{"id":1661,"date":"2020-03-19T06:39:44","date_gmt":"2020-03-19T09:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=1661"},"modified":"2025-12-01T15:44:39","modified_gmt":"2025-12-01T18:44:39","slug":"bartleby-o-real1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2020\/03\/19\/bartleby-o-real1\/","title":{"rendered":"BARTLEBY, O REAL[1]"},"content":{"rendered":"<h6><i>GUSTAVO DESSAL<\/i><br \/>\nPsicanalista, membro da Escola Lacaniana de Psican\u00e1lise. ELP\/AMP<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo<br \/>\n<\/strong>O autor se apoia no conto \u201cBartleby, o escriv\u00e3o\u201d, de H. Melville, para desenvolver a no\u00e7\u00e3o de estranho a partir da singularidade do personagem principal e indica como a presen\u00e7a dessa opacidade real participa de toda a exist\u00eancia e da pr\u00f3pria humanidade. Sua an\u00e1lise \u00e9 dividida em tr\u00eas tempos e perspectivas \u2014 ironia, dimens\u00e3o \u00e9tica e trag\u00e9dia \u2014 e destaca a posi\u00e7\u00e3o subjetiva de Bartleby frente ao la\u00e7o social. Bartleby representa esse real exclu\u00eddo da dimens\u00e3o simb\u00f3lica, que n\u00e3o cessa de se escrever, n\u00e3o sem consequ\u00eancias, e, ironicamente, exp\u00f5e a inutilidade essencial da exist\u00eancia e sua condi\u00e7\u00e3o de semelhan\u00e7a que afeta a todos.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>real, estranho, exist\u00eancia, la\u00e7o social.<\/p>\n<p><strong>Bartleby, the real<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The author relies on the tale Bartleby, the scrivener of H. Melville, to develop the notion of stranger based on the singularity of the main character and indicates how the presence of this real opacity participates in all existence and in humanity itself. His analysis is divided into three times and perspectives \u2014 irony, ethical dimension and tragedy \u2014 highlighting Bartleby&#8217;s subjective position in relation to the social bond. Bartleby represents this real excluded from the symbolic dimension, which never ceases to be written, not without consequences, and ironically exposes the essential uselessness of existence and its condition of similarity that affects everyone<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>real, strange, existence, social bond.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1662\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/22_-_Foto_para_texto_Gustavo_Dessal_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schalll.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"800\" data-large_image_height=\"531\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1662\" class=\"wp-image-1662\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/22_-_Foto_para_texto_Gustavo_Dessal_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schalll.jpg\" alt=\"\" width=\"684\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/22_-_Foto_para_texto_Gustavo_Dessal_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schalll.jpg 800w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/22_-_Foto_para_texto_Gustavo_Dessal_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schalll-300x199.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/22_-_Foto_para_texto_Gustavo_Dessal_-_Trajeto_I_-_Barbara_Schalll-768x510.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 684px) 100vw, 684px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1662\" class=\"wp-caption-text\">Trajeto I &#8211;\u00a0di\u00e1rio. B\u00e1rbara Schall<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Ele preferiria n\u00e3o\u2026 e sua resposta enigm\u00e1tica e famosa \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es do advogado que o emprega estava sujeita a todo furor interpretativo. Mas quem \u00e9 verdadeiramente Bartleby, o escriv\u00e3o que assombra o novo ep\u00f4nimo de Melville? E ele simplesmente n\u00e3o seria nosso semelhante, nosso inquietante irm\u00e3o de melancolia?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>No estilo lac\u00f4nico e l\u00edmpido que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, Jorge Lu\u00eds Borges finaliza o pref\u00e1cio de sua tradu\u00e7\u00e3o de \u201cBartleby, o escriv\u00e3o\u201d com uma frase que revela o segredo do texto: \u201c\u2019Bartleby\u2019 \u00e9 mais do que um artif\u00edcio ou um \u00f3cio da imagina\u00e7\u00e3o on\u00edrica; \u00e9, fundamentalmente, um livro triste e verdadeiro que nos mostra essa inutilidade essencial, que \u00e9 uma das ironias cotidianas do universo\u201d (BORGES, 2009, s\/p.).<\/p>\n<p><em>Inutilidade<\/em>: aqui est\u00e1 a palavra-chave, um dos nomes pr\u00f3prios da exist\u00eancia. Borges sublinha que ela \u00e9 essencial para que n\u00e3o percamos de vista que a inutilidade n\u00e3o \u00e9 contingente, sen\u00e3o necess\u00e1ria, no sentido aristot\u00e9lico do termo: n\u00e3o pode n\u00e3o ser. N\u00e3o se trata mais, para Borges, de fazer desse romance a ilustra\u00e7\u00e3o da loucura ou do capricho de um indiv\u00edduo perturbado; ele se encarrega de apresentar a inutilidade como uma ironia cotidiana \u2014 bem longe de uma excentricidade estranha \u00e0 nossa experi\u00eancia cotidiana, ela \u00e9 consubstancial \u00e0 pr\u00f3pria vida. Preferir\u00edamos n\u00e3o ter de admitir, preferir\u00edamos acreditar que Bartleby \u00e9 um esp\u00e9cime particular, uma exce\u00e7\u00e3o \u00e0s leis razo\u00e1veis do universo, mas Borges insiste: o universo n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel, mas ir\u00f4nico.<\/p>\n<p>A magnitude dessa obra na literatura \u00e9 inversamente proporcional ao seu tamanho. A natureza caleidosc\u00f3pica da hist\u00f3ria suscitou milhares de coment\u00e1rios e de interpreta\u00e7\u00f5es para cada uma de suas p\u00e1ginas. Qualquer conceito filos\u00f3fico pode encontrar um lugar latente ou manifesto em um canto do texto. Como o pr\u00f3prio Melville o subentende na conclus\u00e3o de seu livro, a pr\u00f3pria humanidade \u00e9 a protagonista dessa hist\u00f3ria. Ter conseguido lhe dar lugar em t\u00e3o poucas p\u00e1ginas \u00e9, sem nenhuma d\u00favida, um feito liter\u00e1rio insuper\u00e1vel.<\/p>\n<p><em>Ironia\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Desde as primeiras frases, a ironia est\u00e1 l\u00e1. \u201cSou um homem que desde a juventude sempre teve a mais firme convic\u00e7\u00e3o de que a forma de vida mais f\u00e1cil \u00e9 a melhor\u201d (MELVILLE, 2007, p. 14). Sobre essa \u201cfirme convic\u00e7\u00e3o\u201d, Melville \u2014 para sublinhar a estranha conviv\u00eancia que um sujeito pode manter com suas contradi\u00e7\u00f5es mais absurdas \u2014 nota que ser um advogado de Wall Street n\u00e3o era a melhor maneira de alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>A singularidade de Turkey e Nippers, apelidos dos dois outros empregados copistas do escrit\u00f3rio, pode se misturar na ordem geral. Extravagantes, cada um \u00e0 sua maneira, mut\u00e1veis e um pouco loucos, eles encarnam uma excentricidade admiss\u00edvel e permitida a todos. N\u00e3o comprometendo o bom-senso, nem mesmo abandonando por um instante os limites do previs\u00edvel, sua originalidade acaba por despertar a simpatia. Algumas qualidades de observa\u00e7\u00e3o bastam ao narrador e, por consequ\u00eancia, ao leitor, para se familiarizar com esses personagens. \u201cEm suma, a verdade \u00e9 que Nippers n\u00e3o sabia o que queria\u201d (MELVILLE, 2007, p.20-21), conclui seu chefe, em uma s\u00edntese fechada ao que \u00e9 pr\u00f3prio do sujeito ordin\u00e1rio: n\u00e3o saber o que ele quer. Herdeiros do coro grego, representantes da doxa, da opini\u00e3o fundada sobre o significante comum das coisas, Turkey e Nippers, bem como Ginger Nut, se encontram convocados duas vezes pelo narrador, que se refere a eles enquanto testemunhas e fiadores da opini\u00e3o justa no momento em que ele teme que sua a\u00e7\u00e3o e sua consci\u00eancia se enfrentem em um combate embara\u00e7oso. Pois, o narrador quer compreender, pelo recurso \u00e0 sensatez, a opacidade que surgiu no centro de sua realidade com Bartleby. Para ele, a compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um simples reflexo da raz\u00e3o, mas a extens\u00e3o do bem e da consci\u00eancia moral. Ele se questiona sobre o bem: at\u00e9 que ponto podemos exerc\u00ea-lo sem pretender querer nada em troca? O altru\u00edsmo \u00e9 um ingrediente da natureza do bem? E como podemos ter certeza que seu exerc\u00edcio \u00e9 realizado em benef\u00edcio de nosso pr\u00f3ximo?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Num dia de inverno, presenteei Turkey com um antigo casaco muito respeit\u00e1vel de minha propriedade, cinza, forrado e quente, com bot\u00f5es do joelho ao pesco\u00e7o[&#8230;]. Achei que Turkey gostaria desse presente [&#8230;]. Mas n\u00e3o. Creio que o fato de abotoar aquele casaco quente e confort\u00e1vel de cima a baixo teve um efeito pernicioso sobre ele [&#8230;]. Era um homem a quem a prosperidade fazia mal\u201d (MELVILLE, 2007, p. 22).<\/p>\n<p>Essa observa\u00e7\u00e3o ressoa com a profunda obje\u00e7\u00e3o levantada por Freud, contra o mandamento de amar seu pr\u00f3ximo como a si mesmo. Quem \u00e9 nosso pr\u00f3ximo, sen\u00e3o o n\u00facleo de n\u00f3s mesmos, de quem n\u00e3o ousamos nos aproximar? Como S\u00e3o Martinho, esse advogado que, querendo partilhar seu manto com seu pr\u00f3ximo, verifica imediatamente os efeitos paradoxais de seu ato.<\/p>\n<p><em>Dimens\u00e3o \u00e9tica\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u201cBartleby\u201d \u00e9, sem d\u00favida alguma, uma reflex\u00e3o sobre a dimens\u00e3o \u00e9tica da vida. Borges, como outros autores e cr\u00edticos, viu na hist\u00f3ria de Melville uma prefigura\u00e7\u00e3o das intui\u00e7\u00f5es de Kafka, o grande profeta do absurdo, o radiologista do insensato primordial da exist\u00eancia. Melville antecipa Kafka com a apresenta\u00e7\u00e3o devastadora da modernidade como cataclismo do ser.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 Bartleby?\u00a0<em>O que \u00e9\u00a0<\/em>Bartleby? Para analis\u00e1-lo, conv\u00e9m introduzir o artif\u00edcio de uma divis\u00e3o entre o ponto de vista do narrador e a perspectiva da estranha criatura que, um belo dia, penetra no pequeno mundo do escrit\u00f3rio de advocacia. Bartleby n\u00e3o tem origem nem destino, n\u00e3o possui hist\u00f3ria e n\u00e3o emite as m\u00ednimas afirma\u00e7\u00f5es. Ele n\u00e3o tem modelos, ra\u00edzes nem lugar. Ele se situa na exist\u00eancia como um ser em si. Sua solid\u00e3o nua, sua absoluta nudez subjetiva, porta o reflexo dessa incur\u00e1vel ang\u00fastia que marca a condi\u00e7\u00e3o humana. Sua trag\u00e9dia, aquela que o g\u00eanio de Melville conduzir\u00e1 at\u00e9 a met\u00e1fora do \u201cDepartamento de Cartas Devolvidas\u201d (MELVILLE, 2017, p. 77)<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bartleby#_edn1\" name=\"_ednref1\">[2]<\/a>, \u00e9 aquela de se saber condenado antecipadamente ao sil\u00eancio do Outro, \u00e0 n\u00e3o resposta, \u00e0 fatalidade do vazio no qual se precipita todo pedido de ajuda, \u00e0 carta que nunca chega ao seu destino. E se a cadeia da demanda \u00e9, para esse homem, quebrada desde o princ\u00edpio, como ele poderia consentir ao apelo do Outro? De onde a c\u00e9lebre f\u00f3rmula incur\u00e1vel \u2014 \u201cEu preferiria n\u00e3o\u201d \u2014, figura de uma repeti\u00e7\u00e3o que, longe de se erigir como uma vontade de rebeli\u00e3o, desnuda a confiss\u00e3o de uma derrota origin\u00e1ria. Bartleby n\u00e3o desafia nada nem ningu\u00e9m. Sua obstina\u00e7\u00e3o, seu negativismo, n\u00e3o s\u00e3o a afirma\u00e7\u00e3o de qualquer desafio; o uso da condicional \u00e9 deliberadamente posto l\u00e1 para enfatizar a fragilidade de sua enuncia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de uma prefer\u00eancia, nem de uma escolha, nem de uma forma de oposi\u00e7\u00e3o. Sua f\u00f3rmula \u00e9 aquela de algu\u00e9m que, desconectado de todo la\u00e7o humano, resiste, ainda, \u00e0 queda final, agarrando-se \u00e0 vida como um inseto em um galho. \u00c9 escrevendo que ele resiste. Uma escrita, incessante e mec\u00e2nica, que copia sem reclama\u00e7\u00e3o. Dedica-se a essa escrita de maneira absoluta, recusando a parte coletiva de sua tarefa, recusando-se a ingressar na comunidade dos homens, pois isso implicaria uma dial\u00e9tica, uma negocia\u00e7\u00e3o para a qual ele n\u00e3o foi feito. Bartleby s\u00f3 pode se sustentar com essa escrita mec\u00e2nica de escriv\u00e3o, paradigma de uma solid\u00e3o morta, como aquelas cartas rejeitadas que ningu\u00e9m receber\u00e1 jamais. Ele n\u00e3o \u00e9 escritor, mas copista. N\u00e3o h\u00e1 pensamento, fantasia ou a\u00e7\u00e3o criadora nele. Interromp\u00ea-lo na in\u00e9rcia mec\u00e2nica de sua tarefa \u00e9 empurr\u00e1-lo em dire\u00e7\u00e3o ao precip\u00edcio, ao nada abissal. Por consequ\u00eancia, sua \u00fanica possibilidade \u00e9 resistir:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Ora, num domingo de manh\u00e3, fui \u00e0 igreja de Trinity, para escutar um pregador famoso, e, encontrando-me na rua um pouco antes da hora, pensei em ir at\u00e9 meu escrit\u00f3rio. Por sorte, tinha minha chave comigo; mas, ao coloc\u00e1-la na fechadura, encontrei resist\u00eancia do outro lado\u201d (MELVILLE, 2007, p. 39-40).<\/p>\n<p>A fechadura, o real que resiste, \u00e9, obviamente, a meton\u00edmia do impenetr\u00e1vel Bartleby.<\/p>\n<p><em>Trag\u00e9dia<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nesse ponto crucial que a narrativa opera uma reviravolta da perplexidade inicial para a trag\u00e9dia do desfecho. Podemos, ent\u00e3o, nos colocar no lugar do narrador, que, de prontid\u00e3o, experimenta o surgimento dessa presen\u00e7a vinda para perturbar sua aspira\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do prazer, sua inclina\u00e7\u00e3o para seguir o que lhe serve de m\u00e1xima \u2014 \u201ca melhor maneira de viver \u00e9 a de preocupar-se t\u00e3o pouco quanto poss\u00edvel\u201d (MELVILLE, 2007, p. 14). O estilo de Melville n\u00e3o \u00e9 a forma fant\u00e1stica de Maupassant, que, com seu\u00a0<em>Horla<\/em>, testemunha o surgimento no mundo familiar de algo que se apresenta como uma estranheza radical. Em Bartleby, nada de m\u00e1gico. A presen\u00e7a de outra coisa veio virar do avesso a realidade, mas \u00e9 uma presen\u00e7a permanente, que n\u00e3o se move, n\u00e3o se ausenta, nunca abandona seu lugar. Bartleby, o real, se encontra eternamente em si, como o exprime o narrador em seu mon\u00f3logo interior: \u201cele estava sempre ali\u201d (MELVILLE, 2007, p. 38).<\/p>\n<p>\u201cPara um ser sens\u00edvel, a piedade \u00e9 quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade n\u00e3o significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela\u201d (MELVILLE, 2007, p. 45). O que \u00e9 surpreendente n\u00e3o \u00e9 apenas a f\u00f3rmula de Bartleby, mas o fato de que sua presen\u00e7a irrevog\u00e1vel produz uma esp\u00e9cie de campo magn\u00e9tico, um espa\u00e7o intransit\u00e1vel, um limite sagrado que o advogado n\u00e3o ousa ultrapassar. Ao narrador n\u00e3o falta l\u00f3gica nem a piedosa compaix\u00e3o da qual certas almas s\u00e3o capazes diante da mis\u00e9ria humana. No entanto, n\u00e3o s\u00e3o seus argumentos, nem sua sede de compreens\u00e3o, nem seu senso de miseric\u00f3rdia que o det\u00eam e o incapacitam de cruzar o limite que cerca essa\u00a0<em>outra coisa<\/em>. \u201cMas havia algo em Bartleby que n\u00e3o apenas me desarmava, como tamb\u00e9m me comoveu e desconcertou, de maneira assombrosa\u201d (MELVILLE, 2007, p. 30). Como Hamlet, o advogado adia seu ato. Ele adia o problema para outro dia, \u00e9 novamente a urg\u00eancia do cotidiano que se imp\u00f5e e atrasa a decis\u00e3o de dar o passo. N\u00e3o obstante, quer ele saiba disso, quer n\u00e3o, sua vida j\u00e1 \u00e9 governada pela dist\u00e2ncia dessa\u00a0<em>coisa<\/em>\u00a0que ele deve regular. \u00c0s vezes lhe acontece de esquecer sua firme inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o a incomodar, de n\u00e3o perturb\u00e1-la, de n\u00e3o assedi\u00e1-la, para lhe permitir existir fora do sentido. Na experi\u00eancia de subjetiva\u00e7\u00e3o do mundo, e daqueles que est\u00e3o \u00e0 nossa volta, ocorre irremediavelmente uma divis\u00e3o: uma parte se torna acess\u00edvel \u00e0 luz da representa\u00e7\u00e3o e do pensamento enquanto outra permanece subtra\u00edda do nosso reconhecimento, constituindo-se a partir da\u00ed em alteridade absoluta, fora da dimens\u00e3o simb\u00f3lica, relutante \u00e0s exig\u00eancias do princ\u00edpio do prazer. No cerne do que pensamos entender, permanece um n\u00facleo irredut\u00edvel \u00e0 fala, \u00e0 raz\u00e3o, ao significado, \u00e0 consci\u00eancia, ao bem e a tudo o que usamos para expressar a ilus\u00e3o de que a realidade \u00e9 transparente a si mesma.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, esse corp\u00fasculo \u00edntimo e enigm\u00e1tico tamb\u00e9m nos pertence, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil abord\u00e1-lo: \u201cApesar de ofendido pelo seu comportamento e resolvido a demiti-lo quando chegasse ao meu escrit\u00f3rio, sentia uma esp\u00e9cie de agouro invadindo o meu cora\u00e7\u00e3o, que me impedia de cumprir o meu prop\u00f3sito\u201d (MELVILLE, 2007, p. 47).<\/p>\n<p>Por que o narrador protege Bartleby? Por que ele o defende, mesmo contra o ataque de seus outros funcion\u00e1rios, que n\u00e3o hesitariam em lhe dar um tapa e expuls\u00e1-lo a pontap\u00e9s? O advogado n\u00e3o \u00e9 simplesmente um homem que\u00a0<em>preferiria\u00a0<\/em>evitar as complica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e morais de uma demiss\u00e3o. Sua prud\u00eancia incompreens\u00edvel obedeceu ao fato de que ele sentia que a exist\u00eancia de Bartleby n\u00e3o lhe era completamente estranha. Faltou a ele apenas descobrir que essa criatura vivia dentro do seu escrit\u00f3rio. \u00c9 a partir desse momento que a hist\u00f3ria assume uma pot\u00eancia inesperada. At\u00e9 ent\u00e3o, est\u00e1vamos quase \u00e0 beira da com\u00e9dia. Melville precisaria de alguns toques de estilo para converter essa primeira parte em uma pe\u00e7a burlesca. Mas isso tomar\u00e1 outro rumo, pois a descoberta da manh\u00e3 de domingo \u00e9 o que nunca deveria ter acontecido para que tudo pudesse continuar no mesmo tom de ligeira excentricidade. Essa dist\u00e2ncia, essa manuten\u00e7\u00e3o de uma barreira proibida que garantiu a estabilidade do casal formado pelo narrador e Bartleby, ir\u00e1 se decompor. O advogado ent\u00e3o obedecer\u00e1 ao primeiro e \u00fanico pedido que Bartleby lhe dirige, o de fazer alguns passeios pelo bairro e voltar mais tarde.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Ora, a presen\u00e7a absolutamente inesperada de Bartleby, num domingo de manh\u00e3, no meu escrit\u00f3rio, com sua cadav\u00e9rica e elegante\u00a0<em>nonchalance<\/em>, mas ao mesmo tempo firme e segura, teve um efeito t\u00e3o estranho sobre mim que de pronto me retirei da minha pr\u00f3pria porta, fazendo o que ele queria\u201d (MELVILLE, 2007, p. 40).<\/p>\n<p>A partir desse momento, muita luminosidade foi introduzida na sagrada intimidade de Bartleby. \u00c9 tarde demais para evitar o desencadeamento de uma extraordin\u00e1ria invers\u00e3o especular. N\u00e3o apenas o narrador n\u00e3o ser\u00e1 capaz de expulsar Bartleby de seu dom\u00ednio, mas \u00e9 ele pr\u00f3prio quem se tornar\u00e1 o expulso \u2014 \u201cfoi aqui que Bartleby se estabeleceu\u201d (MELVILLE, 2007, p. 42), descobre surpreso nosso narrador. Ent\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">[&#8230;] pela primeira vez na minha vida fui invadido por um sentimento opressivo e angustiante de melancolia. Antes havia apenas tristeza, mas nada t\u00e3o desagrad\u00e1vel. Uma obriga\u00e7\u00e3o moral levava-me \u00e0 depress\u00e3o. Uma melancolia fraternal! (MELVILLE, 2007, p. 42).<\/p>\n<p>O estranho, o estrangeiro, essa\u00a0<em>outra coisa<\/em>\u00a0insond\u00e1vel e incr\u00edvel, revelou ser uma parte do meu pr\u00f3prio ser ignorado. \u00c9 por essa raz\u00e3o que o narrador \u2014 o \u00fanico cujo nome n\u00e3o sabemos \u2014, apesar de sua fuga, nunca se afastar\u00e1 de Bartleby.<\/p>\n<p>O que se segue, a morte de Bartleby, nada mais \u00e9 do que a consequ\u00eancia l\u00f3gica do que acontece quando a fatalidade ou o excesso de compreens\u00e3o profanam os limites do sagrado. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual algo do enigma de Bartleby n\u00e3o cessa de nos acompanhar: porque conv\u00e9m nunca resolver completamente seu mist\u00e9rio e nos contentarmos em aceitar essa ironia do universo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Fayga Paim e Tereza Facury<br \/>\nRevis\u00e3o: Michelle Santos Sena de Oliveira<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>BORGES, J. L., \u201cPr\u00f3logo\u201d, In: MELVILLE, H.,\u00a0<strong>Bartleby, el escribiente<\/strong>, pref\u00e1cio e tradu\u00e7\u00e3o em espanhol de Jorge Luis Borges. Barcelona: Siruela, 2009.<br \/>\nMELVILLE, H. (1853)\u00a0<strong>Bartleby, o escriv\u00e3o<\/strong>. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio Editora, 2007.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bartleby#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto originalmente publicado em\u00a0<em>La Cause du D\u00e9sir<\/em>, n\u00ba 102, jun. 2019. p. 141-146.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/bartleby#_ednref1\" name=\"_edn1\">[2]<\/a>\u00a0\u201cDead Letter Office, no original Literalmente, Departamento de Cartas Mortas. (N. da E.)\u201d (MELVILLE, 2007, p.77)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GUSTAVO DESSAL Psicanalista, membro da Escola Lacaniana de Psican\u00e1lise. ELP\/AMP Resumo O autor se apoia no conto \u201cBartleby, o escriv\u00e3o\u201d, de H. Melville, para desenvolver a no\u00e7\u00e3o de estranho a partir da singularidade do personagem principal e indica como a presen\u00e7a dessa opacidade real participa de toda a exist\u00eancia e da pr\u00f3pria humanidade. Sua an\u00e1lise&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57974,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1661","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-25","category-21","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1661"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57975,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1661\/revisions\/57975"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57974"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}