00a0e\u00a0<em>unheimlich<\/em>\u00a0se encontra apagada. \u00c9 not\u00e1vel, formula Freud, que a palavra\u00a0<em>heimlich<\/em>, aplicando-se, sobretudo, a isso que \u00e9 familiar, tenha vindo atrav\u00e9s de mudan\u00e7as graduais do uso da linguagem para designar o que pertence \u00e0 esfera estritamente \u00edntima, ao que est\u00e1 escondido, secreto, dissimulado. Em outras palavras, aquilo que \u00e9\u00a0<em>unheimlich<\/em>. A \u201cinquietante estranheza freudiana, sublinha Jacques-Alain Miller, (&#8230;) repousa inteiramente sobre o fato que duas palavras contr\u00e1rias possam querer dizer a mesma coisa:\u00a0<em>Heimlich\/ Unheimilich<\/em>\u201d (MILLER, 1984, s\/p.).<\/p>\n<p><em>Heimlich<\/em>\u00a0e\u00a0<em>unheimilch<\/em>\u00a0s\u00e3o apenas o direito e o avesso de uma s\u00f3 e mesma coisa. Ei-nos informados: o\u00a0<em>heimlich<\/em>\u00a0est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>unheimlich<\/em><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/infamiliar-freudiano#_edn4\" name=\"_ednref4\">[5]<\/a>. Sem integrar o\u00a0<em>heim(lich)<\/em>\u00a0em seu cora\u00e7\u00e3o, parece dif\u00edcil saber a particularidade e a complexidade desse fen\u00f4meno, observa Freud. A esse prop\u00f3sito, ele se depara com uma observa\u00e7\u00e3o de Schelling: seria\u00a0<em>unheimlich<\/em>\u00a0tudo o que deveria permanecer um segredo (<em>Geheim<\/em>), na sombra, e que saiu dali (FREUD, 2019, p. 47). Em uma perspectiva psicanal\u00edtica, e de acordo com a defini\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo,\u00a0<em>das Unheimlich<\/em>\u00a0se manifesta quando um conte\u00fado inconsciente retorna bruscamente \u00e0 consci\u00eancia. Nessa perspectiva, \u201cnada tem realmente de novo ou de estranho, mas \u00e9 algo \u00edntimo \u00e0 vida an\u00edmica desde muito tempo e que foi afastado pelo processo de recalcamento\u201d (FREUD, 2019, p. 85). L\u00e1 onde foi recalcado, isso se manifesta alhures numa linguagem cifrada, em outro registro, o do sintoma. O recalcamento \u00e9 insepar\u00e1vel do \u201cretorno do recalcado\u201d (LACAN, 2018, p. 45). \u00c9 por isso que Freud anuncia que se \u201ctodo afeto de uma mo\u00e7\u00e3o de sentimento, de qualquer esp\u00e9cie, transforma-se em ang\u00fastia por meio do recalque, entre os casos que provocam ang\u00fastia deve haver ent\u00e3o um grupo no qual se mostra que esse angustiante \u00e9 algo recalcado que retorna\u201d (FREUD, 2019, p. 85). O\u00a0<em>Unheimlich<\/em>\u00a0pertenceria, consequentemente, a esse tipo de fen\u00f4meno angustiante, cujo cerne \u00e9 constitu\u00eddo pelo retorno do recalcado. Relacionar o infamiliar[6] com o retorno do recalcado permite a Freud compreender por que o uso lingu\u00edstico faz passar o\u00a0<em>heimlich<\/em>\u00a0para seu contr\u00e1rio, o\u00a0<em>unheimlich<\/em>, dado que a inquietude se sustenta n\u00e3o na natureza de algo que seria inquietante em si, mas em um retorno. Al\u00e9m disso, a rela\u00e7\u00e3o com o recalque d\u00e1 luz a uma nova possibilidade na defini\u00e7\u00e3o de Scheling: o infamiliar seria da ordem do familiar, recalcado \u201cque deveria permanecer oculto, mas que veio \u00e0 tona\u201d (FREUD, 2019, p. 87). Concebido assim, o corol\u00e1rio do infamiliar decorre disso. O prefixo negativo \u201c<em>un<\/em>\u201d da palavra\u00a0<em>unheimlich<\/em>\u00a0nada mais \u00e9 do que a marca do recalcamento do\u00a0<em>heimlich<\/em>. O infamiliar \u00e9 o\u00a0<em>heimlich\/heimisch<\/em>\u00a0que sofreu um recalcamento e retornou. Dito isso, o enigma do infamiliar n\u00e3o est\u00e1, entretanto, decidido por essa delimita\u00e7\u00e3o (FREUD, 2019, p. 95), sublinha Freud.<\/p>\n<p><em>Freud com, contra e al\u00e9m Jentsch<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O texto que Jentsch consagrou, em 1906, ao estudo do infamiliar permitiu a Freud dar um passo suplementar na decifragem e na elabora\u00e7\u00e3o do conceito do\u00a0<em>unheimlich<\/em>. Freud concede a E. Jentsch a pertin\u00eancia de sua cr\u00edtica quanto \u00e0 dificuldade de poder definir um sentimento t\u00e3o dificilmente compreens\u00edvel. Isso pelo fato de que uma mesma impress\u00e3o n\u00e3o exerce necessariamente um efeito infamiliar em cada um. Al\u00e9m disso, sublinha Jentsch, a mesma percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o reveste sempre, ou pelo menos de forma id\u00eantica, uma marca inquietante para um mesmo indiv\u00edduo (JENTSCH, 1998, p. 37).\u00a0<em>Das unheimliche<\/em>\u00a0\u00e9 uma experi\u00eancia precisa, singular.<\/p>\n<p>Assim, sugere Jentsch, para aproximar a ess\u00eancia do infamiliar, \u00e9 prefer\u00edvel, em vez de procurar uma defini\u00e7\u00e3o, examinar como se produz, no n\u00edvel psicol\u00f3gico, a excita\u00e7\u00e3o emocional que esse sentimento subentende. Segundo ele, o homem alimenta afetuosamente uma familiaridade com tudo o que \u00e9 da ordem da tradi\u00e7\u00e3o, do costume ou da heran\u00e7a ancestral. Ao contr\u00e1rio, o novo, o ins\u00f3lito, s\u00e3o percebidos com desconfian\u00e7a, desconforto, e at\u00e9 mesmo com certa hostilidade. \u00c9 compreens\u00edvel, continua ele, que, na associa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica \u201cantigo-conhecido-familiar\u201d (JENTSCH, 1998, p. 46) corresponda a um correlato \u201cnovo-estranho-hostil\u201d (JENTSCH, 1998, p. 47). Nesse \u00faltimo caso, a aus\u00eancia de refer\u00eancia e a falta de dom\u00ednio intelectual podem facilmente se revestir com a nuan\u00e7a do infamiliar. Assim, Jentsch localiza a condi\u00e7\u00e3o essencial da emerg\u00eancia de um sentimento do infamiliar na incerteza intelectual produzida por um desajuste da atividade associativa no indiv\u00edduo. Essa incerteza que retira sua origem de uma impress\u00e3o inquietante faz vacilar os indicadores simb\u00f3licos e imagin\u00e1rios do sujeito provocando o mal-estar e a inquietude. Mas Freud recusa essa interpreta\u00e7\u00e3o geral e se separa radicalmente desse ponto de vista sublinhando o car\u00e1ter parcial dessa explica\u00e7\u00e3o. O infamiliar n\u00e3o \u00e9 equivalente ao que n\u00e3o \u00e9 conhecido, ao n\u00e3o familiar. N\u00e3o se trata de uma falta de refer\u00eancia, e, portanto, de uma altera\u00e7\u00e3o perceptiva. A hip\u00f3tese cognitiva da \u201cincerteza intelectual\u201d (FREUD, 2019, p. 59), como causa essencial e suficiente do\u00a0<em>Unheimlich<\/em>, \u00e9 decididamente pouco convincente para Freud. Ela \u00e9 simplesmente descritiva e passa ao lado do recalcado.<\/p>\n<p>Em meio a todas as incertezas ps\u00edquicas suscept\u00edveis de produzir um efeito incontest\u00e1vel do infamiliar, Jentsch isola um em particular: \u201cTrata-se da impress\u00e3o de que um ser vivo poderia ser um objeto, e inversamente, que um objeto inanimado poderia ter uma alma\u201d (JENTSCH,\u00a0<em>Ibid.,\u00a0<\/em>p. 41). Al\u00e9m disso, indica ele, experimentamos um inc\u00f4modo compar\u00e1vel na presen\u00e7a de loucos ou de pessoas em uma crise epil\u00e9tica, pois todas induzem o expectador \u00e0 d\u00favida que um processo autom\u00e1tico ou mec\u00e2nico poderia se esconder atr\u00e1s da imagem habitual que fazemos da a\u00e7\u00e3o da alma e de suas propriedades (JENTSCH,\u00a0<em>Ibid.,\u00a0<\/em>p. 46). Entretanto, acrescenta ele, \u201clogo que uma explica\u00e7\u00e3o racional da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 dada, essa tonalidade emocional de inquietante estranheza desaparece\u201d (JENTSCH,\u00a0<em>Ibid.,\u00a0<\/em>p. 47). Desse fato, o objeto torna-se familiar e perde facilmente seu aspecto assustador (JENTSCH,\u00a0<em>Ibid.,\u00a0<\/em>p. 42).<\/p>\n<p>Assim, gra\u00e7as ao discurso da raz\u00e3o, seria poss\u00edvel explicar tudo, tudo compreender, tudo controlar. Que seja. Mas, dessa forma, n\u00e3o se leva em conta o inconsciente, que n\u00e3o obedece \u00e0 l\u00f3gica da raz\u00e3o e do bom senso.<\/p>\n<p>Jentsch se refere, ent\u00e3o, ao efeito indiz\u00edvel e desagrad\u00e1vel provocado pelas figuras de cera, das bonecas artificiais ou dos aut\u00f4matos sofisticados sem vida, mas que parecem ser dotados dela. O\u00a0<em>Unheimlich<\/em>\u00a0est\u00e1 aqui ligado a um indecid\u00edvel que se situa entre o animado e o inanimado-mec\u00e2nico.<\/p>\n<p>Essa ambiguidade foi utilizada repetidamente na literatura, a fim de produzir efeitos estranhamente inquietantes. A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, Jentsch se refere a Ernest Theodor Amadeus Hoffmann, notadamente no conto fant\u00e1stico \u201cO Homem da areia\u201d, sem o citar. Freud aprova essa escolha sensata. A seus olhos, esse autor \u00e9 \u201co inigual\u00e1vel mestre do infamiliar na literatura\u201d (FREUD, 2019, p. 67). Por isso, ao mesmo tempo que se afasta da leitura que Jentsch fez de Hoffmann, Freud faz, por sua vez, uma decifra\u00e7\u00e3o da narrativa de Hoffmann que ficar\u00e1 na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Jentsch considera que o sentimento de inquietude no conto de Hoffmann \u00e9 devido \u00e0 incerteza em que ele deixa o leitor quanto ao estatuto de um personagem: trata-se de uma personagem viva ou de um aut\u00f4mato? Assim, Jentsch coloca o elemento determinante do efeito de inquietude na qualidade do aut\u00f4mato da bela, lac\u00f4nica e im\u00f3vel Olympia, quem o professor Spalanzani, no entanto, afirma ter dotado de vida. Se isso se trata de um ponto de partida, o motivo central se localiza alhures, segundo Freud: o sentimento do infamiliar se relaciona diretamente \u00e0 figura do Homem da Areia, \u201cque arranca os olhos das crian\u00e7as\u201d (FREUD, 2019, p. 51), consequentemente, \u201c\u00e0 representa\u00e7\u00e3o de que os olhos devem ser roubados\u201d (FREUD, 2019, p. 59). Uma incerteza intelectual n\u00e3o tem nada a ver com esse efeito de infamiliar (FREUD,\u00a0<em>Ibid<\/em>.). A experi\u00eancia psicanal\u00edtica nos previne que \u201cuma ang\u00fastia assustadora das crian\u00e7as \u00e9 o medo de machucar ou perder os olhos\u201d (FREUD,\u00a0<em>Ibid<\/em>.). O inquietante nesse caso est\u00e1 ligado \u00e0 ang\u00fastia do complexo de castra\u00e7\u00e3o infantil (FREUD, 2019, p. 61).<\/p>\n<p>Por outro lado, sublinha Freud, o efeito de mal-estar suscitado pela narrativa de Hoffmann n\u00e3o se situa tanto no lado do indecid\u00edvel entre o vivente e o aut\u00f4mato, mas sim, e de modo bem mais inquietante, naquilo que encontramos em n\u00f3s mesmos, pela luneta ou telesc\u00f3pio do optometrista demon\u00edaco. \u00c9 algo que nos concerne e que faz vacilar nossas refer\u00eancias colocando em causa o pr\u00f3prio sujeito. Oscila\u00e7\u00e3o, desconforto, infamiliar: n\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o de incerteza intelectual.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o me admiraria ouvir que a psican\u00e1lise, ocupada em descobrir essas for\u00e7as misteriosas, tornou-se, ela mesma, infamiliar para muitas pessoas\u201d (FREUD, 2019, p. 91), escreveu Freud.<\/p>\n<p>O inconsciente \u00e9, com efeito, a no\u00e7\u00e3o mais perturbadora, mais subversiva aparecida no dom\u00ednio do pensamento. A inven\u00e7\u00e3o freudiana guarda sempre sua dimens\u00e3o perturbadora e revela ao homem algo que ele n\u00e3o deseja saber. O infamiliar \u00e9 o pr\u00f3prio inconsciente.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Luciana Silviano Brand\u00e3o<br \/>\nRevis\u00e3o: Let\u00edcia Soares<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>BORGES, J. L.\u00a0<strong>Neuf essais sur Dante<\/strong>, Paris: Gallimard, 1987, p. 81.<\/h6>\n<h6>FREUD, S.\/FERENCZI S.\u00a0<strong>Correspondance<\/strong>\u00a01914\/1919. Paris: Calmann-L\u00e9vy, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S.\u00a0<strong>O infamiliar<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Belo Horizonte: Editora Aut\u00eantica, 2019.<\/h6>\n<h6>JENTSCH E. \u201c\u00c0 prop\u00f4s de l\u2019inqui\u00e9tant \u00e9tranget\u00e9\u201d. (trad. para o franc\u00eas de Frank Felgentreu e Pascal Le Mal\u00e9fan). In:<strong>\u00a0\u00c9tudes psychoth\u00e9rapeutiques<\/strong>, n\u00ba 17, jan. 1998. p. 37.<\/h6>\n<h6>JONES E. &#8220;Les derni\u00e8res ann\u00e9s 1919-1939&#8221;, t. III.\u00a0<strong>La vie et l\u00b4oeuvre de Sigmund Freud<\/strong>. Paris: PUF, 2006.<\/h6>\n<h6>MILLER J-A., \u201cL\u2019orientacion lacanienne. Des r\u00e9ponses du reel\u201d, aula proferida no departamento de psican\u00e1lise da Universidade de Paris VIII. jan. 1984, in\u00e9dito.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>[1] Texto originalmente publicado em La Cause du D\u00e9sir, n\u00ba 102, jun. 2019. p. 71-77.<\/h6>\n<h6>[2] Em franc\u00eas, \u201cinfamiliar\u201d \u00e9 traduzido como \u201cinquietante estranheza\u201d.<\/h6>\n<h6>[3] Cf. BORGES, 1987, p. 81.<\/h6>\n<h6>[4] NT: A autora inverte aqui a express\u00e3o utilizada para traduzir o infamiliar (inquietante estranheza) por estranheza inquietante.<\/h6>\n<h6>[5] Cf. FREUD. op. cit. p. 221-223. \u201c\u00e9 o fato de que a palavrinha \u2018familiar\u2019 [heimlich] entre as diversas nuances no seu significado, tamb\u00e9m aponta coincidente com seu oposto \u2018infamiliar\u2019 [unheimlich]. [&#8230;] de tal modo que heimlich assume o sentido que normalmente tem unheimlich [&#8230;] Em suma, familiar [heimlich] \u00e9 uma palavra cujo significado se desenvolveu segundo uma ambival\u00eancia, at\u00e9 se fundir, enfim, com seu oposto, o infamiliar [unheimlich]. Infamiliar \u00e9, de certa forma, um tipo de familiar.<\/h6>\n<h6>[6] NT: No original em franc\u00eas foi usada a express\u00e3o \u201cestranhamente inquietante\u201d, mas preferimos utilizar o \u201cinfamiliar\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARINA LUSA Psicanalista.\u00a0 Membro da Escola da Causa Freudiana &#8211; ECF\/AMP Resumo Como se construiu, em Freud, o conceito de Unheimlich? Quais caminhos Freud pega emprestado para apreender esse inapreens\u00edvel que, entretanto, marca nossa experi\u00eancia? 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